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O que aí vem (Porto Editora)

Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero; Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques; Às Vezes o Mar Não Chega, de Sofia Marrecas Ferreira; O Cerco de Krishnapur, de J. G. Farrell; Últimas Notícias do Sul, de Luis Sepúlveda e Daniel Mordzinsky.

Post do mês

Este extraordinário pequeno texto de um grande romancista adiado.

Graffiti & Literatura (uma boa mistura)


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Mais exemplos aqui.

‘Modernista’, n.º 2

O segundo número da revista do Instituto de Estudos sobre o Modernismo (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova) já está disponível online, com os artigos em pdf. Destaque para o dossier sobre ‘Álvaro de Campos e arredores’.

Kafka na Achada


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Quatro poemas de Inês Fonseca Santos

AS COISAS

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.

***

AS COISAS DO CORPO

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.

***

AS COISAS NAS PONTAS DOS DEDOS

Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.

***

AS COISAS FRÁGEIS

Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.

Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.

[in As Coisas, Abysmo, 2012]

Capa de Pedro Marques nomeada para os prémios BSFA


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Esta capa de Pedro Marques é uma das candidatas aos prémios da BSFA (British Science Fiction Association), na categoria de «Best Art». O romance Osama, de Lavie Tidhar (PS Publishing), parte de uma realidade alternativa em que o 11 de Setembro não aconteceu e onde uma série de livros populares sobre um vingador chamado “Osama Bin Laden” faz furor, sendo que esses livros de pura ficção descrevem os atentados de Dar-es Salaam, de Nairobi e o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001.
Os vencedores dos prémios BSFA serão anunciados em Abril.

Every poet needs a Virgil

The mystery of poetry editing.

Tatuagens literárias

Eis um site só sobre «tattoos based on books, poems, lyrics, and many other literary sources».

Kaui Hart Hemmings: “Quis dar às personagens oportunidade para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras”

Ao agradecerem o Globo de Ouro para melhor filme dramático, atribuído a Os Descendentes, o produtor (Jim Burke) e o realizador (Alexander Payne) não se esqueceram de referir Kaui Hart Hemmings, a autora do romance em que o filme se baseia, publicado originalmente em 2007 e a semana passada em Portugal (com chancela da Presença). Por e-mail, Hemmings mostrou-se satisfeita com o prémio: «Estou muito feliz com o sucesso do Alexander, que fez uma belíssima adaptação cinematográfica do meu livro. Concordei com todos os ligeiros ajustes feitos à história e acho que as duas obras se complementam na perfeição.»
Tanto no livro como no filme, a visão paradisíaca e os estereótipos turísticos são postos de lado. «Quis mostrar o Hawai através do olhar de pessoas concretas, simples hawaianos, como eu», explica Hemmings. Hawaianos que lidam com questões universais: a perda de um ser amado, a traição amorosa, as disputas familiares na hora das partilhas, o sentido de herança em relação ao que as gerações anteriores legaram. «Quis que a história funcionasse como uma força silenciosa – algo que empurra secretamente as personagens de acção para acção, confinando-as, manipulando-as, inspirando-as. Quis também que a História do Hawai e a sua geografia figurassem no livro, sem no entanto lhes atribuir uma carga simbólica especial.»
A narrativa de Os Descendentes, um dos romances de estreia mais bem recebidos dos últimos anos nos EUA, amplia e desenvolve um enredo que Hemmings esboçara em The Minor Wars, incluído na sua primeira obra (o volume de contos House of Thieves, de 2005, ainda não traduzido para português). A escala do romance permitiu-lhe outro fôlego: «Pude explorar melhor cada uma das personagens. Dar-lhes oportunidades para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras.» O principal trunfo literário da autora é a sua capacidade de se aproximar das emoções – muitas vezes em estado puro: violentas, contraditórias – sem nunca cair na armadilha do sentimentalismo. «Eu nunca poderia ser melodramática. Procuro evitar isso a todo o custo. Espero que o texto consiga comover os leitores, mas de uma forma natural, verdadeira e honesta.»
O protagonista do romance é um advogado, Matthew King, que se vê forçado a tomar conta das duas filhas quando a mulher, Joanie, entra em coma irreversível depois de um acidente. «Porque não pode falar, porque está ali, na cama do hospital, mas ausente, o que dela sabemos vai sendo contado por outros. E como cada personagem tem a sua perspectiva, Joanie acaba por tornar-se uma figura complexa, com muitas dimensões. Para mim foi um desafio, sobretudo porque tento evitar os flashbacks.» Na preparação para o livro, Hemmings pesquisou o modo como diferentes famílias na mesma situação lidaram com o processo de despedida e procurou o máximo de verosimilhança, dando a ler as passagens do foro clínico a um médico que trata doentes em coma.

Um dos temas centrais do livro é o abismo entre as gerações e a dificuldade de entendimento entre elas, particularmente notório na forma como King se relaciona com as filhas problemáticas, para quem a autoridade paterna é pouco menos do que risível. Num momento de desabafo, o advogado ataca os mais novos e duvida da sua utilidade futura. Em vez de criarem trabalho e riqueza, queixa-se, eles vão limitar-se a fumar drogas, tirar cursos de escrita criativa e «rir-se de nós». É um momento de ironia, porque um curso de escrita criativa foi precisamente o que Hemmings fez na Universidade de Stanford (California). «Eu não só gostei muito desse curso como precisava dele. Sempre adorei ler e sentia que tinha uma voz, mas faltava-me saber como é que transformamos a linguagem, as palavras, numa obra coerente.»
Se os direitos do livro para o cinema foram vendidos no início de 2007, ainda antes de ser editado, a escritora nunca acreditou que o eventual filme chegasse à fase de produção. Só uma ínfima parte das obras adquiridas chega ao fim do processo e não seria de esperar que tal acontecesse com o romance de uma autora então praticamente desconhecida. A paixão de Payne pela história, porém, desbloqueou todos os entraves. «Ele é incrível. Veio para o Hawai acabar o argumento e tornámo-nos bons amigos.» Tão bons amigos que o realizador lhe concedeu o privilégio de entrar no filme como actriz, numa pequena cena em que interpreta a secretária de King (George Clooney). «Foi óptimo», garante. E brinca: «Ele estava um bocadinho intimidado. Mas depois disse-lhe para relaxar, porque no fundo eu sou só uma pessoa normal.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

Eis o sofá da Livreira Anarquista:

Bem catita. E ela merece.

O que aí vem (Planeta)

Os Segredos da Maleta Vermelha, de Alexandra Leal e Paulo Cosme Pinto; Cascos, talos, folhas e outros tesouros nutricionais, de Alexandre Fernandes; Manual para não Morrer de Amor, de Walter Riso; Um Erro Inconfessável, de Emma Wildes.

Livraria Portugal vai fechar

É mais uma livraria que fecha portas. Uma livraria histórica, onde em tempos pré-FNAC perambulei entre estantes ajoujadas e a banca das novidades (nem sempre muito recentes). Uma livraria antiga, com cheiro a pó dos livros e uma certa desarrumação que era uma forma de charme, como se o leitor tivesse de ser seduzido pela dificuldade em encontrar a obra pretendida. Sem grande surpresa, um dos sócios explica que a situação «insustentável» se deve às «grandes alterações no mercado livreiro», à «quebra das vendas» e à «insuficiência de meios para pagar as despesas». Enfim, uma receita para o desastre.
Pior ainda: tendo em conta o rumo que as coisas levam, temo bem que outras livrarias históricas venham a conhecer muito em breve a mesma sorte.

PS – No seu blogue, a Sara Figueiredo Costa assinala com tristeza mais este desaparecimento, evocando memórias pessoais e familiares associadas à livraria da Rua do Carmo.

Prémio Fundação Inês de Castro para Gonçalo M. Tavares

Depois de ter sido distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com o Prémio Fernando Namora, o romance Uma Viagem à Índia (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, acaba de ganhar o Prémio Fundação Inês de Castro. Do júri fizeram parte José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia. Fernando Echevarría, de 82 anos, recebe um Tributo de Consagração pelo conjunto da obra literária.
A entrega do prémio será feita a 4 de Fevereiro na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.

Impossível como uma raposa

Vale a pena ler o excelente micro-conto de Margarida Ferra, publicado no site das Histórias Daninhas.

Leitura integral da ‘Mensagem’ pessoana


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É na quarta-feira à noite, na galeria Gesto (Porto).

Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge

PEQUENOS VIDROS AZUIS

Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último —
e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
— as velas de um sopro apagou —
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.

***

ESCHSCHOLZIA

Além naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no continente) está o chão de amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante à vulgar papoila
se não fôra o amarelo intenso
sobre o mar da ilha
estremece ao menor sopro de vento
ferida de pele queimada que recorda vencedores e derrotados no plaino de [Waterloo.

Pôs o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada, campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho do herbário. Na despedida,
não sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O obscuro azul da noite
descia, triste cravo de bronze sobre a leal flor
do linho que vinga sem cuidado.

***

OS AMARELOS DE NOVEMBRO

Não tem palavras a minha canção preferida. Tem antes
os amarelos queimados de novembro. Gosto de gente antiga e
obscura, gente culpada, jovem ou envelhecida para
quem a vida não passa de um contínuo de sombra
por isso sei abraçar por isso partem sem regresso.
Sombras que surpreendo — não quebres não
estragues o amarelo de novembro.

E aquele que está sentado à nossa frente é entre
todas as coisas
a ideia mais perfeita, a mais real, a mais sólida.
No instante seguinte nada sabemos.
É assim o nosso modo de ser e a própria
condição do amor. Destruir,
riscar até desaparecerem os amarelos de novembro.

[in Lagoeiros, Relógio d'Água, 2011]

Skoob

Eis a maior rede social para leitores do Brasil.

‘Long live the Book’

Todas as declarações de amor aos livros, mesmo as mais simples, banais ou previsíveis, têm qualquer coisa de comovente.

Assim uma espécie de mapa da Amazon

«Whenever you look at an item on Amazon, the site recommends related items that you might be interested in. So in a way, these items are connected by how people buy. Artist and designer Christopher Warnow uses the metaphor to create a network of Amazon products, where each node represents an item, and connections, or edges, represent common bonds of recommendations. Simply enter an Amazon link, and Warnow’s software generates a network.»

Um vazio enorme que cai

Uma Vasta e Deserta Paisagem
Autor: Kjell Askildsen
Título original: Et stort øde landskap
Tradução: Mário Semião
Editora: Ahab
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-97228-3-5
Ano de publicação: 2011

O norueguês Kjell Askildsen, um dos maiores ficcionistas escandinavos da actualidade, foi revelado aos leitores portugueses pela Ahab, em 2010, com Um Repentino Pensamento Libertador, antologia dos seus melhores contos. Numa dessas narrativas curtas (Crias de gaivota), um casal discute a sua relação amorosa de forma elíptica, cheia de não-ditos, enquanto ao fundo a ilha de onde partiram para um passeio de barco à vela se incendeia, materializando a violência implícita no diálogo. Os contos de Askildsen funcionam quase sempre assim: com uma imagem forte no centro, a dar sentido a uma prosa descarnada e agreste, palco para uma visão muito negra (por vezes quase niilista) do que são as relações humanas.
No segundo livro deste autor que a Ahab publica, Uma Vasta e Deserta Paisagem, o equivalente da ilha a arder pode ser um acidente rodoviário, o prego que alguém espeta numa árvore ao regressar de um funeral, uma carta de baralho queimada às escondidas (sem que se perceba bem porquê), um cão morto descoberto na cave e que é preciso enterrar. Símbolos que absorvem a energia malsã que circula entre personagens resignadas à mais extrema solidão, ao mais absoluto desamparo. Um dos contos (O jóquer) começa com um homem a abrir a janela da sala. De pé, calado, ele olha para o jardim das traseiras e escuta o rumor da chuva: «Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem.»
O vazio enorme cai igualmente sobre os protagonistas dos outros contos: velhos sorumbáticos e misantropos, familiares desavindos, casais incapazes de comunicar, irmãos gémeos que se odeiam. Em comum têm um mesmo sentido da angústia como estado natural das coisas, uma consciência de que o «deserto» entrou de vez nas suas vidas e tornou impossível qualquer espécie de consolo. No momento em que uma personagem se mostra invulgarmente simpática e positiva, outra apressa-se a desvalorizar o arremedo de luz: «quando está sóbrio de certeza que também se sente só e insatisfeito, toda a gente se sente assim, simplesmente não o sabem, ou dão-lhe outro nome».
Este pessimismo radical faz de cada história um verdadeiro soco no estômago. Mas se o soco dói tanto, e por tanto tempo, é porque a escrita seca, precisa e finamente cinzelada de Askildsen exponencia a força devastadora do golpe.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Partilhar estantes

How to Say “I Do” to Shared Bookshelves Without Ruining Your Relationship.

O que aí vem (Dom Quixote)

As Palavras do Corpo – Antologia de Poesia Erótica, de Maria Teresa Horta; Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado; Nova Teoria do Mal, de Miguel Real; A Vida Privada de Maxwell Sim, de Jonathan Coe; Dias de Expiação, de Michael Gregorio.

599 poemas

Já instalei a aplicação que me dá poesia portuguesa para o iPhone (com bastantes inéditos de novos autores). Por exemplo este, de Minês Castanheira:

POEMA AZUL

Então não o sabíamos, já não se escrevia nos cafés,
porque já não se fumavam os vícios, Pessoa estivera sempre
morto e os demais poetas passeavam agitando as estátuas,
gritando versos à multidão surda.
Deixou de interessar contar quantos éramos à mesa sem
sinais de fogo.
Na certeza de escrever-te, perdida a voz que te falasse,
assumi os óculos de sol pequenos e quadrados
e castanhos monóculos por onde espreitar o estranho
mundo inavegável.
Então penso: cachimbo, fumo, caixa, café, chapéu, silêncio.

Vê como tenho evitado escrever-te.
As cidades não são líquidas,
reproduz-se em brandos depósitos a seca da geração anterior.
O passado é feito de muitas palavras – não é essa a
linguagem que persigo – e os que vieram antes de nós
afogaram-se em pátria, ponte apontada a cinza.
E fizeram baús maiores do que gente.
E fizeram grande gente que mata à fome um poema,
que não vê para além da caixa ou do que a sua tampa oculta.

Todo esse recolher das coisas aos seus lugares
exactos
leva ao extremo a tua ausência – se não estás aqui não
estás inteiro em lugar algum –
és um corpo entornado sobre o tapete. E também essa
recordação se há-de acomodar em nós, plantada em pele
fértil de pátria, ponte e cinza, ocupando
caixas e caixas de chapéu.
E dela guardaremos firme promessa. Agitando as estátuas,
domesticando o coração à cadência de novos sons internos.

De pouco me serve agora dizê-lo, mas não pertenço
a esse azul.
Nem quero barcos que hesitem sobre a mesma onda, pontes
por onde continuar a tua longínqua viagem,
moldura pequena, quadrada para encaixilhar a mancha
longa e caudalosa.
Quando corro dentro de mim meço apenas alguns palmos
e sujo o chão logo à entrada, mas sítio algum
se manteve intacto assim, como este, depois de teres partido.

Que se fumem os vícios. Fume-se esta linguagem que
persigo.
O ar passa a ter um cheiro doce e quente sempre que tento
escrever-te. Retornas em pedacinhos
em certas tardes de Inverno, como sedimentos de palavras
em terra firme.
Em doses virais.
Deixo que as formas me surpreendam e posicionando o
castanho monóculo, acendo o cachimbo imaginário para encher
de fumo no café a caixa de onde subtraio o chapéu íntimo.

Os que vieram antes gritam às estátuas. Vê como tenho
evitado escrever-te. Houve quem se escusasse ao furto das
águas e fosse lançar-se sobre as
palavras.
Nunca percebi porque tanto falam do mar. É nas trincheiras
deste jardim que mergulho, com todo este evitar-te e com todo
este escrever-me. E nele não há azuis.

A Modianerie

«Meticuloso arquivista de si mesmo», Patrick Modiano expõe-se como nunca na mais recente edição dos Cahiers de l’Herne. Fotos, cartas, telegramas, fac-similes, manuscritos, desenhos, recortes de imprensa: não falta lá nada.

Maravilhas da paternidade

«No queque, gosto sempre de comer primeiro as pétalas», disse o Pedro, ao lanche.

25 coisas que os escritores deviam começar a fazer

Podiam ser mais coisas, podiam ser menos coisas, mas listas deste tipo querem-se redondas.

The Short Story Club

Uma excelente iniciativa da edição online do The Telegraph.

Diz Alain de Botton:

«The nirvana would be if the questions raised by Oprah Winfrey would be answered by the faculty at Harvard»

Primeiros parágrafos

«A meio do jantar, eu sabia que iria reviver todo o serão pela ordem inversa – o autocarro, a neve, a subida pelo ligeiro declive, a catedral a erguer-se à minha frente, a desconhecida no elevador, a sala de estar enorme e amontoada onde rostos iluminados por velas resplandeciam com gargalhadas e premonições, a música de piano, o cantor de voz roufenha, o odor a pinheiro por toda a parte enquanto eu vagueava de divisão em divisão, a pensar que talvez naquela noite devesse ter chegado muito mais cedo, ou um pouco mais tarde, ou nem sequer devia ter ido, as clássicas águas-fortes a sépia na parede junto da casa de banho onde uma porta giratória se abria para um corredor longo de acesso a zonas privadas não abertas a convidados mas que dava outra curva para o corredor e depois, por milagre, voltava a conduzir à mesma sala de estar, onde mais pessoas se tinham reunido, e onde, junto da janela onde pensei ter encontrado um lugar tranquilo atrás da enorme árvore de Natal, alguém se virou de repente para mim, estendeu a mão e disse:
– Sou a Clara.
Sou a Clara, dito num ápice, como se fosse o facto mais óbvio do mundo, como se eu sempre o tivesse sabido, ou o devesse saber, e, vendo que não a reconhecera, ou talvez estivesse a tentar não o fazer, ela me ajudasse a acabar com o fingimento e a dar um rosto ao nome que decerto já todos tinham mencionado muitas vezes.»

[in Oito Noites Brancas, de André Aciman, trad. de Maria João Freire de Andrade, Matéria Prima, 2012]

Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

Prémio T. S. Eliot 2011

O relato da controversa edição deste ano do Prémio T. S. Eliot, atribuído pela Poetry Book Society do Reino Unido, está no blogue da revista Agio, num post de Ricardo Marques (que traduziu três poemas de John Burnside, o vencedor).

Uma mascote para a Bertrand

A Bertrand acaba de lançar o concurso “Leitores de todos os tamanhos”, que desafia os ilustradores portugueses a criarem uma mascote a ser usada nos diversos suportes de comunicação das Livrarias Bertrand. Os trabalhos concorrentes ao prémio (2500 euros) devem ser enviados até 9 de Março. Mais informações e o regulamento, aqui.

Russell Edson (menos as danças)

Logo à tarde, na livraria café-bar Gato Vadio (Porto).

Regresso a Buenos Aires

Um breve diário de Ricardo Piglia, no suplemento Babelia do El País.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Kaui Hart Hemmings, autora de Os Descendentes (Presença), por José Mário Silva
- A Persistência da Obra – Arte e Política, de vários autores, com organização de Tomás Maia (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- História Económica de Portugal, de Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Munch Miranda (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
- O Colosso de Maroussi, de Henry Miller (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
- Os Constituintes de 1911 e a Maçonaria, de António Ventura (Temas e Debates), por Valdemar Cruz
- Homem versus Estado, de Herbert Spencer (Alfanje), por Carlos Bessa
- A Arte da Crítica, de Álvaro Manuel Machado (Presença), por Pedro Mexia
- O Horizonte, de Patrick Modiano (Porto Editora), por José Guardado Moreira

CCB: sai António Mega Ferreira, entra Vasco Graça Moura

Eis uma notícia que me deixa perplexo. A Secretaria de Estado da Cultura acaba de anunciar a substituição de António Mega Ferreira por Vasco Graça Moura, na presidência da Fundação Centro Cultural de Belém. Se Mega Ferreira, nos dois mandatos à frente da instituição, deu «provas de brilho, criatividade e responsabilidade no cumprimento da missão que lhe foi incumbida», porque razão sai agora, quando por lei ainda podia ficar à frente do CCB durante mais três anos? Não se entende. Ou melhor, percebe-se uma coisa muito simples: sem pôr em causa as qualidades de Graça Moura e a sua grande experiência em cargos desta magnitude, há aqui claramente uma mudança de azimute político. Onde estava um intelectual mais ou menos alinhado com o PS, passa a estar um intelectual ostensivamente alinhado com o PSD. Numa altura em que assistimos ao verdadeiro assalto da EDP e outras empresas de forte participação estatal, por parte dos boys e girls laranjinhas (mais uns quantos centristas), a nomeação de Vasco Graça Moura para o CCB vai parecer mais do mesmo.
Perante o facto consumado, resta enaltecer o excelente trabalho feito por Mega Ferreira no CCB, nomeadamente as muitas iniciativas de cariz literário (as participadíssimas comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) Esperemos agora que Vasco Graça Moura consiga prosseguir este movimento de abertura do CCB aos temas literários.
Cá estaremos para ver.

O que aí vem (Sextante)

Travessa da Abençoada, de João Bouza da Costa; A Grande Arte, de Rubem Fonseca; Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin; Cinzas de Abril, de Manuel Moya; A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza.

Perder a fé

Na ficha técnica de Blankets, uma novela gráfica de Craig Thompson que a Biblioteca de Alice (nova chancela da editora Devir) lançou no final de 2011, há uma pequena nota de agradecimentos que começa por sublinhar a «generosidade» do autor e termina com uma menção a Pedro Miranda, «por um certo dia ter brandido, indignado, um Blankets no ar». Rui Santos, criador da Biblioteca de Alice, ainda hoje recorda esse dia: «Foi há seis ou sete anos. O Pedro Miranda, que é um dos sócios fundadores da Devir, estava entusiasmadíssimo com o livro e desafiou-me: “Tens de ler isto, já!”. A verdade é que fui resistindo àquela ordem. Uma história sobre as dificuldades de um rapaz do campo durante o processo de crescimento, mais o seu primeiro amor, não era coisa que me atraísse por aí além. Eu estava mais virado para o Batman. Mas depois resolvi dar uma hipótese ao Craig e arrependi-me de não ter seguido logo o conselho do Pedro. Fiquei completamente maravilhado.»
Assim que surgiu a oportunidade de comprar os direitos para Portugal, Rui Santos arregaçou as mangas e pôs mãos à obra com uma equipa de cúmplices, todos eles amantes da BD e dispostos a tornar viável uma edição arriscada, uma vez que imprimir apenas mil exemplares de um livro de capa dura com 600 páginas eleva muito o preço por unidade. A principal preocupação foi respeitar a obra original até ao mínimo detalhe gráfico, para que o obsessivo trabalho de Thompson em cada prancha não fosse posto em causa. «Eu já achava que o Craig merecia todo o nosso empenho, toda a nossa paixão e os muitos fins-de-semana perdidos. Mas quando o conheci, esse sentimento aprofundou-se. Porque ele não é só um grande artista, é também um tipo extraordinário, muito simples e humilde», lembra Rui Santos, que levou Thompson «a comer um robalo grelhado em Paço d’Arcos de que ele ainda hoje fala».

Craig Thompson nasceu no Michigan, em 1975, mas mudou-se ainda criança para o Wisconsin, onde cresceu com o irmão mais novo, Phil, no seio de uma família de fundamentalistas cristãos. Livro assumidamente autobiográfico, Blankets acompanha o percurso de Craig desde a infância (quando partilhava o quarto e a cama com Phil) até à idade adulta (partida para a universidade e autonomia em relação aos pais). Trata-se da crónica de uma adolescência sem nada de invulgar, semelhante à que viveram milhões de outros jovens norte-americanos. No centro da narrativa, dois pontos de viragem existenciais: o primeiro amor (com os seus êxtases, mas também as suas desilusões) e uma crise de fé. No fundo, Blankets é a história da libertação de um rapaz espartilhado pela rigidez moral da família e da sociedade marcadamente religiosa que o rodeia. Thompson desenhou, num espantoso preto-e-branco, todos os dilemas que o atormentaram, fazendo a exegese visual de várias passagens da Bíblia como forma de explicar o perigo das leituras literais, sobretudo num texto cujas palavras, ao invés de provirem da «boca de Deus», foram «subtilmente modificadas por gerações de escribas» e «diluídas» pelas sucessivas traduções ambíguas. Ao assumir a perda da fé, ele reage contra as respostas únicas que lhe impuseram desde pequeno. E resume tudo numa frase: «A dúvida dá-nos ânimo.»

Não foi, porém, por descrever as tribulações de um jovem banal, a braços com as incertezas típicas de quem descobre a complexidade do mundo, que Blankets se transformou numa novela gráfica de culto, elogiada publicamente pelos mais brilhantes mestres do ofício (de Art Spiegelman a Eddie Campbell), além de ter arrebatado uma mão cheia de prémios (três Harvey, dois Eisner e dois Ignatz). O que torna Blankets uma obra-prima é o modo como Craig construiu um mosaico perfeito, em que a unidade entre texto e desenho atinge pontos extremos de criatividade, elegância e invenção gráfica. Cada um dos nove capítulos funciona isoladamente e em função do conjunto, como os vários quadrados cosidos de que é feito o cobertor que a primeira namorada oferece ao protagonista (metonímia que, não por acaso, dá título ao livro). Quadrados que formam «um som visual» e que lidos «em sequência, como uma banda desenhada, contavam uma história». Thompson consegue adequar cada prancha à tensão dramática do episódio narrado, oscilando entre a grelha clássica da BD, mais contida, e momentos em que os vários planos se fundem (caso das sequências oníricas ou amorosas), com resultados muitas vezes deslumbrantes. Rui Santos destaca ainda a «candura» do narrador, «misto de franqueza crua e sensibilidade poética», um registo raro que atraiu muitas pessoas que não têm o hábito de ler este tipo de livros.

A mais recente novela gráfica de Thompson, Habibi, foi lançada nos EUA em Setembro de 2011 e explora elementos da mitologia islâmica. Se tudo correr bem, Rui Santos conta publicá-la perto do Natal deste ano. Antes disso, surgirá a tradução de Pilules Bleus, de Frederik Peeters, segundo volume a ir para a estante da Biblioteca de Alice – um projecto alternativo pensado contra os «agrimensores com chapéus de hélice e bigodinhos à Dali que tentam separar a literatura da BD».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges