Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich (Elsinore), por José Mário Silva
Uma Causa Improcedente, de Claudio Magris (Quetzal), por Luís M. Faria
Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas que os Mereçam, de Helena Vasconcelos (Quetzal), por Pedro Mexia
O quotidiano a secar em verso, de Eugénia Vasconcellos (Guerra & Paz), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com J. Rentes de Carvalho, por José Mário Silva
Em Ouro e Alma (Tinta da China) e Prosa Completa (D. Quixote), de Mário de Sá-Carneiro, por José Mário Silva
Cartas Reencontradas, de Pedro Eiras (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Avareza, de Emiliano Fittipaldi (Saída de Emergência), por Rosa Maria Pedroso
Peregrinação Vermelha, de António Caeiro (D. Quixote), por Cristina Peres
31 Sonetos, de William Shakespeare (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Grosso Modo, de Jacinto Lucas Pires (Cotovia), por Luísa Mellid-Franco

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com Roger Crowley, sobre Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global (Presença), por Ricardo Marques
Cicatrizes, de Juan José Saer (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
Sibéria, de Olivier Rolin (Tinta da China), por José Mário Silva
Obra Completa de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa (Tinta da China), por Luís M. Faria
Instalações Provisórias, de Sandra Vieira Jürgens (Documenta), por Celso Martins
Nove Fabulo O Mea Vox/De Novo Falo, a Meia Voz, de Alberto Pimenta (Pianola), por Manuel de Freitas
Contos Fantásticos, de Edgar Allan Poe (Ulisseia), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

História da Menina Perdida, de Elena Ferrante (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Filha de Estaline, de Rosemary Sullivan (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Contra Todas as Evidências – Poemas Reunidos III, de Manuel Gusmão (Edições Avante!), por Pedro Mexia
Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke (Antígona), por Manuel de Freitas
A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (Guerra & Paz), por José Guardado Moreira
Messalina, de Alfred Jarry (Sistema Solar), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Resistência, de Julián Fuks (Companhia das Letras), por José Mário Silva
A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos, de Jorge Luis Borges (Quetzal), por Pedro Mexia
Vem à Quinta-Feira, de Filipa Leal (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Terramoto Doutrinal, de Carlos A. Moreira Azevedo (Temas e Debates), por António Marujo
Satyricon, de Petrónio (Cotovia), por Luís M. Faria
Europa, de Rui Cóias (Tinta da China), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Julián Fuks, sobre o livro A Resistência (Companhia das Letras), por José Mário Silva
Letra Aberta, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
Os Usurpadores, de Susan George (Bizâncio), por Luís M. Faria
Cabo Verde, Janelas de África, de Corsino Tolentino (Livraria Pedro Cardoso), por Cristina Peres
Adivinha em que mão está a moeda, de Benjamín Prado (Do Lado Esquerdo), por José Mário Silva
Sob a Pele – Conversas com Sara Antónia Matos, de Rui Chafes (Documenta), por Manuel de Freitas

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Entrevista com José Eduardo Agualusa, a propósito da nomeação para a ‘longlist’ do Man Booker International Prize
Artigos Portugueses, de Miguel Tamen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Pós-Capitalismo, de Paul Mason (Objectiva), por Luís M. Faria
Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães (Quetzal), por José Mário Silva
A Crisálida, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas

Hino à vida

Gratidão
Autor: Oliver Sacks
Editora: Relógio d’Água
Título original: Gratitude
Tradução: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-989-641-591-4
Ano de publicação: 2016

Este volume, composto por quatro brevíssimos ensaios, é uma espécie de complemento à autobiografia Em Movimento – o livro final do neurologista Oliver Sacks, que ainda teve tempo de o acabar e ver publicado, em Abril de 2015, quatro meses antes de ser vencido pelas múltiplas metástases, no fígado, de um melanoma ocular que o deixara cego de um olho. Na autobiografia, já publicada pela Relógio d’Água, Sacks narra com o habitual entusiasmo – e prosa magnífica, clara, encantatória – o arco completo da sua existência: não apenas o notável percurso intelectual e científico, mas também toda a sorte de idiossincrasias (a faceta de motard, o gosto pelo culturismo e pela halterofilia, as rotinas de nadador metódico), bem como aspectos íntimos, da conhecida dependência das anfetaminas à homossexualidade, que até esse momento não assumira publicamente.
Os textos de Gratidão, todos eles publicados no The New York Times (e partilhados na internet, onde se tornaram virais), são uma espécie de coda em que Sacks, mais do que consciente da morte próxima, se despede com uma dignidade e uma delicadeza extraordinárias. Grato por tudo o que pôde ver, sentir, experimentar, ele faz deste adeus um hino à vida, uma celebração do privilégio de conhecer o mundo, aproveitando a existência até ao tutano.
Em Sabat, o derradeiro dos seus escritos, evoca a infância judaica e acolhe em si «a paz de um mundo que se detém, de um tempo fora do tempo». A paixão pelos elementos químicos atravessa Mercúrio e A Minha Tabela Periódica, duas prosas que lembram o melhor de Sacks: a forma como torna empática, e às vezes até comovente, de tão pessoal, a abordagem ao conhecimento científico. Já A Minha Vida, o texto que anunciou ao mundo a irreversibilidade da doença, termina com uma luminosa aceitação do fim: «Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, e isso foi, por si só, um enorme privilégio e aventura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Judas, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Águas Negras, de José Viale Moutinho (Lápis de Memórias), por Pedro Mexia
Entre Mim e o Mundo, de Ta-Nehisi Coates (Ítaca), por José Mário Silva
Gratidão, de Oliver Sacks (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Última Noite e Outras Histórias, de James Salter (Livros do Brasil), por José Guardado Moreira
Os Irmãos Wright, de David McCullough (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– Conversa com Amos Oz, autor de Judas (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Tudo Pode Mudar, de Naomi Klein (Presença), por Luís M. Faria
A Solidão Como Um Sentido seguido de Desespero, de Rui Almeida (Lua de Marfim), por José Mário Silva
Essa Terra, de Antônio Torres (Teodolito), por José Mário Silva
Amemo-nos Uns Aos Outros, de Catherine Clément (Porto Editora), por José Guardado Moreira
Noizz, de Rui Baião (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas

A Verdadeira Biblioteca Ou Uma História Em Três Metades

Eis o belíssimo texto de Raquel Patriarca, lido nas Correntes d’Escritas, numa mesa intitulada ‘Quantos Livros Tem Um Livro':

«Primeira Metade: Sobre Começar um Texto
Quando eu era pequena, tinha muitos sonhos. Agora que sou maior, estou igual. Sonho com os pedaços do mundo que quero conhecer, os abraços que quero apertar, as imagens que quero criar, os livros que hei-de escrever. Estar aqui é um desses sonhos da idade adulta, arrumado na rubrica das coisas admiráveis de que é preciso fazer parte. Quando me imaginava aqui, começava sempre por agradecer às Correntes porque correm e por me levarem na correnteza. Agradecer o estar aqui agora e todas as vezes que estive aí e que, no fim do dia, regressei a casa maior. Não de tamanho, mas maior. Quando me imaginava aqui, depois de agradecer, fazia uma comunicação brilhante. Não me parecia muito difícil. Não sei porquê, nessa altura as ideias eram transparentes e ordenadas, as palavras respondiam à chamada sem atraso e sem engulho. Era preciso citar um autor de referência: Pessoa, Benjamin ou Borges; Camus, Barthes, ou Foucault. Falar de literatura e arte, de coisas verdadeiras e universais. Como se no mundo – ou em mim – não restassem dúvidas da minha sabedoria sobre todas as matérias.
Mas estas coisas só acontecem na minha imaginação. Sonho e nada mais. No momento em que chegou o convite, todo o dia me parecia feito de irrealidade. A cabeça ficou vazia e a página em branco. Afinal, é tudo muito difícil.
Sentei-me para escrever e não chegavam as frases que deviam iluminar-me as ideias. Fui à procura dos cadernos e das notas amarelas com os registos da genialidade alheia, e nada rimava com o tema ou a situação. Em ressonância longínqua das traseiras do cérebro, soava uma espécie de conselho que ouvi quando era pequena: “Sabendo muito do que falas, fala pouco. Sabendo pouco, fala quase nada. Sabendo nada, sorri”.
… (Pausa para o sorriso)
E assim, em vez de Benjamin, Borges ou Barthes, veio ajudar-me uma espécie de aforismo de Joaquim Patriarca, mestre-escola, guarda-livros, organista na Igreja de S. Pedro, emigrante, retornado, avô. E a conselho dele, porque falamos de livros, vou falar pouco.

Segunda Metade: Sobre o Meu Avô
Quando eu era pequena, fascinava-me a capacidade que o meu avô tinha para guardar objectos. Para ele nada existia que fosse imprestável. Mais cedo ou mais tarde, tudo ganhava serventia e, por isso, tudo se guardava em lugar próprio, rigorosamente ordenado. Esta filosofia, vim a percebê-lo mais tarde, levava-me a intuir que, até para mim – criatura algo estouvada, grande consumidora de mercurocromo, tantas vezes nas imediações de coisas indesejáveis como cacos ou nódoas –, até para mim, dizia eu, se guardava um lugar e uma função. E, enquanto não descobria o meu lugar e a minha função, fui absorvida no fascínio de como o meu avô se movia pelo mundo e da serenidade com que coleccionava todo o tipo de objectos.
As folhas soltas de papel e os fios de diferentes materiais, os tocos dos lápis que já mal serviam para escrever, as sementes que havia de pôr na terra, os pequenos pedaços de plástico que, mais tarde e com a ajuda de um canivete, transformava em mistérios de rezar, perfeitamente redondos e recortados: um buraco ao centro para o indicador, dez saliências em forma de pétala, uma para cada ave-maria, a cruz na décima primeira pétala, no lugar do pai-nosso.
Cada gesto do meu avô era feito com esmero e ternura. O vinco nas arestas dos embrulhos de correio e o nó direito que unia, em absoluta perpendicularidade, o cruzamento do cordão, a caligrafia pausada, aprumada, perfeita, a adivinhar que, naquele endereço, tinha de erguer-se um palácio. As canas enterradas na horta a estender fios de sisal que desenhavam uma espécie de guias, por onde se alinhavam os sulcos na terra, as sementes e as plantas.
Fascinavam-me as coisas que ele fazia mas, mais ainda, o vagar sereno que colocava em tudo. Uma alegria simples que enchia de plenitude os gestos mais comuns. Curiosamente desimportado do resultado final, o meu avô parecia absorver-se no encantamento – para nós invisível – de todas as tarefas a que se entregava, como se a função inteira da existência se guardasse naquele momento. Punha, de verdade, quanto era no mínimo que fazia, de maneira que despachar uma encomenda ou plantar morangueiros se transformavam em formas de arte.
Foi nesta altura, enquanto os meus avós se transformavam em memórias nucleares, que aprendi a relacionar-me com os livros. Eu não fui uma daquelas crianças adoráveis que, sentadamente sábias, amam os livros desde que se lembram de respirar. Gostava muito que me contassem histórias, como todas as crianças, mas adorava correr desenfreadamente pelas ruas íngremes que desciam da casa dos meus avós ao fundo da vila. Saltar muros e inventar barcos feitos de casca de árvore que depois fazia navegar nos ribeiros que desciam da serra pela primavera. Subir às tílias descalça, com um saco de pano para apanhar os raminhos de fazer chá, sair nos dias de feira, a cheirar os bolos de leite ainda quentes, e ajudar a avó a escolher os figos mais maduros e as colheres de pau mais redondas e fundas. Havia uma televisão, e não é que não gostasse de a ver, mas o aparelho era muito demorado de arrancar, apanhava a televisão espanhola e não havia desenhos animados, só programas de agricultura e notícias. Naquele tempo, a televisão era mais um entroncho que uma distracção a sério. E havia a escola, claro, e a catequese para onde eu ia sempre muito contente porque, no regresso, a minha avó me dava uma bolacha de chocolate. Era uma obra-prima em forma de estrela, vinha embrulhada em papel de prata colorido, começava a derreter-se mal me tocava nos dedos e inspirava-me um conforto interior que eu me habituei a confundir com o sentimento da fé.
Os livros trouxeram a calma e a profundidade que eu não me dava ao trabalho de procurar em nenhuma outra dimensão na vida a não ser, talvez, na minha família.

Terceira Metade: Sobre os Livros
Quando eu era pequena passava muito tempo em casa dos meus avós. Viviam por lá muitos livros, uma condição que eu entendia como decorrência natural de, num tempo antes de mim, o meu avô ter sido guarda-livros. Um guarda-livros era, evidentemente, uma espécie de bibliotecário com um título singelo. Naquele tempo e lugar, tudo era menos pretensioso, sobretudo os nomes das profissões. Foi o meu avô quem ensinou a minha avó a ler e eu, que assistia a toda aquela circunstância de meiguice, mais convencida ficava de que a sua função no mundo era a de guardador de livros. Na dimensão preservável do objecto, como fazia com todas as coisas, e na dimensão partilhável do conteúdo, que lia para si e para nós, ensinava a ler e ajudava a compreender.
Quando eu era pequena o meu avô ensinou-me a encadernar os livros e eu entendi que devia aprender a fazê-lo com a ternura e o esmero que ele trazia sempre nas mãos. Ele levava horas a reforçar as capas e a cobri-las com papéis de cores e texturas diferentes, impecavelmente vincados nas dobras, os títulos nas lombadas claramente desenhados naquela caligrafia brilhante e impossível de copiar. Eu aprendia a vincar as dobras com os dedos pequeninos e mal capazes. Queria muito imitar-lhe a arte mas, com a mesma naturalidade que os gestos do meu avô se inclinavam para a perfeição, os meus obedeciam a um desvio incontrolável para o desastre e, muitas vezes se rasgavam os papéis e se estragavam os títulos com erros de ortografia. O meu avô suspirava, sobrepunha a sua paciência à minha frustração, deitavam-se à lareira os papéis rasgados e os erros de ortografia, e a tarefa começava de novo. Desta vez, melhor.
O meu primeiro livro contava a história da fuga de uma tal Alice através do espelho. Foram precisas várias tentativas até o serviço ficar aceitável e foi maravilhoso ver o meu avô sorrir e dizer que sim com a cabeça enquanto examinava o meu primeiro projecto: um desconchavo de papel manteiga com as dobras quase tão espessas como o próprio livro. Foi um triunfo indizível. E, logo a seguir, chegou uma nova dificuldade.
No momento de colocar o livro na estante, havia um banco para eu subir e ficar da mesma altura do meu avô, e havia uma única regra de arrumação, muito simples que se baseava – em partes iguais – nos conceitos de ordem e de caos, um critério difícil de definir e que ordenava os títulos alfabeticamente segundo o destino geográfico do assunto.
O meu avô levou algum tempo a explicar-me que cada livro é como uma viagem e que cada viagem se faz rumo a um destino diferente. Eu não compreendi e ele foi buscar um volume grosso que trazia na lombada as palavras Crime e Castigo. Explicou que era um livro muito importante para conhecer os conceitos de bem e mal, certo e errado que vivem nas aspirações e atitudes de cada um. Uma viagem que se fazia rumo àquilo que uma pessoa deseja para si e ao percurso que está disposto a fazer para lá chegar. Como eu fiquei muito calada, a segurar nas mãos a minha Alice sem ideia de onde a guardar, o meu avô pegou num outro livro – 20.000 Léguas Submarinas – a aventura de uma viagem pelas profundezas do mar, ou então, uma viagem pelo engenho humano e pela vontade de ultrapassar o medo que é natural sentir-se em relação ao desconhecido.
Eu olhava para as minhas mãos.
Tens de descobrir onde te leva o teu livro, revelou por fim o meu avô.
E eu compreendi que precisava de o ler e, só passados muitos dias, voltei a subir ao banco resolutamente à procura da prateleira marcada com M de Maravilhas.
Fui compreendendo aos poucos o sistema de arrumação de livros que o meu avô praticava, garantindo-me sempre que era assim que se faziam as coisas nas verdadeiras bibliotecas. Acontecia por vezes termos de mudar os livros e as viagens de um lugar para outro. A cabana do Pai Tomás – muito muito bonito – teve morada no E de Escravatura, depois mudou-se para o A de Abolicionismo e acabou, mais tarde, por inaugurar uma nova secção no L para Livros que Salvaram o Mundo.
Quando eu era pequena aprendi com o meu avô a ternura de todas as coisas. Aprendi que é possível ser feliz em sossego. Que os livros devem ser lidos antes de arrumados, que cada livro propõe uma viagem e que cada leitura pode criar novos rumos a um caminho já percorrido. Aprendi a ser guardadora de livros.
Mais tarde, muito mais tarde, depois de graduada, pós-graduada e especializada, recebi um papel carimbado que me fez bibliotecária, que é só um nome diferente para uma prática muito antiga. Estudei catalogação e indexação, as listas ordenadas de termos e as tabelas de autoridade, os sistemas de triagem das espécies bibliográficas e os códigos alfanuméricos das cotas e descobri que, afinal, já não existem verdadeiras bibliotecas, como aquelas de que falava o meu avô. Descobri que nas bibliotecas onde hoje se guardam os livros não é possível compreender-se o mapa das viagens da humanidade. Da humanidade que escreve e da humanidade que lê.
Mas em casa, guardo uma verdadeira biblioteca, com estantes e prateleiras em que se faz um esforço genuíno de procura da verdade. Ainda lá está o volume mal encadernado da pequena Alice que agora repousa no I onde se alinham as viagens Interiores.
Foi com esse o livro que tudo começou. Quantos livros se guardam lá dentro? Suponho que terei de o ler outra vez. Por agora, não sei. E como não sei, devo apenas sorrir.»

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Os Navios da Noite, de João de Melo (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
O Náufrago, de Thomas Bernhard (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Breves Notas sobre Música, de Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Essencial sobre Michel de Montaigne, de Clara Rocha (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Alexandra Carita
A Paixão da Física, de Walter Lewin (Gradiva), por Luís M. Faria
Outro Ulisses Regressa a Casa, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Nebulosa, de Pier Paolo Pasolini (Antígona), por José Mário Silva
Revista XXI Ter Opinião, n.º 6 (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por Cristina Peres
Entre Dois Impérios, de Filipa Lowndes Vicente (Tinta da China), por Luís M. Faria
Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron (Teorema), por José Guardado Moreira
Break Dance, de André Ruivo (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
Elsewhere/Alhures, de Rui Pires Cabral (não (edições)), por José Mário Silva

Três poemas de José Luís Costa

CANTO DA ALFORRECA

Que prestígio resta ao bicho, nas hierarquias da Caparica? Nenhum pescador o admira. Da Praia da Mata à Fonte da Telha, crianças organizam brigadas de extermínio. Mas quando a alforreca canta, o mar não acredita, o mar é pele de galinha até perder de vista. São canções tolas, coisas como: «É amarga a vida das alforrecas / Ai Ai Lô / Quero crer na metempsicose / Ai Ai Lô / Quero reencarnar no dedal da tua amada.»

***

ADEUS A ISSO TUDO

Primeiro, trenós e carruagens, felizes por zarpar, e rolamentos. Depois mares, banheiras, alambiques. Gravatas, botões de punho, chapéus de senhora. «Também as minhas botas, tão doces companheiras, tão prontas a furar fronteiras?» Também as suas botas, senhor Severo. A seguir semáforos, fogos de artifício, retinas, tudo o que envolve luz. Salmos, aulas de carpintaria, senha e contra-senha.

***

ACROBATA

Antes do primeiro passo, lembra a fartura da rede dos tempos de aprendiz: Estepe de Almofadas, Oceano Salvífico. Vinho que não bebeu: nunca caiu. Hoje, nada a salvaria. A cidade veio toda. Se mar há que a submerja, é o do apetite da cidade para quedas, quebras, feras – lajes de granito querendo o seu cristão.

[in Canto da Alforreca, Douda Correria, 2016]

As faces da guerra

Desmobilizados
Autor: Phil Klay
Editora: Elsinore
Título original: Redeployment
Tradução: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 297
ISBN: 978-989-8831-18-7
Ano de publicação: 2015

Com a retirada das tropas americanas do Iraque, o balanço do conflito militar que durou mais de uma década vem sendo feito por jornalistas e ensaístas, naturalmente interessados nas questões gerais – sejam elas os falsos pretextos para começar a guerra ou os equívocos de uma ideia de ‘nation building’ desfasada da realidade no terreno –, mas muito menos atentos ao impacto deixado pela experiência iraquiana naqueles que deram o corpo ao manifesto e ficaram com feridas físicas, ou psicológicas, por sarar.
Ex-marine, Phil Klay conheceu de perto as incidências da guerra e ouviu dezenas de relatos em primeira mão. Esteve lá. Sentiu no ar o pó do deserto. Conheceu o poder devastador do tédio e as picadas da adrenalina. Falou com soldados concretos e registou o modo como se expressam, como pensam, como sofrem, como sonham em sair dali o mais rapidamente possível. E também foi atrás dos que voltaram aos EUA e não sabem, ou não conseguem, reintegrar-se na vida quotidiana. No fundo, uma velha história que se repete. Foi assim com a guerra da Coreia. Foi assim com o Vietname. Volta a ser assim com a ressaca dos combates no Iraque e no Afeganistão.
O estilo de Klay é muito preciso, sem efeitos fáceis nem retóricas baratas. Atente-se, por exemplo, no início do conto Relatório pós-missão: «Noutro veículo, teríamos morrido. O blindado deu um salto, quase quinze toneladas de aço a irem pelos ares, a contorcerem-se, a deslocarem-se debaixo de mim, como se a gravidade estivesse a mudar. O mundo rodopiou e estilhaçou-se e, ao mesmo tempo, a explosão rebentou-me os ouvidos e fez-me estremecer todos os ossos. A gravidade foi reposta. Dantes havia ali edifícios. Agora há faróis na poeira.» A brutalidade da guerra é captada de forma crua, seca, como uma sucessão de factos em si mesmos terríveis, mas gradualmente transformados na matéria dos dias, e por isso integrados numa espécie de rotina: «Hoje de manhã, a nossa antiaérea despejou quase cento e vinte e cinco quilos de munições em cima de um ‘checkpoint’ dez quilómetros a sul da posição em que nos encontramos. Matámos um grupo de rebeldes e depois voltámos para Faluja e fomos almoçar ao refeitório. Comi peixe com feijão-manteiga. Ando a tentar fazer uma alimentação saudável.»
Descritas com a objectividade dos relatórios militares, as acções de combate são quase inteiramente desprovidas de pathos. É como se estivéssemos a assistir a um documentário feito por repórteres de imagem embedded. Há tiros, movimentações rápidas, posições ocupadas, mas Klay não oferece ao leitor a experiência do coração acelerado, dos suores frios, do medo que se embrenha até aos ossos, talvez por ver nessa partilha uma usurpação de algo que não pode ser usurpado. O horror, porém, está lá, em cada página. Mesmo se implica um certo recuo. Como o do soldado que atingiu um inimigo mas se recusa a confirmar a sua morte, antes cede a mira térmica a um camarada que assiste, pouco a pouco, ao apagamento da mancha branca que equivale à visão de um cadáver que arrefece.
Sempre na primeira pessoa, estes 12 contos colocam em cena 12 narradores diferentes. A maioria são soldados, marines confrontados com situações extremas, lá no Iraque, ou com o vazio existencial depois do regresso, quando a normalidade dos que não viveram ‘aquilo’ se torna uma agressão e o objectivo de manter relações humanas saudáveis, de amor ou amizade, vai pelo cano abaixo. Estes contos não escapam, porém, a uma certa previsibilidade, na medida em que correspondem a arquétipos ficcionais muito explorados. Que ninguém regressa inteiro de uma guerra é uma evidência. Os estragos que Klay descreve podem ser eloquentes, mas trazem sempre consigo ecos de histórias que já lemos antes, ou vimos no cinema.
O que torna Desmobilizados um livro interessante é a ampliação deste círculo, é o mostrar de outras faces, menos óbvias, da guerra. Uma delas surge num dos melhores contos deste volume: Oração na fornalha. Um capelão tenta apoiar um marine que se preocupa com o facto de os seus companheiros não fazerem distinção entre insurgentes e civis, matando indiscriminadamente todos os iraquianos que encontram pelo caminho. A sua é uma perspectiva moral, esmagada pela própria dinâmica de um movimento que assenta no mais absoluto maniqueísmo. No espelho da violência gratuita, e seu rol de vítimas inocentes, reflecte-se a falta de lógica de uma intervenção que nunca teve em conta os verdadeiros interesses do povo que era suposto salvar. Essa falta de lógica é particularmente bem captada em O Dinheiro como Arma, um conto que põe em cena um funcionário do Serviço de Relações Exteriores, «encarregado de dirigir uma equipa de reconstrução provincial». Idealista, ele quer recuperar uma central de tratamento de águas desactivada e apoiar um hospital para mulheres, mas, além de chocar com o muro da burocracia, enfrenta o absurdo dos interesses políticos, que o obrigam, entre outros disparates, a ensinar basebol às crianças iraquianas, para satisfazer a «ideia» de um milionário americano que enviou os respectivos equipamentos e tacos como sementes da «democracia».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Desmobilizados, de Phil Klay (Elsinore), por José Mário Silva
País Possível, de Ruy Belo (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
O Demónio da Depressão – Um Atlas da Doença, de Andrew Solomon (Quetzal), por Luís M. Faria
Butcher’s Crossing, de John Williams (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Liberdade da Cultura, coordenação de Guilherme d’Oliveira Martins (Gradiva), por Manuela Goucha Soares
O Canto da Alforreca, de José Luís Costa (Douda Correria), por José Mário Silva
A Cova, de Cynan Jones (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Invenção da melancolia

Da Natureza dos Deuses
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 574
ISBN: 978-972-20-5846-9
Ano de publicação: 2015

Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.
A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.
No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).
Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.
Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).
A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Da Natureza dos Deuses, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por José Mário Silva
Terra Negra, de Timothy Snyder (Bertrand), por Luís M. Faria
Viagens à Ficção Hispano-Americana, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
O Dicionário do Menino Andersen, de Gonçalo M. Tavares e Madalena Matoso (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
Histórias de Aventureiros e Patifes, organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Um Cisne Selvagem e outros contos, de Michael Cunningham (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
O Pobre de Pedir, de Raul Brandão (Chão da Feira), por Pedro Mexia
Uma Sombra Laranja-Tigre, de Afonso de Melo (Âncora), por José Mário Silva
O Nascimento da Arte, de Georges Bataille (Sistema Solar), por Alexandra Carita
Os Caçadores de Livros, de Raphael Jerusalmy (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
Roturas e Ligamentos, de Rita Taborda Duarte e André da Loba (Abysmo), por José Mário Silva
Animais e Companhia na História de Portugal, de Isabel Drummond Braga e Paulo Drummond Braga (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria

Biblioteca de Bolso, #3

Entre a fictícia Tonia Buddenbrook, por quem se apaixonou perdidamente aos 14 anos, e a Sophia de carne e osso, poeta luminosa que um dia o fez parar as máquinas da gráfica para melhorar um poema, Zeferino Coelho fala de livros que o marcaram. Vale a pena ouvir a sua voz grave, a sua discreta sabedoria, o seu entusiasmo que guarda uma pureza quase juvenil.
Para ouvir aqui.

‘El Otro’

Aquele banco

Caminhámos pela margem do Ródano, águas tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no leito do rio, à procura daquele banco que tanto me fascinou ao ler o primeiro conto d’O Livro de Areia (conferir aqui). Intitulado O outro, o conto narra o encontro de um Borges quase septuagenário, sentado nas margens do rio Charles, em Cambridge (perto de Boston), com o mesmo Borges no fim da adolescência, em Genebra. Como é óbvio, não encontrei o tal banco que está em dois lugares e em dois tempos diferentes, num como sonho, noutro como recordação. Limitei-me a contemplar as águas do Ródano, vindas do lago Léman, tão límpidas que se podia ver cada uma das pedras no seu leito.

Visitar Borges (em Genebra)

Uns minutos em silêncio (ali perto, dois cães corriam; nenhuma presença humana para além de nós). Agradeci-lhe o génio, a grandeza literária, a perfeição da sua escrita. Viemos embora, longas sombras projectadas pela luz rasante.

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Amigo Comum, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
O Peso da Sombra, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Obras-primas dos Biombos Nanban, de Alexandra Curvelo (Chandeigne), por Manuela Goucha Soares
A Juventude, de Paolo Sorrentino (Jacarandá), por José Mário Silva
O Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera (D. Quixote), por José Guardado Moreira
Milagreiro, de André Oliveira e vários ilustradores (Polvo), por José Mário Silva
O Cavaleiro Sueco, de Leo Perutz (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Teaser

O convidado da próxima semana, no Biblioteca de Bolso, é um dos mais respeitados editores portugueses. Aos 14 anos, apaixonou-se por uma personagem de Thomas Mann e essa paixão não se desvaneceu com os anos, mesmo depois de ter visitado uma praia do Mar Báltico, em busca da sua sombra, só para descobrir que há sempre um abismo entre a realidade dos livros e a realidade «real».

(Como marcador da sua edição francesa de Os Buddenbrook, o nosso convidado usa um postal com o retrato de uma mulher de Lübeck, fotografado em data incerta. Não é Tonia, a rapariga que sacrificou a sua vida no altar de uma família em declínio, mas podia ser.)

Um ‘site’ para Jaime Ramos

No momento em que Francisco José Viegas reúne alguns contos dispersos do seu carismático inspector (A Poeira que cai sobre a terra e outras histórias de Jaime Ramos, Porto Editora), é lançado um site só sobre esse inconfundível homem do Norte. Uma ideia original e inédita, creio, pelo menos em Portugal.
Os lugares por onde J.R. gosta de circular, as afinidades, os vícios, as palavras que o definem ou que ele definiu, as receitas do gastrónomo – eis algumas das secções deste work in progress que vale a pena ir acompanhando.

Dentro do quarto amarelo

O Papel de Parede Amarelo
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: Fyodor Books
Título original: The Yellow Wallpaper
Tradução: José Manuel Lopes
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-691-444-8
Ano de publicação: 2015

Escrito em 1890, quando a autora ainda não completara 30 anos, este conto andou muitos anos perdido em antologias de literatura de terror, só sendo recuperado do esquecimento na década de 70, quando começa a ser visto, enfim, como aquilo que é: um grito simbólico contra a dominação masculina exercida sobre as mulheres. Coerente, de resto, com o percurso intelectual de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), uma das precursoras do feminismo americano, ao escrever ensaios em que defendia reformas sociais tendentes a uma efectiva igualdade entre os sexos.
Inspirado na experiência da autora, que sofreu uma crise de neurastenia nos meses seguintes ao nascimento da filha, O Papel de Parede Amarelo é o relato de uma depressão pós-parto. A narradora, forçada a um regime de repouso absoluto pelo marido, um médico rígido e controlador, escreve às escondidas e vai lamentando o deserto de estímulos a que está reduzida. O sufoco da vida doméstica conduz a um estado de sofrimento que a família desvaloriza por não apresentar manifestações físicas, só psíquicas.
Enquanto a diligente cunhada trata do bebé, ela passa o tempo na cama, a contemplar obsessivamente os horríveis padrões geométricos do papel de parede que reveste o quarto: «se nos demorarmos a percorrer as suas irregulares e imperfeitas curvas, repararemos que de repente se suicidam – afundam-se em excêntricos ângulos». No papel de parede, transformado em espelho, dá-se então o movimento de libertação. A narradora começa por pressentir uma figura feminina a rastejar por trás do padrão, a abaná-lo, «como se quisesse sair». Um fantasma abstracto? Um reflexo de si mesma? O que perdura deste conto é a assombrosa resposta a estas perguntas que chega nos parágrafos finais.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Três poemas de Rita Natálio

ARTESANATO

No âmago do âmago não há âmago
assim como no âmago do amo não há amo
disse o amo enquanto cuidava dos nervos das suas
plantas filosóficas.

***

START UP

Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.

Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.

Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.

Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.

A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

***

NOVE SEMANAS E MEIA

(para deleuze)

Deleuze, teu sapato era de nuvem
a tua língua o beco
em que aprendi a dizer
não volto mais aqui
não vejo mais televisão
quero fazer esse jardim arder
quero lento esse arder.

Deleuze, você foi embora ontem ou em 1995
e eu tinha 12 anos e já fazia planos
de consistência com as costelas
ou raspava panelas
para encontrar a linha de fuga
em que marcaria a sequência genética do acontecimento
do aço, do dente ou do radical crescimento.

Você foi embora, foi
só para eu lhe dizer adeus, adeus
eu fiquei ali na sala dos jovens lambendo o cinzeiro
acariciando a sociedade que sabe a rosa uva pasta pneu estriado
e você ali mesmo espatulou o tempo para ficar liso sobre o meu bicho.

‘Ah, mas o senhor é um verdadeiro planalto de afeto’
eu disse a você com 18 anos
e depois com 19 e depois com 20
como se você dissesse
‘ah, mas a menina é um verdadeiro túmulo de idolatria’
ao que eu respondi com 25 26 27 dúvidas
‘sei pouco sobre o devir da pedra’.

Deleuze, vem daí, deita comigo nessa mesa
sacode o meu sexo nessa jangada frágil
onde o corpo e os órgãos
são largados na operação do mundo.

[in Artesanato, não (edições), 2015]

O vulcão erudito

Coincidindo com a exibição do filme nos cinemas portugueses, chegou recentemente aos escaparates a versão romanesca de A Juventude, de Paolo Sorrentino. Vi a película, li o livro. Detestei os dois. Na tradução do italiano, feita por Rossana Appolloni, encontrei um erro involuntário que escapou aos revisores e de certo modo ainda bem, porque é muito divertido – ao contrário do texto original. Acontece quando o narrador compara o protagonista e a filha às «estátuas cristalizadas» depois da erupção de um vulcão. Só que o que está lá escrito é «a erudição de um vulcão». No caso do Etna, diga-se, até faria algum sentido, se nos lembrarmos que foi nas suas entranhas que Empédocles, o filósofo pré-socrático, se lançou para a morte.

A noite dos homens

Pai Nosso
Autora: Clara Ferreira Alves
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 474
ISBN: 978-989-724-270-0
Ano de publicação: 2015

Chamam-lhe «O Fantasma». Maria, a protagonista de Pai Nosso, primeiro romance de Clara Ferreira Alves, é uma figura misteriosa, difusa, uma esfinge. Para acender os muitos cigarros que fuma, risca fósforos. Bebe gin no bar do Al-Rashid, o hotel mais luxuoso de Bagdade. Tem aura de antiga estrela de cinema. Apropriadamente, tratando-se de uma lenda viva do fotojornalismo, o seu retrato, logo na primeira página, não podia ser mais fotográfico: «Sopra uma coluna de fumo que dissolve as linhas da expressão. A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa. Tem as unhas cuidadas e envernizadas. Os dedos nodosos, a pele da mão manchada de sardas.» Ela está ali, no centro do «ninho de cobras» que é o Iraque, um país destruído, entregue ao caos, com as milícias do ISIS a poucos quilómetros da capital, porque esse é o destino mais lógico para quem viu e captou, em imagens que correram mundo (e até chegaram à capa da revista Time), os principais conflitos das últimas décadas. Ela esteve no Afeganistão, no Kosovo, em Jerusalém, nos territórios palestinianos ocupados, em Telavive, conhece o Médio Oriente como a palma das mãos. Após tantos anos de contacto com a guerra, a guerra já faz parte dela, da forma como olha para a realidade à sua volta. «Só existe a barbárie. Entrámos na noite dos homens.» Uma noite que se espalha pelo mundo e chega a todo o lado. Até à Europa. Até a Lisboa.
Quando o livro começa, a capital portuguesa já foi abalada por um acontecimento maior, inimaginável, tremendo, mas que só será revelado nas páginas finais. É atrás da explicação desse acontecimento, da sua história «mal contada», que chega ao Al-Rashid a narradora, Beatriz, professora de Estudos do Médio Oriente em Inglaterra. Um editor português desafiou-a: «Minha cara amiga, depois daquilo que se passou, ficámos no mapa. Se ficámos no mapa!» Só que para compreender o que se passou é preciso ouvir o testemunho de Maria, peça-chave no labirinto da tal história mal contada, a mulher que «permaneceu anos em silêncio», mas talvez esteja disposta a libertar-se de um segredo. «Tente», diz-lhe o «especialista de best-sellers», assim como quem atira barro à parede. E Beatriz tenta.
No ambiente saturado de testosterona dos correspondentes de guerra, «durões» da velha guarda, «sanguessugas da desgraça», ameaçados pela horda dos freelancers «dispostos a tudo por um furo que ninguém quer», Beatriz consegue quebrar a película de desdém com que Maria enfrenta os outros e torna-se a sua protegida, a sua confidente. Fechadas no quarto, conversam dias a fio, desbravando as «paisagens» do passado. Maria é a Sherazade de Beatriz, uma voz fluida, um rio interminável de palavras que o gravador regista, relato em expansão acelerada e cada vez mais denso, à medida que mergulha nas memórias íntimas da fotógrafa portuguesa, quase sempre tingidas de melancolia e sobrepostas como se fossem estratos geológicos.
Ao longo do livro vão surgindo muitos «figurantes», personagens que entram na história para sair no momento seguinte, mas o centro de Pai Nosso está numa única pessoa: Maria. A sua personalidade determina o ritmo da escrita. Cheia de certezas, sentenciosa, ela gosta de exagerar («Sem a hipérbole, as descrições sofreriam») e de impor a sua visão das coisas. A prosa acompanha essa cadência afirmativa. É sincopada. Feita de frases curtas e incisivas. Stacatto verbal. Poucas vírgulas, muitos pontos finais. Um estilo forte, enérgico, quase sempre brilhante, mas que se torna cansativo, sobretudo porque não há outros registos que se lhe oponham e criem um contraste. A voz de Maria contamina tudo à sua volta. A própria Beatriz admite: «Estou a falar como ela.»
A estrutura narrativa não é propriamente original. O romance funciona como o gravador de Beatriz. Por isso há capítulos intitulados «play» (a acção no tempo presente, em Bagdade), «rewind» (os mergulhos no passado) e «fast forward» (avanços cronológicos). Embora simples, o dispositivo é eficaz. O problema não está aí, mas na articulação entre dois tipos de materiais que nunca chegam a coexistir de forma harmoniosa. Ou seja, o jornalismo e a ficção pura. As deambulações de Maria pelos palcos das várias guerras correspondem a uma realidade que Clara Ferreira Alves conhece muito bem e desdobra à nossa frente com mestria. Já os enredos propriamente romanescos revelam uma enorme fragilidade, sobretudo os que abarcam as relações amorosas de Maria e as figuras do passado português.
Se a trajectória da infância, no eixo Campolide-Benfica, sob o signo de uma mãe suicida e de um pai distante, racista, antigo combatente em África, espécie de último soldado do Império, até nos oferece belas páginas, o mesmo não se pode dizer dos episódios relativos à amizade com a filha de um banqueiro com «olhos de réptil», casada com um tal de Eduardo Allen Carneiro, ex-maoísta que se torna primeiro-ministro de Portugal e depois «Presidente da Europa». Estamos no território do roman à clef pouco subtil. Apoiante entusiástico da invasão do Iraque em 2003, Allen Carneiro não se liberta do peso de ser uma caricatura de Durão Barroso. E não é preciso um grande esforço de imaginação para atribuir ao sogro de Eduardo, uma espécie de eminência parda, os traços de um mediático banqueiro recentemente caído em desgraça. Outro aspecto que não resulta é a inclusão, no corpo do texto, de preces das três ‘religiões do livro’: invocações tanto ao Deus dos cristãos (o Pai Nosso do título), como ao dos muçulmanos (Alá) e dos judeus (Adonai). Por muito que se fale de Jerusalém, a questão religiosa nunca assume uma centralidade que justifique a repetição, algo forçada, de excertos das referidas preces.
A ideia com que se fica, ao concluir a leitura deste romance, é que Clara Ferreira Alves se deixou dominar pela torrencialidade da protagonista. Consequência: o romance sofre de hipertrofia e leva demasiado tempo a chegar ao seu poderosíssimo desenlace. Ainda assim, pelo caminho algo acidentado, a autora oferece-nos uma muito razoável colecção de belas frases, a confirmar o seu reconhecido virtuosismo verbal. Exemplos: uma mulher «a polir as unhas com uma lima neurótica»; o pátio de hotel onde «faleceu uma piscina vazia com mosaicos partidos»; o canto do muezim, «lamento líquido como mercúrio derramado»; os nómadas que se enfiam «pela bainha da guerra apascentando os rebanhos»; ou o calor do corpo «retido na prata» do frasco de gin.
Pai Nosso é um excelente livro sobre os horrores deste início de século e suas múltiplas causas, mas fica aquém do grande romance que prometia ser. Falta-lhe em espessura ficcional o que lhe sobra em reflexão apaixonada sobre o porquê da “noite dos homens”, em cujas sombras há quem decapite inocentes.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Biblioteca de Bolso, #2

No segundo episódio do Biblioteca de Bolso, há reflexões sobre a morte em torno de uma novela perfeita de Tolstói, há a história de uma paixão assolapada por uma personagem de Os Maias (com todos os efeitos secundários, hormonais e sentimentais, que se possam imaginar), há uma tatuagem em cirílico que causa equívocos no Estádio da Luz, há memórias de chocolate quente (a ler Roald Dahl), há curiosos soundbytes e muitas, muitas gargalhadas. São 40 minutos de animadíssima conversa com a Catarina Homem Marques. Podem escutá-los aqui.

O apocalipse ‘apocalítico’

As editoras que obedecem ao novo Acordo Ortográfico espalham a esmo, nos seus livros mais recentes, calinadas que até me magoam os olhos – provocando uma dorzinha que se espalha, em movimento ondulatório, através do nervo óptico (com p) até às mais remotas circunvoluções do meu cérebro. Os vocábulos do acordês são feios, feios, feios. Ainda há dias, ao ler o excelente A de Açor, de Helen Macdonald (Lua de Papel), fiquei uns bons segundos a olhar para uma palavra coxa, «apocalítica», até perceber que se tratava de um adjectivo associado à ideia de apocalipse. Escusado será dizer que o verdadeiro apocalipse em curso é o da língua portuguesa.

Provador de sons (2)

«Aquela sala, aquela música»:

Provador de sons

No mais recente livro de Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre Música (Relógio d’Água), encontrei, logo a abrir, este fragmento:

«Pensar em provadores de música semelhantes aos provadores de vinho. Provam com a orelha: trinta segundos de som e rapidamente percebem o essencial.
Sete orquestras em sete salas diferentes, salas fechadas. O provador de sons abre, uma após outra, cada uma das portas e inclina o seu sistema auditivo na direcção do som durante trinta segundos. Durante trinta segundos de vida nada existe senão trinta segundos de música. Ou seja, não são trinta segundos de vida, são trinta segundos de música. Já está. O provador segue para a sala seguinte. No fim, diz: escolho aquela sala, aquela música.»

Ora aí está uma profissão que eu não me importava de ter.

E porque não?

A actriz Emma Watson anunciou a intenção de criar um «clube do livro feminista».

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves (Clube do Autor), por José Mário Silva
Todos os Fogos, o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
A Morte de um Apicultor, de Lars Gustafsson (Marcador), por José Guardado Moreira
O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman (Fyodor Books), por José Mário Silva
Os Ombros da Marquesa e outras ironias, de Émile Zola (Sistema Solar), por José Guardado Moreira

À flor da boca

Pornografia Comum
Autor: Joaquim Cardoso Dias
Editora: Gulliver
N.º de páginas: 53
ISBN: 978-989-20-6243-3
Ano de publicação: 2015

Revelado durante a década de 90 nas páginas do saudoso DN Jovem, onde se tornou figura de culto entre os colaboradores do suplemento, Joaquim Cardoso Dias (n. 1973) é um poeta muito discreto e, talvez por isso, quase desconhecido, embora nunca lhe tenha faltado o reconhecimento de outros poetas. Até agora, a sua obra resumia-se a um único livro de poesia, O Preço das Casas (Gótica, 2002), e à organização de um volume de correspondência (Dez Cartas para Al Berto, Quasi, 2007). Esta contenção deve-se a um auto-escrutínio implacável e talvez excessivo («escrevo muito pouco e posso dizer tudo / e não falar nada»), nos antípodas de uma certa ligeireza que leva alguns autores a publicarem praticamente tudo o que escrevem.
Para JCD, a poesia só faz sentido se for um lugar de entrega absoluta, de exposição total, palco de todos os fulgores e fragilidades: «eu escrevo livros para pulsar / no mundo». E é isso que eles fazem. Pulsam como corpos perecíveis. Captam microscópicas vibrações, cambiantes de luz, matérias tão impalpáveis que estão sempre em vias de se desfazer. Em O Preço das Casas, circulávamos entre os abismos do amor e a desolação do que vem depois. Numa das páginas finais, um verso refere a «palavra morte sem princípio nem fim». Era ainda uma morte quase abstracta, mas que se materializa agora, como sombra omnipresente, em Pornografia Comum, livro que nasce de um estado de luto, após a morte recente, e quase simultânea, dos pais do poeta.
De uma obra para a outra, repetem-se títulos, alguns versos, um poema inteiro, a mesma voz magoada, delicadíssima. Esta é uma arte de elipses e incisões, de desvios e recuos, de coragem e recato, de coisas ditas «à flor da boca». E se «escrever é sempre aquele desejo demasiado / inocente», também conduz a uma espécie de conhecimento íntimo da beleza: «sei que uma criança é um espelho à janela / cercada pelas estrelas em plenos pulmões».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Más notícias do Oriente

Em Hong Kong, ser livreiro é uma profissão de risco.

Metempsicoses

As Reencarnações de Pitágoras
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-665-015-5
Ano de publicação: 2015

Tal como a obra literária de Gonçalo M. Tavares, também a de Afonso Cruz tem várias frentes, ou ramos autónomos. Um dos mais profícuos tem sido, desde 2009, o projecto da Enciclopédia da Estória Universal, conjunto de volumes supostamente organizados por um fictício Théophile Morel. A ideia inicial da série consistia em juntar, por ordem alfabética, entradas sobre os mais variados tópicos (filosóficos ou históricos, científicos ou míticos), todas elas fantásticas, falsificadas, ou mal atribuídas. Estávamos no terreno da literatura enquanto jogo e «grande burla», em que o leitor, o burlado, está consciente dos engenhosos enganos e deixa-se enredar nos labirintos da ficção, à maneira do que acontece em muitos livros de Borges, mencionado por Morel, no comentário ao primeiro volume, como exemplo de toda uma escola de escritores «embusteiros e mistificadores».
Se os volumes seguintes mantiveram os princípios estruturais – como a ordem alfabética e as citações de autores imaginários, muitos dos quais aparecem, enquanto personagens, nos romances autónomos de Afonso Cruz –, o certo é que a Enciclopédia tem vindo a perder consistência. O segundo tomo (Recolha de Alexandria, 2012) e o terceiro (Arquivos de Dresner, 2013) revelavam menos rasgo do que o volume inicial, mas eram ainda belíssimas colecções de pequenas narrativas eruditas, saídas da imaginação algo selvagem de um leitor omnívoro, que imaginamos a devorar bibliotecas inteiras e a recombiná-las num acto de suprema liberdade criativa. Já o quarto volume, Mar (2014), se revelou mais problemático, não apenas por se circunscrever a um só tema, anunciado no título, mas porque inclui textos de maior dimensão (duas novelas curtas). No fundo, funciona como uma recolha de contos, alguns deles com interligações, quase todos bastante conseguidos. Nada temos contra o livro enquanto objecto literário que vale por si mesmo (embora não esteja entre os melhores de Afonso Cruz), mas inclui-lo na série da Enciclopédia pareceu algo forçado.
O mesmo se passa com este quinto volume, servido por belas ilustrações de Susa Monteiro. Não se discute o conceito, um «resumo poético de algumas das transmigrações que Pitágoras viveu ao longo dos séculos, desde a Mesopotâmia aos dias de hoje», mas o seu confinamento temático. Se excluirmos o facto de os textos, curtíssimos, surgirem em ordem alfabética, não há nada que justifique a inclusão na Enciclopédia – a não ser, talvez, o compromisso assumido com a editora de publicar um volume por ano. Além disso, o próprio elemento unificador, ou seja, o exercício de invenção de vidas passadas e futuras para o matemático grego que acreditava na reencarnação da alma, parece algo gratuito. É um pretexto como qualquer outro para criar uma galeria de personagens, mas sente-se que essas personagens seriam as mesmas, existiriam sempre, mesmo se o pretexto fosse diferente.
Num escritor tão talentoso e brilhante, fica a ideia de que Afonso Cruz baixou a guarda e cedeu à facilidade. A própria escrita revela mais oscilações qualitativas do que é hábito no autor. Ainda assim, o livro vale por algumas vinhetas perfeitas. Um exemplo: a história de Malgorzata Jajac, presença assídua nos outros volumes da Enciclopédia, autora que «escrevia terramotos» e cujas frases, de tão altas, se tornavam «para quem as lê, vertigem numa folha de papel». Ou esse Ioane Dolidze que «pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos». Como? Dizendo aos homens para «caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço».

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Biblioteca de Bolso, #1

O primeiro episódio já está disponível: aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges