Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Conversa com Pedro Vieira sobre o livro O que não pode ser salvo (Quetzal), por José Mário Silva
- Cifra, de Mai Jia (Quetzal), por José Mário Silva
- š! #20, de vários autores (Kuš!), por Sara Figueiredo Costa
- Amores de Família, de Carla Maia de Almeida e Marta Monteiro (Caminho), por José Mário Silva
- Mirleos, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Escolhas Difíceis, de Hillary Clinton (Dom Quixote), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Entrevista com Hilary Mantel sobre o livro O Assassinato de Margaret Thatcher (Jacarandá) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- A Nascente, de Manuel Clemente (Edições Paulinas), por Rosa Pedroso Lima
- Ordem Política e Decadência Política, de Francis Fukuyama (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho (Polvo), por José Mário Silva
- Presente e Futuro: A Urgência da Literatura, de Vários Autores (CCB), por Alexandra Carita
- Aleluia!, de Bruno Vieira Amaral (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por Pedro Mexia

Voltar às Correntes

correntes

Começa amanhã mais uma edição das Correntes d’Escritas, desta vez no Cine-Teatro Garrett (Póvoa de Varzim), onde até sábado passarão pelo palco mais de 50 escritores de «expressão ibérica», distribuídos por sete mesas, cada uma com um dos habituais temas espinhosos que a organização sugere aos participantes. Eu participarei na mesa 3, sexta-feira (15h00), na companhia de António Cabrita, Clara Usón, Manuela Gonzaga e Virgílio Alberto Vieira, com moderação de Michael Kegler.
A programação completa pode ser consultada aqui.

A voz das coisas

manhã

Manhã
Autora: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 126
ISBN: 978-972-37-1809-6
Ano de publicação: 2015

O dispositivo narrativo de Manhã não podia ser mais transparente. Adília Lopes olha para trás, escolhe momentos, e detém-se nessas clareiras do passado apenas o tempo necessário para captar uma atmosfera, uma fulguração, um rasto. Nada aqui é sistemático ou sequer cronológico, o que impera é a volúpia da recordação pela recordação, muitas vezes involuntária, como quem mordisca uma madalena proustiana sem se preocupar com as reminiscências que ela provocará.
A primeira memória circunscreve logo o horizonte desta escrita: «Em Colares, vi um bulldog branco anão em cima de uma coluna branca no jardim de uma vivenda. É a minha recordação mais antiga. É estranha. Parece inventada. Mas não é.« Ou seja: o mais estranho pode ser o mais verdadeiro. Quase no fim, lê-se: «Não se mistura a realidade com a ficção». Há nisto a força de um mandamento. Se é da vida que se fala, toda a literatura está em dizê-la como foi, sem filtros nem artifícios.
Vemos então desfilar, como num vórtice, imagens atrás de imagens. A boneca de faiança na montra da padaria, o bolo de aniversário infantil coberto de pralines («esferazinhas prateadas sobre a neve (…) de claras em castelo e açúcar»), a pistola com lanceta que pica os dedos por causa da diabetes, o «biberon» para as bonecas (caído um dia do eléctrico em andamento, «e eu a ver o asfalto pela fresta a correr vertiginoso»), os olhos das moscas que «são uma maravilha», as palmeiras demasiado altas da Escola Politécnica, os livros do Tintin, da Enid Blyton e da Condessa de Ségur («Devo tudo à Condessa de Ségur»), um vórtice de coisas que de repente se organizam, vindas do passado, como constelações.
A poetisa chega-se à janela e debruça-se para escutar «a voz das cousas», mas também para se confrontar consigo mesma. «Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens, escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas. Estava apaixonada e não era correspondida.» Adília sempre escreveu este tipo de sinopses, mais literais e menos irónicas do que por vezes parecem, mas em Manhã a capacidade de síntese é levada ao extremo. Alguns poemas são mais breves do que um haiku. Penamacor: «Casas pardas / ruas tortas». Duas da tarde: «Um avião / um cão».
Por vezes, Adília assemelha-se a essa «escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta». Outras vezes, entrega-se à luxúria dos detalhes, de um discurso que se alimenta de si próprio. É de extremos, como na disciplina de geometria descritiva («ou tinha vintes ou tinha negativas»), ao ponto de a professora lhe dizer: «ó rapariga, tu és 8 ou 80». Tantos anos depois, a frase permanece, volta à tona, porque «é das coisas mais acertadas que há a dizer sobre mim».
Não há nisto, porém, qualquer fatalismo ou tristeza. Adília não se lamenta, nem se queixa. Pelo contrário, Adília brinca com as memórias, boas ou menos boas, Adília dança (ou melhor, dansa, «com s como a Sophia»), Adília ri-se dos outros e de si («Adília laughs»). Há mais luz do que sombras nestas páginas. Mas Adília também sabe como encostar-nos às cordas. Eis o Vazio em cinco linhas: «Aos 21 anos, a minha fotografia no bilhete de identidade sofreu uma reacção química, a minha cara desapareceu, ficou uma mancha castanha. Aos 39 anos, comprei um perfume na farmácia. Devia estar lá há muito tempo, não cheirava a nada.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Manhã, de Adília Lopes (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak (Jacarandá), por José Guardado Moreira
- Clorântida, de Rosalina Marshall (Douda Correria), por José Mário Silva
- Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar, de Fernando Pessoa (Tinta da China), por Luís M. Faria
- Perda de Inventário, de Marta Chaves (Alambique), por José Mário Silva
- História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges (Quetzal), por Pedro Mexia

A música das esferas

collins

Amor Universal
Autor: Billy Collins
Título original: Aimless Love – New and Selected Poems
Tradução: Ricardo Marques
Editora: Averno
N.º de páginas: 293
Depósito legal: 383222/14
Ano de publicação: 2014

Nascido em 1941, Billy Collins é um caso singular na poesia contemporânea americana. Consagradíssimo entre os seus pares (foi Poeta Laureado dos EUA entre 2001 e 2003), académico respeitado, colaborador frequente da New Yorker, ele estabelece uma raríssima ponte entre a alta cultura e o público generalista. Se os livros passam o escrutínio dos críticos mais exigentes, rendidos ao alto grau de conseguimento estético de uma obra exemplar, Collins consegue igualmente reunir multidões de leitores e ouvintes, nas salas esgotadas onde faz as leituras públicas dos seus textos.
Em 2013, juntou 50 poemas novos a uma antologia generosa dos quatro livros anteriores: Nove Cavalos (2002), O Problema da Poesia (2005), Balística (2008) e Horóscopo para os Mortos (2011). Esse volume, Aimless Love, com perto de 300 páginas, acaba de ser editado em português numa cuidada edição bilingue, graficamente impecável (da belíssima capa à paginação elegante, os versos em inglês aparecendo em letra minúscula, no fundo da página) e com uma boa tradução. Dizer que se trata de um acontecimento editorial é pouco. Billy Collins é um dos maiores poetas do nosso tempo. Disponibilizá-lo finalmente aos leitores portugueses afigura-se-nos um inestimável serviço público.
O que torna Collins o poeta perfeito para quem não gosta de poesia (ou julga que não gosta) é a sua desarmante, e quase sempre ilusória, simplicidade. Não há nos seus poemas quaisquer efeitos de ocultação e opacidade, tudo se expõe com fulgurante clareza, sem necessidade de complexas exegeses. Collins canta o «amor pelas coisas quotidianas», é um homem muito atento à realidade que o cerca, aos seus ruídos, aos seus fulgores, às suas harmonias e dissonâncias. Mas é sobretudo um poeta capaz de captar o espanto na sua dimensão mais directa, quase física. Entrega-se, no fundo, a uma espécie de alquimia serena em que a matéria das existências banais se transforma noutra coisa qualquer, muitas vezes indiscernível, mas que as transcende, a essas vidas normais que são as vidas de todos nós.
Aos poetas, sugere-nos Collins, cabe o dever de olhar, de estarem «às suas janelas», sem fazerem nada mais do que observar o mundo, uma vez que é esse «o trabalho pelo qual não são pagos». A janela: eis o instrumento lírico por excelência, «porque há sempre algo para ver». E pode ser um pássaro que ficou preso dentro de casa, até que o poeta o embrulha numa camisa, entre «espasmos de bater de asas», libertando-o por fim no jardim, só para ficar a sentir durante o resto do dia «o seu vibrar selvagem / contra a palma das mãos».
Minuciosamente construídos, verso a verso, como quem esculpe um bloco de mármore (lá dentro uma «figura encerrada e ainda por revelar»), estes poemas são lugares onde o que há de mais inefável e frágil – vozes, corpos, presenças – pode ser resgatado e permanecer ao abrigo da usura do tempo, das devastações da memória. Caminhadas junto ao lago, contemplação de nuvens, cidades (Paris, Istambul, Palermo, Roma), jogos infantis, parábolas, questões metafísicas, súbitos impasses ou epifanias. Muitas vezes, assistimos ao fazer do próprio poema: o caderno, a «caneta em movimento», o «lápis de grafite macio» pronto para a anotação, o candeeiro de mesa que ilumina a escrita noite dentro e por isso merece uma ode (começa assim: «Oh luz fiel, sob a qual escrevi / e li durante todas estas décadas»).
Collins tem consciência dos sortilégios em que mergulha o leitor, mas isso nunca o conduz aos labirintos do comprazimento ou da auto-indulgência. Pelo contrário, há sempre nele um impulso irónico que lhe permite evitar a tentação da solenidade. Num dos textos de reflexão sobre o seu ofício, explica que «o problema da poesia é que / ela estimula a escrita de ainda mais poesia, / mais peixinhos a encher o tanque». E essa proliferação é sempre perigosa. Sabendo que tudo se pode transformar num poema de Billy Collins, as pessoas aproximam-se de Billy Collins e dão-lhe ideias. Se há uma simulação de incêndio, sugerem-lhe que escreva um poema sobre isso. Ou sobre aquele dirigível lá no alto, o café entornado, um rosto coberto de tatuagens. Ele conclui: «Talvez devesse escrever um poema / sobre todas as pessoas que pensam / que sabem sobre o que é que eu deveria escrever».
Felizmente, o poeta é imune a todos esses ricochetes e efeitos colaterais. Ele come sozinho, bebe sozinho, contempla sozinho, escreve sozinho. Só assim consegue escutar, no meio do ruído da modernidade, «o som que ninguém nunca ouve / porque está a ser transmitido desde sempre» e por isso «soa ao mesmo que o silêncio». Ou seja, a intangível música das esferas, sempre presente e ignorada, mas que, caso deixasse de existir, «então as pessoas iriam parar / nas ruas e olhar para cima». É essa música que atravessa estes poemas. É essa música que Collins – subtilmente, magistralmente, genialmente – consegue fazer-nos ouvir.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- O Irmão Alemão, de Chico Buarque (Companhia das Letras), por José Mário Silva
- A Morte do Pai – A Minha Luta: 1, de Karl Ove Knausgard (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- O Último Europeu – 2284, de Miguel Real (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
- Com um Sonho na Bagagem, de Maria José de Lencastre (Dom Quixote), por Alexandra Carita
- Extraterritorial, de George Steiner (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Amor Universal, de Billy Collins (Averno), por José Mário Silva
- Meu Pai, o General Sem Medo, de Iva Delgado (Caminho), por José Pedro Castanheira
- Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Através do espelho órfico

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O Mar de Coral
Autora: Patti Smith
Título original: The Coral Sea
Tradução: Ricardo Marques
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 59
ISBN: 978-989-99120-6-9
Ano de publicação: 2015

Em 2010, Patti Smith documentou a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe num espantoso livro de memórias, Apenas Miúdos (Quetzal), vencedor do National Book Award. Não era, porém, a primeira vez que escrevia sobre o amigo de quase toda uma vida. Em 1996, sete anos após o desaparecimento de Mapplethorpe (vítima da SIDA), escreveu O Mar de Coral.
Homenagem e exercício de luto, esta é uma intensa despedida em que deixou «tudo o que sabia sobre ele encriptado num pequeno conjunto de poemas em prosa». Forma de contar «a nossa história», que é antes de mais a história de Robert, aqui transfigurado na figura de um marinheiro que viaja em busca dos mares distantes, lá longe, onde é possível admirar o Cruzeiro do Sul.
A primeira vez que Patti viu o amigo, «ele estava a dormir». E é com Morfeu, deus dos sonhos, que a viagem começa. A atmosfera onírica permanecerá durante a jornada até às Ilhas Salomão, durante a qual o «Passageiro M» se deixa «cair numa série de imagens» que se sucedem «com uma força amazónica»; e nem sempre bem controlada. A cascata de metáforas evoca o trabalho fotográfico de Robert («Uma única túlipa. Alongada, só e negra, como uma mancha no sol»), o evoluir da doença («Já não conseguia comer; os sólidos passavam por dentro dele com a violência de uma nuvem»), ou a admiração sem limites («Teria sido ele um breve clarão, uma margem cintilante…»).
Todavia, a maior parte do subtexto biográfico fica escondido sob um espesso manto de simbolismos inescrutáveis e por vezes excessivamente pesados. Esta edição inclui ainda três poemas escritos noutras ocasiões. Num deles, talvez o melhor, Robert atravessa um «espelho órfico», para «vaguear eternamente / na busca da perfeição / os tornozelos azuis tatuados de estrelas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Soumission, de Michel Houellebecq (Flammarion), por Clara Ferreira Alves
- Entrevista com Rosa Montero sobre o livro A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Céu de Chumbo, de Ben Pastor (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
- O Mar de Coral, de Patti Smith (não (edições)), por José Mário Silva
- A Lógica do Dinheiro, de Niall Ferguson (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Que Luz Estarias a Ler?, de João Pedro Mésseder e Ana Biscaia (Xerife Edições), por Sara Figueiredo Costa
- Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática, de Jorge Buescu (Gradiva), por Virgílio Azevedo
- Um Teste de Resistores, de Marília Garcia (Mariposa Azual), por Pedro Mexia

Contra a amnésia

dorabruder

Dora Bruder
Autor: Patrick Modiano
Título original: Dora Bruder
Tradução: G. Cascais Franco
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-972-0-04721-2
Ano de publicação: 2015

Ao anunciar a atribuição a Patrick Modiano do Prémio Nobel de Literatura de 2014, a Academia Sueca elogiou-lhe «essa arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inacessíveis e nos revelou a vida quotidiana sob a Ocupação». Se há uma obra do escritor francês que corresponde a esta síntese é Dora Bruder, um livro de 1997, agora reeditado em português, sobre o inacessível destino humano de uma jovem judia, desaparecida numa Paris sob o jugo das tropas de Hitler.
Na edição de 31 de Dezembro de 1941 do jornal Paris Soir, os pais da rapariga pediam «todas as indicações» possíveis sobre o paradeiro de «Dora Bruder, 15 anos, 1,55 m, rosto oval». Meio século mais tarde, Modiano tentou responder ao anúncio. Quem era ela? Por onde andou? O que lhe aconteceu? Obcecado por esta figura esquiva, o escritor procurou-a em todo o lado: nos arquivos, nas repartições, nos dédalos da burocracia. Uma investigação difícil, um exercício moroso, um ofício de paciência: «É preciso muito tempo para que ressurja à luz aquilo que foi apagado». Na sua demanda, encontra alguns registos, ofícios e relatórios que sinalizam uma existência fugaz, mas são muito mais as lacunas, as incógnitas, as portas «cujo número ignorarei para todo o sempre», os nomes de ruas que «já não correspondem a nada». Ainda assim, Modiano não se coíbe de fazer perguntas, mesmo que elas só o conduzam ao vazio, à incapacidade de imaginar o que terá feito Dora em fugas sucessivas, ou no quartel de Tourelles (em que esteve detida), ou no infame Campo de Drancy, enquanto esperava, com o pai, o comboio que os haveria de levar para Auschwitz.
Embora escassa, a informação recolhida permite-lhe o encontro com outras histórias de raparigas, homens e mulheres engolidos pelo torvelinho da guerra e do Holocausto. São fantasmas que a literatura consegue resgatar de uma «espessa camada de amnésia». E o maior de todos é Dora Bruder. É ela quem se ergue destas páginas em que paira a «ternura entristecida» de que falava Genet. Continuaremos a saber pouquíssimo, quase nada. Consola-se Modiano com a ideia de que restará sempre, da rapariga devorada pela História, o brilho de um segredo. O segredo do que foi enquanto sobreviveu a todos os horrores. «Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, (…) o tempo – tudo o que nos macula e nos destrói – não puderam roubar-lhe.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Carta ao pai

giralt

Tempo de Vida
Autor: Marcos Giralt Torrente
Título original: Tiempo de Vida
Tradução: Telma Costa
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-8580-26-9
Ano de publicação: 2014

Neste livro, Marcos Giralt Torrente narra a dificílima relação com o pai – contada logo após a morte deste, a culminar ano e meio de um declínio físico que os reaproximou. Como é sabido, na história da literatura há muitos relatos deste tipo, de Kafka a Philip Roth. O escritor espanhol, porém, não quis apenas replicar um modelo que tende para a elegia ou para o ajuste de contas. Tempo de Vida não é uma coisa nem outra, embora tenha momentos elegíacos e outros de balanço frio dos «fundos desencontros» entre trajectórias de vida divergentes.
O que torna esta obra singular é a sua espantosa (e por vezes dolorosa) sinceridade, a sua absoluta transparência. Nada nos é ocultado. Nem os escrúpulos do autor a lidar com o material inflamável da memória, nem as hesitações estéticas e éticas, nem as dúvidas persistentes sobre o rumo a dar ao que tem entre mãos: «(…) não sabia que livro queria escrever. Ou, se sabia, não sabia como fazê-lo. Ou não tinha sequer decidido o que contar e o que calar. Ou a vida do meu pai, vendo bem, não era assim tão romanesca. Ou simplesmente duvidava de que interessasse a alguém.» Mais do que uma ideia motriz, «a única coisa que sentia era um grande vazio». E é através desse vazio que o autor avança, procurando compreender «o que perdemos, em que pontos nos atolámos».
Emerge então a figura desse pai distante, pintor que ficou aquém de uma grande carreira, perdido nos seus equívocos e nos «labirintos femininos». Tudo é exposto à luz mais crua, tanto a «zanga perpétua» como a doença final, que permite uma redenção mútua. Não deixando de convocar erros e arrependimentos, tanto os próprios como os alheios, sempre com uma lucidez feroz, Giralt Torrente leva-nos «ao vero centro da dor», única forma de fechar o círculo e de o reabrir novamente, através do filho que há-de vir: «Gostaria de conservar alguma coisa do melhor do meu pai para que lhe chegue através de mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Por Detrás do Pano, de António Manuel Ribeiro (Chiado Editora), por Luís Guerra
- Contra Todas as Evidências – Poemas Reunidos II, de Manuel Gusmão (Edições Avante!), por Pedro Mexia
- Talvez Seja Essa Certeza, de António Amaral Tavares (Medula), por Manuel de Freitas
- Adília Lopes Lopes, de Filipa Leal (não (edições)), por José Mário Silva
- Dora Bruder, de Patrick Modiano (Porto Editora), por José Mário Silva
- História Alemã – Do Século VI Aos Nossos Dias, de Vários Autores (Edições 70), por Luís M. Faria
- Tempo de Vida, de Marcos Giralt Torrente (Teodolito), por José Mário Silva

Manual de escritarias

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Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 276
ISBN: 978-972-0-04699-4
Ano de publicação: 2014

Este livro nasceu de um gesto de tremenda generosidade. Autor consagradíssimo, Mário de Carvalho podia deixar-se ficar quieto, descansadinho da vida, a gizar futuros romances e novelas lá no recato da sua oficina literária. Em vez disso, lançou-se na composição, «ao correr da pena», de um «guia prático» em que reúne «observações empíricas surgidas da experiência escrita, da memória do autor e duma ou outra consulta em segunda mão». Trata-se, nas suas palavras, de um «modesto trabalho», dirigido a ficcionistas aprendizes, a quem trata por «estimado futuro autor» ou por «escritor-em-progresso».
A nota prévia esclarece, logo na primeira frase, que não estamos perante um trabalho académico. Não há bibliografia, nem notas de rodapé. Colocando-se deliberadamente aquém dos estudos literários, e assumindo não ter pretensões no campo da «teorização narratológica», Mário de Carvalho limita-se – o que não é pouco – a partilhar o seu saber acumulado, insinuando caminhos, sugerindo obras e autores (para ler «de lápis em riste»), apelando ao espírito crítico e ao «exercício da curiosidade», tudo num registo coloquial e faceto, como quem nos pousa no ombro a mão amiga. Inteligentemente, socorre-se muito dos clássicos e pouco dos vivos: «Não houve precisão de desinquietá-los, nem eles carecem de menção. Todas as susceptibilidades podem, assim, permanecer intactas e triunfais. Pior para o autor destas linhas, que reteve a ocasião de elogiar.»
O tom é sempre este: o de um mestre bonacheirão, feliz por revelar, aos discípulos, uns quantos segredos do ofício. Durante a conversa com o leitor («temos estado aqui a tagarelar«), abarca-se quase tudo: a questão do cânone, as estruturas e técnicas narrativas, o paratexto, os incipits, a escolha dos títulos, os enredos, o problema da verosimilhança, o pacto ficcional, os vários tipos de personagens (com magníficos exemplos respigados em Eça, Camilo e José Cardoso Pires), a importância da ironia, a necessidade de um «detector de lugares-comuns», os diálogos (que nunca são naturais), o trabalho da linguagem, as exigências do estilo.
Não detectamos em Mário de Carvalho, porém, a tentação de pontificar. Sempre que remata um tema, assistimos a um movimento de recuo, como quem assume que as coisas podem ser assim, mas também podem não ser. «É preciso lembrar, a cada momento, que nestas matérias não há dogmas, nem imposições.» O autor diz de sua justiça, mas apenas isso. Depois, faça cada qual à sua maneira, como lhe aprouver. Exactamente o oposto das fórmulas e prescrições típicas da maior parte dos cursos que tentam formatar os candidatos a escritores. «Pensar que se fica apto a escrever depois de ler um compêndio de escrita criativa é o mesmo que julgar que se passa a dominar uma língua após ter comprado um dicionário.»
Sem surpresa, Mário de Carvalho insurge-se contra as ideias feitas, esse «caruncho que pode corroer toda a reflexão, mesmo despretensiosa». O desafio é fugir do senso comum, porque este «confirma, não interroga; acata, não discute; conforma-se, não se rebela; repete, não indaga». E a fuga acontece no próprio acto de pensar o fenómeno literário, sem espartilhos de qualquer tipo. O livro tem uma estrutura bem montada, em seis partes (por pontos: «Pontos de Ordem», «Pontos de Mira», «Pontos de Referência», «Pontos de Vista», etc.), mas dentro desta arquitectura (em 59 capítulos), existe uma liberdade absoluta. Se o narrador pode afinal não ser Mário de Carvalho (refere-se a um «escritor meu conhecido» que publicou um livro chamado Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde), o certo é que partilham gostos, embirrações, entusiasmos, princípios estéticos, e até éticos.
Entre outras opiniões fortes, destaque-se a defesa dos experimentalismos oulipianos e de Stefan Zweig («um escritor com o qual vale a pena aprender»), bem como o elogio ao «grande» Aquilino Ribeiro, «pela graça que lhe repassa os textos, pela cultura solidíssima que os informa e pela exuberante imaginação verbal». No fundo, Mário de Carvalho limita-se a apreciar, num dos seus mestres, qualidades que também são as suas.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Quem Disser o Contrário é Porque tem Razão (Porto Editora), por José Mário Silva
- O Mestre e Margarita, de Mikhaíl Bulgákov (Presença), por Ana Cristina Leonardo
- O Planeta do Sr. Sammler, de Saul Bellow (Quetzal), por Pedro Mexia
- O Grande Rebanho, de Jean Giono (Presença), por José Guardado Moreira
- O Idiota, de Fiódor Dostoievski (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- Zombie, de Marco Mendes e Samuel Buton (Mundo Fantasma), por José Mário Silva

Lá no alto do Paul da Serra

estalagem

A Estalagem do Nevoeiro
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-641-424-5
Ano de publicação: 2014

Em paralelo com as suas novelas e contos – atravessados por obsessões, zonas de sombra, formas do desassossego –, Ana Teresa Pereira tem escrito livros para um público juvenil. A simplicidade muito trabalhada da prosa é a mesma, mas posta ao serviço de histórias reconfortantes e amenas, sem qualquer tipo de angústias, estremecimentos ou ameaças. Serão, talvez, um contraponto solar ao negrume habitual da autora. Mas são sobretudo uma homenagem às atmosferas típicas das aventuras de Enid Blyton, transpostas para a ilha da Madeira. «Parece que estamos numa aventura dos Cinco», diz-se a certa altura. E parece mesmo. Há crianças, há um cão, há passeios ao ar livre com farnel, há até um arremedo de mistério policial (em torno do desaparecimento de um colar de pérolas).
Tal como em muitos livros da escritora britânica, e como no anterior A Porta Secreta (2013), os irmãos protagonistas não têm pai. A mãe, omnipresente, leva-os de visita a uma estalagem no Paul da Serra, lugar com «qualquer coisa de encantatório». O clima é de despedida, porque o negócio já conheceu melhores dias e as proprietárias ponderam a venda da estalagem a um casal que fará – temem os hóspedes habituais – alterações drásticas.
Durante o tempo da estadia, os gémeos Hugo e Daniela ficam a conhecer a Lagoa da Bruma e os seus segredos; o fascínio da neve; mais a difícil amizade de Íris, a pouco sociável sobrinha das donas. Tudo é contado devagar e com uma certa volúpia na descrição dos detalhes. O arco narrativo não podia ser mais suave. As arestas desaparecem, como a paisagem dentro do nevoeiro. Afinal, lembra-nos o último capítulo, «nem todos os epílogos são tristes».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Prosa do Transiberiano

maylis

Linha de Fuga para Leste
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Tangente vers l’est
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8580-29-0
Ano de publicação: 2014

Em Junho de 2010, quinze escritores franceses participaram numa viagem de três semanas no Transiberiano. Da delegação faziam parte, entre outros, Jean Echenoz, Olivier Rolin, Dominique Fernandez, Mathias Énard e Maylis de Kerangal, uma escritora que a Teorema deu a conhecer ao público português em 2011, com Nascimento de uma Ponte, um belíssimo romance. No regresso do périplo através da Rússia, Kerangal lançou-se imediatamente na escrita, correspondendo a uma encomenda da France Culture, que lhe pediu um texto que cobrisse duas horas e meia de tempo radiofónico. Dessa prosa inicial, trabalhada para ser lida em voz alta, nasceria depois Linha de Fuga para Leste”, uma novela de ritmo e musicalidade exemplares.
Entre Krasnoiarsk e Vladivostoque, acompanhamos o momento em que se tocam duas trajectórias de vida quase opostas. Começamos por descobrir Aliocha, um russo de 20 anos, perdido na pequena multidão de mancebos que partem de Moscovo num comboio. O destino exacto da viagem foi-lhes ocultado, mas é indiferente: à chegada, sabem que os espera uma recruta violenta, «experiência limite» em «terra de desterro», algures na Sibéria, para lá de Novosibirsk. Órfão, Aliocha vive com a avó e não tem dinheiro para pagar um certificado médico falso, ou qualquer outro esquema de corrupção. É introvertido e virgem, incapaz de seduzir uma rapariga para a engravidar – último recurso para se conseguir uma dispensa, quando tudo o resto falha.
Na última carruagem, testa colada ao vidro traseiro do Transiberiano, «hipnotizado pelos carris», o rapaz tenta não pensar na lendária brutalidade das praxes a que submetem os caloiros (não os deixam dormir, forçam-nos a lamber sanitas, sodomizam-nos, queimam-lhes «a ponta do sexo com cigarros»). A ideia de fuga materializa-se durante esses devaneios, uma decisão que o ambiente concentracionário do comboio, sob a estrita vigilância do «sádico» sargento Letchov, só reforça. Cruza-se então com Hélène, uma francesa de trinta e tal anos, também ela a escapar de alguma coisa, a querer afastar-se de Anton («Anton, como Tchekov»), o amante russo, «filho de Gogol e de Estaline», chefe de uma barragem no coração de um país a que ela não se consegue habituar. Entre o desertor «potencial» e a mulher perdida na desmesura das planícies siberianas, estabelece-se um vínculo, uma cumplicidade. Partilham cigarros, vodca, e uma janela que é como um ecrã de cinema, «onde tudo se move lentamente, molecular como o terror e o desejo». Sem língua comum, falam por gestos, «um início de mímica», mas entendem-se. Ajudam-se um ao outro. E hão-de chegar ao Pacífico, a tempo de perceber que são muito mais semelhantes do que poderiam imaginar.
Kerangal consegue gerir, com assinalável mestria, a estranheza do improvável encontro entre dois mundos que em princípio nunca se deveriam cruzar (ela no conforto relativo da primeira classe, onde pode dormir sozinha; ele no caos da terceira, onde não há compartimentos e os passageiros se espalham ao deus dará). Tanto estamos de um lado como do outro. Entramos nas histórias, traumas e fantasias dos dois, à vez, tal como assistimos de fora ao espanto mútuo. E à curva ascendente de uma tensão sexual que se dissolve, quase no fim, numa cena extraordinária em que Hélène lava o corpo de Aliocha no aperto da casa de banho minúscula, e depois ele retribui. Há entre os dois algo de precioso, algo que a insensatez de um gesto a mais não chega a quebrar.
Esta é uma história simples, narrada com intensidade e subtileza. Mas o triunfo de Kerangal está na linguagem, nas longas frases buriladas até à perfeição, na prosa dúctil que mimetiza o clangor do comboio em movimento («os carris irreversíveis desenrolam o país, desembalam, desembalam, desembalam a Rússia»), dando forma a «uma temporalidade desconhecida, elástica e flutuante». A prosa acolhe a paisagem, reflecte-a, absorve-a. E acabamos a ver nela o esplendor do Baikal: «tanto mar interior como céu invertido, precipício e santuário, abismo e pureza, tabernáculo e diamante, é o olho azul da Terra, a beleza do mundo».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Antevisão das novidades editoriais previstas para os primeiros meses de 2015, por José Mário Silva
- São Carlos – Um Teatro de Ópera para Lisboa, organização de João Mascarenhas-Mateus e Carlos Vargas (Imprensa Nacional Casa da Moeda-Teatro Nacional de São Carlos), por Luciana Leiderfarb
- Linha de Fuga para Leste (Teodolito), por José Mário Silva
- A Conversa de Bolzano, de Sándor Márai (D. Quixote), por José Guardado Moreira
- O Visitante da Noite & outros contos, de B. Traven (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
- Obscénica, de Hilda Hilst e André da Loba (Orfeu Negro), por Carlos Bessa
- Mar, de Afonso Cruz (Alfaguara), por Pedro Mexia
- A Estalagem do Nevoeiro, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- Papá em África, de Anton Kannemeyer (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
- Projetar a Felicidade, de Paul Nolan (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

- Entrevista com Valério Romão sobre o livro de contos Da Família (Abysmo) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Amanhã na Batalha Pensa em Mim, de Javier Marías (Alfaguara), por Pedro Mexia
- Teremos Sempre Paris, de Ray Bradbury (Bizâncio), por José Guardado Moreira
- História de Espanha, de J. Valdeón, J. Perez e S. Juliá (Edições 70), por Luís M. Faria

O olhar do viajante

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Não se Encontra o que se Procura
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 266
ISBN: 978-989-724-193-2
Ano de publicação: 2014

O novo livro de Miguel Sousa Tavares é uma miscelânea de textos muito diferentes, quer no tom, quer nas circunstâncias que lhes deram origem. Há de tudo: artigos de fundo, apontamentos breves, diários, esboços biográficos, desabafos, comunicações lidas em encontros literários. Sem surpresa, vemos desfilar tanto as paixões conhecidas (a boa mesa, os amigos, o sul, a caça, os passeios todo-o-terreno, o Brasil, a civilização mediterrânica, o F.C.P.) como os não menos conhecidos ódios de estimação (a nouvelle cuisine, a arte contemporânea, o turismo de massas, os autarcas que destroem o litoral, o ‘apartheid‘ contra os fumadores, as revistas cor-de-rosa, o Facebook).
A escrita é desenvolta e fluida, sobretudo nos textos sobre viagens. Entre outras transumâncias, Sousa Tavares narra a estadia numa ilha croata, onde se isolou para terminar um livro; descreve uma tempestade que «rasga os céus com relâmpagos» sobre o Bósforo; exalta as «construções que levitam sobre a terra ocre» de Brasília (esse «delírio do absoluto no meio do nada»); lembra uma volta pela Sicília, de regresso à «excessiva beleza» de Taormina (com medo de «sair magoado do reencontro», o que não acontece, porque «nada mudou»); deslumbra-se com um voo de helicóptero sobre as cataratas de Victoria Falls; e enche-nos de adrenalina ao explicar a sensação de aterrar no porta-aviões USS Nimitz. Bom observador, atento aos detalhes, mostra mais uma vez que sabe captar uma paisagem, a atmosfera de um lugar, o rasto de quem por lá andou.
É nos diários, a acompanhar as estações do ano, que o escritor se entrega a reflexões mais pessoais sobre a vida do dia-a-dia ou sobre a passagem dos anos, ao mesmo tempo que comenta a actualidade, fixa memórias, vigia o crescimento das buganvílias no pátio da sua casa alentejana, fala dos filhos e dos amores, assinala a génese de alguns livros, e faz um inventário de perdas, desilusões, sustos com a saúde, mas também pequenos júbilos. Num livro com textos de épocas tão díspares – há uma aproximação a Corto Maltese feita em 1995 e uma crónica (aliás, perfeitamente dispensável) sobre Jessica Athayde, escrita no passado mês de Outubro – é difícil compreender porque motivo os mesmos não estão datados. O desleixo editorial estende-se à revisão, que deveria evitar pleonasmos («exausto de cansaço»), entre outros deslizes («um pomar de laranjas», «better red than death», etc.).
Na ânsia de tudo abarcar, Miguel Sousa Tavares tornou o livro desequilibrado. Os perfis sobre escritores (Stevenson, Hemingway, T. E. Lawrence) e os artigos mais extensos, sobre a mudança do século XIX para o XX, ou sobre a «longa traição» dos intelectuais comunistas, pouco acrescentam. São mero lastro. Quanto às meditações do escritor diante do seu ofício, pecam pela insistência numa mesma tecla (a predominância da «história» e das «personagens» sobre tudo o resto), alimentando uma visão conservadora da arte e uma tendência para o lugar-comum.
O que salva o livro da mediania são as muitas evocações da mãe, Sophia. Comovido, Miguel partilha os seus ensinamentos («viajar é olhar», ouviu-lhe ele certa tarde na Piazza Navona, em Roma), o «território da infância» que eram as grutas de Lagos, a estante dela onde só ficavam os livros de que gostava («quase tudo poesia»), uma fotografia tirada na Índia onde aparece «como se flutuasse», e sobretudo uma presença fortíssima que ainda persiste, persistirá sempre, na vida do filho («a tua voz tranquila, as palavras ditas sem desperdício algum, a tua mão desenhando danças sobre o tampo da mesa, o fumo do cigarro perdido no vento que tudo leva, a força, que me ensinaste, de nunca trair, de nunca mentir, de enfrentar mesmo a mais negra escuridão»).

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Juntos Outra Vez: biografia autorizada de Victor Gomes, de Ondina Pires (Edição de Autor), por João Santos
- Não se encontra o que se procura, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor), por José Mário Silva
- Dual, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Os Crimes do Monograma, de Sophie Hannah (ASA), por José Guardado Moreira
- A Primeira Guerra Mundial, de John Keegan (Porto Editora), por Luís M. Faria
- O Condómino, de António Gregório (Língua Morta), por José Mário Silva

Escrever para largar lastro

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Há entrevistas absolutamente lineares: pergunta, resposta, pergunta, resposta. Assunto A leva ao assunto B, o B leva ao C, o C ao D, etc. Tudo muito bem arrumadinho. E depois há conversas que nascem e se expandem no caos, sem princípio nem fim. O encontro com António Gregório, que este texto tentará em vão resumir, é um exemplo perfeito da segunda categoria. Aconteceu num dia gélido, num café do Jardim Zoológico de Lisboa, mesmo em frente ao terminal rodoviário em que o escritor, vindo de autocarro desde Leiria, desembarcou. Antes, houve da nossa parte a leitura entusiasmada de uma novela – O Condómino (Língua Morta) – que merece figurar entre os melhores livros de ficção portuguesa de 2014. Num prédio anódino, um homem fechado em casa, recluso por vontade própria, assiste aos movimentos da vida quotidiana dos outros condóminos através do óculo da porta, dedicando-se com brio ao «meticuloso trabalho da inexistência». A pouca espessura da história dá espaço à inteligência narrativa e a um notável trabalho com a linguagem.
Mas quem é António Gregório? As badanas do seu novo livro não ajudam, porque a Língua Morta (tal como a &Etc) oculta quaisquer informações biográficas sobre os seus autores. O seu livro anterior – American Scientist, poemas publicados pelas edições Quasi, em 2007 – também não adianta muito: revela apenas que António Gregório «nasceu em Leiria, em 1970». Eis então o nosso homem, gorro nova-iorquino na cabeça, diante de uma chávena de café, avançando e recuando, tergiversando, fazendo da conversa um exemplo de desordem produtiva. Do percurso até agora, fica a referência à passagem pelo curso de Física, iniciado na universidade de Braga mas não concluído, às leituras tardias e irregulares, ao impulso da escrita sempre presente («mas adiado por preguiça e desorganização»), aos vários trabalhos braçais por que foi passando («em armazéns de supermercado, coisas dessas») até ao actual estado de desemprego que o levou, finalmente, a dedicar-se de forma mais séria à escrita.
Entre Uma História de Desamor Treze Vezes (Ambar, 2005), o primeiro livro, e O Condómino há um intervalo de quase uma década, com o voluminho de poemas pelo meio (versos «muito prosaicos, uma espécie de polaroides» sobre, mais uma vez, uma situação de perda amorosa, «tema que dá pano para mangas»). A ideia para a novela surgiu pouco depois da escrita, rápida, do livro de contos. «Comecei a trabalhar logo na altura, mas depois a coisa emperrou. Parava, arrancava. Parava, arrancava. Quando a Língua Morta me sugeriu que escrevesse uma colectânea de contos, ainda tentei transformar ‘O Condómino’ numa narrativa mais curta, mas não dava. Decidi então que ou conseguia acabá-la de vez ou desistia. Era agora ou nunca. E lá aconteceu.» Mais do que triunfo, houve uma sensação de alívio: «Aquilo já estava a ocupar muito espaço. Espaço mental. Enquanto não o concluísse, não conseguiria pensar em mais nada.»

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No seu Facebook, Gregório confessou ter escrito uma novela que conta uma história, apesar de embirrar com novelas que contam histórias. E porquê essa embirração? «Para mim, a literatura não pode ser o moço de fretes de uma história. Não pode servir só como veículo. Em tempos, o texto era apenas um acessório de memória. Já não é assim. O meio tornou-se a própria arte. A história é um combustível barato que leva o livro para a frente, mas eu prefiro o que está para lá da história; ou seja, o trabalho de escrita, a linguagem.» Se o enredo é o que sobra de um livro, se for possível contá-lo a alguém, resumi-lo a factos e acções, então «isso quer dizer que o livro não é bom».
Quando foi estudar para Braga, Gregório viveu pela primeira vez num apartamento (até aí morara sempre em vivendas) e descobriu o óculo de porta. «Passou a ser o meu brinquedo.» Espreitando por ali, assistia ao movimento do condomínio, vizinhos passando para baixo e para cima. «Ficou-me daí a ideia. Mas depois pensei em levar aquilo ao extremo. Gosto muito de extrapolar a vivência pessoal, real, e puxá-la para o limite do absurdo, do pouco razoável.» Nasceu assim o misantropo narrador de O Condómino, um enterrado vivo de quem sabemos pouquíssimo. Nunca nos é revelada a sua idade, nem a sua existência anterior, nem as motivações para o isolamento. «Quis que nunca se soubesse porque razão ele vive assim. Passou-me pela cabeça explicar o porquê. Mas a literatura é exactamente não explicarmos isso. Se tivesse explicado, estragava o livro.»
Da mesma forma, não houve qualquer intuito de utilizar o livro como representação de outra coisa qualquer. A solidão extrema do protagonista de O Condómino é só a solidão extrema daquela pessoa. «Nada de parábolas. O livro é o que está aí. Não há sermão, não há moral, não há analogia sobre coisa nenhuma. Tudo o que for para lá do texto é da responsabilidade do leitor.» Ao trabalho de ficção cabe criar a sua própria realidade. «Embora obviamente não me esteja a comparar, procurei fazer o que fazem as grandes obras, as não datadas. Ou seja, oferecer uma grande margem para que o leitor se misture com elas, acrescentando-lhes as suas circunstâncias. É a diferença entre o entretenimento e a arte. Podes ter cem mil pessoas a assistir a uma obra de entretenimento do mesmo modo, mas não há duas pessoas que reajam a uma obra de arte de maneira igual.»
A principal dificuldade durante o processo de escrita, admite António Gregório, teve a ver com «problemas logísticos». Gerir o que vai ficando para trás, a totalidade do que já se escreveu, eis o busílis da questão. «Com um conto, conseguimos facilmente abarcar todo o material narrativo. Numa novela tens de subir mais alto para ver tudo, há mais informação. É muito mais exigente. Tens de te lembrar do que escreveste há 50 páginas. Nunca consegui lidar bem com isso.» A criação de um espaço muito reduzido – pouco mais do que as escadas do prédio – foi um expediente. «Se não queria confinar o texto, tinha de confinar o espaço em que a história decorre. Era a única forma de dar conta do recado. Evitei sair para o exterior, porque talvez não tivesse competência para descrever o mundo real.» A culpa pode ser atribuída a uma memória «pouco prática», que só acumula «lixo, flashes, vislumbres». Mas que tem a seu favor a capacidade de construir uma realidade coerente a partir deles. «Se estivermos muito tempo no escuro, começamos a ver melhor na penumbra. Se estivermos em silêncio absoluto, começamos a ouvir o bater do nosso coração. Passou-se isso com o texto. Como não acontecia quase nada, a atenção aos pequenos acontecimentos ficou cada vez mais aguda.»
Desde sempre, a escrita correspondeu a uma necessidade de «largar lastro». Já era assim com os diários, «que não têm interesse nenhum», continua a ser com a ficção. «Quando li o Proust, uma das coisas que lhe invejei foi o lastro que ele largou, havia um frenesim de soltar memória. A felicidade de escrever será isso: uma maneira de largar o lastro acumulado. Quando acabei, senti essa leveza. Mas depois vem a publicação e ficas um bocado aflito.» As opiniões alheias são sempre uma incógnita. E há a tendência habitual de procurar no livro um espelho do autor. «O condómino não sou eu, claro. Mas também sou eu, na exploração que é feita de um certo tipo de racionalidade. Ele é um frustrado, um tipo que perdeu todos os comboios. Eu se calhar não sinto a frustração porque a escrevo. É essa a parte autobiográfica.»
Aos quarenta e tal anos, António Gregório sente-se bem por não corresponder à imagem instituída do escritor jovem. Não anda pelo mundo a saltar de festival em festival («os escritores assemelham-se cada vez mais a caixeiros viajantes»), não se promove no Facebook, não se imagina a falar eternamente sobre os seus livros, em circuito fechado, nem em diálogos permanentes com os leitores. Numa era de crescente transparência, em que os escritores partilham nas redes sociais quase tudo o que fazem, dizem, ou escrevem, defende o contrário disso tudo. Uma certa opacidade. «Se soubermos pouco, ou nada, sobre um autor, isso adensa ainda mais a leitura. Se soubermos tudo, esvazia-a.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Balanço do ano, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
- Conversa com António Gregório sobre a sua novela O Condómino (Língua Morta), por José Mário Silva

David Nicholls: “Na vida quotidiana, nós não vivemos segundo as regras de um género literário”

David Nichols

Em 2009, o escritor inglês David Nicholls, até então mais conhecido como argumentista e actor, publicou o seu terceiro romance, Um Dia, que se tornou rapidamente um best seller mundial, com mais de cinco milhões de exemplares vendidos e traduções em 37 línguas – além de uma adaptação cinematográfica, com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos principais papéis. Durante os cinco anos seguintes, Nicholls passou por vários bloqueios, falsas partidas e tentativas falhadas, até que lançou no Reino Unido, este Outono, o muito aguardado sucessor: Nós, imediatamente traduzido para português e publicado pela nova editora Jacarandá, mesmo a tempo do Natal. Em Lisboa para promover o livro, que entrou para a longlist do Man Booker Prize, o escritor recebeu o Expresso numa manhã fria, desculpando-se por estar constipado. Mais tarde nesse dia voltava de avião a casa, onde o esperaria, segundo as agências noticiosas britânicas, uma tempestade «explosiva» (weather bomb). Talvez antecipando o nervosismo da viagem, durante a conversa pegou na colher prateada que lhe trouxeram com o chá e brincou com ela o tempo todo, passando-a de uma mão para a outra.

Depois do enorme sucesso do seu terceiro romance, Um Dia, que o tornou uma estrela no meio literário britânico, ficou cinco anos sem publicar. O êxito foi um fardo, um obstáculo para chegar ao livro seguinte? Como é que lidou com isso?
Nunca senti que o inesperado sucesso de Um Dia fosse uma coisa negativa. Acontece que passei muito tempo a fazer outras coisas para além da escrita. Respondi a imensas mensagens e cartas, fiz jornalismo, andei pelo mundo a promover o livro. Foi uma roda-viva que durou uns três anos. Na verdade, eu nunca deixei de escrever, só que o fazia para televisão ou cinema. Sou argumentista. E esse trabalho ocupava muito do meu espaço mental. Claro que havia também o problema do excesso de auto-consciência, o receio de que o romance seguinte não fosse tão bom, ou tão apreciado. Não queria escrever uma história que funcionasse como um anti-clímax para os meus leitores. E por isso precisei de tempo. Teria sido provavelmente mais fácil escrever logo de seguida outro livro. O meu editor teria ficado radiante. Mas eu preferi esperar por algo que representasse um passo em frente.

No seu lugar, alguns escritores sentir-se-iam tentados a escrever uma variação sobre a fórmula de sucesso, enquanto outros optariam talvez por um livro que funcionasse como antítese, uma prova de que são capazes de fazer uma coisa radicalmente distinta. Em Nós não acontece uma coisa nem outra.
Tem toda a razão. Este livro é diferente do anterior, mas não demasiado. É suficientemente diferente para me satisfazer enquanto escritor, mas não ao ponto de irritar ou alienar os fãs de Um Dia. É uma questão de equilíbrio.

Foi complicado atingir esse equilíbrio?
Na verdade, logo a seguir a Um Dia eu escrevi um livro que não era, ao contrário daquele, uma história de amor. Centrava-se apenas numa relação entre pai e filho. Escrevi perto de 35 mil palavras. Mas não foi divertido. Estava muito longe de ser um livro agradável.

Não funcionava? Não.

Porquê?
Estava escrito na terceira pessoa. O tom era muito cínico, mal-intencionado, julgador. Eu punia o protagonista. Era um livro zangado. Acabei por o deitar fora.

Não aproveitou mesmo nada? É que em Nós também assistimos a uma relação difícil, complexa, entre pai e filho.
Pois, mas aquelas personagens eram muito diferentes. O pai não passava de um parvalhão. Uma verdadeira desgraça, um adulto incapaz de crescer. Já o filho era um pedante, muito conservador. No Nós, o pai e o filho têm dificuldade em entender-se mas gostam verdadeiramente um do outro. Ali, não. Faltava o amor. Não havia afecto entre as personagens. Só mostrei o manuscrito a duas pessoas, que concordaram com a minha decisão de o eliminar numa fase precoce. Podia ter ido até ao fim, mas demoraria uma eternidade e seria um flop horrível.

Custa abdicar de tanto trabalho?
Custa. Sentes que foi um desperdício de energia. Mas por outro lado é um desperdício necessário. Tens de ter alguma coisa com a qual lutar, alguma coisa de que te queiras afastar. Ainda assim, preferia não ter perdido tanto tempo. Foram quase 18 meses. Claro que nesse período fiz outras coisas: filmes, adaptações para a TV. Estive sempre ocupado. Não nego, porém, que o longo hiato me preocupava. Cinco anos é muito tempo.

Teve receio de que os seus leitores o abandonassem?
Sim. Todos os anos há um novo fenómeno, um novo livro que causa furor, não é? Na verdade, eu nem sequer tenho razões de queixa. Saí-me bem. No Reino Unido, a recepção a este novo livro foi muito boa e as vendas até suplantaram as de Um Dia. Fiquei contente, mas daqui a dez anos posso perfeitamente vir a ser um escritor rancoroso, a espumar de raiva e inveja porque algum jovem autor ficou na berlinda em vez de mim. Estou a brincar, claro. O que me preocupa mesmo é repetir-me. Quero limitar esse risco. Embora provavelmente os leitores não se preocupem assim tanto com o assunto. Quem lê um livro da J.K. Rowling não suspira: «Oh não, outra vez feiticeiros!» Os leitores de Graham Greene sabem que encontrarão sempre, nos seus romances, a culpa, o catolicismo, o álcool. E é assim que está bem. Por muitas voltas que desse, o Kafka só sabia ser kafkiano.

Chegou a sentir, em algum momento, a pressão dos editores?
Não propriamente, porque eles sabiam que eu estava a fazer outras coisas. Houve sempre filmes ou séries escritas pelo autor de Um Dia, uma presença mais ou menos constante junto do grande público. Mas lá viria o dia da pancadinha no ombro: «nós temos um contrato, lembras-te?» Porque uma coisa é manter as pessoas curiosas sobre o que aí vem, outra coisa é as pessoas de repente perguntarem: «Quem é David Nicholls?»

A força motriz inicial da narrativa, em Nós, é uma «tournée cultural, com visitas aos museus das grandes cidades europeias. A viagem como desafio à unidade familiar?
Sim. A típica viagem de aprendizagem, à maneira do que se fazia no tempo da rainha Victoria. Escolhi essa forma de viajar porque é uma coisa que adoro fazer. E sobre a qual sei muito pouco. Nisto sou muito parecido com o protagonista (Douglas): eu entro no Louvre e sinto-me um bocadinho perdido. Não sei distinguir os bons Tiziano dos maus Tiziano, ou dos Tiziano menos bons. E no entanto gosto de estar ali, adoro a experiência.

Esteve em todos os museus referidos no livro?
Estive. Mas não num período tão curto (três semanas). Houve alguns a que voltei porque tinham sido remodelados. Voltei ao Prado, por exemplo, porque tinha mudado muito desde que lá fui, em 1998. É agora um museu completamente diferente. Sobretudo, voltei aos museus na pele do meu personagem, olhando para os quadros e para as coisas com os olhos dele. Mas claro que nós somos diferentes. Eu vou a Madrid e vejo uma cidade louca, viva, fantástica, enquanto para ele há demasiado caos. Não sou tão ingénuo, creio. A Europa continental não me parece tão distante como parece ao Douglas.

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Quando começou a escrever, já tinha a estrutura do livro bem delineada?
Sim. Sabia o que se ia passar em cada cidade, onde aconteceriam as crises, os quadros que eles veriam, e a forma como os factos do presente se entrelaçariam com as memórias de coisas passadas. Não é algo que para mim seja difícil. Gosto muito de criar este tipo de estruturas narrativas. Complicado seria escrever um romance mais convencional, uma história linear. Divirto-me a espalhar as revelações do enredo, colocando-as no tempo certo. Muitos escritores começam só com uma caneta e a página em branco. Têm uma imagem e basta-lhes. Uma descrição. Um diálogo. Depois tudo flui a partir dali. Eu nunca, nunca, nunca faria isso. Aterrorizar-me-ia trabalhar assim.

Antes da primeira palavra, tem de ter tudo estruturado na sua cabeça. É isso?
Precisamente. Eu uso sempre dois ficheiros no meu computador. Um com o romance. Outro com notas. São dois simples ficheiros de Word, nada de muito sofisticado. Um alimenta o outro. Eu sei que há muitas ferramentas informáticas para escritores. Quando bloqueio, às vezes uso-as. Fiz download disso tudo. Mas, quando é preciso, o que eu uso mais é o Final Draft, um software para argumentistas. Permite pensar em termos de «batimentos» narrativos e de cenas. Posso mover facilmente as coisas de um lado para o outro.

Os capítulos deste livro são muito curtos. Há 180 em pouco mais de 400 páginas. Fazem lembrar peças de Lego, na medida em que funcionam como unidades de informação que poderiam ser colocadas em vários lugares. E esta analogia torna-se mais interessante se pensarmos que uma das cenas fundadoras do mal-estar familiar acontece quando Douglas, o pai, cola as peças de Lego do filho umas às outras, para consternação deste e da mãe.
Curiosamente, o que fiz mais depressa no livro foi isso: o «colar» das peças umas às outras. O que demorou mais tempo a conseguir foi o tom da prosa, o estilo. Na primeira versão, por exemplo, o Douglas não percebia as piadas. Tinha menos consciência de si próprio. Era mais seco. Mais encolhido. Na versão final, tornei-o mais engraçado. Mas não mudei a estrutura.

Há um momento em que Douglas acredita que a história poderia ser contada como um romance de formação do filho, mas se há alguém que muda, e se torna mais maduro, é ele, é o pai.
Sem dúvida. Foi mesmo essa a minha ideia desde o princípio. Acredito que se tiveres determinadas experiências aos cinquenta e tal anos, como as que Douglas tem, podes ainda transformar-te, no bom sentido. Ele muda muito, realmente. Pode dizer-se que é o bildungsroman de um homem de meia-idade.

Também podemos dizer que se trata de um livro sobre a extrema dificuldade de viver com o outro, com alguém que amamos mas é muito diferente de nós.
Sim. Hoje em dia, cada vez mais pessoas conhecem os companheiros e amantes através de sites de encontros online. Os algoritmos procuram quem partilha connosco os mesmos interesses, gostos culturais, opiniões políticas, estilos de vida. Mas raramente surgem boas relações por essa via, porque estamos a falar de imagens ao espelho. O amor tem muito mais a ver com as diferenças, com a faísca que essas diferenças causam.

Nós é quase sempre divertido, tem muito humor, mas por vezes consegue ser muitíssimo triste. Também houve uma planificação dos tons emocionais do livro?
Houve. Eu tinha noção de que algumas passagens do livro seriam particularmente duras, sobretudo as que têm a ver com o sofrimento, mas isso aparece misturado com o desconcertante flirt do Douglas com uma escandinava, em Veneza. Gosto destes contrastes, de deixar o leitor num impasse, sem saber se há-de rir ou chorar. E acaba por ser, no fundo, um reflexo de como as coisas se passam na realidade. Na vida quotidiana, nós não vivemos segundo as regras de um género literário.

Ao longo da narrativa, só nos é oferecida a perspectiva de Douglas, o narrador único. Nunca ouvimos o que Connie, a mulher, e Albie, o filho, teriam a dizer. Porquê?
É uma questão interessante. Mesmo se escrevesse na terceira pessoa, acho que continuaria preso ao ponto de vista dele. Douglas é o mais interessante dos três porque nunca diz, em voz alta, o que sente. É isso que o distingue. Se tivéssemos acesso aos pensamentos e emoções da Connie, veríamos que em grande medida se reflectiriam nas suas acções e nas suas palavras. O mesmo se passa em relação a Albie.

Disse que compatibiliza o guionismo com a escrita literária. Como é que se dá essa passagem? Qual a diferença entre escrever para o papel e escrever para o ecrã?
Quando escrevemos um guião, se contarmos as palavras, chegamos a umas 20 mil palavras. Para um romance, são no mínimo 100 mil. Além disso, das 20 mil palavras há 15 mil que correspondem a descrições, didascálias, essas coisas. Sobram umas cinco mil palavras de diálogo imaginativo. É muitíssimo menos do que no romance. Ou seja, o guionismo é mais técnico. É mais sobre o que as personagens fazem e por onde andam. Há menos envolvimento emocional na escrita. Acontece, mas é mais raro.

O domínio dessas técnicas de escrita do guionismo traz benefícios ao romancista?
Creio que sim. Depois de escrever muitos argumentos, sobretudo para televisão, ganhamos um sentido agudo do que é suposto cortar. Ganhas a noção de quando uma cena já se está a repetir. O foco é sempre colocado no sentido de levar as coisas para a frente, em progressão dramática. Isto tem vantagens, mas também desvantagens. Porque um romance não tem de funcionar necessariamente assim. Pode ser digressivo, confuso, nem tudo precisa de encaixar. É por isso que combato a tendência para pensar logo «eu cortava isto», sobretudo quando me impaciento com romances longos.

A escolha de Nós para a longlist do Man Booker Prize deste ano foi uma surpresa?
Claro que sim. Uma grande surpresa. E uma enorme alegria. Até porque este é um livro totalmente centrado na família e nas questões do amor. Temas pouco habituais nos livros escolhidos para as listas dos prémios de maior prestígio.

Os júris, é sabido, têm os seus preconceitos. O facto de Um Dia ter sido um enorme best seller provavelmente não jogava a seu favor.
Os preconceitos assumem muitas formas. Por exemplo, houve alguém que considerou simpático eu estar na longlist, porque o livro é bastante legível e divertido, mas depois acrescentou que eu não devia ganhar. Razão? Simplesmente porque eu não preciso do prémio para nada, ao contrário de outros autores menos afortunados.

Como o australiano Richard Flanagan, que veio a vencer, numa altura em que já ponderava ir trabalhar para as minas, por falta de dinheiro.
Sim. E não me referia apenas ao cheque do prémio, mas também ao número de leitores que se ganham. Eu fiquei contente pelo Richard. O livro dele (The Narrow Road to the Deep North, a editar em breve pela Relógio d’Água) é muito bom e tem o perfil certo para ganhar o Booker. Ninguém esperaria que eu ganhasse e eu também não queria que isso acontecesse. Teria sido polémico.

E agora a pergunta fatal: vamos ter de esperar outros cinco anos pelo sucessor de Nós?
Não sei. Espero que não. Mas agora falta-me espaço mental para começar. Lá para o fim do ano de 2015, quem sabe, pode ser. Vamos com calma.

Essa atitude descontraída é mesmo sincera?
Hmmmm… Temo que não. Provavelmente inquieto-me e penso mais nisso do que devia.

Obrigado pela franqueza.
De nada.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Anatomia de uma separação

nós

Nós
Autor: David Nicholls
Título original: Us
Tradução: Ana Cunha
Editora: Jacarandá
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-87-5216-1
Ano de publicação: 2014

Douglas Petersen, um bioquímico de 54 anos, algo obtuso na sua relação com o mundo moderno, é acordado a meio da noite pela mulher. O casal está a poucos meses de ver o filho partir para a universidade e Connie, antecipando-se talvez à síndrome do ninho vazio, anuncia que o «casamento chegou ao fim». As ondas de choque provocadas por esta decisão não comprometem o projecto de uma viagem pela Europa com Albie, espécie de grande digressão cultural com vista a preparar o adolescente «para o mundo adulto, como no século XVIII». Ou seja, a família tem à sua frente quase um mês de visitas a museus em cidades históricas, com longos trajectos de comboio entre elas. A ideia é começar em Paris e seguir por Amesterdão, Munique, Verona, Veneza, Florença, Roma e Nápoles. Mas as coisas depressa dão para o torto quando um desentendimento na Holanda, entre Douglas e o filho, provoca a fuga precipitada deste para Itália, pelos seus próprios meios e sem revelar o paradeiro, na companhia de uma namorada de ocasião, acordeonista de rua. Connie regressa a Inglaterra e Douglas encarrega-se de procurar Albie, como quem procura uma agulha num palheiro.
Apesar da abrangência sugerida pelo título, Nós é narrado apenas por Douglas. Através dele, assistimos à metamorfose da história. Se de início ele pretende aproveitar a viagem para reconquistar Connie, o papel de pai (com todo seu historial de questões mal resolvidas) acaba por sobrepor-se ao de marido, embora todos os planos afectivos estejam emaranhados – ou não fossem as divergências sobre o modo de educar Albie a origem das principais tensões internas do casal. Quando fica sozinho em busca do filho, o relato de Douglas assume contornos de romance picaresco. De Siena a Madrid, com um último acto em Barcelona, acontece-lhe de tudo: documentos perdidos, queimaduras do sol, uma detenção rocambolesca, picadas de alforrecas, experiência de quase-morte e um simulacro de final feliz. É uma jornada de aprendizagem, durante a qual assistimos à espantosa transformação de um homem de meia-idade, ainda muito a tempo de deitar para trás das costas a sua proverbial rigidez.
Ao decidir contar esta crónica de uma separação anunciada em 180 fragmentos que vão e vêm no tempo, entre o presente da viagem pela Europa e o passado das várias fases (boas e más) de um casamento, Nicholls construiu uma estrutura narrativa de uma eficácia absoluta. Os vários planos entrelaçam-se com naturalidade, tudo flui, dos diálogos ao humor quase sempre certeiro (e bem transposto pela tradução de Ana Cunha), mas o que torna a narração muitíssimo vívida é uma atenção extrema aos detalhes. Exemplo: durante um filme ao ar livre, «o céu escureceu e a projecção ficou mais definida, as andorinhas a dardejarem diante do ecrã como mosquinhas no celulóide – ou talvez fossem morcegos, ou as duas coisas». A prosa aparenta por vezes falsa leveza, um brilho fácil, uma perfeição estilizada, mas se olharmos com cuidado descobrimos súbitos abismos e uma gravidade escondida debaixo dessa primeira camada, como nalguns dos quadros clássicos que a família Petersen contempla nos velhos museus da Europa continental.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com David Nicholls sobre o seu romance Nós (Jacarandá) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Ode Marítima/Maritime Ode, de Álvaro de Campos, trad. de Richard Zenith e desenhos de Pedro Sousa Pereira (Clube do Autor), por Alexandra Carita
- Uma História do Mundo em 100 Objectos, de Neil MacGregor (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Rio Torto, de Rui Lage (Língua Morta), por Pedro Mexia
- Limites da Ciência, de Jorge Calado (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por Virgílio Azevedo
- Na Senda de Fernão Mendes Pinto, de Guilherme d’Oliveira Martins (Gradiva), por Manuela Goucha Soares

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com David Toscana sobre o seu romance O Exército Iluminado (Parsifal) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Poesia Presente, antologia de António Ramos Rosa, organizada por Maria Filipe Ramos Rosa (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Ethel – Amanhã em Lisboa, de Cesário Borga (Planeta), por Alexandra Carita
- Acabar com Eddy Bellegueule, de Édouard Louis (Fumo), por Ana Cristina Leonardo

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Sugestões de Natal, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
- Entrevista com Edouard Louis sobre o seu romance Acabar com Eddy Bellegueule (Fumo), por Ana Cristina Leonardo
- Não Sabemos Mesmo o que Importa – Cem Poemas, de Paul Celan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Poesia Completa, de João Cabral de Melo Neto (Glaciar), por José Mário Silva
- O Continente das Trevas, de Mark Mazower (Edições 70), por Luís M. Faria
- O General Ramalho Eanes e a História Recente de Portugal, de M. Vieira Pinto (Âncora), por Luísa Meireles
- A Morte dos Outros, de Paulo da Costa Domingos (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva

Eugénio, Ramos Rosa e Sophia no Chiado

Logo à tarde, a partir das 18h30, o debate ‘Ler no Chiado’ abordará os poetas Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e Ramos Rosa, a pretexto da reedição recente das suas obras. Conversarei e lerei poemas com Fernando Pinto do Amaral e Inês Fonseca Santos, sob a moderação sempre instigante de Anabela Mota Ribeiro.

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Domingos de Agosto (Dom Quixote), Um Circo que Passa (Dom Quixote) e As Avenidas Periféricas (Porto Editora), de Patrick Modiano, por José Mário Silva
- A Casa da Aranha, de Paul Bowles (Quetzal), por José Guardado Moreira
- Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Dália Azul, Ouro Negro: Viagem a Angola, de Daniel Mettcalfe (Tinta da China), por Alexandra Carita
- Jim Curioso, de Mathias Picard (Polvo), por Sara Figueiredo Costa

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Afonso Reis Cabral a propósito de O Meu Irmão (LeYa) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- A Retirada dos Dez Mil, de Xenofonte (Bertrand), por Ana Cristina Leonardo
- Em Defesa do Tribunal Constitucional, de Jorge Reis Novais (Almedina), por Luísa Meireles
- 150 Anos de Arte Moderna num Piscar de Olhos, de Will Gompertz (Bizâncio), por Luís M. Faria
- Limiar dos Pássaros, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Filigrana em movimento

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O Meu Amante de Domingo
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 181
ISBN: 978-989-671-237-2
Ano de publicação: 2014

A protagonista de O Meu Amante de Domingo é uma mulher de 50 anos, loura e ainda mignone, revisora literária que passou a vida a ler, «sem jamais ter escrito». Mora no Alentejo mas vem a Lisboa todos os domingos, no seu jipe Lada Niva de 1994, para nadar vinte piscinas num ginásio e tratar da gata de uma amiga (ausente no Brasil, em pesquisas). Durante um mês, envolve-se com um dramaturgo 16 anos mais novo, a quem ela chama «caubói». Quando a coisa dá para o torto, por razões que só conheceremos quase no final, deixa-se tomar por uma raiva assassina e só pensa em «dar um tiro nos cornos» do «cabrão»; ou esmagar o «filho da puta» com uma pata de elefante indiano. Tripeira de Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, carrega forte e feio no vernáculo, que «a gente lá em cima não tem a língua presa».
Numa primeira aproximação, é impossível não ficar fascinado por esta narradora, verdadeira força da natureza que vai instaurando, no texto, a liberdade que procura para si mesma. Ferida, ela entrega-se inteira à vingança (mesmo se imaginária), porque nela a «fúria» é mais forte do que o «lamento». Pelo caminho, entregar-se-á a três amantes que representam arquétipos masculinos: o mecânico que escreve SMS com erros ortográficos e «reticências afrodisíacas» (um Sancho Pança); o amigo escritor, «futuro Nobel», calculista e cobarde, vagamente sórdido (um Nosferatu); e o nadador depilado que afinal trabalha para o Mark Zuckerberg do Facebook (um Apolo). São etapas necessárias na construção do apocalipse, embates que antecedem o último duelo, neste western sentimental, divertidíssimo apesar de trágico, em que no fim os caubóis perdem.
Há nisto tudo uma dimensão de puro delírio, de emoções levadas ao extremo, ao paroxismo do exagero total, com a verosimilhança a volatilizar-se (soprada, por uma vuvuzela, para o quinto dos infernos). A chave está, inevitavelmente, na literatura. São duas frases de Balzac a iluminá-la, fazendo com que veja o seu erro, o seu engano. E é Nelson Rodrigues, de cuja biografia (escrita por Ruy Castro) está a fazer a revisão, quem a acompanha no movimento da ira. Dizia o cronista brasileiro que «basta viver a fantasia de matar para esgotar o desejo». No seu caso, a fantasia assume a forma de um livro que começa a escrever, e onde se desdobra numa figura feminina que leva ainda mais longe os impulsos homicidas. Escrito à maneira de Brás Cubas, de além-túmulo, esse meta-romance vacila e naufraga, à medida que se esvai a «energia reversa» da vingança – «negativo da paixão» – de onde irrompeu.
A voz da protagonista de O Meu Amante de Domingo é tão forte, e o desassombro ao falar de sexo tão incomum, que a leitura do romance corre o risco de ficar demasiado presa a essa dimensão. Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência. Seria uma injustiça que a complexidade formal do livro, e os seus muitos níveis de leitura, ficassem ofuscados pela originalidade de uma personagem sem par na literatura portuguesa recente. Por muito que as cenas de sexo mais explícitas sejam antológicas (e são), a verdadeira beleza desta prosa está, por exemplo, na imagem de uma nespereira “atravessada pelo sol”, cuja sombra é “uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá”.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cortázar no Forum Fantástico

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Começou ontem e acaba amanhã a oitava edição do Forum Fantástico. A programação completa pode ser consultada aqui. Eu participarei mais logo, pelas 17h45, num debate sobre Julio Cortázar, com o seu mais recente editor em Portugal (Diogo Madre Deus, Cavalo de Ferro), na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. Apareçam.

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Alexandra Lucas Coelho a propósito de O Meu Amante de Domingo (Tinta da China) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Rica Vida – Crise e Salvação em Dez Momentos da História de Portugal, de Luciano Amaral (Dom Quixote), por Ricardo Costa
- O Bordel das Musas, de Claude Le Petit (Guerra & Paz), por Luís M. Faria
- Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora), por Pedro Mexia

Um remexer no escuro

casa em chamas

Caminho como uma Casa em Chamas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 357
ISBN: 978-972-20-5588-8
Ano de publicação: 2014

Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho como uma Casa em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».
Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.
Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».
O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.
No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.
Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Depois de perder tudo

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Para Onde Vão os Guarda-Chuvas
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 620
ISBN: 978-989-687-163-5
Ano de publicação: 2013

Afonso Cruz pertence a uma casta rara de ficcionistas: os que acreditam genuinamente no poder da efabulação literária. Se isto já era notório nos seus quatro romances anteriores (sobretudo em A Boneca de Kokoschka, o seu melhor livro), mais evidente se torna ao concluirmos a leitura deste volumoso Para Onde Vão os Guarda-Chuvas. O escritor está agora no auge das suas capacidades narrativas e serve-se delas para criar um Oriente inventado, onde as histórias brotam debaixo das pedras e se entrelaçam com extraordinária coesão, como num tapete em que «o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros».
O tapete, com os seus padrões e simetrias, com as tramas de fios de várias cores, é a metáfora mais óbvia que atravessa o romance. Ou não fosse o próprio protagonista, Fazal Elahi, um homem que enriqueceu à custa da sua fábrica de tapetes. Embora seja reconhecido pela sociedade em que se insere, num país nunca nomeado mas que supomos vizinho da Índia e do Irão, Elahi sonha ser invisível, confundir-se com a paisagem, não se distinguir de uma parede. Os modos extravagantes da mulher, Bibi, causam-lhe por isso um embaraço que persiste até ser substituído pela dor e pela humilhação, quando ela foge com outro homem. Para trás ficam as memórias de um corpo, entranhadas na casa, e um filho: pequeno diabo insolente e bravio que o pai, na impotência do seu amor extremo, não consegue educar.
Quando Salim é abatido durante uma rusga por militares americanos, ao abrir uma porta no momento errado, cria-se um vazio na vida de Fazal. De repente, ele sente que tudo se apaga, até a razão de existir. Espalha cartazes pela cidade, oferecendo toda a sua fortuna «a quem souber consolar-me pela perda do meu filho», mas apesar da interminável fila de pessoas à sua porta, ninguém lhe apresenta uma ideia que o afaste da tristeza infinita. Até que surge um hindu com a solução que parece um paradoxo: se foram americanos cristãos que lhe mataram o filho, ele deve adoptar um rapaz cristão e americano. Eis o centro do livro: a descoberta e difícil integração da criança, Isa, que há-de quebrar simbolicamente o ciclo do ódio. Ele é uma espécie de negativo de Salim, mas, por ínvios caminhos, talvez condenado à mesma sorte. Afinal de contas, no equilíbrio «desequilibrado» do universo, a felicidade e a tragédia «andam sempre de mãos dadas», e o «nó impossível de desatar» entre Bem e Mal leva a que as boas notícias sejam sempre prenúncio de uma desgraça.
A esta história principal, com epicentro na casa de Elahi, Afonso Cruz justapõe um sem número de outros episódios: relatos de lendas antigas e misérias contemporâneas; parábolas; milagres falsos; discussões teológicas; epifanias líricas; uma «descoberta do século» que se perde no incêndio de um hotel; lutas de galos; a imagem tremenda de homens que se fecham em gaiolas, todos nus e acocorados, ao sol, a acumular violência no corpo. E personagens de todo o tipo: um contrabandista russo que um dia quis fabricar «mesquitas voadoras»; dervixes que «recolhem e preservam sabedoria»; um hindu obstinado que se converte ao islamismo por amor; até figuras que vêm de outros livros do autor (como Isaac Dresner ou Gunnar Helveg).
Sendo esta uma estrutura bastante sólida, embora tendendo para uma certa lentidão narrativa, há artifícios que não passam disso mesmo: de artifícios. É o caso da ilustração de algumas cenas com fotografias de peças de xadrez ou da repetição de uma palavra («desculpe…») que forma «uma espécie de corda» através de várias páginas. Igualmente dispensável é a história infantil ilustrada que abre o livro. Trata-se de um acrescento inorgânico, que apenas relembra aos mais distraídos o talento de Afonso Cruz como ilustrador. O único apêndice relevante é o livro dentro do livro oferecido no final: os notáveis Fragmentos Persas, de autor anónimo do século I depois da Hégira, alguns dos quais já conhecíamos dos três volumes da Enciclopédia da Estória Universal.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com António Lobo Antunes a propósito de Caminho Como uma Casa em Chamas (Dom Quixote) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Grande Jacques Coeur, de Jean-Christophe Rufin (Porto Editora), por José Guardado Moreira
- A Mística de Putin, de Anna Arutunyan (Quetzal), por Luís M. Faria
- Primeiro os Idiotas, de Bernard Malamud (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
- A Filha do Papa, de Dario Fo (Porto Editora), por Alexandra Carita

Um girassol de chumbo

flor_talho

Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Autora: Golgona Anghel
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1687-0
Ano de publicação: 2013

Romena doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea, Golgona Anghel publicou vários estudos sobre Al Berto, além de uma biografia do poeta de Sines e da edição «diplomática» dos seus Diários. Embora já tivesse editado poemas (Crematório Sentimental, Quasi, 2007), o verdadeiro reconhecimento crítico aconteceu com esse objecto estranho e inclassificável que é Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). A poesia de Golgona não se parecia com nada, ao criar uma linguagem torrencial e anárquica, sempre em movimento, deixando o leitor em contrapé, entre pasmo e surpresa. O que impressionava não era só a sintaxe meio partida de quem se instala noutro idioma, apropriando-se dele; era uma certa desmesura que tropeça em si mesma, unindo as mais inesperadas referências culturais (Mizoguchi, Fradique Mendes) ao lado mais cru do dia-a-dia nas cidades (a «esquina do supermercado», as «metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras de lata»), na voz agreste de uma «loba solitária» que não se resigna a ser «caniche de apartamento».
À ironia que atravessa o livro anterior («Vim porque me pagavam, / e eu queria comprar o futuro a prestações»), Golgona contrapõe agora uma espécie de manifesto estético que se afirma logo no título do novo volume de poemas: Como uma flor de plástico na montra de um talho. A beleza, se existe, é sempre artificial, emergindo de uma paisagem de desmembramento e carnificina. O poema não existe para captar o sublime, mas antes para iluminar o que deixámos de saber ver, na matéria caótica dos dias: «(…) o poema / não tem outro precursor / a não ser a fome, / nem outro seguidor / a não ser o crime». Avançamos, a custo, no «passo lento das derrotas», para uma espécie de encruzilhada: «Onde havia medo, disciplina e poder, / temos descanso, “cultura” e diversão.» As trincheiras alugam-se, há quem degole «pardais e fadas de porcelana», predomina uma espécie de hiperconsciência das catástrofes em curso: «Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, / condecorar o medo, / cortar-me a mão com que limpo as feridas / de uma civilização em queda. (…) Sou, em definitivo, este comediante de rua / que serve a desconhecidos, / em copos pequenos, / a medida certa da sua agonia».
Há nestes poemas uma expressividade que é deixada à solta, sem coleira ou açaime. Se os versos têm gumes, é mesmo para rasgar a pele: «Com esta caneta, / esventrei príncipes e porcos / acreditando que era com a barriga que pensavam. / Sonhei de mais. Jurei em falso. / O horizonte fechou-se, / lentamente, / como uma cicatriz do espaço. / O sol e a melancolia / fazem crescer agora, à minha volta, / um girassol de chumbo.» Mais do que a violência das imagens, o que espanta é o extraordinário domínio de uma forma única de dizer as coisas, como se a realidade fosse algo que podemos dobrar e trazer debaixo do braço: «Mudas de canal, de casa, de século, / e as esfinges domésticas / continuam lá, a falar do preço certo / e das notícias das cinco, / antes de adormecerem, / às escuras, / como nós.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Ler]

O livro sem princípio nem fim

«He found several shelves full of old editions of classical writers and began vaguely browsing, hoping to find a cheap edition of Virgil’s Aeneid, which he had only ever read in a borrowed copy. It wasn’t really the great poem of antiquity that Dorrigo Evans wanted though, but the aura he felt around such books – an aura that both radiated outwards and took him inwards to another world that said to him that he was not alone.
And this sense, this feeling of communion, would at moments overwhelm him. At such times he had the sensation that there was only one book in the universe, and that all books were simply portals into this greater ongoing work – an inexhaustible, beautiful world that was not imaginary but the world as it truly was, a book without beginning or end.»

[in The Narrow Road to the Deep North, de Richard Flanagan, Chatto & Windus, 2014]

Bairro Amélia, meu amor

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As Primeiras Coisas
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 301
ISBN: 978-989-722-121-7
Ano de publicação: 2014

No magnífico prólogo de As Primeiras Coisas, primeiro romance de Bruno Vieira Amaral, o narrador regressa ao fictício Bairro Amélia, na Margem Sul do Tejo, onde cresceu. Cerca de dez anos antes, saíra de lá «convicto da vitória» que representaria o afastamento definitivo daqueles prédios de «paredes encardidas», mas agora está de volta, sob o «fardo» do fracasso. À beira do divórcio, «cabisbaixo», «desempregado», «desamparado», fica em casa da mãe e confronta-se com um universo que em parte já não reconhece.
A sua «sensibilidade apocalíptica» leva-o a pensar nos sobreviventes de Hiroxima, expostos a um «clarão absoluto que os cegou». Tal como esses hibakusha, ele sente que transpôs um limiar qualquer, a partir do qual se alteram os mecanismos da percepção. Com a ajuda de um fotógrafo, Virgílio, embarca numa descida aos círculos infernais da memória, materializados em cada recanto do bairro que só o guia de ressonâncias dantescas, pedalando na sua bicicleta, conhece em toda a extensão – esse «grande labirinto» que lhe é agora «tão estranho como uma terra fictícia, não cartografada». As histórias vêm de todo o lado, amontoam-se, sucedem-se, entrelaçam-se e fixam-se, havendo nelas a «beleza mortal» da «sombra que os objectos varridos da face da terra pela explosão nuclear deixam nas paredes». Bruno, o narrador, acredita que «também nós deveríamos olhar para as coisas sob esse novo ângulo de luz, passando os dedos pelas arestas invisíveis, estabelecendo ligações musicais», porque haverá «em toda esta sequência aparentemente aleatória de acontecimentos não uma ordem metafísica mas, sem dúvida, uma harmonia, um ritmo, uma canção, um segredo que não se ouve, que não se vê e, no entanto, existe».
A harmonia tem de ser reconstituída pelo leitor, enquanto avança pelo corpo do romance, que mais não é do que um «dicionário incompleto» de figuras humanas singularíssimas ou banais, com as suas tragédias, melancolias, crendices, actos de grandeza ou malvadez. BVA descreve com extraordinária precisão (e conhecimento de causa) a vida num bairro ocupado por retornados nos anos 70, sem nunca cair em simplismos sociológicos. O que lhe interessa é registar os sobressaltos das vidas simples, os «movimentos orgânicos» da comunidade, o lastro de um lugar (dado através do inventário de sons, de nomes, de comidas ou de sítios para namorar), mas sobretudo fazer-nos sentir o inefável «peso das coisas» que mantém as pessoas presas ao chão. A variedade de registos, que inclui inflexões irónicas (nomeadamente no recurso a intratextualidades e a desconcertantes notas de rodapé), confirma o talento do prosador e a solidez do seu olhar. O olhar de um verdadeiro escritor, capaz de frases perfeitas como esta: «A tristeza de dona Cremilde era um incêndio circunscrito que não se propagara ao resto do corpo.» Ou esta: «Os mortos não ignoram mais sobre a morte do que nós, os vivos, ignoramos sobre a vida.»
O epílogo, em tom elegíaco, traz-nos páginas que estão entre as mais belas da literatura portuguesa recente, confirmando o fôlego raro desta estreia triunfal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista Ler]

Anunciados prémios APE e Pen

Não sei se é inédito, mas, se não for inédito, é raro. Ana Margarida de Carvalho acaba de ganhar o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com o seu romance de estreia: Que Importa a Fúria do Mar (Teorema, 2013). E, mais relevante ainda, por unanimidade do júri, composto por José Correia Tavares, Annabela Rita, Cândido Martins, José Manuel de Vasconcelos, Teresa Carvalho e Virgílio Alberto Vieira, sendo que entre os finalistas se contavam os romances Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz (Alfaguara), e A Desumanização, de Valter Hugo Mãe (Porto Editora).
Foram também revelados os vencedores dos prémios do Pen Clube Português, quase todos ex aequo. Na poesia, Gastão Cruz (Fogo, Assírio & Alvim) e Golgona Anghel (Como Uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim); na narrativa, As Primeiras Coisas (Quetzal), de Bruno Vieira Amaral, também uma obra de estreia, e Ara (Sextante), de Ana Luísa Amaral; no ensaio, Para que Serve a História (Tinta da China), de Diogo Ramada Curto. Na categoria de primeiras obras, foram distinguidos Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno (Vendaval), de João Pedro Cachopo, e o livro de poemas Cinza (Tinta da China), de Rosa Oliveira.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges