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Companhia das Ilhas vs. FNAC

É sabido que as grandes cadeias de retalho sempre abusaram do seu poder negocial para impor condições draconianas às editoras pequenas. A crise só veio agudizar a situação. Um exemplo recente foi-nos relatado pelo responsável da Companhia das Ilhas, uma micro-editora sediada em Lajes do Pico (Açores), e prende-se com os meios de facturação digital propostos pela FNAC. Eis um excerto do e-mail enviado pelo Carlos Alberto Machado:

«Não sei se tem conhecimento, mas a FNAC anda a tentar impor um sistema de encomendas/facturação digital a expensas dos fornecedores, com uma tal SAPHETY.COM como intermediária. Assim:

Ativação de serviço -> 100,00€ (50% de desconto ate dia 31 de outubro de 2014 no valor de Ativação)
Anuidade FNAContab -> Incluido
Pacote de mensagens -> À Escolha:
• Pacote de mensagens -> 50,00€ (incluí 75 mensagens\ano) mensagens extras 0.67€
• Pacote de mensagens -> 75,00€ (incluí 150 mensagens\ano) mensagens extras 0.50€
• Pacote de mensagens -> 100,00€ (incluí 250 mensagens\ano) mensagens extras 0.40€
• Pacote de mensagens -> 299,00€ (ilimitado mensagens\ano)


Acabámos de enviar à Contabilidade da FNAC um e-mail com este teor:

“Foi-nos comunicada a intenção de a FNAC implementar – com a empresa saphety.com – um procedimento de encomendas/facturação digital. Não temos nada a opor, até porque já temos implementado a facturação digital. Se a FNAC deseja ter esse sistema, consideramos que deve ser a FNAC a suportar os custos inerentes, e não os fornecedores.
O nosso contrato com a FNAC, é um contrato entre partes iguais, e poderá ser alterado se ambas as partes estiverem de acordo, e nunca por imposição unilateral.
A FNAC não pode legalmente impor qualquer cobrança aos seus fornecedores, assim como os fornecedores não podem, por exemplo, impor à FNAC margens de comercialização ou prazos de pagamento.”»

Claro que “não poder legalmente” é muito relativo, quando se tem o queijo e a faca na mão. Veremos se a “intenção” se concretiza mesmo e que reacções despertará por parte de outras editoras.

Ver alguém que vê alguém

pedro_eiras_entrevista

Quando fala sobre a música de Johann Sebastian Bach, o rosto de Pedro Eiras ilumina-se: «Ela é miraculosa porque nos provoca coisas que não sabemos explicar. Mas ao contrário de um milagre, que é uma coisa única e irrepetível, volta a arrebatar-nos e a esmagar-nos da mesma maneira de cada vez que a ouvimos.» Aos 39 anos, este professor de literatura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, também ensaísta, dramaturgo e romancista, sabe do que fala porque a música de Bach faz literalmente parte da sua vida diária. «Há vinte e tal anos que ouço Bach todos os dias. Todos os dias mesmo. Podem ser só uns minutos, podem ser muitas horas, mas nunca falha. É preciso estar algures em viagem, perdido no estrangeiro, para não ouvir. E mesmo assim…»
Melómano desde sempre, Eiras teve um ano de solfejo e tentou o piano durante seis meses, pelo que não é um analfabeto musical (consegue ler uma pauta), mas está muito longe de ser um especialista. A descoberta de Bach foi relativamente tardia: «Para mim, no início, ele era um autor canónico das escolas de música, autor de peças muito complicadas, cerebrais, abstractas e que era obrigatório apreciar.» Até que um dia a irmã lhe emprestou uma cassete com o Magnificat e deu-se uma espécie de epifania. «Passados uns tempos, calhou alguém estar a falar sobre a ‘Paixão segundo S. Mateus’. Ah, tenho ali o CD, vou buscar, tens de ouvir. Ainda resisti, mas depois aconteceu alguma coisa de muito visceral. Eu tinha de voltar àquilo. Lembro-me que tive uma grande insónia, não consegui dormir, ansioso que estava para ir comprar o disco logo de manhã.»
Pedro Eiras partilha estas memórias em Lisboa, num bar da Faculdade de Letras, onde veio participar num colóquio. Junto às chávenas de café, um exemplar do livro que acaba de lançar: Bach (Assírio & Alvim). Foi para estas 150 páginas que convergiu o seu fascínio imenso pelo autor dos Concertos Brandeburgueses. No texto final, intitulado 2002, uma reflexão sobre a génese desta obra, pode ler-se: «Pensei que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach.» E quando é que passou a saber? Eiras sorri: «Na verdade, só consegui avançar quando percebi que não ia escrever sobre Bach. Não sobre ele em concreto. Isso foi muito importante.» Houve primeiro quantidades imensas de investigação histórica, biográfica, até musicológica: «Li muitas coisas óptimas, admiráveis. Mas nesses materiais, percebi sempre que o Bach estava e não estava lá. Os livros são sobre ele mas há qualquer coisa que tu ouves na música que não cabe num livro, por mais que o livro seja brilhante. Então como chegar a essa qualquer coisa indefinível? É preciso tentar e falhar. Tentar e falhar. Muitas vezes.» E sobretudo desistir de explicar o génio em si mesmo. Em vez disso, escrever «ao lado», centrando a atenção em figuras reais que de algum modo foram tocadas, nas suas vidas, pela música de Bach – ou até a precederam, como no caso de Martinho Lutero, essencial por ter criado os hinos dos corais que o compositor depois trabalharia. A lista dessas figuras, escolhidas por Eiras entre muitas outras possíveis, é bastante heterogénea: além do fundador do luteranismo, surgem nestas páginas Anna Magdalena Bach, Esther Meynell, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Gustav Leonhardt, Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Maria Gabriela Llansol, Joshua Ben-Josef, Etty Hillesum e Albert Schweitzer.
Destas figuras, a que primeiro se impôs foi Anna Magdalena, a viúva. «Tinha de começar por ela, poucos dias após a morte de Johann, quando ela se confronta com o vazio da casa e a ameaça do esquecimento. A ameaça da miséria, também. É um cenário de ruína. Há que começar aí. E perguntar o que é uma ruína. O que sobra quando tudo se esboroa. Os instrumentos já se foram todos, ainda sobram algumas partituras, mas uma semana depois Anna Magdalena talvez tenha de as vender porque tem fome.» É quando começa a imaginar a angústia da viúva, forçada a suplicar às autoridades o direito a permanecer mais seis meses no apartamento, concedido ao Kantor por uma escola de Leipzig, é quando se entrega ao princípio da ficção que se apercebe de um efeito de mimetismo: «Estava a repetir o gesto de uma escritora inglesa, Meynell, que entretanto tinha descoberto. Nada contra. Enfrentemos isso. Não sou o primeiro a andar por estes territórios. Nem vou fingir que sou. Pelo contrário, estou a escrever um texto que se apoia numa rede de textos que outros escreveram. Então o segundo capítulo é sobre isso: o acto de ler Pequena Crónica de Ana Madalena Bach e espreitar a mulher que espreitou, mesmo se imaginariamente, Anna Magdalena a espreitar o marido, escondida atrás da porta.» Eis uma imagem que surgirá uma e outra vez ao longo do livro: «Nestes textos há sempre alguém a ver alguém, que vê alguém, que vê alguém.»
Nos primeiros capítulos, é notória uma relação directa entre as personagens que se sucedem: Anna Magdalena foi ficcionada por Meynell; o livro de Meynell foi adaptado ao cinema pelo casal Straub; Gustav Leonhardt interpretou Bach nesse filme. Há uma espécie de cadeia, mas a partir de certo momento as ligações entre os textos deixam de ser tão óbvias. «É importante que o leitor, a meio, se vá perdendo um bocadinho. Embora para mim as relações sejam evidentes – até o que é invisível, até o que apaguei.» Chegou a existir um capítulo sobre Douglas R. Hofstadter, autor de Gödel, Escher, Bach, que ficaria perto do dedicado a Leibniz, mas acabou por cair. «Foi por razões estruturais. Uma questão de equilíbrio. Do mesmo modo que nas ‘Paixões’ existem momentos corais alternados com recitativos e árias, alegria e tristeza, eu procuro obsessivamente o tom certo, preocupa-me saber como é que a pergunta de um capítulo encontra resposta noutro, que por sua vez lança uma nova pergunta para o seguinte.» Na verdade, Eiras tinha decidido desde o início que o livro teria 14 capítulos, mas o carácter proliferante do exercício podia estender-se sem fim. «São 14 capítulos mas podiam ser mil. Isto não termina.»
A insistência no número 14 foi tudo menos gratuita. «Esse é o número de Bach (B é 2; A é 1; C é 3; H é 8). E o compositor criou por isso vários temas com 14 notas, tal como fez do seu apelido uma assinatura musical em muitas obras (as quatro letras correspondem a notas). Trata-se de uma piscadela de olhos numerológica, que a maior parte dos leitores provavelmente não captará, mas não há nisso nenhum mal.» Por outro lado, é forçoso reparar nos números de catálogo ao baixo da folha de abertura de cada capítulo: BWV 225, BWV 8, BWV 1080, BWV 852, etc. Através deles, o leitor pode procurar (no YouTube, por exemplo) versões das obras a que os textos aludem e até escutá-las durante a leitura. No fundo, além de bibliografia («uma dívida de gratidão», a revelar escrúpulos académicos), o livro também traz uma sugestão de banda sonora – sublime como poucas. Quanto ao risco do cansaço, que por vezes atinge quem mergulha demasiado tempo num só assunto, Eiras sabia-se a salvo: «Podemos sempre voltar a Bach. E voltar. E voltar. Porque ele é inesgotável.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Novembro é mês de escrever um romance em 30 dias (dizem eles)

Está a chegar o NaNoWriMo. Quem alinha?

Bachianas

bach

Bach
Autor: Pedro Eiras
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 154
ISBN: 978-972-37-1786-0
Ano de publicação: 2014

Em Substâncias Perigosas (Livrododia, 2010), «pequeno divertimento sobre literatura em cem lições», Pedro Eiras terminava uma fascinante deriva ensaística com a seguinte ideia: «A literatura nada deve ao que já existe: antes abre portas insuspeitas. (…) A escrita inventa passagens, estreitas e incertas. Ninguém sabe aonde levam.» São justamente portas insuspeitas e passagens incertas que estabelecem a ligação entre os 14 capítulos deste volume, consubstanciando a heterodoxa aproximação de Eiras à figura e à obra de Johann Sebastian Bach.
A génese do projecto remonta a 2002, conforme explica o último texto do livro, no qual vemos o autor embalando a filha «às escuras no corredor», adormecendo-a enquanto canta em voz baixa uma ária da Paixão segundo Mateus. Há neste momento de puro amor paternal uma fé no poder da música, «como se estas notas (…) pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos». Nasce ali a vontade da escrita, ainda sem uma forma: «Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach». Anos mais tarde, descobrirá numa biografia romanceada, escrita por uma obscura autora britânica (Esther Meynell), certa cena inverosímil: Anna Magdalena Bach comovendo-se, ao espreitar às escondidas o marido no momento da criação. Se a fantasia é por natureza anacrónica, «então é preferível inventar o passado, assumir o fingimento», incorporando na obra a própria investigação (em livros, na internet), os impasses, os falhanços. Eiras lê, compara, interroga, procura o que resta de «antigas vozes», explora a «dobra da linguagem», expõe o seu espanto, as suas dúvidas. Observa a biógrafa no acto de imaginar a esposa à espreita e entra também no jogo: «copio o início e o fim de duas cartas verdadeiras de Anna Magdalena Bach, em 1750, e nas entrelinhas escrevo, livremente, uma carta impossível».
Desfeito o nó, surge então o cerco indirecto ao génio de Leipzig, através de personagens de vários tempos históricos que refractam, das mais diversas formas, a sua luz. Figuras unidas pelas tais portas e passagens subtis que a literatura abre ou cria: a viúva no momento de repartir os bens do grande compositor, numa casa já esvaziada, temendo que a sua música, vista como «boa para velhos austeros, com roupas e perucas fora de moda», venha a ser esquecida; o retrato desta mulher por Esther Meynell em Pequena Crónica de Ana Madalena Bach; Jean-Marie Straub e Danièle Huillet montando em Paris, durante o Maio de 1968, um filme inspirado no livro de Meynell, enquanto na rua se ergue o bruaá dos manifestantes; o actor desse filme, Gustav Leonhardt, magnífico cravista, em troca epistolar com Nikolaus Harnoncourt, discutindo a problemática questão da autenticidade, que talvez só possa ser «a ficção de uma autenticidade»; etc.
O labirinto expande-se e no seu círculo abarca Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Lutero, Albert Schweitzer, Maria Gabriela Llansol (poderosíssima, a imagem da escritora ouvindo Bach numa «Herbais hostil», enquanto descasca ervilhas) ou Etty Hillesum a caminho de Auschwitz num comboio, antecâmara do inferno, onde a jovem judia, consciente de que «vamos para a morte», se oferece para ajudar Deus. Este é o único capítulo sem referências musicais, ao qual se segue, por nos termos acercado do indizível, um capítulo vazio de palavras, só folhas em branco e a indicação de uma cantata sublime: a BWW 82 (Ich habe genug…). Porque é sempre na música de Bach que a escrita de Eiras, com as suas tantas modulações, vai desembocar. E assim está certo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Degelo

Por um conjunto de várias razões que não interessa especificar (mas digamos que a tríade ‘trabalho, trabalho, trabalho’ vem à cabeça), fui obrigado a deixar este blogue praticamente ao abandono nos últimos meses, o que muito me entristece. A falta de tempo nem sequer tem permitido a actualização mínima (e importantíssima para mim, ao permitir fazer desta página o meu arquivo profissional), pelo que demasiadas vezes o outrora pujante BdB se vem assemelhando a uma desolada ruína digital. Sem fazer promessas que posso depois não conseguir cumprir, o meu objectivo é sair aos poucos desta espécie de hibernação. Primeiro, partilhar aqui, retrospectivamente, os muitos textos entretanto publicados no Expresso (o tal arquivo). Depois, gradualmente, regressar a um ritmo de actualização aceitável. Gostava mesmo muito de conseguir voltar à normalidade até ao fim do ano. Vou fazer por isso.

Uma breve melodia

«(…) Da rua, além das portadas, sobe o ruído do arranque dos carros. Às vezes alguém chama um nome, um carro buzina. Em breve começarão as chuvas do Outono, e haverá o som da água nos vidros e nos parapeitos, trovões, algum granizo, e a surdina que a chuva provoca aos sons da cidade. Há o silêncio das paredes, da escuridão; os meus passos no corredor. Ando contigo de um lado para o outro, e canto para ti em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein.
Sempre esta ária da Paixão segundo Mateus. A última ária, para baixo, tão solene e íntima, com as cordas tão doces a envolverem a voz. Não sei o que as palavras querem dizer. Bastaria abrir o caderno que acompanha o CD, ler o texto, as traduções para inglês, para francês, compreender o texto da ária. Mas não procuro o caderno, não o abro; não quero saber o significado das palavras, só cantá-la assim, em voz baixa, verter a melodia desta música sobre o silêncio que nos toma, sobre o teu corpo a adormecer.
(…) Canto em voz baixa: Mache dich, mein Herze, rein. Vibração da minha voz, batimento do teu sangue, agitação nos meus tímpanos cansados do dia. E do teu sono, que começa, sobe uma aura de calor. Contra o meu peito, sinto as tuas pulsações mais lentas: gestos, sonhos de sons e perfumes, o conhecimento do corpo – sem palavras. Afastas-te nesse mundo interior, que eu não conheço, ou que já conheci e esqueci.
A mim, a vigília. Narrativas, teorias. A andar no escuro, a pensar no trabalho e a lembrar tantas coisas, textos que não tenho tempo de escrever. Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach, ainda procurarei durante muitos anos. Penso no tempo. Penso na memória dolorosa das imagens. Penso na tua fragilidade, e no cerco do mundo; a tua respiração, e a violência que empurra os corpos até ao vazio. A tua fragilidade nas minhas mãos e o mundo lá fora contra nós.
Mas murmuro sempre, continuo a murmurar para ti, sempre, Mache dich, mein Herze, rein…, como se estas notas de música pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos. Uma breve melodia, no meio da noite, tudo o que temos, tudo o que existe em nós.»

[in Bach, de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2014]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Pedro Eiras a propósito de Bach (Assírio & Alvim) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Herzog, de Saul Bellow (Quetzal), por Pedro Mexia
- Notícias – Um Manual de Utilização, de Alain de Botton (Dom Quixote), por Cristina Peres
- Karl Marx, de Isaiah Berlin (Edições 70), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- A Festa da Insignificância, de Milan Kundera (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Da Europa de Schuman à Não Europa de Merkel, de Eduardo Paz Ferreira (Quetzal), por Luísa Meireles
- Final do Jogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
- Do Outro Lado das Coisas – (In)confidências diplomáticas, de João Rosa Lã (Gradiva), por Manuela Goucha Soares

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Juan José Millás a propósito de A Mulher Louca (Planeta) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Vitória, de Joseph Conrad (Ulisseia), por José Guardado Moreira
- Vidadupla, de Sérgio Godinho (Quetzal), por Alexandra Carita
- Obra Completa, de Álvaro de Campos (Tinta da China), por Luís M. Faria
- Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- A Palavra Perdida, de Inês Fonseca Santos e Marta Madureira (Arranha-Céus), por José Mário Silva

E o Nobel de 2014 é…

Patrick Modiano

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Excelente escolha.
Escrevi sobre dois dos seus livros: No Café da Juventude Perdida (ASA, 2009) e O Horizonte (Porto Editora, 2011)

Prognóstico

Eis a minha aposta para vencedor do Prémio Nobel de Literatura 2014:

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Milan Kundera

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, de Katherine Anne Porter (Antígona), por Pedro Mexia
- Uma Noite de Inverno, de Simon Sebag Montefiore (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- O Organista, de Lídia Jorge (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Entrevistas da Paris Review – 2, de vários autores (Tinta da China), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago (Porto Editora), por José Mário Silva
- As Velas da Noite, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- Se Não Agora, Quando?, de Primo Levi (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- Até nos Vermos Lá em Cima, de Pierre Lemaitre (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
- O Uso dos Venenos, de José Carlos Barros (Língua Morta), por Pedro Mexia
- O Triunfo do Ocidente, de Rodney Stark (Guerra e Paz), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Romain Puértolas a propósito do seu romance A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Stoner, de John Williams (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- Um Diário de Preces, de Flannery O’Connor (Relógio d’Água), por Alexandra Carita
- Matéria, de Rosa Maria Martelo (Averno), por José Mário Silva
- Quatro Casos Clínicos, de Sigmund Freud (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Quando a revolução chegou lá acima

1975

Mil Novecentos e Setenta e Cinco
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 435
ISBN: 978-989-616-569-7
Ano de publicação: 2014

Em Trás-os-Montes, belo romance de estreia centrado numa aldeia da raia, Tiago Patrício ofereceu-nos uma espécie de requiem pela vida rural no interior, imediatamente antes da adesão de Portugal à CEE, com a promessa de fundos estruturais, auto-estradas e progresso económico. A narrativa era também um relato sobre o fim da infância, em torno de quatro crianças expostas de súbito à brutalidade do mundo dos adultos, tão cobiçado como temido. Depois da música de câmara desse primeiro livro, pode dizer-se que Patrício arrisca agora, em Mil Novecentos e Setenta e Cinco, a escala sinfónica.
Nos capítulos iniciais, assistimos ao regresso de Horácio a uma povoação não nomeada, no nordeste transmontano. O rapaz regressa para ver a avó muito doente, trocando «a Revolução de Lisboa por uma última visita à aldeia», mas a suspeita de que possa ser ele o protagonista do livro – talvez mesmo o herói de um romance de formação em atmosfera revolucionária – depressa se desfaz. Horácio é só mais um nome, só mais uma figura numa vasta galeria de personagens que atravessam, de fio a pavio, todas as maravilhas e ignomínias do PREC.
Tiago Patrício avança por este terreno armadilhado com pezinhos de lã, mostrando as várias faces de um conflito aberto, sem nunca tomar partido. Se não é lá muito lisonjeiro o retrato que traça dos Amadeus – família aristocrática com uma Criada Velha, vastas propriedades e hábitos de poder, aos quais se agarra com unhas e dentes –, os seus opositores também não ficam propriamente bem na fotografia. Valdemar, o mais radical dos dois agentes da mudança, deixa-se cegar por uma rigidez programática; enquanto Orlando, o moderado, resvala para compromissos que acabarão por liquidar as conquistas, lá mais para o fim do ano.
Seguindo cronologicamente o calendário, Patrício gere bem uma multidão de personagens e respectivos pontos de vista, mostrando com assinalável destreza narrativa todos os golpes e contra-golpes, as intentonas, as conspirações de taberna, as rixas, os espancamentos por engano, as manobras de diversão, e até um duelo de pistolas (interrompido por um coro de camponesas antes dos disparos fatais). A tensão por vezes irrespirável que paira sobre a aldeia atenua-se através do recurso ao humor. Ninguém escapa ao ridículo e este é distribuído democraticamente por todas as partes, em sequências hilariantes que o autor, também dramaturgo, condensa em cenas de perfeita respiração teatral, servidas por magníficos diálogos.
Numa terra onde as pessoas deixaram de morrer, o Coveiro assume aos poucos o papel de narrador/efabulador dos feitos dos vivos. As fronteiras entre o real e o inventado esbatem-se, à medida que vai entrando a chuva de inverno que tudo leva e dissolve, até à «normalização» definitiva. A dada altura, alguém diz que a Revolução «é a coisa mais linda do mundo, tem assim uma figura de mulher fogosa e cheia de consolos, mas se não a soubermos cativar vai-se embora e fica cá outra vez a velha senhora». Todos sabemos como acabou a história.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Tiago Patrício a propósito do seu romance Mil Novecentos e Setenta e Cinco (Gradiva) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Pintassilgo, de Donna Tartt (Presença), por Luís M. Faria
- Sonhos de Bunker Hill, de John Fante (Alfaguara), por Pedro Mexia
- As Aventuras de Marina Pons, de Lázaro Covadlo (Porto Editora), por José Guardado Moreira

Poemas em torno do Café Gelo

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«POETAS DO POVO / POESIA DO GRUPO DO CAFÉ GELO / 8 Set, 22h00
Com Fernando Pinto do Amaral, José Mário Silva, Clara Andermatt e Nuno Miguel Guedes, acompanhados pela música de Vítor Rua.
O grupo do Café Gelo era constituído por diversas personalidades artísticas como Manuel de Lima, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria Raul Leal, António José Forte, Ernesto Sampaio, Herberto Helder, José Escada, René Bertholo, Gonçalo Duarte, João Rodrigues Vieira, Helder Macedo, Manuel de Castro, António Barahona da Fonseca, entre outros que, no final dos anos 50, se reuniam neste mítico café da baixa Lisboeta.
Nesta sessão recordaremos a tertúlia que se pode considerar a segunda geração do movimento surrealista português.
Nas palavras de António José Forte, “um verdadeiro escândalo, que não era provocado por um manifesto, por um grupo com nome próprio, por uma revista, mas por um grupo iconoclasta e libertário onde se falava de tudo, até de literatura e artes, e de rosas também. Um grupo de franco-atiradores, é verdade; um grupo de poetas, sem dúvida. Que disparava ao acaso sobre a multidão, que inventava os seus infernos e paraísos, que usava a liberdade de expressão ora voando, morrendo, desaparecendo, escrevendo às vezes”.»

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Turismo de Guerra, de Tiago Patrício (Artefacto), por José Mário Silva
- Um Bárbaro em Casa, de Frederico Pedreira (Língua Morta), por José Mário Silva
- A Ilha, de Aldous Huxley (Antígona), por José Guardado Moreira
- O Capitalismo Estético na Era da Globalização, de Gilles Lipovetsky (Edições 70), por Luís M. Faria

Debate no Porto

Sábado à tarde, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, moderarei um debate incluído na programação da Feira do Livro do Porto. A conversa, com José Maria Vieira Mendes e João Tordo, abordará os nomes e os rumos da nova literatura portuguesa.

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Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Os livros da rentrée, por José Mário Silva
- Ouro e Cinza, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Estação 2012, de Henrique Manuel Bento Fialho (Mariposa Azual), por José Mário Silva
- Ressurgir, de Margaret Atwood (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
- O Francoatirador Paciente, de Arturo Pérez-Reverte (ASA), por José Mário Silva
- Jacques, o Fatalista, de Denis Diderot (Tinta da China), por Luís M. Faria
- À Beira do Abismo, de Raymond Chandler (Porto Editora), por Pedro Mexia

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Condor, de João Pina (Tinta da China), por Alexandra Carita
- Bifes Mal Passados, de João Magueijo (Gradiva), por José Mário Silva
- História do Futuro, de Padre António Vieira (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
- Zona de Desconforto, de Vários Autores (Chili com Carne), por Sara Figueiredo Costa
- Pompas Fúnebres, de Eduardo Pitta (Ulisseia), por Pedro Mexia
- (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?), de Rui Nunes (Língua Morta), por José Mário Silva

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Os Factos, de Philip Roth (Dom Quixote) e Roth Unbound, A Writer and His Books, de Claudia Roth Pierpont (Farrar, Strauss and Giroux), por Clara Ferreira Alves
- Conversa com Manuel Jorge Marmelo a propósito de O Tempo Morto é um Bom Lugar (Quetzal) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Tea-bag, de Henning Mankell (Presença), por José Guardado Moreira
- Contos e Diários, de Isaac Bábel (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- O Ilustre Colegial, de John Le Carré (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- Fruta Feia, de Miguel Cardoso (Douda Correria), por Pedro Mexia
- Bacchanalia seguido de Como Falsa Porta, de José Emílio-Nelson (Edições Sem Nome), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Mario Vargas Llosa, por José Mário Silva
- Viagem pela Literatura Europeia, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
- Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir (Marcador), por José Guardado Moreira
- Supergigante, de Ana Pessoa (Planeta Tangerina), por José Mário Silva
- Impérios em Guerra, 1911-1923, de vários autores (Dom Quixote), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Andréa Del Fuego sobre As Miniaturas (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- A Minha Breve História, de Stephen Hawking (Gradiva), por Virgílio Azevedo
- Colheita, de Jim Crace (Presença), por José Guardado Moreira
- Contos Vagabundos, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
- Bem Hajam!, de Vassili Grossman (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- Estranhos Rebeldes, de Christian Caryl (Presença), por Luís M. Faria

Uma boca de sombras

enredos

Enredos
Autor: Rui Nunes
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 105
ISBN: 978-989-641-422-1
Ano de publicação: 2014

É impossível ler hoje a reedição de Enredos, livro publicado por Rui Nunes em 1987 (na desaparecida editora Rolim), sem ter presente que o escritor decidiu concluir a sua obra em 2013, com Armadilha. Não são raros os casos de autores que anunciam supostas retiradas, desmentidas meses depois – seja por rebate de consciência, seja por incapacidade de dizer não à avidez da máquina editorial. Dificilmente isso acontecerá com Rui Nunes, porque para a sua decisão contribuíram duas razões de força maior: um estado de quase cegueira que lhe impossibilita o próprio acto da escrita; e a consciência de que a sua linguagem atingiu um «momento final». Ou seja, um lugar a partir do qual já não é possível ir mais longe.
Podemos entrever esse lugar de absoluta rasura em Barro (Relógio d’Água, 2012), um texto que desconfia da capacidade que as palavras têm de dizer o mundo («ligar uma palavra a outra é já uma traição»). Em livros anteriores, Rui Nunes vinha sabotando os mecanismos e regras ficcionais, mas esse movimento de implosão narrativa atinge aqui uma espécie de apogeu. Por entre fragmentos e imagens que constroem o seu próprio sentido, numa paisagem rarefeita, o escritor inventa «uma língua de gumes», por vezes «reduzida a um sopro», muito mais próxima da poesia (há um diálogo permanente com Paul Celan) do que daquilo a que se convencionou chamar uma história. No fundo, assistimos a um espantoso apocalipse («talvez o fim de qualquer escrita seja a sua destruição»), uma ‘terra devastada’ que é ao mesmo tempo, na sua opacidade, um espelho onde o escritor se revela inteiro: «Há livros que acompanham uma vida: separam-se do seu autor e esquecem-no. Outros, confundem-se com quem os escreveu: são um corpo, uma dor, uma doença, um modo de morrer.» Paisagem que se prolonga, de forma talvez ainda mais radical, em Armadilha («acrescentamos incompletude à incompletude»).
Se olharmos para Enredos a partir dos livros finais, não só reconhecemos a voz de Rui Nunes – um tom despojado único na literatura portuguesa – como o início do tal processo de implosão dos códigos narrativos. Lá por baixo, o rastilho já estava aceso. Mas o romance (se é que faz sentido denominar assim uma obra tão inclassificável) ainda guarda alguma da ordem que se espera de um romance clássico: há personagens, diálogos, continuidade cronológica. Mesmo se essa ordem acaba por ser continuamente posta à prova, desviada, sujeita a tratos de polé. Na primeira parte, «Laços Familiares», assistimos às crises e dilemas de um jovem após a morte do pai (cuja decadência física, em contraste com o despertar sexual do filho, inspira as páginas mais admiráveis do livro). A segunda parte, «Laços Mundanos», é um mergulho no bas fond da prostituição lisboeta, num registo de sordidez onírica, como que ditado por «uma boca de sombra». A atmosfera saturada do livro, em que Portugal impõe o seu peso de pátria putrefacta, conduz-nos por fim à terceira parte, «Laços Patrióticos», que é talvez o mais devastador retrato alguma vez feito de Salazar.
O «ditador» senil dá couves aos coelhos, «verte as águas onde lhe apraz», cai da cadeira, e encena diante de nós o espectáculo da sua decadência, que tem tanto de burlesco (quando se põe de gatas na carpete, à procura de uma imaginária rã) como de trágico. No último parágrafo, metáfora cruel da podridão, sobre o seu corpo morto pairam varejeiras. São talvez as mesmas moscas que pousam nas feridas da criança que remexe com um pau o lodo no fundo de uma piscina, imagem central de Armadilha, escrito um quarto de século mais tarde.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- 31 sugestões de livros para o Verão, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
- Conversa com Javier Cercas sobre o livro As Leis da Fronteira (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- Enredos, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- A Neve e as Goiabas, de NoViolet Bulawayo (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
- Diários, de George Orwell (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- As Armas Secretas, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- As Leis da Fronteira, de Javier Cercas (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- Cláudio e Constantino, de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- A Técnica do Golpe Literário, de Pedro Piedade Marques (Montag), por José Mário Silva

O criador de maravilhas

retrato

Retrato de Rapaz
Autor: Mário Cláudio
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-972-20-5438-6
Ano de publicação: 2014

Sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) não falta informação nem documentos que expliquem o seu percurso, o impacto tremendo que teve no seu tempo, a génese das grandes obras e descobertas. A vida íntima do mestre, porém, continua a ser um mistério. Nos milhares de páginas que deixou escritas, muitas delas em forma de diário, não se encontra registo de quaisquer experiências amorosas. Sabe-se que nunca casou nem teve filhos, mas é impossível determinar se manteve sequer relações sexuais, seja com homens ou com mulheres. No seu mais recente romance, Mário Cláudio explora ficcionalmente este campo de incerteza quanto à esfera dos afectos de Leonardo, partindo dos escassos factos verificáveis, mas evitando habilmente as armadilhas da pura especulação.
O livro analisa de perto o relacionamento conhecido com dois discípulos, Gian Giacomo Caprotti e Francesco Melzi, incidindo o foco em grande parte sobre o primeiro, justamente o «Rapaz» a que o título alude. Logo na primeira cena, vemos esse rapazito de dez anos, acabado de chegar à oficina do mestre, caracóis angélicos ainda «húmidos da barrela», a varrer o chão com uma vassoura de giesta. Fascinado diante de tamanha beleza física, na qual se esconde um «coração rebelde», Leonardo esboça-lhe o retrato, consciente de ser aquele um corpo inclinado para os maus caminhos: «nunca mais tentarei espetar-te asas nas espáduas porque o que diz bem contigo, meu Mafarrico, é um bom par de corninhos». O nome que lhe dá, Salai, significa isso mesmo: «pequeno demónio». E o malandrim encarregar-se-á de lhe dar razão e muita água pela barba, que Leonardo usava longa e encanecida. Findo o primeiro contacto, descreveu-o assim: «Ladrão e mentiroso, obstinado e cheio de ganância.» E logo abaixo: «Bem-vindo sejas, meu Patife.» Durante as décadas que se seguem, a relação raras vezes será pacífica, mas na «estratégia de traições consentidas, e de confessados roubos, em que ambos se implantavam, moldava-se-lhes uma amizade inquebrantável, difícil como as que desde sempre duram, e para sempre, escritas pelo trânsito dos astros na abóbada celestial». É sobre esta «amizade inquebrantável» que Mário Cláudio discorre, com a delicadeza e o recato de quem espreita por trás de um reposteiro, receoso de interferir.
À medida que o tempo passa, assistimos igualmente ao formidável trânsito do mais «ilustre criador de maravilhas» – sejam elas uma gigantesca estátua equestre para os Sforza, o falhado fresco sobre a Batalha de Anghiari, os estudos para a Mona Lisa (em que Salai se substitui ao modelo feminino) ou a extraordinária aventura de voar, numa máquina engenhosa a que os dois logo deitam fogo, como que para anular a audácia («Dirão um dia que não conseguimos, mas cada voo a si mesmo se inventa»). Depois de Milão e de um regresso a Florença, Leonardo termina os seus dias em França, onde Francesco Melzi, o fidalgote que organiza os papéis do mestre e o ajuda nas autópsias clandestinas, tenta substituir-se a Salai, sem sucesso, porque é deste que o génio sentirá falta quando se apaga, entre devaneios oníricos que envolvem uma emanação das Três Graças e uma «coroa de víboras».
Aproximação feliz ao universo renascentista, Retrato de Rapaz mostra Mário Cláudio no pleno domínio de uma escrita barroca – frases longas, trabalhadíssimas, muito buriladas –, prosa exuberante e faustosa, mas que vai além do artifício, directa ao que há de luz e sombra (ou seja, ao que há de esplendor humano) na figura de um génio único e do discípulo que nunca o abandonou.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Ensaio sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, por Pedro Mexia
- Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Nas Bocas do Mundo – O 25 de Abril e o PREC na Imprensa Internacional, de Joaquim Vieira e Reto Monico (Tinta da China), por LUís M. Faria
- Igor Dgah, de José Carlos Soares (Debout sur l’Oeuf), por Pedro Mexia
- Mandriões do Vale Fértil, de Albert Cossery (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
- Crónica da Selva, de Tiago Salazar (A23), por José Mário Silva

Maravilhas da paternidade

Alice: Pai, sabes como é que se chama o homem que anda com o D. Quixote?
Eu: Sim. Chama-se Sancho Pança.
Alice: Pois é. Agora já sei. Mas ao princípio percebi mal o nome dele.
Eu: Então?
Alice: Pensava que se chamava Sem Esperança. Dom Quixote e Sem Esperança.

Uma agenda de catástrofes

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No Céu Não Há Limões
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-21-2674-8
Ano de publicação: 2014

À semelhança do que acontecia nos dois primeiros romances – O Caderno do Algoz (2009) e Um Piano para Cavalos Altos (2012) –, depressa percebemos que a acção de No Céu Não Há Limões decorre num território puramente literário, de geografia e tempo indeterminados, que Sandro William Junqueira vai construindo, pacientemente, livro a livro. Se em Um Piano… tudo se passava numa cidade cercada por um muro de oito metros de altura, desta vez o cenário ganha a escala de um país dividido como um «pão de quilo cortado ao meio por uma faca de serrilha». Entre o Sul miserável, fustigado em permanência por calamidades naturais, e o Norte, aprazível, próspero, está em curso uma guerra que se disputa na Terra do Meio, o «paralelo» onde os combates decorrem sem sacrifício de civis e o balanço dos mortos adquire o carácter quase abstracto dos resultados desportivos.
Resumir as muitas pontas de um mosaico narrativo extraordinariamente complexo seria tão fastidioso quanto inútil. Digamos apenas que há uma peça de teatro em curso há 29 anos, com um protagonista que não sabe que o é, em torno do qual está montada uma vasta estrutura, cujos alicerces, vigas e alçapões vamos conhecendo aos poucos. No centro deste drama em tempo real, encenado na sombra por um dos homens mais poderosos do Norte (o Ogre, coração fraco mas cabeça de «sinapses rápidas»), está um Padre com problemas de fé e de consciência, marcado pela dúvida e pela incerteza quanto à bondade dos seus actos – como o acordo que leva os habitantes esfomeados do Sul a trocarem o próprio sangue por alimentos. Nos vários planos que a narrativa abarca, há lugar para todo o tipo de intrigas e jogos de bastidores, por onde circulam figuras mais ou menos sinistras, movidas sobre um tabuleiro imaginário como as peças de xadrez das partidas jogadas por telefone entre o Funcionário e o Bispo Auxiliar.
Neste mundo em que as pessoas são nomeadas por algo que as caracteriza ou pela sua função na sociedade (o Raquítico de Cabelo Ralo, a Médica-Cirurgiã, etc.), impera uma visão determinista do tempo. Há profecias que se cumprem, augúrios lidos por uma velha oracular nos restos de um limão espremido, a ideia de que as coisas acontecem porque têm de acontecer e porque os humanos não dominam verdadeiramente o rumo das suas existências («Se forças a corda do destino, ela parte-se. Se a folgas demasiado, ela não prende»). Diante do mistério, «a melhor ferramenta para ajustar a vida é sempre o espanto». Ou seja, a disponibilidade para aceitar os prodígios. E assim «aquilo que é turvo e curvo num segundo, no segundo seguinte pode iluminar-se numa reta».
O estilo continua a ser directo, vertiginoso, afiadíssimo. Frases curtas, muitos verbos, ritmo vivo, palavras sempre escolhidas a dedo («As que dão murros. E as que põem asas nas costas»). Sobre a mais memorável personagem do livro, a Adolescente, que endoidece os homens com os vestidos justos de frutos estampados, conta-se às tantas que a sua menstruação provocou um terramoto. «Era certo, o sangue provocava o sangue. As regras atraíam a desgraça. E as tragédias pareciam cumprir um calendário. Uma agenda de catástrofes. O seu útero e ovários pareciam estar ligados por fios invisíveis, tanto à rocha mais profunda como à constelação mais distante. E falavam uma linguagem comum. Um vocabulário transversal ao cosmos e à terra.» É essa linguagem comum, lírica e visceral, nascida do corpo e da paisagem, que torna a escrita deste autor uma das mais estimulantes da ficção portuguesa contemporânea.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- No Céu Não Há Limões, de Sandro William Junqueira (Caminho), por José Mário Silva
- Vinte Degraus e outros contos, de Hélia Correia (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Intempérie, de Jesus Carrasco (Marcador), por José Guardado Moreira
- Ensaios Escolhidos, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- 40xAbril, de Vários Autores (Abysmo), por José Mário Silva

Tratado da violência

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A Máquina do Mundo
Autor: Paulo José Miranda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-98019-9-8
Ano de publicação: 2014

O novo romance de Paulo José Miranda começa por provocar no leitor um sentimento de desconcerto. A quem pertence esta voz que nos fala em A Máquina do Mundo, louvando a violência como «o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós» e a tortura mais brutal como «o expoente máximo» dessa mesma incensada violência? Trata-se de um assassino profissional, um agente turco a quem chamam «Camaleão» por ser mestre nos disfarces, uma espécie de 007 do Bósforo, excelente «a desemperrar» situações à força, especialista no uso de explosivos C-4, e que gosta de concluir os seus serviços com um tiro no coração das vítimas. Para ele, matar não traz angústias nem dilemas existenciais, é apenas uma forma como outra qualquer de ganhar a vida. Ao contrário da maioria dos seus companheiros de profissão, porém, Türker não se remete ao silêncio: «A minha violência começa sempre com palavras, com um discurso – nem que seja um simples ‘vai’, como se diz a um cão.» E é por trazer consigo um discurso, um pensamento sobre as acções cometidas, que a sua narrativa se torna interessante.
Logo desde os primeiros capítulos, quase sempre curtos, a escrita oscila entre a acção pura e dura, muito ao estilo dos thrillers de espionagem, e uma espécie de inusitado impulso teórico, como se Türker, nos intervalos da sua complicada missão, resolvesse esboçar um tratado filosófico sobre os fundamentos da violência, em que constaria, por exemplo, esta passagem: «O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. (…) O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba com a tristeza. A tortura é o exercício máximo do poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas.» Que um assassino profissional diga coisas destas, é estranho, mas aceita-se. Que em momento algum o livro se distancie desta voz, eis o que perturba, eis o que provoca o tal desconcerto do leitor, provavelmente desejado por Paulo José Miranda.
A ambiguidade estende-se à própria natureza do que nos vai sendo revelado. Ao fim de umas páginas, torna-se evidente que o romance está imerso numa realidade virtual, um jogo em que os jogadores têm objectivos a cumprir, ganhando e perdendo vidas pelo caminho (até um máximo de cinco), como em qualquer videojogo. Mas estaremos efectivamente num sofisticado simulacro lúdico, «literalmente oposto ao mundo da vida»? Umas vezes parece que sim. Outras vezes, instala-se a dúvida. O certo é que o narrador, acompanhado por uma irlandesa lindíssima e de eficiência sem mácula, treinada pelo IRA, vai cumprindo a sua missão – do Chipre do Norte a Hong Kong, da Turquia à Tailândia, de caríssimos restaurantes panorâmicos à «maior espelunca jamais vista no Ocidente», explorada por um «búlgaro maluco» – insistindo numa história de amor que nunca chegará a bom porto.
Paulo José Miranda é surpreendentemente expedito na articulação da sua intrincada trama, que aborda a perseguição aos praticantes da seita Falun Gong, na China (aprisionados em campos de concentração que funcionariam como «banco vivo de órgãos»), cuja iminente denúncia é o ponto de partida para uma cascata de acontecimentos que ameaça pôr em causa o equilíbrio geoestratégico mundial. Há qualquer coisa de pynchoniano neste tresloucado vórtice conspirativo, em que o planeta é visto como uma mega-empresa, a Existe Lda., «na qual apenas alguns participam nos lucros e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos». O problema é que falta a Miranda a desmesura e o génio de Pynchon, ou talvez apenas a capacidade de levar a loucura das suas histórias às últimas consequências. Aqui e ali, o narrador perde-se em atalhos que pouco ou nada acrescentam (sobre a História turca ou os tumultos provocados pelos traficantes de droga em São Paulo) e com isso o livro perde tracção, energia, capacidade de choque.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Sandro William Junqueira, autor de No Céu não há Limões (Caminho), por José Mário Silva
- Maus, de Art Spiegelman (Bertrand), por Alexandra Carita
- A Morte sem Mestre, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
- Marsupial, de Catarina Nunes de Almeida (Mariposa Azual), por José Mário Silva
- Sobre a Violência, de Hannah Arendt (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- A Máquina do Mundo, de Paulo José Miranda (Abysmo), por José Mário Silva
- A Morte de Virgílio, de Hermann Broch (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
- Exposição, de Jonathan Coe (Dom Quixote), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Paulo José Miranda, autor de três novos livros editados pela Abysmo, por José Mário Silva
- T. S. Eliot e Ezra Pound: uma tentativa de aproximação às suas vidas e obras, de Fernando Guedes (Verbo), por Pedro Mexia
- Da Propriedade Literária e da Recente Convenção com França – Carta ao Senhor Visconde de Almeida Garrett, de Alexandre Herculano (&Etc), por Manuel de Freitas
- O Mundo Ardente, de Siri Hustvedt (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Fortaleza Vermelha, de Catherine Merridale (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Arte de amonas

engenhos

Os Engenhos Necessários
Autor: Miguel Cardoso
Editora: &etc
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Os livros de Miguel Cardoso são animais difíceis de aprisionar na jaula de um texto. Por natureza, resistem ao exercício da domesticação crítica e mais ainda à paráfrase. É preciso ir lá, olhá-los de frente, ler o poema a arder na página. Assim com Os Engenhos Necessários, um bom exemplo da verve torrencial de MC. O poeta fala, o poeta observa, o poeta lembra outros poetas (pedindo versos emprestados a Whitman, Luiza Neto Jorge, Rimbaud), o poeta não sabe muito bem para onde vai, embaladíssimo, mas vai, o poeta deixa-se ir.
Entre inspirações e aspirações, há um sentido de urgência, uma necessidade de escrever «à pressa no meio da afasia», uma procura ávida de oxigénio para pulmões cheios de ferrugem: «a poesia é arte de amonas // o ofício de custar a respirar». À medida que avança, o poema rasga-se e vai sendo remendado, um «tecer do que é tecido», sempre consciente da «malha na meia». Cardoso gosta de acidentes e desvios, de interrupções, apartes e recomeços, de um coloquialismo que por vezes lembra Assis Pacheco, mas a tudo isto assistimos do alto da sua maquinaria verbal, em cujas entranhas pulsam potentíssimos «motores líricos».
O poema sabe que é poema e a auto-referencialidade explora os limites da ironia: «(três a doze linhas / as últimas duas tipo / toma e embrulha / ou toma lá que já almoçaste / a chamada anagnórise) // e haverá um estudioso que dirá // “Não está nada mal visto / Deixou só o nervo / É um talhante ao contrário”». Excelente definição de um poeta para quem a poesia é o reflexo de uma vontade de dizer o mundo. E se entre o mundo e os versos algo se perde, quando não se perde tudo, ao menos «um gajo tenta».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Siri Hustvedt, autora de O Mundo Ardente (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Categorias e outras paisagens, de Fernando Echevarría (Afrontamento), por Pedro Mexia
- Os Engenhos Necessários, de Miguel Cardoso (&Etc), por José Mário Silva
- Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício, de Padre António Vieira (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
- O Assassino do Aqueduto, de Anabela Natário (Esfera dos Livros), por Nicolau Santos

Esta coisa da alegria

joquei

Jóquei
Autora: Matilde Campilho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 135
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Eis um livro de estreia que nos esmaga com o seu desassombro. Leitora de Whitman e dos bardos da Beat Generation, Matilde Campilho lança-se, destemida, ao poema longo e de alta rotação metafórica. De Lisboa ao Rio de Janeiro, fazendo uso de um «dialecto muito novo» (a meio caminho entre o português ‘de cá’ e o do Brasil: linguagem híbrida, dúctil, coloquialíssima), Campilho revela uma ânsia de tudo abarcar – grandes gestos, pequenos objectos, a espantosa vibração das coisas que existem sobre a terra.
Cada poema funciona como um microcosmos que se expande, sem que saibamos para onde vai ou quando explodirá nas nossas mãos. O olhar da poeta é omnívoro, logo imprevisível: tanto a comovem as oscilações do sismógrafo sentimental como a estrutura do ácido desoxirribonucleico (ADN): «Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir». Tudo é susceptível de ser fixado por estes versos: um nascimento, um «rosto kodachrome», referências a poemas de Eliot e a esculturas de Chillida, invocações a santos, os «snipers das barricadas de Kiev», um imaginário nova-iorquino (verões quentes em Brooklyn e Coney Island), a bola de ouro de Cristiano Ronaldo ou as ondas de 22 metros da tempestade Hércules («e ao invés de vestir o escafandro / meu velho amor e eu / escolhemos ver a revolução aquática / a partir da bancada do bar»).
O principal mérito de Matilde Campilho é não pensar demasiado, é deixar-se ir no torvelinho, mas a sua criatividade vocabular e o modo fácil como cria imagens poderosas levam-na a perder-se, aqui e ali, nos labirintos de uma verve que às vezes se torna algo vazia, ou então ostensivamente pirotécnica. Quando acerta em cheio, porém, os seus poemas atingem um alto grau de conseguimento estético, como é o caso da toada enumerativa em Descrição da cidade de Lisboa: «Rapariga feita de átomos e sombra. (…) Rapariga de ossos partidos, rapariga dos óculos negros, rapariga em camisola de poliéster (…) Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama».
Coisa rara nos nossos dias, a poesia de Campilho é ainda de um exuberante optimismo, acreditando que o mundo se «vai salvar», que «a raça humana é toda brilho», que «esta coisa da alegria» ainda pode «dar muito certo» e que «Apesar das visitas / Breves do pavor / A beleza é tudo / O que permanece».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Matilde Campilho, autora de Jóquei (Tinta da China), e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Conservadorismo, de João Pereira Coutinho (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- História em Duas Cidades, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- Nós, os Afogados, de Carsten Jensen (Bertrand), por José Guardado Moreira
- Autocataclismos, de Alberto Pimenta (Pianola), por Manuel de Freitas

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges