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Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas

Eis o Manifesto para uma Esquerda Livre:

«Portugal afunda-se, a Europa divide-se e a Esquerda assiste, atónita.
As raízes desta crise estão no desprezo do que é público, no desperdício de recursos, no desfazer do contrato social, na desregulação dos mercados, na desorientação dos governos, na desunião europeia e na degradação da democracia.
Em Portugal e na Europa, a direita domina os governos, as instituições e boa parte do debate público. A direita concerta-se com facilidade, tem uma agenda ideológica e um programa para aplicar. A direita proclama que o estado social morreu e que os direitos, a que chamam adquiridos, são para abater.
Em Portugal e na Europa, a esquerda está dividida entre a moleza e a inconsequência. Esta esquerda, às vezes tão inflexível entre si, acaba por deixar aberto o caminho à ofensiva reaccionária em que agora vivemos, e à qual resistimos como podemos. Resistir, contudo, não basta.
É necessário reconstruir uma República Portuguesa digna da palavra República e construir uma União Europeia digna da palavra União.
É preciso propor aos portugueses, como aos outros europeus, um horizonte mais humano de desenvolvimento, um novo caminho para a economia e um novo pacto de justiça social.
É possível fazê-lo. Uma esquerda corajosa deve apresentar alternativas concretas e decisivas para romper com a austeridade e sair da crise, debatidas de forma aberta e em plataformas inovadoras.
A democracia pode vencer a crise. Mas a democracia precisa de nós.
Apelamos a todos aqueles e aquelas que se cansaram de esperar – que não esperem mais.
É a nós todos que cabe construir:
UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efectivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.
UM PORTUGAL MAIS IGUAL, socialmente mais justo, que respeite o direito ao trabalho condigno e combata as injustiças e desigualdades que o tornam insustentável. Um país decidido a superar a crise com uma estratégia de desenvolvimento económico e social, com uma economia que respeite as pessoas e o ambiente, numa democracia mais representativa e mais participada, com um Estado liberto dos interesses particulares que o parasitam.
UMA EUROPA MAIS FRATERNA, à altura dos ideais que a fundaram, transformada pelos seus cidadãos numa verdadeira democracia. Uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam. Uma Europa que ambicione um alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma União que faça do pleno emprego um objectivo central da sua política económica, que dê um presente digno aos seus cidadãos e um futuro promissor às suas gerações jovens.»

Eu já assinei, aqui. A apresentação pública deste manifesto acontecerá amanhã, 17 de Maio, às 11h30, no Café do Cinema São Jorge, em Lisboa.

Carlos Fuentes (1928-2012)

Dos três grandes nomes do boom latino-americano (os outros são Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa), foi o único a não chegar ao Nobel. Resumo biográfico aqui. A Porto Editora, que publicou recentemente o romance Adão no Éden, editará em breve dois livros do escritor mexicano ainda inéditos em Portugal: Contos Naturais e Contos Sobrenaturais. As principais obras de Fuentes, como O Velho Gringo e Aura, foram durante muitos anos publicadas pela Dom Quixote.

Noites do ‘Mauritânia’

O Mauritânia Real é um dos restaurantes de Matosinhos que costuma reunir escritores à conversa, durante as edições do LeV (Literatura em Viagem), o encontro literário que costuma decorrer no final de Abril, sempre com muito público a assistir às sessões na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, mas foi este ano cancelado por razões financeiras que comprometeram o apoio da autarquia ao projecto. O organizador do LeV, Francisco Guedes, não baixou os braços e resolveu «abrir outra porta», para que «o público ligado a estas coisas da cultura tenha onde ir quando se sentir mais pachorrento». Nasceu assim a ideia de jantares-encontros com escritores, a realizar todas as quintas-feiras, até 15 de Julho, justamente no Mauritânia Real. As marcações fazem-se para o 96.230.07.66 (Artur), ao preço de 25 euros (com direito a «repetir sólidos e líquidos»).

As praias do Arizona

Caligrafia dos Sonhos
Autor: Juan Marsé
Título original: Caligrafia de los Sueños
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora:
Dom Quixote
N.º de páginas: 315
ISBN: 978-972-20-4917-7
Ano de publicação: 2012

Juan Marsé abre Caligrafia dos Sonhos com uma cena de grande efeito. No bairro de Gràcia, em Barcelona, a Torrente de las Flores (rua com 46 esquinas e três tabernas) assiste, num domingo à tarde, a uma tentativa de suicídio tão melodramática quanto ridícula. Vicky Mir, uma massagista anafada e sentimental, deita-se sobre os carris do eléctrico, aparentemente para pôr fim à vida e a um desgosto amoroso. A cena torna-se grotesca porque naquela rua já não passa qualquer eléctrico e as «mutiladas» linhas, agora inúteis, curvam «em direção a nenhures». O desespero de Vicky é por isso um equívoco penoso, puro teatro, uma «falácia». Entre os mirones que assistem ao triste espectáculo, o protagonista do livro (Ringo, 15 anos, «adolescente um tanto paspalhão e de olhar sombrio») intui pela primeira vez que «o inventado pode ter mais peso e credibilidade que o real, mais vida própria e mais sentido, e por conseguinte mais possibilidades de sobrevivência face ao esquecimento».
Alter ego de Marsé, com quem partilha vários traços autobiográficos (o pai adoptivo que trabalha na desratização dos cinemas, por exemplo), Ringo é um pianista frustrado. Primeiro, a família deixou de lhe conseguir pagar as lições particulares; depois, a esperança numa carreira musical foi-se de vez ao perder um dos dedos, devorado por uma máquina na oficina de joalharia onde trabalha. Leitor omnívoro, o rapaz passa os dias numa tasca, ouvindo e vendo tudo o que se diz e faz no bairro, apurando gradualmente a arte da observação que o levará a tornar-se romancista. Mas se ele acaba por encontrar, no «território ignoto e abrupto da escrita», o «trânsito luminoso que vai das palavras aos factos», há antes disso um longo caminho a percorrer, feito de enganos, juízos falsos, imposturas e coisas entortadas pelo acaso. Ao interferir na história de Vicky, eternamente à espera de uma carta prometida pelo suposto amante, Ringo descobre ao mesmo tempo o poder e os limites da ficção.
Caligrafia dos Sonhos é um bildungsroman com desfecho irónico, mas também um admirável retrato do que era a vida quotidiana na Barcelona dos anos 40, no auge da repressão franquista – tema a que Marsé regressa uma e outra vez, talvez para exorcizar as memórias da sua própria infância e adolescência. A cidade que nos surge é baça e lúgubre, estendendo-se até ao mar «como água da chuva empoçada e suja», uma ratoeira que condena os habitantes dos bairros populares à penúria extrema. As crianças calçam alpergatas de sola de pneu, usam cordas em vez de cintos, vestem camisolas comidas pela traça, têm frieiras e «tez famélica». Não havendo brinquedos, entretêm-se contando histórias uns aos outros, inventando peripécias mirabolantes inspiradas nos livros de aventuras e nos filmes. É num destes círculos de amigos que Ringo começa a destacar-se com a suas «minuciosas invenções», cruzamento de fantasias cinéfilas com pormenores «enquistados na realidade». E é também ali que vê ser posta em causa a liberdade criativa, quando Julito, miúdo penteadinho e presunçoso (o único que anda num colégio), lhe aponta um erro básico de geografia. Na sua narrativa, Ringo descreve índios Apache a galope nas praias do Arizona, logo um dos estados norte-americanos que não dão para o mar. No braço-de-ferro entre o realismo pragmático e a imaginação, porém, nem sempre é a imaginação que fica a perder. Face ao indignado Julito, os outros rapazolas encolhem os ombros: «Querem lá saber se o Arizona tem ou não uma praia, no fim de contas o Oeste Selvagem é um território do cinema que eles fizeram seu e no qual podem fazer o que lhes der na veneta.»
Marsé domina, como poucos, os mecanismos ficcionais, mas o seu livro vale essencialmente pela prosa buriladíssima, capaz de resumir em poucas palavras uma atmosfera (a taberna como «ninho de sombras e silêncio») ou decompor uma situação nos seus mínimos detalhes (isolando, por exemplo, o permanente cheiro a creolina e enxofre nas mãos do «pai mata-ratos», a «fúria latente nos nós dos dedos», uma «voz de fumo»).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Balanço da Feira do Livro

Apesar dos bons resultados em termos de afluência e de vendas, uma grande parte dos editores presentes protestaram contra as datas e os horários da edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa. E com toda a razão. Não faz sentido que a Feira abra portas no fim de Abril (sujeita à instabilidade meteorológica) só para satisfazer os timings do presidente da Câmara do Porto.

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

Rashōmon e Outras Histórias, de Ryūnosuke Akutagawa; Arde o Musgo Cinzento, de Thor Vilhjálmsson; O Escritor-fantasma, de Zoran Živković.

A ‘Leitura Furiosa’ em voz alta

Como sempre, a Leitura Furiosa terminou na Casa da Achada, domingo à tarde, com uma sessão de leitura dos textos escritos por dezenas de autores em Lisboa, Porto, Beja e Amiens, depois dos encontros com os mais variados tipos de “leitores furiosos” na sexta-feira.
Mais uma vez, tive a sorte de ouvir um excelente actor (Antonino Solmer) a ler as minhas palavras e as dos meus meninos:

A partir do mesmo texto, a dupla Pedro e Diana, músicos capazes de fazer uma canção em menos de nada, criaram isto:

Foi muito bom. Para o ano há mais.

Primeiros parágrafos

«Os media e as instâncias oficiais estão a avisar-nos: muito em breve, vai-se desencadear uma nova crise financeira, e será pior que em 2008. Fala-se abertamente das “catástrofes” e dos “desastres”. Mas o que vai acontecer depois? Como serão as nossas vidas depois de um colapso em larga escala dos bancos e das finanças públicas? A Argentina já passou por essa experiência em 2002. À custa de um empobrecimento em massa, a economia desse país pôde em seguida voltar a subir de novo um pouco a encosta: mas nesse caso, tratava-se de um único país. Agora, a totalidade das finanças europeias e norte-americanas estão em risco de sucumbir em conjunto, sem salvador possível.
Em que momento o crash da bolsa deixará de ser uma notícia que conhecemos pelos media para ser um facto perceptível mal saímos à rua? Resposta: quando o dinheiro perder a sua função habitual. Quer tornando-se raro (deflação), quer circulando em quantidades enormes, mas desvalorizadas (inflação). Nos dois casos, a circulação das mercadorias e dos serviços desacelerará até eventualmente parar por completo: os seus proprietários não encontrarão quem as possa pagar em dinheiro, em dinheiro “válido” que lhes permita, por sua vez, comprar outras mercadorias e serviços. Por isso, eles vão guardá-las. Teremos armazéns cheios, mas sem clientes, fábricas em condições de funcionar perfeitamente, mas sem ninguém que nelas trabalhe, escolas onde os professores deixam de comparecer, porque ficaram durante meses sem salário. Dar-nos-emos então conta de uma verdade que é de tal modo evidente que não a víamos: não existe nenhuma crise na produção em si. A produtividade de todos os sectores aumenta continuamente, as superfícies cultiváveis da terra poderiam alimentar toda a população do globo, e as oficinas e fábricas produzem até muito mais do que é necessário, desejável e sustentável. As misérias do mundo não se devem, como na Idade Média, a catástrofes naturais, mas a uma espécie de feitiço que separa os homens dos seus produtos.
O que já não funciona é a “interface” que se ergue entre os humanos e o que eles produzem: o dinheiro. Na modernidade, o dinheiro tornou-se a “mediação universal” (Marx). A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção de bens e serviços não é para ela um fim, mas apenas um meio. O único fim é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois. E quando esse mecanismo se avaria, é toda a produção “real” que sofre e que pode mesmo bloquear por completo. Então, como o Tântalo do mito grego, encontramo-nos perante riquezas que, quando lhes queremos deitar a mão, se afastam: porque não podemos pagá-las. Esta renúncia forçada foi sempre a sina dos pobres. Mas agora, situação inédita, isso poderia chegar a toda a sociedade, ou quase. A última palavra do mercado é assim a de nos deixar morrer de fome rodeados de alimentos empilhados por todo o lado, a apodrecer, mas em que ninguém deve tocar.»

[in Sobre a Balsa da Medusa - Ensaios acerca da decomposição do capitalismo, de Anselm Jappe, Antígona, 2012]

Queres que te faça um desenho?

Ao lado de outros excelentes ilustradores que se reuniram na Casa da Achada no sábado de manhã, o Nuno Saraiva ilustrou o meu texto (sem conhecer os meninos que o inspiraram, como se nota):

A última noite do mundo

São oito meninos que estão juntos e decidem contar uma história, só não sabem como. Uns ainda têm sete anos, outros já chegaram aos oito. A Ysabel («com i grego») nasceu no Brasil, em Minas Gerais, mas fala sem sotaque porque veio para Lisboa ainda bebé. Das visitas a Belo Horizonte, recorda os gelados de côco e uma piscina gigante. Um dia gostava de voltar, talvez para ser cabeleireira, talvez professora de polícias. A Joana não tem dúvidas, nem talvez: quando for crescida será arquitecta, quer desenhar prédios e escolas melhores. Se tiver tempo aprenderá karaté, porque «é bom para uma pessoa se defender». A Beatriz usa óculos cor-de-rosa. Encolhendo os ombros, admite que só lê quando não tem mais nada para fazer. E ela tem sempre muitas coisas para fazer. Por exemplo, fingir-se mais velha ao espelho, para aí uns 23 anos, com a roupa e os sapatos de salto alto da mãe. A mãe nasceu em São Tomé, o pai em Angola, terras que já visitou nas férias e que cheiravam a chuva, mas em que não gostava de viver porque é difícil, ou até impossível, encontrar um McDonald’s. Quando chegar mesmo aos 23 anos, já sabe: se não for modelo, será fadista. A Cátia é da Madeira mas agora vai de eléctrico para a escola todas as manhãs. O melhor dia da sua vida foram dois: o dia em que a levaram pela primeira vez ao circo e o dia em que o seu pai voltou de Abidjan. O Alexandre é muito tagarela e muito sportinguista (vejam a sua camisola às riscas verdes e brancas, com o leão ao peito). No futuro, dê lá por onde der, vai ser cozinheiro em Hollywood, mas por enquanto entretém-se a forrar o quarto com posters do Faísca McQueen. Enquanto exibe a tatuagem de uma caveira voadora a desvanecer-se no braço, garante que já fez com papel e cartolina um pequeno livro de receitas. «Só coisas esquisitas», explica. Esquisitas como? «Hmmmm, deixa cá ver. Ovo estrelado, por exemplo. E panquecas com doce, panquecas com chourição, panquecas com marmelada.» Mais tímido, o João fala muito menos, mas explica que também está a pensar em abrir um restaurante, onde servirá «comida automática» feita por «máquinas ajudantes». Se pudesse, ia 500 vezes ao Algarve e voava até às nuvens como fazem as fadas, a bater um grande par de asas transparentes. Faltam só duas meninas: a Aurora e a Ana Francisca, melhores amigas que se abraçam muito e às vezes se chateiam, só para se reconciliarem logo a seguir. A Aurora aprende violoncelo no Conservatório e já teve um hamster. A Ana Francisca precisa de controlar a vontade de bater nas pessoas (sobretudo num primo mais velho que mora no Luxemburgo) e diz que o seu maior sonho é ver o FMI fora de Portugal.
Mas a história? Que história será? Comecemos pelo título. Quase todos levantam o braço: Cadela Voadora; A Lua Sombria; A Casa Louca; O Livro sem Cor. É difícil chegar a um consenso. O João esboça no papel, linha a linha, a «menina que gostava muito de dançar e depois acordou», a Beatriz lembra-se de uma composição que escreveu para a escola sobre uma estrada que falava e também ria, a Ana Francisca vai buscar o caderno onde guardou as desventuras de um lobo «velhinho e pobrezinho» que se alimentava a sopas de legumes. Não, não, não, nada disso, o grupo quer fazer uma história nova e de todos, uma história que seja dos oito. Uma história de terror, sugere alguém. «Sim, sim, sim, uma história de terror», respondem quase todos. E assim começa a nascer A Última Noite do Mundo, em que se cruzam lobisomens e lobimulheres, vampiros e vampiras, vários tipos de zombies. De repente os monstros levantam-se, ao fundo da sala não há cenário mas há teatro, a Ysabel («com i grego») e o João representam, sozinhos, o género humano acossado, assustado, encurralado. «Agora os monstros destroem tudo», propõe a Ana Francisca, «e depois fazem uma festa». Finda a festa, fartos de destruição, os monstros viram costas, regressam ao mundo deles. E depois? Meio escondida debaixo de uma mesa, como se ainda temesse os inimigos que já desapareceram, a Ysabel («com i grego») olha para o João, ali a seu lado, erguendo-se junto ao quadro de ardósia como se fosse o primeiro homem, e diz: «Depois recomeçamos.»

José Mário Silva, com Alexandre Monchique, Ana Francisca Teixeira, Aurora Gomes, Beatriz Almeida, Cátia Conceição, Joana Matos, João Alves e Ysabel Silva, alunos da Escola n.º 10 (Castelo)

Oito meninos juntos decidem contar uma história

Na Leitura Furiosa de 2010, couberam-me seis alunos do ensino básico. Na de 2011, cinco homens a quem a vida pregou rasteiras. Este ano, voltei à escola e trabalhei com oito crianças da Escola n.º 10 do Castelo (Lisboa).
Ei-las:


Cátia Conceição, 7 anos


Aurora Gomes, 7 anos


Ana Francisca Teixeira, 8 anos


Alexandre Monchique, 7 anos


João Alves, 7 anos


Beatriz Almeida, 7 anos


Joana Matos, 8 anos


Ysabel Silva, 7 anos

E a fotografia de grupo:

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Juan Marsé, autor de Caligrafia dos Sonhos (Dom Quixote), e recensão ao livro, por José Mário Silva
- O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes (Letra Livre), por Manuel de Freitas
- Morte de uma Estação, de Antonia Pozzi (Averno), por Pedro Mexia
- Barro, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por António Guerreiro
- Os Cães, de Ola Nilsson (Eucleia), por Ana Cristina Leonardo
- Índia – Uma Biografia Íntima, de Patrick French (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- A Próxima Década, de George Friedman (Dom Quixote), por Cristina Peres
- Escolhas de Anabela Mota Ribeiro

Leitura Furiosa (este fim-de-semana)


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Maravilhas da paternidade

Pedro: «Já sei, já sei, as barrigas das mães quando estão grávidas são como as ostras e os bebés crescem lá dentro como as pérolas, não é?»

O que aí vem (Saída de Emergência)

A Brisa do Orient (Vol. 2), de Paloma Sánchez Garníca; Nero, de Vincent Cronin; Luz e Sombras, de Anne Bishop; A Jóia Encantada, de R. A. Salvatore; A Jornada do Assassino, de Robin Hobb.

Mia Couto: “Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida”

Em 2008, a vila de Palma, na província de Cabo Delgado (norte de Moçambique), foi assolada por uma série de ataques de leões «assassinos». Em poucos meses, contavam-se mais de duas dezenas de vítimas humanas. Na altura, a empresa petrolífera para a qual o escritor Mia Couto trabalha, como biólogo, tinha quinze oficiais ambientais a fazer trabalho de campo na região, dormindo em tendas de campanha no meio do mato e circulando a pé, o que os tornava alvos potenciais dos felinos. Para resolver definitivamente o problema, foram enviados para Palma dois caçadores experientes, mas mesmo eles só conseguiram eliminar as feras após semanas de «frustração e terror». Várias vezes lhes foi sugerido pelos habitantes locais que, se os responsáveis pelas mortes eram leões, não seriam leões de carne e osso, antes leões «fabricados», criaturas do «mundo invisível», onde «a espingarda e a bala perdem toda a eficácia».
Mia Couto acompanhou de perto o drama das mortes violentas, com o seu rasto de medo, e soube logo ali que tinha de escrever um livro a contar, com os instrumentos da ficção, esta história fortíssima. No termo de um processo criativo complexo, em que se sucederam as versões, o escritor dá finalmente a conhecer o resultado de um trabalho que lhe tomou mais de três anos: A Confissão da Leoa, romance editado em Portugal pela Caminho. Em frente ao Tejo, numa esplanada protegida de um vento inusitadamente frio para uma tarde de Abril, Mia Couto falou-nos do livro e das suas circunstâncias. Antes, deixou-se fotografar no pequeno jardim tropical que fica numa das extremidades do Parque das Nações. Uma eritrina, ou árvore-coral, exibia as suas deslumbrantes flores vermelhas, mas foi junto das suas «amigas» palmeiras que se aconchegou. «Aqui sinto-me bem, quase em casa», confessou o escritor-biólogo no meio das espécies botânicas africanas, ele que em Portugal diz ser incapaz de «falar» com as árvores, «porque não sei os seus nomes».

Ao ler a nota introdutória a este romance, com a explicação dos factos reais que o inspiraram, encontramos uma daquelas situações que parecem exigir um ficcionista que as transforme em literatura. Foi isso que aconteceu? A história impôs-se ao escritor Mia Couto?
Sim. Foi uma história que se impôs. Mas também foi uma história que eu senti que era perigosa. Primeiro, porque a realidade de que partia era tão forte que condicionava muito a forma de a contar. Depois, porque caminhava muito pelos grandes estereótipos associados a África: os caçadores, os caçados, os leões, as crenças, os elementos mágicos, etc. Queria fugir a isso, queria esquivar-me a esse retrato mais imediato, contornar essa abordagem mais óbvia. Eu estava lá quando aconteceu o primeiro dos casos. Vieram acordar-me a dizer: «está ali um homem que foi morto esta noite por leões». Aquilo despertou logo em mim o primeiro grande medo que nos percorre enquanto espécie: o de sermos devorados. Quando chegaram os caçadores para abater os leões, vinha entre eles um amigo meu, que também escreve. Ele disse-me: «Essa história quem a vai escrever sou eu, porque eu é que sou o caçador.»

É aí que nasce um dos principais conflitos que atravessam o romance, entre a personagem do caçador e a personagem do escritor?
Sim. Isso surgiu assim na realidade. Mas houve outros elementos que me permitiram fugir dos estereótipos do exotismo africano, uma coisa já muito vista. O meu convívio próximo com a realidade do lugar permitiu-me escrever uma história que não é exactamente sobre a caça, e menos ainda sobre essa visão folclórica de África. Eu tive de ganhar um certo grau de intimidade com os habitantes daquela região, de maneira a perceber os nomes, as histórias que estavam por trás da aparência das coisas, e aí percebi que eram sobretudo histórias de mulheres que me pediam para ser contadas.

Mulheres que foram as principais vítimas dos leões.
Efectivamente, foram elas. Dos 26 ataques resultou uma única vítima masculina. As mulheres são mais vulneráveis, pela própria natureza das suas actividades: ir buscar água, etc. E o tal caçador meu amigo, Sérgio Veiga, gostava de apontar para um grupo de pessoas e dizer: «se tu fosses leão, quem é que escolhias para atacar?» O leão é um animal que percebe imediatamente qual a presa mais fraca. E os homens caminham com paus nas mãos, com catanas, transmitem a imagem de alguém pronto para o confronto. Pela maneira de andar, pela postura, as mulheres revelam-se mais frágeis e por isso tornam-se vítimas preferenciais.

Quando é que percebeu que já podia contar esta história?
De início, senti que tinha de a travar, ela precisava de tempo para ganhar a forma certa. Comecei-a em 2009 e só três anos depois é que a conclui. Houve várias versões. Numa delas, por exemplo, em vez de dois, havia três narradores. O terceiro era o escritor, sempre deslocado e a sentir a angústia de não pertencer àquele lugar. Uma angústia que era um bocadinho a minha, enquanto estive lá. Há cerca de um ano, compreendi que havia um outro livro dentro deste livro e tive de o separar. Fiz ali um trabalho de cirurgia. Aquela é uma história diferente, com outras personagens.

Tenciona publicá-la mais tarde?
Não sei ainda. Isto é justamente como na caça. Há aquele momento que é irrepetível. O momento em que nos apercebemos de que o animal está ali, à nossa mercê. Se não o aproveitamos, o animal foge.

Depois é difícil voltar a tê-lo na mira?
Impossível. Não acontece mais. Às vezes, alguns amigos, ou o editor, dizem-me para pegar naquelas personagens, naquelas situações, mas eu não consigo. Elas tiveram o seu momento e o momento passou.

O caçador dispara várias vezes para acertar uma. O escritor também tem de falhar muito para acertar?
Claro. Todo o escritor é um reescritor. Só nesse apuramento sucessivo é que ele vai encontrar a frase certa. Tal e qual o exercício da pontaria.

Às tantas, no livro, alguém diz que é preciso mais coragem para escrever do que para caçar.
Na escrita também nos colocamos numa situação de grande exposição, estamos ali de peito aberto. De repente, pomos à vista as nossas feras interiores, os nossos fantasmas.

Kulumani, a localidade onde decorre a acção, é uma espécie de paradigma da aldeia africana, um lugar fechado, «atrofiado pelo medo», onde «tudo está treinado para morder».
Ao descrever a aldeia de Kulumani quis sobretudo contrariar a imagem romântica de África enquanto lugar onde é possível uma harmonia perfeita, a imagem idílica das aldeias em que as pessoas cooperam umas com as outras. Na verdade, ali acontece o que acontece em qualquer lugar do mundo. Invejas, maledicências, traições, violência, todos os cambiantes da maldade humana. Aliás, os conflitos internos existiram sempre, mesmo antes da chegada dos ocidentais. E esses conflitos até são saudáveis, fazem mover a sociedade.

As histórias de amor que aparecem no livro são muito fugidias. Nascem de contactos mínimos entre as personagens.
Isso é porque elas acontecem num contexto em que o amor não está previsto, em que não há tempo para o amor. Em sociedades focadas na luta pela subsistência, o amor é um estorvo. As paixões realizam-se mais no plano do sonho, da ilusão.

Este romance começa por parecer uma história aventurosa sobre leões, verdadeiros ou imaginários, mas acaba por ser muito mais um romance sobre a condição das mulheres.
Sem dúvida. É essa no fundo a história que eu quis contar. Hoje em Moçambique há um assunto não resolvido entre homens e mulheres. Os homens têm medo de perder a hegemonia e não compreendem uma certa lógica que se faz do murmúrio, do silêncio, que é a lógica feminina.

São vários os momentos em que assistimos à violência masculina exercida sobre as mulheres. Num deles, particularmente brutal, uma rapariga é violada por um grupo de homens que ficam impunes.
Essa história também é verdadeira, li-a num jornal. O que é mais triste é que algumas das vítimas dessa violência sistemática – e mais do que sistemática, sistémica (porque é um sistema que a induz) – são levadas a considerar-se culpadas, como se fosse aquele o seu destino, permitindo a impunidade dos homens.

Será que as pessoas que viveram a história real vão receber bem o livro?
É uma boa pergunta. A maior parte daquelas pessoas não lêem. Grande parte delas nem sequer fala português. Mas eu quero que a minha história chegue até elas, quero explicar-lhes como a contei.

Já voltou à região?
Voltei quando tinha a história arrumada na minha cabeça. Mas não disse nada às pessoas. Elas pensam que eu ainda estou a escrever o livro. É muito curiosa a relação que têm comigo. Autorizaram-me a espreitar aspectos mais íntimos da vida da comunidade e isso obriga-me a ter um respeito enorme. Não posso trair a confiança delas. Vou ter de explicar que esta história é só minha. Construí uma história que não é um relato, não é uma obra de testemunho. Não é a história que lhes aconteceu, é a minha história.

Terminar um romance de gestação tão difícil trouxe-lhe alguma espécie de alívio?
Talvez tenha havido alívio, mas um alívio triste.

Triste porquê?
Eu vivi ali. Por isso, há uma parte de mim que termina quando termina a história. Sei que estou a romantizar o assunto, sei que isto é ilusório, mas de alguma forma eu sinto que não sou o autor do livro, que apenas transcrevo e a minha mão é usada para dar expressão a outras vozes. Agora, há qualquer outra coisa que eu tenho de procurar, porque isto é um vício. Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida.

Não há nenhuma narrativa a que gostasse de se agarrar já a seguir?
Talvez aquela que saltou deste livro. Provavelmente tem força para me desafiar. Ela já chamou por mim. Ainda está muito presente. Mas vou ter de alterá-la profundamente para ter um convívio de surpresa com ela. Eu tenho de ser surpreendido pela história.

E assim que isso aconteça, a escrita pode começar.
Sim. Mas se não acontecer, se este for o meu último livro, tudo bem. É porque se calhar estou a ser feliz fazendo outras coisas.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Palavras que se cruzam

No blogue da Quetzal pode ser lido na íntegra o texto que o poeta João Luís Barreto Guimarães preparou para o “dueto improvável” com o cruciverbalista Paulo Freixinho. Começa assim:

«Não é fácil para um poeta que acaba de reunir a sua obra, e não encontra nas cerca de duas centenas e meia de poemas que a constituem mais do que 2 ou 3 referências a “Palavras Cruzadas”, esboçar um pequeno ensaio sobre uma possível relação – tão ao gosto da Manuela Ribeiro e do Francisco Guedes, das Correntes d’Escritas, – entre “Palavras Cruzadas” e “Poesia”.
Na verdade, as referências a “Palavras Cruzadas” ou “cruzamento de palavras” na minha poesia são tão naturalmente escassas, que são fáceis de enumerar: no poema de Este Lado para Cima (1994), “disponho os amigos pelas paredes do quarto”, o gesto de abrir o jornal nas palavras cruzadas e constatar que já foram feitas é comparado ao instante em que se descobre que um amigo nos desiludiu; no poema Segundo café da manhã, de Luz Última (2006), a procura de um sinónimo (com 5 letras) para a palavra “regime” por uma funcionária pública obesa é comparada à eterna cruzada pela qual a mesma passa para emagrecer, sendo a palavra “dieta” a resposta aos dois problemas; e o poema D.N.A., de A parte pelo todo (2009), cujo enunciado pode ser visto como um enunciado típico de palavras cruzadas, acaba por se constituir, pelo contrário, como uma falsa pista já que a conhecida expressão anglosaxónica correspondente a “ácido desoxiribo-nucleico”, a fonte da vida humana, acaba por ser transformada – num momento de ira contra o Divino, própria das fases do luto, perante a perda de um familiar, – na provocação latina “Deus non auctoris”, para melhor compreensão e ofensa ao Criador.
Excluindo estas situações nada, ou quase mais nada.»

Continuar a ler aqui.

Quatro poemas de Manuel Alegre

OS SANTOS DE RIBERA

Os santos de Ribera têm as unhas sujas
cabelo curto
a barba por fazer em rostos curtidos e morenos
os santos de Ribera são todos espanhóis
camponeses apóstolos cor de terra
só o corpo de Cristo tem a palidez
de uma lua morta de Andaluzia
e não há rosto mais de povo do que o rosto
de Maria.
Os santos de Ribera são outra fé
outra hierarquia.

***

DEZEMBRO NAS MARGENS DO RIO

Aqui nas águas do rio
quantas vezes nos banhámos
mas agora ninguém chama
ninguém salta dos salgueiros
para o fundão junto à nora
ninguém à tarde assobia
para olharmos no areal
as pernas das lavadeiras.
Dezembro diz-se com frio.
Diluídos na neblina
vão aqueles que se banhavam
comigo nas águas do rio.

***

OS GUERREIROS

Subitamente saíram da sombra.
Vinham de cara ao sol
com suas armas cintilantes
soltando grandes gritos de combate
para morrer diante da cidade
que ninguém sabe ao certo onde ficava
e talvez fosse apenas
uma palavra.

***

ARTE POÉTICA

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

[in Nada Está Escrito, Dom Quixote, 2012]

Bairro dos Livros

Fica no Porto e está com nova dinâmica, novo fôlego, novo impulso para marcar a vida cultural da cidade. Todas as informações (das livrarias aderentes às vantagens para o leitor) podem ser consultadas aqui.

O que aí vem (Dom Quixote)

Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa; Até ao Fim da Terra, de David Grossman; Goodbye, Columbus, de Philip Roth; Pornografia, de Witold Gombrowicz; A Coisa à Volta do Teu Pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie; Caçadores de Cabeças, de Jo Nesbø; Fórmulas de uma Luz, de Nuno Júdice.

Entre homens e leões

A Confissão da Leoa
Autor: Mia Couto
Editora: Caminho
N.º de páginas: 270
ISBN: 978-972-21-2567-3
Ano de publicação: 2012

O novo romance de Mia Couto parte de uma história real, acompanhada de perto pelo escritor – biólogo de profissão – em 2008. Na província de Cabo Delgado (norte de Moçambique), um grupo de leões começou a atacar pessoas, causando 26 vítimas mortais em poucos meses. Numa nota inicial, o autor explica que na região havia quem acreditasse que «os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia». Aos leões verdadeiros sobrepunham-se leões imaginários, «fabricados» (emanações ou espelhos da maldade humana), contra os quais mesmo o mais experiente dos caçadores nada podia, porque eles «eram apenas os sintomas de conflitos sociais».
Para contar esta história à sua maneira, Mia Couto centrou-a numa aldeia africana inventada mas arquetípica: um lugar agreste, em que «até as plantas tinham garras» e onde tudo o que é vivo «está treinado para morder». Eis Kulumani, povoação doente e mesquinha, com cicatrizes da guerra civil, esquecida na imensidão da savana e subjugada a «arcaicos mandamentos» que moldam a sociedade («Todo o nosso presente era feito de passado»). O aparecimento dos leões serve como catalizador do medo colectivo, um pavor irracional que desenterra o lado mais selvagem dos seres humanos. E a ordem natural inverte-se: «as pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente».
Resolvido a acabar de vez com a ameaça, chega à aldeia um caçador mulato, Arcanjo Baleiro, autor de um diário feito de fragmentos curtos, em que cruza o relato da espinhosa missão, para a qual é duvidoso que esteja preparado, com memórias traumáticas da sua vida familiar (a morte do pai, a loucura do irmão, o arrebatamento amoroso pela cunhada). Os capítulos alternam entre o diário de Baleiro e o caderno de Mariamar, irmã de uma das vítimas, mulher martirizada pelos maus tratos do pai durante a infância, mas figura fortíssima, luminosa, que sabe escrever (coisa rara numa terra de analfabetos) e encontra na escrita uma «máscara», um «amuleto». A primeira vez que enfrentou um leão foi ao aprender a letra «L» («ali, caligrafada no papel, a fera se ajoelhava a meus pés»); depois, não mais temeu uma natureza animalesca que reconhece em si própria.
Tendo em conta os contornos da narrativa, atravessada por cosmogonias, lendas, crenças e sonhos premonitórios, havia o risco de Mia Couto cair em estereótipos – ou, pior ainda, nas armadilhas do realismo mágico. Felizmente, tal não acontece. A sua prosa mimetiza a paisagem e flui como o rio que atravessa a aldeia. Não há demasiados afloramentos líricos, nem o exagero de neologismos que saturava muitas das obras anteriores. Sobretudo, afigura-se subtil e inteligente o modo de empurrar o leitor para o verdadeiro tema deste romance, que não é a caça (essa «alucinada vertigem» que acontece nas «costas da razão»), nem o receio da força bruta animal ou a “gestão das coisas invisíveis”, mas a trágica e «infindável» guerra entre homens que sempre abusaram do seu poder e mulheres educadas para a renúncia.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Tolstoi ou Dostoievski?

Uma discussão apaixonante e sem resposta lógica que não seja «os dois». É como o duelo Messi-Cristiano Ronaldo, só que aplicado à literatura russa do século XIX.

Sobre desvios ao plano de leitura

Num excelente blogue que cruza opiniões fortes com YouTube musical, encontrei um post sobre «livros dentro de outros livros, desvios ao plano de leitura que devem ser seguidos como se, num passeio pelo campo, encontrássemos algo que justificasse sairmos do nosso caminho para olharmos mais ao perto». Os exemplos, de Piglia a Vila-Matas, corroboram a conclusão: «os melhores convites para ler livros vêm sempre noutros livros.»

‘O que é ler?’ (terceira parte)

Depois deste e deste, eis o último vídeo de celebração dos 25 anos da revista Ler, com sete escritores (Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, Margarida Vale de Gato, Helena Vasconcelos, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Miranda e Onésimo Teotónio Almeida) a dizerem em que consiste, para cada um deles, o acto da leitura.

As seis regras de John Updike

Num texto de 1977, John Updike resumiu um conjunto de seis regras a seguir pelos críticos literários, no exercício do seu trabalho. Ei-las:

«1. Try to understand what the author wished to do, and do not blame him for not achieving what he did not attempt.
2. Give him enough direct quotation–at least one extended passage–of the book’s prose so the review’s reader can form his own impression, can get his own taste.
3. Confirm your description of the book with quotation from the book, if only phrase-long, rather than proceeding by fuzzy precis.
4. Go easy on plot summary, and do not give away the ending. (How astounded and indignant was I, when innocent, to find reviewers blabbing, and with the sublime inaccuracy of drunken lords reporting on a peasants’ revolt, all the turns of my suspenseful and surpriseful narrative! Most ironically, the only readers who approach a book as the author intends, unpolluted by pre-knowledge of the plot, are the detested reviewers themselves. And then, years later, the blessed fool who picks the volume at random from a library shelf.)
5. If the book is judged deficient, cite a successful example along the same lines, from the author’s ouevre or elsewhere. Try to understand the failure. Sure it’s his and not yours?
To these concrete five might be added a vaguer sixth, having to do with maintaining a chemical purity in the reaction between product and appraiser. Do not accept for review a book you are predisposed to dislike, or committed by friendship to like. Do not imagine yourself a caretaker of any tradition, an enforcer of any party standards, a warrior in an idealogical battle, a corrections officer of any kind. Never, never (John Aldridge, Norman Podhoretz) try to put the author ‘in his place,’ making him a pawn in a contest with other reviewers. Review the book, not the reputation. Submit to whatever spell, weak or strong, is being cast. Better to praise and share than blame and ban. The communion between reviewer and his public is based upon the presumption of certain possible joys in reading, and all our discriminations should curve toward that end.»

Concordo particularmente com esta frase: «Better to praise and share than blame and ban.»

Era uma vez uma Arca de Noé com livros em vez de animais

Brewster Kahle começou por criar um projecto de armazenamento de todas as páginas existentes na World Wide Web (Internet Archive). Agora, quer fazer o mesmo com os livros físicos, juntando um exemplar de cada livro publicado numa série de armazéns gigantes, em Richmond, California. «We want to collect one copy of every book», diz ele. «If the Library of Alexandria had made a copy of every book and sent it to India or China, we’d have the other works of Aristotle, the other plays of Euripides. One copy in one institution is not good enough.» Reportagem completa no The New York Times.

Uma indecifrável irrealidade

O Murmúrio do Mundo
Autor: Almeida Faria
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 146
ISBN: 978-989-671-111-5
Ano de publicação: 2012

No final de 2006, Almeida Faria regressou de uma visita à Índia – organizada pelo Centro Nacional de Cultura – com «um bloco confusamente escrevinhado», em que registou as suas experiências e observações. Passados cinco anos, o escritor bissexto publica finalmente O Murmúrio do Mundo, notável relato dessa viagem partilhada com Bárbara Assis Pacheco, cujas belas ilustrações criam uma espécie de narrativa visual que se intromete na narrativa literária e a complementa. A ideia era recuperar a «memória acumulada daqueles que antes de nós ali passaram», sobretudo dos portugueses que há quatro séculos se embriagaram com os «fumos da Índia», mas depressa o escritor se deixou fascinar pelas outras «mil faces» de um país infinitamente complexo, onde «a realidade é tanto mais provável quanto mais inverosímil». Se Índias há muitas e «cada um vê a sua», a de Almeida Faria começa por ser a Índia do antigo esplendor colonial, de que restam «uns vestígios vagos em estratos do tempo sobrepostos como anéis», mas termina sendo a Índia real, com a sua «indecifrável irrealidade».
Ao chegar à gigantesca Bombaim, a meio da noite, exausto após longa viagem aérea desde Frankfurt (ainda assim incomensuravelmente menos «áspera» do que a travessia por mar, durante meses, a que eram sujeitos os «homens das armadas de outrora»), Almeida Faria depara-se com a estranheza de um mundo desconhecido, que a hora tardia torna ainda mais estranho: «Num misto de curiosidade e de cansaço, adivinho em vez de ver, a fadiga alerta-me os sentidos, os ouvidos tornam-se mais atentos, as narinas mais sensíveis, reparo melhor em cada ser, em cada som ou cheiro, sem saber se fico mais consciente de mim mesmo ou se o espírito do lugar toma conta de mim e me dissolvo nele.» É verdadeiramente de dissolução que se trata aqui. Dissolução na paisagem e na História, tendo como fio condutor o que ficou de mais sólido da presença portuguesa no Oriente: o seu património de monumentos, as suas igrejas e fortalezas.
Enquanto deambula por Goa e Cochim, Almeida Faria evoca a origem e etimologia das cidades, explica como o hinduísmo e o cristianismo se contaminaram, demora-se na descrição de rituais religiosos e sobretudo dá-nos a ver, com extraordinária clareza, as maravilhas arquitectónicas que lhe vão sendo reveladas – como aquele «teto altíssimo a que a nudez da nave vazia dava a ilusão de ser mais alto ainda». A erudição torna-se por vezes cansativa, mas o autor logo interrompe o afã de tudo explicar (em detalhe, sim, mas sem os exageros do «mendespintismo»), permitindo-se alguns desabafos e até uma brilhante fantasmagoria, durante a qual traz ao presente a figura de um obscuro pintor flamengo, Michiel Sweerts, nascido «no ano dos três cometas» (1618) e morto em Goa (1664) depois de uma vida aventurosa, aqui resumida nalgumas das páginas mais entusiasmantes do livro.
A dado passo, Almeida Faria enumera lugares com «nomes de pura música»: Pangim, Banguelim, Bicholim, Morombim, Panelim, entre outras que acabam em ‘im’. Mas pura música é também a sua prosa, que alia uma trabalhada fluidez a uma notável precisão vocabular (no caos do trânsito, por exemplo, identifica um «frenesim buzinante»; na fachada austera de uma igreja, «nódoas negras de bolor»). Refira-se ainda que o texto vai sendo intercalado com citações não atribuídas, em itálico, tanto de cronistas portugueses dos séculos XVI e XVII como de Nietzsche, Ingmar Bergman, Kierkegaard, J. M. Coetzee ou de heterónimos pessoanos (Alexander Search, Álvaro de Campos, Bernardo Soares).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- O Legado de Humboldt, de Saul Bellow (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
- Baque, de Fabio Weintraub (Língua Morta), por António Guerreiro
- Revista Portuguesa de História do Livro, vol. 28 (Távola Redonda), por Luísa Meireles
- Éramos Felizes e Não Sabíamos, de Pedro Vieira (Quetzal), por Pedro Mexia
- A Confissão da Leoa, de Mia Couto (Caminho), por José Mário Silva
- Escolhas de Luís Soares

O que aí vem (Livros Horizonte)

Sexo & Amores: não vás às escuras, de Adele Cherreson Cole; Psico-truques para crianças dos 3 aos 6 anos, de Suzanne Vallières; Design Gráfico em Portugal, de Margarida Fragoso; Três Tristes Tontos, de Tony Ross (infantil); Não berres comigo, pai!, de Philip Waechter/Moni Port (infantil).

Revista ‘Ler’, n.º 113


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Já nas bancas.

Primeiros parágrafos

«No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem árvores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra vermelha, como um borrão saltitante.
E o sol.
Meio-dia, talvez.
Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distinguia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protuberâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar.
— É ali.
Aminha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me:
— é ali.
Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me.
Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sabem morrer.
O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:
— Vais.
Mas espera-te o mesmo. De vez em quando, abre-se uma nesga na indiferença do mundo e um freixo torna-se claro, uma sebe, uma ponte, um muro, a pena de uma rola, os lábios, uma palavra. Deus. É ali. E eu vou. Olhos abertos para a desolação de uma casa no meio de um ermo, de um vento cor de barro. De uma voz. E não se abria uma porta, nem se dava um passo. Só a voz tinha princípio e fim. É ali. O braço esticado à minha frente. E o dedo indicador, cheio de nódulos, a apontar.
E os meus olhos.
Que se lembram.
Lembram-se de ver.»

[in Barro, de Rui Nunes, Relógio d'Água, 2012]

Edifícios inspirados em livros


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Este, por exemplo, desenhado por Ricardo Bofill (Barcelona, 1968), inspira-se no romance O Castelo, de Franz Kafka. Mas há outros que foram desenhados sob a influência de Italo Calvino, Melville ou Lewis Carroll.

Onde estão vocês, romancistas?

Querem melhor início de narrativa pós-moderna sobre o apocalipse da nossa civilização do que as invasões às lojas do Pingo Doce em pleno 1.º de Maio (com toda a carga simbólica da usurpação da luta dos trabalhadores, perversamente sobreposta, até em tempo de antena nos noticiários, pela mais desesperada luta darwiniana entre vítimas da crise)? Algures entre o Saramago de Ensaio sobre a Cegueira e J.G. Ballard, está aqui um romance à espera de ser escrito.

‘Lucerna’

O primeiro número da revista literária digital da Fundação José Saramago, dirigida por Sérgio Machado Letria e escrita pela dupla Sara Figueiredo Costa/Andreia Brites, já está disponível. Aqui. Na secção final, ‘Saramaguiana’, podem ser lidas três aproximações ao romance Claraboia (editado postumamente no ano passado), por Fernando Gómez Aguilera, Hector Abad Faciolince e Pilar del Río.

Nomear o indizível

As Coisas
Autora: Inês Fonseca Santos
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97448-3-7
Ano de publicação: 2012

Numa nota inicial, Inês Fonseca Santos (n. 1979) explica que os poemas de As Coisas – o seu livro de estreia – foram escritos em poucos dias, «mas levaram anos a formar-se». De facto, pressente-se nesta obra uma lentidão quase geológica, um avanço que se faz por acumulações e sobreposições, através de sucessivas camadas de memórias, experiências, sedimentos. É uma poesia em torno de um tema só (o desafio de nomear o que é indeterminado ou indizível) e com a consciência exacta de que nos escapa sempre o essencial, de que nunca conseguiremos fechar dentro do recorrente aquário verde no topo da estante (o poema?) esses «peixes-palavras» que são as únicas «coisas inquebráveis».
Há nestes textos cheios de arestas – frágeis, opacos, feitos de vidro (e por isso cortantes quando se partem) – um «nome de todas as coisas» que se desfaz e recompõe continuamente. É um nome que evoca uma ausência, uma perda, esse «algo que já lá não está ou se perdeu» de que fala Manuel António Pina no poema As Coisas (incluído no seu último volume de originais: Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim), poema que serve de mote a este livro e, segundo a autora, «confirmou o seu eventual sentido». Mais do que um trabalho de luto, ou de nostalgia, os textos procuram uma espécie de recomposição, uma forma de organizar os «restos», de colar os cacos do que um dia se partiu. «Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo. / Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas / construí um fecho novo para o colar de pérolas; / vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.»
Elíptica e desconcertante, a escrita de Inês Fonseca Santos faz da estranheza uma forma de defesa. Nada é transparente neste universo em que tudo se remenda: os copos, as palavras, o coração. Um mundo estanque, urdido com repetições e circularidades, em que fazer versos equivale a fumar um cigarro apagado: «Apago-o antes / que me chegue aos lábios. // Está frio neste lugar. A boca abre-se / como uma coisa lenta em forma de espanto.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Debate na Feira do Livro

Logo à noite, a partir das 21h00, no Auditório da APEL (Feira do Livro de Lisboa), estarei à conversa com Hélia Correia e Dulce Maria Cardoso.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

- Entrevista com Mia Couto, autor de A Confissão da Leoa (Caminho), por José Mário Silva
- O Jazz da Bancarrota, de Paul van Ostaijen (7Nós), por António Guerreiro
- Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por Pedro Mexia
- Sonata para um Viajante, de Dimas Simas Lopes (Calendário de Letras), por Carlos Bessa
- Os Imperfeccionistas, de Tom Rachman (Presença), por José Guardado Moreira
- Acerto de Contas, de António de Sousa Duarte (Âncora), por Bruno Roseiro
- How to be a Woman, de Caitlin Moran (Ebury Press), por Jorge Manuel Lopes
- Escolhas de Hélia Correia

A arte de desenhar capas de livros

Chip Kidd, um dos mestres do ofício, explica como se faz numa das conferências TED. Depois da abertura, excessivamente americana e apalhaçada, vale mesmo a pena.

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

O que aí vem (Planeta)

Luto pela Felicidade dos Portugueses, de Rui Zink; Voltar, de Sarah Adamopoulos; Uma Argola no Umbigo, de Alexandre Honrado.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges