Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com David Toscana sobre o seu romance O Exército Iluminado (Parsifal) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Poesia Presente, antologia de António Ramos Rosa, organizada por Maria Filipe Ramos Rosa (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Ethel – Amanhã em Lisboa, de Cesário Borga (Planeta), por Alexandra Carita
- Acabar com Eddy Bellegueule, de Édouard Louis (Fumo), por Ana Cristina Leonardo

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Sugestões de Natal, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
- Entrevista com Edouard Louis sobre o seu romance Acabar com Eddy Bellegueule (Fumo), por Ana Cristina Leonardo
- Não Sabemos Mesmo o que Importa – Cem Poemas, de Paul Celan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Poesia Completa, de João Cabral de Melo Neto (Glaciar), por José Mário Silva
- O Continente das Trevas, de Mark Mazower (Edições 70), por Luís M. Faria
- O General Ramalho Eanes e a História Recente de Portugal, de M. Vieira Pinto (Âncora), por Luísa Meireles
- A Morte dos Outros, de Paulo da Costa Domingos (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva

Eugénio, Ramos Rosa e Sophia no Chiado

Logo à tarde, a partir das 18h30, o debate ‘Ler no Chiado’ abordará os poetas Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e Ramos Rosa, a pretexto da reedição recente das suas obras. Conversarei e lerei poemas com Fernando Pinto do Amaral e Inês Fonseca Santos, sob a moderação sempre instigante de Anabela Mota Ribeiro.

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Domingos de Agosto (Dom Quixote), Um Circo que Passa (Dom Quixote) e As Avenidas Periféricas (Porto Editora), de Patrick Modiano, por José Mário Silva
- A Casa da Aranha, de Paul Bowles (Quetzal), por José Guardado Moreira
- Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Dália Azul, Ouro Negro: Viagem a Angola, de Daniel Mettcalfe (Tinta da China), por Alexandra Carita
- Jim Curioso, de Mathias Picard (Polvo), por Sara Figueiredo Costa

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Afonso Reis Cabral a propósito de O Meu Irmão (LeYa) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- A Retirada dos Dez Mil, de Xenofonte (Bertrand), por Ana Cristina Leonardo
- Em Defesa do Tribunal Constitucional, de Jorge Reis Novais (Almedina), por Luísa Meireles
- 150 Anos de Arte Moderna num Piscar de Olhos, de Will Gompertz (Bizâncio), por Luís M. Faria
- Limiar dos Pássaros, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Filigrana em movimento

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O Meu Amante de Domingo
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 181
ISBN: 978-989-671-237-2
Ano de publicação: 2014

A protagonista de O Meu Amante de Domingo é uma mulher de 50 anos, loura e ainda mignone, revisora literária que passou a vida a ler, «sem jamais ter escrito». Mora no Alentejo mas vem a Lisboa todos os domingos, no seu jipe Lada Niva de 1994, para nadar vinte piscinas num ginásio e tratar da gata de uma amiga (ausente no Brasil, em pesquisas). Durante um mês, envolve-se com um dramaturgo 16 anos mais novo, a quem ela chama «caubói». Quando a coisa dá para o torto, por razões que só conheceremos quase no final, deixa-se tomar por uma raiva assassina e só pensa em «dar um tiro nos cornos» do «cabrão»; ou esmagar o «filho da puta» com uma pata de elefante indiano. Tripeira de Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, carrega forte e feio no vernáculo, que «a gente lá em cima não tem a língua presa».
Numa primeira aproximação, é impossível não ficar fascinado por esta narradora, verdadeira força da natureza que vai instaurando, no texto, a liberdade que procura para si mesma. Ferida, ela entrega-se inteira à vingança (mesmo se imaginária), porque nela a «fúria» é mais forte do que o «lamento». Pelo caminho, entregar-se-á a três amantes que representam arquétipos masculinos: o mecânico que escreve SMS com erros ortográficos e «reticências afrodisíacas» (um Sancho Pança); o amigo escritor, «futuro Nobel», calculista e cobarde, vagamente sórdido (um Nosferatu); e o nadador depilado que afinal trabalha para o Mark Zuckerberg do Facebook (um Apolo). São etapas necessárias na construção do apocalipse, embates que antecedem o último duelo, neste western sentimental, divertidíssimo apesar de trágico, em que no fim os caubóis perdem.
Há nisto tudo uma dimensão de puro delírio, de emoções levadas ao extremo, ao paroxismo do exagero total, com a verosimilhança a volatilizar-se (soprada, por uma vuvuzela, para o quinto dos infernos). A chave está, inevitavelmente, na literatura. São duas frases de Balzac a iluminá-la, fazendo com que veja o seu erro, o seu engano. E é Nelson Rodrigues, de cuja biografia (escrita por Ruy Castro) está a fazer a revisão, quem a acompanha no movimento da ira. Dizia o cronista brasileiro que «basta viver a fantasia de matar para esgotar o desejo». No seu caso, a fantasia assume a forma de um livro que começa a escrever, e onde se desdobra numa figura feminina que leva ainda mais longe os impulsos homicidas. Escrito à maneira de Brás Cubas, de além-túmulo, esse meta-romance vacila e naufraga, à medida que se esvai a «energia reversa» da vingança – «negativo da paixão» – de onde irrompeu.
A voz da protagonista de O Meu Amante de Domingo é tão forte, e o desassombro ao falar de sexo tão incomum, que a leitura do romance corre o risco de ficar demasiado presa a essa dimensão. Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência. Seria uma injustiça que a complexidade formal do livro, e os seus muitos níveis de leitura, ficassem ofuscados pela originalidade de uma personagem sem par na literatura portuguesa recente. Por muito que as cenas de sexo mais explícitas sejam antológicas (e são), a verdadeira beleza desta prosa está, por exemplo, na imagem de uma nespereira “atravessada pelo sol”, cuja sombra é “uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá”.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cortázar no Forum Fantástico

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Começou ontem e acaba amanhã a oitava edição do Forum Fantástico. A programação completa pode ser consultada aqui. Eu participarei mais logo, pelas 17h45, num debate sobre Julio Cortázar, com o seu mais recente editor em Portugal (Diogo Madre Deus, Cavalo de Ferro), na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. Apareçam.

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Alexandra Lucas Coelho a propósito de O Meu Amante de Domingo (Tinta da China) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Rica Vida – Crise e Salvação em Dez Momentos da História de Portugal, de Luciano Amaral (Dom Quixote), por Ricardo Costa
- O Bordel das Musas, de Claude Le Petit (Guerra & Paz), por Luís M. Faria
- Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora), por Pedro Mexia

Um remexer no escuro

casa em chamas

Caminho como uma Casa em Chamas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 357
ISBN: 978-972-20-5588-8
Ano de publicação: 2014

Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho como uma Casa em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».
Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.
Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».
O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.
No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.
Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Depois de perder tudo

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Para Onde Vão os Guarda-Chuvas
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 620
ISBN: 978-989-687-163-5
Ano de publicação: 2013

Afonso Cruz pertence a uma casta rara de ficcionistas: os que acreditam genuinamente no poder da efabulação literária. Se isto já era notório nos seus quatro romances anteriores (sobretudo em A Boneca de Kokoschka, o seu melhor livro), mais evidente se torna ao concluirmos a leitura deste volumoso Para Onde Vão os Guarda-Chuvas. O escritor está agora no auge das suas capacidades narrativas e serve-se delas para criar um Oriente inventado, onde as histórias brotam debaixo das pedras e se entrelaçam com extraordinária coesão, como num tapete em que «o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros».
O tapete, com os seus padrões e simetrias, com as tramas de fios de várias cores, é a metáfora mais óbvia que atravessa o romance. Ou não fosse o próprio protagonista, Fazal Elahi, um homem que enriqueceu à custa da sua fábrica de tapetes. Embora seja reconhecido pela sociedade em que se insere, num país nunca nomeado mas que supomos vizinho da Índia e do Irão, Elahi sonha ser invisível, confundir-se com a paisagem, não se distinguir de uma parede. Os modos extravagantes da mulher, Bibi, causam-lhe por isso um embaraço que persiste até ser substituído pela dor e pela humilhação, quando ela foge com outro homem. Para trás ficam as memórias de um corpo, entranhadas na casa, e um filho: pequeno diabo insolente e bravio que o pai, na impotência do seu amor extremo, não consegue educar.
Quando Salim é abatido durante uma rusga por militares americanos, ao abrir uma porta no momento errado, cria-se um vazio na vida de Fazal. De repente, ele sente que tudo se apaga, até a razão de existir. Espalha cartazes pela cidade, oferecendo toda a sua fortuna «a quem souber consolar-me pela perda do meu filho», mas apesar da interminável fila de pessoas à sua porta, ninguém lhe apresenta uma ideia que o afaste da tristeza infinita. Até que surge um hindu com a solução que parece um paradoxo: se foram americanos cristãos que lhe mataram o filho, ele deve adoptar um rapaz cristão e americano. Eis o centro do livro: a descoberta e difícil integração da criança, Isa, que há-de quebrar simbolicamente o ciclo do ódio. Ele é uma espécie de negativo de Salim, mas, por ínvios caminhos, talvez condenado à mesma sorte. Afinal de contas, no equilíbrio «desequilibrado» do universo, a felicidade e a tragédia «andam sempre de mãos dadas», e o «nó impossível de desatar» entre Bem e Mal leva a que as boas notícias sejam sempre prenúncio de uma desgraça.
A esta história principal, com epicentro na casa de Elahi, Afonso Cruz justapõe um sem número de outros episódios: relatos de lendas antigas e misérias contemporâneas; parábolas; milagres falsos; discussões teológicas; epifanias líricas; uma «descoberta do século» que se perde no incêndio de um hotel; lutas de galos; a imagem tremenda de homens que se fecham em gaiolas, todos nus e acocorados, ao sol, a acumular violência no corpo. E personagens de todo o tipo: um contrabandista russo que um dia quis fabricar «mesquitas voadoras»; dervixes que «recolhem e preservam sabedoria»; um hindu obstinado que se converte ao islamismo por amor; até figuras que vêm de outros livros do autor (como Isaac Dresner ou Gunnar Helveg).
Sendo esta uma estrutura bastante sólida, embora tendendo para uma certa lentidão narrativa, há artifícios que não passam disso mesmo: de artifícios. É o caso da ilustração de algumas cenas com fotografias de peças de xadrez ou da repetição de uma palavra («desculpe…») que forma «uma espécie de corda» através de várias páginas. Igualmente dispensável é a história infantil ilustrada que abre o livro. Trata-se de um acrescento inorgânico, que apenas relembra aos mais distraídos o talento de Afonso Cruz como ilustrador. O único apêndice relevante é o livro dentro do livro oferecido no final: os notáveis Fragmentos Persas, de autor anónimo do século I depois da Hégira, alguns dos quais já conhecíamos dos três volumes da Enciclopédia da Estória Universal.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com António Lobo Antunes a propósito de Caminho Como uma Casa em Chamas (Dom Quixote) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Grande Jacques Coeur, de Jean-Christophe Rufin (Porto Editora), por José Guardado Moreira
- A Mística de Putin, de Anna Arutunyan (Quetzal), por Luís M. Faria
- Primeiro os Idiotas, de Bernard Malamud (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
- A Filha do Papa, de Dario Fo (Porto Editora), por Alexandra Carita

Um girassol de chumbo

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Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Autora: Golgona Anghel
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1687-0
Ano de publicação: 2013

Romena doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea, Golgona Anghel publicou vários estudos sobre Al Berto, além de uma biografia do poeta de Sines e da edição «diplomática» dos seus Diários. Embora já tivesse editado poemas (Crematório Sentimental, Quasi, 2007), o verdadeiro reconhecimento crítico aconteceu com esse objecto estranho e inclassificável que é Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). A poesia de Golgona não se parecia com nada, ao criar uma linguagem torrencial e anárquica, sempre em movimento, deixando o leitor em contrapé, entre pasmo e surpresa. O que impressionava não era só a sintaxe meio partida de quem se instala noutro idioma, apropriando-se dele; era uma certa desmesura que tropeça em si mesma, unindo as mais inesperadas referências culturais (Mizoguchi, Fradique Mendes) ao lado mais cru do dia-a-dia nas cidades (a «esquina do supermercado», as «metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras de lata»), na voz agreste de uma «loba solitária» que não se resigna a ser «caniche de apartamento».
À ironia que atravessa o livro anterior («Vim porque me pagavam, / e eu queria comprar o futuro a prestações»), Golgona contrapõe agora uma espécie de manifesto estético que se afirma logo no título do novo volume de poemas: Como uma flor de plástico na montra de um talho. A beleza, se existe, é sempre artificial, emergindo de uma paisagem de desmembramento e carnificina. O poema não existe para captar o sublime, mas antes para iluminar o que deixámos de saber ver, na matéria caótica dos dias: «(…) o poema / não tem outro precursor / a não ser a fome, / nem outro seguidor / a não ser o crime». Avançamos, a custo, no «passo lento das derrotas», para uma espécie de encruzilhada: «Onde havia medo, disciplina e poder, / temos descanso, “cultura” e diversão.» As trincheiras alugam-se, há quem degole «pardais e fadas de porcelana», predomina uma espécie de hiperconsciência das catástrofes em curso: «Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, / condecorar o medo, / cortar-me a mão com que limpo as feridas / de uma civilização em queda. (…) Sou, em definitivo, este comediante de rua / que serve a desconhecidos, / em copos pequenos, / a medida certa da sua agonia».
Há nestes poemas uma expressividade que é deixada à solta, sem coleira ou açaime. Se os versos têm gumes, é mesmo para rasgar a pele: «Com esta caneta, / esventrei príncipes e porcos / acreditando que era com a barriga que pensavam. / Sonhei de mais. Jurei em falso. / O horizonte fechou-se, / lentamente, / como uma cicatriz do espaço. / O sol e a melancolia / fazem crescer agora, à minha volta, / um girassol de chumbo.» Mais do que a violência das imagens, o que espanta é o extraordinário domínio de uma forma única de dizer as coisas, como se a realidade fosse algo que podemos dobrar e trazer debaixo do braço: «Mudas de canal, de casa, de século, / e as esfinges domésticas / continuam lá, a falar do preço certo / e das notícias das cinco, / antes de adormecerem, / às escuras, / como nós.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Ler]

O livro sem princípio nem fim

«He found several shelves full of old editions of classical writers and began vaguely browsing, hoping to find a cheap edition of Virgil’s Aeneid, which he had only ever read in a borrowed copy. It wasn’t really the great poem of antiquity that Dorrigo Evans wanted though, but the aura he felt around such books – an aura that both radiated outwards and took him inwards to another world that said to him that he was not alone.
And this sense, this feeling of communion, would at moments overwhelm him. At such times he had the sensation that there was only one book in the universe, and that all books were simply portals into this greater ongoing work – an inexhaustible, beautiful world that was not imaginary but the world as it truly was, a book without beginning or end.»

[in The Narrow Road to the Deep North, de Richard Flanagan, Chatto & Windus, 2014]

Bairro Amélia, meu amor

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As Primeiras Coisas
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 301
ISBN: 978-989-722-121-7
Ano de publicação: 2014

No magnífico prólogo de As Primeiras Coisas, primeiro romance de Bruno Vieira Amaral, o narrador regressa ao fictício Bairro Amélia, na Margem Sul do Tejo, onde cresceu. Cerca de dez anos antes, saíra de lá «convicto da vitória» que representaria o afastamento definitivo daqueles prédios de «paredes encardidas», mas agora está de volta, sob o «fardo» do fracasso. À beira do divórcio, «cabisbaixo», «desempregado», «desamparado», fica em casa da mãe e confronta-se com um universo que em parte já não reconhece.
A sua «sensibilidade apocalíptica» leva-o a pensar nos sobreviventes de Hiroxima, expostos a um «clarão absoluto que os cegou». Tal como esses hibakusha, ele sente que transpôs um limiar qualquer, a partir do qual se alteram os mecanismos da percepção. Com a ajuda de um fotógrafo, Virgílio, embarca numa descida aos círculos infernais da memória, materializados em cada recanto do bairro que só o guia de ressonâncias dantescas, pedalando na sua bicicleta, conhece em toda a extensão – esse «grande labirinto» que lhe é agora «tão estranho como uma terra fictícia, não cartografada». As histórias vêm de todo o lado, amontoam-se, sucedem-se, entrelaçam-se e fixam-se, havendo nelas a «beleza mortal» da «sombra que os objectos varridos da face da terra pela explosão nuclear deixam nas paredes». Bruno, o narrador, acredita que «também nós deveríamos olhar para as coisas sob esse novo ângulo de luz, passando os dedos pelas arestas invisíveis, estabelecendo ligações musicais», porque haverá «em toda esta sequência aparentemente aleatória de acontecimentos não uma ordem metafísica mas, sem dúvida, uma harmonia, um ritmo, uma canção, um segredo que não se ouve, que não se vê e, no entanto, existe».
A harmonia tem de ser reconstituída pelo leitor, enquanto avança pelo corpo do romance, que mais não é do que um «dicionário incompleto» de figuras humanas singularíssimas ou banais, com as suas tragédias, melancolias, crendices, actos de grandeza ou malvadez. BVA descreve com extraordinária precisão (e conhecimento de causa) a vida num bairro ocupado por retornados nos anos 70, sem nunca cair em simplismos sociológicos. O que lhe interessa é registar os sobressaltos das vidas simples, os «movimentos orgânicos» da comunidade, o lastro de um lugar (dado através do inventário de sons, de nomes, de comidas ou de sítios para namorar), mas sobretudo fazer-nos sentir o inefável «peso das coisas» que mantém as pessoas presas ao chão. A variedade de registos, que inclui inflexões irónicas (nomeadamente no recurso a intratextualidades e a desconcertantes notas de rodapé), confirma o talento do prosador e a solidez do seu olhar. O olhar de um verdadeiro escritor, capaz de frases perfeitas como esta: «A tristeza de dona Cremilde era um incêndio circunscrito que não se propagara ao resto do corpo.» Ou esta: «Os mortos não ignoram mais sobre a morte do que nós, os vivos, ignoramos sobre a vida.»
O epílogo, em tom elegíaco, traz-nos páginas que estão entre as mais belas da literatura portuguesa recente, confirmando o fôlego raro desta estreia triunfal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista Ler]

Anunciados prémios APE e Pen

Não sei se é inédito, mas, se não for inédito, é raro. Ana Margarida de Carvalho acaba de ganhar o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com o seu romance de estreia: Que Importa a Fúria do Mar (Teorema, 2013). E, mais relevante ainda, por unanimidade do júri, composto por José Correia Tavares, Annabela Rita, Cândido Martins, José Manuel de Vasconcelos, Teresa Carvalho e Virgílio Alberto Vieira, sendo que entre os finalistas se contavam os romances Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz (Alfaguara), e A Desumanização, de Valter Hugo Mãe (Porto Editora).
Foram também revelados os vencedores dos prémios do Pen Clube Português, quase todos ex aequo. Na poesia, Gastão Cruz (Fogo, Assírio & Alvim) e Golgona Anghel (Como Uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim); na narrativa, As Primeiras Coisas (Quetzal), de Bruno Vieira Amaral, também uma obra de estreia, e Ara (Sextante), de Ana Luísa Amaral; no ensaio, Para que Serve a História (Tinta da China), de Diogo Ramada Curto. Na categoria de primeiras obras, foram distinguidos Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno (Vendaval), de João Pedro Cachopo, e o livro de poemas Cinza (Tinta da China), de Rosa Oliveira.

Um ‘centauro’ no jardim da lógica

logicomix

Logicomix – Uma Busca Épica da Verdade
Autores: Apostolos Doxiadis, Christos Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna
Título original: Logicomix – An Epic Search for Truth
Tradução: Nicolás F. Lori
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-616-601-4
Ano de publicação: 2014

De tempos a tempos, há livros que se destacam da torrente editorial pela originalidade, pelo arrojo, pela capacidade de surpreender mesmo quem julgaria já ter visto tudo. Logicomix é um desses raros livros que nos trocam completamente as voltas. Na verdade, o projecto de contar um período áureo da história das ideias – a busca dos fundamentos da Matemática, entre as últimas décadas do século XIX e a II Guerra Mundial – sob a forma de uma novela gráfica, sem abdicar do mais absoluto rigor científico, pode parece abstruso de início, mas depressa agarra o leitor pelos colarinhos (seja ele iniciado nas temáticas ou completamente leigo), levando-o até ao fim desta notável aventura intelectual num estado de espanto e maravilhamento.
O mérito pertence por inteiro aos quatro autores do livro: Apostolos Doxiadis, matemático, romancista, e estudioso das relações da matemática com a narrativa, que criou o conceito e escreveu o texto; Christos Papadimitriou, investigador em Ciência Computacional, co-criador da história; Alecos Papadatos, ilustrador; e Annie Di Donna, responsável pelo trabalho cromático. No fundo, eles quiseram fazer o que «99,9% das novelas gráficas são»: uma «história» bem contada, com «heróis em busca de grandes objectivos». Heróis que neste caso descem do Olimpo erudito onde costumam pairar e exibem as suas descobertas ao comum dos mortais, numa linguagem que torna compreensíveis as ideias mais complexas e os combates em torno delas, sem nunca as simplificar em excesso. Da galeria fazem parte muitos nomes – Whitehead, Frege, Cantor, Hilbert, Wittgenstein, Gödel –, mas há um protagonista que se destaca: Bertrand Russell, um «centauro», metade matemático, metade filósofo. É ele que narra a «tragédia espiritual» da procura de um caminho sólido para a Verdade, com base numa certeza absoluta (certeza que o teorema da incompletude, de Gödel, veio comprometer de vez). E fá-lo durante uma palestra numa universidade americana no dia em que o Reino Unido declara guerra à Alemanha, a 4 de Setembro de 1939, intervenção que serve de fio condutor à narrativa.
Particularmente conseguida é a forma como Russell vai cruzando, no seu discurso, o percurso pessoal com as questões teóricas que o atormentaram durante décadas. Tão depressa assistimos aos terrores e epifanias infantis na mansão dos avós, com quem foi viver depois de ficar órfão aos quatro anos, como ao desabrochar da sua inteligência, a partir da descoberta dos axiomas geométricos de Euclides. Se numa página assistimos a sofisticados duelos verbais nos salões de Paris ou Viena, noutra são-nos dados vislumbres, nem sempre lisonjeiros, da sua vida particular. O que se obtém é o retrato poliédrico de um homem consumido pelo gigantismo da missão intelectual a que se propôs e marcado por um sentimento de derrota, ignorando que o falhanço muitas vezes abre portas para vitórias futuras. O sonho de Leibniz («encontrar o método lógico perfeito de resolver todos os problemas, da Lógica à Vida Humana») estilhaçou-se mas das ruínas surgiram novas abordagens conceptuais, como as de Turing, que permitiram a invenção do computador e da informática, colocando instrumentos da razão ao alcance de todos.
Sem grande surpresa numa obra em que são referidos sistemas auto-referenciais, um dos temas de Logicomix é a criação de Logicomix. Ou seja, os quatro autores do livro também são personagens e mostram-nos o outro lado das pranchas belíssimas: as discussões sobre o rumo a dar à história, os impasses, as discordâncias, as dúvidas (Papadimitriou, por exemplo, torce o nariz à relação várias vezes sugerida entre Lógica e loucura). No final, vão todos assistir a um ensaio do último acto da Oresteia e não haveria melhor forma de fechar o arco narrativo. Porque a tragédia de Ésquilo, ao consagrar o triunfo da razão, estabelece uma «analogia perfeita» com a «busca épica da verdade» de Russell e companhia.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Logicomix, de Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna (Gradiva), por José Mário Silva
- Amálgama, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
- Henderson, o Rei da Chuva, de Saul Bellow (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Toda a Mafalda, de Quino (Verbo), por Luís M. Faria
- Pontas Soltas – Lisboa, de Ricardo Cabral (ASA), por José Mário Silva

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Companhia das Ilhas vs. FNAC

É sabido que as grandes cadeias de retalho sempre abusaram do seu poder negocial para impor condições draconianas às editoras pequenas. A crise só veio agudizar a situação. Um exemplo recente foi-nos relatado pelo responsável da Companhia das Ilhas, uma micro-editora sediada em Lajes do Pico (Açores), e prende-se com os meios de facturação digital propostos pela FNAC. Eis um excerto do e-mail enviado pelo Carlos Alberto Machado:

«Não sei se tem conhecimento, mas a FNAC anda a tentar impor um sistema de encomendas/facturação digital a expensas dos fornecedores, com uma tal SAPHETY.COM como intermediária. Assim:

Ativação de serviço -> 100,00€ (50% de desconto ate dia 31 de outubro de 2014 no valor de Ativação)
Anuidade FNAContab -> Incluido
Pacote de mensagens -> À Escolha:
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Acabámos de enviar à Contabilidade da FNAC um e-mail com este teor:

“Foi-nos comunicada a intenção de a FNAC implementar – com a empresa saphety.com – um procedimento de encomendas/facturação digital. Não temos nada a opor, até porque já temos implementado a facturação digital. Se a FNAC deseja ter esse sistema, consideramos que deve ser a FNAC a suportar os custos inerentes, e não os fornecedores.
O nosso contrato com a FNAC, é um contrato entre partes iguais, e poderá ser alterado se ambas as partes estiverem de acordo, e nunca por imposição unilateral.
A FNAC não pode legalmente impor qualquer cobrança aos seus fornecedores, assim como os fornecedores não podem, por exemplo, impor à FNAC margens de comercialização ou prazos de pagamento.”»

Claro que “não poder legalmente” é muito relativo, quando se tem o queijo e a faca na mão. Veremos se a “intenção” se concretiza mesmo e que reacções despertará por parte de outras editoras.

Ver alguém que vê alguém

pedro_eiras_entrevista

Quando fala sobre a música de Johann Sebastian Bach, o rosto de Pedro Eiras ilumina-se: «Ela é miraculosa porque nos provoca coisas que não sabemos explicar. Mas ao contrário de um milagre, que é uma coisa única e irrepetível, volta a arrebatar-nos e a esmagar-nos da mesma maneira de cada vez que a ouvimos.» Aos 39 anos, este professor de literatura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, também ensaísta, dramaturgo e romancista, sabe do que fala porque a música de Bach faz literalmente parte da sua vida diária. «Há vinte e tal anos que ouço Bach todos os dias. Todos os dias mesmo. Podem ser só uns minutos, podem ser muitas horas, mas nunca falha. É preciso estar algures em viagem, perdido no estrangeiro, para não ouvir. E mesmo assim…»
Melómano desde sempre, Eiras teve um ano de solfejo e tentou o piano durante seis meses, pelo que não é um analfabeto musical (consegue ler uma pauta), mas está muito longe de ser um especialista. A descoberta de Bach foi relativamente tardia: «Para mim, no início, ele era um autor canónico das escolas de música, autor de peças muito complicadas, cerebrais, abstractas e que era obrigatório apreciar.» Até que um dia a irmã lhe emprestou uma cassete com o Magnificat e deu-se uma espécie de epifania. «Passados uns tempos, calhou alguém estar a falar sobre a ‘Paixão segundo S. Mateus’. Ah, tenho ali o CD, vou buscar, tens de ouvir. Ainda resisti, mas depois aconteceu alguma coisa de muito visceral. Eu tinha de voltar àquilo. Lembro-me que tive uma grande insónia, não consegui dormir, ansioso que estava para ir comprar o disco logo de manhã.»
Pedro Eiras partilha estas memórias em Lisboa, num bar da Faculdade de Letras, onde veio participar num colóquio. Junto às chávenas de café, um exemplar do livro que acaba de lançar: Bach (Assírio & Alvim). Foi para estas 150 páginas que convergiu o seu fascínio imenso pelo autor dos Concertos Brandeburgueses. No texto final, intitulado 2002, uma reflexão sobre a génese desta obra, pode ler-se: «Pensei que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach.» E quando é que passou a saber? Eiras sorri: «Na verdade, só consegui avançar quando percebi que não ia escrever sobre Bach. Não sobre ele em concreto. Isso foi muito importante.» Houve primeiro quantidades imensas de investigação histórica, biográfica, até musicológica: «Li muitas coisas óptimas, admiráveis. Mas nesses materiais, percebi sempre que o Bach estava e não estava lá. Os livros são sobre ele mas há qualquer coisa que tu ouves na música que não cabe num livro, por mais que o livro seja brilhante. Então como chegar a essa qualquer coisa indefinível? É preciso tentar e falhar. Tentar e falhar. Muitas vezes.» E sobretudo desistir de explicar o génio em si mesmo. Em vez disso, escrever «ao lado», centrando a atenção em figuras reais que de algum modo foram tocadas, nas suas vidas, pela música de Bach – ou até a precederam, como no caso de Martinho Lutero, essencial por ter criado os hinos dos corais que o compositor depois trabalharia. A lista dessas figuras, escolhidas por Eiras entre muitas outras possíveis, é bastante heterogénea: além do fundador do luteranismo, surgem nestas páginas Anna Magdalena Bach, Esther Meynell, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Gustav Leonhardt, Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Maria Gabriela Llansol, Joshua Ben-Josef, Etty Hillesum e Albert Schweitzer.
Destas figuras, a que primeiro se impôs foi Anna Magdalena, a viúva. «Tinha de começar por ela, poucos dias após a morte de Johann, quando ela se confronta com o vazio da casa e a ameaça do esquecimento. A ameaça da miséria, também. É um cenário de ruína. Há que começar aí. E perguntar o que é uma ruína. O que sobra quando tudo se esboroa. Os instrumentos já se foram todos, ainda sobram algumas partituras, mas uma semana depois Anna Magdalena talvez tenha de as vender porque tem fome.» É quando começa a imaginar a angústia da viúva, forçada a suplicar às autoridades o direito a permanecer mais seis meses no apartamento, concedido ao Kantor por uma escola de Leipzig, é quando se entrega ao princípio da ficção que se apercebe de um efeito de mimetismo: «Estava a repetir o gesto de uma escritora inglesa, Meynell, que entretanto tinha descoberto. Nada contra. Enfrentemos isso. Não sou o primeiro a andar por estes territórios. Nem vou fingir que sou. Pelo contrário, estou a escrever um texto que se apoia numa rede de textos que outros escreveram. Então o segundo capítulo é sobre isso: o acto de ler Pequena Crónica de Ana Madalena Bach e espreitar a mulher que espreitou, mesmo se imaginariamente, Anna Magdalena a espreitar o marido, escondida atrás da porta.» Eis uma imagem que surgirá uma e outra vez ao longo do livro: «Nestes textos há sempre alguém a ver alguém, que vê alguém, que vê alguém.»
Nos primeiros capítulos, é notória uma relação directa entre as personagens que se sucedem: Anna Magdalena foi ficcionada por Meynell; o livro de Meynell foi adaptado ao cinema pelo casal Straub; Gustav Leonhardt interpretou Bach nesse filme. Há uma espécie de cadeia, mas a partir de certo momento as ligações entre os textos deixam de ser tão óbvias. «É importante que o leitor, a meio, se vá perdendo um bocadinho. Embora para mim as relações sejam evidentes – até o que é invisível, até o que apaguei.» Chegou a existir um capítulo sobre Douglas R. Hofstadter, autor de Gödel, Escher, Bach, que ficaria perto do dedicado a Leibniz, mas acabou por cair. «Foi por razões estruturais. Uma questão de equilíbrio. Do mesmo modo que nas ‘Paixões’ existem momentos corais alternados com recitativos e árias, alegria e tristeza, eu procuro obsessivamente o tom certo, preocupa-me saber como é que a pergunta de um capítulo encontra resposta noutro, que por sua vez lança uma nova pergunta para o seguinte.» Na verdade, Eiras tinha decidido desde o início que o livro teria 14 capítulos, mas o carácter proliferante do exercício podia estender-se sem fim. «São 14 capítulos mas podiam ser mil. Isto não termina.»
A insistência no número 14 foi tudo menos gratuita. «Esse é o número de Bach (B é 2; A é 1; C é 3; H é 8). E o compositor criou por isso vários temas com 14 notas, tal como fez do seu apelido uma assinatura musical em muitas obras (as quatro letras correspondem a notas). Trata-se de uma piscadela de olhos numerológica, que a maior parte dos leitores provavelmente não captará, mas não há nisso nenhum mal.» Por outro lado, é forçoso reparar nos números de catálogo ao baixo da folha de abertura de cada capítulo: BWV 225, BWV 8, BWV 1080, BWV 852, etc. Através deles, o leitor pode procurar (no YouTube, por exemplo) versões das obras a que os textos aludem e até escutá-las durante a leitura. No fundo, além de bibliografia («uma dívida de gratidão», a revelar escrúpulos académicos), o livro também traz uma sugestão de banda sonora – sublime como poucas. Quanto ao risco do cansaço, que por vezes atinge quem mergulha demasiado tempo num só assunto, Eiras sabia-se a salvo: «Podemos sempre voltar a Bach. E voltar. E voltar. Porque ele é inesgotável.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Novembro é mês de escrever um romance em 30 dias (dizem eles)

Está a chegar o NaNoWriMo. Quem alinha?

Bachianas

bach

Bach
Autor: Pedro Eiras
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 154
ISBN: 978-972-37-1786-0
Ano de publicação: 2014

Em Substâncias Perigosas (Livrododia, 2010), «pequeno divertimento sobre literatura em cem lições», Pedro Eiras terminava uma fascinante deriva ensaística com a seguinte ideia: «A literatura nada deve ao que já existe: antes abre portas insuspeitas. (…) A escrita inventa passagens, estreitas e incertas. Ninguém sabe aonde levam.» São justamente portas insuspeitas e passagens incertas que estabelecem a ligação entre os 14 capítulos deste volume, consubstanciando a heterodoxa aproximação de Eiras à figura e à obra de Johann Sebastian Bach.
A génese do projecto remonta a 2002, conforme explica o último texto do livro, no qual vemos o autor embalando a filha «às escuras no corredor», adormecendo-a enquanto canta em voz baixa uma ária da Paixão segundo Mateus. Há neste momento de puro amor paternal uma fé no poder da música, «como se estas notas (…) pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos». Nasce ali a vontade da escrita, ainda sem uma forma: «Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach». Anos mais tarde, descobrirá numa biografia romanceada, escrita por uma obscura autora britânica (Esther Meynell), certa cena inverosímil: Anna Magdalena Bach comovendo-se, ao espreitar às escondidas o marido no momento da criação. Se a fantasia é por natureza anacrónica, «então é preferível inventar o passado, assumir o fingimento», incorporando na obra a própria investigação (em livros, na internet), os impasses, os falhanços. Eiras lê, compara, interroga, procura o que resta de «antigas vozes», explora a «dobra da linguagem», expõe o seu espanto, as suas dúvidas. Observa a biógrafa no acto de imaginar a esposa à espreita e entra também no jogo: «copio o início e o fim de duas cartas verdadeiras de Anna Magdalena Bach, em 1750, e nas entrelinhas escrevo, livremente, uma carta impossível».
Desfeito o nó, surge então o cerco indirecto ao génio de Leipzig, através de personagens de vários tempos históricos que refractam, das mais diversas formas, a sua luz. Figuras unidas pelas tais portas e passagens subtis que a literatura abre ou cria: a viúva no momento de repartir os bens do grande compositor, numa casa já esvaziada, temendo que a sua música, vista como «boa para velhos austeros, com roupas e perucas fora de moda», venha a ser esquecida; o retrato desta mulher por Esther Meynell em Pequena Crónica de Ana Madalena Bach; Jean-Marie Straub e Danièle Huillet montando em Paris, durante o Maio de 1968, um filme inspirado no livro de Meynell, enquanto na rua se ergue o bruaá dos manifestantes; o actor desse filme, Gustav Leonhardt, magnífico cravista, em troca epistolar com Nikolaus Harnoncourt, discutindo a problemática questão da autenticidade, que talvez só possa ser «a ficção de uma autenticidade»; etc.
O labirinto expande-se e no seu círculo abarca Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Lutero, Albert Schweitzer, Maria Gabriela Llansol (poderosíssima, a imagem da escritora ouvindo Bach numa «Herbais hostil», enquanto descasca ervilhas) ou Etty Hillesum a caminho de Auschwitz num comboio, antecâmara do inferno, onde a jovem judia, consciente de que «vamos para a morte», se oferece para ajudar Deus. Este é o único capítulo sem referências musicais, ao qual se segue, por nos termos acercado do indizível, um capítulo vazio de palavras, só folhas em branco e a indicação de uma cantata sublime: a BWW 82 (Ich habe genug…). Porque é sempre na música de Bach que a escrita de Eiras, com as suas tantas modulações, vai desembocar. E assim está certo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Degelo

Por um conjunto de várias razões que não interessa especificar (mas digamos que a tríade ‘trabalho, trabalho, trabalho’ vem à cabeça), fui obrigado a deixar este blogue praticamente ao abandono nos últimos meses, o que muito me entristece. A falta de tempo nem sequer tem permitido a actualização mínima (e importantíssima para mim, ao permitir fazer desta página o meu arquivo profissional), pelo que demasiadas vezes o outrora pujante BdB se vem assemelhando a uma desolada ruína digital. Sem fazer promessas que posso depois não conseguir cumprir, o meu objectivo é sair aos poucos desta espécie de hibernação. Primeiro, partilhar aqui, retrospectivamente, os muitos textos entretanto publicados no Expresso (o tal arquivo). Depois, gradualmente, regressar a um ritmo de actualização aceitável. Gostava mesmo muito de conseguir voltar à normalidade até ao fim do ano. Vou fazer por isso.

Uma breve melodia

«(…) Da rua, além das portadas, sobe o ruído do arranque dos carros. Às vezes alguém chama um nome, um carro buzina. Em breve começarão as chuvas do Outono, e haverá o som da água nos vidros e nos parapeitos, trovões, algum granizo, e a surdina que a chuva provoca aos sons da cidade. Há o silêncio das paredes, da escuridão; os meus passos no corredor. Ando contigo de um lado para o outro, e canto para ti em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein.
Sempre esta ária da Paixão segundo Mateus. A última ária, para baixo, tão solene e íntima, com as cordas tão doces a envolverem a voz. Não sei o que as palavras querem dizer. Bastaria abrir o caderno que acompanha o CD, ler o texto, as traduções para inglês, para francês, compreender o texto da ária. Mas não procuro o caderno, não o abro; não quero saber o significado das palavras, só cantá-la assim, em voz baixa, verter a melodia desta música sobre o silêncio que nos toma, sobre o teu corpo a adormecer.
(…) Canto em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein. Vibração da minha voz, batimento do teu sangue, agitação nos meus tímpanos cansados do dia. E do teu sono, que começa, sobe uma aura de calor. Contra o meu peito, sinto as tuas pulsações mais lentas: gestos, sonhos de sons e perfumes, o conhecimento do corpo – sem palavras. Afastas-te nesse mundo interior, que eu não conheço, ou que já conheci e esqueci.
A mim, a vigília. Narrativas, teorias. A andar no escuro, a pensar no trabalho e a lembrar tantas coisas, textos que não tenho tempo de escrever. Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach, ainda procurarei durante muitos anos. Penso no tempo. Penso na memória dolorosa das imagens. Penso na tua fragilidade, e no cerco do mundo; a tua respiração, e a violência que empurra os corpos até ao vazio. A tua fragilidade nas minhas mãos e o mundo lá fora contra nós.
Mas murmuro sempre, continuo a murmurar para ti, sempre, Mache dich, mein Herze, rein…, como se estas notas de música pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos. Uma breve melodia, no meio da noite, tudo o que temos, tudo o que existe em nós.»

[in Bach, de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2014]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Pedro Eiras a propósito de Bach (Assírio & Alvim) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Herzog, de Saul Bellow (Quetzal), por Pedro Mexia
- Notícias – Um Manual de Utilização, de Alain de Botton (Dom Quixote), por Cristina Peres
- Karl Marx, de Isaiah Berlin (Edições 70), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- A Festa da Insignificância, de Milan Kundera (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Da Europa de Schuman à Não Europa de Merkel, de Eduardo Paz Ferreira (Quetzal), por Luísa Meireles
- Final do Jogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
- Do Outro Lado das Coisas – (In)confidências diplomáticas, de João Rosa Lã (Gradiva), por Manuela Goucha Soares

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Juan José Millás a propósito de A Mulher Louca (Planeta) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Vitória, de Joseph Conrad (Ulisseia), por José Guardado Moreira
- Vidadupla, de Sérgio Godinho (Quetzal), por Alexandra Carita
- Obra Completa, de Álvaro de Campos (Tinta da China), por Luís M. Faria
- Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- A Palavra Perdida, de Inês Fonseca Santos e Marta Madureira (Arranha-Céus), por José Mário Silva

E o Nobel de 2014 é…

Patrick Modiano

modiano

Excelente escolha.
Escrevi sobre dois dos seus livros: No Café da Juventude Perdida (ASA, 2009) e O Horizonte (Porto Editora, 2011)

Prognóstico

Eis a minha aposta para vencedor do Prémio Nobel de Literatura 2014:

kundera

Milan Kundera

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, de Katherine Anne Porter (Antígona), por Pedro Mexia
- Uma Noite de Inverno, de Simon Sebag Montefiore (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- O Organista, de Lídia Jorge (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Entrevistas da Paris Review – 2, de vários autores (Tinta da China), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago (Porto Editora), por José Mário Silva
- As Velas da Noite, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- Se Não Agora, Quando?, de Primo Levi (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- Até nos Vermos Lá em Cima, de Pierre Lemaitre (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
- O Uso dos Venenos, de José Carlos Barros (Língua Morta), por Pedro Mexia
- O Triunfo do Ocidente, de Rodney Stark (Guerra e Paz), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Romain Puértolas a propósito do seu romance A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Stoner, de John Williams (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- Um Diário de Preces, de Flannery O’Connor (Relógio d’Água), por Alexandra Carita
- Matéria, de Rosa Maria Martelo (Averno), por José Mário Silva
- Quatro Casos Clínicos, de Sigmund Freud (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Quando a revolução chegou lá acima

1975

Mil Novecentos e Setenta e Cinco
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 435
ISBN: 978-989-616-569-7
Ano de publicação: 2014

Em Trás-os-Montes, belo romance de estreia centrado numa aldeia da raia, Tiago Patrício ofereceu-nos uma espécie de requiem pela vida rural no interior, imediatamente antes da adesão de Portugal à CEE, com a promessa de fundos estruturais, auto-estradas e progresso económico. A narrativa era também um relato sobre o fim da infância, em torno de quatro crianças expostas de súbito à brutalidade do mundo dos adultos, tão cobiçado como temido. Depois da música de câmara desse primeiro livro, pode dizer-se que Patrício arrisca agora, em Mil Novecentos e Setenta e Cinco, a escala sinfónica.
Nos capítulos iniciais, assistimos ao regresso de Horácio a uma povoação não nomeada, no nordeste transmontano. O rapaz regressa para ver a avó muito doente, trocando «a Revolução de Lisboa por uma última visita à aldeia», mas a suspeita de que possa ser ele o protagonista do livro – talvez mesmo o herói de um romance de formação em atmosfera revolucionária – depressa se desfaz. Horácio é só mais um nome, só mais uma figura numa vasta galeria de personagens que atravessam, de fio a pavio, todas as maravilhas e ignomínias do PREC.
Tiago Patrício avança por este terreno armadilhado com pezinhos de lã, mostrando as várias faces de um conflito aberto, sem nunca tomar partido. Se não é lá muito lisonjeiro o retrato que traça dos Amadeus – família aristocrática com uma Criada Velha, vastas propriedades e hábitos de poder, aos quais se agarra com unhas e dentes –, os seus opositores também não ficam propriamente bem na fotografia. Valdemar, o mais radical dos dois agentes da mudança, deixa-se cegar por uma rigidez programática; enquanto Orlando, o moderado, resvala para compromissos que acabarão por liquidar as conquistas, lá mais para o fim do ano.
Seguindo cronologicamente o calendário, Patrício gere bem uma multidão de personagens e respectivos pontos de vista, mostrando com assinalável destreza narrativa todos os golpes e contra-golpes, as intentonas, as conspirações de taberna, as rixas, os espancamentos por engano, as manobras de diversão, e até um duelo de pistolas (interrompido por um coro de camponesas antes dos disparos fatais). A tensão por vezes irrespirável que paira sobre a aldeia atenua-se através do recurso ao humor. Ninguém escapa ao ridículo e este é distribuído democraticamente por todas as partes, em sequências hilariantes que o autor, também dramaturgo, condensa em cenas de perfeita respiração teatral, servidas por magníficos diálogos.
Numa terra onde as pessoas deixaram de morrer, o Coveiro assume aos poucos o papel de narrador/efabulador dos feitos dos vivos. As fronteiras entre o real e o inventado esbatem-se, à medida que vai entrando a chuva de inverno que tudo leva e dissolve, até à «normalização» definitiva. A dada altura, alguém diz que a Revolução «é a coisa mais linda do mundo, tem assim uma figura de mulher fogosa e cheia de consolos, mas se não a soubermos cativar vai-se embora e fica cá outra vez a velha senhora». Todos sabemos como acabou a história.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Tiago Patrício a propósito do seu romance Mil Novecentos e Setenta e Cinco (Gradiva) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Pintassilgo, de Donna Tartt (Presença), por Luís M. Faria
- Sonhos de Bunker Hill, de John Fante (Alfaguara), por Pedro Mexia
- As Aventuras de Marina Pons, de Lázaro Covadlo (Porto Editora), por José Guardado Moreira

Poemas em torno do Café Gelo

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«POETAS DO POVO / POESIA DO GRUPO DO CAFÉ GELO / 8 Set, 22h00
Com Fernando Pinto do Amaral, José Mário Silva, Clara Andermatt e Nuno Miguel Guedes, acompanhados pela música de Vítor Rua.
O grupo do Café Gelo era constituído por diversas personalidades artísticas como Manuel de Lima, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria Raul Leal, António José Forte, Ernesto Sampaio, Herberto Helder, José Escada, René Bertholo, Gonçalo Duarte, João Rodrigues Vieira, Helder Macedo, Manuel de Castro, António Barahona da Fonseca, entre outros que, no final dos anos 50, se reuniam neste mítico café da baixa Lisboeta.
Nesta sessão recordaremos a tertúlia que se pode considerar a segunda geração do movimento surrealista português.
Nas palavras de António José Forte, “um verdadeiro escândalo, que não era provocado por um manifesto, por um grupo com nome próprio, por uma revista, mas por um grupo iconoclasta e libertário onde se falava de tudo, até de literatura e artes, e de rosas também. Um grupo de franco-atiradores, é verdade; um grupo de poetas, sem dúvida. Que disparava ao acaso sobre a multidão, que inventava os seus infernos e paraísos, que usava a liberdade de expressão ora voando, morrendo, desaparecendo, escrevendo às vezes”.»

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Turismo de Guerra, de Tiago Patrício (Artefacto), por José Mário Silva
- Um Bárbaro em Casa, de Frederico Pedreira (Língua Morta), por José Mário Silva
- A Ilha, de Aldous Huxley (Antígona), por José Guardado Moreira
- O Capitalismo Estético na Era da Globalização, de Gilles Lipovetsky (Edições 70), por Luís M. Faria

Debate no Porto

Sábado à tarde, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, moderarei um debate incluído na programação da Feira do Livro do Porto. A conversa, com José Maria Vieira Mendes e João Tordo, abordará os nomes e os rumos da nova literatura portuguesa.

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Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Os livros da rentrée, por José Mário Silva
- Ouro e Cinza, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Estação 2012, de Henrique Manuel Bento Fialho (Mariposa Azual), por José Mário Silva
- Ressurgir, de Margaret Atwood (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
- O Francoatirador Paciente, de Arturo Pérez-Reverte (ASA), por José Mário Silva
- Jacques, o Fatalista, de Denis Diderot (Tinta da China), por Luís M. Faria
- À Beira do Abismo, de Raymond Chandler (Porto Editora), por Pedro Mexia

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Condor, de João Pina (Tinta da China), por Alexandra Carita
- Bifes Mal Passados, de João Magueijo (Gradiva), por José Mário Silva
- História do Futuro, de Padre António Vieira (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
- Zona de Desconforto, de Vários Autores (Chili com Carne), por Sara Figueiredo Costa
- Pompas Fúnebres, de Eduardo Pitta (Ulisseia), por Pedro Mexia
- (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?), de Rui Nunes (Língua Morta), por José Mário Silva

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Os Factos, de Philip Roth (Dom Quixote) e Roth Unbound, A Writer and His Books, de Claudia Roth Pierpont (Farrar, Strauss and Giroux), por Clara Ferreira Alves
- Conversa com Manuel Jorge Marmelo a propósito de O Tempo Morto é um Bom Lugar (Quetzal) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Tea-bag, de Henning Mankell (Presença), por José Guardado Moreira
- Contos e Diários, de Isaac Bábel (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- O Ilustre Colegial, de John Le Carré (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- Fruta Feia, de Miguel Cardoso (Douda Correria), por Pedro Mexia
- Bacchanalia seguido de Como Falsa Porta, de José Emílio-Nelson (Edições Sem Nome), por José Mário Silva

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges