Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Reportagem sobre a situação da literatura infantil em Portugal, por José Mário Silva
- Inércia, de André Carrilho (Abysmo), por José Mário Silva
- Eureka, de Puig Rosado (Documenta), por Alexandra Carita
- Cartas de Cuba, de Ana Glória Lucas (Alêtheia), por Cristina Margato
- Correspondência Agustina-Régio (1955-1968), org. de Alberto Luís e Lourença Baldaque (Guimarães), por Pedro Mexia
- O Tigre e a Serpente, de Noreena Hertz (Lua de Papel), por Cristina Peres

Quatro poemas de Juan Manuel Roca

ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.

***

CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.

***

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.

***

POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.

[in Os Cinco Enterros de Pessoa, selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Glaciar, 2014]

Logo à tarde

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Maratona poética com alguns excelentes e desalinhados poetas, a partir das 17h00, na Zona Franca (R. de Moçambique, 42, Lisboa).

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz (LeYa), e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Enredo Conjugal, de Jeffrey Eugenides (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- Lava de Espera, de Fátima Maldonado (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas
- Cartas entre Marcello Caetano e Laureano López Rodó, de Paulo Miguel Martins (Alêtheia), por Manuela Goucha Soares
- Plutocratas, de Chrystia Freeland (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Autobiografia, de Thomas Bernhard (Sistema Solar), por Pedro Mexia e Ana Cristina Leonardo
- Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo (Alfaguara), por José Mário Silva
- Tenho o Direito de me Destruir, de Kim Young-ha (Teorema), por José Guardado Moreira
- Canadá, de Richard Ford (Porto Editora), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Teolinda Gersão, por José Mário Silva
- Passagens, de Teolinda Gersão (Sextante), por José Mário Silva
- O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman (Presença), por José Guardado Moreira
- O Fim do Poder, de Moisés Naim (Gradiva), por Luís M. Faria
- Vidas Instáveis, de António Mega Ferreira (Abysmo), por Pedro Mexia

Do sítio das palavras

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Tudo são histórias de amor
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-989-671-198-6
Ano de publicação: 2014

No novo livro de contos de Dulce Maria Cardoso – Tudo são histórias de amor: título enganoso e de uma ironia amarga, como o leitor rapidamente perceberá – os textos são quase sempre construídos a partir de um núcleo central ocupado por uma imagem muito poderosa, cuja carga dramática, ou poética (ou ambas), se expande depois ao resto da prosa, contaminando-a; isto é, iluminando-a. Pode ser a aparição de uma beleza angélica num «além-mundo azul», a ilha do primeiro conto, com a população de faroleiros e suas famílias a devorarem a cesta de cerejas trazida pela forasteira («O sumo vermelho escorria-lhes pelos queixos e pelas mãos»), prenúncio de uma carnalidade que destruirá a inocência do narrador, inclinando-o de vez para o exercício do mal. Pode ser um cão habituado a roubar nacos de carne ao talhante e que um dia aparece em casa com a perna de um bebé, uma «perna rechonchuda que terminava num pé gordo com cinco dedos perfeitos». Pode ser uma mosca a debater-se dentro de um copo com resto de vinho rosé, durante uma tépida disputa conjugal.
Duas destas imagens fortes são protagonizadas por automóveis. Em Os anjos por dentro, a história de tensões familiares contidas, na sequência de um piquenique junto ao rio, desemboca numa situação fantástica quando o narrador, acompanhado pelo irmão e pela mãe, avança por um atalho, a subir, e depara com um Opel Kapitan em sentido contrário, «animado por vontade própria», sem ninguém ao volante, pronto a esmagá-los. De repente, o carro parou, «simplesmente», impossivelmente, «como se se tivesse esquecido de como as coisas são». Esta espécie de milagre torna-se um tabu («Nunca falámos sobre o que aconteceu naquele dia ao voltarmos do rio»), mas a sua força reverbera e dá sentido à «violência do amor» que pressentimos, subterrânea, por baixo do que é dito. «Talvez não tenha acontecido tudo exactamente como contei», admite ainda assim o narrador.
E alguma vez contamos as coisas exactamente como aconteceram? Veja-se a narrativa inspirada no célebre caso do desaparecimento de Joana, a menina algarvia de oito anos cuja mãe foi condenada por homicídio. Há elementos que nos aproximam do hediondo crime (alguns factos, a brutalidade dos interrogatórios policiais, a confissão, os impulsos da justiça popular), mas Dulce Maria Cardoso logo introduz uma dimensão quase onírica que anula qualquer tentação realista, justamente através da imagem de um automóvel, um Volkswagen carocha amarelo, brinquedo preferido da menina. Esta, antes de desaparecer sem deixar rasto, escondera-o debaixo de terra como se fosse «uma boa semente», da qual virá a nascer, no arrepiante final do conto, um «carocha amarelo verdadeiro». Em Não esquecerás, o ponto de partida é outra história real: a do acidente de Entre-os-Rios, quando um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro ruiu, arrastando dezenas de pessoas para as águas do Douro. «Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada», diz-se logo de início, e assim somos levados debaixo de chuva até ao autocarro que parou ali adiante, resgatando quem procura escapar da intempérie. Lá dentro, alegres por terem visto as amendoeiras em flor, estão as futuras vítimas. Pessoas normais, gestos normais, vidas normais. A tragédia está aqui, nesta normalidade ameaçada, a poucos minutos de mergulhar no abismo da morte. Transformados em personagens sem nome, os passageiros são como que redimidos do destino que a negligência do Estado lhes teceu. E aqueles cabelos de rapariga, «suspensos no ar quando a cabeça se volta», pairarão assim para sempre na memória do leitor que, como a história, não chega a atravessar a ponte.
Num texto autobiográfico, em que conta como «matou» uma parte de si mesma para poder ser ficcionista, Dulce Maria Cardoso afirma: «Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é bom.» Neste livro, as vidas espreitadas estão muitas vezes sujeitas ao império da maldade, própria ou alheia, essa «planta carnuda» que lança «ramos vigorosos para todo o lado». Num dos contos mais negros, Humal, um ser monstruoso só comove os aldeões com a beleza do seu canto quando é sujeito a torturas físicas: «Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infligir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.» São vários os contos do livro (por exemplo, Este azul que nos cerca ou Iguais) em que esta brutalidade visceral se manifesta. Entregues ao «martírio de pensar» e incapazes de «domar o tempo», as personagens são como pequenos animais indefesos, à mercê tanto da «solidão do que envelhece» como da «impiedade do que é novo». Acima deles, a autora monta as armadilhas e observa com rigor clínico. Quanto à escrita, exemplar, é sempre feita a partir do «local do crime». Isto é, «do sítio das palavras».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com José Rentes de Carvalho, autor de Portugal, a Flor e a Foice (Quetzal), por José Mário Silva
- Tudo são histórias de amor, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), por José Mário Silva
- O Vidro, de Luís Quintais (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- A Guerra que Acabou com a Paz, de Margaret MacMillan (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Últimas pétalas da metralha

memoraveis

Os Memoráveis
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 342
ISBN: 978-972-20-5436-2
Ano de publicação: 2014

Numa casa de madeira e vidro, em Washington, Frank Carlucci, o antigo embaixador americano em Lisboa, tenta convencer uma repórter portuguesa, de 28 anos, a participar numa série da CBS, com coordenação do seu afilhado, Robert Peterson. Em A História Acordada, a ideia é reunir um conjunto de narrativas edificantes, «luminosas», próximas do «júbilo», sobre transições pacíficas para a democracia: na República Checa, na Hungria, na Alemanha quando caiu o Muro, e, antes de todas essas, em Portugal, a cuja Revolução dos Cravos será dedicado o primeiro episódio. Esta cena, a primeira de Os Memoráveis, decorre no final de 2003, a poucos meses do trigésimo aniversário do 25 de Abril.
Aceitando regressar à pátria em trabalho, depois de ter vivido experiências traumáticas em cenários de guerra, Ana Maria Machado tem como missão «recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa». Fazendo equipa com dois colegas de curso, também já nascidos em liberdade (uma jornalista instintiva, capaz de aprender depressa; e um operador de câmara a tender para o distanciamento cínico), ela começa a sua busca das «últimas pétalas da metralha» tendo como bússola uma fotografia encontrada em casa do pai. Nessa imagem, captada durante um jantar em Agosto de 1975, sentam-se à mesma mesa vários pesos-pesados da Revolução, escondidos atrás de alcunhas que são fáceis de descodificar: El Campeador é Otelo Saraiva de Carvalho; Charlie 8 é Salgueiro Maia; Vasco Lourenço, o Oficial de Bronze. Mas há mais gente: um castiço da rádio com «olhar guevarista» (Salamida, responsável por um incidente, ao benzer de forma imprópria o conteúdo de uma terrina, que envenenará a noite), o próprio fotógrafo, o cozinheiro, três barbudos «esguedelhados», o pai e a mãe de Ana Maria, um casal de poetas.
A força da fotografia está na «dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história» – isto é, no lugar onde se esboçou o que poderia ter sido e não foi. Naquela noite de desavenças e reconciliações, os oficiais presentes traziam papéis dobrados no bolso da camisa, documentos que mudariam, se assinados por todos, «o rumo deste país». Mas não mudaram coisa nenhuma, como se perceberia definitivamente três meses depois. Ao entrevistar uma a uma aquelas figuras, a equipa de jovens jornalistas vai entrando no labirinto da revolução, «fábula» contada por quem a viveu. Além de se evocarem as contingências, acasos, «milagres» e mitos daquele dia em que cinco mil heróis anónimos derrubaram um regime podre, surgem – dolorosas – as marcas de um falhanço colectivo que condenou estes homens «à perda e à desilusão». No seu desamparo, eles assemelham-se à imaginária vigésima quinta coluna, um «comboio de carros militares que durante trinta anos não encontra o objectivo, e apesar de se ir desfazendo, perdendo rodas, espelhos, torres, traves, condutores, não desiste do seu propósito, e vai avançando ruas fora, sem parar».
Lídia Jorge articula, com mestria narrativa e requinte estilístico, os vários ângulos desta investigação, na procura de uma verdade a que talvez seja impossível fazer justiça, como se comprova no guião final do episódio (terceira e última parte do romance). O esteio de Os Memoráveis, que lhe dá consistência e espessura, é a história da difícil relação entre Ana Maria e o pai, António Machado, «figura de papel», antigo cronista de referência, «profeta em relação ao mundo» mas «cego em relação a si mesmo». Na sua decadência, no seu penoso processo de desligamento e clausura, ele simboliza todos os derrotados, mesmo os póstumos. E é dele que emana a melancolia que atravessa o livro de ponta a ponta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Para Isabel, de Antonio Tabucchi (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- Génio, de Harold Bloom (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Os Memoráveis, de Lídia Jorge (Dom Quixote), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Lídia Jorge, autora de Os Memoráveis (Dom Quixote), por José Mário Silva
- A Porta para a Liberdade, de Pedro Prostes da Fonseca (Matéria Prima), por Alexandra Carita
- Microenciclopédia de micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z, de vários autores (Associação Prado), por José Mário Silva
- Kassel não convida à lógica, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por Pedro Mexia
- Obras Escolhidas I, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- Mário e o Mágico, de Thomas Mann (Dom Quixote), por José Guardado Moreira

Um todo a partir de muitas vozes

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Teoria dos Limites
Autora: Maria Manuel Viana
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-8580-19-1
Ano de publicação: 2014

No funeral de um grande Escritor, reúne-se o seu círculo mais íntimo: a filha, Mariana; as sobrinhas (Ana Sofia e Ana Lúcia); o irmão mais velho; a mãe. Cada um deles assumirá, a seu tempo, o primeiro plano da narração, através de uma rede apertada de monólogos interiores, sonhos, segredos, factos remotos que subitamente se acendem na memória, um novelo que dá sentido à história de uma família ao mesmo tempo tão complexa e tão vulgar como outra família qualquer.
O vértice da ficção é carregado por Mariana: a hipótese de existir um livro póstumo do Escritor, de quem foi secretária e que nunca a tratou como filha – sendo que a mãe, desaparecida de cena quando ela era bebé, permanece um mistério familiar. Nesse livro, com título escolhido (Teoria dos limites), tudo remeteria para as ideias de Leibniz e a sua «concepção do mundo», nomeadamente a monadologia, a «pirâmide dos mundos possíveis» e a língua universal imaginada pelo filósofo alemão.
Mais interessante do que a suspeita de que esse livro vago e por completar, cujo material se resume a oito páginas A4 cheias de esquemas enigmáticos, possa ser o próprio romance que estamos a ler; mais impressionante do que a subtil assimilação dos princípios leibnizianos (sobretudo o que defende a «construção de um todo a partir de muitas vozes»); mais entusiasmante ainda do que a perfeição estrutural da ficção labiríntica é a escrita de Maria Manuel Viana, o fulgor de uma prosa que atravessa, como um cometa, os lugares sombrios ou precários das personagens. Este é um romance denso, melancólico, belíssimo, sobre o que há de mais profundo e frágil 
na condição humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Reportagem sobre as Correntes d’Escritas, por José Mário Silva
- Conversa com Maria Manuel Viana, autora de Teoria dos Limites (Teodolito), por José Mário Silva
- Os Lança-Chamas, de Rachel Kushner (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- O Meu Avô, de Catarina Sobral (Orfeu Negro), por Sara Figueiredo Costa
- O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- O Essencial sobre Albert Camus, de António Mega Ferreira (IN-CM), por Pedro Mexia
- Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana (Teodolito), por José Mário Silva

Tirar as medidas

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Não há nada mais frustrante do que ver um livro belíssimo confinado a um círculo de leitores demasiado curto para a sua grandeza. Foi o que aconteceu com Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela! (publicado pela A23), de Manuel da Silva Ramos, um extraordinário volume de memórias cuja primeira edição se esgotou num ápice, entre a Covilhã e o Fundão, não chegando a circular pelas livrarias do resto do país. Talvez as reacções dispersas a esta pequena maravilha consigam libertá-la dos mecanismos da interioridade e projectem o livro da esfera regional para a nacional, que é onde merece estar. Na sua estrutura fragmentária, entre o puro lirismo e a descrição de realidades concretas, vividas em vários tempos, a obra aproxima-se desse outro livro inclassificável que é Fernanda, de Ernesto Sampaio. Mas onde este se concentrava na história de um amor louco e do desespero sem fundo provocado pela morte da amada, Manuel da Silva Ramos amplia o foco. Ao prestar tributo à figura do pai, à sua vida, ao seu trabalho, à sua integridade, ele fala-nos também de um Portugal antigo, o Portugal salazarista dos anos 40 e 50 do século passado, marcado pela «fome» e pela «miséria», as «escoriações» de um «tempo sinistro» em que «a boca nos tinha sido selada com arame e chumbo».
Manuel da Silva Ramos evoca a neve que «tratava de bonifrates os pobres tecelões que partiam cabisbaixos para as fábricas de lancheiras nas mãos», o céu branco da serra que «parecia o vómito dum anjinho», mas também os dias «brilhantes como o vidro espesso dos pirolitos». Das dobras do passado, o escritor resgata figuras inesquecíveis: o avô José Luís, carniceiro que matava porcos e quando bebia demais afiava as facas raspando-as nas paredes de granito, a levantar “faíscas voadoras”; o comunista João Pereira, pinta de “companheiro do Maiakovski” mas sem dinheiro para comprar livros, que o embalou e lhe deu à boca colheradas de Farinha 33 com leite; a “maléfica” Dona Clotilde Calheiros, a quem a sua família prestou uma vassalagem que ainda hoje não é capaz de perdoar; entre muitos outros, acima dos quais se ergue o pai, Armando Ramos Pereira, alfaiate escrupuloso no exercício da sua profissão, homem sincero, afável, justo, e de uma generosidade «sem limites».
Com um ano de idade, Manuel ficava atado por uma linha aos pés de uma grande mesa de madeira, ouvindo as «conversas desacolchetadas» dos fregueses do pai, enquanto estes faziam as provas com alfinetes e marcas de giz. Essa arte antiga de ajustar o tecido ao corpo, de tirar as medidas para que o casaco e as calças assentem bem, transfere-se para o trabalho da escrita. E tudo vai ficando no seu lugar: a nostalgia e a raiva, a tristeza e a exaltação, a ironia e a dor. Ouve-se o realejo dos bailaricos; o tumulto das excursões a Espanha; os efeitos da crueldade dos adultos sobre as crianças. E também se sente, no ar, o “misterioso odor da canela” sobre o arroz-doce, nos casamentos que duravam três dias, como esse em Louriçal do Campo, debaixo de uma chuva diluviana que inundou a aldeia e propiciou uma espécie de milagre: «diante da nossa janela passava a noiva branquíssima, impecável, serena em cima de um carro de bois dando o braço ao seu padrinho. (…) O noivo, cintado no fato do meu pai, olhava já a nossa janela por onde nós devíamos sair enxutos. Já no nosso carro de bois olhei o princípio do cortejo: a noiva Zeilinda, belíssima, ia agora com o véu ao vento, um súbito e fraco sol batia nela e na água barrenta e dava à nossa vida um ar de irrealidade resplandecente.»
Nas primeiras páginas, Manuel da Silva Ramos recapitula os últimos dias do pai, conhecido como o alfaiate do Refúgio, essa aldeia em tempos separada da Covilhã pela extensão das quintas, e hoje contígua, engolida pela malha urbana da cidade. Com a memória a fugir-lhe, ele deixou de reconhecer o filho e é contra essa aniquilação que o livro se ergue, contra a barbárie do esquecimento definitivo. Deixar que um testemunho notável como este se fique por uma primeira edição, inacessível até para a grande maioria dos admiradores de Ambulância ou Três Vidas ao Espelho, é ser cúmplice da dita barbárie.

[Texto publicado no n.º 126 da revista Ler]

Amanhã na secção de livros do ‘Actual’

- Conversa com Racher Kushner, autora de Os Lança-Chamas (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- Contra Todas as Evidências – Poemas Reunidos I, de Manuel Gusmão (Avante!), por Pedro Mexia
- A Cortina de Ferro – O Fim da Europa de Leste, de Anne Applebaum (Civilização), por Luís M. Faria
- Hotel, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Vidas Perdidas, de Nelson Algren (Quetzal), por José Guardado Moreira
- Perfumes Eróticos em Tempo de Vacas Magras, de Manuel da Silva Ramos (Parsifal), por José Mário Silva

Três poemas de Angélica Freitas

ítaca

se quiser empreender viagem a ítaca
ligue antes
porque parece que tudo em ítaca
está lotado
os bares os restaurantes
os hotéis baratos
os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas
ao mar jônico
e mesmo a viagem
de dez horas parece dez anos
escalas no egito?
nem pensar
e os freeshops estão cheios
de cheiros que você pode comprar
com cartão de crédito.
toda a vida vocês quis
visitar a grécia
era um sonho de infância
concebido na adultidade
itália, frança: adultério
(coisa de adultos?
não escuto resposta)
bem se quiser vá a ítaca
peça a um primo
que lhe empreste euros e vá a ítaca
é mais barato ir à ilha de comandatuba
mas dizem que o azul do mar
não é igual.
aproveite para mandar e-mails
dos cybercafés locais
quem manda postais?
mande fotos digitais
torre no sol
leve hipoglós
em ítaca compreenderá
para que serve
a hipoglós.

***

metonímia

alguém quer saber o que é metonímia
abre uma página da wikipédia
depara com um trecho de borges
em que a proa representa o navio

a parte pelo todo se chama sinédoque

a parte pelo todo em minha vida
este pedaço de tapeçaria
é representativo? não é representativo?

eu não queria saber o que era
metonímia, entrei na página errada
eu queria saber como se chegava
perguntei a um guarda

não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas

queria escrever um poema
bem contemporâneo
sem ter que trocar fluídos
com o contemporâneo

como roland barthes na cama
só os clássicos

***

querida angélica

querida angélica não pude ir fiquei presa
no elevador entre o décimo e o nono andar e até
que o zelador se desse conta já eram dez e meia

querida angélica não pude ir tive um pequeno
acidente doméstico meu cabelo se enganchou dentro
da lavadora na verdade está preso até agora estou
ditando este e-mail para minha vizinha

querida angélica não pude ir meu cachorro
morreu e depois ressuscitou e subiu aos céus
passei a tarde envolvida com os bombeiros
e as escadas magírus

querida angélica não pude ir perdi meu cartão
do banco num caixa automático fui reclamar
para o guarda que na verdade era assaltante
me roubou a bolsa e com o choque tive amnésia

querida angélica não pude ir meu chefe me ligou
na última hora disse que ia para o havaí
de motocicleta e eu tive que ir para o trabalho
de biquíni portanto me resfriei

querida angélica não pude ir estou num
cybercafé às margens do orinoco fui sequestrada
por um grupo terrorista por favor deposite
dez mil dólares na conta 11308-0 do citibank
agência valparaíso obrigada pago quando voltar

[in Um útero é do tamanho de um punho, Cosac Naify, 2012]

Resplendor e susto

RosalinaMarshall-Ginecologia

Ginecologia – Considerações em defesa da Virgindade de Nossa Senhora
Autora: Rosalina Marshall
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 34
ISBN: 978-989-98790-1-0
Ano de publicação: 2013

Depois de uma estreia auspiciosa (Manucure, Companhia das Ilhas), Rosalina Marshall confirma a radical originalidade da sua voz neste livrinho em que se entrega a «considerações em defesa da virgindade de Nossa Senhora». Eis um inesperado regresso aos fulgores da poesia mística, com o sujeito poético a colocar-se voluntariamente na posição do devoto – aquele que olha para cima, em «pudico assombro», diante de uma «altíssima visão».
Como é evidente, Marshall conhece Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz mas o que fica desse lastro estético em certas imagens – como a da «flecha ferindo a graça» – logo se dissolve no mais desconcertante prosaísmo («tuas lágrimas / óleo Johnson»). Sendo a aproximação à figura de Nossa Senhora feita de «resplendor» e «susto», certos versos parecem destinados a provocar o choque e até (se vivêssemos noutra década) o escândalo: «Maria, Virgem santíssima / o teu orgasmo / é espírito / e santo». Mas relevar essa explicitação do que há de sexual no êxtase religioso seria desrespeitar a natureza do poema, todo ele feito de um subtil movimento de entrega à linguagem, enquanto poderosa lente que aumenta e dá sentido à realidade: «creio em ti, beata imagem / creio em ti, exposta / espelho meu / magnífica lupa».
A Virgem nunca deixa de ser essa «beata imagem», o veículo de uma projeção total, a ponto de se poder retirar «meu coração / de dentro do teu peito» ou ver que «debaixo da tua saia / a minha perna direita / é cera resplandecente». Para lá do transe, da bênção de «purpurina», da harmonia de lantejoulas, do espectáculo feérico da imaginação simbólica, restam «sonâmbulas / todas as palavras».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de livros do ‘Actual’

- Wasteband, de Patrícia Portela (Caminho), por José Mário Silva
- A Rainha dos Cipaios, de Catherine Clément (Porto Editora), por José Guardado Moreira
- O Escândalo do Twitter, de Nick Bilton (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Os Caminhos Habitados, de Fernando Guimarães (Afrontamento), por Pedro Mexia
- Ginecologia, de Rosalina Marshall (não edições), por José Mário Silva

40 anos de &etc

editora_subterrâneo

Numa nota introdutória a Uma Editora no Subterrâneo, fica dito algo que todos os colaboradores nesta bela homenagem corroboram, cada um à sua maneira: a «&etc é em grande medida produto da persistência de um homem amante de livros e radicalmente livre – Vitor Silva Tavares». O próprio VST, como é conhecido no «círculo próximo de amigos e pares de combate», explicou muito bem, em 2000, as linhas com que se cose. A &etc «nunca perseguiu o lucro mas o desejo de que a venda dos livros permitisse a publicação de novos livros»; nunca recebeu apoios ou subsídios do Estado; nunca reeditou as obras esgotadas por «preferir arriscar em novos títulos»; nunca assinou contratos com os seus colaboradores, que abdicam tacitamente de cobrar honorários; nem entrou nos circuitos habituais da promoção e do marketing. Uma filosofia que VST resume numa frase: «Funcionando pois em regime de amadorismo auto-consentido (excepto na probidade do trabalho, que se quer aplicado até para maior apuramento estético) e à margem, se não contra, as engrenagens das indústrias culturais, a editora afirma-se decididamente artística e incisivamente intelectual, entendendo o livro como integrante da acção poética e não como mercadoria descartável».
Esta atitude, mantida sem quebras ou cedências de qualquer tipo desde a publicação do primeiro livro, em Fevereiro de 1974 (o volume colectivo Coisas), conferiu a este projecto um «capital de culto que é a sua própria festa» e uma «força que a faz resistir à ‘apagada e vil tristeza’ do cerco económico». Uma festa e uma força que ficam devidamente espelhadas neste livro-testemunho, em que muitos dos cúmplices de VST nestas quatro décadas escrevem sobre a relação com aquela que é uma editora literalmente underground, ou não funcionasse numa cave – o mítico subterrâneo 3 – da Rua da Emenda, em Lisboa. Além das memórias em discurso directo de poetas, tradutores, artistas plásticos e amigos (entre os quais outros editores), o livro reúne um vasto acervo de documentos: cartas, bilhetes pessoais, fotografias, textos inéditos, estudos para ilustrações, prosas evocativas ou programáticas, autos de apreensão e provas riscadas pelo lápis azul do exame prévio da censura – no tempo em que a &etc ainda era uma «folheca cultural q.b.» de frequência quinzenal (entre Janeiro de 1973 e Outubro de 1974), depois de ter sido um suplemento literário do Jornal do Fundão (de 1967 a 1971) –, uma muito extensa entrevista a VST feita por Alexandra Lucas Coelho, o catálogo completo dos mais de 300 títulos editados e a reprodução a cores de todas as capas, invariavelmente no famoso formato de «falso quadrado» (15,5 por 17,5 centímetros), cuja génese e geometria é explicada em detalhe na página 131.
Ao Expresso, Eduardo de Sousa, responsável pela livraria Letra Livre, explicou que «este projecto vinha sendo pensado há bastante tempo pois seja como leitores, como livreiros ou editores, admiramos o persistente trabalho de resistência editorial de Vitor Silva Tavares e da &etc, essa editora independente e emblemática que se destaca no nosso panorama cultural». Uma editora que nunca se assumiu como «alternativa», antes como «paralela», porque «nunca se encontra com as outras, as que se movem por razões intrinsecamente comerciais». A edição deste volume integra-se, aliás, no «trabalho quotidiano da Letra Livre no sentido de valorizar as edições independentes e os livros que não têm espaço no grande mercado livreiro». Nesse capítulo, a &etc não é caso único. E Eduardo de Sousa assinala outras afinidades electivas: Fenda, Hiena, Antígona, Edições Mortas, Averno, Língua Morta, exemplos de uma pequena «galáxia de Gutemberg» que vive à margem da «engrenagem parideira» da indústria do livro.
Entre as muitas dezenas de possíveis participantes num projecto desta natureza, a Letra Livre convidou «os leitores, editores e autores que têm uma maior proximidade com a &etc e que se mostraram disponíveis para colaborar». Da lista constam os nomes, entre outros, de Adília Lopes, António Vieira, Cláudia Clemente, Fernando Cabral Martins, Isabel de Sá, Luís Henriques, Manuel de Freitas, Pedro Piedade Marques, Rocha de Sousa e Vasco Santos. A coordenação editorial e concepção foi de Paulo da Costa Domingos, assumido compagnon de route e «aprendiz» de VST durante quase duas décadas, além de autor, revisor tipográfico e «pau-para-toda-a-obra». Actualmente editor da Frenesi e alfarrabista, garante que «todas as lições, boas, más, ou assim-assim» que recebeu durante os anos de trabalho na &etc «estão patentes e registadas em cada pormenor, em cada detalhe, de todo o meu percurso intelectual, que deverá ser tido como um todo indissociável da minha vida quotidiana…»
Esta entrega absoluta transparece em muitas das histórias contadas no livro. O famoso subterrâneo, ao qual «se desce por uma rampa que sobe (ou vice-versa)», na expressão feliz de Paulo da Costa Domingos, representou uma espécie de segunda casa para muita gente que encontrava ali um espaço onde se podia respirar de outra maneira, discutir tudo e mais alguma coisa, ensaiar novas formas de insubmissão face ao poder tirânico do dinheiro, editar sempre com o gozo danado de quem não abdica de um esmero artesanal em desuso (atento à importância da arte gráfica, às subtilezas da tipografia, à escolha do tipo de papel certo), nunca desistindo de trazer à luz autores esquecidos, marginais ou incómodos (como Artaud, Péret, Pierre Louÿs, Gombrowicz, Michaux); em suma, fazendo do nobre ofício de publicar livros a tal «acção poética» reclamada no texto de 2000.
Algumas das «vicissitudes editoriais» vividas ao longo do percurso, escritas pelo próprio punho de VST por ocasião do 33.º aniversário da &etc, e aqui recuperadas, são uma maravilha de leitura obrigatória. Por exemplo, sobre a «morte gloriosa», ao 25.º número, da revista que antecedeu a editora, depois de lhe ter sido apresentada uma soma de exemplares devolvidos superior à própria tiragem: «Record mundial absoluto: vendas abaixo de zero! Guiness já já para a &etc! E que é deles, os exemplares “devolvidos”? – Por “distracção lamentável”, comunicado da distribuidora, foram-se para a guilhotina na companhia de toneladas de tralha impressa tida por jornais e revistas.» Ou sobre a segunda edição de O Bispo de Beja, de Homem-Pessoa (1980), «excepção única à regra de a &etc não fazer reedições». O «folheto original» fora apreendido à ordem do Ministério Público, por suposto crime de abuso de liberdade de imprensa (um regresso à censura, seis anos depois do 25 de Abril), sendo os exemplares «regados a gasolina e sujeitos a auto-da-fé no pátio do Tribunal da Boa Hora». Mas quando o editor decidiu «voltar ao objecto do crime», o processo foi arquivado, sem medidas persecutórias para a reedição: «Tudo bons rapazes na justiça portuguesa!»
Como seria de esperar, o que há mais em Uma Editora no Subterrâneo são textos de elogio e tributo – justíssimo – à figura e à obra de Vitor Silva Tavares. Toda a gente sublinha o seu rigor, o seu compromisso cívico e ético, a sua verve, a sua casmurrice, a sua têmpera, a sua honestidade intelectual e humana. «Falar com o Vitor Silva Tavares foi um momento de pura epifania», chega a escrever Graça Martins. Para mitigar um pouco esta atmosfera de quase canonização, que até deve gerar um certo desconforto no destinatário, é transcrito um artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular (Fevereiro de 1976), com «avisos» e «reprimendas», nomeadamente ao facto de VST ter suspendido a publicação da revista &etc logo a seguir ao 25 de Abril: «quando chegou o momento (…) de tomar posição clara, a folheca emudece. Foi pena.» Tantos anos depois, Paulo da Costa Domingos ainda reage com virulência às acusações de imaturidade («anarquismo de berlinde e calção») que Pacheco lhe fazia: «Não posso responder pelo Vitor Silva Tavares. No que me diz respeito, nunca dei a Luiz Pacheco mais crédito cultural do que aquele que ele me dava a mim. Desde a primeira hora, cavou um fosso que o tinha a ele de um lado (o bêbado) e do outro lado autores como eu (os drogados). Convicção dele. Por isso lhe puseram uma bandeira sobre o caixão: por causa dessas tristes convicções.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Maravilhas da paternidade

Numa série de desenhos animados japonesa, há um menino que gosta de outro menino como se ele fosse uma menina, explica-me o Pedro. «E o outro menino às vezes até se veste de menina, mas ficam os dois muito tristes, porque ele não é uma menina.» Após uma pausa para reflectir sobre o assunto, remata: «Não percebo porque é que eles não decidem ser gays. Era muito melhor, não era, pai? E assim, se quisessem, até se podiam casar.»

Uma metamorfose falhada

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Traição
Autor: Luís Mário Lopes
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-671-196-2
Ano de publicação: 2013

Na sexta cena de Traição – o texto com que Luís Mário Lopes venceu, em 2011, o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva – encontramos uma possível chave para o estranho jogo identitário que atravessa esta peça teatral. Num monólogo relativamente longo, o protagonista recorda um pesadelo que lhe atormentou a infância. No sonho, uma borboleta escapa-se da caixa dos bichos-da-seda e esconde-se atrás da estante, onde fica encurralada e a bater as asas, em pânico. «Os livros mal arrumados tinham servido de armadilha. Ouvia a borboleta assustada sem conseguir sair. Sentia-a. Sentia-a mas não a via… (…) então muito depressa, de uma vez só, empurrei os livros até ao fundo (…) Só um esmigalhar qualquer. Depois nada…» Acordada, a criança esperara que os casulos se abrissem e de lá brotassem «borboletas lindas», mas em vez disso saíram «uma espécie de moscas gigantes e brancas». Na continuação do sonho, é uma dessas que lhe entra pela boca e começa a descer pela garganta, sufocando-o. Longe de ser original, a metáfora associa uma ameaça à ideia de mudança, um processo que nem sempre nos transforma para melhor, às vezes muito pelo contrário.
O objecto da metamorfose chama-se Pedro, um astrofísico que deu o nome da mulher a uma estrela de neutrões e que não sabe se há-de aceitar o cargo de director numa instituição científica, à qual o governo pretende adjudicar o desenvolvimento de um sórdido Projecto de Vigilância Global – em que satélites seriam equipados com «câmaras poderosíssimas capazes de registar tudo o que toda a gente faz a toda a hora», dentro e fora de casa. O natural conflito interior do protagonista dá origem a um desdobramento, com a aparição súbita de um Pedro 2 que é um avatar daquilo que o Pedro original pode vir a ser, se abdicar dos seus princípios.
Esta enésima variação sobre o tema do duplo estabelece a principal linha de conflito da peça. Numa nota inicial, junto à indicação das idades aproximadas das personagens, o autor sublinha que «os actores que representam Pedro 1 e Pedro 2 devem ser apenas vagamente parecidos». O que aterroriza Pedro 1 é perceber que Pedro 2 não é sequer um sósia, mas toda a gente o aceita sem reservas ou surpresas quando ele lhe rouba a vida e o substitui em todos os planos da existência, do profissional ao amoroso. A dúvida instala-se: «Será que o estranho finge assim tão bem… ou afinal ninguém te conhece, ninguém te conhece verdadeiramente, e estás completamente só?»
Luís Mário Lopes tentou fazer uma peça com implicações filosóficas a partir de um enredo quase plano, em que as personagens nunca chegam a ganhar espessura ou densidade. Inevitavelmente, falhou. Os diálogos são fluidos, há savoir faire dramatúrgico, mas falta coesão ao todo. As partes não encaixam bem umas nas outras. Pior: ficam questões por explicar (a origem de Pedro 2 e a natureza da sua relação com Mr. World, por exemplo) e outras mal resolvidas (os dilemas de Pedro 1; o derradeiro ajuste de contas). Em palco, trabalhado por um encenador capaz, pode ser que o texto até funcione. No papel, deixa muito a desejar.

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Celebrar o Dia Triunfal

A 8 de Março, assinala-se o centenário do chamado «Dia Triunfal», esse momento em que Fernando Pessoa se acercou de uma cómoda alta e começou a escrever, de pé, sem interrupção, os trinta e tal poemas de O Guardador de Rebanhos, que logo atribuiu a Alberto Caeiro, celebrando com «o aparecimento de alguém em mim» o início desse feito maior da literatura do século XX que é a heteronomia pessoana.
Para comemorar a data, acontecerá em Lisboa um colóquio internacional intitulado “O dia triunfal de Fernando Pessoa”, com mais de 50 especialistas, de 6 a 8 de Março, na Fundação Gulbenkian. Objectivo: «fazer uma revisão do Estado da Arte nos diversos campos dos Estudos Pessoanos». Haverá ainda um concurso de curtas-metragens sobre a vida e obra de Fernando Pessoa, com o vencedor a ser apresentado na sessão de encerramento.
Programa e formulário de inscrição, aqui.

Borboletas amarelas

Como combinado, pelas nove horas o David estava à nossa espera no átrio do hotel. Na véspera, quando decidimos aproveitar a manhã de sábado para dar uma volta pelos bairros antigos da capital, um telefonema bastou para garantir um guia improvisado, disponível e simpático – como são quase todos os colombianos com que nos cruzámos durante a nossa estadia a 2600 metros de altitude, na cordilheira dos Andes, para acompanhar a presença de Portugal como país-convidado na Feira do Livro de Bogotá, uma das maiores da América Latina. David tem 22 anos, cabelo abundante e barba, estuda literatura na universidade e mete-se num táxi connosco, a caminho de La Candelaria.

david

Cumpridas as visitas obrigatórias ao opulento Museu do Ouro e ao senhorial Museu Botero (mais interessante pela vasta colecção de arte europeia do pintor do que pelos seus retratos de criaturas obesas), David mostrou-nos a Plaza Bolívar, ampla mas claustrofóbica na sua imponência colonial, como que abafada pelos cumes das montanhas que cercam a cidade, e levou-nos por ruas estreitas onde os vendedores de fruta estacionam no passeio os seus carrinhos, enquanto militares de metralhadora a tiracolo montam vigilância nas esquinas. «Ali à frente fica o Centro Cultural Gabriel García Márquez», apontou. «Vale a pena. E tem uma das maiores livrarias do país.»

livraria_bogotá

Uma livraria é sempre irresistível, seja em que latitude for. E a Fondo de Cultura Económica, com a sua oferta de 80 mil títulos e 120 mil exemplares, não desiludiu. É circular, uma espécie de anel feito de estantes e livros, com janelões que dão para um lago interior, dentro do grande edifício do Centro Cultural, desenhado pelo arquitecto Rogelio Salmona. Foi lá que comprei Gabo – memorias de una vida mágica (R+N, 172 págs.), aproximação ao percurso e à obra de Gabriel García Márquez que recorre à flexibilidade da novela gráfica, a partir de um guião do escritor Óscar Pantoja. O livro está dividido em quatro partes e a cada uma delas corresponde um artista e uma cor dominante diferentes: amarelo (Miguel Bustos), azul claro (Tatiana Córdoba), cor-de-rosa (Felipe Camargo Rojas) e verde eléctrico (Julián Naranjo).

gabo

Em vez de seguir uma estrutura linear, os quatro blocos são compostos por episódios marcantes da vida do autor de Ninguém Escreve ao Coronel, apresentados sem ordem cronológica. É como se Pantoja transformasse cada um dos momentos essenciais da trajectória de Gabo numa peça desirmanada, deixando ao leitor o trabalho de montar o puzzle. Não sendo original, é um dispositivo narrativo eficaz. Logo a abrir, assistimos a uma epifania que se tornou mítica: após muitos anos às voltas com os materiais que haveriam de conduzir à sua obra-prima (Cem Anos de Solidão), um romance que durante muito tempo esteve para se chamar A Casa, Márquez estava a caminho das praias de Acapulco, com a mulher Mercedes e os filhos, conduzindo um Opel branco, quando de repente percebeu que sabia finalmente como contar a história dos Buendía, a começar pela celebérrima frase inicial que fala da «tarde remota» em que o pai do coronel Aureliano o levou a «conhecer o gelo».
Segue-se um imbricado labirinto de saltos no tempo, da infância em Aracataca, criado pelos avós, à entrega do Nobel em Estocolmo (1982), passando pelo nascimento dos filhos, o trabalho como jornalista, os anos de formação, o amor louco e para a vida toda com Mercedes, rapariga que conheceu quando ela tinha 14 anos, os vários períodos de absoluta penúria (enviou o manuscrito de Cem Anos de Solidão ao editor em duas remessas, porque não tinha 82 pesos para pagar os portes), o envolvimento político, as amizades com outros escritores, as desilusões, os fracassos, os cumes da glória literária. Em vários momentos aparecem a pairar, talvez inevitavelmente, as borboletas amarelas que perseguiam Mauricio Babilonia pelas ruas de Macondo. Elas desprendem-se deste livro como da memória que temos do outro, aquele em que as «estirpes condenadas» não têm «uma segunda oportunidade sobre a terra». Ficamos a pensar: para quando uma homenagem como esta ao nosso Nobel? A história de Saramago é igualmente forte. E ilustradores de qualidade não nos faltam.

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[Texto publicado no n.º 125 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Abro os olhos e não sei onde estou nem quem sou. Não é nada de incomum, passei metade da minha vida sem saber. Ainda assim, parece diferente. Esta confusão é mais assustadora, mais absoluta.
Olho para cima. Estou deitado no chão, ao lado da cama. Já me lembro. Passei da cama para o chão a meio da noite. Faço-o a maior parte das noites. É melhor para as minhas costas. Demasiadas horas num colchão macio provocam-me um sofrimento atroz. Conto até três e dou início ao longo e penoso processo de me levantar. Viro-me de lado, a tossir e a gemer, depois enrolo-me em posição fetal; por fim fico de bruços. Agora espero, e espero, até que o sangue volte a circular.
Sou relativamente jovem. Trinta e seis anos. Mas, quando acordo, sinto-me como se tivesse noventa e seis. Depois de três décadas de sprints, paragens bruscas, saltos constantes e aterragens rudes, o meu corpo já não parece ser o meu corpo, sobretudo pela manhã. Por conseguinte, a minha mente também não parece ser a minha mente. Quando abro os olhos, sou um estranho para mim mesmo e, embora isso, uma vez mais, não seja nada de novo, é mais pronunciado de manhã. Revejo rapidamente os factos básicos. O meu nome é Andre Agassi. Sou casado com Stefanie Graf. Temos dois filhos, um menino e uma menina, de cinco e três anos de idade. Vivemos em Las Vegas, no estado de Nevada, mas, de momento, estamos instalados numa suíte do hotel Four Seasons de Nova Iorque, porque estou a participar no Open dos Estados Unidos de 2006. O meu último Open dos Estados Unidos. Na verdade, a última competição na qual participarei na vida. Ganho a vida a jogar ténis, embora odeie o ténis; odeio-o com uma paixão secreta e sombria, sempre o odiei.»

[in Open - A minha história, de Andre Agassi, Cavalo de Ferro, 2014]

A siderurgia das coisas frágeis

fluor

Flúor
Autora: Andreia C. Faria
Editora: Textura
N.º de páginas: 61
ISBN: 978-989-98751-1-1
Ano de publicação: 2013

De Andreia C. Faria, nascida em 1984, conhecíamos um pequeno volume atravessado por gatos e mulheres «a habitar a perda». Nesse De haver relento (Cosmorama, 2008) impressionou-nos a extrema segurança da dicção poética e o fulgor de algumas imagens, mas o livro era um círculo fechado, por vezes opaco, quase sempre claustrofóbico, com uma energia latente que nunca chegava verdadeiramente a explodir. Essa explosão, qual supernova, acontece em Flúor, um livro poderoso que amplia de forma brusca os horizontes desta escrita.
Logo no primeiro poema, evoca-se uma rapariga «tão magra / que os pensamentos lhe apareciam à flor da pele» e «bela / como osso saindo da carne / ou pássaro largando a árvore». Estamos perante uma poética que nunca se desliga do corpo, enquanto evidência, glória ou maldição. Os elementos anatómicos – coxas, ancas, pulsos magoados, vértebras, pele, a «cerviz de encontro à noite sem se curvar» – são pontos de partida em torno dos quais se articulam visões de um mundo que se perdeu (a infância, a vida na aldeia, o sabão Offenbach a lembrar «a barrela das lavadeiras») ou do próprio ímpeto criativo («à música / de costelas e clavículas / faria um poema, se soubesse, / de ressonância e susto / desvinculando ossos»).
Há uma certa violência nas metáforas, uma força bruta de arestas e lacerações, uma forma crua de olhar para tudo o que está sujeito a ser partido, esmagado – isso a que a poeta chama «siderurgia das coisas frágeis». Coisas como o amor («o amor é soslaio, oblíquo»), um rosto («o meu rosto implodirá como um punho») ou o corpo que se oferece («pela noite / fazer do corpo raso / prato vazio de onde se come»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O que aí vem (Bizâncio)

A Vida é um Presente, de María de Villota; A Minha Segunda Vida, de Christiane F. (com Sonja Vukovic); Cartas a um jovem Jornalista, de Juan Luis Cebrián (terceira edição).

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Os 40 anos da &etc (Uma Editora no Subterrâneo, Letra Livre), por José Mário Silva
- Nove Histórias, de J. D. Salinger (Quetzal), por Pedro Mexia
- A Presumível Fidelidade das Partes, de Jaime Collyer (Gradiva), por José Guardado Moreira
- Traição, de Luís Mário Lopes (Tinta da China), por José Mário Silva
- Bem Comum, organização de João Pato, Luísa Schmidt e Maria Eduarda Gonçalves (ICS), por Virgílio Azevedo
- O Zelota, de Reza Aslan (Bertrand), por Luís M. Faria

Maravilhas da paternidade

Pedro: Pai, o que é desfalecer?
Eu: É desmaiar.
Pedro: Ah.
Eu: …
Pedro: Eu sei o que é falecer. Por isso pensei que des-falecer era nascer outra vez.

O olhar de Clarice

Sobre uma exposição, ‘A Hora da Estrela’, que esteve patente na Fundação Gulbenkian entre Abril e Junho de 2013:

olho

Antes de a vermos, é ela que nos vê. Ao fundo da sala, o olho de Clarice emerge da escuridão. Só o olho em grande plano, a curva da pálpebra, a ténue sobrancelha, as finas pestanas, um ponto de luz na pupila. Quando nos aproximamos, percebemos que a imagem é transparente. Por trás, uma frase: «Ver é a pura loucura do corpo.» Não há melhor resumo do que foi a vida e a escrita de Clarice Lispector, brasileira assombrosa nascida na Ucrânia, do que esta espécie de epígrafe da exposição A Hora da Estrela, comissariada por Júlia Peregrino e pelo poeta Ferreira Gullar, aberta ao público no Museu Gulbenkian.
A primeira sala é panorâmica. Eis Clarice nas várias idades, o rosto transformando-se, ganhando sombras e uma espécie de alheamento, como se tudo o que importa estivesse na escrita e a escrita nunca chegasse para reflectir o prodígio do mundo. Não há aqui explicações, enquadramentos biográficos, cronologias. Só palavras nas paredes: «O nome da coisa é um intervalo para a coisa». Qualquer explicação de Clarice seria um intervalo entre nós e Clarice. Mais vale por isso a nudez das frases em bruto, isoladas, arrancadas dos livros, sem contexto, aproximando-nos de uma perplexidade essencial: «Escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever». Somos então guiados por fragmentos desse processo de escrita, vislumbres da sua forma de enfrentar a realidade com palavras. Clarice sempre soube que escrever é uma maldição, mas «uma maldição que salva».
As palavras da escritora saem dos livros e colam-se à pele de quem as lê. É essa a sua força tirânica. Não se projectam apenas nas paredes, escavam-nas, abrem sulcos. De forma subtil e inteligente, a exposição lembra-nos isso. Eis as palavras acesas, brilhando: «Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro». As frases são costuras, cicatrizes, tatuagens. Ou então polaroids, imagens que deflagram. Como na sala em que as fotografias instantâneas, quadradas, oníricas, nos surgem através das palavras. «Aí está ele, o mar, a menos ininteligível das existências não-humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos.» A mulher é Clarice e vemo-la, difusa, de fato de banho, junto ao oceano, num tempo perdido que é o tempo sem tempo da literatura.
Cinzenta, a Underwood é um totem. Imaginamos os dedos longos da escritora, matraqueando as teclas noite dentro, com a máquina de escrever pousada no colo. Os dedos longos que pegam, lânguidos, no cigarro. Observem como ela o acende, nessa entrevista televisiva emitida em 1977 (ano da sua morte), de que aqui sobraram só as respostas, o registo da voz, a pronúncia estranha, os silêncios, uma honestidade tão grande e desarmada, a sufocante tristeza. «O horror sou eu diante das coisas», disse noutro lugar. E a sombra desse horror nunca a abandona, enquanto o fumo do cigarro paira no estúdio, onde ela parece estar e não estar, desligada de si, completamente exposta. Ao longo dos anos, Clarice andou pelo mundo, atrás do marido diplomata, e esses percursos de cidade em cidade desenham uma constelação, uma linha que se torna poética no interior de um cubo de vidro, com luzes que crescem e diminuem, espelhando as superfícies.
Chegamos por fim à sala do arquivo, gavetas de alto a baixo, mais de mil, embora só 35, com chave, se abram à nossa curiosidade. Lá dentro: documentos, rascunhos, edições estrangeiras das suas obras. A sala é uma cápsula de memórias. Vale a pena puxar uma das cadeiras e ficar ali, lendo tudo o que há para ler. A correspondência com outros grandes escritores (Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto). Os bilhetes de identificação, com fotos tipo passe. As listas com indicações para o trabalho de revisão literária. Cartas para os filhos, cheias de um amor materno arrebatado (no fim de uma delas, conta ao filho Paulo, então nos EUA, que o «Botafogo ganhou do Flamengo 2×0»).
À saída, Clarice permanece um mistério. A exposição sabe a pouco. E ainda bem. O resto temos de procurar nos seus livros e é para os livros, sempre para os livros, que somos empurrados.

[Texto publicado no n.º 124 da revista Ler]

João Tordo na Alfaguara

Da editora Alfaguara, acabei de receber o seguinte comunicado:

«No ano em que comemora o seu 5.º aniversário em Portugal, e o seu 50.º aniversário a nível internacional, a Alfaguara anuncia com orgulho a contratação de mais um excelente autor português para o seu catálogo.
João Tordo, vencedor do Prémio José Saramago e um dos mais relevantes nomes da literatura portuguesa contemporânea, junta-se a um jovem mas cuidado catálogo de ficção literária, em que se destacam autores portugueses como Afonso Cruz, Ricardo Adolfo e Valter Hugo Mãe.
O próximo romance de João Tordo – Biografia involuntária dos amantes – sairá já em Abril com a chancela Alfaguara.»

Convém lembrar que embora a Alfaguara ainda detenha os direitos sobre alguns dos romances de Valter Hugo Mãe, o autor de A Desumanização transferiu-se recentemente para a Porto Editora.

O intervalo preciso

passageiro_frequente

Passageiro frequente
Autor: Daniel Jonas
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8638-09-0
Ano de publicação: 2013

Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade, em que o desenho inscrito pelos poemas no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana.
No poema que dá título ao livro, surge a figura do «passageiro frequente dos faux-pas», alguém que está «muito a tempo de alguma coisa» que não se sabe bem o que é: «Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios / ao coração de tudo, ao centro das coisas». Sublinhe-se a pertinência do advérbio, porque o «tardiamente» sinaliza um atraso, um desajuste, uma descontinuidade com a época em que se vive e com o real que as palavras tentam em vão fixar, que é a própria matéria desta poesia. Consciente do desfasamento, o sujeito poético transporta as suas percepções para uma espécie de paisagem mental (veja-se o poema Praia pensada), em que muitas vezes encena o espectáculo da sua auto-reflexividade: «Sou jusante, escusado de mim, / o pior de dois mundos, / o intervalo preciso entre / nada // e coisa nenhuma». Neste caso, o sentido de «preciso» tanto pode ser o da exactidão como o da necessidade. Essencial é a ideia de intervalo, de algo que se interrompe e retoma (não será por acaso que surge tantas vezes, mais metafórica ou mais literal, a imagem de uma ponte).
Dos muitos recursos retóricos que Daniel Jonas exibe, há um particularmente poderoso, que consiste no cruzamento ou sobreposição de planos sensoriais distintos («Meu deus, o que faríamos sem a sinestesia», admite algures). Aves negras sobre a neve serão sombras, «corvos corvos» ou «píxeis fundidos, / o anátema da inexistência»? Há fotografias que se ouvem, sons que se vêem, objectos conscientes da sua condição de símbolos. As maiores alturas estéticas, porém, atingem-se através da mais pura contemplação. Como no poema Velho Mestre: «O silêncio / de um fruto sobre a mesa, / apenas ferido / por um gume de luz / no meridiano. // Mas nenhuma ameaça, / nem o arnês de dedos / formando-se no horizonte, / apenas o golpe do sol / afiado na vidraça. // Um fruto / é um velho mestre / esperando na luz / as trevas / do amadurecimento.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Frederico Pedreira

Obediente turvado o tronco vai solto
repete endurecimentos abaixo da cintura
faixa de vento descobre a rosa clara ao meio
abalroa o tronco queimado
ainda a escuta atenta a fumigações
o ar recusado perdendo aos poucos o pulmão

***

Remexe as ameixas podres em volta
com a cabeça encaixada no frio de um tanque
a tua coroa no fio
escuta só a música prolongada
reverbera nos dentes essa armadura
que faz tremer o cimento do coração

***

a teia de vidro que te traz a memória
e te rompe os buracos mais escuros
a tua boca escavada como a ruína conhecida
onde faz aquela música de asas doentes

a memória engrossa com febre
mostra a contragosto um olhar de passagem
sem nenhuma arte sem roupas
sem saber melhor forma de
dizer adeus

***

CONSERVAÇÃO

É sempre com este medo de dizer
que me apresento, na vergonha
de umas mãos metidas para dentro
à procura desse abismo de pele
côncavo e azul.

Ando à escuta
de um rosto que aprendi
a lembrar no oco das paredes,
húmido como barro, guardado
entre ossos muito limpos.

Sei de algumas coisas: que nunca
sobreviverei perto de ti com um
punhado de metáforas de inverno,
que vou andando voltado para trás,
e só confio na mancha do meu sopro.

[in Doze Passos Atrás, Artefacto, 2013]

Uma biblioteca sem livros

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Acaba de ser inaugurada a primeira biblioteca norte-americana 100% digital. Terá os seus méritos, certamente. Mas, com o seu look de cybercafé muito limpinho, não me dá vontade nenhuma de lá entrar.

O buraco branco

Há uns meses, um ataque de spam deixou este blogue em estado comatoso. Vencida a luta contra as forças negras da internet e ultrapassado o embaraço de ver esta página a propagandear as virtudes de um ersatz do Viagra, o BdB está a voltar aos poucos à sua velocidade de cruzeiro. Ainda assim, continuam a verificar-se acidentes misteriosos. Exemplo: sem que se perceba porquê, o cabeçalho desapareceu de um momento para o outro. No seu lugar, ficou um buraco branco onde a minha memória visual projecta a imagem que se eclipsou, algo que não posso exigir aos leitores do blogue. Pela inusitada falta peço as minhas desculpas. Tentarei, como é evidente, repor a normalidade logo que seja possível.

Revista ‘Ler’, n.º 132

Layout 1

Já nas bancas.

O que aí vem (Parsifal)

Perfumes eróticos em tempo de vacas magras, de Manuel da Silva Ramos e João Pedro Lam; A Montanha e o Titanic, de Luísa Franco (edição de Miguel Real).

Primeiros parágrafos

«Havia noventa e sete publicitários no hotel e, pelo modo como monopolizavam as linhas de longa distância, a rapariga do 507 teve de esperar do meio-dia até quase às duas e meia para lhe passarem uma chamada. Mas não ficou sem fazer nada. Leu um artigo numa revista feminina de bolso, intitulado “O Sexo é o Paraíso… ou o Inferno”. Lavou o pente e a escova. Tirou a nódoa da saia do fato bege. Mudou o botão da blusa da Saks. Arrancou dois pelos que havia pouco lhe tinham aparecido num sinal. Quando a telefonista finalmente ligou para o quarto, estava sentada no banco da janela e quase a acabar de pôr verniz nas unhas da mão esquerda.
Era daquelas pessoas a quem um telefone a tocar não faz com que larguem tudo. Era como se o telefone dela tivesse estado a tocar continuamente desde que atingira a puberdade.
Pegando no pequeno pincel do verniz, enquanto o telefone tocava, acabou a unha do dedo mindinho, acentuando o con- torno da meia-lua. Colocou então a tampa no frasco de verniz e, levantando-se, agitou a mão esquerda — ainda húmida — de um lado para o outro. Com a mão seca, pegou num cinzeiro a abarrotar do banco da janela e levou-o para a mesinha de cabeceira, onde estava o telefone. Sentou-se numa das camas e — era o quinto ou sexto toque — levantou o auscultador.
— Está — disse ela, mantendo os dedos da mão esquerda esticados e afastados do roupão de seda branca, que era tudo o que tinha vestido, além dos chinelos — deixara os brincos na casa de banho.
— Tenho aqui a sua chamada para Nova Iorque, senhora Glass — disse a telefonista.
— Obrigada — disse a rapariga, e arranjou um lugar para o cinzeiro em cima da mesa de cabeceira.»

[in Nove Histórias, de J. D. Salinger, trad. de José Lima, Quetzal, 2014]

A mãe dela

Durante muito tempo, tive tendência a olhar de lado para as novelas gráficas. Algures entre a literatura e a BD, nem carne nem peixe, pareciam-me apenas romances ilustrados, feitos para leitores preguiçosos. Como todos os preconceitos idiotas, este também ruiu assim que dediquei ao género a atenção que ele merece. Quando vi emergir, das páginas de Persépolis, a vida quotidiana no Irão de Khomeini, entendi duas coisas: 1) que Marjane Satrapi é uma artista invulgarmente subtil e talentosa; 2) que afinal isto das novelas gráficas tem muito que se lhe diga. Ou seja, elas não estão a meio caminho de coisa nenhuma, valem por si mesmas, e transformaram-se num dos mais interessantes territórios de experimentação ficcional da actualidade (à semelhança do que acontece com as melhores séries de TV dos canais de cabo americanos).
Aos poucos, fui descobrindo vários autores, mas nenhum me entusiasmou tanto como Alison Bechdel. Há uns meses, veio parar-me às mãos Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar (edição portuguesa da Contraponto) e fiquei pasmado. Bechdel começou por se afirmar como cartoonista, assinando durante mais de vinte anos, em vários jornais, a tira cómica Dykes to Watch Out For, que acompanhava a vida e as opiniões de um grupo de personagens femininas, na sua maioria lésbicas como ela. A questão da identidade sexual é justamente uma das linhas narrativas principais de Fun Home. Bechdel fez o coming out aos 19 anos, uns meses antes do acidente que vitimou o pai, atropelado por um camião – uma tragédia em que a filha, mesmo sem ter provas, pressentiu a possibilidade de um suicídio. A comunicação difícil com esse pai enigmático e emocionalmente desligado da família – ele próprio um homossexual, mas incapaz de se assumir – salta para o primeiro plano desde cedo. É em torno dessa relação que o livro se organiza, numa estrutura complexa e graficamente muito inventiva, feita de avanços e recuos no tempo, desenhos minuciosos, planos que se sobrepõem, e uma escrita poderosa, muito precisa e saturada de referências literárias.
A figura do pai, esse mistério que a filha continua a tentar resolver muitos anos depois da sua morte, é tão intensa que ofusca o resto da família. A mãe e os irmãos mais novos estão quase sempre fora de campo, como se fossem meros figurantes numa tragédia que os ultrapassa. Que mãe era aquela?, pergunta-se o leitor, perplexo. A resposta chegou em 2012, após quase dez anos de trabalho obsessivo, no volume Are You My Mother? (Jonathan Cape, 290 páginas), um comic drama ainda mais brilhante do que Fun Home.

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Na essência, trata-se de um «meta-livro», um livro que narra a sua própria construção, uma obra que nos deixa espreitar a arquitectura interna (o modo como se vai fazendo, desfazendo, refazendo) e exibe, sem pudor, todas as dúvidas, dilemas, angústias, crises e soluções com que Bechdel se deparou durante o processo criativo. No início de cada um dos sete capítulos, entramos na história através de um dos sonhos de Alison, o que faz todo o sentido, já que a relação complexa entre mãe e filha é sempre explorada (e teorizada) a partir dos trabalhos abundantemente citados do psicanalista inglês Donald Winnicott, que têm nos diários e romances de Virginia Woolf (sobretudo To the Lighthouse) o seu contraponto literário.
Algumas das pranchas de Are You My Mother? são graficamente assombrosas, mas a sua força nasce da absoluta liberdade formal com que Bechdel vai intercalando materiais biográficos sensíveis (mostrados em toda a sua crueza), elaboradas digressões ensaísticas (sempre oportunas, embora por vezes fastidiosas) e verdadeiros achados visuais (grandes planos, ângulos inesperados, uma obsessiva atenção aos detalhes). Compreensivelmente, a mãe, que já ficara incomodada com o livro sobre o pai, teme o pior do sofisticado jogo de exposição pessoal da filha. Mas as páginas finais, em que Alison resolve de forma exemplar as várias tensões que atravessam o livro, não a deixam ficar mal. A mãe duríssima, que deixou de beijar a filha aos sete anos, obrigou-a a inventar um outro espaço, uma saída. E essa saída, para nossa felicidade, foi a arte, foi a escrita.

[Texto publicado no n.º 123 da revista Ler]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Passageiro frequente, de Daniel Jonas (Língua Morta), por José Mário Silva
- Teatro de Rua, de Tatiana Faia (Do lado esquerdo), por Pedro Mexia
- Flúor, de Andreia C. Faria (Textura), por José Mário Silva
- Hav, de Jan Morris (Tinta da China), por Luís M. Faria
- As Portas da Percepção, de Aldous Huxley (Antígona), por Ana Cristina Leonardo

Festival Literário de Castelo Branco começa no próximo dia 5

castelo branco

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges