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Out of the world

No cimo de um monte, a casa. À volta, árvores, estradas de cascalho, céu azul, brisa ligeira, um cão chamado Tommy que à noite uiva escondido nos canteiros, sob a lua cheia. Os telemóveis não funcionam, a internet é um país distante e inacessível, sobram os livros e a azáfama das crianças (felizes com a disponibilidade dos pais, libertos de correrias e horários). «Vamos ficar aqui até ao inverno?», pergunta a Alice. Era bom, era.

As minhas coordenadas GPS (durante os próximos 15 dias)

N – Longe
W – De tudo

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- White Jazz – Noites Brancas, de James Ellroy (Presença), por Paulo Nogueira
- O Porco de Erimanto, de A. M. Pires Cabral (Cotovia), por António Guerreiro
- Inverness, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
- Versos de Cacaracá, de António Manuel Couto Viana (Texto), por José Mário Silva
- Zeitoun, de Dave Eggers (Quetzal), por Luís M. Faria
- Halley – O Cometa da República, de Joaquim Fernandes (Temas e Debates/Círculo de Leitores), por Rui Cardoso
- Imagens Proibidas, de Pedro Paixão (Prime Books), por Ana Cristina Leonardo

Adivinha

Como é evidente, as certidões de óbito passadas aos livros na forma impressa não são de hoje. Veja-se o texto do post anterior: alguém quer arriscar a data em que Uzanne publicou a sua antecipação (La Fin des Livres, no original)?

O destino dos livros

«O que penso eu sobre o destino dos livros, meus caros amigos? A questão é interessante e apaixona-me tanto mais quanto nunca a tinha posto a mim mesmo até este momento preciso da nossa reunião.
Se por livros pretendem referir-se aos nossos inumeráveis cadernos de papel impresso, dobrado, cosido, brochado sob uma capa anunciando o título da obra, confessar-vos-ei francamente que não acredito – e que os progressos da electricidade e da mecânica moderna me proíbem de acreditar – que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso como intérprete das nossas produções intelectuais.
A tipografia, a que Rivarol chamou tão judiciosamente artilharia do pensamento, e da qual Lutero dizia que era o último e supremo dom pelo qual Deus difunde as coisas do Evangelho; a tipografia, que mudou o destino da Europa e que, sobretudo desde há dois séculos, governa a opinião, através do livro, da brochura e do jornal; a tipografia, que, a partir de 1436, reinou tão despoticamente sobre os nossos espíritos, parece-me ameaçada de morte, na minha opinião, pelos diversos gravadores de som que foram recentemente descobertos e que pouco a pouco se irão aperfeiçoar largamente.»

[in O Fim dos Livros, de Octave Uzanne, tradução de Jacinta Gomes, Palimpsesto, 2010]

Maria do Rosário Pedreira sobre ‘Curso Intensivo de Jardinagem’, de Margarida Ferra

Aqui.

Guerra & Paz edita livro vencedor do World Fantasy Award 2009

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As Raparigas Que Sonhavam Ursos, da australiana Margo Lanagan, estará nas livrarias a partir de 28 de Julho. A escritora tem um blogue chamado Among Amid While, onde podemos encontrar o link para uma entrevista interessante que Lanagan deu à revista Meanjin.

Entre os leitores e os editores, uma ponte chamada Twitter

«Publishers have praised the merits of using Twitter to canvass readers opinions quickly, after the social networking site saw a flurry of consumers addressing publishers.
Last week readers used the hashtag (a phrase inserted into a tweet and used to link tweets on one subject) #dearpublisher to speak directly to publishers. The conversations began in America but were picked up by readers, authors, bloggers and publishers in the UK. It was among Twitter’s most popular trends at the time.»

Ler o resto do artigo de Victoria Gallagher, da revista The Bookseller, aqui.

Na terra dos khazares

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Cavalheiros da Estrada
Autor: Michael Chabon
Tradução: Fernando Villas-Boas
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-46-1979-8
Ano de publicação: 2010

Michael Chabon (n. 1963) é um autor norte-americano invulgarmente talentoso e ostensivamente camaleónico, capaz de escrever no registo naturalista típico dos textos de ficção da revista The New Yorker (com os seus casais desavindos, as frustrações quotidianas, o tédio da classe média à espera de uma epifania redentora) mas também de regressar a géneros literários considerados menores, reinventando-os à sua maneira. Foi o que fez em A Liga da Chave Dourada (Gradiva, 2003), que junta o escapismo houdiniano ao universo dos super-heróis dos comics, ou em O Sindicato dos Polícias Iídiche (Casa das Letras, 2009), que cruza uma história de detectives com um exercício de História alternativa, no qual o Alasca substitui Israel como Terra Prometida dos judeus sobreviventes do Holocausto.
Precisamente no mesmo ano em que O Sindicato… foi publicado nos EUA (2007), ganhando uma mão cheia de prémios literários no campo da Ficção Científica, Chabon ampliou ainda mais o seu espectro de géneros literários, atirando-se de cabeça a um romance de aventuras puro e duro. Dividido em 15 capítulos, publicados semanalmente pela revista do The New York Times (à boa maneira dos folhetins oitocentistas), Os Cavalheiros da Estrada é um soberbo pastiche dos clássicos de capa e espada, centrado em dois personagens inesquecíveis: Amram, gigante africano que maneja um machado viquingue com runas no cabo de freixo; e Zelikman, um franco judeu, magricela e loiro, iniciado nas artes da medicina, que só veste de negro e é atreito à melancolia.
Soldados da fortuna e ladrões de cavalos, zaragateiros de primeira apanha que fingem duelos para espoliar viajantes nos entrepostos mais manhosos da rota da Seda, eles atravessam o mítico reino dos Khazares (junto ao Mar Cáspio) e a turbulência militar do século X no Cáucaso, para repor uma certa ordem entre as ruínas e depois seguir caminho.
O estilo de Chabon é deliciosamente anacrónico, com frases longas, barrocas, multiplicando detalhes e metáforas. Há muita acção a galope, muita luta, muito sangue, muita intriga, muitos golpes de teatro. Imaginem Alexandre Dumas em modo irónico, consciente dos seus truques e excessos. Literatura de entretenimento, claro, mas gourmet. Tão boa que até os intelectuais mais preconceituosos a podem devorar sem sentimentos de culpa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Quetzal)

Para Setembro: As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow (tradução de Salvato Teles de Menezes); Alma Conservadora, de Andrew Sullivan (trad. de Miguel de Castro Henriques); Os Papéis de Rachel, de Martin Amis (trad. de Jorge Pereirinha Pires); Para Interromper o Amor, de Mónica Marques; e Livro, de José Luís Peixoto.

Black out

Esta manhã, durante umas horas, um servidor algures foi-se abaixo e o BdB ficou offline. Pela período de ausência, as minhas desculpas.

Bethânia na CFP

bethani

Quarta-feira, Maria Bethânia lerá Fernando Pessoa na casa do poeta.

Três poemas de Luís Pedroso

LÁ EM CIMA: VIDRINHOS, O ARRUMADOR SUPERSÓNICO

Conto as moedas todas nem mais uma
Um pacote de Bolacha Maria um de leite gordo
e três ou quatro bananas

Passo metade do meu precioso tempo
a glorificar deus
e a louvá-lo

A outra metade passo-a
a arranjar dinheiro suficiente
para o cavalo

***

NÃO ME PARECE QUE O AL GORE VISTA RÁFIA

O acelerador de partículas que instalaram na Suíça
não resolve o problema de aquecer água de manhã
nem estruma o quintal invadido por serralha e urtigas

Porque está bem de ver que a Suíça é muito longe
e o acelerador serve, imagino, para bombear
a água do mar que eles não possuem

As minhas mãos recusam-se, a partir deste momento
a fazer qualquer coisa que não seja retirar frutos
gordos e encarnados dos ramos

Os miúdos estão assustados com um indivíduo estrangeiro
Diz que é húngaro ou coisa assim
parece que se chama Euribor

Antigamente, quando era novo
conseguia ver muitos grupos de estrelas no céu
Hoje não vejo nada, as luzes não deixam ninguém ver

***

PRINCESAS DIANAS E ANTI-HERÓIS

Imaginámos santos, infantes e condestáveis
Capitães de Maio e de Abril
Meninos da lágrima e virgens de gesso
Ditadores de botas e pastorinhos de arremesso
Rainhas santas e ínclitas gerações
E o que temos são grades de minis e travessas de caracóis

Desejámos um país que não se resumisse
a travessias diárias do oceano
Bolas de berlim e guarda-sóis
Relíquias do Rio Jordão ou alegria do garrafão
e o urbanista apenas a distribuir centros comerciais
Portanto desejámos talvez demais

Recortámos o horizonte de um país de poetas
Rainhas depois de mortas e grutas para o Camões
Saudosismos de grandeza e hinos contra
os britões, sonhando com saldos e promoções
A invenção de fátimas, fados e futebóis
E temos o subsídio para uma alcatifa de girassóis

O corvo vai debicando os miolos de São Vicente,
aspirando a migrações
Crocitando os segredos da carbonária,
o corvo é o anti-herói,
farto de medalhinhas e superstições

E de vez em quando desaparecia pólvora dos armazéns
Querias um amor imune ao logro, à missão animal do isco
A perfuração dos anzóis
Mas a verdade é que vives num maravilhoso reino
de Princesas Dianas e anti-heróis
e o que me vale é que elas gostam de ir com eles para a cama
Princesas Dianas e anti-heróis

[in Princesas Dianas e Anti-heróis, edição do autor, 2009]

Casos

O livrinho chegou-me às mãos já nem sei bem como: Princesas Dianas & Anti-heróis, de Luís Pedroso (edição de autor, 2009). Quem acha que a poesia portuguesa não presta suficiente atenção à actualidade social e política do país, que ponha os olhos nas duas partes em que se divide esta obra. Título da primeira: ‘O caso BPN’. Título da segunda: ‘O caso Freeport’.

Mathias Énard: “Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele”

Durante quase duas décadas, Mathias Énard (n. 1972), um escritor francês com estudos de árabe e persa, atravessou a bacia mediterrânica em todos os sentidos, do Médio Oriente aos Balcãs, de Itália ao Magrebe. Antes de se instalar em Barcelona, onde vive actualmente, passou por Teerão, Cairo, Veneza, Damasco, Zagreb, Istambul, Argel, Beirute, e encontrou dezenas de pessoas que partilharam com ele memórias dos conflitos militares que desde sempre foram moldando, com fogo, sangue e cinzas, as fronteiras deste espaço geográfico. Ou desta Zona, como Énard lhe chama no seu quarto livro, um romance monumental, de fôlego épico, grande revelação da rentrée literária francesa de 2008, em boa hora editado pela Dom Quixote (e magistralmente traduzido por Pedro Tamen).
Num bar de hotel, em Lisboa, quase a regressar a casa após a participação no Festival Silêncio!, o escritor explicou-nos, com uma voz que parecia gravilha pisada, a génese de Zona: «Nas minhas muitas viagens, recolhi imensas histórias de pessoas que viveram na pele a violência da guerra. Fiz entrevistas, enchi cadernos de notas, mas não sabia muito bem o que fazer com aquele material todo.» Primeiro, pensou escrever um ensaio. «Seria uma análise da forma como os antigos combatentes contam as suas guerras, as palavras que utilizam e as narrativas que criam.» Mas as montanhas de informação recolhida não ganhavam forma e o projecto foi sendo adiado. Em 2005, Énard vivia na capital italiana e um dia, ao apanhar o comboio na gare de Milão, intuiu o que viria a ser a estrutura de Zona: um homem dentro de uma carruagem, numa viagem ao fim da noite e ao fim do mundo, com uma maleta cheia de segredos e a cabeça a abarrotar de histórias cruzadas, sobrepostas, enredadas umas nas outras. «Nesse momento, tive a certeza de que encontrara a ideia certa – o monólogo interior de Francis, o protagonista – e o modo de encaixar no romance todos os testemunhos soltos que tinha juntado. O resto foi uma questão de trabalho.»
Embora Zona deva ser lido como um livro de ficção, as histórias em que se inspira são quase todas verdadeiras. Ao recolhê-las, Énard sentiu-se mais um etnólogo do que um jornalista. «Há certamente pontos comuns entre as guerras, que no fundo são todas parecidas, mas cada um dos homens que inspiraram as personagens do livro é único.» Um dos aspectos que mais impressionaram o escritor foi o facto destas pessoas terem quase todas a sua idade: «Mas enquanto eles viviam a guerra, sentiam de perto as suas consequências e se arrastavam nos campos de batalha, eu gozava a minha juventude dourada e quase inútil. De certa maneira, quis embrenhar-me nessas vidas que não tive mas que poderia ter tido, caso fosse outro o meu lugar de nascimento.» E se há no livro uma grandeza e uma desmesura que remetem para a noção de epopeia (neste caso uma epopeia negra, sem heróis, consciente de que não há canto que redima o horror absoluto), Énard nunca deixa de centrar a sua atenção na experiência individual, muito nítida e recortada contra o fundo dos grandes movimentos colectivos da História. «O que me interessa são as intersecções entre trajectórias humanas autónomas, esses encontros tantas vezes fortuitos, casuais, surgidos do acaso.»

Num livro em que abundam as referências literárias, explícitas ou implícitas, é impossível ignorar o diálogo com a Ilíada. Tal como o poema de Homero, dividido em 24 cantos, Zona é composto por 24 secções. E há personagens do cerco de Tróia que invadem a longa frase contínua que Francis vai desdobrando na sua mente, durante a travessia nocturna de Itália. Não se procure, porém, analogias directas como as que Joyce estabeleceu com a Odisseia no seu Ulisses. Aqui, a intenção era outra: «Quis mostrar que existe de facto uma certa continuidade, pelo menos no plano literário, entre a forma como Homero mostrou a guerra na Ilíada e a guerra tal como ela é vivida pelos combatentes actuais. Claro que em Homero já encontramos tudo: a coragem, a cobardia, a dor, as feridas, a grande excitação que o combate provoca. Os códigos sociológicos é que não são os mesmos. Deixámos de viver num mundo governado pelos deuses, mas muitas coisas permanecem.» Mais do que paradigmas narrativos, Énard procurou um elo com o passado mais remoto da nossa civilização: «Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele.»
O título do livro, defendido com unhas e dentes no processo de edição, remete para um poema de Apollinaire, «talvez o primeiro poema da modernidade em França», cujos temas e ritmos vão permeando o texto do romance. Além disso, a palavra «zona» interessava a Énard pelo seu «lado de incerteza». Em termos geográficos, designa «um lugar que existe, porque ocupa espaço num mapa, mas ao mesmo tempo não tem fronteiras bem definidas». Na etimologia grega, zona é o mesmo que cintura, «aquilo que cerca as coisas». E no fundo é isso que este romance faz: cercar todo o tipo de coisas. Dos factos históricos (batalhas, atentados, etc.) às misérias incógnitas, das memórias perecíveis às imagens que nunca mais nos abandonam (as cabeças decapitadas dos quadros de Caravaggio, por exemplo, repetindo-se no obscuro rol das muitas vítimas do século XX).
Para não se perder nas dobras de uma frase interminável, que se estende por mais de 400 páginas, Énard cobriu uma parede com post-its de várias cores (uma para cada tempo histórico), onde resumia os vários episódios que se vão intercalando na narrativa. «A dificuldade estava nas transições, mas como tinha o conjunto do livro ali à minha frente, na parede, podia transferir facilmente segmentos inteiros de um lado para o outro, sem perder o fio à meada.» E pode dizer-se que na construção do livro há uma espécie de impulso wagneriano? «Sim. Como na ópera total, aqui não há recitativos, só música contínua, com leitmotivs, ressonâncias de umas partes para outras e mudanças súbitas de ritmo.»
O sucessor de Zona, entretanto, já existe. Tem publicação prevista para Setembro, em França, narra um episódio da vida do escultor Miguel Ângelo e é uma espécie de reverso da medalha, tanto na escala como no estilo: «Será breve, umas 150 páginas. E terá muitas frases, quase todas curtinhas.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O meu primeiro tiro

«Tenho a impressão de que ando aos tiros desde sempre, mas na verdade faço-o há pouco mais de três anos e, quando volto a pensar nos meus começos, sinto vergonha. Tudo se aprende. O alvo do meu primeiro tiro foi um homem ao volante de um táxi, no princípio da guerra. Acreditei que o tinha atingido porque o automóvel chocou a direito contra uma parede. Fiquei à espera, para o caso de o condutor sair. Todo eu tremia, apontando a minha espingarda para um lado e para o outro, a tentar perceber se alguém chegava para o socorrer. Disparei duas balas ao acaso, na direcção da porta da frente do lado esquerdo, mas era evidente que ele não saía e ninguém se aproximava. Eu tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que fazer, não via sequer o homem a sangrar por causa do tecto do automóvel, que me obstruía a visão, e comecei a entrar em pânico, no meu prédio a quinhentos metros. É o efeito da mira. Tinha a impressão de estar lá em baixo e já não me reconhecia. Já não sabia se eu era aquele que dispara ou aquele sobre o qual se dispara. Tinha medo, estava tão agarrado à minha espingarda que era como se estivesse fundido com ela. Para dificultar ainda mais as coisas, havia uma casa relativamente alta, do lado direito do automóvel, que me tapava a porta do passageiro. Alguém se aproximou de repente, a correr, no meu ângulo morto, disparei por reflexo na direcção do movimento e evidentemente falhei e atingi o automóvel, porque ainda não tinha compreendido que no visor avaliamos mal as distâncias entre os objectos. Fui obrigado a recarregar a arma, perdendo momentaneamente de vista o que se passava à minha frente; e, como antes não prestara a devida atenção ao lugar que tinha debaixo de olho, perdi algum tempo a reencontrar o automóvel no meio dos prédios, por causa do pânico. Transpirava, fazia muito calor, era verão, o início da guerra, e o suor que me escorria da cara impedia-me de olhar pela mira. Quando reencontrei o lugar, esperei um quarto de hora mas ninguém saiu do pior lado do automóvel. Estava frustrado, não sabia se o homem estava morto, e se tinha sido eu a matá-lo ou o acidente. Foi nesse momento que disse a mim mesmo que era um cobarde, porque escolhera o tiro mais difícil, um homem protegido em três quartos do seu corpo, dentro de um automóvel em movimento. No fundo, acho que queria dar-lhe uma hipótese, o que é uma cobardia. Ou se dispara, ou não se dispara. É preciso escolher, ou então somos cobardes. Mas isso só o compreendi mais tarde.»

[in La Perfection du tir, de Mathias Énard, Actes Sud, 2003; inédito em português, tradução de José Mário Silva]

Um palimpsesto prodigioso

Zona
Autor: Mathias Énard
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 469
ISBN: 978-972-20-4035-8
Ano de publicação: 2010

Francis Servain Mirković, espião de origem croata, sobe para o comboio Milão-Roma como quem prepara um apocalipse pessoal (revelação e fim do mundo). Na sua maleta transporta documentos com milhares de nomes: os nomes de carrascos e vítimas das muitas guerras a que a orla mediterrânica assistiu nas últimas décadas. São segredos acumulados durante anos de trabalho nos serviços secretos franceses, informação de que pretende desfazer-se, vendendo-a ao Vaticano para depois iniciar uma vida nova.
Ele define-se como um «historiador da sombra», um «arqueólogo da loucura» que sondou «coisas desaparecidas, enterradas, para delas fazer brotar cadáveres, esqueletos, fragmentos, restos de histórias». E é tudo isso, a densa rede de experiências pessoais e alheias, sobrepostas como «uma teia de aranha em redor do vazio», é tudo isso que converge para a sua cabeça insone, na travessia da noite e da memória. No longo monólogo interior de Francis (só interrompido pela leitura de um livro dentro do livro, também ele sobre a guerra e suas devastações), cabe um inventário bastante completo do horror no século XX, mas também no passado mais remoto, de Tróia a Lepanto, de Homero a Cervantes.
Ao longo da viagem, a maleta esvazia-se como a caixa de Pandora, um catálogo de males sem direito à esperança. E a imensa frase única, que atravessa as quase 500 páginas deste prodigioso palimpsesto, cerca-nos e morde-nos e esmaga-nos, até à rendição incondicional.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Livros de Areia)

Fome, de Elise Blackwell, com tradução de Safaa Dib.

Maravilhas da paternidade

Pedro: Sabias que há meninos lá na escola que pensam que a bandeira portuguesa só tem duas cores?
Eu: Vermelha e verde, não é?
Pedro: Sim.
Eu: Mas tu sabes que são três cores.
Pedro: Três cores?
Eu: Sim. Vermelho, verde e amarelo.
Pedro: Ó pai, mas não são três cores!
Eu: Então?
Pedro: São cinco. Não sabes? [Expressão facial de incredulidade absoluta.] Vermelho, verde, amarelo, branco e azul. Nunca viste que há coisas azuis [quinas] no meio da parte amarela [esfera armilar]?

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Beatriz e Virgílio, de Yann Martel (Presença), por José Mário Silva
- À Porta Fechada, de Laurence Rees (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- Porque é que o seu mundo vai ficar muito mais pequeno, de Jeff Rubin (Lua de Papel), por Virgílio Azevedo
- Einstein & Oppenheimer – O significado do génio, de Silvan S. Schweber (Bizâncio), por Paulo Nogueira
- O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- Morfologia Social, de Maurice Halbwachs (Edições 70), por António Guerreiro

Sob o signo da beleza extrema

necrophilia

Necrophilia
Autor: Jaime Rocha
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-162-6
Ano de publicação: 2010

Jaime Rocha encerra, em Necrophilia, um ciclo poético iniciado com Os Que Vão Morrer (2000), Zona de Caça (2002) e Lacrimatória (2005). Inspirada no universo pictórico dos pré-rafaelitas, em particular na relação obsessiva entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal (sua musa e modelo), a Tetralogia da Assombração fecha com o livro «da Culpa e do Lamento». Estamos no domínio do amor para além da morte, do amor na morte, o que significa que Jaime Rocha prossegue a partir do ponto em que o romance Adoecer, de Hélia Correia (também publicado pela Relógio d’Água, quase em simultâneo), se suspende. Fixando visões paralelas e complementares sobre a mesma matéria literária, os livros são como que o reverso um do outro, nascendo de uma fascinação comum e partilhada pelo mistério do «desejo negro» que uniu Rossetti e Siddal.
No seu iluminador prefácio, João Barrento sugere que esta poesia instaura um «tempo suspenso», uma «temporalidade sem tempo». E é nessa espécie de hiato que se recortam as figuras que atravessam todos os livros da tetralogia, como projecções do imaginário medieval dos pré-rafaelitas: o pedreiro («construtor de túmulos»), o cavaleiro, o guerreiro, o homem da montanha. Todos eles subjugados, aqui, pela «sombra mágica» que emana do peito da mulher que deixou de viver mas cujo corpo ainda parece dar sentido a todas as coisas. Edgar Allan Poe, em epígrafe, afirma que não há tópico mais poético do que a morte de uma mulher bela. Morte que se transforma, neste caso, numa «presença devoradora», capaz de obliterar as paisagens e de nos aproximar da loucura, de um paroxismo em que o olhar se despedaça, como «uma palavra cortada por um fio / de nylon».
Se há neste longo poema em cinquenta estrofes uma narratividade, trata-se de uma narratividade estática. O texto avança por golpes e fulgurações, uma vertigem de imagens poderosas sucedendo-se umas às outras, deixando atrás de si um rasto de desolação, sofrimento e desamparo. Absolutamente singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea, a escrita de Jaime Rocha surge-nos neste livro em todo o seu esplendor, sob o signo de uma «beleza extrema», torturada e herbertiana:

O homem vê uma mancha ao fundo a
mexer-se na sua direcção. É a barca de
Caronte que regressa. A terra engrossa
quando a água é empurrada e o homem
devorado pelo lixo. Os seus pulmões
enchem-se de vazio e morrem, como dois
milhafres deitados num campo de sal. A sua
dor tornou-se mais forte do que as raízes que
rompem o alcatrão. Uma coisa não pássaro
o que ele vê, um vidro a nascer dos socalcos,
um crepúsculo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

A raça da corrida

Há uns dias, a Maria do Rosário Pedreira referia-se no seu blogue às traições dos tradutores, dando exemplos de erros básicos, cometidos tanto por maus como por bons profissionais. Nem de propósito, saltou-me aos olhos precisamente um desses erros no livro que estava a ler naquele momento. Aparece a páginas 57 do romance Beatriz e Virgílio, de Yann Martel (Presença, tradução de Fátima Andrade):

«Fornecemos lebres mecânicas para raças de galgos»

Evidentemente, onde está «raças de galgos» devia estar «corridas de galgos» («greyhound races»).

Outra Babel

O site do Jornal de Notícias tem um blogue sobre livros chamado Babel. Sem bibliotecários, mas com dois profissionais diligentes à frente do projecto: Elmano Madail e Sérgio Almeida.

Logo à noite, apresentação do primeiro livro de um poeta brasileiro (com o autor ausente)

Convite_Daniel_Francoy

Quatro poemas de Daniel Francoy

A CHUVA

A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga os rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.

Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.

***

MENINOS EM FÉRIAS

As pipas que plainam livres e serenas.
Montá-las exige a perícia de Dédalo
e mantê-las no ar a audácia de Ícaro.
Mas os meninos ignoram os deuses
e pouco importa que as ruas da cidade
sejam o labirinto onde vive o minotauro.
O que os meninos desejam é o céu
e se uma pipa adeja sem dono
uma multidão de crianças a persegue
ainda que ela se misture ao sol:
pouco importa a queda de Ícaro
se a infância é o mais duradouro mito.

***

AGOSTO OU A CHEGADA DO CALOR

Julho se esfarela e agosto
ergue-se sobre as nossas cabeças –
esbrasear limpo e antigo que desperta
a paixão pelas línguas latinas
e na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vaga-lumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Esbrasear limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.

***

WALESKA

Todos desprezam e debocham de Waleska,
Waleska julga serem gente
os seus animais de estimação,
é virgem aos vinte e dois anos,
é magra, tem a pele seca, os seios murchos
e a voz aguda não anuncia uma mulher
apetecida pelos homens.
Mas creio que Waleska se fecha no quarto
e lá, livre dos deboches e dos olhares,
as pernas se entreabrem úmidas
e o êxtase que turva os olhos desamparados
a deixa inesperadamente bela.

[in Em Cidade Estranha, seguido de Retratos de Mulheres, Artefacto, 2010]

Marketing moluscular

Era uma questão de tempo.
Depois do Mundial e do sainete divinatório do polvo Paul, alguém acabaria por pegar na deixa para efeitos promocionais.

paul

‘Dublinesca’

Enquanto vai traduzindo para a Teorema o último romance de Enrique Vila-Matas, o Jorge Fallorca partilha connosco alguns magníficos excertos do seu trabalho. Um privilégio, é o que vos digo.

O que aí vem (Gradiva)

Parrot e Olivier na América, de Peter Carey; Tudo é Relativo e outras lendas da ciência e da tecnologia, de Tony Rothman; Voar Sem Medo – Guia prático para voar confiante e descontraído, de Cristina Albuquerque (coordenação).

Notícia do intercâmbio

O Estêvão Haeser, um dos organizadores do I Fórum de Intercâmbio Cultural Lisboa-Porto Alegre, que decorreu segunda-feira na Ler Devagar, fez um relato das várias sessões no seu blogue.

A caligrafia de Matilde

Este é um dos muitos poemas que Matilde Rosa Araújo copiava à mão («numa altura em que não havia fotocópias, muito menos scanners e impressoras») para dar a ler às suas alunas do Magistério.

[via blogue da Planeta Tangerina]

Maravilhas da paternidade

Diz o Pedro: «Sabes, no fim a história [Alice no País das Maravilhas] é só um sonho, mas eu acho que aquilo não é um sonho, é uma inventação.»

Stieg Larsson e a cafeína

Um debate.

O poster que todos os escritores aspirantes deviam colar na parede do escritório (e alguns dos escritores consagrados também)


Clique para aumentar

[via Blogtailors, que o foi buscar a este post do Paper Cuts]

‘Livros das nossas vidas’

O editor da Sextante, João Rodrigues, falará sobre Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway (1940), em mais uma sessão do ciclo ‘Livros das nossas vidas’, organizado pela Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. É já amanhã, quinta-feira, a partir das 18h00. À noite (21h30), será exibida a adaptação cinematográfica do romance: Por quem os sinos dobram, de Sam Wood (1943).

Bookshelf Porn

«A collection of all the best bookshelf photos for people who *heart* bookshelves.»

Temer pelos teatros da memória

«What concerns me about the literary apocalypse that everybody now expects—the at least partial elimination of paper books in favor of digital alternatives—is not chiefly the books themselves, but the bookshelf. My fear is for the eclectic, personal collections that we bookish people assemble over the course of our lives, as well as for their grander, public step-siblings. I fear for our memory theaters.»

O artigo completo de Nathan Schneider, publicado no Open Letters Monthly, pode ser lido aqui.

O Verão de Alice

É um Verão a pedir chá gelado. O Verão da Alice, a melhor revista online portuguesa. Para ler devagar e com vagar. Aos poucos. Sombra a sombra, texto a texto, imagem a imagem.

Um veneno sem antídoto

Pequeno divertimento sobre literatura em cem lições também conhecido sob o título Substâncias Perigosas em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados e mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais
Autor: Pedro Eiras
Editora: Livrododia
N.º de páginas: 211
ISBN: 978-972-8979-35-5
Ano de publicação: 2010

Ensaísta, dramaturgo, poeta e ficcionista, além de professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Pedro Eiras assenta o seu mais recente livro, Substâncias Perigosas (versão resumida de um título quilométrico), numa ideia forte, proclamada com estrépito logo na frase inicial: «Não consigo abrir um livro sem terror: acredito que a literatura mata.»
As cem lições que se seguem, em forma de «pequeno divertimento», mostram que o terror de Eiras está longe de ser apenas metafórico. Ou seja, em tempos de brandura pós-moderna, com as fórmulas de entretenimento fácil a servirem de anestesiante para as massas leitoras, o que ele reivindica é nada menos do que o poder mortal da literatura: «Alguns livros convidam a matar. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais subtis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual.»
Definido o veneno, para o qual não existe antídoto, o «sujeito pensante» enceta uma reflexão em deriva contínua, abarcando quase todas as declinações possíveis do seu tema: não apenas a morte pela escrita (dos suicídios reais provocados pelo Werther, de Goethe, ao castigo para quem lê um livro proibido, ficcionado por Umberto Eco em O Nome da Rosa), mas também a escrita sobre a morte, em Czeslaw Milosz, Bataille, Camus, Sarah Kane, Arthur Conan Doyle, Freud, Séneca, Saramago, Sade, De Quincey, entre outros. Mas o que torna este périplo estimulante é o facto de Eiras assumir o ensaio como género literário infinitamente elástico e absolutamente livre, feito de avanços e recuos, exageros e contradições, erros e surpresas, ironia e jogo, experimentação e risco.
Referindo-se aos textos fragmentários no próprio acto de os escrever, o autor afirma não saber «se são ensaios, ou crónicas, ou monólogos de personagens sem romance». E importará assim tanto classificá-los? Na sua desordem lúdica, um caos que imita a complexidade ramificada do pensamento à solta, eles alinham-se como frutos impuros de uma inteligência desencaminhada e desencaminhante. O livro, este livro, talvez não aspire a matar-nos, talvez ainda não, talvez nunca, mas enquanto leitores «devemos tornar-nos dignos da ameaça».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

Livrododia (5 anos)

A livraria Livrododia, de Torres Vedras, completou ontem cinco anos de vida. Um lustro. Que viva muitos mais: anos e lustros.

LeYa vai apostar nos e-books

Num momento em que o mercado dos leitores de e-book continua a crescer (e o preço dos aparelhos a baixar), a LeYa assume, já a partir da próxima rentrée, a aposta numa plataforma de livros em formato digital, centrada na sua livraria online (a Mediabooks) e com um catálogo de «grandes autores lusófonos». Entre os primeiros títulos disponibilizados, estarão livros de José Saramago, Mia Couto, José Eduardo Agualusa e António Lobo Antunes.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges