Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- O Século XX Esquecido - Lugares e Memórias, de Tony Judt (Edições 70), por Luís M. Faria
- Colapso - Ascensão e queda das sociedades humanas, de Jared Diamond (Gradiva), por Virgílio Azevedo
- Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard (Quetzal), por Manuel de Freitas
- Brinquedos de latão e sarampo, de Luís Serra (Apenas Livros), por António Guerreiro
- Périplo, de Miguel Portas e Camilo Azevedo (Almedina), por Luísa Meireles
- O Meu Avô Africano, de Aniceto Afonso (Oficina do Livro), por José Pedro Castanheira
- O Caderno, de José Saramago (Caminho), por José Mário Silva

‘O Rancor’, de Hélia Correia, em Sesimbra


Fotografia: Margarida Oliveira

A peça teatral O Rancor - Exercício sobre Helena, de Hélia Correia, vai ser apresentada hoje, amanhã e domingo, sempre a partir das 20h15, na Fortaleza de Sesimbra, num espectáculo encenado por São José Lapa e Alberto Lopes. Do elenco fazem parte os actores Valerie Bradell, Jorge Fraga, São José Lapa, Paulo Pinto, Rui Pedro Cardoso, Inês Lapa Lopes e João Paiva. O preço do bilhete é cinco euros.

Holden Caulfield a salvo da velhice

Luís M. Faria esteve atento à defesa que J. D. Salinger fez da sua obra mais conhecida (posta em causa por uma sequela manhosa, escrita por um escritor oportunista) e ofereceu ao Bibliotecário de Babel a sua visão da polémica literária deste Verão nos EUA:

HOLDEN CAULFIELD A SALVO DA VELHICE

Salinger é um escritor que não gosta de abusos. Há uns anos, um biógrafo de renome quis fazer um livro sobre ele e tramou-se. Salinger processou, e deu-lhe tanto trabalho que a carreira do homem nunca mais recuperou. Em tempos mais recentes, uma antiga amante e uma filha também escreveram livros sobre o autor de «Catcher in the Rye», para grande indignação dele. Outra coisa que o irrita são fotografias não-autorizadas, e houve algumas ao longo dos anos. Mas agora aconteceu uma afronta diferente. Alguém publicou um romance que se pretendia uma homenagem, mas foi tratado como uma sequela – logo, uma obra derivada, logo proibida por lei. O atrevido, que escrevia com o óbvio e absurdo pseudónimo de J. D. Califórnia, era na realidade Fredrik Colting, um jovem sueco. O seu livro, «60 Years Later», segue um personagem de 76 anos a partir do momento em que ele foge do hospital mental onde se encontra internado. Os paralelos com Holden Caulfield, protagonista de «Catcher», são mais que evidentes. Não apenas ao nível da narrativa – Caulfield também deambula por Nova Iorque durante uns dias; no seu caso, após escapar do colégio interno – como ao nível da linguagem. Isso mesmo assinalou o tribunal, que acaba de proibir a publicação da obra nos EUA. Expressões características de Caulfield, tais como «crumby», «lousy»,«bastard» e «kills me», abundam no romance de Colting. Os personagens principais também são os mesmos. O texto de modo algum pode ser considerado um mero exercício de crítica ou paródia, como alega a defesa. Salinger, que não publica um texto original desde os anos 60, é conhecido por proteger ciosamente a sua obra, jamais autorizando adaptações, sequelas, ou quaisquer outras formas de utilização. Colting confessa-se chocado, dizendo que nunca pensou que a América impedisse a publicação de uma obra literária. Mas para Salinger a questão afigura-se simples: «É um roubo.» Quanto aos leitores, se tiverem uma palavra a dizer, é de crer que prefiram limitar-se à versão juvenil de Holden Caulfield. Um dia, daqui a 70 ou 80 anos, ele será tão utilizável, modificável e bastardável como, digamos, o sr. Pickwick ou o Quixote. Até lá, graças ao seu autor, mantém a pureza. Ainda bem.
Luís M. Faria

Prémio Strega 2009 para Tiziano Scarpa

O ficcionista, poeta e dramaturgo Tiziano Scarpa (n. 1963) acaba de vencer a edição deste ano do Prémio Strega com o romance Stabat Mater, editado em 2008 pela Einaudi, uma «narrativa intimista e de profunda respiração poética», protagonizada por uma aluna do compositor Antonio Vivaldi, na Veneza da primeira metade do século XVIII.

Como este vídeo revela, Scarpa ganhou por uma unha negra (119 votos contra 118) o duelo com outro dos finalistas: Il bambino che sognava la fine del mondo, de Antonio Scurati (Bompiani). Aparentemente, foi o voto da Società Dante Alighieri que fez a diferença.
Em 2008, o vencedor deste prémio, um dos mais cobiçados em Itália, foi Paolo Giordano, com o romance A Solidão dos Números Primos, entretanto publicado em Portugal pela Bertrand.
Para finalizar, vejam (ou oiçam) Tiziano Scarpa a ler algumas páginas do seu romance:

Três poemas de Nuno Rocha Morais

A «NOVA» EUROPA

Por exemplo, as jovens estónias,
Para quem o futuro foi um conceito ilegal,
Têm pressa, pressa de tudo.
Para elas, o tempo é, de facto,
Uma relatividade do espaço,
Que bebem em longos tragos –
Hoje, Paris, amanhã, o Nepal,
Depois de amanhã, a Austrália.
Não se querem enredar em nada,
Nem Deus, nem amor, nem casas.
Aprendem a exprimir sentimentos em francês
Servidos por um escanção,
Mas gostam de dizer que não têm alma,
Nunca tiveram – proibida durante décadas,
Acabou por definhar, desistir
Destes corpos altos, esguios,
Produto de um qualquer pacto com o diabo.
Embora tão bálticas, não por isso menos gregas;
Cépticas, custa-lhes a crer que o sol italiano
Seja tão incondicional na sua graça,
Que o céu possa ser tão sem censura.
Foram amamentadas a convicções profundas
E agora não acreditam em nada,
Não acreditam sequer na sua vida passada.


MUSEU SOARES DOS REIS

Também eu vi no ângulo obscuro
De um salão a harpa coberta de pó,
Entre móveis e faianças,
Um pó de música inerte,
À espera de sedas roçagantes,
Da graça e do riso das debutantes,
Do deslizar espectral das contradanças,
Um debate sobre Céfalo e Prócris
Ou a audácia da mão mareando
Esfaimada sobre as nádegas
De uma ninfa na Ilha dos Amores –
Que os corpos de todas as debutantes
Neste mesmo salão prometeram ser.


CONVITE À SENHORA BISHOP

Venha, por favor, senhora Bishop,
Voando por sobre o cemitério
Fronteiro à minha janela,
Por ruas sem sintaxe,
Por entre árvores que aqui se refugiam
Para poderem envelhecer.
Estarei à sua espera
Quando, à meia-noite,
O parapeito da minha varanda
For a amurada de um quarto
Que vira de bordo e se prepara
para dobrar o Cabo Horn.
Venha, por favor, senhora Bishop,
No salto mortal da elipse,
Revele o segredo da amputação impassível
Que anula a força centrípeta de um Eu,
O iceberg de fogo em constante naufrágio,
O mastro no topo do qual temos de adormecer.
Venha, por favor, senhora Bishop,
Deixe-se invocar, com um sorriso complacente,
Pela sua própria fórmula
Emprestada de outros
(E traga a senhora Moore).
Ensine como a geografia é a ciência
De reconhecer os lugares dentro de nós
E como o facto de serem concretos
Nos exprime e poupa ao etéreo –
As palmeiras que não prestam vassalagem
Ao vento em Key West
Ou o medo profundo que o barroco esconde
Em algumas cidades brasileiras
Ou a contida verdura da Nova Escócia.
Mostre como o mar aprendeu com os tubarões
A caçar ilhas,
Que desaparecem debatendo-se
Num furacão de espuma
E logo as águas cicatrizam;
Mostre como assim preda o seu verso
Num filão de minérios sensíveis.
Venha, por favor, senhora Bishop,
Prove que a única fantasia
É supor a existência de um real
Que não seja fabuloso.

[in Últimos Poemas, Quasi, 2009]

Revista ‘Ler’, n.º 82

Hoje nas bancas.

Entre Bambi e zombi

«On le sait depuis Oscar Wilde et son portrait de Dorian Gray : vieillir est un crime. Mais être un homme ou une femme est également un péché, avoir un corps est une faute, exister, une disgrâce. Michael Jackson est celui qui aura voulu effacer d’un coup les malédictions de l’être humain.
Ce petit garçon noir devenu une femme blanche, cet adulte régressif, atteint du syndrome de Peter Pan, aspira sa vie durant à être un ange, quitte à ressembler à une goule. Il aura travaillé pendant cinquante ans à gommer la double fatalité de l’âge et de la race, au point d’évoquer une créature fantastique entre Bambi et zombi.
Dans sa folle tentative de recréation de soi, il a témoigné de la passion contemporaine pour la désincarnation : il a voulu récuser toutes les divisions naturelles ou sociales liées au sexe (illustrant jusqu’à l’ascèse la théorie des genres formulée dans les années 1980) refuser les diktats de l’horloge biologique, s’affranchir du devenir, procéder à une deuxième ou troisième naissance qui ne devrait plus rien aux hasards de la nature.»

Pascal Bruckner sobre Michael Jackson. Texto completo aqui.

Fazer mais com menos

Deslizamento
Autor: Jorge Listopad
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-628-124-3
Ano de publicação: 2009

Durante décadas de jornalismo e observação diária deste país que o acolheu, tornando-o o mais português dos escritores checos (ou o mais checo dos escritores portugueses), Jorge Listopad foi afinando como poucos um talento raro: a capacidade de síntese. É ver as suas crónicas fragmentadas e os ditos lapidares do coelhinho no Jornal de Letras. Meia dúzia de frases curtas, sintaxe elástica, o Rossio na Rua da Betesga. Ou seja, o máximo efeito literário com o mínimo de recursos verbais.
A arte da miniatura é também a chave deste novo «último livro», em que Listopad procura um «sistema» para a sua escrita; sabendo de antemão que mais facilmente encontrará – e encontra – os instrumentos para o sabotar. O imperativo é escrever, escrever sempre, escrever com a consciência de que é a escrita que se escreve a si mesma. O narrador nem sequer disfarça a sua impotência, a sua transitoriedade; antes abre o jogo e mostra as costuras todas do texto, os bastidores do ofício. As regras voam pela janela. Não há princípio, meio e fim. Há alguns princípios, muitos meios e poucos fins. O que predomina é a incompletude: pequenas ficções que surgem do nada e no nada se dissolvem; prosas deixadas em «estado de esboço»; histórias que começam mas nem sempre acabam.
Listopad trabalha por associações de ideias e de lugares. O presente é sistematicamente invadido pelo passado. Uma cena na Lisboa de hoje corre o risco de ser sacudida por uma memória da infância checa, tão forte que até acende frases na língua materna. O segredo está na ampliação cuidadosa dos pormenores, porque «uma palavra pode desencadear o mundo soterrado». Não é preciso muito para que um microcosmos ganhe forma e se intrometa.
Uns atrás dos outros, deslizam à nossa frente contos morais sem moral nenhuma, figuras picarescas em circos de província, personagens que se preparam no «vestíbulo da ficção», comboios rigorosamente vigiados (ou cheios de soldadesca à espera não se sabe de que guerra), tragédias mínimas, variações sobre Tchékhov e Shakespeare, amores secretos, casas, desdobramentos, um «herbário do quotidiano».
É uma arte da miniatura, já o dissemos. Mas também arte da elipse, da suspensão, dos suaves enganos. Tudo feito com elegância, aprumo, vontade de descobrir atalhos. «Eu era velho e inventava coisas novas», diz Listopad, cheio de razão, com a certeza de quem também afirma: «São as paisagens que variam e se repetem, projectando-se nos ecrãs dos sonhos sonhados, na textura dos textos, nos quadros ainda não pintados. Não perguntem porque é assim. É assim.» E é mesmo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

Esboço biográfico (em menos de dez palavras)

Sophia viveu entre a Graça e a Grécia.

Um miradouro para Sophia

Ao fim da manhã, algumas dezenas de pessoas assistiram, no adro da igreja da Graça, à cerimónia de atribuição do nome de Sophia de Mello Breyner Andresen a um dos mais belos miradouros da cidade de Lisboa, no dia em que passam cinco anos sobre a morte da maior poeta portuguesa do século XX.


Antes do discurso protocolar de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes (vereador do Ambiente e Espaços Públicos) e Manuela Júdice (vereadora sem pelouro), descerraram uma placa com o poema Lisboa, parte de um projecto arquitectónico assinado por Gonçalo Ribeiro Telles (que já desenhara o jardim da casa de Sophia, na Travessa das Mónicas):

LISBOA

Digo:
«Lisboa»
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver

A homenagem prosseguiu com a leitura do poema por um dos filhos de Sophia, Miguel Sousa Tavares:

Falou depois uma das filhas:

Também poeta, Maria Andresen explicou como foram feitos os primeiros contactos com Manuela Júdice, antiga directora da Casa Fernando Pessoa. «Explicámos-lhe que tínhamos pena de não haver em Lisboa um único lugar a que estivesse associado o nome da nossa mãe. Começámos por sugerir o jardim da Graça, de cuja forma em hélice ela gostava muito, mas afinal já tinha nome [Augusto Gil].» A escolha acabou por recair no miradouro, que pertence à câmara, estava sem designação e abre para um panorama da cidade que Sophia também contemplava com prazer. Referindo-se à hora a que a cerimónia começou, poucos minutos para lá do meio-dia, Maria Andresen recordou ainda uma frase da mãe: «Certa vez, eu disse-lhe que preferia a luz do nascer do dia à do crepúsculo e ela respondeu: “Eu gosto é do sol a pino”».

Assistiram à homenagem vários amigos da família, escritores e editores, entre os quais Manuel Alegre, António Osório, Pilar del Río, Teresa Belo, Zeferino Coelho, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, Jerónimo Pizarro, Maria Teresa Horta e um grupo de senhoras octogenárias, que ao deixar o miradouro se queixavam: «Só é pena que o senhor presidente, no seu discurso, se tenha esquecido de nos agradecer, a nós, vizinhas da Dona Sophia, que aqui viemos para a lembrar.»
Foi ainda inaugurado um busto de António Duarte, réplica de um original em bronze, esculpido nos anos 50:

O rosto de Sophia olha de frente para a cidade «oscilando como uma grande barca», para o castelo, para o «corpo amontoado de colinas», para o rio ao fundo. E o que vê é isto:

Amin Maalouf na Gulbenkian

No próximo dia 8, pelas 18h00, o escritor libanês Amin Maalouf, autor de As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, Samarcanda, O périplo de Baldassare e Adriana Mater, vai estar no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian para discutir, com o embaixador António Monteiro e António Vitorino, o seu livro mais recente: Um Mundo Sem Regras (Difel), reflexão sobre «o desregramento intelectual, económico, geopolítico e ético do mundo no século XXI».
Haverá tradução simultânea. A entrada é livre, mas sujeita aos lugares disponíveis.

Uma página web para cada livro

Utopia? Os promotores da Open Library acham que não. E já processaram (à falta de melhor verbo) mais de 23 milhões de livros. Entre eles Os Lusíadas (88 referências) e Os Maias (54 registos).

Michael Jackson, leitor

E se a estrela pop esquisitinha, que mudou a cor da pele e o nariz, que usava máscaras contra os germes e se fechava numa mansão tipo Disneylandia, também fosse – esquisitice das esquisitices – um devorador de livros? Pelos vistos, além dos fãs, há vários livreiros de Los Angeles que lamentam o desaparecimento de um bom cliente, que adorava a secção de poesia e era capaz de discutir as obras de Freud e Jung. Surpresa das surpresas, além da parafernália kitsch, o rancho Neverland também tinha uma biblioteca, e não das pequenas (segundo o LA Weekly, «Jackson’s collection totaled 10,000 books»).

O livro de vidro

333
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-972-0-04274-3
Ano de publicação: 2009

Pedro Sena-Lino (n. 1977) é sobretudo conhecido como poeta – tem sete livros publicados – e professor de escrita criativa. Neste momento, está a doutorar-se em Literatura Feminina do século XVII, uma investigação académica que serviu decerto como detonador para o seu primeiro romance, 333, publicado pela Porto Editora – numa edição em capa dura que tem merecido um esforço promocional considerável (raro, diga-se, em autores estreantes).
Decalcando-a de Soror Mariana Alcoforado, mas igualmente de outras mulheres vítimas de «séculos de apagamento», Sena-Lino começa por inventar uma freira que escreve, em latim, 12 extraordinárias Cartas de amor (talvez místico, talvez carnal). Chama-se Soror Flâmula da Encarnaçam (1538-1622), é portuguesa, vive fechada no imaginário Mosteiro de Santa Maria Madalena, e as suas ardentes palavras acabam impressas, em Milão, por Darius Waerminger, um respeitado discípulo de Aldus Manutius.
Enfeitiçado pelas Cartas, Waerminger esmera-se na produção de cada um dos 333 exemplares do livro, ricamente encadernados e transportando, lá dentro, «a sua vida impressa». Isto é, albergando nas suas páginas uma espécie de totalidade, já que «observava em cada livro composto como o seu coração se desdobrava e se expandia, como se tivesse encontrado um lugar definitivo no mundo para todos os seus sentimentos». É a disseminação pela Europa desta obra que tudo reflecte, exalta e absorve (semelhante a «um livro de vidro, onde todos os homens possam ler e ver-se no que serão completamente no futuro») que o romance procura traçar, fragmentando-se pelo caminho em dezenas de pequenas histórias, uma para cada leitor ou proprietário dos exemplares das Cartas.
Esta multiplicação de enredos, alguns curtíssimos (tão lapidares que cabem num parágrafo, ou mesmo numa frase), outros maiores e com fôlego de história autónoma, trazia em si um risco: a implosão daquilo a que podemos chamar a consistência e unidade do romance como um todo. Que isso nunca chegue a acontecer, por muito que saltemos de um espaço geográfico para outro, ou de uma época histórica para outra, é a prova de que Sena-Lino conseguiu manter o controlo sobre a matéria ficcional proliferante que tinha entre mãos. Um feito em si mesmo, diga-se, e daqueles que não está ao alcance de qualquer escritor.
No fundo, 333 é um apaixonado exercício de bibliofilia, de fé no poder da palavra escrita e na capacidade que os livros têm de transformar a vida de quem os lê. O que acontece quando um livro encontra o seu leitor? Eis a pergunta a que este livro responde, inventariando com zelo cada um desses encontros, numa espécie de arqueologia da recepção que em condições normais é impossível de fazer (nenhum autor conhece o destino de todos os exemplares do livro que escreveu). Nas dezenas de histórias de 333, muitas delas cruzadas, encontramos algumas epifanias e encantamentos, mas sobretudo desastres, horrores, tragédias. De uma forma ou de outra, quase todos os exemplares se perdem e predominam, num universo saturado de símbolos, as destruições pelo fogo (com destaque para aquelas em que intervém Frei Jusué da Sarça Ardente, um censor obstinado) e pela água.
A arquitectura de 333 – original, sólida, bem articulada – é o seu maior trunfo. O problema está na escrita de Sena-Lino, no excesso metafórico, na ênfase lírica que boicota ou entorpece demasiadas vezes o processo ficcional, no abuso de expressões gongóricas («a profundidade secreta da sua alma», o olhar que golpeia «de eternidade», os amantes «rasgando-se num relâmpago interior de prazer», etc.) que se tornam cansativas, mesmo sabendo que a narradora, a tal monja reclusa do século XVII, teria forçosamente que escrever num estilo barroco, para ser fiel à sua natureza e ao seu tempo. Acontece que o barroco de Soror Flâmula é uma espécie de supra-barroco, de barroco para lá do barroco, uma apoteose verbal que acaba por se consumir no seu próprio ímpeto. Para domar um pouco a torrencialidade desta escrita, exigia-se um maior trabalho de edição, que podia ainda ter evitado pleonasmos («entrar dentro da loja»; «há uns anos atrás»), diversas incongruências narrativas (como os três filhos rapazes do Duque de Urbino que passam, na mesma página, a «duas crianças interessadas no entendimento», sem que se perceba o que aconteceu entretanto à terceira) e até erros toponímicos (há uma personagem que está «numa pequena leitaria na rua Ivens» em 1875, quando a rua não se chamava de certeza assim; até porque Roberto Ivens, nascido em 1850, só começaria dois anos depois as explorações geográficas em África que o tornaram famoso).

Avaliação: 6/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A fronteira como união

Durante dois dias (amanhã, 2 de Julho; e quinta, 3) um grupo de escritores galegos e portugueses vai debater o tema “Literatura: a fronteira como união”, num encontro integrado no programa Gaia 2009, Capital da Cultura do Eixo Atlântico, a decorrer em Vila Nova de Gaia desde o o início do mês de Junho.
Este encontro luso-galaico decorrerá na sala de conferências do El Corte Inglés de Gaia, com uma sessão aberta ao público, dia 2, às 18h00.
Do lado galego participam Luisa Castro, Luis García Mañá, María Canosa, Xavier Queipo, Xavier Alcalá e Luis G. Tosar. O comissário é Ernesto Sánchez Pombo. Do lado português, comissariado por António Costa, teremos valter hugo mãe, Manuel Jorge Marmelo, Fernando Pinto do Amaral, João Luís Barreto Guimarães, João Paulo Sousa e Rui Costa.

‘Balas de Prata’ (trailer)

A Quetzal aposta forte neste romance do mexicano Elmer Mendoza, chamando-lhe peremptoriamente «o policial deste verão». Eis uma frase promocional corajosa, para dizer o mínimo, quando se sabe que o último volume da trilogia de Stieg Larsson está mesmo aí a chegar.

Festa Literária Internacional de Paraty começa hoje

A FLIP, o mais importante e concorrido dos encontros literários do mundo lusófono, arranca dentro de poucas horas, às 19h00 do Brasil (23h00 em Portugal). Os principais momentos podem ser seguidos, em directo, no interface vídeo desta página. As reportagens dos debates, mas sobretudo do que se passa fora do programa oficial, podem ser acompanhadas no blogue da FLIP (e no respectivo Twitter), mas também nos blogues dos escritores e jornalistas que deambularão por Paraty, como o brasileiro Marcelino Freire (que garante estarem «chamando essa a FLIP da Esperança») e a portuguesa Isabel Coutinho.

Agustina por Saramago

«Não é diminuí-la dizer que a vastíssima e poderosa obra de Agustina Bessa-Luís tem, entre todas as mais leituras, uma leitura sociológica. Cada um no seu terreno, cada um no seu tempo, cada um segundo as suas especificidades pessoais e artísticas, Balzac e Agustina Bessa-Luís fizeram o mesmo: observar e relatar. O século XIX francês compreender-se-á melhor lendo Balzac. A luz que irradia da obra de Agustina ajudar-nos-á a ver com mais nitidez o que foi a mentalidade de certa classe social no século XX. E também, já agora, a do final do nosso século XIX.»

Texto completo aqui.

O homem que denuncia a Mafia (e foge dela)

Roberto Saviano, o escritor e jornalista italiano com a cabeça a prémio, deu uma entrevista exclusiva (páginas 52 a 61) à revista Magnética, publicação online portuguesa que faz questão de não ser impressa e vai já no número 8, dedicado ao tema “Malditos”.

‘Traços de viagem’

De Manuel João Ramos, chega esta semana às livrarias mais um livro de viagens, o primeiro com chancela da Bertrand. Trata-se de uma colecção de «experiências remotas» em «locais invulgares» (da Tunísia a Espanha, passando por Zimbabué, Reino Unido, Etiópia e Portugal), com belíssimas ilustrações feitas pelo autor nos seus cadernos.

Os abutres

Ainda mal arrefeceu o cadáver mediático de Michael Jackson e já pairam por aí as aves negras que querem fazer dinheiro com a sua morte, narrando-lhe em pormenor a vida.

Prémio Samuel Johnson para Philip Hoare

Philip Hoare tem uma obsessão por baleias que lhe vem da leitura infantil de Moby Dick (what else?). Agora, essa obsessão, metodicamente explorada num livro difícil de classificar (Leviathan, Fourth Estate), acaba de lhe dar o mais importante prémio literário de não-ficção atribuído em terras britânicas, no valor de 20 mil libras.
Um pequeno vídeo em que o autor fala do livro pode ser visto aqui.

“Um livro de trabalho”

Após um longo processo de urdidura e rasganço, procrastinação e recomeço, de que nos foi dando sinais menos velados do que ele talvez lá no fundo desejasse, o Jorge Fallorca está mesmo, mesmo a acabar a tradução do Diário Volúvel, de Enrique Vila-Matas. E, ontem à noite, escreveu isto:

«É uma sensação estranha; deixei para amanhã as duas últimas páginas e meia, a assobiar para o lado. Depois passo os olhos por ela, mando-a só para receber e, como combinado, vou deixá-la em pousio para a ler sem me sentir tesicado pelo fantasma “Despacha-te, pá!” Resquícios que me ficaram da síndroma do “fecho de páginas”. Um gajo bem tenta, bem se esforça, mas não é de chumbo, a coisa fica em lume brando e salta quando menos se espera; a imprensa. Meu Deus, há quanto tempo ela não “fornece um novo dia” (Herberto Helder).
Mas devo confessar que, além da mencionada lágrima no olho, e não o escrevo “em forma de coração” (Salinger), chegada a hora de devolver o livro todo massacrado pelas molas que o mantêm aberto e anotado, sinto-me borradinho de medo. Uma coisa é lê-lo e conversarmos, outra, bem diferente, é o sentimento de frustração quando se acaba de traduzir um livro. Por mim falo, sinto-me roubado, privado de uma companhia; como se o computador tivesse dado o berro e oferecido um ficheiro ao vazio. Longe vá o agoiro; não me dava jeito nenhum, ver a minha biblioteca de babel a arder.»

Texto completo aqui.

Origami

As folhas de papel não servem apenas para as enchermos de palavras. Que o digam os japoneses, inventores dessa delicada arte a que chamaram origami. Para quem quiser aprender como se faz, a livraria Poetria organiza no próximo sábado à tarde um workshop. Tema: “Lótus, Lírios & outras flores”. Acontecerá entre as 15h00 e as 17h00, no Largo Alexandre Sá Pinto, n.º 44 A2 (Porto). O preço, 20 euros, já inclui o material. Os participantes, num mínimo de seis e num máximo de dez pessoas, devem inscrever-se até sexta-feira, dia 3, por telefone (22.201.07.30).

Revista ‘365′, n.º 29

O n.º 29 da 365 já está à venda. Ou melhor, não está à venda porque a revista passou a ser gratuita. Para assinalar a mudança, o director Fernando Alvim decidiu fazer uma edição especial, tipo best of, em que se reúnem «alguns dos melhores textos que publicámos ao longo destes anos». Quer isto dizer que há prosas de João Pereira Coutinho, José Luís Peixoto, Pedro Sena-Lino, valter hugo mãe e Vasco Barreto, entre muitos outros. Como sempre, a edição é de António Gregório e Carina Fonseca, cabendo o design a Alex Gozblau.
Quem não quiser esperar, tem ao dispor a versão online da revista.

Oito palavras

Sem mais comentários, não podia deixar de colocar aqui este poema de Manuel de Freitas (do livro Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008):

PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

Pina Bausch (1940-2009)

Morreu Pina Bausch. A grande coreógrafa, a inventora de gestos, a mulher que revolucionou a dança-teatro, tudo isso. Mas eu só me consigo recordar, agora, do seu corpo-ruína, percorrendo em cima do palco um labirinto de cadeiras, nesse Café Müller de há um ano, no São Luiz, em que foi fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso.
Desceu hoje um silêncio insuportável sobre Wuppertal. E sobre o mundo.

Dois poemas de Tiago Patrício

OS PARDAIS DA SINAGOGA DE TUNIS

Os pardais que dormem
em frente à Sinagoga de Tunis
conhecem bem a geografia
e as rotas de migração

Da meteorologia das cidades
pressentem os parapeitos
das janelas e o calor dos corpos
pela agitação das folhas

Têm o hábito de percorrer
as enseadas e cair
das ravinas nas horas
frescas da manhã
como crianças descalças

Nos jardins fechados de Tunis
onde o sotaque francês
transpira sobre a erva seca
os pardais comuns
anoitecem em bando
como sons guturais
e agitam o ar à volta
dos minaretes na chamada
para a oração

Quando regressam
ao interior das árvores
da Sinagoga de Tunis
assustam de morte
os guardas adormecidos
com as armas pesadas
apontadas ao peito


CAÇADORES

Os caçadores são feitos de prata ou de volfrâmio
de acordo com a época e as recordações
Têm a mira no olhar e o gatilho na pulsação
do braço direito recolhido a ombrear com a bandoleira
Na boca a pólvora e o sangue cinegético
Nos ouvidos o bosque inteiro e no pensamento
venatório o silêncio dos pássaros e dos seus hábitos

Os caçadores são os mais ferozes amantes das aves
têm no olfacto o fumo e a terra molhada
e na memória os tordos, as rolas e os pombos
Namoram as aves até ao último encontro
e disparam como quem despede a infância

Tombam as aves como pedras feridas
que no restolhar das asas perdem a elegância
para o chumbo e o cartucho no avesso do ar
Mas guardam ao pescoço as últimas plumas
como paixões deflagradas no peito florido

[in O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009), Quasi, 2009]

Boas novas para os fãs de Stieg Larsson

1) Na próxima terça-feira, dia 7 de Julho, chega às livrarias portuguesas A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Oceanos), último volume da trilogia Millennium, iniciada com Os Homens que Odeiam as Mulheres e A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

2) Ficou hoje a saber-se que a Lusomundo comprou os direitos de exibição em Portugal dos filmes que adaptam os dois primeiros livros da série. Os Homens que Odeiam as Mulheres, de Niels Arden Oplev, estreará a 17 de Setembro; A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, a 22 de Outubro; enquanto o terceiro filme chegará no próximo ano, em data ainda a definir.

3) Para acompanhar tudo o que diz respeito às obras literárias de Larsson, a LeYa criou o site Millennium-Mania.

Destinos literários

No seu site, o jornal espanhol El Mundo propõe nove destinos na Europa para quem queira fazer turismo literário: Madrid, Atenas, Sicília, Lisboa, Paris, Normandia, Berlim, São Petersburgo e Dublin. Na capital portuguesa, as referências não fogem ao que seria de esperar: Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queirós e Tabucchi.

João Tordo na Almedina

O romance As Três Vidas (QuidNovi), de João Tordo, vai ser discutido na Comunidade de Leitores da Almedina, coordenada por Filipa Melo, nos próximos dias 1 e 8 de Julho, a partir das 19h00 (na livraria Almedina do Atrium Saldanha). Como leitura paralela, está prevista uma obra magnífica de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (Teorema).

Lançamento de ‘O Caderno’ (resumo)

Palavras

«Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.»

[in O Caderno, de José Saramago, Caminho, 2009]

Infinite Summer

De 21 de Junho a 22 de Setembro, um grupo de «endurance bibliophiles» do mundo inteiro vai ler, de fio a pavio (sem esquecer uma única das suas numerosas notas de rodapé), o gigantesco e genial romance Infinite Jest, de David Foster Wallace. A experiência será relatada no blogue Infinite Summer, criado por Matthew Baldwin (not one of the Baldwin brothers, I suppose), que falou sobre este «projecto de leitura» («reading project») aqui e aqui.

‘Perto da Felicidade’ (trailer/teaser)

Depois de Revolutionary Road, mais um romance de Richard Yates em português. Em breve, na Quetzal.

30 anos, 3 perguntas

Os 30 anos são os da Antígona. As três perguntas são da Sara Figueiredo Costa, dirigidas a Luís Oliveira, o editor da Antígona, sobre (justamente) os 30 anos da Antígona.

Poetas cubanos de agora

Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas
Selecção, prefácio e notas: Pedro Marqués de Armas
Tradução: Jorge Melícias
Editora: Antígona
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-972-608-203-3
Ano de publicação: 2009

No excelente prefácio a esta antologia, que reúne uma dezena de nomes essenciais da poesia cubana contemporânea (José Kozer, Reinaldo Arenas, Reina María Rodríguez, Ángel Escobar Varela, Rolando Sánchez Mejías, Ismael González Castañer, Antonio José Ponte, Omar Pérez, Damaris Calderón e Alessandra Molina), o responsável pela selecção, Pedro Marqués de Armas, traça um abrangente panorama da literatura feita em Cuba no último século e meio, da centralidade fundadora de José Martí ao fechamento da política cultural do Estado (durante a segunda década da revolução castrista), passando pelo negrismo de Nicolas Guillén e pela influência do estilo neobarroco de Lezama Lima.
Para Armas, na ilha houve desde sempre uma «sustentada tensão entre poesia e História» que levou, em muitos casos, à leitura da História como poesia, «ocultando a sua extrema violência», e da poesia como palco de «premonições históricas». Os dez autores escolhidos estão entre os que se esforçaram, dos anos 70 em diante, por ultrapassar estes impasses através da autonomização dos respectivos discursos poéticos. São autores já libertos do «lastro da ideologia» e marcados, quase todos, ou pelo desencanto face ao esvaziamento da utopia (os que ficaram) ou pela resoluta oposição ao regime (os que optaram pelo exílio).
Destes últimos, destaca-se Reinaldo Arenas e a sua poesia «ao mesmo tempo lúdica e trágica, colérica e sóbria, desalinhada e efectiva». Veja-se este excerto do poema «Vozes»: «Nós viemos pelo ar / Nós viemos pelo mar / Nós chegámos amarrados ao pneu de um automóvel / Nós chegámos presos à roda de um avião / Nós saímos conjurando tubarões e guarda-costas (…) Sim, sem dúvida somos os mais ditosos / – os afortunados. Os demais jazem para sempre sob o mar / ou condenam a nossa fuga / enquanto secreta e desesperadamente desejam partir.» Menos explícita, a revolta está também presente na torrencialidade lírica de Reina María Rodriguez («estávamos rodeados de horizontes e de água») ou na «suprema exaltação das palavras» de José Kozer. Alguns lamentam, como Ángel Escobar Varela, não ter dito «o adequado no tempo certo, / nem o certo no tempo adequado», mas a questão definitiva talvez seja a que coloca Damaris Calderón (n. 1966): «Há saída possível para fora / ou toda a saída é para dentro, / até ao reino da raiz?»
A tradução de Jorge Melícias, globalmente cuidada, rigorosa e fluida, peca apenas por um ou outro lapso semântico. No poema que aqui citamos de Reinaldo Arenas, por exemplo, onde se lê «guarda-costas» parecer-nos-ia mais apropriado que se lesse «guardas-costeiros».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

PS - Em resposta ao último parágrafo da recensão, o tradutor Jorge Melícias disse de sua justiça nos comentários a este post. O que eu tinha a responder, ficou também ali respondido.

Um leitor sem qualidades

Ou melhor: um leitor com qualidades imensas. Um leitor que reúne «representações, citações, histórias, imaginários, deambulações, funambulismos perseguindo “um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel”, como diria W.G. Sebald». Um leitor que já nos dera um dos melhores blogues portugueses de sempre e depois desaparecera. O leitor sem qualidades (isto é, com qualidades imensas), o leitor benjaminiano, musiliano, walseriano, sebaldiano, vila-matiano, cortazariano, o leitor-leitor, o leitor-escritor, o leitor quase total está de volta.
Se soubesse como se faz, eu próprio lançaria o fogo-de-artifício, mesmo num dia assim, de nuvens enchendo o céu.

O sucesso explica-se?

Quinta-feira, no sítio do costume, à hora do costume.

‘La visión del ámbar’

Jorge Luis Borges por Manuel Vicent, no suplemento Babelia.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges