Afinal, Gabo ainda não acabou para a literatura

Segundo esta notícia do The Guardian, Gabriel García Márquez estará a retocar a quinta versão do próximo romance (ainda sem título). Depois de ter anunciado o fim da carreira literária, parece que o escritor colombiano “redescobriu a sua musa”.

Avanços e recuos

Agora a sério: ontem à noite, a participação da LeYa na Feira do Livro de Lisboa continuava em aberto. O prazo dado pela APEL ao grupo de Pais do Amaral, para que este “regularizasse” a sua inscrição, terminava ao meio-dia. Ou seja, expirou há uma hora. Alguém deu pelo fumo branco?

A Feira, versão bunker

Nos comentários ao post anterior, o Rui Almeida chamou a atenção para uma proposta ainda mais ousada do que a do Jaime Bulhosa. A coisa é assim a modos que um tratado de Tordesilhas arraçado de Auschwitz, mas talvez seja a única forma de resolver definitivamente o problema da Feira do Livro de Lisboa.
Falta dizer que a casca deste ovo de Colombo foi partida (na extremidade do dito, como convém) pelo inimitável e mui irónico Luís Graça, numa das caixas de comentários do blogue da Ler. Ora apreciem:

Eu acho que o Parque podia ter sido dividido em dois (para já, nas edições seguintes podia mesmo ser dividido em mais parcelas).
Punha-se arame farpado a meio, para evitar que os leitores pudessem comprar livros às editoras da APEL e da UEP.
Criava-se um posto veterinário para tratar dos cães que ficassem presos no arame farpado.
Montava-se um ninho de metralhadoras na zona do restaurante “Eleven”, para abater os vendedores de farturas que as tentassem vender através do arame farpado.
As sessões de autógrafos de editoras mais “underground” decorreriam no parque de estacionamento.
Há tanta coisa que se pode fazer. Para quê tentar conciliar as partes? Mais vale assumir abertamente o conflito. Se o livro não servir para animar a vida das pessoas, afinal para que serve? Para ler?

Uma ideia a ter em conta

Diz o Jaime Bulhosa, não sei se a sério, se a brincar:

«Proponho, para acabar com as guerras, nós livreiros organizarmos a feira do livro. Isto é, durante 15 dias fazíamos descontos de feira e promovíamos debates, sessões de autógrafos, conferências, etc.. E cada um ia à livraria que lhe apetecia.»

É certo que perderíamos o sobe-e-desce no Parque Eduardo VII à tardinha, o encontro com os amigos junto ao Multibanco ou na esplanada, a explosão roxa dos jacarandás. Mas evitava-se a angústia dos dias de chuva e a aparelhagem sonora a anunciar, de cinco em cinco minutos, os livros do dia que podemos encontrar no stand 117.
A mim, não me parece mal pensado. Vendo o rumo que as coisas levam, com a APEL e a UEP às turras, mais os novos grupos a quererem afirmar-se e a provocarem ciúmes, ainda é capaz de ser uma saída airosa para o caos em que a Feira mergulhou este ano.

Saramago em plasticina no cinema (enquanto esperamos pelo ‘Ensaio sobre a Cegueira’ segundo Fernando Meirelles)

O realizador espanhol Juan Pablo Etcheverry adaptou ao cinema A Maior Flor do Mundo, única história infantil publicada por José Saramago. A sua curta-metragem de animação combina várias técnicas (2D com 3D, stop motion, etc.). O Nobel português aparece enquanto personagem e narrador.
Feito em 2007, o filme ganhou o prémio de melhor animação do Anchorage Internacional Film Festival e foi nomeado para os Goya deste ano na categoria de melhor curta-metragem.
A TVE ouviu tanto o cineasta como o escritor:

Três poemas alcoólicos de Malcolm Lowry

OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.

O ÚLTIMO HOMEM NO DÔME

Onde está o sublime bêbado? Será o grande bêbado?
Este pequeno mistério imponderável
Perturba-me sempre à meia-noite:
– Para onde foi, para onde levou a sua caneca?
Para onde foram eles, os meus amigos, os que não têm porto?
Já não se lamentam nos bares, já não se fazem ao mar;
Um estremecimento da vontade e então podem sonhar,
Vivendo enfim as vidas que sempre ansiaram –
Intermináveis corredores de botas para lamber,
Ou no fim de todos eles o Pope com a sua biqueira.
Onde estão os teus amigos, seu tolo?, só te resta um,
E também esse já te enjoa –
Embora muito menos que os outros; e isto sei muito bem,
Uma vez que sou o último bêbado: bebo sozinho.

UMA ORAÇÃO

Deus, dá de beber a estes bêbados que acordam ao amanhecer
Balbuciando sobre o peito de Belzebu, destroçados,
Espiando uma vez mais, através das janelas,
A vaga e terrível ponte quebrada do dia.

[in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]

Ciclo dedicado a Luiz Pacheco

Em Beja, teatro, cinema e conferências no Teatro Municipal Pax Julia (antigo cinema). Até dia 9.

É já amanhã

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Estou mortinho para saber quantas câmaras de TV é que estarão presentes, a captar imagens para o minuto e meio da praxe no telejornal da meia-noite. Isto descontando a RTP, claro, que por razões óbvias não deve faltar.

Prémio Rainha Sofia para Pablo García Baena

O escritor Pablo García Baena (n. 1923), natural de Córdoba, venceu a 17.ª edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, atribuído pela Universidade de Salamanca e pelo Património Nacional. O prémio, no valor de 42.100 euros, distingue “o conjunto da obra de um autor vivo que pelo seu valor literário constitui uma contribuição importante para o património cultural comum iberoamericano e de Espanha”. José Saramago fez parte do júri.
Eis um dos poemas de García Baena:

Hay una débil música enredada en mis dedos
como indolentes, verdes algas dormidas,
cuando mayo desnuda de negros pabellones
mi errante pensamiento.
Hay un tejido espeso como aroma de mieles y de trigo,
que envuelve adormeciendo roca y nube.
Es temprano en la tarde.
El arroyo abandona su flauta entre la hierba.
Me inclino reverente para beber y el agua
pone en mis cerrados párpados su húmeda caricia.
Sobre la tierra extiendo mi pereza
y mayo me despoja de la corteza gris y extraña de mi traje
ciñéndome triunfal con la guirnalda azul de
sus ramajes lánguidos
y en el silencio olvido el remolino inquieto de mi alma.
Ahora soy complacido todo tierra,
sólo un montón de tierra donde crecen florecillas salvajes
como desnudas piernas deseadas
y hay un himno en mis labios,
un himno que levanta su corola
como la púrpura de la diana en un alba con lluvia.
Por el pinar en sombra se difunden sonrisas de armonía
cuando la tarde estruja jacintos olorosos
en el cáliz temblante de los árboles.
La montaña se aleja en éxtasis de humo…
Yo espero confiado que tu inicial escrita en la piedra
vuelva a hablarme en la noche con tu voz,
con la voz del agua en el venero,
de esa agua que rompe su líquido alabastro
en el silencio verde de las hierbas.

A língua nómada

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A Ressurreição da Água
Autora: Maria Antonieta Preto
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-628-008-6
Ano de publicação: 2008

Com Chovem Cabelos na Fotografia (Temas e Debates, 2004), Maria Antonieta Preto (MAP) entrou de rompante na cena literária portuguesa, acumulando elogios quase unânimes da crítica. Apesar de uma ou outra fragilidade narrativa, as 18 histórias do volume de estreia – nas quais se fixava uma visão mitificada do Alentejo rural: decadente e triste, abandonado e violento, crepuscular e lírico – eram de facto, mais do que uma promessa, a expressão de uma escritora de corpo inteiro.
Ao regressar ao conto em A Ressurreição da Água, agora editado pela QuidNovi, MAP confirma o seu talento ficcional e a sua fé inabalável nos poderes da literatura: “Conto-te, querida neta, para que contes sempre. Quem faz o conto és tu a partir de mim, e outros a partir de ti. Porque aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele.” É nestes outros mundos, bizarros e introspectivos, muitas vezes difíceis de penetrar (ou até de compreender), que a autora nos vai mergulhando, com uma prosa tão etérea que dá a sensação de estar sempre prestes a transformar-se em poesia.
Tal como no primeiro livro, voltamos a encontrar um Alentejo reconhecível (mas nunca nomeado), mulheres velhíssimas, padres incapazes de ter mão nas cerimónias litúrgicas, segredos guardados em arcas, cenas de violência doméstica e até palavras ditas no útero por quem ainda não nasceu. A diferença é que a escrita de MAP se tornou mais barroca e abstracta. Em vez de alcunhas de forte pendor regionalista, surgem nomes ostensivamente desligados da onomástica nacional: Carofénia, Pertólio, Vidânia, Sélmio, Noalma. E embora a matriz alentejana persista, sobretudo nas descrições de uma terra exangue, eternamente à espera da chuva redentora (como no belíssimo conto que dá título à obra), é como se MAP procurasse diluir os contornos geográficos da paisagem, tornando-a mais universal e como que fora do tempo, um lugar onde a morte paira, omnipresente, sobre todos os gestos. Um lugar onde há lenços bordados que contam vidas ancestrais, malignas penas de corvo, rosas salvíficas e cortejos de querubins; além de personagens que comem pedras e morrem muito, de tristeza, amor ou vergonha.
Apesar de alguns passos em falso (como O conto dos sabonetes, muito fraco e disparatado), MAP aprimorou um estilo e uma voz singulares, talvez fechados em demasia sobre si mesmos, mas ainda assim fascinantes. Mais do que as capacidades de efabulação, valem aqui a riqueza e a liberdade do trabalho sobre a linguagem. Como se diz em A Língua das Rosas: “A minha língua é nómada. A minha língua está em toda a parte do mundo. A minha língua está onde existe o requinte, a nobreza, a espontaneidade, a lucidez, o respeito. (…) A minha língua não gosta de cangas nem de ferros.”

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Fair play

É sabido: nem sempre os escritores reagem bem às críticas que lhes são feitas (ou a qualquer aspecto dos livros que escrevem), mesmo quando essas críticas são construtivas. Por isso, não posso deixar de referir a notável capacidade de encaixe e simpatia de que Pedro Paixão deu mostras no comentário a este post sobre incongruências que detectei no romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro:

«Caro José,
obrigado pela tua leitura atenta, certamente mais atenta do que a minha que deixou passar esses erros e inconsistências.
o caso do Beckett é incrível, pois é um dos autores que mais leio, e há mais tempo, tendo traduzido todos os seus poemas em francês.
mas também sabes que os apelidos ingleses podem ser escritos de várias maneiras. No caso do apelido Eliot já o vi escrito de três ou quatro maneiras.
quanto à equipe de basket tem a sua graça pois também os vi jogar mais de uma vez. um espectáculo incrível.
quanto às obras de Proust os volumes variam conforme a edição. Na Pleyade é só um ou dois. mais uma vez aqui não sei se estou a escrever bem o título da colecção e não vou verificar quantos são embora os tenha ali no outro quarto. é estranho. não dou, mas talvez devesse dar, importância a isso. e gosto de gralhas. sem gralhas o texto não canta.
e nunca esqueço a Madame Bovary que muda de cor de olhos várias vezes e não deixa de ser belíssima.
eu faço sempre muitos erros ortográficos e outros talvez porque a língua que primeiro aprendi e na qual escrevi não ser o português.
de qualquer modo muito obrigado. se houver uma segunda edição será corrigida.
com um abraço,
pedro»

Adenda: um dia depois, Paixão comentou igualmente a recensão, bastante dura, que fiz ao seu romance. Nestes termos:

«Caro José,
compreendo muito bem a tua critica e poder-me-á ajudar no próximo volume já que este é o primeiro de uma série de três.
quanto ao espírito do livro acho que o captaste muito bem com o titulo da tua critica. O abismo vazio é onde de facto estamos, ainda não reparaste? E o tédio por debaixo de tudo (Heidegger). E o indizível (Wittgenstein).
E de facto a acção é completamente acessória, como em Beckett, Joyce e Proust. O que ela gosta é de pensar e foder. Como eu.
abraço
pedro

ps - já descobri porque não consigo escrever o nome do S.B. correctamente. Porque estudei quatro anos num colégio que se chamava Thomas Becket - só com um T. deve ser de um traumatismo na memória.»

Apresentação de ‘Rayuela’

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Daqui a pouco (18h30), na Fnac do Chiado, será lançada a edição portuguesa da obra-prima de Julio Cortázar: Rayuela (O Jogo do Mundo). Só agora, 45 anos depois, é que alguém decidiu colmatar a escandalosa lacuna (e por isso tiro o meu chapéu à Cavalo de Ferro). Como se costuma dizer, antes tarde do que nunca.
Depois da leitura a mata-cavalos, numa espécie de transe, das 631 páginas e 155 capítulos deste romance desvairado, vou tentar dizer alguma coisa que seja digna de tão transcendente experiência, assim como quem lança uma pedra para a figura desenhada a giz no chão e sobe ao pé coxinho da Terra ao Céu.

Georges Perec, dá-me a tua camisola!

O Alexandre Andrade escreveu um post intitulado Arte Corporal, que tomo a liberdade de reproduzir abaixo (por não me entender com o sistema de links do blogue verde alface):

Graças à revista Ler, fiquei a saber que o escritor José Luís Peixoto tem o nome do condado imaginário dos romances de Faulkner (”Yoknapatawpha”) tatuado no braço. Isto decidiu-me a tatuar “11, rue Simon-Crubellier” na minha omoplata direita. É a minha resolução de primavera.

Pois eu digo que tão iluminada resolução merece ser partilhada. Quando fores ao tattoo shop, Alexandre, não te esqueças de me avisar. Pode ser que nos façam desconto por sermos dois. E já reservei, para a sublime morada, a planta do pé direito.

Pedro Tamen de calções

Tamen no tempo em que foi miliciano em Nampula

Uma preciosidade iconográfica para descobrir aqui, juntamente com poemas de várias fases, a bibliografia e uma longa lista das traduções assinadas por Tamen desde os finais da década de 50.

[via Ciberescritas]

No eBay encontra-se de tudo

Até um exemplar numerado (141 de um total de 280) da primeira edição do livro Cuaderno San Martin, publicado em 1929 pelo então jovem Jorge Luis Borges (teria uns 30 anos), com um retrato do escritor desenhado por Silvina Ocampo. Quem quiser pode licitar, a partir dos 2020 dólares (1306 euros).

A melhor profissão do mundo

Sei que vou parecer exagerado. Ou ingénuo. Não importa. A verdade é esta: num mundo em que 99,99% das pessoas se queixam do emprego que lhes coube, eu posso gabar-me de ter a melhor profissão do mundo. Não estou na lista da Forbes, não tenho a vida de lorde do Cristiano Ronaldo em Manchester, não sou estrela pop, não pertenço a elites, não gozo as supostas vantagens da fama (nem sofro, já agora, com as respectivas desvantagens). Mas tenho a melhor profissão do mundo. Leio, leio, leio e depois escrevo, escrevo, escrevo. Leio para escrever. Escrevo sobre o que leio. Vivo rodeado de livros. E pagam-me, ainda por cima. Só o suficiente, mas pagam.
Para um bibliófilo compulsivo e sem grandes ambições materialistas, isto é o mais próximo da ideia de Paraíso a que se pode chegar. Um Paraíso borgesiano, claro: forradinho de estantes do Ikea, abauladas com o peso dos volumes em cujas páginas de rosto aparece, como um ferrete, o carimbo a dizer “oferta do editor”. Um Paraíso que se transforma em Inferno quando as novidades do mês, lá no topo dos vários estratos geológicos de papel que se debruçam das estantes, nos atiram à cara o facto de ainda não lhes termos dado a atenção de que se julgam merecedoras.

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É um trabalho ao mesmo tempo sublime e ingrato. Ingrato porque ninguém, nem mesmo o mais voraz dos leitores, consegue acompanhar tudo o que de interessante se publica (magro consolo: saber que certos romancistas passam às vezes dois anos a escrever um livro que devoramos em dois dias). Sublime porque permite – aliás, exige – a entrega à leitura compulsiva, sem complexos de culpa nem distracções. Lembram-se daquele poema de Pessoa intitulado Liberdade? Pois é exactamente ao contrário: “Ai que prazer cumprir um dever. Ter um livro para ler e fazê-lo.”
Entretanto eles vão chegando, todos os dias ou quase, de mansinho. Formam pilhas cada vez mais altas, cada vez mais instáveis. Durante muitos anos, essa periclitante cordilheira dos Himalaias ocupou a minha mesa no jornal, para espanto e inveja dos camaradas de outras secções. Agora que trabalho por conta própria, as montanhas transferiram-se para o escritório lá de casa, para a sala de estar, para os corredores, para o quarto – lugares onde os livros vão disputando o meu interesse, numa comovente e darwiniana struggle for life. Refastelado no sofá, eu selecciono, elimino, premeio os mais aptos, sabendo que com o tempo acabarei por receber, em envelopes de papel pardo, uma biblioteca inteira a conta-gotas, enviada por uma espécie de Amazon ainda mais virtual que a Amazon virtual, uma Amazon que me impinge muito lixo (é verdade) mas nunca me pede o número do cartão de crédito.
O carteiro toca. Pelo intercomunicador diz “mais uma encomenda para si” e depois leva muito tempo a subir as escadas, como quem estica a corda da expectativa até ao limite. Encontra-me à porta de casa, sorridente e ansioso. Antes de o entregar, avalia o peso do pacote. Nunca precisei de lhe explicar o porquê do meu sorriso e da minha ansiedade.

[Crónica publicada no n.º 69 da revista Ler]

Livros de culto

O jornal Telegraph elaborou uma lista dos 50 principais livros de culto. Há algumas pérolas e muito lixo, o que não surpreende se tivermos em conta a definição de “cult book” de que se partiu: “Books often found in the pockets of murderers; books that you take very seriously when you are 17; books whose readers can be identified to all with the formula ‘ whacko’; books our children just won’t get…
Dos 50, só li 11:The Bell Jar (Sylvia Plath), Catch-22 (Joseph Heller), The Catcher in the Rye (JD Salinger), Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid (Douglas R Hofstadter), If on a Winter’s Night a Traveller (Italo Calvino), Labyrinths (Jorge Luis Borges), No Logo (Naomi Klein), On The Road (Jack Kerouac), The Rubáiyát (Omar Khayyám), The Stranger (Albert Camus), Thus Spoke Zarathustra (Friedrich Wilhelm Nietzsche).

Capítulo 7 (agora dito pelo autor)

E que voz, meus amigos, que voz.

Capítulo 7

«Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.»

[in O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008]

Canto do cisne

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Campo Santo
Autor: W. G. Sebald
Título original: Campo Santo
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-695-748-5
Ano de publicação: 2008

Publicado em 2003, quase dois anos após a morte de W. G. Sebald num acidente rodoviário em Norwich (Reino Unido), onde leccionava há mais de três décadas, Campo Santo é um volume que deixará nos admiradores do escritor alemão um travo de melancolia. Isto porque os textos nele reunidos, por muito que reflictam as suas obsessões e o seu estilo singular – feito de subtis questionamentos, sínteses poderosas e derivas tanto geográficas como mentais –, não deixam de ser uma espécie de canto do cisne, o derradeiro legado de um autor que desapareceu, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas.
O livro abre com uma sequência de quatro textos, independentes uns dos outros, sobre a Córsega. Sebald tencionava inclui-los numa obra dedicada à ilha francesa, mas o projecto foi suspenso para a escrita do seu magnum opus (Austerlitz). Na primeira das “prosas”, o escritor cumpre o seu desígnio de explorador dos “abismos sem fim do passado” e deambula por Ajaccio em busca dos traços de Napoleão na cidade que o viu nascer. Não por acaso, Sebald foca-se na visita à Casa Bonaparte, em tempos descrita por Flaubert, um museu onde a grandeza extinta do Império se cristalizou, com os seus mitos e símbolos. Dos objectos mencionados pelo autor de Madame Bovary, “somente a capa imperial com abelhas douradas que ele vira reluzir no chiaroscuro já não estava lá”. O que interessa ao visitante é perceber como era Napoleão antes de ser Napoleão. Ou seja, o vislumbre da História enquanto entidade “que se move e muda de direcção no seu movimento (…) por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível”. No texto que dá título ao livro, um velho cemitério rural torna-se o palco para uma meditação sobre a decadência do culto dos mortos e os perigos de vivermos o “presente sem memória”, enquanto em Os Alpes no mar o tom é de lamento pelo abate progressivo das florestas corsas e pela “febre” da caça, reflexo da “infâmia que é a violência humana”.
A segunda parte do livro compõe-se de artigos, ensaios e discursos que abrangem um vasto arco temporal (a começar na crítica, escrita em 1975, à peça Kaspar, de Peter Handke). Além de analisar a problemática relação da literatura alemã com a destruição do país durante a II Guerra Mundial, Sebald revela-se um leitor muitíssimo atento de autores consagrados (Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin) e menos conhecidos (Peter Weiss, Jean Améry). Os melhores textos, porém, são aqueles em que evoca a sua infância em Wertach im Allgäu, nos Alpes bávaros, seja através de uma melodia de clarinete (Moments musicaux), seja através de um jogo de cartas onde as cidades em ruínas, como Estugarda, permaneciam intactas (Uma tentativa de restituição).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Ela está a chegar

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Assentai, ó gentes, nas vossas agendas (uma amostra do livro pode ser lida aqui). Aos mais tímidos, ou a quem partiu uma perna e não pode sair de casa, aconselha-se o inovador serviço de “apresentação ao domicílio”.
Já agora, espreitem também o belo clip promocional da Microcosmos (colecção de micronarrativa da Angelus Novus), com fragmentos manuscritos dos contos mínimos do Rui Manuel Amaral e do Augusto Monterroso espalhados por tudo o que é sítio:

Um poema de Armando Silva Carvalho

Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.

Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.

Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.

Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.

Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.

[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]

Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção”

O escritor Eduardo Mendoza, 65 anos, nome maior das letras espanholas contemporâneas, participou na edição deste ano das Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde lançou o romance Mauricio ou as Eleições Sentimentais (ASA). Nesta entrevista, fala do livro, das suas circunstâncias e da sequela que está a escrever neste momento. Uma sequela que pode ficar pelo caminho, como muitas outras das suas tentativas ficcionais.

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Neste último romance, situa como sempre a acção na cidade onde nasceu, Barcelona, mas pela primeira vez num período histórico recente. O que é que o levou a abordar um momento político tão concreto como as eleições autonómicas de 1984, na Catalunha?
Para ser sincero, não sei. Um dia dei comigo a interessar-me por esse momento. Há muitos livros escritos sobre a transição para a democracia, mas ninguém se debruçara ficcionalmente sobre esta fase concreta que foi, para mim, o parêntesis pior da História Contemporânea espanhola posterior ao fim da ditadura. Após um período de alegria e grandes mudanças, começávamos a pagar a factura. A lua-de-mel acabou, deixando-nos perguntas a que não sabíamos responder: “E agora? Para onde vamos?”

Depois da euforia, o choque com a realidade.
Sim. Havia também uma crise económica muito forte, que complicava tudo.

A primeira parte do livro sugere um enredo sobre a política catalã, vista do campo socialista. Mas ao fim de apenas 90 páginas dá-se a derrota eleitoral, face aos nacionalistas conservadores de Jordi Pujol. Daí em diante, o romance muda de foco, centrando-se nos dilemas amorosos de Mauricio, o protagonista. Já tinha prevista esta inflexão quando começou a escrever ou foram as personagens que lhe roubaram a trama?
Não tinha nada previsto à partida, mas quis evitar que esta fosse uma história meramente política. O que me interessava era seguir uma pessoa enquanto ela passa por várias etapas, do entusiasmo ao desencanto. Mas se abordas uma campanha eleitoral, a dimensão política do livro vai estar sempre em primeiro plano. Não há nada a fazer. Aliás, é a mesma coisa se te lembrares de introduzir um homicídio na história: o teu livro converte-se imediatamente num policial. Neste caso, a minha ideia inicial era acompanhar o regresso de um homem à sua cidade. Porque foi isso o que me aconteceu, mais ou menos naquela altura.

Voltou de Nova Iorque, onde foi tradutor na ONU durante quase uma década.
Eu vivia em Nova Iorque e ao voltar a Barcelona encontrei uma situação que não esperava. Nos Estados Unidos e noutros lados ainda se falava da transição espanhola, mas em Espanha ela já tinha terminado.

O livro é também sobre esse culminar de um ciclo, sobre o fim das ilusões quanto a uma mudança mais radical da sociedade.
Claro. Esse desencantamento coincide com a emergência de uma geração mais jovem do que a minha, uma geração que muda de vida enquanto o país vai mudando. A evolução de Espanha coincide com a sua, na passagem da juventude à maturidade. Era esta a geração que me interessava descrever.

Descreve-a com um olhar clínico, onde outros teriam um olhar cínico.
Não quis fazer julgamentos. Se escrevo livros, é para desenhar um panorama, ver o que se passa. Habituei-me a viajar com um caderno e um lápis. Eu não tenho um grande traço, não sou um artista plástico, mas acho que me safo menos mal. E gosto do exercício de esboçar no papel as realidades com que deparo. Ao desenhar, observas coisas que à vista desarmada te escapariam. E com a escrita passa-se o mesmo. Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção.

Para que não escapem os detalhes, as coisas mínimas?
Precisamente. Não basta dizer como foram as coisas, é preciso explicá-las. E no acto de explicar, tu próprio entendes melhor o que se passou.

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O seu protagonista está longe de ser um alter-ego. Quais são as maiores diferenças entre a criatura e o criador?
Creio que Mauricio é demasiado passivo. Eu não era assim. Ele fica à espera que as coisas lhe aconteçam, revela uma atitude expectante. Não sei, talvez eu devesse tê-lo feito menos plano. Acontece que os romances, por natureza, comprimem o tempo. Se as personagens fossem tão complexas e contraditórias como as pessoas reais, os livros não acabariam nunca. Bem, houve quem fizesse quase isso, como Proust…

Em sete volumes.
Pois. É sempre preciso cortar algo e quando se corta, perde-se.

Sendo este um livro passado em Barcelona, como quase todas as suas obras, é interessante verificar que há poucas descrições da cidade. Sabemos que é ali que as coisas se passam, mas Barcelona não se vê. É quase como um estado de espírito das personagens, mais do que uma realidade física.
Eu não queria que fosse um romance sobre Barcelona. O que se passou é que me interessava contar o que realmente aconteceu na cidade durante aquela época, que não era o mesmo que acontecia em Madrid, muito pelo contrário. Durante muitos anos, Madrid foi a cidade burocrática e Barcelona a cidade rica, activa. Mas naquele período isso mudou. Barcelona perdeu importância, devido à crise económica que se seguiu à entrada de Espanha na Comunidade Europeia, uma entrada que a longo prazo trouxe grandes benefícios mas no curto prazo foi problemática. Os preços subiram muito, havia desemprego, o que também contribuiu para a decepção das pessoas. O romance termina justamente quando começa a mudança.

Ou seja, no dia em que a cidade é escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de 1992.
Tendo esse projecto em mira, Barcelona deixa de ser uma cidade industrial para se converter numa cidade de turismo, de serviços, de grandes centros de medicina, informática, alta tecnologia. E onde antes havia fábricas, passou a haver complexos habitacionais, uma cidade moderna. Esta transformação, que se deu muito, muito depressa, era outro tema que gostaria de tratar.

Ficcionalmente, a porta está aberta. Ao chegarmos à última página do livro, fica implícito um eventual casamento entre Mauricio e Clotilde, com tudo o que isso implica. Os seus leitores podem esperar uma sequela, qualquer coisa como Mauricio e as Olimpíadas?
(Risos) O título é prematuro, mas sim, já estou a avançar numa continuação, embora não saiba ainda o que lhe vai acontecer. Eu começo muitos romances que depois ficam pelo caminho. Este é suposto passar-se dez anos mais tarde, em 1996. Mauricio e Clotilde casaram e Barcelona já mudou. Têm filhos e veremos o que lhes acontece.

A escrita corre-lhe bem?
Não, neste momento estou sem saber o que fazer. E entretanto escrevi outra coisa, uma novela.

Quando é que sabe que um romance vai mesmo até ao fim?
Isso é terrível. Nunca. Nunca sei. Às vezes, depois de terminar um livro que me consumiu quatro anos de trabalho, fico sem saber se o devo publicar ou destruir. É nessas alturas que peço ajuda à minha mulher ou a alguns amigos. Mas antes de estar concluído, nunca mostro nada a ninguém. Guardo o texto à chave.

Essa incerteza não o angustia?
Muito. Muitíssimo. Por isso peço a opinião dessas pessoas próximas. Às vezes dizem-me que sim, outras que não. E o mais normal é que digam: “esta parte está bem”, “aquele capítulo ficou grande demais” ou “isto não se percebe”.

Acolhe essas opiniões?
Sim. E volto a escrever. Mas aí já é um processo rápido. Outro motivo de angústia tem a ver com este desfasamento: o que o escritor levou vários anos a escrever, é julgado pelo leitor de uma só vez, em dois ou três dias. Sinceramente, considero um milagre o livro manter sempre o mesmo nível, porque um dia acordas optimista, noutro estás deprimido ou doente, umas vezes estás em casa, outras em viagem. Às vezes é difícil que o livro não registe tamanhas oscilações.

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O humor e o sarcasmo são marcas do seu estilo e este romance não foge à regra.
Muitas vezes me perguntam porque recorro ao humor nos meus livros e a verdade é que não há nenhuma razão. Se fosse japonês, escreveria de outra maneira. Se fosse uma mulher, também. Sou como sou e por isso escrevo como escrevo.

Alguns dos episódios mais divertidos de Mauricio ou as Eleições Sentimentais ocorrem em sessões de esclarecimento do PSOE catalão. Frequentou na altura esse tipo de acções de campanha?
Sim, claro. Foi uma época bonita. A democracia ainda estava no começo e as pessoas dos bairros pobres acreditavam que todos podiam e deviam participar no processo democrático. Eram tão empenhados quanto ingénuos. As reuniões eternizavam-se porque nunca ninguém se punha de acordo.

Mais ou menos a meio do romance surge o tema da Sida, doença nova que atinge um dos vértices do triângulo amoroso. Quando Porritos morre, há quem a associe ao fim de um tempo, que tanto pode ser o da esperança ideológica na revolução como o da verdadeira liberdade sexual.
Naqueles primeiros anos da epidemia, a Sida foi vista por muita gente como uma espécie de castigo a pairar sobre a liberdade sexual conquistada nas duas décadas anteriores. Porritos poderia simbolizar o fim dessa ilusão, como simboliza o ocaso de uma certa forma de luta política, a dos velhos militantes que se sacrificavam e corriam perigos, mas que os partidos foram afastando porque já não serviam para nada. De certa forma, Mauricio tenta lutar contra isso, contra a transformação de Porritos em símbolo. Ela é apenas uma pessoa que morreu com uma doença terrível. Mais nada. Nenhuma pessoa deve ser reduzida a um símbolo. E por isso fiz aquele epílogo em que remeto esse peso para figuras mitológicas como os anjos, que são, esses sim, símbolos de símbolos.

[Versão ampliada de uma entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]

A inaudita guerra do Parque Eduardo VII

O conflito entre a APEL e a UEP, por causa da Feira do Livro de Lisboa, tem dado pano para mangas. Pelos vistos, neste momento “todos os cenários são possíveis”, quando falta menos de um mês para o começo da Feira. Como sempre, a batalha entre as duas estruturas representativas dos editores esconde outras guerras que a reestruturação recente do mercado veio ressuscitar e ampliar. Neste editorial, Francisco José Viegas disseca o “regresso da balbúrdia” e apela ao necessário bom senso das partes em “confronto”.

And the winners are…

Foram anunciados ontem os vencedores do concurso BiblioFilmes.
A escolha do júri recaiu no vídeo Onde me levam as palavras, de um grupo de alunos do Externato de Nossa Senhora dos Remédios, em Tortosendo:

Já a escolha “popular” (dos internautas) foi para Aprendendo com a leitura, trabalho dos alunos do Instituto Santa Teresinha de São Paulo (Brasil):

Falta de esmero

Um dos aspectos em que as editoras portuguesas infelizmente menos apostam, hoje em dia, é na qualidade da revisão dos livros que publicam. Ao dizer isto, nem sequer me refiro à escandalosa profusão de gralhas e erros ortográficos em que o leitor tropeça com uma frequência assustadora (alguns deles de bradar aos céus), talvez reflexo de uma decadência cultural que estranhamente já não choca ninguém. Aquilo de que falo é outra coisa: a ausência de uma leitura minimamente crítica dos textos a publicar, capaz de identificar e corrigir os deslizes que os autores (mas também os tradutores), na sua cegueira ou imperícia, cometem.
Querem um exemplo? O último romance de Pedro Paixão, sobre o qual falei aqui. Sem ser exaustivo, encontrei estes erros óbvios:

— Pág. 12: “A sua última paixão chama-se Cate Blanchet.”; pág. 198: “Becket deve ser sussurrado.” (O nome da actriz australiana é Cate Blanchett; o apelido do escritor irlandês é Beckett; talvez haja aqui um problema com as consoantes dobradas.)

— Pág. 70: “Por vezes vão ver jogar os Knickers.”; pág. 77: “Já não consegue receber um presente dele, uma ida a Miami, um jogo dos Knickers, uns sapatos Fendi, sem pensar de onde vem todo aquele dinheiro.” (A palavra knickers designa “roupa interior feminina”; a equipa de basquetebol de Nova Iorque chama-se New York Knicks; a repetição do lapso mostra que não é um lapso; e, no caso improvável de se tratar de uma ironia propositada de Paixão, que até pode ser um escrupuloso fã da NBA, não há nada que a sustenha ou justifique.)

— Pág. 75: “Em casa dela lê Marcel Proust. Em francês. Vai durar até ao fim da minha vida. Nove volumes. Um exagero.”; pág. 91: “Gostaria de poder reler os sete volumes de Proust depois de os ler uma primeira vez.”; pág. 106: “Obviamente não se esqueceu dos comprimidos. Nem dos nove volumes de Proust. Não quis levar mais livro algum.” (Para a protagonista de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, a obra-prima de Proust tem um número flutuante de volumes; na verdade são sempre sete.)

— Um dos locais da (pouca) acção é uma quinta lindíssima, em Sintra. Mas também aqui a nomenclatura oscila. Se o narrador começa por dizer que se trata da Quinta das Rosas (páginas 112, 126, 150, 151), logo a transforma em Quinta das Flores (nas páginas 189 e 190), para voltar a ser Quinta das Rosas (a meio da pág. 204) e novamente Quinta das Flores (no fim da mesmíssima página 204). Sete páginas adiante, regressamos à Quinta das Rosas, que ainda vai a tempo de se transmutar, quase no fim, em Quinta das Flores (pág. 238).

— Na página 53/54, é referida a morte de Chet Baker, “com uma sobredose de heroína atirando-se do terceiro andar de um hotel barato em Amesterdão”. Na página 148, o trompetista volta “a deixar-se cair, a atirar-se”, mas desta vez é “do quarto andar do hotel barato em Amesterdão”. (Na verdade, Baker caiu do segundo andar e ainda hoje não há a certeza de que o músico se tenha suicidado.)

— O nome do poeta Herberto Helder aparece quase sempre com a grafia correcta, excepto na página 214 (”Herberto Hélder”).

Uma análise deste tipo pode ser igualmente arrasadora para outros livros recentemente lançados, como o Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier, no qual abundam os erros ortográficos (”espiação” em vez de expiação; cadeiras com “acento” em vez de assento; etc.), de tradução (na página 176, por exemplo, há um “escurecer” onde devia existir um amanhecer ou clarear) e de raccord (uma fita de cetim negro que se transforma em fita de veludo negro, para voltar depois a ser fita de cetim negro). Pelo que pude apurar, estes erros no livro de Mercier foram corrigidos em edições posteriores mas isso não apaga, como é óbvio, o mau trabalho inicial.
Citei dois livros de duas editoras de prestígio (a Bertrand e a Dom Quixote), pertencentes a dois importantes grupos editoriais (o Direct Group/Bertelsmann e a LeYa). Muitos outros chumbariam em semelhante escrutínio. E o que me preocupa é justamente isso: sentir que esta falta de esmero começa, cada vez mais, a ser a regra e não a excepção.

Esta noite, 21h30, em Belém

O dia mundial do Livro também é o dia nacional da (regressada) Ler. A festa é mais logo, a distribuição da revista só começa amanhã, mas já se pode ir espreitando o look do novo grafismo:

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Em jeito de pré-publicação, deixo aqui três dos textos que escrevi para o dossier dos “50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”:

Jorge Luis Borges (1899-1986)

Tal como Joyce, foi esquecido pela Academia Sueca, tão lesta a entregar o Nobel a escritores menores. A bem dizer, nunca necessitou desse tipo de caução. A sua fama, ganhou-a com textos buriladíssimos – ficções labirínticas, poemas de uma elegância clássica, ensaios desvairadamente enciclopédicos – e com a pose de sábio cego, feliz no recato de uma biblioteca sem limites, alimentando-se apenas da música das palavras. Erudito, bibliómano, Borges é o escritor por antonomásia, o homem que tinha na cabeça a Literatura toda (das 1001 Noites às sagas islandesas, de Cervantes a Chesterton) e a soube reinventar em livros que são como jogos de espelhos em que se aprisiona o infinito. A sua escrita, cerebral e de uma lógica avassaladora, prestou-se a todo o tipo de pastiches. Poucos autores do século XX terão influenciado tantos bons escritores e tantos maus epígonos, iludindo-se estes com a aparente facilidade de imitar o que afinal era inimitável.

O que nos ensinou: uma biblioteca pode ser um lugar mais aventuroso do que a selva amazónica

Primo Levi (1919-1987)

“Há dois tipos de sobreviventes do Holocausto: os que calam e os que falam”, disse um dia este discreto químico italiano – vítima, como tantos outros judeus, das atrocidades que fizeram de Auschwitz um “buraco negro” na História do século XX. Após o fim da guerra, Levi, que nunca deixou de ser o prisioneiro n.º 174517 (número que substitui o epitáfio na sua campa), escolheu falar do horror nazi em vários dos seus livros, um dos quais, Se Isto é um Homem, crónica quase científica do que se passou, narrada de forma objectiva e destituída de pathos, viria a transformar-se num dos melhores reflexos literários do “dever de memória” que pesava sobre quem conseguiu escapar do inferno.

O que nos ensinou: uma posição ética inabalável perante a barbárie nazi

André Breton (1896-1966)

Com o Manifesto do Surrealismo (1924) explicou ao que vinha: a procura de automatismos psíquicos capazes de expressar o funcionamento real do pensamento, “na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão e para além de qualquer preocupação estética ou moral”. O resultado foi uma revolução, em França e em várias artes (da poesia à pintura), que chegou tarde e suavizada a Portugal. “A beleza será convulsiva ou não será”, dizia Breton, Papa do movimento e responsável-mor pelos seus cismas.

O que nos ensinou: a escrita automática como forma de arrombar as portas do inconsciente

Uma aranha no crânio

«Foi em Maio de 1976 que desembarquei pela primeira vez de um comboio na estação de Bonatz porque me tinham dito que o pintor Jan Peter Tripp, com quem tinha andado na escola em Oberstdorf, vivia na Reinburgstrasse, em Stuttgart. A visita que lhe fiz ficou a ocupar um lugar notável na minha memória, pois a admiração que de imediato me suscitou a obra de Tripp levou-me a pensar que também eu gostaria de fazer qualquer coisa para além de dar aulas e orientar seminários. Tripp deu-me nessa altura de presente uma das suas gravuras onde se vê o presidente do Senado Daniel Paul Schreber, doente mental, com uma aranha no crânio — que pode haver de mais medonho do que os nossos pensamentos em constante correria? — e muito do que mais tarde escrevi deve-se a essa gravura, até na maneira como procedo, adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma nature morte

[in Campo Santo, de W. G. Sebald, trad. de Telma Costa, Teorema, 2008]

A nova vida (editorial) de Manuel Alberto Valente

Pouco tempo após a sua saída da ASA (isto é, do grupo LeYa), Manuel Alberto Valente, um dos mais experientes e sólidos editores portugueses, volta a começar do zero um projecto que se antevê de qualidade exemplar. Sorte a da Porto Editora. Sorte a nossa. Bom trabalho, MAV.

O abismo vazio

capa 'Rosa Vermelha'

Rosa Vermelha em Quarto Escuro
Autor: Pedro Paixão
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 257
ISBN: 978-972-25-1715-7
Ano de publicação: 2008

Recém-chegado à Bertrand (após passagens pela Cotovia, Oficina do Livro, PrimeBooks e Quetzal), Pedro Paixão lançou o seu mais recente romance quase em simultâneo com a reedição do livro de estreia (A Noiva Judia, 1992). Esta coincidência, ao unir os dois extremos de uma obra com mais de 20 títulos, permite confirmar o que obras como Boa Noite (1993), Muito, meu amor (1996) ou PortoKyoto (2001) já prenunciavam: Paixão é excelente quando se dedica aos contos curtos mas torna-se um escritor sofrível sempre que envereda por narrativas mais longas.
Volta a ser o caso de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, romance palavroso no qual o leitor vai da exasperação ao aborrecimento e vice-versa. A história, se é que a podemos designar assim, está cheia de “fantasmas” que se alucinam uns aos outros e de solidões intransponíveis. Tudo girando à volta de uma nova-iorquina trancada na sua angústia, a quem acontecem coisas: a paixão mal resolvida por uma iraniana de “olhos cor de chuva”, tentativa de suicídio, um caso com o homem que a salvou in extremis, a morte do pai ou os sobressaltos que a empurram de Nova Iorque para Sintra, de Sintra para os Açores e dos Açores novamente para Nova Iorque, onde por fim uma gravidez redentora parece abrir portas ao improvável recomeço.
O resto é tão vago que escapa a qualquer resumo. A protagonista pensa muito e os seus pensamentos são o corpo do romance. O que acontece chega-nos através de um discurso analítico, capaz de dissecar, até ao osso, tudo e mais alguma coisa: uma paisagem ou as leis do amor, “o problema da escala” ou a metafísica do “destino”. E assim, nesta imponderabilidade, se vai dissolvendo um débil fio narrativo que só de vez em quando faz, quase por favor, uma ou outra concessão à verosimilhança.
Pelo meio, há leitmotivs — o primado da beleza, ecos do “romance infinito” de Proust — e alguns encontros com personagens que parecem saídas de um sonho: o traficante de ópio com uma quinta edénica; o professor de português que é poeta alcoólico depois das sete da tarde (e lhe revela Ruy Belo, Cinatti, Herberto Helder); ou o escultor judeu que escapou, cheio de culpa, ao horror do Holocausto. No entanto, até estes pontos de fuga acabam por ser devorados pela vertigem verbal da americana sem nome, que tudo absorve e sufoca num ímpeto solipsista.
A escrita de Paixão não mudou: frases curtas, fluidas, sempre à beira do aforismo ou do paradoxo. Mas se este estilo aéreo resulta muito bem em textos de cinco parágrafos, está longe de aguentar a travessia de duas centenas e meia de páginas. Seria necessário outro fôlego, outro rasgo, outra coesão. Em vez disso, na ânsia de fixar epifanias e retratos dos abismos existenciais, o texto dissipa-se numa verborreia filosofante, que tanto se coloca em bicos dos pés (alusões a Joyce e a Balthus) como se aproxima de uma espiritualidade new age, com anjos decididos a salvar a “alma” de burgueses entediados. O tédio, que “está por debaixo de tudo, antes de tudo, à espera de tudo”, é justamente o mínimo denominador comum deste livro atravessado por ideias, pessoas e palavras que “aparecem para logo desaparecerem” da nossa memória, devoradas pelo mais absoluto vazio.

Avaliação: 4/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Dias de fecho

Os dias de fecho às vezes duram semanas.

A/C Relógio d’Água: é favor traduzir

capa Zizek

Saiu em França, pela Fayard, esta semana.

A viagem que não fiz (a Matosinhos)

E tenho pena.

Sobre a arrogância de Saramago

Disse que temos sempre boa imagem de nós próprios: reconhece razões a quem não tem boa imagem sua? É visto como um homem austero, arrogante, duro. Isso corresponde ao que vê em si?
Não corresponde, não. Em primeiro lugar, de arrogante não tenho nada. Rigorosamente nada. Se querem que lhes dê uns quantos exemplos de escritores arrogantes no mundo, e em Portugal também, posso dar. Não correspondo a esse figurino. [pausa] Austero? Uma austerida de carácter não é defeito, pelo contrário. Duro? Sou um sentimental! Como podem dizer que sou duro? Mas sim, sou realmente duro, seco, tão objectivo quanto posso, quando se trata de discutir ideias, opiniões. Que isso forme, no conjunto, uma imagem tão negativa que leve as pessoas a não gostarem de mim… O que hei-de fazer? Não se pode agradar a toda a gente.

[Excerto de uma longa entrevista dada por José Saramago a Ana Cristina Câmara e Vladimiro Nunes, em Lanzarote, com excelentes fotografias de João Francisco Vilhena, publicada na edição de hoje do semanário Sol]

Maldoror

Osvaldo Manuel Silvestre aborda a abordagem que os Mão Morta fizeram do livro de Lautréamont.

A primeira capa da nova ‘Ler’

Depois de revelada em fragmentos (aqui e aqui), eis a versão completa.
O lançamento da revista é na próxima terça-feira, dia 22, às 21h30, no BBC (Belém Bar Café).

Estado do Tempo

«Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual, com as dos meses mais frio e mais quente e com a oscilação mensal aperiódica. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, as fases desta última, de Vénus, dos anéis de Saturno e muitos outros fenómenos significativos correspondiam às previsões dos anuários da astronomia. O vapor de água no ar tinha atingido a sua tensão máxima e a humidade relativa era fraca. Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913.»

Eis o célebre primeiro parágrafo meteorológico do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, agora finalmente disponível na tradução de João Barrento (Dom Quixote). Os dois volumes olham para mim, tentando-me, mas vão ter que esperar pelas férias.
Sobre esta obra-prima «inacabada e inacabável», nas palavras do tradutor, vale a pena ler este artigo de Isabel Lucas e o dossier que o suplemento ípsilon (sem link) preparou sobre o acontecimento editorial do ano.

Depois de Bogotá, Amesterdão

A capital mundial do livro regressa à Europa, a partir de 23 de Abril. Para o ano será em Beirute.

Os pulmões (e o resto) de Monterroso

Bárbara Jacobs, viúva de Augusto Monterroso, doou o espólio do escritor guatemalteco à Universidade de Oviedo. São mais de cinco toneladas de manuscritos, desenhos, notas, arquivos, livros com dedicatórias, primeiras edições e todo o tipo de documentos, acumulados durante a vida pelo autor de centenas de geniais textos curtos mas apenas um romance (O Resto é Silêncio, Oficina do Livro, 2007).

desenho Monterroso
Toureiro desenhado por Monterroso (incluído no espólio)

Que no meio de tanta tralha, que inclui todos os prémios e condecorações atribuídos ao longo dos anos, conste uma radiografia dos seus pulmões e um calendário de 1986 (ilustrado pela imagem de uma pin-up, ao melhor estilo das oficinas de automóveis), diz bem da ironia com que Monterroso olhava para si mesmo e para esse território de ilusões a que chamamos posteridade.
Uma ironia bem expressa neste fragmento do livro Movimiento Perpétuo:

A LO MEJOR SÍ

Pero lo poco que pudiera haber tenido de escritor lo he venido perdiendo a medida que mi situación económica se ha vuelto demasiado buena y que mis relaciones sociales aumentan en tal forma que no puedo escribir nada sin ofender a alguno de mis conocidos, o adular sin quererlo a mis protectores y mecenas, que son lo más.

Orange Prize

Foram anunciadas, ontem, na Feira do Livro de Londres, as seis finalistas do Orange Prize 2008, prémio que distingue escritoras de qualquer nacionalidade que tenham escrito romances em língua inglesa: Nancy Huston (Fault Lines), Sadie Jones (The Outcast), Charlotte Mendelson (When We Were Bad), Heather O’Neill (Lullabies for Little Criminals), Rose Tremain (The Road Home) e Patricia Wood (Lottery).
Nenhum dos livros está editado em Portugal.