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Tempo de Feira

Céu azul, primeiras flores dos jacarandás e muitos livros. Até 10 de Junho.

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Se há o lado materno e se há o lado paterno, também há o lado avô terno, não é?»

Memórias do inferno tropical

Que Importa a Fúria do Mar
Autora: Ana Margarida de Carvalho
Editora: Teorema
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-972-47-4639-5
Ano de publicação: 2013

Há ficções que vão direitas ao assunto, sem rodeios, contando logo o que têm para contar, e há outras que precisam de prolegómenos, circunlóquios e outras procrastinações narrativas. Para não deixar dúvidas ao leitor de que pertence a esta última categoria, o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão, abre com uma personagem marginal que se alonga em queixumes sobre o seu estatuto. Embora lhe caiba o gesto que fecha o círculo maior da narrativa, ele sabe que vai ser rapidamente posto de parte, «como um figurante dispensado, que ainda permanece no set, à cata dos restos do catering». Por isso recusa dizer o que o levou a passear junto à linha do comboio, «numa madrugada húmida e mal amanhecida», descobrindo no meio do mato, embrulhado em meias de seda, um pacote de cartas que um homem insubmisso enviou à mulher amada.
Esse homem insubmisso chama-se Joaquim e naquele dia de 1934 está a caminho do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, então ainda por estrear. Com ele seguem outros resistentes que participaram na revolta da Marinha Grande, onde por algumas horas existiu, nas barbas do Estado Novo, um soviete. Mas se os camaradas pensam na revolução, Joaquim só pensa em Luísa, a destinatária das cartas lançadas pela janela, a mulher que prometeu esperar por ele e que servirá de bálsamo mental para todas as provações que o esperam: os espancamentos da polícia (que na altura se chamava PVDE e não PIDE, como o texto sugere); a tormentosa viagem de barco; o «inferno tropical», com nuvens de pó amarelo, insectos, malária, fome e tortura; a crueldade dos algozes; o sofrimento inimaginável da «frigideira» (uma caixa de cimento rectangular, exposta ao sol, onde os prisioneiros enlouqueciam de calor extremo e solidão).
Lá mais para a frente, esta «infâmia do passado» acaba por ser evocada, em toda sua brutalidade, mas a autora coloca esse centro negro no final de um labirinto que é preciso percorrer. Quem ergue o labirinto é Eugénia, uma jornalista televisiva que entrevista Joaquim, na sua qualidade de sobrevivente do Tarrafal, e depois se deixa fascinar pela figura de um velho que tem, além de uma história de amor por resolver, uma farpa no coração desde os cinco anos (um sentimento de culpa terrível, associado a uma tragédia familiar). A narrativa avança então aos saltos, aos tombos, entre a caótica «tecedura dos pensamentos» de Eugénia, «em que a malha de um logo se cose com a de outro», numa vertigem que chega a ser cansativa, e a memória precária do idoso, narrador lento, lacunar, obsessivo. A jornalista atribui-se o papel de uma «Ariadne ao contrário», na missão de retomar «os vários fios das várias meadas que Joaquim ia desatando».
Entre verdade e verosimilhança, Eugénia escolhe a verosimilhança, porque «nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros», nem até que ponto somos traídos pelo que julgamos ter acontecido. A memória é uma esponja, «cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial». Aos poucos, porém, os dois acabam por acertar os seus ritmos, partilhando o tempo, os silêncios, até um gato. E a história de amor interrompida, com Luísa, é transfigurada pela improvável cumplicidade entre Joaquim e Eugénia, onde se projectam e entrelaçam as histórias e traumas dos dois.
Se a primeira parte do livro é marcada por um excesso de artifícios literários e de referências culturais, a segunda revela uma escrita muito mais despojada – o que só beneficia um romance que é tanto mais inteligente quanto menos exibe a sua inteligência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Billy Gray era o meu melhor amigo e eu perdi-me de amores pela mãe dele. “Amor” é capaz de ser uma palavra demasiado forte, mas não conheço nenhuma mais fraca que sirva. Tudo isto aconteceu há meio século. Eu tinha quinze anos e Mrs. Gray trinta e cinco. Estas coisas são fáceis de dizer, visto que as palavras não sentem vergonha e são imunes à surpresa. Se calhar, ela ainda é viva. Teria… quê?, oitenta e três, oitenta e quatro? Nada de especial nos tempos que correm. E se eu tentasse encontrá-la? Isso é que seria uma grande façanha. Gostaria de estar de novo apaixonado, gostaria de voltar a apaixonar-me, só mais uma vez. Podíamos fazer um tratamento à base de injeções de glândulas de macaco, ela e eu, e ficávamos como há cinquenta anos, rendidos a êxtases passionais. Pergunto-me como é que ela estará, quer dizer, partindo do princípio de que ainda habita este mundo. Ela era tão infeliz naquela época, só pode ter sido infeliz, apesar da sua corajosa e persistente boa disposição, e espero do fundo do coração que as coisas tenham melhorado.»

[in Luz Antiga, de John Banville, trad. de José Vieira Lima, Porto Editora, 2013]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho (Teorema), por José Mário Silva
- Contos Capitais, de vários autores (Parsifal), por ALexandra Carita
- O Essencial sobre Marcel Proust, de António Mega Ferreira (Imprensa Nacional Casa da Moeda), por Pedro Mexia
- O Condottiere, de Georges Perec (Sextante), por José Mário Silva
- Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
- Escolhas de Golgona Anghel

Resposta a um crítico que responde a uma crítica

Quem não se sente, não é filho de boa gente. Bruno Vieira Amaral sentiu-se. Fez ele muito bem. Eu escrevo regularmente sobre livros há 15 anos, o que continua a não ser muito tempo, se compararmos com a actividade crítica de um João Gaspar Simões ou de um Eduardo Prado Coelho. Mas também eu, inevitavelmente, me apercebi do «fenómeno curioso» a que se refere Bruno Vieira Amaral (vou passar a referi-lo pelas iniciais, sem desprimor). É de facto muito raro ver um autor português a comentar por escrito textos críticos que tenham sido publicados sobre os seus livros, sobretudo se forem negativos. Já sem ser por escrito, basta almoçar numa mesa de escritores num qualquer festival literário para perceber como há gente que transporta, anos a fio, cargas tóxicas de azedume e ressabiamento.
Diz BVA: «[Os escritores] podem evitar directas referências aos críticos – seja com o valoroso intuito de não alimentar polémicas, seja para retirar importância pública àquilo a que eles intimamente dão valor – mas eles sabem que nós sabemos que eles lêem as críticas. E dão-lhes tanto valor que alguns chegam a ligar para as redacções a queixar-se das críticas negativas, outros queixam-se por não terem tido uma crítica que fosse neste ou naquele jornal, outros, magoados com o que consideram ser uma injusta machadada, murmuram em jantares e encontros ocasionais contra os pérfidos perpetradores do crítico crime.» A tudo isto já assisti. E até a telefonemas por causa das odiosas estrelas, que só criam equívocos e são o menos fiável dos métodos para avaliar ou comparar obras literárias. No meu caso, houve até um autor indignado que confessou ter tido vontade de me atropelar, na semana em que uma crítica supostamente «destrutiva» lhe «arruinou a carreira» (e ainda hoje não sei até que ponto estava a falar a sério ou a hiperbolizar a sua frustração).
Quero por isso louvar a atitude de BVA, que se deu ao trabalho de «descer do seu olimpo de autor e vir cá abaixo trocar dois dedos de conversa com o crítico». É assim que se faz. O autor tem todo o direito de responder a um crítico, mas é bom que a resposta chegue ao destinatário, em vez de circular como veneno nos mentideros. Até porque assim o crítico pode por sua vez responder à resposta. Chama-se a isto diálogo, um hábito saudável entre pessoas civilizadas, pelo menos desde o tempo de Sócrates (o grego). Quando dialogamos, não só ouvimos o outro como nos arriscamos a aprender com ele. E podemos também explicar porque dissemos o que dissemos. Ou porque não dissemos o que na verdade queríamos dizer.
Na sua divertida diatribe, BVA defende o seu trabalho e louvo-o por isso. Não só está no seu direito, como consegue fazê-lo com graça, inteligência e panache. Gostava apenas de esclarecer alguns pontos:

- Como é óbvio, eu li as 229 páginas do livro e não apenas a introdução e o índice (sei que BVA sabe isto, justamente porque levamos os dois a sério o nosso trabalho, mas há efeitos retóricos que não se podem desperdiçar)
- Admito que há na minha crítica uma desproporção entre o espaço que dedico à questão do critério de escolha (dois parágrafos grandes) e a avaliação propriamente dita da escrita de BVA (um parágrafo pequeno). Devia ser ao contrário.
- Nos jornais, hoje em dia, os textos críticos são tremendos exercícios de síntese. Mal começamos a desenvolver uma ideia e já temos que concluir a prosa. Nem sempre é fácil. Nem sempre se consegue. Desta vez, manifestamente, não consegui. O texto tem 2800 caracteres. Funcionaria se fosse o início de um texto maior, com uns 4000 ou 5000 caracteres. Mas não é. Invejar o espaço que é dado aos críticos da New Yorker ou do TLS não serve de nada. As coisas são o que são. Quando percebi que a crítica ia ficar coxa, com uma perna muito maior do que a outra, já não tive tempo de a refazer. Contingências das deadlines jornalísticas.
- Sendo impossível voltar atrás no tempo, tentarei fazer aqui no blogue o que já não posso fazer no jornal. Ainda esta semana, escreverei a tal crítica de 4000 ou 5000 caracteres que o livro pedia e não lhe pude dar.
- Ao contrário do que pensa BVA, eu gostei que as 50 personagens fossem afinal 51, ou 55. Só tive pena que não houvesse mais personagens retiradas de contos. Por mim, as 50 personagens até podiam ser 74 ou 92. Quantas mais, melhor.
- Quanto à vexata quaestio da não inclusão de António Lobo Antunes, percebo que BVA estrebuche, porque não foi manifestamente um esquecimento mas um acto deliberado. Já suspeitava. Pelas razões invocadas, BVA tem todo o direito de deixar de fora Lobo Antunes. Não pode é esperar que a sua escolha pessoal não seja susceptível de comentário. Havendo um elefante na sala, é estranho ignorar que há um elefante na sala. E eu não referiria sequer o assunto se BVA tivesse escolhido, digamos, dez personagens do Eça, nove do Camilo, oito do Saramago, sete do Aquilino, seis do José Cardoso Pires, cinco da Agustina, três do Carlos de Oliveira e duas do Mário de Carvalho. Mas quando o crivo é suficientemente largo para dar passagem, como eu assinalei, a Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares, mas também a outros autores menores, como Fernando Dacosta, Ricardo Adolfo, Clara Pinto Correia ou António Alçada Baptista, acho que a ausência de Lobo Antunes pode e deve ser questionada.

Ah, as saudades que eu já tinha de uma polémica literária.

PS – Já agora, anotem: o lançamento do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa será esta quinta-feira, 16 de Maio, às 18h30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa), com apresentação de Ana Cristina Leonardo e João Bonifácio.

Pessoas imaginárias

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Guerra e Paz
N.º de páginas: 229
ISBN: 978-989-702-067-4
Ano de publicação: 2013

Há 23 anos, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi publicaram um luxuriante Dicionário de Lugares Imaginários, sobre as múltiplas geografias ficcionais inventadas ao longo dos séculos pelos mais extraordinários ou obscuros escritores. Neste Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral (n. 1978) assume ter-se inspirado no belíssimo cartapácio da dupla Manguel/Guadalupi. Também ele quis criar um «divertimento que parasita e prolonga o jogo da literatura». Em vez de lugares imaginários, porém, catalogou «pessoas imaginárias». Ou seja, personagens: essas figuras capazes de se instalar na imaginação e na memória dos leitores, chegando a parecer mais reais do que a própria realidade.
Num livro com estas características, o mais problemático é sempre o estabelecimento de um critério. Porquê estas 50 personagens e não outras? Simples: porque são estas as personagens que marcaram Bruno Vieira Amaral. Cada pessoa tem o seu cânone, a sua lista de imprescindíveis e dispensáveis, pelo que a escolha do autor Bruno Vieira Amaral apenas coincide com a do leitor Bruno Vieira Amaral. Aos outros, a todos nós, sempre causará desconforto uma ausência gritante ou a inclusão de uma personagem que nos parece menor. Mas se «questões de preferência pessoal» foram «soberanas na selecção», fica o assunto resolvido. Pode discordar-se da escolha; não da honestidade intelectual de quem a fez.
Dito isto, há uma desconcertante flexibilidade em todo o exercício, que talvez denuncie o facto de BVA não se levar demasiado a sério. As 50 personagens são afinal 51 (se contarmos Léah, a única retirada de um conto, de José Rodrigues Miguéis); ou melhor, 55, porque quatro das entradas correspondem a casais. E se é legítimo que alguns escritores estejam representados por mais do que uma personagem (Eça, com quatro; Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, José Cardoso Pires e Saramago, com duas), essas reincidências como que sublinham a exclusão mais notória: António Lobo Antunes. Não escolher Maria Velho da Costa, Ana Teresa Pereira ou A.M. Pires Cabral pode ser uma questão de gosto, ignorar escritores das gerações mais novas (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz) talvez revele prudência, mas deixar de fora Lobo Antunes assemelha-se mais a uma provocação do que a um esquecimento, sobretudo quando o crivo é suficientemente largo para que passem Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares.
Ainda assim, este é um livro que se recomenda. Principais trunfos do autor: a argúcia na análise e o rasgo estilístico. Do romantismo a O Que Diz Molero, passando pelo neo-realismo, Bruno Vieira Amaral resgata personagens ao respectivo habitat literário e mostra-nos, em prosa vívida, concisa e por vezes exaltante, todas as suas grandezas e defeitos. Ou seja, toda a sua humanidade.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- O Dia de Amanhã, de Ignacio Martinez de Pisón (Teodolito), por José Guardado Moreira
- Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral (Guerra e Paz), por José Mário Silva
- A Perseguição dos Judeus e Muçulmanos em Portugal – D. Manuel e o Fim da Tolerância Religiosa (1496-1497), de François Soyer (Edições 70), por Luís M. Faria
- Escolhas de Helena Pitta

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, inventei uma canção e acho que tu vais gostar: “Paaaaaaaaassos Coelho, ôôôôôôôô, tu-tu-tu-tu-tu és parvo!”»

Lançamento de ‘Cidades Capitais’

convite_cidadescapitais
Clique para aumentar

É já amanhã, terça-feira.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Reportagem na Feira do Livro de Bogotá, por José Mário Silva
- O Ano Sabático, de João Tordo (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz (Quetzal), por Pedro Mexia
- Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço (Teorema), por Hugo Pinto Santos
- Breve História da Música Ocidental, de vários autores (Bizâncio), por Luís M. Faria
- Os Últimos Presos do Estado Novo, de Joana Pereira Bastos (Oficina do Livro), por Alexandra Carita
- Escolhas de Paulo Moreiras

‘Blimunda’ #11

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Download aqui. Destaque para o acompanhamento que Sara Figueiredo Costa fez do Festival ‘Rota das Letras’, em Macau.

Primeiros parágrafos

«Receoso do ímpeto da sua montada, um orgulhoso baio espanhol, Pierre Roger de Beaufort pôs pé em terra queixando-se do mau tempo. É estimulante ouvir como blasfema num latim puríssimo e diáfano um dos homens mais poderosos da cristandade, sobretudo se considerarmos que este servidor de Deus tem apenas vinte anos. Embora, com efeito, a queixa do cardeal diácono, futuro Gregório XI, não pareça desproporcionada, porque chove ininterruptamente há duas semanas, concretamente desde que De Robertis se trancou na torre de menagem do castelo de Sansepolcro para completar a sua última obra.
Beaufort entrega a um fâmulo as rédeas do seu cavalo com mão habituada a conceder e a tirar. É a mão de um príncipe da Igreja, órgão que unge e condena, sinédoque do objetivo ecuménico que representa, mão que no futuro será recordada nos livros de texto como a do último francês que guardou entre os mortais as chaves do Céu.
Entretanto, na parede norte da torre de menagem do castelo de Sansepolcro, como uma oferenda inscrita num cubo de pedra, outras mãos, as de De Robertis, concluíram o fresco que, ocupando apenas quatro metros quadrados, ameaça derrubar um antigo mundo de princípios.
Aos pés da pintura, vestígios de uma tarefa tão humilde como imperecível, podem ver-se pedaços de parede, cachos de uvas e caroços de cerejas, umas sandálias rebentadas, uma ânfora com azeite grego que destila lágrimas perfumadas.»

[in A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Assírio & Alvim, 2013]

A casa do fim

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Não é Meia Noite Quem Quer
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 455
ISBN: 978-972-20-5094-4
Ano de publicação: 2012

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos.
Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».
Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.
Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).
Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com John LeCarré, por Cristina Margato
- A Pedra Ainda Espera Dar Flor – Dispersos 1891-1930, de Raul Brandão (Quetzal), por Pedro Mexia
- Cenas da Vida de Aldeia, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
- Manucure, de Rosalina Marshall (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
- Escolhas de Maria João Cantinho

A caminho da Colômbia

Lisboa-Madrid. Depois, Madrid-Bogotá. E em Bogotá, a FILBo. Parto daqui a nada, regresso na terça. Tentarei dar conta, aqui, do que se por lá se passar.

Um dever de memória

presos
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O livro que Joana Pereira Bastos, jornalista do Expresso, escreveu sobre o sofrimento dos presos políticos em Portugal, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, é lançado esta tarde.

Quatro poemas de Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA

atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

***

CALOTES SUSPENSAS

numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte

***

NA SENSAÇÃO DE ESTAR POLINDO AS MINHAS UNHAS

sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição

que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio

***

DAS BANCADAS

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière

[in Manucure, Companhia das Ilhas, 2013]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Junot Díaz, por José Mário Silva
- O Testamento de Maria, de Colm Tóibín (Bertrand), por José Mário Silva
- Um Homem de Partes, de David Lodge (ASA), por Luís M. Faria
- Como Manter a Sanidade Mental, de Philippa Perry (Lua de Papel), por Cristina Peres
- A Estátua e a Pedra, de José Saramago (Fundação José Saramago), por José Mário Silva
- Fogo, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Escolhas de Minês Castanheira

Nos bastidores de Obama

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(Clique para aumentar)

Logo à tarde, a política americana invade as Amoreiras.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Perfil de Nuno Camarneiro e crítica a Debaixo de Algum Céu (LeYa), por José Mário Silva
- Rugas, de Paco Roca (Bertrand), por José Mário Silva
- Guerra Conjugal, de Dalton Trevisan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Escolhas de Fernando Venâncio

Missão em Washington

Para além de tudo o resto, havia uma missão a cumprir em Washington. Uma missão à antiga: procurar um certo livro, comprá-lo, trazê-lo para Portugal. Aceitei o desafio porque gosto de desafios (mais ainda se envolvem livros) e porque havia uma certa aura analógica em torno daquela demanda. Na era da internet, dos sites que disponibilizam tudo e mais alguma coisa, dos motores de busca poderosíssimos, das aplicações multimédia nos smartphones e tablets, andar de livraria em livraria à procura de um romance em papel, ainda por cima obscuro, esgotado, quase clandestino, pareceu-me uma aventura mais estimulante do que percorrer outro museu da Smithsonian Institution, ou assistir às sempre animadas partidas que os xadrezistas de Dupont Circle, transidos de frio, insistem em jogar mesmo depois do cair da noite.
O livro era um romance mastodôntico (quase 1200 páginas): Women and Men, de Joseph McElroy, «tão esquisito» que «nem a Amazon o vende». Isto garantiu-me o amigo que escreveu um e-mail assim que soube da minha estadia na capital dos EUA. Fui verificar. Efectivamente, junto dos vendedores sugeridos pela maior livraria online do mundo, os preços oscilavam entre os 126 e os 317 dólares. «Enfim, és a terceira pessoa a quem faço o pedido, sem grande esperança: se tropeçares nele em algum alfarrabista a menos de 50 dólares, prometo reembolsar-te ao câmbio actual e ainda acrescentar um café, um bagaço, e um agradecimento histérico», concluía ele. Pela minha parte, prometi apenas dar o meu melhor.
Comecei a procura pela Kramerbooks & Afterwords, na Connecticut Avenue. É uma livraria simpática. Todas as novidades expostas em destaque, mas com critério. Numa sala lateral podem encontrar-se bons livros de poesia e teatro. Na parte de trás, um café: atmosfera vagamente europeia, raparigas loiras barrando doce de morango nos scones, rapazes de sobretudo a que associamos imediatamente a palavra hipster. Quando lhe perguntei por McElroy, a funcionária da caixa principal foi sincera: «Nunca ouvi falar desse autor, mas deixe-me ver se temos algum exemplar.» Não tinham. Depois, antes de atender outro cliente, fez-me um sinal com a cabeça: «Pergunte na caixa da outra sala.» A tal da poesia, do teatro, da literatura underground. Segui o conselho. Atrás da máquina registadora, um negro muito cool, com óculos de massa e uma boina a cobrir a carapinha encanecida, ergueu as sobrancelhas: «O Women and Men, do McElroy? Esse livro é extraordinário.» Fez uma pausa, como se recordasse ali mesmo, no meio da azáfama, as longas noites de leitura até o sol raiar. «Infelizmente, está fora de circulação, o melhor é encomendá-lo na internet ou procurar em alfarrabistas.» Não muito longe, numa esquina da P Street Northwest, há um, disse-me ele. «Experimente.» E eu experimentei.
Na montra, escrito a néon azul: Second Story Books. Livros em segunda mão, com uma segunda história, uma segunda vida. Estantes de madeira clara, altas, labirínticas. Frases nas paredes («There are worse crimes than burning books. One is not reading them», Joseph Brodsky). Ao fundo, num poster, Lenine de boina e laço vermelho, em tamanho real, a 650 dólares. Perguntei mais uma vez por McElroy. Um sorriso cúmplice: «Esse é dos difíceis. Já o tivemos. Agora não temos.» O computador confirmou: o último exemplar foi vendido em Novembro de 2011, por 24 dólares.
Dias depois, andava eu pelo bairro de Georgetown, à procura de uma mesa de voto na Duke Ellington School of the Arts (foi na terça-feira em que os americanos reelegeram Obama), deparei com a Books Used & Rare, uma cave poeirenta a abarrotar de livros antigos. McElroy? O dono da loja abanou a cabeça e encolheu os ombros. «Sabe, o melhor é mesmo procurar na internet.» Eu também encolhi os ombros, finalmente vencido. Sem ser histérico, o agradecimento do meu amigo não deixou de ser um agradecimento. E ele sempre encontrou consolo no facto de um negro muito cool achar que o tão desejado livro é mesmo uma maravilha. Quanto ao resto, digo apenas que há um certo prazer na demanda pela demanda. Assim como assim, eu nem gosto de bagaço.

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler, Dezembro de 2012]

Primeiros parágrafos

Esta é a história de uma derrota. Esta é a derrota de uma história. As minhas mãos tremem. Olho para elas com desconfiança. Já não me servem. Já não me obedecem. Um dia julguei que seriam o instrumento de coisas maiores. Palavras a descerem da cabeça até aos dedos. Ou então uma peça suspensa sobre o tabuleiro, pairando sobre o roque adversário como um falcão. A minha mãe alimentou, talvez desde o útero, os meus sonhos de grandeza. “Vais ser um grande escritor, como o teu avô”, dizia ela. “Ou então um grande xadrezista, como o teu pai.” A minha mãe já não está cá para ver a dimensão do meu falhanço. Morreu quando eu ainda mal sabia desenhar as letras do alfabeto. Desapareceu da minha vida (após meses fechada no quarto, a mirrar de cancro e melancolia) quando eu era apenas mais um pequeno prodígio do xadrez, igual a tantos outros que parecem génios aos seis anos e se afundam na vulgaridade assim que chegam à adolescência.

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Em frente à estátua do presidente Lincoln, um rapaz fotografa a namorada com o iPad. Sorriem os dois, muito. O brilho do ecrã fere a penumbra do memorial. A felicidade alheia, mesmo a falsa, perturba-me. Há demasiado espaço aqui, um vazio que esmaga o visitante, como se não bastasse a brancura imaculada do mármore, o gigantismo da figura, a dizer-nos que somos minúsculos, desprezíveis, indignos do que os heróis do passado nos legaram. No cadeirão, com os braços pousados, Lincoln contempla, por entre as colunas, o imenso plano de água que se estende à sua frente. Nuvens reflectidas, pessoas como formigas ao longo do lago rectangular, na distância o obelisco. Saio para a luz do meio-dia. Ponho a mão em concha à frente dos olhos. É tarde demais para o que vim aqui fazer, sei-o bem. Alguém procura finalmente o bosque que devia ter procurado no tempo certo, mas o tempo certo passou e agora só restam as cinzas do incêndio.

[Início do conto Dupont Circle, a minha contribuição para o antologia Contos Capitais, editada no início deste mês pela Parsifal]

Sinestesia escaquística

Já houve quem associasse cores a palavras (Rimbaud, Nabokov), à música (Liszt, Rimsky-Korsakov) e até a equações matemáticas (Richard Feynman). São manifestações daquilo a que se chama sinestesia, dois planos de percepção sensorial que se fundem. No meu caso, a sinestesia não tem a ver com cores. Em bom rigor, nem sei se o termo se aplica, mas a verdade é que associo paisagens ou atmosferas a certas posições das partidas de xadrez que jogo na internet. Há uns dias, fui saltando de um palácio oriental na penumbra para um deserto americano com muitos cactos e rastos de cascavel, depois para uma alcova setencentista com perucas pousadas em cima do toucador, depois para um baldio entre prédios degradados num bairro social nos arredores de Birmingham, etc. Sem surpresa, ganhei o jogo do palácio oriental e o da alcova, perdi o do deserto e o do bairro problemático.

Três vidas

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Diário da Queda
Autor: Michel Laub
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 193
ISBN: 978-989-671-149-8
Ano de publicação: 2013

Ao quinto romance, Michel Laub, um gaúcho nascido em Porto Alegre (1973), ascendeu à primeira linha da ficção brasileira contemporânea. Além do reconhecimento crítico, Diário da Queda ganhou os prémios Bravo e Brasília de Literatura, tendo sido finalista de mais uns quantos. Laub fez ainda parte da selecção de 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos escolhidos pela revista Granta, em Outubro de 2012. É sabido que as consagrações súbitas reflectem por vezes um certo exagero, mas neste caso há pouca margem de risco. A segurança estilística e a maturidade narrativa reveladas neste Diário da Queda são como o algodão: não enganam.
Habilmente estruturado em capítulos muito curtos, fragmentos que se vão encaixando como peças de um puzzle montado em várias partes (e vários tempos) na cabeça do leitor, este romance é um palimpsesto das memórias de três homens: o narrador, o seu pai e o seu avô. Em comum, eles têm a experiência de trazer aos ombros o peso da herança judaica. O avô é um sobrevivente de Auschwitz que chegou ao Brasil finda a II Grande Guerra, «num daqueles navios apinhados», decidido a começar do zero sem olhar para trás, de tal forma que nunca se referirá à passagem pelo campo de extermínio, onde morreram todos os seus familiares e amigos. Mas o silêncio sobre o horror não significa uma abolição do horror. Muitos anos depois, suicidar-se-á, como aconteceu, tarde na vida, a tantos outros sobreviventes do Holocausto. O pai do narrador, com 14 anos na altura, fica traumatizado com esta morte violenta, que o empurra de súbito para a vida adulta (começa a trabalhar nos negócios da família) e para um discurso obsessivo sobre a ameaçada condição judaica e os perigos do anti-semitismo. Um discurso contra o qual o filho se há-de revoltar, quando se apercebe que a realidade de Auschwitz, por terrível que seja, é uma abstracção que colide com a realidade do que ele próprio está a viver.
Chegamos assim à cena central do romance, um acto de cobardia que marcará a existência do protagonista. Na escola judaica, há um rapaz, João, vítima sistemática de bullying. Por ser o único aluno pobre, o único não judeu, enterram-no na areia, humilham-no, chamam-lhe nomes. Ao comemorar os seus 13 anos, faz uma espécie de Bar Mitzvah, em que os colegas o atiram 13 vezes ao ar, como é da tradição. Só que na última vez deixam-no cair de costas, desamparado. É esta a «queda» de que fala o título, um acto de maldade que podia ter sido fatal e que deixa marcas no narrador. Arrependido e consciente da fina linha que separa as vítimas dos opressores, torna-se amigo de João, um gesto que acabará por não redimir nem um nem o outro.
Antes de se matar, o avô encheu cadernos com «letra miúda» em que fala do mundo ideal, de como «ele deveria ser», ignorando a realidade. Ao descobrir que tem Alzheimer, o pai fixa o passado, tão frágil como a memória que se desmorona. O narrador cruza essas duas vidas com a sua, narrando a superação do alcoolismo, antes da chegada de uma quarta geração. Auschwitz é a ferida original, essa «espécie de prova da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares». O livro que o neto do sobrevivente escreve, para se compreender melhor e saber de onde vem e para onde vai, é a tentativa de refutar essa inviabilidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O meu nome não é Dóris

É daqueles erros que só não acontecem a quem não faz revistas. Na edição de Abril da LER, a minha recensão ao livro Laços de Família, de Clarice Lispector (Relógio d’Água), foi atribuída a Dóris Graça Dias. Fica feita a ressalva: para o bem ou para o mal, o que ali está escrito só a mim compromete. E mesmo sem ter culpas no lapso, peço desculpas à Dóris pela involuntária usurpação da identidade.

Todos os vandalismos são estúpidos, mas há vandalismos que são mais estúpidos do que outros

Que raça de energúmenos é que se diverte a destruir painéis evocativos da obra de um dos nossos maiores escritores?

Revista ‘Ler’, n.º 123

Já nas bancas.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Diário da Queda, de Michel Laub (Tinta da China), por José Mário Silva
- Breve História da População Mundial, de Massimo Livi Bacci (Edições 70), por Luís M. Faria
- Serão Inquieto, de António Patrício (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- As Armas de Papel, de José Pacheco Pereira (Temas e Debates), por Rui Cardoso
- Escolhas de Tiago Salazar

Destino: Bogotá

De dia 25 a dia 30, vou acompanhar, para o jornal Expresso, a presença portuguesa na Feira Internacional do Livro de Bogotá (Colômbia), que abre portas já a 18 de Abril. Como sempre, das minhas andanças sul-americanas haverá alguns reflexos neste blogue (dependendo do acesso à net).

O que aí vem (Gradiva)

O Romper das Cordas – Ascensão e Queda de uma Teoria e o Futuro da Física, de Lee Smolin; O que é a Arte?, de Lev Tolstói; Os Militares e o Poder seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim, de Eduardo Lourenço; Toda a Ciência (Menos as Partes Chatas), de Cientistas de Pé (coordenação de David Marçal)

A crónica e o peixe do dia seguinte

A propósito do lançamento de um livro de crónicas de Manuel António Pina, tenho lido, em vários lados, que o poeta vincava o carácter efémero dos seus textos jornalísticos referindo que, no dia seguinte a serem publicados, eles já só serviam para embrulhar o peixe. A referência vem sempre com aspas e atribuição («como Manuel António Pina costumava dizer»), o que se me afigura um completo disparate. É que esta frase, desculpem lá, oiço-a eu desde que meti o pé numa redacção. Não é uma frase que o Manuel António Pina costumava dizer; é uma frase que todos os jornalistas mais velhos, nomeadamente os da geração do Pina, disseram (e ainda dizem) aos novatos que chegam aos jornais, convencidos que vão desvendar o próximo Watergate e mudar o curso da História. É um lugar-comum que tem o carácter definitivo e certeiro da maior parte dos lugares-comuns, mas não se deve colar a um homem que inventou centenas de frases maravilhosas (as melhores, em forma de verso) que são só dele. Essas merecem o «como o Manuel António Pina costumava dizer» ou «como o Manuel António Pina escreveu». A metáfora fácil sobre o utilitarismo do papel de jornal, não.

Manifestos da ocupação

occupy

Occupy
Autor: Noam Chomsky
Título original: Occupy
Tradução: Maria Afonso
Editora: Antígona
N.º de páginas: 114
ISBN: 978-972-608-232-3
Ano de publicação: 2013

No final de 2011, o activismo anti-capitalista instalou-se na rua, primeiro em Wall Street, depois em dezenas de cidades pelo mundo fora. Um dos intelectuais que deu a cara pelo movimento Occupy foi Noam Chomsky, o linguista famoso pelas suas críticas à política externa americana. Neste livro de protesto, reúnem-se alguns dos seus discursos e diálogos mantidos com os manifestantes, o que explica o carácter generalista e pouco aprofundado das intervenções.
Em seu entender, até à década de 70 do século passado havia a sensação de que era sempre possível «dar a volta por cima» (mesmo nos momentos mais duros, como a Grande Depressão dos anos 30), mas o que veio depois, com a desregulação dos mercados e a canibalização da esfera económica pela financeira, não permite qualquer esperança. Os empregos que se perdem já não se recuperam, o proletariado deu lugar ao «precariado», e a concentração de riqueza numa ínfima minoria (1% da população, ou menos ainda) instaura um círculo vicioso de que é difícil sair: os mais ricos influenciam o poder político (financiando os partidos) e o poder político aprova legislação que os beneficia, acelerando o «processo circular» que transforma o fosso da desigualdade social num abismo.
Para Chomsky, o movimento Occupy, com os seus «inúmeros pequenos gestos de anónimos» (como diria Howard Zinn), foi a primeira grande reacção popular a este «retrocesso histórico». Uma reacção prontamente reprimida, mas que conseguiu transmitir a sua mensagem no espaço mediático, levando à discussão pública de temas até então ignorados. Para crescer, precisa agora de se integrar em estruturas comunitárias, articulando-se com as «redes à nossa volta».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Raquel Nobre Guerra

PELICANO

enquanto o teu nome não for um estado restrito
de universo, uma sensação de seres
colhido pelo camaroeiro ao Tejo
alma-ideia de ser antigo entrar em deus
por mim

enquanto for semântica na boca, a paixão dos homens
e vier um deles com pedras macias de domínio
não direi

que é inumerável o corpo sendo muitos ou sábio –
que as línguas de fogo hão-de tomar a pele como texto
e sacro

***

ATRAVESSANDO A RUA COM A PAIXÃO DE SÃO TOMÉ

creio na transmigração das pedras, na remissão
dos deitados na comunhão das bestas, nas lâminas
largas, creio na cordial puta que venha e conclua
de mãos humanas este pedaço da terra, porque virão
torpes virão rodas fiando à própria flor a hora disso
ser conforme, e o pólex e o médio hão-de ser gémeos
onde nos tocamos por superstição, aí beberemos dos animais
a espuma das bocas, a rasteira lepra do que é escuro e cresce
nos poços, e uma valsa urinosa brilhará de olhos à suma
olímpica onde miúdos baptizamos apólidas por este
apontamento médico, entrevados a sério: enfocinhar
pelos halls das festas, constituir um estado de feras à classe
onde tudo isto morre, tudo isto pó, tudo vindo simulando
verdades de uma coisa, uma luz só acesa
nos mais secretos mundos

***

ESCURO

contra a noite a palavra que cairá sobre
os homens de pulsos envolvidos em sangue
isto é o coração onde lhes chego pela garganta
arranco-os da terra à força bruta de braços

contra o medo a escuridão para induzir suave
uma ideia de céu contra o próprio céu agora
que a figura da noite não cabe na forma
de a dizermos rapidamente

virão em mim dançando a erudição do seu uso
com plumas e riquezas à boca do cais, fugiremos
reis da cruel justeza do silêncio tão maior

nos aterros que nos coiceiam em rituais de manada
iremos assim cheios só de viver, meditando palácios
no momento de cair

***

SEM TÍTULO

deus por cima
o grande abandono

[in Groto Sato, Mariposa Azual, 2012]

Maravilhas da paternidade

Durante a aula de xadrez, cá em casa:

Alice – Agora posso fazer o roll?
Eu – O roll?
Alice – Sim, aquela coisa em que o rei anda duas casas para o lado e a torre lhe passa por cima.
Eu – Ah, o roque.
Alice – Isso.
Eu – Mas olha que é roque, não é rock.

Uma escrita da gratidão

O Concerto Interior – evocações de um poeta
Autor: António Osório
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-0-79320-1
Ano de publicação: 2012

Em 2008, António Osório publicou um livro (Vozes Íntimas, Assírio & Alvim) sobre os amigos e artistas que mais admirou: António Sérgio, Cristovam Pavia, Sebastião da Gama, Mário Botas, entre outros. O Concerto Interior vem completar essa primeira incursão memorialística, direccionando desta vez as «evocações» do poeta para a esfera familiar. Trata-se, no fundo, de uma «breve autobiografia» heterodoxa, escrita ao «correr da vida». Heterodoxa porque não segue quaisquer regras quanto à delimitação de grandes temas ou à ordem cronológica dos factos. Osório alterna capítulos descritivos com reconstruções líricas, vai e vem no tempo, recorre a uma simples mudança de parágrafo para passar da intimidade ao espaço público, do particular ao geral – e vice-versa. Quase a chegar aos 80 anos, o poeta-advogado procura afastar a «velhice funesta». Por isso convoca as «fundas alegrias» e deixa as más vivências «à porta do Inferno». Na sua estrutura fragmentária, o livro é atravessado pela «luz fraterna» que sempre iluminou os versos deste autor e deu título, com a força de uma divisa, à reunião da poesia completa (Assírio & Alvim, 2009).
António Osório começa por recordar a infância na região de Setúbal, o «espanto pela natureza», a estima por quem trabalhava a terra, fixado mais tarde em poemas à senhora que amassava o pão ou ao carroceiro José da Vaca («um dente único, / trémulo de gaguez»), septuagenário que escolhia para o rapazinho de oito anos os melhores cachos do seu pequeno vinhedo. Esta é uma escrita da gratidão, do reconhecimento às pessoas que lhe foram abrindo, vida fora, caminhos e portas. No centro da vasta galeria, como num altar, pairam as figuras da mãe e do pai. A mãe florentina e «lutadora» que conseguiu fazer chegar aos familiares italianos, durante a II Guerra Mundial, carne e manteiga dentro de latas de conservas. A mãe que aplicava preceitos estritos de um curso de puericultura e lhe leu, quando ele ficou de cama por causa de uns «gânglios» potencialmente fatais, os grandes clássicos: primeiro a Ilíada e a Odisseia; depois a Divina Comédia, em italiano. Aliás, a mãe nunca lhe falou em português, instaurando nele um bilinguismo que lhe seria útil mais tarde, tanto no campo literário como no profissional. Menos impositivo, discreto e delicado, o pai representava o «amor telúrico» e o apego à cultura portuguesa. Para compensar a influência de Dante, dizia em voz alta, «com um acento melancólico e sofrido», Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha.
Além destes pilares, de cujo amor ele foi o «fiel da balança», Osório evoca outras figuras de «doçura» e generosidade. A tia Egeria que o levou a ver pela mão, com três anos, a Porta del Paradiso de Ghiberti. O Dr. Heliodoro Caldeira, apoio essencial no início do seu percurso na advocacia. O caseiro doente, internado em São José, a quem um dia levou laranjas como se comungasse do corpo de Cristo. Ou a poeta Maria Valupi, amiga íntima de Cecília Meireles, que tinha «sempre razão na sua ternura». Numa elegia, António Osório escreveu sobre esta mulher excepcional, que para ele era a tia Dulce: «Antiquários / por onde caminha, / cornaca / de outras casas, / móveis que respiraram / seus donos, lanternas / de carruagens ainda / com suor a cavalo, / lucernas de azeite extinto, / espelhos de Veneza / que devolvem / o estanho das imagens, / rostos puídos». Os «rostos puídos» ganham nitidez na prosa, mas é a poesia que os decifra, tornando «mais clara» a sua condição. Como nos versos finais do poema dedicado a Maria Emília, companheira durante seis anos de namoro e 52 de casamento, depois da sua morte em 2011: «Covas abertas / na terra espessa e dolorosa. / Não te queria aí – sai, / meu Amor, regressa.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Ler em todo o lado’

Durante o mês de Abril, a rede de Bibliotecas Municipais da Câmara Municipal de Lisboa vai promover uma série de iniciativas para captar novos públicos, sobretudo junto dos leitores mais jovens. Informações e programação, aqui.

Primeiros parágrafos

«1.
Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve.»

[in Diário da Queda, de Michel Laub, Tinta da China, 2013]

Noam Chomsky dirige-se aos leitores portugueses

A propósito do lançamento por cá do livro Occupy, editado pela Antígona.

Escritores na primeira pessoa

A Casa da América Latina vai exibir quinzenalmente, à segunda-feira, pelas 19h00, entre 1 de Abril e 21 de Outubro (com uma paragem em Agosto), a série de documentários Escritores en Primera Persona, sobre algumas das principais figuras da literatura latino-americana, as suas obras e o modo como se inserem na cultura dos seus países. Os filmes têm uma duração de aproximadamente meia hora.
Eis a lista completa:

1 de Abril: Elena Poniatowska (México)
15 de Abril: Luis Sepúlveda (Chile)
29 de Abril: Antonio Skármeta (Chile)
13 de Maio: Mario Vargas Llosa (Peru)
27 de Maio: Alfredo Bryce Echenique (Peru)
3 de Junho: Ariel Dorfman (Argentina/Chile)
17 de Junho: Isabel Allende (Chile)
1 de Julho: Quino (Argentina)
15 de Julho: Carlos Fuentes (México)
2 de Setembro: Mario Benedetti (Uruguai)
23 de Setembro: Juan Villoro (México)
7 de Outubro: Rigoberta Menchú (Guatemala)
21 de Outubro: Eduardo Galeano (Uruguai)

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges