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Roadside Haikus

Poesia urbana, ali mesmo na berma da estrada.

35 milhões

Segundo Steve Jobs, foi este o número de livros descarregados pelos utilizadores da loja virtual iTunes até agora.

Velocidades

«(…) É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época

e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?

e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?

Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra,
girando todos em diferentes ritmos
(que quase
se podem ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é

do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do tanque)
o dia
que passa
— ou passou —
na cidade de São Luís. (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Revista ‘Ler’, n.º 94

Amanhã nas bancas.

Pierre Assouline sobre o novo livro de Michel Houellebecq

La carte et le territoire (Flammarion), o novo romance do autor de As Partículas Elementares, só vai para as livrarias no dia 8, mas Assouline já o leu e diz de sua justiça:

«Alors? Alors rien. Non qu’il ne se passe rien, mais il n’y a rien au bout. Pas d’enjeu. Du moins s’il y en avait un, il est traité avec une telle absence de tout ce qui fait une charge (violence, provocation, agressivité…) que cela tape dans le vide. On cherche en vain à retrouver l’énergie du plus aigu de nos sociologues littéraires, celui qui n’a pas son pareil pour anticiper, annoncer et refléter l’air du temps, le même qui s’imposa par sa mise à nu de la misère affective et sexuelle de l’homme occidental et sa dénonciation des religions meurtrières. Quand on prétend s’attaquer à de tels milieux et aux valeurs qu’ils charrient, à commencer par la dénaturation de l’argent, on le fait avec un tout autre mordant, et des arguments autrement plus solides, fussent-ils transcendés par une prose poétique. On guette une vraie réflexion sur le rôle et le statut de l’artiste dans la société, puisque ça tourne autour de la chose, mais rien ne vient. Par manque d’épaisseur ou excès de sagesse. (…)
Sauf imprévu, le scénario de la rentrée littéraire pour les semaines à venir est écrit. La carte et le territoire va écraser le reste. La critique sera quasi unanime dans l’admiration. Ceux qui s’en écarteront seront sèchement rappelés à l’ordre comme vient de l’expérimenter Tahar Ben Jelloun : il s’est fait cogner par les internautes sur la Toile pour avoir osé rapporter dans sa chronique de La Repubblica tout le déplaisir que lui avait procuré la lecture de ce livre. Elisabeth Badinter donne bien le ton de ce que sera le fond de l’air littéraire en déclarant :” Pour moi en France aujourd’hui, il n’y a que deux romanciers qui ont su renouveler le rapport hommes/femmes : Virginie Despentes et Michel Houellebecq”. C’est entre eux que cela se jouera au final. En attendant, on s’arrachera les droits du roman de Houellebecq à la foire de Francfort. Il s’en vendra 150 000 exemplaires, et bien 400 000 une fois que le Goncourt lui aura été attribué. Car on ne voit pas par quel mystère, à moins d’un faux-pas médiatique du candidat malgré son intelligence tactique et sa prudence désormais éprouvée, comment le jury ne serait pas sensible à un roman qui a tellement tout pour lui plaire. C’est même à se demander si Houellebecq ne l’a pas fait exprès.
Son roman a de la main (423 pages, parfait pour les cadeaux de fin d’année, quand tant d’autres semblent plus légers à cause de leurs 150 pages alors qu’ils ont plus de poids), et il est sympathique. Les Goncourt, qui ne détesteraient pas que leur image devînt un peu plus jeune-et-moderne, se réconcilieront à moindre frais avec leur trublion grâce à un roman qui présente l’avantage d’être moins triste que celui d’Olivier Adam et moins trash que celui de Virginie Despentes. Traînés dans la boue par la critique et boudés par le public en 1998 pour avoir préféré Confidence pour confidence de Paule Constant aux Particules élémentaires qui avait été “le” livre de la rentrée, ils en ont conservé un souvenir amer. Depuis, son auteur est devenu l’écrivain français le plus connu et l’un des plus vendus à l’étranger. Si les dix de Drouant passent à nouveau à côté, leur casier judiciaire risque de s’alourdir. Cette fois, on ne voit pas comment Houellecbecq et Goncourt pourraient s’échapper l’un à l’autre. C’est tout le mal qu’on leur souhaite.»

‘O Coração das Trevas’, agora em versão graphic novel

«In the 108 years since it was published, Joseph Conrad’s colonial fable Heart of Darkness has infected TS Eliot, been excoriated for racism by Nigerian writer Chinua Achebe and transplanted to Vietnam by Francis Ford Coppola.
Now the book has been reinterpreted as a graphic novel in whose monochrome pages Conrad’s exploration of power, greed and madness plays out as disturbingly as ever.»

A adaptação foi feita por Catherine Anyango.

O que aí vem (Antígona)

Dois ensaios: em Outubro, Marx e Keynes – Os Limites da Economia Mista, de Paul Mattick (tradução de Luís Leitão; posfácio de Jorge Valadas); em Novembro, Classe, de Andrea Cavalletti (trad. de António Guerreiro).

Narrativa e Medicina

Por me parecer importante, chamo a atenção para um encontro interdisciplinar que vai acontecer em Lisboa, a meio do mês que agora começa:

«O colóquio internacional ‘Medicina e Narrativa: Doença e Diálogo’ decorrerá na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 13 e 14 de Setembro, numa organização conjunta do Centro de Estudos Anglísticos e do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, bem como o Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. De entrada livre, o colóquio reunirá eminentes especialistas, docentes e investigadores das humanidades e da medicina, profissionais de saúde e doentes, com conferências, painéis e comunicações, prevendo-se tempos para debate e participação do público. O colóquio terá também uma componente de disseminação artística relacionada com a narrativa e o sofrimento, com exibição de filmes na Cinemateca e uma exposição de ex-votos na Galeria da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
O encontro é uma primeira iniciativa interdisciplinar que pretende aferir a viabilidade de um novo campo de investigação em Portugal, conjugando as disciplinas da Medicina, da Literatura e da Filosofia. Programas desta natureza estão a ser implementados com sucesso nos Estados Unidos e em Inglaterra (”Narrative Medicine” ou “Medical Humanities”). Os beneficiários finais serão não apenas os doentes como também os médicos e os profissionais de saúde, visto quer a análise narrativa quer a crítica ética contribuírem para melhorar as relações terapêuticas.»

Os conferencistas serão João Lobo Antunes, professor catedrático de Neurocirurgia; Richard Zaner, professor catedrático de Ética Médica e Filosofia da Medicina na Universidade Vanderbilt; e Rita Charon, directora do programa “Narrative Medicine”, da Universidade de Columbia.
Para mais informações, contactar o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (217920092 e narrativaemedicina.flul@gmail.com) ou consultar o blogue do colóquio.

Maravilhas da paternidade

Íamos pela rua quando o Pedro viu estas correntes:

sorriso

«Olha, pai, um sorriso.»

‘Shortlist’ do Prémio PT de Literatura 2010

Já foram anunciados os dez finalistas da edição deste ano do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa:

- Caim, de José Saramago (Companhia das Letras)
- Avó dezanove e o segredo do soviético, Ondjaki (Companhia das Letras)
- Outra Vida, de Rodrigo Lacerda (Alfaguara)
- Monodrama, de Carlito Azevedo (7Letras)
- Leite Derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)
- O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)
- Pornopopéia, de Reinaldo Moares (Objetiva)
- Lar, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras)
- A Passagem Tensa dos Corpos, de Carlos Brito de Mello (Companhia das Letras)
- Olhos Secos, de Bernardo Ajzenberg (Rocco).

Entre os excluídos ficaram Rubem Fonseca (O Seminarista), João Ubaldo Ribeiro (O Albatroz Azul), Milton Hatoum (A cidade ilhada), António Lobo Antunes (que tinha duas obras na longlist: O meu nome é legião e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?), Mário Cláudio (Boa Noite, Senhor Soares), Mia Couto ( Antes de nascer o mundo, título brasileiro de Jesusalém) e José Eduardo Agualusa (Barroco Tropical).
Os três vencedores serão anunciados a 8 de Novembro.

[via Ciberescritas]

Entre fulgor e lepra

Poema Sujo
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-568-633-1
Ano de publicação: 2010

Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Até ao final do ano, surgirão os seguintes livros de poesia: Anthero, areia & água, de Armando Silva Carvalho; Se as coisas não fossem o que são, de Helder Moura Pereira; Apanhar ar, de Adília Lopes (com desenhos juvenis); Uma antologia de poesia chinesa, organizada por Gil de Carvalho (edição bilingue, 440 páginas); Corpo mortal e outros poemas inéditos, de Fiama Hasse Pais Brandão; As magias – Alguns exemplos – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); O bebedor nocturno – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); Papéis Surrealistas – Surrealist Papers, de Mário Cesariny; Um arco singular – Livro de horas – II volume, de Maria Gabriela Llansol; Poesia – uma antologia de Il Canzoniere, de Umberto Saba (selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos).

A mobília de Lisbeth Salander

Alguém se deu ao trabalho de conferir e materializar em imagens a lista das compras feitas, no IKEA, por Lisbeth Salander durante o segundo volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson. Ei-la:

lisbeth-salander-ikea-01_rect540

[via BiblioFilmes]

Sobre a perda de influência do intelectual francês

Um velho tema, retomado aqui e aqui.

O editor que nunca virou a página de um livro

Chamava-se Allen Lane e foi o fundador dos livros de bolso da Penguin.

Bombardeamento de poemas

Ou de como os berlinenses viram milhares de versos a cair dos céus.

Capa do novo romance de José Luís Peixoto

Em primeira mão, eis a capa de Livro (Quetzal), o quarto romance de José Luís Peixoto, com data de chegada às livrarias prevista para 24 de Setembro:

livro

Sermões

«Un sermoneador sólo tiene tres posibilidades taxonómicas: ser consecuente con sus sermones, ser un cínico o ser imbécil. ¿En cuál de las tres categorías debemos colocar al aspirante a un gran premio comercial que rechaza la mercantilización de la cultura, al apóstol de la pureza que exige un hotel de cinco estrellas pagado con dinero público y al fustigador de la frivolidad del mundo literario que busca cada noche su nombre en Google? En la primera de ellas no, por supuesto.»

Retirado de um texto (um sermão?) de Luisgé Martín, na última edição do suplemento Babelia.

O que aí vem (ASA)

O Fim de Semana, de Bernhard Schlink; O Rapaz de Olhos Azuis, de Joanne Harris; Sono Crepuscular, de Edith Warton; Clara – A Menina que Sobreviveu ao Holocausto, de Clara Kramer.

No Brasil, em Setembro

Um livro de capa azul.

Lá longe

A 1, 2 e 3 de Outubro, a revista The New Yorker organiza o seu Festival. Entre os muitos participantes, conta-se o ensaísta Malcolm Gladwell, uma espécie de Cristiano Ronaldo da revista, autor do livro O Que o Cão Viu, editado há cerca de um mês pela Dom Quixote.
Eis um resumo dos principais momentos da edição de 2009:

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Renascer – Apontamentos e Diários 1947-1963, de Susan Sontag (Quetzal), por António Guerreiro
- A Inquisição – O Reino do Medo, de Toby Green (Presença), por Luís M. Faria
- O Hipnotista, de Lars Kepler (Porto Editora), por Paulo Nogueira
- Incêndio no Chiado, de François Vallejo (Quetzal), por José Guardado Moreira
- Poema Sujo, de Ferreira Gullar (Ulisseia), por José Mário Silva
- Breve História da Humanidade, de Cyril Aydon (Gradiva), por Vergílio Azevedo
- Obras de Bernardim Ribeiro, com organização, introdução e notas de Helder Macedo e Maurício Matos (Presença), por Álvaro Manuel Machado

Primeiros parágrafos

«Pusemos o homem dentro do cesto do balão e deixámo-lo desaparecer no céu pálido do Lácio. Foi um momento dramático e, se não houvéssemos caído naquele torpor pesado e ruminante que de nós se apoderou, alguém teria erguido um braço para, por entre lágrimas ou sorrisos, acenar um último adeus a Don Metzger. Foram precisos oito braços para transportar o corpo do carro até à gôndola de verga, junto da qual o sinistro Bosco havia, com a ajuda do fiel Alipio, insuflado de ar frio o envelope de nylon preto, a grande ventoinha ensurdecendo aquele dia tão fúnebre. Acomodámos Don dentro da gôndola o melhor que pudemos – tanto quanto era possível acomodar um gigante – e depois, com um gesto de amor que chegou a parecer cruel, Bosco abriu a válvula de propano e acendeu o maçarico, as chamas incendiaram o ar e ergueram a gôndola do chão como se o carregassem na palma de uma mão invisível. Era ainda cedo naquela manhã e Don já partia em direcção ao infinito, onde conjuntos de nuvens em vários tons de cinzento, banhadas por um sol melancólico, avançavam lentamente em direcção à montanha, sobrevoando-a como anjos coléricos que trouxessem o prenúncio de tempos terríveis.»

[in O Bom Inverno, de João Tordo, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias amanhã]

Book Lovers Day

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Vai ser a 2 de Setembro, às 20h30, na Livraria Bertrand do LeiriaShopping.

A sinceridade de Bret Easton Ellis

«Tem uma bela voz…
Toda a gente me diz o mesmo, mas eu não sou capaz de me ouvir nem de me ver e não leio as críticas aos meus livros. Na semana passada, aqui nos Estados Unidos, fui ao “Charlie Rose Show” – muito popular entre os escritores – e só ontem à noite, depois de beber uns copos, é que consegui ver o programa. Estava a passar-me completamente, mas as pessoas dizem-me que eu estava óptimo e até a minha mãe me telefonou para dizer “Querido, estavas fantástico, tão bonito e maravilhoso na televisão”. Eu acho que estava horrível.
Diz isso para que, tal como a sua mãe, lhe digamos que tem uma imagem excelente…
Talvez. A verdade é que a minha autoconfiança é mínima, o que me faz sofrer muito.
Não pense mais nisso, isto é uma entrevista pelo telefone.
Mas eu estou muito preocupado com a entrevista. Sou um escritor que já não quer ser entrevistado, que já não quer fingir que sabe o que deve dizer em relação ao seu trabalho, que já não sabe as respostas. É este o ponto da situação.»

Início da entrevista de Bret Easton Ellis a Helena Vasconcelos, a propósito da edição portuguesa de Quartos Imperiais (Teorema), publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público.

Fábula

O LEÃO E O POÇO

Era uma vez um leão que caiu num poço com dois metros de profundidade. Todos os animais das redondezas, a começar nas águias (essas rapinas que gostam de abrir as asas com espalhafato, mesmo quando voam baixinho) e a acabar nos dragões (esses bichos imaginários com menos fogo nas goelas do que pensam), toda a fauna se debruçou na beira do poço e fez pouco do leão ferido, lá em baixo, aparentemente conformado com a sua má sorte e morte certa.
Foi então, quando as águias regressaram ao ninho (descobrindo que alguém lhe roubara os ovos) e os dragões preparavam o espeto para uns bichinhos setentrionais muito tenrinhos, que se ouviu um rugido tão poderoso que fez estremecer os alicerces do Palácio da Má Vontade, erguido no topo do Monte da Comunicação Social. Agarrando-se ao balde do poço e fincando as patas nas paredes, o leão ergueu-se num salto de três metros e saiu cá para fora, como que renascido.
Nos espaços em volta, fez-se silêncio. O silêncio do respeito e do medo.

O que aí vem (Ahab)

O Filho de Jesus, de Denis Johnson (tradução de João Tordo); O quinto em discórdia, de Robertson Davies (trad. de Maria João Freire de Andrade); A Primavera há-de chegar, Bandini, de John Fante (trad. de Rui Pires Cabral). Os três livros sairão na segunda quinzena de Outubro.

‘It’s a Book’

Um livro de Lane Smith. A editora (MacMillan) chama-lhe «a delightful manifesto on behalf of print in the digital age» e criou mesmo o primeiro Unplug Day. Será na próxima terça-feira, 31 de Agosto:

UnplugDay
Clique na imagem para aumentar

[via Cadeirão Voltaire e Book Patrol]

São Luís do Maranhão

«(…) Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas

Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Notícias do Sitemeter

Eu sei que este post vai irritar muito o maradona, mas paciência. Não podia deixar de assinalar o facto de a última semana ter sido aquela em que o Bibliotecário de Babel foi mais visitado desde a sua criação, em Dezembro de 2007. No total, mais de 10 mil visitas únicas (quase 1500 por dia) e mais de 20 mil pageviews (cerca de 3000 por dia). A todos, obrigado.

Maravilhas da paternidade

Alice: «As lagartas são as crianças das borboletas, não é? (Pausa) Então as borboletas são os adultos das lagartas, não é?»

A sobrancelha judaico-cristã

Pedro Mexia no seu melhor:

«Ele discorre sobre Bataille e o “caos do desejo” que afronta os nossos inaceitáveis “tabus e preconceitos” incutidos pela arcaica cultura “judaico-cristã”. Está embalado nisto, quando entra no escritório a filha dele, tem talvez catorze anos, e umas pernas altíssimas e moreníssimas. Não consigo evitar uma olhadela. O fã de Bataille franze logo a sobrancelha judaico-cristã.»

Banda sonora desta semana

Arcade-Fire-The-Suburbs

O terceiro álbum destes tipos magníficos.

Hype, modo de usar

O novo romance de Jonathan Franzen (Freedom) está cada vez mais transformado na grande notícia da rentrée literária global. Depois da capa da Time (onde o apelidam de «great american novelist»), houve a notícia de que Obama teria escolhido o livro para as suas leituras de férias em Martha’s Vineyard e começaram a sair críticas ditirâmbicas dos dois lados do Atlântico (o The New York Times diz que estamos perante uma «obra-prima da ficção americana»; um crítico do The Guardian garante que é «o romance do século»).
Se isto não é hype, o que é hype?

Sementes em risco

A partir deste post de Safaa Dib, tradutora de Fome, cheguei a uma notícia terrível sobre a ameaça que paira sobre o Instituto descrito na novela de Elise Blackwell:

«Outside of St. Petersburg, Russia, the Pavlovsk Station houses a huge collection of unique and diverse apples, strawberries, cherries, raspberries, currants and many more — more than 5,000 varieties in all. First assembled in 1926 by Nikolai Vavilov, the inventor of the modern seed bank, this collection will be vital as scientists race to breed new varieties to adapt to climate change and that resist the rising tide of disease, pests and drought. 90 percent of the fruit and berry varieties at Pavlovsk can be found nowhere else.
During the Siege of Leningrad in World War II, scientists starved to death while protecting this diversity. They chose to protect seeds over feeding themselves precisely because they understood the importance of this priceless resource to the future of agriculture.
Today, the Pavlovsk station is facing bulldozers. Over the protests of scientists at the Pavlovsk Station, the government is poised to convert the land to a housing development. This is nothing short of an environmental disaster – and one that is easily avoidable.»

Felizmente, a campanha contra este desastre está a dar os seus frutos e o presidente russo, Dmitri Medvedev, alertado através do Twitter, terá prometido investigar o assunto.

Quem é Tao Lin?

Há quem lhe chame a «next big thing» da literatura urbana que nasce, cresce e é divulgada via Internet. Outros falam em «realismo GMail». Uma coisa é certa: Tao Lin sabe levar a água ao seu moinho (mesmo que seja tudo digital: a água e o moinho). O seu segundo romance, que tem como título o nome de um grande escritor norte-americano do séc. XX (Richard Yates), será lançado no início de Setembro.

A solidão do poder como um levantamento


Carlos V na Batalha de Mühlenberg, de Tiziano (1548)

Um chicote de férias

Confesso: já tenho uma certa saudade das vergastadas irónicas, da maldadezinha inteligente e da lascívia literária do senhor Fortinbras.

Todos os websites de escritores são iguais

Ou não.

[via Paper Cuts]

O poder solar que há na beleza

Lugares, 3
Autora: Maria Andresen
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-989-641-163-3
Ano de publicação: 2010

Neste terceiro volume de poemas, à semelhança do que acontecia nos anteriores – Lugares (2001) e Livro das Passagens (2006), publicados na mesma editora –, Maria Andresen assume o diálogo com outras artes e a memória desses encontros como pontos de partida da sua poesia. Um dos aspectos mais curiosos do livro é que a écfrase não se restringe desta vez à alta cultura (os quadros de Velázquez e Picasso; os filmes de Dreyer, Max Ophuls ou Straub/Huillet), mas abarca igualmente a música rock (Rolling Stones, Jimi Hendrix).
Mais do que uma descrição, a autora procura o detalhe significativo que dá sentido ao que observa, sem o explicar: «assim a minha prosa clara / – tão rente a quero ao mudo acontecer – / abarque o pormenor e não lhe toque». O pormenor pode ser a boca alegre de Edith Schiele («mas os olhos não») num retrato do seu marido, Egon. Ou «a solidão do poder como um levantamento», entrevista no retrato marcial de Carlos V por Tiziano.
O problema destes poemas está, a meu ver, numa certa margem de opacidade excessiva que existe em todos eles, como se a autora fizesse questão de dinamitar, logo à partida, a mera hipótese de uma partilha total da sua experiência estética com o leitor.
No resto do livro, menos saturado de referências eruditas (embora nos deparemos ainda com duas glosas de Wallace Stevens), a escrita de Maria Andresen como que floresce, aberta ao ímpeto apolíneo de quem acredita no «poder solar que há na beleza». Surgem então comboios obstinados, cães nocturnos, o mar, as dunas, paisagens algarvias, casas violentas, jardins, estrelas e intuições felizes. Como esta: «saberemos do intemporal aquilo que sabe / um cultivador de rosas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges