O que aí vem (Gradiva)

Morte por Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos, de Neil deGrasse Tyson (Colecção Ciência Aberta); Ao Redor dos Muros, de António Canteiro (Prémio Alves Redol); Ordens e Congregações Religiosas no Contexto da I República, coordenação de Luís Machado de Abreu e José Eduardo Franco; 5 de Outubro – Uma Reconstituição, de Ernesto Rodrigues.

Manuela, telegráfica

Manuela Ribeiro, uma das principais organizadoras das Correntes d’Escritas, falou ao PNETLiteratura sobre o que é isso de organizar o maior encontro de escritores em Portugal. A brevidade das respostas deve-se, suspeito, à pressa de quem ainda tem uma máquina para montar e olear (mas que vai estar montada e oleada no dia 23, tenho a certeza).

Candidatura ao prémio BOBs 2009-2010

Em Outubro de 2008, o Bibliotecário de Babel foi nomeado para a categoria de “Melhor weblog em Português” dos prémios BOBs (Best of the Blogs), organizado pela Deutsche Welle, juntamente com oito blogues brasileiros, um moçambicano e um angolano. O vencedor acabou por ser o blogue brasileiro Querido Leitor, de Rosana Hermann, que conquistou tanto o prémio do júri como o do público.
Agora, estão de novo abertas as candidaturas, relativas ao biénio 2009-2010. Quem quiser sugerir o BdB, pode fazê-lo até 14 de Fevereiro no final desta página (Melhor Weblog e Melhor Weblog em Português). Eu agradeço desde já o apoio, se acharem que o mereço.

As canções de Salinger

O blogue Classics Rock! fez um apanhado das referências a J. D. Salinger no universo do pop/rock. De Green Day a Guns ‘N’ Roses (sim, esses), a lista é menos pequena do que se poderia pensar.

Fast reading

Eu às vezes até leio a andar (um perigo, bem sei), mas nunca, nunca, nunca me apanharão a ler desta maneira:

Para mim, suor e máquinas de exercício não combinam com virar de páginas e literatura. Na verdade, não combinam comigo, ponto final.

[via Bibliofilmes]

Fotos antigas de escritores portugueses

Uma série para acompanhar no blogue Biblioteca Imaginária.

Trabalhos oficinais

Em Março, tanto Pedro Tamen como Manuel Alegre publicarão novos livros. O de Tamen é um volume de poemas: O Livro do Sapateiro. O de Alegre uma novela: O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua. Ambos na Dom Quixote.

Pedras da calçada tristalegre

mar_largo

Mar Largo
Autor: Vítor Nogueira
Editora: &Etc
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-8150-16-5
Ano de publicação: 2009

Depois de ter escrito, em Comércio Tradicional (Averno, 2008), sobre o declínio de certos modos de vida e relacionamento humano nas cidades do interior, vítimas do progresso económico, Vítor Nogueira regressa a Lisboa – cidade que já fora o tema inspirador do seu penúltimo livro de poesia: Bagagem de Mão (& Etc, 2007). Com uma diferença significativa. Enquanto naquele exercício de deambulação baudelairiana o sujeito poético circulava por todo o lado (da Baixa a Alfama, de Monsanto ao Bairro Alto, não esquecendo o Centro Comercial Colombo), em Mar Largo o flâneur instala-se de armas e bagagens num único sítio: o Rossio, cujo padrão da calçada portuguesa dá título à obra.
É justamente este «ziguezague de pedra» branco e negro que estrutura o livro. Na primeira parte, Nogueira toma como motivo a história da pavimentação original (iniciada em Agosto de 1848, a mando de Eusébio Furtado), assumindo as vozes e os sofrimentos dos calceteiros à força, um vasto grupo de condenados que saíam com as suas grilhetas da prisão, no Castelo de São Jorge, para simularem, a golpes de martelo e muita pedra assentada, o movimento das ondas no chão de uma das mais belas praças da capital. É esse esforço, essa «energia fornecida à tempestade», que o poeta resgata do esquecimento: «Ninguém quer saber quem somos, / só do que somos capazes».
Na segunda parte, saltamos sete gerações para verificar que ainda há «destroços / do naufrágio» e que o Rossio continua a ser uma «encruzilhada», com outras misérias (os sem-abrigo aconchegados à fachada do Teatro Nacional, por exemplo) e outros desencantos. Num dos poemas, o «sujeito poético» está sentado na esplanada da pastelaria Suíça, subjugado pelo movimento de «homens e viaturas» e pela «cegueira branca de pálpebras e sol». A nordeste da praça, «grande harmónio crioulo que se contrai / e dilata», fica o «coração de Babel», o centro geométrico da desordem linguística e social. O ruído do mundo é ensurdecedor e o poeta integra-o na sua melancólica tentativa de fixar o inapreensível: «De súbito, um improvável grupo de zés-pereiras. / Não há, convenhamos, elegia que consiga resistir / a tantos bombos. Albo lapillo diem notare. / Marcar de novo certos dias com uma pedra / branca, os mais nefastos com uma pedra negra. / Calçada tristalegre de Lisbuna.» E só podia ser assim. Como fica insinuado umas páginas antes, a poesia, «isso de que às vezes nos acusam», nasce das suas próprias limitações e ignora as questões de escala: «Tanto pode ser um murmúrio / como o desabar de uma montanha.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Perguntas

Em 2009: Quem é afinal o Senhor Palomar?
Em 2010: Mas o que raio aconteceu ao Senhor Palomar?
Tanto para uma como para a outra, continuamos sem resposta.

Tio Vânia

E eis que descubro um blogue tchekoviano, ainda por cima muito bom, muitíssimo bom, excelente. Venha a vodca. Celebremos.

Dois poemas de amor de Pablo Neruda

EM TI A TERRA

Pequena
rosa,
rosa pequena,
às vezes,
mínima e nua,
pareces caber numa única
das minhas mãos,
para assim te segurar
e levar à boca,
mas
logo
meus pés tocam teus pés e minha boca teus lábios:
cresceste,
erguem-se teus ombros como duas colinas,
teus seios passeiam-se pelo meu peito,
o meu braço mal consegue abraçar a linha
estreita de lua nova da tua cintura:
solta no amor como a água do mar:
meço apenas os olhos mais vastos do céu
e inclino-me para a tua boca para beijar a terra.


O RAMO ROUBADO

De noite iremos
roubar
um ramo florido.

Saltaremos o muro,
nas trevas do jardim alheio,
duas sombras na sombra.

Ainda não passou o inverno,
e a macieira aparece
subitamente transformada
em cascata de perfumadas estrelas.

De noite saltaremos
até ao seu trémulo firmamento,
e as tuas pequenas mãos e as minhas
roubarão as estrelas.

E em segredo,
na nossa casa,
na noite e na sombra,
entrará com os teus passos
o silencioso passo do perfume
e com pés siderais
o corpo claro da primavera.

[in Poemas de Amor, tradução de Nuno Júdice, Dom Quixote, 2010]

Boris & Melody

boris_melody

O casal mais encantador e hilariante do ano: um pessimista radical com tendências suicidas, mas capaz de descobrir mais mundo para lá da misantropia, e uma rapariga do Mississipi, com QI de lampreia, que até aprende umas coisitas sobre Física Quântica.
Dito de outro modo, é Woody Allen de regresso, em boa forma, ao seu habitat natural (Nova Iorque, claro). Há muito tempo que não me ria tanto, às gargalhadas, numa sala de cinema.

Mais um problema para Obama

Desta vez não são os republicanos e o seu cerco feroz ao plano de reforma no sistema de saúde, nem esse apogeu do radicalismo da direita anti-estatal que dá pelo nome de «movimento Tea Party». Desta vez, o descontentamento vem de onde não devia vir. Isto é, dos responsáveis pelas bibliotecas escolares, que se queixam da eliminação, no orçamento de Estado para 2010, de programas federais para a promoção da literacia. Cassandra Barnett, presidente da American Association of School Librarians, diz-se chocada: «On one level, I’m angry, and on another level, I’m highly disappointed. This is a real morale killer.»

Tomás Eloy Martínez por Ariel Dorfman

«No lo volvería a ver hasta 1978 cuando visité Caracas, donde él había buscado, finalmente, refugio. Y ahí conversamos acerca de la maldición eterna que parecía rondar a nuestro continente y cómo nuestra literatura tenía que acompañar, desde sus preguntas y dudas y feroz ensueño, cualquier proceso de liberación. Si no podíamos evitar la violencia sobrecogedora, era posible, por lo menos, exorcizarla por medio de palabras que no mintieran, podíamos traer a la literatura a los grandes excluidos de la historia a través de sus mitos.»

Uma evocação do escritor argentino que morreu no último dia de Janeiro.

Babel alarga Conselho Editorial

logotipo_babel

Ao apresentar logo à tarde (18h00, na BN) o projecto Babel, Paulo Teixeira Pinto anunciará igualmente as figuras que aceitaram fazer parte do seu Conselho Editorial (aumentando o que já fora criado para a Guimarães). Dos novos nomes, posso antecipar desde já os seguintes:

- Eduardo Lourenço
- Manuel Maria Carrilho
- Guta Moura Guedes
- Ricardo Pais
- Delfim Sardo
- João Botelho
- Joana Amaral Dias

Projecto didáctico da Porto Editora nomeado para prémio britânico

O Hoola Hoop, da Porto Editora, foi nomeado para os British Council ELT Innovation Awards, que premeiam os mais inovadores projectos internacionais de ensino da língua inglesa e serão anunciados a 3 de Março, na Delfina Gallery, em Londres.
Único projecto português seleccionado para a fase final do prémio, o Hoola Hoop é um curso de Inglês para alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico, «elaborado de forma a permitir que as crianças se sintam confiantes em relação à aprendizagem da língua, incidindo, nomeadamente, nas competências de listening e speaking, no apoio a actividades de leitura e escrita e na preparação para o 2.º Ciclo».

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Sinais de Fogo (Guimarães), de Jorge de Sena, por António Guerreiro
- Não se brinca com facas, de José António Barreiros (Labirinto das Letras), por Helena Barbas
- A Fábula, de William Faulkner (Casa das Letras), por Vítor Quelhas
- A Ilha de Arturo, de Elsa Morante (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (Angelus Novus), por José Mário Silva
- O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands (Lua de Papel), por Ana Cristina Leonardo
- Carolina Beatriz Ângelo – Guarda(dora) da Liberdade (1878-1911), de Maria Antonieta Garcia (Câmara Municipal da Guarda), por António Valdemar

Sátiras, ironias e sarcasmos

convite_livro_de_reclamaçoes

Amanhã, a partir das 17h30, na livraria Círculo das Letras (R. Augusto Gil, 15B).

Feira do Livro Antigo e do Alfarrábio

No Mercado da Ribeira (Lisboa), até 14 de Fevereiro, todos os dias entre as 10h00 e as 19h00. São 10 mil livros antigos, usados e manuseados, algumas raridades e muitas pechinchas, com preços a partir de um euro.

Química

«Não se terá tornado o acto de escrever mais uma experiência quimicamente produzida, na qual fabricamos um polímero complexo juntando sílabas em vez de moléculas? As palavras do nosso léxico foram estandardizadas a tal ponto que parecem agora um dispositivo limitado de componentes que se podem montar (à semelhança de peças de Lego que se encaixam); e as regras da gramática foram de tal forma racionalizadas que parecem um campo limitado de modos de recombinação (à semelhança de um novo cubo de Rubik que se vai rodando). A natureza proteica do nosso discurso vê-se vulcanizada nos nossos brinquedos. Vemos a linguagem comercializada como uma mercadoria infantil – um brinquedo adequado a todas as idades, cujo revestimento de plástico torna seguro possuir e fácil de usar; todavia, temos de imaginar uma poética mais corrosiva (algo suficientemente vitriólico para dissolver um verniz acrílico), e se não conseguirmos destilar um ácido deste tipo, inventemos então uma poética mais explosiva (algo suficientemente catalítico para detonar um acabamento tão acetinado). Precisamos de uma variedade linguística de gelenhite ou plástico – o tipo de literatura incendiária, escrita apenas por inadaptados, que cresceram, ainda tontos dos fumos, depois de terem derretido um pelotão de soldadinhos de plástico com um fósforo.»
Christian Bök

[in pullllllllllllllllllllllllll - Poesia Contemporânea do Canadá, selecção e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, Antígona, 2010]

Letra Livre, agora também no Bairro Alto

Até agora, a livraria Letra Livre, casa dos «livros impossíveis» e também dos «proibidos, esquecidos, esgotados e escondidos», era um espaço de cultura alternativa, ali ao fundo da Calçada do Combro. A partir de agora continua a ser isso, mas estende-se mais para cima até ao coração do Bairro Alto, tornando-se hóspede de outro espaço de cultura alternativa: a Galeria Zé dos Bois.
Na versão Rua da Barroca, a Letra Livre funcionará de quarta a sábado, entre as 18h00 e a meia-noite.

Pedro Tamen fala sobre Proust

Na próxima quinta-feira, dia 11, a Comunidade de Leitura “Nós e os Clássicos”, organizada por Filipa Melo na Livraria Almedina do Saldanha, vai receber o poeta Pedro Tamen, autor da tradução portuguesa de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (Relógio d’Água), a obra em análise este mês. Uma oportunidade para ouvir Tamen, que é um excelente conversador, a partilhar as euforias e dificuldades do seu hercúleo trabalho de resgate para a nossa língua do magnum opus proustiano.
A partir das 19h00, com entrada aberta ao público em geral.

Memórias correntes

Numa recolha de depoimentos feita pelo Diário Digital junto de vários editores, Francisco José Viegas evoca com muita graça aquilo a que poderemos chamar o “espírito” das Correntes d’Escritas. Eis um excerto:

«Das duas últimas edições trago recordações literárias importantes, alinhadas entre as memórias dessa semana da Póvoa. Entre elas estão: 4 garrafas de Jameson, novo, e uma de Bushmills, malte; um saco de gelo usado para ilustrar a presciência do Jameson, e subtraído com codícia aos frigoríficos do bar do hotel, já fora de horas; o frio que os fumadores apanham no hotel, junto da piscina, à noite; 17 anedotas literárias ou académicas contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 4 trocas de nomes de convidados, da responsabilidade de José Carlos Vasconcelos; o bigode de Leonardo Padura (não me refiro à barba); uma gracinha dita por Luís Fernando Veríssimo durante uma das cinco vezes (no total) em que experimentou falar; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de Mia Couto, e que o trocaram por José Eduardo Agualusa; uma peça de lingerie encontrada num corredor do sexto piso, perto do quarto onde Daniel Mordzinsky tira as suas melhores fotografias; 3 anedotas de cariz eminentemente sexual contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; 16 pacotes de Chesterfield esgotados por Carlos da Veiga Ferreira; uma edição da Playboy brasileira à venda no quiosque do hotel; o esparregado, as batatas salteadas, a salada de feijão e os ovos verdes do buffet do hotel; os chapéus de Manuel Rui; o ar de tédio do colombiano Santiago Gamboa ao pensar que está de regresso a Mumbai; 5 anedotas de motivo principalmente religioso contadas por Onésimo Teotónio de Almeida; a inveja por uma das camisolas de gola alta de Almeida Faria; a inveja por José Manuel Fajardo, em geral e por um motivo em particular; a descoordenação motora e vocal de Isabel Coutinho durante os pequenos-almoços; o bigode (entretanto desaparecido) de Antonio Sarabia; o bigode (nunca desaparecido) de João Rodrigues; duas meninas que aguardavam, nervosas, a chegada de José Eduardo Agualusa, e que o trocaram por Mia Couto; (…) uma aparição de Enrique Vila Matas; duas sestas que dormi na varanda do hotel enquanto os meus colegas discutiam, empenhada e entusiasticamente, o devir da literatura, a importância da Língua Portuguesa, o silêncio das esferas, e a vida estrepitosa dos escritores, creio que do Uruguai, mas não me lembro. Gostei de tudo.»

O que aí vem (Planeta)

objectos_millas

Um ano depois de nos ter oferecido O Mundo de Juan José Millás, a Planeta reincide (e muito bem) com o mais recente título do escritor espanhol: Os Objectos Chamam-nos. Nas livrarias já a partir de segunda-feira, dia 8.

Quatro poemas de Steve McCaffery

9 DE JANEIRO

a poesia é uma caixa aberta com quatro lados à volta de maçãs
a prosa é um fundo de uma caixa com quatro lados sobre uma mesa
para evitar a queda das maçãs


POEMA DE JORNAL

levante-se e desça as escadas.

apanhe o jornal e folheie imediatamente
a necrologia.

se o seu nome não aparecer
volte para a cama.


BREVE POEMA DE CHÁVENA

pegue numa etiqueta a dizer ‘POETA’ e pendure-a ao pescoço.

depois pegue numa chávena e escreva a palavra ‘LUA’ na área da mesa
debaixo dela.

peça a um leitor para adivinhar o que está debaixo da chávena.

diga a palavra ‘CORRECTO’ de cada vez que alguém responder e não mostre
nada ao leitor.


ACONTECIMENTO DE PÚBLICO

a poeta lê um poema da sua própria autoria.
o público apupa.

a poeta tira uma arma e dispara sobre um membro do público.´
o público aplaude.

a poeta agora admite que a arma é uma arma de brincar que dispara
uma bandeira de papel a dizer ‘VIVA O POEMA’.

o público apupa outra vez.

[in pullllllllllllllllllllllllll - Poesia Contemporânea do Canadá, selecção e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, Antígona, 2010]

Babel é apresentada amanhã

CONVITE BABEL

O novo grupo editorial de Paulo Teixeira Pinto, que não gosta de lhe chamar «grupo», será apresentado oficialmente amanhã, 6 de Fevereiro (por ser o dia de nascimento do Padre António Vieira), a partir das 18h00, no Auditório da Biblioteca Nacional. Da Babel passam a fazer parte nove chancelas, com identidades editoriais bem definidas: Guimarães, Verbo, Ulisseia, Ática, Arcádia, Athena, Centauro, K4 e Pi.
Na edição de amanhã do suplemento Actual, do Expresso, Teixeira Pinto explica em detalhe este projecto, referindo-se ainda aos seus objectivos enquanto presidente em exercício da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, num trabalho assinado por mim.

Um prefácio em forma de quadra

António Lobo Antunes é um especialista em prefácios curtos ou curtíssimos, como se pode comprovar espreitando a sua Biblioteca de ficção universal escolhida (Dom Quixote). A maior parte desses textos tem uma páginas apenas, às vezes só um parágrafo. Ao lê-los, disse para comigo que não se podia ser mais conciso. Enganei-me. No mais recente volume de poemas de António Ferra, Livro de Reclamações (Fabula Urbis), descobri aquele que deve ser o prefácio mais curto de toda a literatura portuguesa. É de Liberto Cruz e resume-se a um poema de quatro versos:

PREFÁCIO

Um poeta também tem
Livro de reclamações
Portanto atentai bem
Nas suas doutas razões

O mais extraordinário é que, assim mesmo reduzido ao mínimo e com o seu tom de poesia popular, diz tudo o que havia para dizer.

Bela Lugosi is Brain Dead

Alguém tinha de inventar isto: um blogue que colige os «disparates da blogosfera literária portuguesa». Pois, pois. Beware.

Neste estabelecimento pode-se fumar

A Nicotina Editores, acabinha de chegar ao mercado livreiro português, vai apostar forte na Internet, com vendas online e um portal abrangente que oferece notícias sobre literatura, cinema, música, arte, design, teatro, dança e blogosfera. O projecto é meritório, embora ainda esteja longe de cumprir a promessa do cabeçalho: «Primeiro magazine on-line de alta cultura. Subversivo, pós-revolucionário e viciante.»
Nesta fase de arranque, um dos aspectos a melhorar é o grafismo. Aquela espécie de carrossel com as caras dos cronistas, por exemplo, não lembra ao diabo.

Diagram Prize

Todos os anos, a revista Bookseller organiza o Diagram Prize for the Oddest Book Title of the Year, um prémio que pretende distinguir o título de livro mais bizarro da temporada. Em 2010, os candidatos são 49 (uma «very longlist», escolhida de entre 90 propostas submetidas). E a minha preferência vai para:

- An Intellectual History of Cannibalism
- Collectible Spoons of the Third Reich
- Crocheting Adventures with Hyperbolic Planes
- Is the Rectum a Grave?
- Proceedings of the Fourth Annual Bean Conference
- The Changing World of Inflammatory Bowel Disease
- The Master Cheesemakers of Wisconsin
- The Origin of Faeces
- The Wild World of Girly Men and Masculine Women – And Why Americans Suffer from So Many Other Idiotic Syndromes!
- Venus Does Adonis While Apollo Shags a Tree

Parecem-me todos muito bons, mas devo confessar que nutro especial afeição tanto pelos mestres queijeiros do Wisconsin como pelas colheres nazis coleccionáveis.
A shortlist será divulgada a 19 de Fevereiro. Seguir-se-á uma votação popular na Internet e o anúncio do vencedor, a 26 de Março.

Habitar a transparência

A Sala de Vidro
Autor: Simon Mawer
Título original: The Glass Room
Tradução: Helena Lopes
Editora: Civilização
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-262-771-9
Ano de publicação: 2009

Finalista do Man Booker Prize em 2009, este romance de Simon Mawer parece-se muito com a casa que está no centro da narrativa: um lugar amplo, aberto à luminosidade exterior, de arquitectura geométrica (com predominância de linhas verticais e horizontais) mas algo fria, expressão de um despojamento quase clínico que nem a extravagância de uma parede em ónix consegue atenuar.
Recém-casados, os Landauer (Viktor, um próspero construtor de automóveis; e Liesel, rapariga de impecável ascendência) encontram-se casualmente em Veneza com Rainer von Abt, um arquitecto minimalista que se considera um «poeta da luz e do espaço e da forma», que abomina a construção tradicional (pedra, tijolos) e que sonha desenhar edifícios transparentes, de janelas rasgadas, com muito vidro e muita claridade. Discípulo de Adolf Loos e alérgico a tudo o que seja ornamento, ele pretende «tirar o Homem da caverna e pô-lo a flutuar no ar». Disponíveis, endinheirados, os Landauer são as cobaias perfeitas.
Estamos no final da década de 20, em plena Primeira República Checoslovaca. O projecto avança e a casa faz-se, simultânea com a primeira gravidez de Liesel. A Villa Landauer torna-se então o palco (e por vezes a metáfora) das histórias familiares, atravessadas por segredos e tensões (as infidelidades de Viktor, a atracção lésbica nunca consumada de Liesel por Hana, as ameaças nascidas da perseguição aos judeus). A enorme sala de vidro, coração da casa, não é apenas o locus onde os grandes nós narrativos se criam e resolvem; é também uma câmara de eco da História, que Mawer evoca à medida que o edifício envelhece e atravessa a ocupação nazi (transformado em laboratório de biometria), a II Guerra Mundial, a passagem dos soviéticos e as décadas de regime comunista (durante o qual passa a ser ginásio, anexo de hospital e por fim museu).
A conclusão da história é talvez demasiado redonda, demasiado simétrica, mas não compromete o equilíbrio, arquitectónico e ficcional, de um romance que chega a ser brilhante, sobretudo nas duas primeiras partes.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Escriba

Fica na Cova da Piedade e é neste momento a única livraria independente de Almada. Um exemplo de resistência cultural nos subúrbios.

Sophia e Maria

sophia3

sophia

sophia2
Fotogramas do filme ‘Sophia de Mello Breyner Andresen’, de João César Monteiro (1969)

«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»

[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]

Tordo bem recebido em França

Embora o romance As Três Vidas (Le Domaine du Temps, Actes Sud) só comece a chegar hoje às livrarias francesas, João Tordo já conta com uma primeira recensão positiva, publicada na última sexta-feira na revista Livres Hebdo. Depois de resumir o enredo do livro, Sean Jame Rose escreve:

«João Tordo réussit à nous faire tourner les pages au rythme angoissé de l’impossible quête. L’ auteur portugais né en 1975 invente un thriller poétique où la tristesse l’emporte encore sur le suspense et le désir de verité.» [«João Tordo consegue fazer-nos virar as páginas ao ritmo angustiado de uma busca impossível. O autor português, nascido em 1975, inventa um thriller poético em que a tristeza se sobrepõe ao suspense e ao desejo de conhecer a verdade.»]

Entretanto, Tordo anunciou há uns dias, no seu blogue, a conclusão de novo romance.

Logo à tarde

AF_LER_no_Chiado_Fevereiro

Nove magníficos hipocondríacos

James Boswell, Charlotte Brontë, Charles Darwin, Florence Nightingale, Daniel Paul Schreber, Alice James, Marcel Proust, Glenn Gould e Andy Warhol: os heróis atormentados de um ensaio de Brian Dillon, editado esta semana pela Faber & Faber.

Lydia Davis, miniaturista


Fotografia de Gregory Boyd

Sobre ela, já houve quem afirmasse que é «um dos gigantes tranquilos no mundo da ficção americana». Onde se lê tranquilos, leia-se secretos. Lydia Davis só publicou um romance (The End of the Story, 1995) e por isso é quase invisível no meio editorial generalista, embora os leitores dos seus dez livros de histórias curtas, muito curtas ou extremamente curtas (aquilo a que se costuma chamar micronarrativa) a coloquem, em termos literários, nos píncaros dos píncaros. Davis (n. 1947) é professora de escrita criativa na Universidade de Albany e destacou-se como tradutora do francês (Proust, Blanchot, Pierre Jean Jouve, Sade, Michel Butor; a lista é longa). Para quem gosta de trivialidades, registe-se ainda que esteve casada, na década de 70, com Paul Auster, de quem tem um filho (Daniel Auster).
Entre os maiores entusiastas da sua obra estão alguns escritores da nova geração, adeptos como ela de formas narrativas experimentais. É o caso de Dave Eggers. Na revista McSweeney’s, o autor de O Que é o Quê (Casa das Letras, 2009), escreveu o seguinte: «Quem conhece a escrita de Lydia recorda provavelmente a primeira vez que a leu. (…) Eu li-a no comboio F, entre a Sexta Avenida e Park Slope – uma longa viagem para um livro que não é assim tão grande – e quando cheguei ao fim senti-me liberto.» No meu caso, mesmo conhecendo boa parte da escrita de Lydia, não recordo exactamente onde a li pela primeira vez. Sei que foi na Internet (talvez no site da McSweeney’s, mas não tenho a certeza), depois de um amigo escritor me ter dito, com aquela convicção que os amigos escritores costumam exibir: «Tu tens que ler Lydia Davis, ouviste? Tens que ler MESMO» (as maiúsculas correspondem a um enfático crescendo). E eu fui ler. Aventurei-me no Google, saltei de página em página e cheguei a uma história com meia dúzia de linhas em que não se passava nada; isto é, em que se passava tudo. A arte da elipse levada ao extremo, um prodígio de understatement e sugestão. Como Eggers, também me senti liberto. E talvez seja para isso que serve a literatura: para nos libertar.
No final de Setembro, foi editado nos EUA The Collected Stories of Lydia Davis (Farrar, Straus and Giroux), um tijolo de 750 páginas com todas as histórias que a escritora foi publicando em revistas e em livros nas últimas três décadas. Enquanto uma tal preciosidade não me chega às mãos, vou lendo e relendo os quatro volumes que a nada linear descoberta de Davis na Internet me fez comprar de rajada (Break it Down, 1986; Almost no Memory, 1997; Samuel Johnson is Indignant, 2001; Varieties of Disturbance, 2007). A cada leitura, a cada releitura, mais me convenço da singularidade, beleza e perfeição formal desta obra que parece erguer-se de um lugar único, um lugar criado pela própria prosa de Davis no momento em que é escrita, lá numa fronteira remota onde as distinções clássicas entre ficção, poesia e pensamento filosófico se esbatem. Reduzidos ao essencial, abdicando de artifícios e ornamentos, sem uma palavra a mais (ou a menos), o que estes textos captam, na maior parte dos casos, são aqueles elementos mais oblíquos da realidade que nós, comuns mortais, muitas vezes intuimos mas somos incapazes de verbalizar. Ou seja, Davis descreve as epifanias como se fossem factos e os factos como se fossem epifanias.
Assim de repente, há várias histórias que me vêm à cabeça. Uma grande parte delas são variações sobre o mais complexo, irónico, absurdo, sublime e paradoxal dos acontecimentos terrenos. A saber, tudo aquilo que se passa (ou pode passar) entre um homem e uma mulher. Mas também me ocorrem pequenas maravilhas como a biografia ultraconcisa de Marie Curie, ou a descrição angustiada e muito kafkiana de um jantar que Franz Kafka prepara para Milena, ou a divertidíssima análise académica das 27 cartas que uma turma de alunos da quarta classe escreve para um dos colegas, internado no hospital devido a uma osteomielite. Geniais, estes textos mais longos. Geniais, as miniaturas.
O que me leva à singela e inevitável pergunta final: não haverá por aí quem queira editar, em português, os livrinhos (ou, pelo menos, uma antologia) de Lydia Davis?

[Texto publicado no n.º 87 da revista Ler]

Uma verdadeira cacha

O diário The Cleveland Plain Dealer conseguiu esta semana um daqueles furos jornalísticos que merecem ser comemorados com várias caixas de champanhe: nem mais nem menos do que a primeira entrevista de Bill Watterson, criador de Calvin & Hobbes, em quase 20 anos. Depois de pôr fim à genial tira do miúdo de seis anos e seu tigre de peluche em 1995, no auge da fama e do reconhecimento crítico, Watterson tornou-se um recluso à la Salinger, com aparições públicas reduzidas ao mínimo dos mínimos. Por isso, as seis perguntas enviadas via e-mail por John Campanelli (que até nem são especialmente boas) representam um triunfo para o jornalista.
O que eu gostava mesmo de saber, porém, era outra coisa: a história de Campanelli. Como é que ele chegou à espectacular cacha? De que forma é que se dá a volta a um autor tão avesso ao contacto com a imprensa?

Máquina de escrever

Há quem toque air guitar. O grande Jerry Lewis prefere uma air typewriter.

Um DeLillo peso-pluma

«The reviews of Don DeLillo’s last few novels put me in mind of the sports journalist who, after a certain Yankee game, wrote, “Babe Ruth was not able to make any home runs.” Critics of The Body Artist, Cosmopolis and especially Falling Man seem to want DeLillo to be the Babe Ruth of novelists, to keep writing Underworld and Libra, those long, magisterial books about big American events. Such people will probably not regard his new novel, Point Omega, which weighs in at not much more than 100 pages, as a literary home run.
Yet Point Omega is a splendid, fierce novel by a deep practitioner of the form. No nuclear explosions or life-changing home runs, as in Underworld, occur here; no assassinations of major political figures, as in Libra, are anatomized; no airborne toxic events, as in White Noise, fill the skies. Mostly there are just two people, and then a third, sitting and talking and drinking and thinking in a little house in the middle of a desert.»

Crítica ao novo romance de Don DeLillo (ler excerto aqui), por Matthew Sharpe, no Los Angeles Times.

Página Seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges