Invenção da melancolia

Da Natureza dos Deuses
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 574
ISBN: 978-972-20-5846-9
Ano de publicação: 2015

Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.
A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.
No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).
Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.
Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).
A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Da Natureza dos Deuses, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por José Mário Silva
Terra Negra, de Timothy Snyder (Bertrand), por Luís M. Faria
Viagens à Ficção Hispano-Americana, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
O Dicionário do Menino Andersen, de Gonçalo M. Tavares e Madalena Matoso (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
Histórias de Aventureiros e Patifes, organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Um Cisne Selvagem e outros contos, de Michael Cunningham (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
O Pobre de Pedir, de Raul Brandão (Chão da Feira), por Pedro Mexia
Uma Sombra Laranja-Tigre, de Afonso de Melo (Âncora), por José Mário Silva
O Nascimento da Arte, de Georges Bataille (Sistema Solar), por Alexandra Carita
Os Caçadores de Livros, de Raphael Jerusalmy (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
Roturas e Ligamentos, de Rita Taborda Duarte e André da Loba (Abysmo), por José Mário Silva
Animais e Companhia na História de Portugal, de Isabel Drummond Braga e Paulo Drummond Braga (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria

Biblioteca de Bolso, #3

Entre a fictícia Tonia Buddenbrook, por quem se apaixonou perdidamente aos 14 anos, e a Sophia de carne e osso, poeta luminosa que um dia o fez parar as máquinas da gráfica para melhorar um poema, Zeferino Coelho fala de livros que o marcaram. Vale a pena ouvir a sua voz grave, a sua discreta sabedoria, o seu entusiasmo que guarda uma pureza quase juvenil.
Para ouvir aqui.

‘El Otro’

Aquele banco

Caminhámos pela margem do Ródano, águas tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no leito do rio, à procura daquele banco que tanto me fascinou ao ler o primeiro conto d’O Livro de Areia (conferir aqui). Intitulado O outro, o conto narra o encontro de um Borges quase septuagenário, sentado nas margens do rio Charles, em Cambridge (perto de Boston), com o mesmo Borges no fim da adolescência, em Genebra. Como é óbvio, não encontrei o tal banco que está em dois lugares e em dois tempos diferentes, num como sonho, noutro como recordação. Limitei-me a contemplar as águas do Ródano, vindas do lago Léman, tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no seu leito.

Visitar Borges (em Genebra)

Uns minutos em silêncio (ali perto, dois cães corriam; nenhuma presença humana para além de nós). Agradeci-lhe o génio, a grandeza literária, a perfeição da sua escrita. Viemos embora, longas sombras projectadas pela luz rasante.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Amigo Comum, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
O Peso da Sombra, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Obras-primas dos Biombos Nanban, de Alexandra Curvelo (Chandeigne), por Manuela Goucha Soares
A Juventude, de Paolo Sorrentino (Jacarandá), por José Mário Silva
O Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera (D. Quixote), por José Guardado Moreira
Milagreiro, de André Oliveira e vários ilustradores (Polvo), por José Mário Silva
O Cavaleiro Sueco, de Leo Perutz (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Teaser

O convidado da próxima semana, no Biblioteca de Bolso, é um dos mais respeitados editores portugueses. Aos 14 anos, apaixonou-se por uma personagem de Thomas Mann e essa paixão não se desvaneceu com os anos, mesmo depois de ter visitado uma praia do Mar Báltico, em busca da sua sombra, só para descobrir que há sempre um abismo entre a realidade dos livros e a realidade «real».

(Como marcador da sua edição francesa de Os Buddenbrook, o nosso convidado usa um postal com o retrato de uma mulher de Lübeck, fotografado em data incerta. Não é Tonia, a rapariga que sacrificou a sua vida no altar de uma família em declínio, mas podia ser.)

Um ‘site’ para Jaime Ramos

No momento em que Francisco José Viegas reúne alguns contos dispersos do seu carismático inspector (A Poeira que cai sobre a terra e outras histórias de Jaime Ramos, Porto Editora), é lançado um site só sobre esse inconfundível homem do Norte. Uma ideia original e inédita, creio, pelo menos em Portugal.
Os lugares por onde J.R. gosta de circular, as afinidades, os vícios, as palavras que o definem ou que ele definiu, as receitas do gastrónomo – eis algumas das secções deste work in progress que vale a pena ir acompanhando.

Dentro do quarto amarelo

O Papel de Parede Amarelo
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: Fyodor Books
Título original: The Yellow Wallpaper
Tradução: José Manuel Lopes
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-691-444-8
Ano de publicação: 2015

Escrito em 1890, quando a autora ainda não completara 30 anos, este conto andou muitos anos perdido em antologias de literatura de terror, só sendo recuperado do esquecimento na década de 70, quando começa a ser visto, enfim, como aquilo que é: um grito simbólico contra a dominação masculina exercida sobre as mulheres. Coerente, de resto, com o percurso intelectual de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), uma das precursoras do feminismo americano, ao escrever ensaios em que defendia reformas sociais tendentes a uma efectiva igualdade entre os sexos.
Inspirado na experiência da autora, que sofreu uma crise de neurastenia nos meses seguintes ao nascimento da filha, O Papel de Parede Amarelo é o relato de uma depressão pós-parto. A narradora, forçada a um regime de repouso absoluto pelo marido, um médico rígido e controlador, escreve às escondidas e vai lamentando o deserto de estímulos a que está reduzida. O sufoco da vida doméstica conduz a um estado de sofrimento que a família desvaloriza por não apresentar manifestações físicas, só psíquicas.
Enquanto a diligente cunhada trata do bebé, ela passa o tempo na cama, a contemplar obsessivamente os horríveis padrões geométricos do papel de parede que reveste o quarto: «se nos demorarmos a percorrer as suas irregulares e imperfeitas curvas, repararemos que de repente se suicidam – afundam-se em excêntricos ângulos». No papel de parede, transformado em espelho, dá-se então o movimento de libertação. A narradora começa por pressentir uma figura feminina a rastejar por trás do padrão, a abaná-lo, «como se quisesse sair». Um fantasma abstracto? Um reflexo de si mesma? O que perdura deste conto é a assombrosa resposta a estas perguntas que chega nos parágrafos finais.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Três poemas de Rita Natálio

ARTESANATO

No âmago do âmago não há âmago
assim como no âmago do amo não há amo
disse o amo enquanto cuidava dos nervos das suas
plantas filosóficas.

***

START UP

Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.

Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.

Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.

Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.

A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

***

NOVE SEMANAS E MEIA

(para deleuze)

Deleuze, teu sapato era de nuvem
a tua língua o beco
em que aprendi a dizer
não volto mais aqui
não vejo mais televisão
quero fazer esse jardim arder
quero lento esse arder.

Deleuze, você foi embora ontem ou em 1995
e eu tinha 12 anos e já fazia planos
de consistência com as costelas
ou raspava panelas
para encontrar a linha de fuga
em que marcaria a sequência genética do acontecimento
do aço, do dente ou do radical crescimento.

Você foi embora, foi
só para eu lhe dizer adeus, adeus
eu fiquei ali na sala dos jovens lambendo o cinzeiro
acariciando a sociedade que sabe a rosa uva pasta pneu estriado
e você ali mesmo espatulou o tempo para ficar liso sobre o meu bicho.

‘Ah, mas o senhor é um verdadeiro planalto de afeto’
eu disse a você com 18 anos
e depois com 19 e depois com 20
como se você dissesse
‘ah, mas a menina é um verdadeiro túmulo de idolatria’
ao que eu respondi com 25 26 27 dúvidas
‘sei pouco sobre o devir da pedra’.

Deleuze, vem daí, deita comigo nessa mesa
sacode o meu sexo nessa jangada frágil
onde o corpo e os órgãos
são largados na operação do mundo.

[in Artesanato, não (edições), 2015]

O vulcão erudito

Coincidindo com a exibição do filme nos cinemas portugueses, chegou recentemente aos escaparates a versão romanesca de A Juventude, de Paolo Sorrentino. Vi a película, li o livro. Detestei os dois. Na tradução do italiano, feita por Rossana Appolloni, encontrei um erro involuntário que escapou aos revisores e de certo modo ainda bem, porque é muito divertido – ao contrário do texto original. Acontece quando o narrador compara o protagonista e a filha às «estátuas cristalizadas» depois da erupção de um vulcão. Só que o que está lá escrito é «a erudição de um vulcão». No caso do Etna, diga-se, até faria algum sentido, se nos lembrarmos que foi nas suas entranhas que Empédocles, o filósofo pré-socrático, se lançou para a morte.

A noite dos homens

Pai Nosso
Autora: Clara Ferreira Alves
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 474
ISBN: 978-989-724-270-0
Ano de publicação: 2015

Chamam-lhe «O Fantasma». Maria, a protagonista de Pai Nosso, primeiro romance de Clara Ferreira Alves, é uma figura misteriosa, difusa, uma esfinge. Para acender os muitos cigarros que fuma, risca fósforos. Bebe gin no bar do Al-Rashid, o hotel mais luxuoso de Bagdade. Tem aura de antiga estrela de cinema. Apropriadamente, tratando-se de uma lenda viva do fotojornalismo, o seu retrato, logo na primeira página, não podia ser mais fotográfico: «Sopra uma coluna de fumo que dissolve as linhas da expressão. A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa. Tem as unhas cuidadas e envernizadas. Os dedos nodosos, a pele da mão manchada de sardas.» Ela está ali, no centro do «ninho de cobras» que é o Iraque, um país destruído, entregue ao caos, com as milícias do ISIS a poucos quilómetros da capital, porque esse é o destino mais lógico para quem viu e captou, em imagens que correram mundo (e até chegaram à capa da revista Time), os principais conflitos das últimas décadas. Ela esteve no Afeganistão, no Kosovo, em Jerusalém, nos territórios palestinianos ocupados, em Telavive, conhece o Médio Oriente como a palma das mãos. Após tantos anos de contacto com a guerra, a guerra já faz parte dela, da forma como olha para a realidade à sua volta. «Só existe a barbárie. Entrámos na noite dos homens.» Uma noite que se espalha pelo mundo e chega a todo o lado. Até à Europa. Até a Lisboa.
Quando o livro começa, a capital portuguesa já foi abalada por um acontecimento maior, inimaginável, tremendo, mas que só será revelado nas páginas finais. É atrás da explicação desse acontecimento, da sua história «mal contada», que chega ao Al-Rashid a narradora, Beatriz, professora de Estudos do Médio Oriente em Inglaterra. Um editor português desafiou-a: «Minha cara amiga, depois daquilo que se passou, ficámos no mapa. Se ficámos no mapa!» Só que para compreender o que se passou é preciso ouvir o testemunho de Maria, peça-chave no labirinto da tal história mal contada, a mulher que «permaneceu anos em silêncio», mas talvez esteja disposta a libertar-se de um segredo. «Tente», diz-lhe o «especialista de best-sellers», assim como quem atira barro à parede. E Beatriz tenta.
No ambiente saturado de testosterona dos correspondentes de guerra, «durões» da velha guarda, «sanguessugas da desgraça», ameaçados pela horda dos freelancers «dispostos a tudo por um furo que ninguém quer», Beatriz consegue quebrar a película de desdém com que Maria enfrenta os outros e torna-se a sua protegida, a sua confidente. Fechadas no quarto, conversam dias a fio, desbravando as «paisagens» do passado. Maria é a Sherazade de Beatriz, uma voz fluida, um rio interminável de palavras que o gravador regista, relato em expansão acelerada e cada vez mais denso, à medida que mergulha nas memórias íntimas da fotógrafa portuguesa, quase sempre tingidas de melancolia e sobrepostas como se fossem estratos geológicos.
Ao longo do livro vão surgindo muitos «figurantes», personagens que entram na história para sair no momento seguinte, mas o centro de Pai Nosso está numa única pessoa: Maria. A sua personalidade determina o ritmo da escrita. Cheia de certezas, sentenciosa, ela gosta de exagerar («Sem a hipérbole, as descrições sofreriam») e de impor a sua visão das coisas. A prosa acompanha essa cadência afirmativa. É sincopada. Feita de frases curtas e incisivas. Stacatto verbal. Poucas vírgulas, muitos pontos finais. Um estilo forte, enérgico, quase sempre brilhante, mas que se torna cansativo, sobretudo porque não há outros registos que se lhe oponham e criem um contraste. A voz de Maria contamina tudo à sua volta. A própria Beatriz admite: «Estou a falar como ela.»
A estrutura narrativa não é propriamente original. O romance funciona como o gravador de Beatriz. Por isso há capítulos intitulados «play» (a acção no tempo presente, em Bagdade), «rewind» (os mergulhos no passado) e «fast forward» (avanços cronológicos). Embora simples, o dispositivo é eficaz. O problema não está aí, mas na articulação entre dois tipos de materiais que nunca chegam a coexistir de forma harmoniosa. Ou seja, o jornalismo e a ficção pura. As deambulações de Maria pelos palcos das várias guerras correspondem a uma realidade que Clara Ferreira Alves conhece muito bem e desdobra à nossa frente com mestria. Já os enredos propriamente romanescos revelam uma enorme fragilidade, sobretudo os que abarcam as relações amorosas de Maria e as figuras do passado português.
Se a trajectória da infância, no eixo Campolide-Benfica, sob o signo de uma mãe suicida e de um pai distante, racista, antigo combatente em África, espécie de último soldado do Império, até nos oferece belas páginas, o mesmo não se pode dizer dos episódios relativos à amizade com a filha de um banqueiro com «olhos de réptil», casada com um tal de Eduardo Allen Carneiro, ex-maoísta que se torna primeiro-ministro de Portugal e depois «Presidente da Europa». Estamos no território do roman à clef pouco subtil. Apoiante entusiástico da invasão do Iraque em 2003, Allen Carneiro não se liberta do peso de ser uma caricatura de Durão Barroso. E não é preciso um grande esforço de imaginação para atribuir ao sogro de Eduardo, uma espécie de eminência parda, os traços de um mediático banqueiro recentemente caído em desgraça. Outro aspecto que não resulta é a inclusão, no corpo do texto, de preces das três ‘religiões do livro’: invocações tanto ao Deus dos cristãos (o Pai Nosso do título), como ao dos muçulmanos (Alá) e dos judeus (Adonai). Por muito que se fale de Jerusalém, a questão religiosa nunca assume uma centralidade que justifique a repetição, algo forçada, de excertos das referidas preces.
A ideia com que se fica, ao concluir a leitura deste romance, é que Clara Ferreira Alves se deixou dominar pela torrencialidade da protagonista. Consequência: o romance sofre de hipertrofia e leva demasiado tempo a chegar ao seu poderosíssimo desenlace. Ainda assim, pelo caminho algo acidentado, a autora oferece-nos uma muito razoável colecção de belas frases, a confirmar o seu reconhecido virtuosismo verbal. Exemplos: uma mulher «a polir as unhas com uma lima neurótica»; o pátio de hotel onde «faleceu uma piscina vazia com mosaicos partidos»; o canto do muezim, «lamento líquido como mercúrio derramado»; os nómadas que se enfiam «pela bainha da guerra apascentando os rebanhos»; ou o calor do corpo «retido na prata» do frasco de gin.
Pai Nosso é um excelente livro sobre os horrores deste início de século e suas múltiplas causas, mas fica aquém do grande romance que prometia ser. Falta-lhe em espessura ficcional o que lhe sobra em reflexão apaixonada sobre o porquê da “noite dos homens”, em cujas sombras há quem decapite inocentes.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Biblioteca de Bolso, #2

No segundo episódio do Biblioteca de Bolso, há reflexões sobre a morte em torno de uma novela perfeita de Tolstói, há a história de uma paixão assolapada por uma personagem de Os Maias (com todos os efeitos secundários, hormonais e sentimentais, que se possam imaginar), há uma tatuagem em cirílico que causa equívocos no Estádio da Luz, há memórias de chocolate quente (a ler Roald Dahl), há curiosos soundbytes e muitas, muitas gargalhadas. São 40 minutos de animadíssima conversa com a Catarina Homem Marques. Podem escutá-los aqui.

O apocalipse ‘apocalítico’

As editoras que obedecem ao novo Acordo Ortográfico espalham a esmo, nos seus livros mais recentes, calinadas que até me magoam os olhos – provocando uma dorzinha que se espalha, em movimento ondulatório, através do nervo óptico (com p) até às mais remotas circunvoluções do meu cérebro. Os vocábulos do acordês são feios, feios, feios. Ainda há dias, ao ler o excelente A de Açor, de Helen Macdonald (Lua de Papel), fiquei uns bons segundos a olhar para uma palavra coxa, «apocalítica», até perceber que se tratava de um adjectivo associado à ideia de apocalipse. Escusado será dizer que o verdadeiro apocalipse em curso é o da língua portuguesa.

Provador de sons (2)

«Aquela sala, aquela música»:

Provador de sons

No mais recente livro de Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre Música (Relógio d’Água), encontrei, logo a abrir, este fragmento:

«Pensar em provadores de música semelhantes aos provadores de vinho. Provam com a orelha: trinta segundos de som e rapidamente percebem o essencial.
Sete orquestras em sete salas diferentes, salas fechadas. O provador de sons abre, uma após outra, cada uma das portas e inclina o seu sistema auditivo na direcção do som durante trinta segundos. Durante trinta segundos de vida nada existe senão trinta segundos de música. Ou seja, não são trinta segundos de vida, são trinta segundos de música. Já está. O provador segue para a sala seguinte. No fim, diz: escolho aquela sala, aquela música.»

Ora aí está uma profissão que eu não me importava de ter.

E porque não?

A actriz Emma Watson anunciou a intenção de criar um «clube do livro feminista».

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves (Clube do Autor), por José Mário Silva
Todos os Fogos, o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
A Morte de um Apicultor, de Lars Gustafsson (Marcador), por José Guardado Moreira
O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman (Fyodor Books), por José Mário Silva
Os Ombros da Marquesa e outras ironias, de Émile Zola (Sistema Solar), por José Guardado Moreira

À flor da boca

Pornografia Comum
Autor: Joaquim Cardoso Dias
Editora: Gulliver
N.º de páginas: 53
ISBN: 978-989-20-6243-3
Ano de publicação: 2015

Revelado durante a década de 90 nas páginas do saudoso DN Jovem, onde se tornou figura de culto entre os colaboradores do suplemento, Joaquim Cardoso Dias (n. 1973) é um poeta muito discreto e, talvez por isso, quase desconhecido, embora nunca lhe tenha faltado o reconhecimento de outros poetas. Até agora, a sua obra resumia-se a um único livro de poesia, O Preço das Casas (Gótica, 2002), e à organização de um volume de correspondência (Dez Cartas para Al Berto, Quasi, 2007). Esta contenção deve-se a um auto-escrutínio implacável e talvez excessivo («escrevo muito pouco e posso dizer tudo / e não falar nada»), nos antípodas de uma certa ligeireza que leva alguns autores a publicarem praticamente tudo o que escrevem.
Para JCD, a poesia só faz sentido se for um lugar de entrega absoluta, de exposição total, palco de todos os fulgores e fragilidades: «eu escrevo livros para pulsar / no mundo». E é isso que eles fazem. Pulsam como corpos perecíveis. Captam microscópicas vibrações, cambiantes de luz, matérias tão impalpáveis que estão sempre em vias de se desfazer. Em O Preço das Casas, circulávamos entre os abismos do amor e a desolação do que vem depois. Numa das páginas finais, um verso refere a «palavra morte sem princípio nem fim». Era ainda uma morte quase abstracta, mas que se materializa agora, como sombra omnipresente, em Pornografia Comum, livro que nasce de um estado de luto, após a morte recente, e quase simultânea, dos pais do poeta.
De uma obra para a outra, repetem-se títulos, alguns versos, um poema inteiro, a mesma voz magoada, delicadíssima. Esta é uma arte de elipses e incisões, de desvios e recuos, de coragem e recato, de coisas ditas «à flor da boca». E se «escrever é sempre aquele desejo demasiado / inocente», também conduz a uma espécie de conhecimento íntimo da beleza: «sei que uma criança é um espelho à janela / cercada pelas estrelas em plenos pulmões».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Más notícias do Oriente

Em Hong Kong, ser livreiro é uma profissão de risco.

Metempsicoses

As Reencarnações de Pitágoras
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-665-015-5
Ano de publicação: 2015

Tal como a obra literária de Gonçalo M. Tavares, também a de Afonso Cruz tem várias frentes, ou ramos autónomos. Um dos mais profícuos tem sido, desde 2009, o projecto da Enciclopédia da Estória Universal, conjunto de volumes supostamente organizados por um fictício Théophile Morel. A ideia inicial da série consistia em juntar, por ordem alfabética, entradas sobre os mais variados tópicos (filosóficos ou históricos, científicos ou míticos), todas elas fantásticas, falsificadas, ou mal atribuídas. Estávamos no terreno da literatura enquanto jogo e «grande burla», em que o leitor, o burlado, está consciente dos engenhosos enganos e deixa-se enredar nos labirintos da ficção, à maneira do que acontece em muitos livros de Borges, mencionado por Morel, no comentário ao primeiro volume, como exemplo de toda uma escola de escritores «embusteiros e mistificadores».
Se os volumes seguintes mantiveram os princípios estruturais – como a ordem alfabética e as citações de autores imaginários, muitos dos quais aparecem, enquanto personagens, nos romances autónomos de Afonso Cruz –, o certo é que a Enciclopédia tem vindo a perder consistência. O segundo tomo (Recolha de Alexandria, 2012) e o terceiro (Arquivos de Dresner, 2013) revelavam menos rasgo do que o volume inicial, mas eram ainda belíssimas colecções de pequenas narrativas eruditas, saídas da imaginação algo selvagem de um leitor omnívoro, que imaginamos a devorar bibliotecas inteiras e a recombiná-las num acto de suprema liberdade criativa. Já o quarto volume, Mar (2014), se revelou mais problemático, não apenas por se circunscrever a um só tema, anunciado no título, mas porque inclui textos de maior dimensão (duas novelas curtas). No fundo, funciona como uma recolha de contos, alguns deles com interligações, quase todos bastante conseguidos. Nada temos contra o livro enquanto objecto literário que vale por si mesmo (embora não esteja entre os melhores de Afonso Cruz), mas inclui-lo na série da Enciclopédia pareceu algo forçado.
O mesmo se passa com este quinto volume, servido por belas ilustrações de Susa Monteiro. Não se discute o conceito, um «resumo poético de algumas das transmigrações que Pitágoras viveu ao longo dos séculos, desde a Mesopotâmia aos dias de hoje», mas o seu confinamento temático. Se excluirmos o facto de os textos, curtíssimos, surgirem em ordem alfabética, não há nada que justifique a inclusão na Enciclopédia – a não ser, talvez, o compromisso assumido com a editora de publicar um volume por ano. Além disso, o próprio elemento unificador, ou seja, o exercício de invenção de vidas passadas e futuras para o matemático grego que acreditava na reencarnação da alma, parece algo gratuito. É um pretexto como qualquer outro para criar uma galeria de personagens, mas sente-se que essas personagens seriam as mesmas, existiriam sempre, mesmo se o pretexto fosse diferente.
Num escritor tão talentoso e brilhante, fica a ideia de que Afonso Cruz baixou a guarda e cedeu à facilidade. A própria escrita revela mais oscilações qualitativas do que é hábito no autor. Ainda assim, o livro vale por algumas vinhetas perfeitas. Um exemplo: a história de Malgorzata Jajac, presença assídua nos outros volumes da Enciclopédia, autora que «escrevia terramotos» e cujas frases, de tão altas, se tornavam «para quem as lê, vertigem numa folha de papel». Ou esse Ioane Dolidze que «pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos». Como? Dizendo aos homens para «caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço».

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Biblioteca de Bolso, #1

O primeiro episódio já está disponível: aqui.

Quatro poemas de Joaquim Cardoso Dias

OS MORTOS

o que dissemos ontem aos mortos
talvez agora com menos amigos
seja a floração daquela memória
pesando nos ombros
para que os dias aconteçam
cada vez mais lentos
mas tudo recomeça
por me deitar contigo
deixar a luz acesa
e esperar muito que pare de chover

***

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS

há tanto tempo que não acreditamos em nada
e nem sequer nos lembramos disso
sou apenas uma criança brincando
erguendo a recordação de uma nova pureza
o primeiro pássaro
esse peso de árvore tão feliz por engano
olha confio-te o meu coração
e trago-te esta comida estas palavras com o tempo
dos dedos
a casa onde a terra começa a viver

***

AS FOTOGRAFIAS SUJAS

conhecemos esse sortilégio fugitivo das vozes
as palavras lembradas pelos animais sob um céu imenso
vimos essa essência novos poemas
restos de ossos e de fogo indícios onde os braços
doem perseguidos pela melancolia
sabemos o azul das t-shirts no verão até perder o fôlego
e uma cama para foder o mundo
ou essa forma sublime de cuspir nos outros
e queremos ser felizes
com a máquina de barbear do irmão mais velho
e o que nos falta
é a coragem de compreender o que sabemos
como a chuva dentro de casa
demasiado transparente sobre os ombros

***

THE SCIENTIST

da via rápida os prédios parecem felizes
batendo na luz com esta música
nem se sentem os motores
muito menos ficar a olhar as árvores
e em câmara lenta a velocidade
é a verdadeira faca do sémen
a poucos segundos da civilização
fiel à morfologia dos outdoors
que separa de mim a minha própria pele
pagamento de juros no final do prazo
saiba tudo aqui ferido pelas paredes
e eu não conheço outras palavras
para tantas instruções de salvamento esquecidas
sem deuses na loucura
morder o coração perder a cabeça adormecer os prédios
e os anos passam todos os dias
e não somos felizes para sempre

[in Pornografia Comum, Gulliver, 2015]

Começa já na segunda

É o outro BdB. Para ouvir, todas as semanas. Mais informações aqui.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Minha Luta 2: Um Homem Apaixonado, de Karl Ove Knausgård (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
As Reencarnações de Pitágoras, de Afonso Cruz (Alfaguara), por José Mário Silva
Os Mutilados, de Hermann Ungar (E-Primatur), por José Guardado Moreira
Casas com Escritos, de Margarida Acciaiuoli (Bizâncio), por Luís M. Faria
Porto do Mistério do Norte, de Dimas Simas Lopes (Companhia das Ilhas), por Carlos Bessa
Pornografia Comum, de Joaquim Cardoso Dias (Gulliver), por José Mário Silva
Quando as Pombas Desaparecem, de Sofi Oksanen (Alfaguara), por José Guardado Moreira

Quando um editor atravessa o espelho

Editor Contra – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite
Autor: Pedro Piedade Marques
Editora: Montag
N.º de páginas: 360
ISBN: 978-989-2033-07-5
Ano de publicação: 2015

No centro de uma banheira circular, cheia de água e espuma, está sentado um homem de porte aristocrático, pêra bem aparada, cigarro na mão, bigodes torcidos. Do lado de fora, figurantes vestidos de diabo e supostas raparigas (que na verdade eram travestis) pavoneando-se com palavras escritas a marcador na pele e nas fitas com que prendem os cabelos. Estamos em Dezembro de 1971 e a apresentação daqueles quatro livros acabados de lançar pela editora Afrodite – História Trágico-Marítima, O Grande Livro de S. Cipriano, a versão para adultos de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, e Anti-Duhring, de Engels (este último imediatamente proibido) – tornar-se-ia lendária. Rodeado de jornalistas, Fernando Ribeiro de Mello, a quem logo chamaram «Dali de Lisboa», responde apenas ao que lhe interessa, ciente de que o happening tem força por si mesmo. Na tarde seguinte, a «sessão líquida» aparece na primeira página do Diário de Lisboa, com uma fotografia que ocupa um terço da mancha gráfica, mesmo junto ao rectângulo onde se lê: «visado pela censura».

Se há alguém que conhece bem a censura, os seus mecanismos e perversidades, é Fernando Ribeiro de Mello. Logo no primeiro ano de actividade da Afrodite, entre 1965 e 1966, vê seis livros serem proibidos, perseguidos, levados a tribunal. O regime não estava preparado para o desassombro de um editor que começou por publicar um clássico do erotismo oriental (o Kama Sutra), para logo depois se abalançar a uma notável Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, bem como a obras malditas: de Sade (A Filosofia na Alcova) a Sacher Masoch (A Vénus de Kazabaïka). Era, no fundo, a confirmação da aura de enfant terrible que lhe fora colada logo em 1963, quando chegou do Porto, com apenas 22 anos, e se deu a conhecer, com estrondo, no meio literário lisboeta.
Aspirante a declamador de poesia, Ribeiro de Mello organizou nessa altura um recital na Sociedade Nacional de Belas Artes com um pressuposto, digamos, peculiar. Numa espécie de prova cega, a que chamou «O Teste», ele e a actriz Isabel de Castro iam lendo poemas aos pares, sem revelar a autoria dos mesmos. No fim de cada leitura, voluntários com cronómetros mediam a duração dos aplausos que a plateia dispensava a cada texto. O objectivo era evidente: mostrar que, ao dissociar-se os versos de quem os fez (e do peso correspondente ao prestígio do autor), se obteria um julgamento estético mais livre. Para surpresa de muitos, os poetas modernistas e surrealistas, considerados mais difíceis para o público em geral, obtiveram uma aclamação bastante superior à que foi reservada aos neo-realistas. Seguiram-se semanas de protestos, indignação e polémicas nos jornais, incluindo um violento duelo verbal entre o novato Ribeiro de Mello e Francisco Sousa Tavares, que levou a peito o facto de Sophia de Mello Breyner Andresen, sua mulher, ter recebido menos aplausos do que Natércia Freire.
Estes dois momentos do percurso de Fernando Ribeiro de Mello são amplamente descritos e analisados em Editor Contra, o livro com que Pedro Piedade Marques decidiu resgatar do esquecimento um dos agentes culturais mais singulares da segunda metade do século XX português. Singular e atípico, em muitos sentidos. Se a Afrodite, na última década do Estado Novo, foi um exemplo de desafio subversivo à lógica do regime, depois do 25 de Abril continuou a funcionar em contra-corrente. O editor que teve a coragem de publicar o que antes não era permitido, por ser considerado atentatório da moral e dos bons costumes, viu-se num dilema quando a liberdade fez desaparecer todas as limitações. Moveu-se então no sentido contrário, dando à estampa, em pleno PREC e nos anos seguintes, obras de teor anti-comunista, panfletos de direita e até uma edição de Mein Kampf. Era o princípio do fim para um homem que se opôs sempre aos poderes instituídos, que nunca deixou de ser intransigentemente «do contra». Ora a intransigência, como é sabido, tem os seus custos. A partir dos anos 80, a Afrodite entra em decadência, naufraga em dívidas, enquanto o editor acaba falido, incompatibilizado com quase toda a gente e, depois da sua morte precoce (aos 50 anos), esquecido.

Pedro Piedade Marques nasceu em 1971, «o ano da banheira». Lembra-se de ter comprado o seu primeiro livro da Afrodite na Páscoa de 1986. Muito mais tarde, tornou-se ele próprio editor (Livros de Areia) e um estudioso da história da edição nos seus mais variados aspectos, do design gráfico ao percurso dos grandes homens que foram surgindo na indústria do livro. No seu blogue, Montag, que tem como descritivo “resgate do fogo para retronautas”, recupera não só edições antigas, e suas circunstâncias, mas muitas figuras de mestres do ofício que foram ficando à margem, devorados pelo olvido. Fernando Ribeiro de Mello era uma dessas figuras. «A ideia que eu tinha dele era a do editor suicida, o tipo que depois de 74 desbaratou a aura que trazia dos tempos da censura. Mas não foi bem assim. Mesmo as edições mais loucas dele, como o livro do Hitler, em 1976, ou os ensaios anti-soviéticos, têm uma lógica, são uma provocação ao novo sistema político. ‘Deixem-me lá ver se são assim tão liberais como apregoam.’ O problema dele foi o timing.» Era ainda demasiado cedo, a sensibilidade ideológica não permitia grandes heterodoxias, e a maioria dos dez mil exemplares de Mein Kampf, publicado na convicção de que é preciso conhecer para condenar, ficou a apodrecer no armazém. «Foi um de muitos desastres. Mas quando descobri que houve condições objectivas que determinaram o seu fracasso, percebi que fazia sentido olhar melhor para o seu percurso.»

Durante três anos, a investigação ampliou-se. Além de depoimentos escritos de Vítor Silva Tavares, o mentor da &Etc, e do tradutor Aníbal Fernandes, Pedro Piedade Marques reconstituiu minuciosamente a ascensão e queda de Ribeiro de Mello (recorrendo à metáfora da travessia do espelho, vendo no objecto do seu estudo não tanto o equivalente da Alice de Lewis Carroll, mas antes o Valete de Copas). A riqueza do texto está no modo empolgado como são contadas as muitas histórias do editor e de quem com ele conviveu, apoiadas numa profusão de documentos, fotografias e fac-símiles, entre os quais algumas raridades, como três cartas de Luiz Pacheco ou o texto integral de As Avelãs de Cesariny (um ataque de pendor homofóbico, que «hoje seria completamente inaceitável»). Acrescentou ainda a transcrição de conversas com dois dos ilustradores da Afrodite, Eduardo Batarda e Nuno Amorim, além de uma cronologia dos 85 títulos publicados por Ribeiro de Mello entre 1965 e 1989.

Pedro Piedade Marques continua a considerar um escândalo que em 2015 uma história como esta, não só de um editor excêntrico mas de toda uma época cultural do país, estivesse por contar. «Sorte a minha, claro.» Uma sorte que se estende à oportunidade que teve de conhecer Vítor Silva Tavares, recentemente desaparecido, um dos poucos amigos indefectíveis de Ribeiro de Mello. «O Vítor abriu-me todas as portas. Passou-me o testemunho daquele tempo. Por isso, o livro também é dele.»
Findo um trabalho que ganhou foros de obsessão, não pensa avançar já com outras «operações de resgate», mas gostava ainda de abordar o trabalho de Bruno da Ponte à frente da Minotauro (editora que a PIDE destruiu literalmente) ou, já agora, os «extraordinários» quatro anos que Vítor Silva Tavares passou na Ulisseia, durante a década de 60.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Palavra do ano

Depois de «esmiuçar» (2009), «vuvuzela» (2010), «austeridade» (2011), «entroikado» (2012), «bombeiro» (2013) e «corrupção» (2014), a Porto Editora anunciou que a palavra do ano 2015, segundo a eleição que levou a cabo, com 20 mil participantes, é «refugiado», com uns claros 31% dos votos (ver nota de imprensa aqui). Não se pode dizer que seja uma surpresa. E pelo menos é uma escolha séria. Num ano que assistiu a vários episódios de terrorismo e a um gigantesco deslocamento forçado de populações, seria ridículo que o vencedor fosse a palavra «festivaleiro»; ou, pior ainda, «bastão de selfie».

Mergulho na psique

Talco de Vidro
Autor: Marcello Quintanilha
Editora: Polvo
N.º de páginas: 160
ISBN: 978-989-8513-43-4
Ano de publicação: 2015

Há uns meses, a Polvo deu-nos a conhecer, na sua excelente colecção de “romance gráfico brasileiro”, o penúltimo trabalho de Marcello Quintanilha: Tungsténio. Nesse livro, que tem Salvador da Bahia como cenário, acompanhamos histórias cruzadas de traficantes de droga e polícias, choques sociais e dilemas psicológicos, num fluxo de acontecimentos muitíssimo bem trabalhado, linear na sua estrutura mas com uma série de rasgos visuais que lhe conferem uma certa sofisticação narrativa. Na verdade, faltava a Tungsténio apenas um final mais forte, capaz de fazer jus à espantosa energia que atravessa todo o álbum.
Com Talco de Vidro, a sua mais recente novela gráfica (publicada no Brasil já em 2015), Quintanilha supera-se e oferece-nos uma obra que não se parece com nenhuma outra. Se um dos aspectos mais interessantes do livro anterior era o modo como o autor explorava a interioridade das personagens, os seus pensamentos e pulsões (sobretudo no caso de Keira, figura da amante que se questiona, à beira da ruptura sentimental), esse mergulho na psique é levado agora muito mais longe – na verdade, é levado até às últimas consequências.

No centro da narrativa está Rosângela, uma mulher de classe média-alta, com uma vida aparentemente perfeita: marido atencioso, filhos adoráveis, uma profissão (é dentista, com consultório próprio), casa no melhor bairro de Niterói, um bom carro. Esta harmonia é desfeita quando o sorriso radioso da prima pobre e de vida desgraçada, com quem sempre manteve uma distância feita de preconceito social (e respectiva ilusão de superioridade), lhe instiga a sensação de que Daniele, afinal, tem algo que lhe escapa, um qualquer inapreensível e inacessível talento para ser feliz. A inveja pura e dura lança-a num turbilhão autodestrutivo, em que a sua personalidade, de tanto querer eliminar fantasmas e inseguranças, acaba por se desagregar e cair a pique num caos existencial.


O esquivo narrador de Quintanilha, ele próprio cheio de dúvidas e hesitações no modo como nos conta o que se passa na cabeça de Rosângela (um território de «sensações», mais do que de pensamentos), consegue o prodígio de nos fazer sentir, na sua crueza extrema, as oscilações e abismos de um estado mental. O triunfo maior do livro, porém, está no modo como um texto tão fugidio, por vezes quase rarefeito, se articula exemplarmente com as imagens – ora realistas, ora abstractas; umas vezes captando detalhes em zoom, outras inserindo ecos e memórias, ou materializando estados de alucinação, indícios de loucura.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Cinco poemas de Alice Sant’Anna

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

***


na esquina da rua
um piano que toca
notas esparsas
em lá menor

nunca vi
o rosto de quem
se esconde por trás
de acordes sustenidos

e que desfila dedos no teclado
com a leveza de quem
sustenta passarinhos
no ar

***

RUA DOS BACALHOEIROS

na rua dos bacalhoeiros
em frente à casa dos bicos
pontualmente às seis em pleno domingo
todas as lojas fechadas
sento na calçada para assistir
ao balé das andorinhas
são milhares, trilhares em revoada
que mergulham sincronizadas
feito um cardume
para anunciar em coro
os últimos dias de inverno

***

SETE ANOS

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***

dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

[in Dobradura, 7 Letras, 2008]

Teaser

Além da reactivação do Bibliotecário de Babel, há um outro projecto que me está a animar, e muito, neste início de 2016. Começará no dia 11 de Janeiro e tem a ver com livros, mas é algo que nunca fiz antes. Lá mais para o fim desta semana, saberão mais.

Um passo de cada vez

Acorda-se do coma e o corpo (o blogue) desabituou-se de ser corpo (de ser blogue). É preciso reaprender os gestos, os movimentos, a fala, os ritmos. Vamos devagarinho. Pouco a pouco.
Ao tempo perdido não vale a pena voltar, ou sequer tentar recuperá-lo. Interessa mais olhar para diante. Acontece que o BdB também é memória, também é arquivo, o lugar onde ao longo dos anos fui guardando a maior parte dos meus trabalhos publicados na imprensa sobre livros e escritores. Nas próximas semanas, tentarei preencher retroactivamente uma parte dos vazios deste blogue: o que diz respeito às recensões semanais no jornal Expresso. Não espero que as procurem nos confins do scroll, mas ficarão alinhadas na tag Críticas, disponíveis para pesquisas futuras.

Recomeço

Já não é esta a primeira vez que tento arrancar o BdB ao estado comatoso em que se encontra há demasiado tempo. A verdade é que as circunstâncias são o que são. Por um lado, a minha vida pessoal e profissional, nas suas tantas dimensões, deixou de me permitir a dedicação ao blogue que em tempos tive, com actualizações constantes e muitas horas a gerir caixas de comentários. Por outro, a dinâmica da blogosfera mudou e hoje muita da informação que se partilhava nos blogues, mais as respectivas discussões paralelas, transferiu-se para as redes sociais, em particular para o Facebook. Em 2016, é quase digitalmente anacrónico apostar num blogue, ou voltar a apostar num blogue, quando toda a gente está noutros lados. Mas apetece-me correr esse risco. Sem promessas de grande actividade, sem juras de um regresso triunfal ao ritmo antigo, sem gerar falsas esperanças. A 1 de Janeiro de 2003, há precisamente 13 anos, escrevi o meu primeiro post. Hoje brindo a isso. Brindo a este blogue que muitas pessoas leram e, suspeito, gostariam de voltar a ler. E brindo a todos os posts que ainda estão para vir.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Pedro Piedade Marques, coordenador de Editor Contra – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite (Montag), por José Mário Silva
Viver Portugal com o Mediterrâneo à mesa (CTT) e Manual para se tornar um verdadeiro gourmet (Manuscrito), de Fortunato da Câmara, por Alexandra Carita
Navegações, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Talco de Vidro, de Marcello Quintanilha (Polvo), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Paraíso segundo Lars D., de João Tordo (Companhia das Letras), por José Mário Silva
Crónica da Manhã, de Agustina Bessa-Luís (Guimarães), por Pedro Mexia
Neverness, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Oblomov, de Ivan Gontcharov (Tinta da China), por Luís M. Faria
Compota de Damasco e outros contos, de Aleksandr Soljenitsin (Sextante), por José Guardado Moreira
Volta – O Segredo do Vale das Sombras, de André Oliveira e André Caetano (Polvo), por Sara Figueiredo Costa
As Aventuras de Fernando Pessoa, de Miguel Moreira e Catarina Verdier (Parceria A. M. Pereira), por Celso Martins

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Balanço de 2016, com a escolha dos melhores livros do ano por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Alberto Manguel, por Luciana Leiderfarb
Aquário, de David Vann (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Coro dos Defuntos, de António Tavares (LeYa), por José Mário Silva
Eça – Dicionário de Eça de Queiroz, org. de A. Campos Matos (IN-CM), por Luís M. Faria
Morada, de Rui Pires Cabral (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Luz de Ferro, de Ben Pastor (Clube do Autor), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com António Tavares, autor de Coro dos Defuntos (LeYa), por José Mário Silva
Quartos Alugados, de Alexandre Andrade (Exclamação), por José Mário Silva
Convite para uma Decapitação, de Vladimir Nabokov (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Minha Mulher, a Solidão, de Fernando Pessoa (Guerra & Paz), por Luísa Mellid-Franco
O Fim dos Segredos, de Catarina Guerreiro (Esfera dos Livros), por Ricardo Marques

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Helen McDonald, autora de A de Açor (Lua de Papel), por José Mário Silva
O Impostor, de Javier Cercas (Assírio & Alvim), por Luciana Leiderfarb
A Agência de Viagens Lemming, de José Carlos Fernandes (Biblioteca de Alice), por José Mário Silva
Contos, de Hans Christian Andersen (Temas e Debates), por Luís M. Faria
A Paixão do Conde de Fróis, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges