Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Mario Vargas Llosa, por José Mário Silva
- Viagem pela Literatura Europeia, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
- Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir (Marcador), por José Guardado Moreira
- Supergigante, de Ana Pessoa (Planeta Tangerina), por José Mário Silva
- Impérios em Guerra, 1911-1923, de vários autores (Dom Quixote), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Andréa Del Fuego sobre As Miniaturas (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
- A Minha Breve História, de Stephen Hawking (Gradiva), por Virgílio Azevedo
- Colheita, de Jim Crace (Presença), por José Guardado Moreira
- Contos Vagabundos, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
- Bem Hajam!, de Vassili Grossman (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- Estranhos Rebeldes, de Christian Caryl (Presença), por Luís M. Faria

Uma boca de sombras

enredos

Enredos
Autor: Rui Nunes
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 105
ISBN: 978-989-641-422-1
Ano de publicação: 2014

É impossível ler hoje a reedição de Enredos, livro publicado por Rui Nunes em 1987 (na desaparecida editora Rolim), sem ter presente que o escritor decidiu concluir a sua obra em 2013, com Armadilha. Não são raros os casos de autores que anunciam supostas retiradas, desmentidas meses depois – seja por rebate de consciência, seja por incapacidade de dizer não à avidez da máquina editorial. Dificilmente isso acontecerá com Rui Nunes, porque para a sua decisão contribuíram duas razões de força maior: um estado de quase cegueira que lhe impossibilita o próprio acto da escrita; e a consciência de que a sua linguagem atingiu um «momento final». Ou seja, um lugar a partir do qual já não é possível ir mais longe.
Podemos entrever esse lugar de absoluta rasura em Barro (Relógio d’Água, 2012), um texto que desconfia da capacidade que as palavras têm de dizer o mundo («ligar uma palavra a outra é já uma traição»). Em livros anteriores, Rui Nunes vinha sabotando os mecanismos e regras ficcionais, mas esse movimento de implosão narrativa atinge aqui uma espécie de apogeu. Por entre fragmentos e imagens que constroem o seu próprio sentido, numa paisagem rarefeita, o escritor inventa «uma língua de gumes», por vezes «reduzida a um sopro», muito mais próxima da poesia (há um diálogo permanente com Paul Celan) do que daquilo a que se convencionou chamar uma história. No fundo, assistimos a um espantoso apocalipse («talvez o fim de qualquer escrita seja a sua destruição»), uma ‘terra devastada’ que é ao mesmo tempo, na sua opacidade, um espelho onde o escritor se revela inteiro: «Há livros que acompanham uma vida: separam-se do seu autor e esquecem-no. Outros, confundem-se com quem os escreveu: são um corpo, uma dor, uma doença, um modo de morrer.» Paisagem que se prolonga, de forma talvez ainda mais radical, em Armadilha («acrescentamos incompletude à incompletude»).
Se olharmos para Enredos a partir dos livros finais, não só reconhecemos a voz de Rui Nunes – um tom despojado único na literatura portuguesa – como o início do tal processo de implosão dos códigos narrativos. Lá por baixo, o rastilho já estava aceso. Mas o romance (se é que faz sentido denominar assim uma obra tão inclassificável) ainda guarda alguma da ordem que se espera de um romance clássico: há personagens, diálogos, continuidade cronológica. Mesmo se essa ordem acaba por ser continuamente posta à prova, desviada, sujeita a tratos de polé. Na primeira parte, «Laços Familiares», assistimos às crises e dilemas de um jovem após a morte do pai (cuja decadência física, em contraste com o despertar sexual do filho, inspira as páginas mais admiráveis do livro). A segunda parte, «Laços Mundanos», é um mergulho no bas fond da prostituição lisboeta, num registo de sordidez onírica, como que ditado por «uma boca de sombra». A atmosfera saturada do livro, em que Portugal impõe o seu peso de pátria putrefacta, conduz-nos por fim à terceira parte, «Laços Patrióticos», que é talvez o mais devastador retrato alguma vez feito de Salazar.
O «ditador» senil dá couves aos coelhos, «verte as águas onde lhe apraz», cai da cadeira, e encena diante de nós o espectáculo da sua decadência, que tem tanto de burlesco (quando se põe de gatas na carpete, à procura de uma imaginária rã) como de trágico. No último parágrafo, metáfora cruel da podridão, sobre o seu corpo morto pairam varejeiras. São talvez as mesmas moscas que pousam nas feridas da criança que remexe com um pau o lodo no fundo de uma piscina, imagem central de Armadilha, escrito um quarto de século mais tarde.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- 31 sugestões de livros para o Verão, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
- Conversa com Javier Cercas sobre o livro As Leis da Fronteira (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- Enredos, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por José Mário Silva
- A Neve e as Goiabas, de NoViolet Bulawayo (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
- Diários, de George Orwell (Dom Quixote), por Luís M. Faria
- As Armas Secretas, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- As Leis da Fronteira, de Javier Cercas (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- Cláudio e Constantino, de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- A Técnica do Golpe Literário, de Pedro Piedade Marques (Montag), por José Mário Silva

O criador de maravilhas

retrato

Retrato de Rapaz
Autor: Mário Cláudio
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-972-20-5438-6
Ano de publicação: 2014

Sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) não falta informação nem documentos que expliquem o seu percurso, o impacto tremendo que teve no seu tempo, a génese das grandes obras e descobertas. A vida íntima do mestre, porém, continua a ser um mistério. Nos milhares de páginas que deixou escritas, muitas delas em forma de diário, não se encontra registo de quaisquer experiências amorosas. Sabe-se que nunca casou nem teve filhos, mas é impossível determinar se manteve sequer relações sexuais, seja com homens ou com mulheres. No seu mais recente romance, Mário Cláudio explora ficcionalmente este campo de incerteza quanto à esfera dos afectos de Leonardo, partindo dos escassos factos verificáveis, mas evitando habilmente as armadilhas da pura especulação.
O livro analisa de perto o relacionamento conhecido com dois discípulos, Gian Giacomo Caprotti e Francesco Melzi, incidindo o foco em grande parte sobre o primeiro, justamente o «Rapaz» a que o título alude. Logo na primeira cena, vemos esse rapazito de dez anos, acabado de chegar à oficina do mestre, caracóis angélicos ainda «húmidos da barrela», a varrer o chão com uma vassoura de giesta. Fascinado diante de tamanha beleza física, na qual se esconde um «coração rebelde», Leonardo esboça-lhe o retrato, consciente de ser aquele um corpo inclinado para os maus caminhos: «nunca mais tentarei espetar-te asas nas espáduas porque o que diz bem contigo, meu Mafarrico, é um bom par de corninhos». O nome que lhe dá, Salai, significa isso mesmo: «pequeno demónio». E o malandrim encarregar-se-á de lhe dar razão e muita água pela barba, que Leonardo usava longa e encanecida. Findo o primeiro contacto, descreveu-o assim: «Ladrão e mentiroso, obstinado e cheio de ganância.» E logo abaixo: «Bem-vindo sejas, meu Patife.» Durante as décadas que se seguem, a relação raras vezes será pacífica, mas na «estratégia de traições consentidas, e de confessados roubos, em que ambos se implantavam, moldava-se-lhes uma amizade inquebrantável, difícil como as que desde sempre duram, e para sempre, escritas pelo trânsito dos astros na abóbada celestial». É sobre esta «amizade inquebrantável» que Mário Cláudio discorre, com a delicadeza e o recato de quem espreita por trás de um reposteiro, receoso de interferir.
À medida que o tempo passa, assistimos igualmente ao formidável trânsito do mais «ilustre criador de maravilhas» – sejam elas uma gigantesca estátua equestre para os Sforza, o falhado fresco sobre a Batalha de Anghiari, os estudos para a Mona Lisa (em que Salai se substitui ao modelo feminino) ou a extraordinária aventura de voar, numa máquina engenhosa a que os dois logo deitam fogo, como que para anular a audácia («Dirão um dia que não conseguimos, mas cada voo a si mesmo se inventa»). Depois de Milão e de um regresso a Florença, Leonardo termina os seus dias em França, onde Francesco Melzi, o fidalgote que organiza os papéis do mestre e o ajuda nas autópsias clandestinas, tenta substituir-se a Salai, sem sucesso, porque é deste que o génio sentirá falta quando se apaga, entre devaneios oníricos que envolvem uma emanação das Três Graças e uma «coroa de víboras».
Aproximação feliz ao universo renascentista, Retrato de Rapaz mostra Mário Cláudio no pleno domínio de uma escrita barroca – frases longas, trabalhadíssimas, muito buriladas –, prosa exuberante e faustosa, mas que vai além do artifício, directa ao que há de luz e sombra (ou seja, ao que há de esplendor humano) na figura de um génio único e do discípulo que nunca o abandonou.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Ensaio sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, por Pedro Mexia
- Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Nas Bocas do Mundo – O 25 de Abril e o PREC na Imprensa Internacional, de Joaquim Vieira e Reto Monico (Tinta da China), por LUís M. Faria
- Igor Dgah, de José Carlos Soares (Debout sur l’Oeuf), por Pedro Mexia
- Mandriões do Vale Fértil, de Albert Cossery (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
- Crónica da Selva, de Tiago Salazar (A23), por José Mário Silva

Maravilhas da paternidade

Alice: Pai, sabes como é que se chama o homem que anda com o D. Quixote?
Eu: Sim. Chama-se Sancho Pança.
Alice: Pois é. Agora já sei. Mas ao princípio percebi mal o nome dele.
Eu: Então?
Alice: Pensava que se chamava Sem Esperança. Dom Quixote e Sem Esperança.

Uma agenda de catástrofes

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No Céu Não Há Limões
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-21-2674-8
Ano de publicação: 2014

À semelhança do que acontecia nos dois primeiros romances – O Caderno do Algoz (2009) e Um Piano para Cavalos Altos (2012) –, depressa percebemos que a acção de No Céu Não Há Limões decorre num território puramente literário, de geografia e tempo indeterminados, que Sandro William Junqueira vai construindo, pacientemente, livro a livro. Se em Um Piano… tudo se passava numa cidade cercada por um muro de oito metros de altura, desta vez o cenário ganha a escala de um país dividido como um «pão de quilo cortado ao meio por uma faca de serrilha». Entre o Sul miserável, fustigado em permanência por calamidades naturais, e o Norte, aprazível, próspero, está em curso uma guerra que se disputa na Terra do Meio, o «paralelo» onde os combates decorrem sem sacrifício de civis e o balanço dos mortos adquire o carácter quase abstracto dos resultados desportivos.
Resumir as muitas pontas de um mosaico narrativo extraordinariamente complexo seria tão fastidioso quanto inútil. Digamos apenas que há uma peça de teatro em curso há 29 anos, com um protagonista que não sabe que o é, em torno do qual está montada uma vasta estrutura, cujos alicerces, vigas e alçapões vamos conhecendo aos poucos. No centro deste drama em tempo real, encenado na sombra por um dos homens mais poderosos do Norte (o Ogre, coração fraco mas cabeça de «sinapses rápidas»), está um Padre com problemas de fé e de consciência, marcado pela dúvida e pela incerteza quanto à bondade dos seus actos – como o acordo que leva os habitantes esfomeados do Sul a trocarem o próprio sangue por alimentos. Nos vários planos que a narrativa abarca, há lugar para todo o tipo de intrigas e jogos de bastidores, por onde circulam figuras mais ou menos sinistras, movidas sobre um tabuleiro imaginário como as peças de xadrez das partidas jogadas por telefone entre o Funcionário e o Bispo Auxiliar.
Neste mundo em que as pessoas são nomeadas por algo que as caracteriza ou pela sua função na sociedade (o Raquítico de Cabelo Ralo, a Médica-Cirurgiã, etc.), impera uma visão determinista do tempo. Há profecias que se cumprem, augúrios lidos por uma velha oracular nos restos de um limão espremido, a ideia de que as coisas acontecem porque têm de acontecer e porque os humanos não dominam verdadeiramente o rumo das suas existências («Se forças a corda do destino, ela parte-se. Se a folgas demasiado, ela não prende»). Diante do mistério, «a melhor ferramenta para ajustar a vida é sempre o espanto». Ou seja, a disponibilidade para aceitar os prodígios. E assim «aquilo que é turvo e curvo num segundo, no segundo seguinte pode iluminar-se numa reta».
O estilo continua a ser directo, vertiginoso, afiadíssimo. Frases curtas, muitos verbos, ritmo vivo, palavras sempre escolhidas a dedo («As que dão murros. E as que põem asas nas costas»). Sobre a mais memorável personagem do livro, a Adolescente, que endoidece os homens com os vestidos justos de frutos estampados, conta-se às tantas que a sua menstruação provocou um terramoto. «Era certo, o sangue provocava o sangue. As regras atraíam a desgraça. E as tragédias pareciam cumprir um calendário. Uma agenda de catástrofes. O seu útero e ovários pareciam estar ligados por fios invisíveis, tanto à rocha mais profunda como à constelação mais distante. E falavam uma linguagem comum. Um vocabulário transversal ao cosmos e à terra.» É essa linguagem comum, lírica e visceral, nascida do corpo e da paisagem, que torna a escrita deste autor uma das mais estimulantes da ficção portuguesa contemporânea.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- No Céu Não Há Limões, de Sandro William Junqueira (Caminho), por José Mário Silva
- Vinte Degraus e outros contos, de Hélia Correia (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
- Intempérie, de Jesus Carrasco (Marcador), por José Guardado Moreira
- Ensaios Escolhidos, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- 40xAbril, de Vários Autores (Abysmo), por José Mário Silva

Tratado da violência

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A Máquina do Mundo
Autor: Paulo José Miranda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-98019-9-8
Ano de publicação: 2014

O novo romance de Paulo José Miranda começa por provocar no leitor um sentimento de desconcerto. A quem pertence esta voz que nos fala em A Máquina do Mundo, louvando a violência como «o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós» e a tortura mais brutal como «o expoente máximo» dessa mesma incensada violência? Trata-se de um assassino profissional, um agente turco a quem chamam «Camaleão» por ser mestre nos disfarces, uma espécie de 007 do Bósforo, excelente «a desemperrar» situações à força, especialista no uso de explosivos C-4, e que gosta de concluir os seus serviços com um tiro no coração das vítimas. Para ele, matar não traz angústias nem dilemas existenciais, é apenas uma forma como outra qualquer de ganhar a vida. Ao contrário da maioria dos seus companheiros de profissão, porém, Türker não se remete ao silêncio: «A minha violência começa sempre com palavras, com um discurso – nem que seja um simples ‘vai’, como se diz a um cão.» E é por trazer consigo um discurso, um pensamento sobre as acções cometidas, que a sua narrativa se torna interessante.
Logo desde os primeiros capítulos, quase sempre curtos, a escrita oscila entre a acção pura e dura, muito ao estilo dos thrillers de espionagem, e uma espécie de inusitado impulso teórico, como se Türker, nos intervalos da sua complicada missão, resolvesse esboçar um tratado filosófico sobre os fundamentos da violência, em que constaria, por exemplo, esta passagem: «O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. (…) O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba com a tristeza. A tortura é o exercício máximo do poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas.» Que um assassino profissional diga coisas destas, é estranho, mas aceita-se. Que em momento algum o livro se distancie desta voz, eis o que perturba, eis o que provoca o tal desconcerto do leitor, provavelmente desejado por Paulo José Miranda.
A ambiguidade estende-se à própria natureza do que nos vai sendo revelado. Ao fim de umas páginas, torna-se evidente que o romance está imerso numa realidade virtual, um jogo em que os jogadores têm objectivos a cumprir, ganhando e perdendo vidas pelo caminho (até um máximo de cinco), como em qualquer videojogo. Mas estaremos efectivamente num sofisticado simulacro lúdico, «literalmente oposto ao mundo da vida»? Umas vezes parece que sim. Outras vezes, instala-se a dúvida. O certo é que o narrador, acompanhado por uma irlandesa lindíssima e de eficiência sem mácula, treinada pelo IRA, vai cumprindo a sua missão – do Chipre do Norte a Hong Kong, da Turquia à Tailândia, de caríssimos restaurantes panorâmicos à «maior espelunca jamais vista no Ocidente», explorada por um «búlgaro maluco» – insistindo numa história de amor que nunca chegará a bom porto.
Paulo José Miranda é surpreendentemente expedito na articulação da sua intrincada trama, que aborda a perseguição aos praticantes da seita Falun Gong, na China (aprisionados em campos de concentração que funcionariam como «banco vivo de órgãos»), cuja iminente denúncia é o ponto de partida para uma cascata de acontecimentos que ameaça pôr em causa o equilíbrio geoestratégico mundial. Há qualquer coisa de pynchoniano neste tresloucado vórtice conspirativo, em que o planeta é visto como uma mega-empresa, a Existe Lda., «na qual apenas alguns participam nos lucros e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos». O problema é que falta a Miranda a desmesura e o génio de Pynchon, ou talvez apenas a capacidade de levar a loucura das suas histórias às últimas consequências. Aqui e ali, o narrador perde-se em atalhos que pouco ou nada acrescentam (sobre a História turca ou os tumultos provocados pelos traficantes de droga em São Paulo) e com isso o livro perde tracção, energia, capacidade de choque.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Sandro William Junqueira, autor de No Céu não há Limões (Caminho), por José Mário Silva
- Maus, de Art Spiegelman (Bertrand), por Alexandra Carita
- A Morte sem Mestre, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
- Marsupial, de Catarina Nunes de Almeida (Mariposa Azual), por José Mário Silva
- Sobre a Violência, de Hannah Arendt (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- A Máquina do Mundo, de Paulo José Miranda (Abysmo), por José Mário Silva
- A Morte de Virgílio, de Hermann Broch (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
- Exposição, de Jonathan Coe (Dom Quixote), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Paulo José Miranda, autor de três novos livros editados pela Abysmo, por José Mário Silva
- T. S. Eliot e Ezra Pound: uma tentativa de aproximação às suas vidas e obras, de Fernando Guedes (Verbo), por Pedro Mexia
- Da Propriedade Literária e da Recente Convenção com França – Carta ao Senhor Visconde de Almeida Garrett, de Alexandre Herculano (&Etc), por Manuel de Freitas
- O Mundo Ardente, de Siri Hustvedt (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Fortaleza Vermelha, de Catherine Merridale (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Arte de amonas

engenhos

Os Engenhos Necessários
Autor: Miguel Cardoso
Editora: &etc
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Os livros de Miguel Cardoso são animais difíceis de aprisionar na jaula de um texto. Por natureza, resistem ao exercício da domesticação crítica e mais ainda à paráfrase. É preciso ir lá, olhá-los de frente, ler o poema a arder na página. Assim com Os Engenhos Necessários, um bom exemplo da verve torrencial de MC. O poeta fala, o poeta observa, o poeta lembra outros poetas (pedindo versos emprestados a Whitman, Luiza Neto Jorge, Rimbaud), o poeta não sabe muito bem para onde vai, embaladíssimo, mas vai, o poeta deixa-se ir.
Entre inspirações e aspirações, há um sentido de urgência, uma necessidade de escrever «à pressa no meio da afasia», uma procura ávida de oxigénio para pulmões cheios de ferrugem: «a poesia é arte de amonas // o ofício de custar a respirar». À medida que avança, o poema rasga-se e vai sendo remendado, um «tecer do que é tecido», sempre consciente da «malha na meia». Cardoso gosta de acidentes e desvios, de interrupções, apartes e recomeços, de um coloquialismo que por vezes lembra Assis Pacheco, mas a tudo isto assistimos do alto da sua maquinaria verbal, em cujas entranhas pulsam potentíssimos «motores líricos».
O poema sabe que é poema e a auto-referencialidade explora os limites da ironia: «(três a doze linhas / as últimas duas tipo / toma e embrulha / ou toma lá que já almoçaste / a chamada anagnórise) // e haverá um estudioso que dirá // “Não está nada mal visto / Deixou só o nervo / É um talhante ao contrário”». Excelente definição de um poeta para quem a poesia é o reflexo de uma vontade de dizer o mundo. E se entre o mundo e os versos algo se perde, quando não se perde tudo, ao menos «um gajo tenta».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Siri Hustvedt, autora de O Mundo Ardente (Dom Quixote), por José Mário Silva
- Categorias e outras paisagens, de Fernando Echevarría (Afrontamento), por Pedro Mexia
- Os Engenhos Necessários, de Miguel Cardoso (&Etc), por José Mário Silva
- Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício, de Padre António Vieira (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
- O Assassino do Aqueduto, de Anabela Natário (Esfera dos Livros), por Nicolau Santos

Esta coisa da alegria

joquei

Jóquei
Autora: Matilde Campilho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 135
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Eis um livro de estreia que nos esmaga com o seu desassombro. Leitora de Whitman e dos bardos da Beat Generation, Matilde Campilho lança-se, destemida, ao poema longo e de alta rotação metafórica. De Lisboa ao Rio de Janeiro, fazendo uso de um «dialecto muito novo» (a meio caminho entre o português ‘de cá’ e o do Brasil: linguagem híbrida, dúctil, coloquialíssima), Campilho revela uma ânsia de tudo abarcar – grandes gestos, pequenos objectos, a espantosa vibração das coisas que existem sobre a terra.
Cada poema funciona como um microcosmos que se expande, sem que saibamos para onde vai ou quando explodirá nas nossas mãos. O olhar da poeta é omnívoro, logo imprevisível: tanto a comovem as oscilações do sismógrafo sentimental como a estrutura do ácido desoxirribonucleico (ADN): «Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir». Tudo é susceptível de ser fixado por estes versos: um nascimento, um «rosto kodachrome», referências a poemas de Eliot e a esculturas de Chillida, invocações a santos, os «snipers das barricadas de Kiev», um imaginário nova-iorquino (verões quentes em Brooklyn e Coney Island), a bola de ouro de Cristiano Ronaldo ou as ondas de 22 metros da tempestade Hércules («e ao invés de vestir o escafandro / meu velho amor e eu / escolhemos ver a revolução aquática / a partir da bancada do bar»).
O principal mérito de Matilde Campilho é não pensar demasiado, é deixar-se ir no torvelinho, mas a sua criatividade vocabular e o modo fácil como cria imagens poderosas levam-na a perder-se, aqui e ali, nos labirintos de uma verve que às vezes se torna algo vazia, ou então ostensivamente pirotécnica. Quando acerta em cheio, porém, os seus poemas atingem um alto grau de conseguimento estético, como é o caso da toada enumerativa em Descrição da cidade de Lisboa: «Rapariga feita de átomos e sombra. (…) Rapariga de ossos partidos, rapariga dos óculos negros, rapariga em camisola de poliéster (…) Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama».
Coisa rara nos nossos dias, a poesia de Campilho é ainda de um exuberante optimismo, acreditando que o mundo se «vai salvar», que «a raça humana é toda brilho», que «esta coisa da alegria» ainda pode «dar muito certo» e que «Apesar das visitas / Breves do pavor / A beleza é tudo / O que permanece».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Matilde Campilho, autora de Jóquei (Tinta da China), e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Conservadorismo, de João Pereira Coutinho (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- História em Duas Cidades, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- Nós, os Afogados, de Carsten Jensen (Bertrand), por José Guardado Moreira
- Autocataclismos, de Alberto Pimenta (Pianola), por Manuel de Freitas

Quatro poemas de Matilde Campilho

PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

***

COQUEIRAL

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

***

DESCRIÇÃO DA CIDADE DE LISBOA

A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.

***

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

[in Jóquei, Tinta da China, 2014]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Felizes os Felizes (Quetzal), por José Mário Silva
- Hamlet tinha um tio, de James Branch Cabell (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
- Corpos Subtis, de Norman Rush (Quetzal), por Pedro Mexia
- Homo Sacer e os Ciganos, de Roswitha Scholz (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
- A Riqueza Oculta das Nações, de Gabriel Zucman (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Escuro, de Ana Luísa Amaral (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
- Véspera da Água, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Yasmina Reza, autora de Felizes os Felizes (Quetzal), por José Mário Silva
- Segunda Voz, de Vítor Nogueira (Averno), por José Mário Silva
- As Condições Locais, de João Almeida (Opera Omnia), por Manuel de Freitas
- A História dos Judeus – Encontrar as Palavras, 1000 a.C. – 1492 d.C., de Simon Schama (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- Dia do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Ir para Norte, ir para o LeV

L

A partir de hoje, e até domingo, vai ser bom regressar à Biblioteca Municipal Florbela Espanca (em Matosinhos), para assistir a mais uma edição do festival Literatura em Viagem, a oitava. A conferência de abertura, proferida por José Sócrates, está marcada para logo à noite (21h30). Haverá depois nove mesas de debate, com propostas de cartografia (mapas de conceitos); vários lançamentos e uma homenagem ao escritor José Rentes de Carvalho.
O Bibliotecário de Babel andará por lá e talvez também por aqui.

Baile de máscaras literário

baile
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Sábado à noite, no Porto. Para dançar com meninas (e meninos) que lêem.

Quatro poemas de Vítor Nogueira

REFÚGIO

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.

***

PAREDES

De repente não te sentes muito bem.
És a única pessoa numa sala cheia,
uma sala cheia de rostos que não se dissipam.
Estes retratos antigos deixam-te pouco à-vontade.
Ninguém sobe, ninguém desce, ninguém entra,
ninguém sai. E contudo, caro amigo,
todas as regras gerais têm excepções.
Talvez possas destruir o sistema só por gozo,
deixar os pregos sem nada, repartidos como estão
pelas paredes da sala. A memória, no entanto
(dentes grandes, aparelhos de colheita),
é mais forte e corajosa do que tu. Sentir isso
nas entranhas produz um grande vazio.

***

SEMENTES

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

***

FORMOL

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre
a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre
o mundo. À volta desta praça, quis o tempo
conservados em formol os edifícios, esquinas
de onde surgem cada vez mais perguntas
sem aviso. Escondida pela fachada do liceu
há-de estar ainda a velha biblioteca
onde Ulisses veio sentar-se à tua frente,
cotovelo esquerdo alicerçado no tampo
da secretária, braço servindo de coluna,
rematado em capitel pelo punho semicerrado
que lhe amparava o queixo e, acima do queixo,
o olhar e as ideias. Eras demasiado novo
para todos aqueles livros, todos aqueles ossos
arrumados nas estantes. Livros como este,
que se fecha sobre si e só dói a quem o escreve.

[in Segunda Voz, Averno, 2014]

Maravilhas da paternidade

Além de médica e paleontóloga, a Alice diz que no futuro será bailarina ao domicílio: «As pessoas telefonam-me e eu vou a casa delas dançar. É simples.» Já o Pedro mantém a ideia de ser veterinário, «mas só para tratar animais abandonados na rua». Eu pergunto: e quem é que te paga esse trabalho? «A Câmara Municipal, claro! Ou então as pessoas que no fim vão adoptar os animais, quando já estiverem bons.»

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Rui Zink, autor de A metametamorfose e outras fermosas morfoses (Teodolito), e crítica ao livro, por José Mário Silva
- Gostamos tanto da Glenda, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
- A Beleza e a Dor da Guerra, de Peter Englund (Bertrand), por Luís M. Faria
- Livro Sem Ninguém, de Pedro Guilherme-Moreira (D. Quixote), por José Mário Silva

Memórias de 74

lembro-me

Lembro-me que
Autor: Ferreira Fernandes
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-989-722-092-0
Ano de publicação: 2014

O conceito deste livro, Ferreira Fernandes foi buscá-lo a Georges Perec (Je me Souviens, 1978), que já o tinha colhido do americano Joe Brainard. A ideia é recuperar o passado através de flashes, pequenos fragmentos de prosa acesos por uma invocação («Lembro-me que…») – ao mesmo tempo um trabalho da memória e um «exercício poético». Recorrendo a este mecanismo narrativo, Ferreira Fernandes não enveredou pelas reminiscências pessoais (como Brainard) nem pelas impalpáveis nostalgias quotidianas (como Perec). O objectivo era outro: «Pretendo contar uma bela data de Portugal, o 25 de Abril de 1974, lembrando pequenos e menos pequenos instantes que imediatamente a antecederam.» Ou seja, episódios ocorridos num período de quase quatro meses, entre 1 de Janeiro e o «grande dia». Dez anos após a primeira edição (Oficina do Livro), Lembro-me que volta em boa hora para nos mostrar como era Portugal em vésperas da grande mudança.
Cronista exímio, capaz de fixar e enquadrar num só parágrafo um detalhe retirado da actualidade, Ferreira Fernandes transpõe essa sua arte para os 327 fragmentos que compõem o livro. O segredo está na atenção aos factos aparentemente insignificantes que tantas vezes sinalizam metamorfoses em curso. Como os exemplos de escrita cifrada em que os jornalistas portugueses da época se especializaram, ao falarem de meteorologia ou futebol. Também há aproximações, à vol d’oiseau, ao lado mais prático ou trivial do dia-a-dia: «Lembro-me que ir ao café ficava por 4$50. Três vezes 15 tostões assim divididos: 1$50 para o café, 1$50 para o jornal e 1$50 para engraxar os sapatos»; «Lembro-me que os autocarros do Porto mudaram do verde para o laranja». Eis a vidinha do cidadão comum; a crise do petróleo que aumentou a galope o preço da gasolina (e não só: «Nas ourivesarias já não havia benzina para reparar os relógios»); a publicidade; os desmandos da Justiça; as delações mesquinhas; a criação da DECO (era vice-presidente «um engenheiro de bigodinho, de 24 anos, António Guterres»); as artimanhas para enganar a censura; a euforia com o Festival da Canção, esse «vício anual». O retrato é o de um país em que já era possível ler, nas entrelinhas, o que aí vinha, tornando ridículas as ilusões públicas de quem – exercendo o poder – não via, ou fingia não ver, que esse poder estava a chegar ao fim.
Ferreira Fernandes não escreve a partir da sua memória directa, porque durante o período em causa vivia exilado em França, de onde regressou na madrugada do 1.º de Maio de 1974, num comboio «com as bandeiras vermelhas e negras ao vento, atravessando a Espanha franquista». A distância até lhe confere, porventura, uma maior lucidez na selecção do que admite serem «falsas recordações», assumidamente «escolhas de jornalista compulsadas em jornais da época». Quando escreve «LEMBRO-ME», em maiúsculas, no fragmento final, sem mais nada, escreve no fundo: «LEMBRAMO-NOS». Porque estas memórias não são de um indivíduo, mas de todos nós.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Lembro-me que, de Ferreira Fernandes (Quetzal), por José Mário Silva
- O Futuro da Mente, de Michio Kaku (Bizâncio), por Luís M. Faria
- Vida após Vida, de Kate Atkinson (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
- No Limite da Dor, de Ana Aranha e Carlos Ademar (Parsifal), por Valdemar Cruz
- Lusitânia, de Almeida Faria (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Literatura infantil em Portugal: boom ou bang?

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Auto-retrato de Catarina Sobral (clique para aumentar)

Depois de um primeiro livro, Greve (2011), sobre pontos – ortográficos, verdes, de fuga, de encontro, etc. – que se recusam a fazer o que deles se espera, e de um segundo que funciona como um elegante «travelling urbano» (Achimpa, 2012), Catarina Sobral lançou, já este ano, O Meu Avô, uma história de duas pessoas que se cruzam no dia-a-dia, cada uma no seu tempo. Foi com as ilustrações desta obra que a autora, nascida em 1985, participou na exposição da Feira do Livro Infantil de Bolonha, no final de Março. Entre 41 candidatos de todo o mundo, a organização da Feira decidiu atribuir-lhe o prémio internacional de ilustração para jovens com menos de 35 anos, no valor de 21 mil euros, um reconhecimento que colocou a literatura infantil portuguesa sob os focos da atenção mediática.
Para Catarina Sobral, os efeitos do prémio já se fazem sentir: «A venda de direitos vai levar um empurrão. Há mais editoras estrangeiras atentas ao meu nome. E acho que isto me pode abrir portas lá fora.» Carla Oliveira, responsável pela Orfeu Mini, editora dos três livros, corrobora com entusiasmo, orgulhando-se da aposta feita. «Pela primeira vez, apercebemo-nos de uma relação de causa-efeito, porque as vendas de O Meu Avô nas livrarias aumentaram efectivamente na semana que se seguiu à atribuição do prémio.» Já vendido para França, Brasil, Suécia e Itália, o livro começa também a ser procurado por muitos editores estrangeiros que até aqui não tinham manifestado interesse, «talvez por desconhecimento».
Ana Castro, da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, vê neste sucesso mais uma etapa de um processo de internacionalização que teve início em 2005, com a criação de um programa anual de apoio à edição de ilustradores portugueses no estrangeiro. «Os resultados têm sido muito melhores do que nós esperávamos. De início, as editoras ficavam expostas no nosso pavilhão, em Bolonha. Hoje, a Planeta Tangerina já tem um espaço próprio. E há uma espécie de moda em torno da ilustração portuguesa. É um boom de oferta e sobretudo de qualidade. Um boom que se alimenta de si mesmo, com o êxito de uns a abrir caminho para os outros.»
Em 2013, a Planeta Tangerina também saiu de Bolonha com razões para sorrir, ao receber o prémio de melhor editora europeia do ano no segmento infantil. De então para cá, Isabel Minhós Martins, fundadora do projecto, assinala que o volume de negócios cresceu ligeiramente, muito à custa das vendas de direitos para o estrangeiro, que subiram 50% depois da atribuição do prémio, passando a incluir mercados asiáticos (China, Taiwan e Coreia do Sul). De resto, a venda de direitos para o estrangeiro já representa 40% do total da facturação. A expansão internacional deve-se sobretudo «ao salto qualitativo gigante revelado pelos ilustradores portugueses», nem sempre acompanhado pela escrita. «É mais difícil encontrar bons textos. Temos excelentes escritores, mas nem todos escrevem para a infância/juventude. Não é uma coisa que se decida por decreto.»
Apesar do êxito internacional, a Planeta Tangerina continua a publicar poucos livros (sete por ano) e as vendas em livraria não cresceram. O mesmo se passou com a Orfeu Mini. «Os dois últimos anos foram de contenção. Entre novidades e reedições, publicámos uma média de cinco álbuns ilustrados por ano.» Sediada na Figueira da Foz, a Bruaá regista uma actividade ainda mais restrita: três livros por ano. Miguel Gouveia, um dos dois sócios da editora, tem uma noção muito concreta do modo como a crise económica afecta o consumo dos livros: «Nem de propósito, estou neste momento a desempacotar uma devolução enorme feita pela FNAC. A realidade é esta que tenho aqui à minha volta e não permite grandes expectativas para o futuro próximo.» Se a estrutura leve das pequenas editoras lhes permite, apesar de tudo, manter o ritmo de publicação, o mesmo não se pode dizer das grandes editoras, que reduziram de forma significativa o lançamento de novidades. «Curiosamente, a esse decréscimo da oferta correspondeu um aumento de qualidade», defende Miguel Gouveia. «Passaram a publicar menos mas melhor, também porque o público, em parte devido ao bom trabalho das pequenas editoras, se tornou mais exigente.»
Ao boom de qualidade da literatura infantil portuguesa corresponde um boom comercial ou um bang? É difícil responder porque faltam, para este segmento, estatísticas e dados concretos, aliás como para o mercado livreiro no seu todo. Contactadas pelo EXPRESSO, as várias entidades que poderiam eventualmente fornecer números – da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) às empresas responsáveis pelos tops semanais, e às principais redes livreiras – ou recusaram a informação, ou ignoraram os pedidos, ou foram omissas. A rede de livrarias Bertrand, por exemplo, assume que «os livros infantis têm vindo a ganhar importância e peso nas nossas vendas, sendo hoje a nossa segunda maior temática», um «crescimento sustentado», fruto de uma «oferta maior e mais diversificada» que nasce também de «programas de promoção da leitura como o Plano Nacional de Leitura, entre outros». Sem números concretos, porém, não é possível avaliar a natureza e dimensão do referido «crescimento sustentado». Da mesma forma, o grupo Porto Editora garante apostar em «títulos de grandes autores portugueses, cujas obras são obrigatórias e/ou recomendadas nas escolas, com especial atenção para as crianças entre os seis e os nove anos, acompanhando assim o período fundamental de iniciação à escrita e criação de hábitos de leitura». Desde 2012, quando Sophia de Mello Breyner foi integrada no catálogo, a Porto Editora lançou livros de Luísa Ducla Soares, Manuel António Pina e Eugénio de Andrade. E quanto a vendas? A resposta de sempre: «Estamos a registar um crescimento muito interessante neste segmento, que, contudo, não podemos neste momento precisar.»
Especialista em literatura infantil, Ana Margarida Ramos, investigadora da Universidade de Aveiro, diz que esta área cultural vive um «momento muito interessante» e talvez irrepetível, na medida em que coexistem no tempo duas gerações muito diferentes. De um lado, autores com 30 ou 40 anos de carreira, como António Torrado, Luísa Ducla Soares, António Mota ou Alice Vieira; do outro, jovens que apostam em novas linguagens (Afonso Cruz, Isabel Minhós Martins, Carla Maia de Almeida, David Machado, entre outros), o que gera uma «imensa variedade de estilos e temáticas», com qualquer coisa de «caleidoscópico». O reconhecimento em festivais estrangeiros também é importante, mas Ana Margarida Ramos recusa euforias ou leituras demasiado positivas, porque «promover os ilustradores não chega» e é preciso «solidificar o trabalho que tem sido feito». Acabada de chegar de um congresso sobre literatura infantil em Atenas, garante que o conhecimento internacional em relação à produção portuguesa ainda é diminuto e «há muito por fazer».
Se as pequenas editoras conseguem manter o seu ritmo de edição, apesar da gravíssima crise económica, Isabel Minhós Martins vê nisso um sinal de resiliência. Logo, de esperança. «É preciso não esquecer o impacto do Plano Nacional de Leitura, mais o trabalho da Rede de Bibliotecas Escolares e da Rede de Bibliotecas Municipais, além do esforço imenso de alguns professores.» E das famílias, claro. »Elas continuam, apesar das imensas dificuldades, a valorizar muito o livro para a infância e a dar muita importância ao facto de as crianças lerem. Talvez por isso, mesmo as que se encontram em apuros continuem a esforçar-se para comprar alguns livros para os filhos.» Carla Oliveira acrescenta ainda, nas iniciativas que podem valorizar a ilustração infantil, exposições que ponham o grande público em contacto com o trabalho dos artistas, como a Ilustrarte (bienal que decorre na Central Tejo) ou a exposição “Como as Cerejas”, que esteve patente no CCB.

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Ilustração de Catarina Sobral para a capa do suplemento Actual (clique para aumentar)

Formada em Design, Catarina Sobral, que lançará uma nova obra durante a Feira do Livro (desta vez com chancela da Pato Lógico), sentiu-se atraída pela liberdade formal que a criação de livros infantis lhe permite. Em Greve, com o seu ambiente alusivo a lutas políticas e sindicais, explorou uma linguagem visual que remete para o construtivismo russo (colagens e sobreposição de fotografia com desenho), «uma coisa muito século XX». Já em O Meu Avô abundam as referências cinematográficas e literárias, algumas só acessíveis aos pais das crianças a que supostamente se dirigem. Supostamente, porque Isabel Minhós Martins garante que «são muitos os adultos que compram os livros da Planeta Tangerina (e outros do género) para consumo próprio».
Debruçada sobre o estirador, como se representou no auto-retrato, Catarina Sobral acredita que há de facto um boom da literatura infantil portuguesa, pelo menos em termos de qualidade artística. E promete continuar o seu caminho, tranquilamente, passo a passo. Controlando se possível, como acontece na Orfeu Mini, todas as fases do processo criativo, da planificação das páginas à escolha do papel e à verificação das cores na gráfica. «O livro de imagens não existe antes de se transformar num objecto físico. Um pdf ainda não é nada. Não se pode tocar. São os aspectos técnicos que determinam o que o livro será.» E é por isso que Catarina gosta de acompanhar tudo, até ao acabamento final. «Estou lá, quando as primeiras folhas impressas começam a sair da máquina.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

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No Dia Mundial do Livro, a Biblioteca Nacional oferece um e-book

A obra em formato digital, sobre gravuras chinesas da colecção de A. E. Maia do Amaral, pode ser descarregada aqui, até dia 25.

Movimento contínuo

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Inércia
Autor: André Carrilho
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 150
ISBN: 978-989-8688-07-1
Ano de publicação: 2014

André Carrilho (n. 1974) é um dos ilustradores portugueses mais premiados e reconhecidos internacionalmente, pelos trabalhos que publica amiúde em publicações de grande prestígio: New Yorker, The Independent on Sunday, Harper’s, Vanity Fair, New York Times, entre outras. Quem conheça o traço elegante das suas caricaturas e cartoons, ficará decerto surpreendido com as imagens que reuniu em Inércia, um belíssimo diário gráfico que cobre cerca de ano e meio de deambulações pelo mundo (Janeiro de 2012 a Agosto de 2013) – editado primorosamente pela Abysmo, em capa dura e com magníficas reproduções em papel couché mate.
Ao invés da sua produção para a imprensa, em que recorre aos mais sofisticados recursos tecnológicos, «os desenhos deste livro foram feitos presencialmente no local que retratam, à mão, com canetas, tintas acrílicas, grafite solúvel e aguarelas», nas páginas de um pequeno caderno, reproduzidas à escala real. O resultado é sempre deslumbrante, oscilando entre a abundância de detalhes (perspectivas urbanas) e uma apropriação difusa de atmosferas (paisagens rurais ou marinhas), servidas por uma paleta forte: vermelhos para as falésias da Costa Vicentina, amarelos para as margens do Douro, tons pastel para as praias de Moçambique, sombras e luzes para a noite de Macau.

A surpresa maior, porém, está na qualidade dos textos em que Carrilho descreve as suas derivas geográficas. Prosa atenta, desconcertante, por vezes irónica, mas sobretudo reflexiva – e saudavelmente avessa a lugares-comuns. A inércia a que o título alude não é a dos corpos que se mantêm estacionários, mas a dos que revelam tendência para «continuar em movimento». É sobre isso que o autor escreve, sobre o movimento contínuo a que se entrega, deslocando-se em permanência, de continente em continente, de voo em voo, de escala em escala, levando consigo o trabalho que envia por e-mail, fazendo questão de circular a «contra-ciclo» dos seus desenhos, numa espécie de «pendularidade simétrica». Precisa de se afastar de casa, onde fica «mais lento, mais ancorado», para ganhar «claridade e leveza». Mas dificilmente se encaixa na dicotomia clássica, a do turista versus viajante. «Ambos têm algo que eu não tenho: disponibilidade para o que encontram no caminho. A minha é limitada, continuo a trabalhar, muitas vezes não tenho tempo para olhar a paisagem.» Será talvez um nómada, alguém que se desloca mas não cria raízes.
Mesmo no outro lado do planeta, em cidades desconhecidas, Carrilho procura criar hábitos de familiaridade, «como se sempre lá tivesse estado». É capaz de passar dias inteiros na mesma esplanada, no mesmo beco, ignorando as dicas dos guias de viagem, até sentir que pertence àquele sítio, até ser capaz de o compreender na sua nudez quotidiana. E o instrumento dessa apropriação nunca deixa de ser o caderno: «Desenhar tem o poder de abrandar tudo, de me tornar mais imerso num canto particular da realidade. Não penso em mais nada a não ser no que estou a ver. Aliás não penso, olho. E é o desenho que encontra por mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Reportagem sobre a situação da literatura infantil em Portugal, por José Mário Silva
- Inércia, de André Carrilho (Abysmo), por José Mário Silva
- Eureka, de Puig Rosado (Documenta), por Alexandra Carita
- Cartas de Cuba, de Ana Glória Lucas (Alêtheia), por Cristina Margato
- Correspondência Agustina-Régio (1955-1968), org. de Alberto Luís e Lourença Baldaque (Guimarães), por Pedro Mexia
- O Tigre e a Serpente, de Noreena Hertz (Lua de Papel), por Cristina Peres

Quatro poemas de Juan Manuel Roca

ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.

***

CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.

***

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.

***

POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.

[in Os Cinco Enterros de Pessoa, selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Glaciar, 2014]

Logo à tarde

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Maratona poética com alguns excelentes e desalinhados poetas, a partir das 17h00, na Zona Franca (R. de Moçambique, 42, Lisboa).

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz (LeYa), e crítica ao livro, por José Mário Silva
- O Enredo Conjugal, de Jeffrey Eugenides (Dom Quixote), por Pedro Mexia
- Lava de Espera, de Fátima Maldonado (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas
- Cartas entre Marcello Caetano e Laureano López Rodó, de Paulo Miguel Martins (Alêtheia), por Manuela Goucha Soares
- Plutocratas, de Chrystia Freeland (Temas e Debates), por Luís M. Faria

O eco dos fantasmas

biografia_involuntária

Biografia involuntária dos amantes
Autor: João Tordo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-672-259-3
Ano de publicação: 2014

Desde que se estreou em 2004, com O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo vem apurando, de romance para romance, uma das dimensões tradicionalmente mais frágeis na ficção literária feita por autores portugueses: o enredo. Fiel a uma linha anglo-saxónica, Tordo é um bom contador de histórias que domina a arte do diálogo, sabe gerar e gerir conflitos entre as personagens, conhece a estrutura dos arcos narrativos, coloca os plot points no sítio certo; enfim, aplica sem mácula um vasto conjunto de técnicas que aprendeu (e ensina) em cursos de escrita criativa. A principal consequência é uma espécie de legibilidade absoluta, sem escolhos. Por muito complexas que se tornem as tramas, por muito retorcidos que sejam os dilemas dos protagonistas, tudo bate certo, tudo se explica, tudo se justifica. E até a ambiguidade, quando existe, assume a forma de um imperativo racional. Ao escritor interessa levar cada história ao seu limite, desdobrá-la e estendê-la até onde ela consiga chegar. O trabalho sobre a linguagem, esse, é secundário, embora venha ganhando importância nos livros mais recentes. Em Biografia involuntária dos amantes é notório o salto na qualidade estilística, mas muitas das descrições de lugares, estados atmosféricos ou ambientes domésticos ainda se limitam a cumprir, com certo grau de artificialismo, uma função utilitária (de transição entre cenas, por exemplo).
O narrador deste romance é um professor universitário que vive em Pontevedra, na Galiza. Divorciado, com uma filha adolescente muito problemática, ele avança a passo de caracol na sua tese de pós-doutoramento sobre Harold Pinter e Sarah Kane, tem um programa de rádio com um nome beckettiano (Dias Felizes), e uma existência bastante monótona, para não dizer banal. Tudo muda quando se cruza com um poeta mexicano desterrado, Miguel Saldaña Paris, de quem se torna amigo. Quando este lhe pede, após um acidente em que atropelam um javali, para ler o manuscrito deixado pela ex-mulher, Teresa, recentemente falecida, vítima de cancro, inicia-se uma verdadeira descida aos infernos. Saldaña Paris não tem coragem de ler o texto deixado pelo objecto do seu amor obsessivo porque sabe que o «problema das palavras» não está no que permitem recordar mas no que «podem ajudar a destruir». A melancolia extrema do mexicano contamina então o narrador, ao descobrir no tal texto as primeiras memórias de Teresa, indiciadoras de um negrume tremendo que a investigação subsequente confirmará.
Decidido a «averiguar o passado para que este não se transformasse no monstro do futuro», o professor universitário pede uma licença sem vencimento e dedica-se a tempo inteiro ao amigo (entretanto internado no hospital, em estado catatónico), procurando solucionar aquela vida e dar-lhe sentido, para assim solucionar e dar sentido à sua. Parte então numa demanda, a de compreender a relação amorosa condenada de Saldaña Paris e Teresa, o que o leva a descer degraus atrás de degraus, até ao fundo de uma realidade duríssima e escabrosa, onde reverbera o «grito contínuo dos velhos terrores» de que fala um poema de Dylan Thomas. Pelo caminho, encontra muitas sombras e equívocos, uma corte de fantasmas e seus ecos. Vai da Galiza a Londres, depois ao Canadá e a Lisboa, seguindo pistas e indícios, sob o signo dos acasos, que o levam, entre outros, a questionar personagens que vêm de romances anteriores de Tordo, como Luís Stockman (de O Ano Sabático) ou Raul Cinzas (de Anatomia dos Mártires).
À semelhança de O Ano Sabático, este é um livro sobre o poder redentor da amizade. Na sua busca incansável para compreender a história de Saldaña Paris, o narrador não deixa pedra por virar nem ponta por unir. Infelizmente, essa exaustividade nem sempre joga a favor do romance. Há demasiadas conversas à mesa e ao telefone; quase sempre excelentes diálogos, mas muito parecidos uns com os outros. As melhores páginas do livro são as 80 do «manuscrito de Bríon», supostamente escritas por Teresa sobre a sua adolescência, a descoberta da sexualidade com um adulto, a obsessão por um tio e a fuga a uma família claustrofóbica. É um texto arriscadíssimo na temática e no tom, mas surpreendentemente bem conseguido – um sinal de que Tordo pode e deve sair da sua zona de conforto. No fim, ficamos com pena de que esse capítulo não seja mais longo e o resto do livro mais curto.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Autobiografia, de Thomas Bernhard (Sistema Solar), por Pedro Mexia e Ana Cristina Leonardo
- Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo (Alfaguara), por José Mário Silva
- Tenho o Direito de me Destruir, de Kim Young-ha (Teorema), por José Guardado Moreira
- Canadá, de Richard Ford (Porto Editora), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Conversa com Teolinda Gersão, por José Mário Silva
- Passagens, de Teolinda Gersão (Sextante), por José Mário Silva
- O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman (Presença), por José Guardado Moreira
- O Fim do Poder, de Moisés Naim (Gradiva), por Luís M. Faria
- Vidas Instáveis, de António Mega Ferreira (Abysmo), por Pedro Mexia

Do sítio das palavras

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Tudo são histórias de amor
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-989-671-198-6
Ano de publicação: 2014

No novo livro de contos de Dulce Maria Cardoso – Tudo são histórias de amor: título enganoso e de uma ironia amarga, como o leitor rapidamente perceberá – os textos são quase sempre construídos a partir de um núcleo central ocupado por uma imagem muito poderosa, cuja carga dramática, ou poética (ou ambas), se expande depois ao resto da prosa, contaminando-a; isto é, iluminando-a. Pode ser a aparição de uma beleza angélica num «além-mundo azul», a ilha do primeiro conto, com a população de faroleiros e suas famílias a devorarem a cesta de cerejas trazida pela forasteira («O sumo vermelho escorria-lhes pelos queixos e pelas mãos»), prenúncio de uma carnalidade que destruirá a inocência do narrador, inclinando-o de vez para o exercício do mal. Pode ser um cão habituado a roubar nacos de carne ao talhante e que um dia aparece em casa com a perna de um bebé, uma «perna rechonchuda que terminava num pé gordo com cinco dedos perfeitos». Pode ser uma mosca a debater-se dentro de um copo com resto de vinho rosé, durante uma tépida disputa conjugal.
Duas destas imagens fortes são protagonizadas por automóveis. Em Os anjos por dentro, a história de tensões familiares contidas, na sequência de um piquenique junto ao rio, desemboca numa situação fantástica quando o narrador, acompanhado pelo irmão e pela mãe, avança por um atalho, a subir, e depara com um Opel Kapitan em sentido contrário, «animado por vontade própria», sem ninguém ao volante, pronto a esmagá-los. De repente, o carro parou, «simplesmente», impossivelmente, «como se se tivesse esquecido de como as coisas são». Esta espécie de milagre torna-se um tabu («Nunca falámos sobre o que aconteceu naquele dia ao voltarmos do rio»), mas a sua força reverbera e dá sentido à «violência do amor» que pressentimos, subterrânea, por baixo do que é dito. «Talvez não tenha acontecido tudo exactamente como contei», admite ainda assim o narrador.
E alguma vez contamos as coisas exactamente como aconteceram? Veja-se a narrativa inspirada no célebre caso do desaparecimento de Joana, a menina algarvia de oito anos cuja mãe foi condenada por homicídio. Há elementos que nos aproximam do hediondo crime (alguns factos, a brutalidade dos interrogatórios policiais, a confissão, os impulsos da justiça popular), mas Dulce Maria Cardoso logo introduz uma dimensão quase onírica que anula qualquer tentação realista, justamente através da imagem de um automóvel, um Volkswagen carocha amarelo, brinquedo preferido da menina. Esta, antes de desaparecer sem deixar rasto, escondera-o debaixo de terra como se fosse «uma boa semente», da qual virá a nascer, no arrepiante final do conto, um «carocha amarelo verdadeiro». Em Não esquecerás, o ponto de partida é outra história real: a do acidente de Entre-os-Rios, quando um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro ruiu, arrastando dezenas de pessoas para as águas do Douro. «Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada», diz-se logo de início, e assim somos levados debaixo de chuva até ao autocarro que parou ali adiante, resgatando quem procura escapar da intempérie. Lá dentro, alegres por terem visto as amendoeiras em flor, estão as futuras vítimas. Pessoas normais, gestos normais, vidas normais. A tragédia está aqui, nesta normalidade ameaçada, a poucos minutos de mergulhar no abismo da morte. Transformados em personagens sem nome, os passageiros são como que redimidos do destino que a negligência do Estado lhes teceu. E aqueles cabelos de rapariga, «suspensos no ar quando a cabeça se volta», pairarão assim para sempre na memória do leitor que, como a história, não chega a atravessar a ponte.
Num texto autobiográfico, em que conta como «matou» uma parte de si mesma para poder ser ficcionista, Dulce Maria Cardoso afirma: «Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é bom.» Neste livro, as vidas espreitadas estão muitas vezes sujeitas ao império da maldade, própria ou alheia, essa «planta carnuda» que lança «ramos vigorosos para todo o lado». Num dos contos mais negros, Humal, um ser monstruoso só comove os aldeões com a beleza do seu canto quando é sujeito a torturas físicas: «Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infligir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.» São vários os contos do livro (por exemplo, Este azul que nos cerca ou Iguais) em que esta brutalidade visceral se manifesta. Entregues ao «martírio de pensar» e incapazes de «domar o tempo», as personagens são como pequenos animais indefesos, à mercê tanto da «solidão do que envelhece» como da «impiedade do que é novo». Acima deles, a autora monta as armadilhas e observa com rigor clínico. Quanto à escrita, exemplar, é sempre feita a partir do «local do crime». Isto é, «do sítio das palavras».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com José Rentes de Carvalho, autor de Portugal, a Flor e a Foice (Quetzal), por José Mário Silva
- Tudo são histórias de amor, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), por José Mário Silva
- O Vidro, de Luís Quintais (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- A Guerra que Acabou com a Paz, de Margaret MacMillan (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Últimas pétalas da metralha

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Os Memoráveis
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 342
ISBN: 978-972-20-5436-2
Ano de publicação: 2014

Numa casa de madeira e vidro, em Washington, Frank Carlucci, o antigo embaixador americano em Lisboa, tenta convencer uma repórter portuguesa, de 28 anos, a participar numa série da CBS, com coordenação do seu afilhado, Robert Peterson. Em A História Acordada, a ideia é reunir um conjunto de narrativas edificantes, «luminosas», próximas do «júbilo», sobre transições pacíficas para a democracia: na República Checa, na Hungria, na Alemanha quando caiu o Muro, e, antes de todas essas, em Portugal, a cuja Revolução dos Cravos será dedicado o primeiro episódio. Esta cena, a primeira de Os Memoráveis, decorre no final de 2003, a poucos meses do trigésimo aniversário do 25 de Abril.
Aceitando regressar à pátria em trabalho, depois de ter vivido experiências traumáticas em cenários de guerra, Ana Maria Machado tem como missão «recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa». Fazendo equipa com dois colegas de curso, também já nascidos em liberdade (uma jornalista instintiva, capaz de aprender depressa; e um operador de câmara a tender para o distanciamento cínico), ela começa a sua busca das «últimas pétalas da metralha» tendo como bússola uma fotografia encontrada em casa do pai. Nessa imagem, captada durante um jantar em Agosto de 1975, sentam-se à mesma mesa vários pesos-pesados da Revolução, escondidos atrás de alcunhas que são fáceis de descodificar: El Campeador é Otelo Saraiva de Carvalho; Charlie 8 é Salgueiro Maia; Vasco Lourenço, o Oficial de Bronze. Mas há mais gente: um castiço da rádio com «olhar guevarista» (Salamida, responsável por um incidente, ao benzer de forma imprópria o conteúdo de uma terrina, que envenenará a noite), o próprio fotógrafo, o cozinheiro, três barbudos «esguedelhados», o pai e a mãe de Ana Maria, um casal de poetas.
A força da fotografia está na «dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história» – isto é, no lugar onde se esboçou o que poderia ter sido e não foi. Naquela noite de desavenças e reconciliações, os oficiais presentes traziam papéis dobrados no bolso da camisa, documentos que mudariam, se assinados por todos, «o rumo deste país». Mas não mudaram coisa nenhuma, como se perceberia definitivamente três meses depois. Ao entrevistar uma a uma aquelas figuras, a equipa de jovens jornalistas vai entrando no labirinto da revolução, «fábula» contada por quem a viveu. Além de se evocarem as contingências, acasos, «milagres» e mitos daquele dia em que cinco mil heróis anónimos derrubaram um regime podre, surgem – dolorosas – as marcas de um falhanço colectivo que condenou estes homens «à perda e à desilusão». No seu desamparo, eles assemelham-se à imaginária vigésima quinta coluna, um «comboio de carros militares que durante trinta anos não encontra o objectivo, e apesar de se ir desfazendo, perdendo rodas, espelhos, torres, traves, condutores, não desiste do seu propósito, e vai avançando ruas fora, sem parar».
Lídia Jorge articula, com mestria narrativa e requinte estilístico, os vários ângulos desta investigação, na procura de uma verdade a que talvez seja impossível fazer justiça, como se comprova no guião final do episódio (terceira e última parte do romance). O esteio de Os Memoráveis, que lhe dá consistência e espessura, é a história da difícil relação entre Ana Maria e o pai, António Machado, «figura de papel», antigo cronista de referência, «profeta em relação ao mundo» mas «cego em relação a si mesmo». Na sua decadência, no seu penoso processo de desligamento e clausura, ele simboliza todos os derrotados, mesmo os póstumos. E é dele que emana a melancolia que atravessa o livro de ponta a ponta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges