(Des)acordo ortográfico

cplp

É daqui a nada: Malaca Casteleiro (membro da Academia de Ciências de Lisboa), Vasco Graça Moura (escritor e eurodeputado), José Eduardo Agualusa (escritor) e Ivo Castro (linguista) discutem a ratificação do famoso e polémico Acordo Ortográfico, na Casa Fernando Pessoa (21h30), com moderação de Carlos Vaz Marques. O editor convidado a falar dos livros alheios é Nelson de Matos.

Brilhos de Minas

Ontem à noite, foi bem bacana o serão mineiro na Casa da América Latina. Prisca Agustoni, suíça italiana que vive há muitos anos no Brasil, apresentou de forma concisa a antologia Oiro de Minas — a nova poesia das Gerais, por si organizada (com chancela da Ardósia, colecção Pasárgada). Além da leitura de poemas dos dez autores antologiados, houve música (duas canções de Milton Nascimento, uma a abrir, outra a fechar, interpretadas com o corpo todo por um cantor de quem não fixei o nome) e muitas conversas no final, como explica o Luís Filipe Cristóvão.
A mim, impressionou-me a elevada qualidade destes poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. Pensar que representam apenas a geração mais nova da poesia feita num só dos 26 estados do Brasil, ainda por cima fora da órbita centrípeta dos dois grandes pólos culturais do país (Rio de Janeiro e São Paulo), dá uma ideia do abismo de desconhecimento que temos em relação ao que se passa, em termos literários, lá no outro lado do Atlântico.
Como amostra, deixo aqui quatro poemas da antologia:

SILÊNCIO

De pedra ser.
Da pedra ter
o
duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço da rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.

Donizete Galvão

***

DOIS

dois irmãos no começo. o que sabe o
caminho e o outro: dois. e não há
retorno. dois irmãos desde nunca. um,
o que vê e conta. outro, o que ouve.
dois. não se separam. por onde passam,
o mundo: o coração de um pássaro,
desvios, carcaças de antílopes, cidades
riscadas do mapa, o dorso tigrino de um
presságio, o tempo mais velho, um deus
trocando a pele. dois irmãos ainda agora.

Ricardo Aleixo

***

AULA DE DESENHO

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz,
onde estou não é sempre
e o que eu sou é por um triz.

Maria Esther Maciel

***

CÓLERA

sem dúvida essa fadiga me entardece
é mais forte do que o vento
o vento que não é da família dos chacais
e me procura com uma lente invisível

o vento que racha as paredes
e atravessa a pintura

o vento que atravessa a pintura
e diz que os decibéis
das flores que lhe oferto
estão em anomalia

Wilmar Silva

Blogues sobre livros na Time Out Lisboa

ilustração de José Carlos Fernandes

Num artigo saído na edição de ontem da Time Out lisboeta, o Bibliotecário de Babel — a quem, por lapso, são atribuídos nome e endereço erróneos — aparece com o braço apoiado no Cadeirão Voltaire, enquanto representantes da recente leva de blogues sobre livros. O retrato só peca por ser pouco abrangente, uma vez que existem projectos em curso que dariam à vontade para uma simpática foto de família (mas o espaço em papel, já se sabe, não é elástico).
A ilustração, magnífica, tem o traço inconfundível de José Carlos Fernandes.

1.000.000

Milhão, million, millón, millione. Seja em que língua for, é sempre muito. Muitíssimo.

Lembrete

Esta noite, pelas 21h00, lançamento do livro Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, com apresentação de Prisca Agustoni e Ozias Filho, na Casa da América Latina (Av. 24 de Julho, 118-B, Lisboa).

Prémio Daniel Faria para José Luís Peixoto

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Já é oficial: a edição de 2008 do Prémio de Poesia Daniel Faria — instituído pela Câmara Municipal de Penafiel, as Quasi Edições e os herdeiros do autor de Explicação das Árvores e de Outros Animais — distinguiu Gaveta de Papéis, de José Luís Peixoto.
Contactado pelo Bibliotecário de Babel, o responsável máximo da editora que promove o prémio, Jorge Reis-Sá, descreveu a surpresa que tomou conta do júri (de que também fizeram parte Francisco José Viegas, Tito Couto e Vera Vouga) ao abrir o envelope relativo à escolha final, verificando só então que atrás do pseudónimo se escondia um escritor de primeiro plano, curiosamente já com um livro de poesia editado nas Quasi (A Criança em Ruínas, sete edições desde 2001). “Foi mesmo uma grande surpresa, mas uma surpresa boa, porque vem dar força e credibilidade ao prémio. Enquanto editor, este desfecho enche-me de alegria e orgulho, além de que engrandece o nome do Daniel Faria”, disse Reis-Sá.
A decisão do júri, tomada por “unanimidade total e veemente”, foi a mais rápida de sempre. “Em dois minutos resolvemos o assunto, porque percebemos logo que o livro do Peixoto era, de muito longe, a primeira escolha para todos os jurados. Durante a leitura dos originais, já tinha suspeitado que se tratava de um autor experiente, com grande domínio da linguagem e das técnicas de escrita, e não alguém que envia o seu primeiro livro.”
Reis-Sá salienta ainda que o prémio não tem qualquer compensação financeira, consistindo apenas na publicação do livro pelas Quasi, algo que José Luís Peixoto conseguiria sempre, sem necessidade de passar pelo crivo de um júri. “Gostava de salientar a extraordinária humildade do Zé Luís, que ao querer ficar associado a este prémio, e ao nome do Daniel Faria, correu o risco de perder para um autor desconhecido ou, pior ainda, de receber uma mera menção honrosa.”
A edição de Gaveta de Papéis está prevista para o próximo mês de Março.

***

Entretanto, José Luís Peixoto acaba de ser igualmente distinguido em Espanha. O prémio Cálamo – Otra Mirada 2007, para livros de ficção estrangeira editados no país vizinho, foi para o romance Cementerio de Pianos, publicado pela editora El Aleph.

[Foto: JMS]

Edit subject

Os anacronismos têm destas coisas: acabo de receber por e-mail um “convite” para o regicídio (de 1908, claro).

Da Avenida da Liberdade para Paço de Arcos

Como os leitores mais atentos da Time Out Lisboa terão percebido, deixei de ser editor convidado da secção de Livros da revista há 15 dias, naquela que foi uma das minhas colaborações mais curtas de sempre (três meses). Na sala em L da Avenida da Liberdade ficaram bons amigos e um excelente ambiente de trabalho, de que me afasto apenas porque surgiram motivos de força maior. Um deles, estritamente profissional, creio que dispensa explicações: a partir do próximo sábado, começarei a escrever sobre livros no suplemento Actual, do semanário Expresso.

Com um nome destes só pode ser bom

Tristram Shandy: blogue novinho em folha mas que nem precisa de ficar à experiência (vai já para o blogroll).

Biblioteca de Siza em Viana, por Alexandra Lucas Coelho

A reportagem sobre as reacções dos habitantes de Viana do Castelo à primeira biblioteca pública desenhada pelo mais internacional dos nossos arquitectos — que a colocou, acendendo as polémicas do costume, junto à margem do rio Lima — vem hoje no suplemento P2 do Público (sem link directo).
Como todas as reportagens da Alexandra, seja na Faixa de Gaza ou noutro lugar qualquer do mundo, é de leitura obrigatória. Eis alguns excertos:

«Quem está virado para a biblioteca, tem atrás de si o casario histórico — telhados vermelhos, paredes brancas, varandas de ferro forjado, janelas de guilhotina — e vê o rio através do pátio relvado. É como se o edifício fosse a passagem da cidade para a água.
(…) Maria de Fátima [63 anos, “fotógrafa da Foto Nélita”, à vontade em tudo menos no digital — “puxo pelas orelhas, mas já é tarde, não tenho paciência para aprender computadores”] transpõe a discreta porta e dá por si num grande átrio de mármore cor-de-areia que parece irmão do Museu de Serralves, no geral e no particular — do desenho das letras (que ao nível dos olhos identificam cada zona) ao desenho das portas (para a zona de serviços ou para o auditório com o nome do poeta António Manuel Couto Viana, natural da cidade).
Subindo a escada para o corpo principal, suspenso, a luz entra através de grandes janelas horizontais, em cambiantes mais quentes ou mais suaves, consoante a posição do sol.
Maria de Fátima dá voltas em torno de si mesma, murmurando: “Sim, sim, sim…” Afinal de contas, é fotógrafa, trabalha com luz. “Sim, como paisagem está bonito.” Dois passos à frente, dois passos atrás: “Mas é amplo demais para o meu gosto…”
Neste andar suspenso, os espaços de leitura, Internet, áudio e vídeo formam um quadrado à volta do pátio, e é possível percorrer a biblioteca sem parar, vendo agora umas águas furtadas e depois o manso azul do Lima. A biblioteca é atravessada pela paisagem cá dentro, tal como lá fora é atravessada pelo olhar.
“Está bom, aceito”, anuncia Maria de Fátima. “Quer dizer, quando isto estava a ser construído houve uma revolta muito grande. O verdadeiro vianense sentiu-se quase ofendido com esta construção frente à nossa cidade velhinha. Para nós, era uma aberração.”
(…) Mesmo em frente à biblioteca mora por exemplo a Residencial Jardim. Primeiro, a recepcionista Lucília diz que “as pessoas aqui não gostam da biblioteca”, mas pelo sim pelo não chama a colega. “Agoniiiiia!” E Agonia vem em discórdia: “Eu gosto!” E segue-se uma desgarrada.
Lucília – Isto é uma zona histórica, e se nós temos que manter a nossa fachada, nem podemos pôr uma janela de metal, tá ali um edifício que pode ser de uma pessoa muito importante mas tirou-nos as vistas e tá horrível, pronto.
Agonia – Ah, mas a arquitectura é uma coisa bonita. Gosto e até me disseram que por dentro era um sonho. Ao 1º e ao 2º andar tirou vista, mas ao 3º e ao 4º não. E na inauguração o senhor primeiro-ministro acenou-me e disse que a cidade de Viana era linda. Não, a biblioteca estava a fazer muita falta, até quando foi aqui a União Europeia, estava lindíssima. Pronto, a gente já sabe que o sr. Siza Vieira faz umas coisas extravagantes.
Lucília – Mas eu só ouvi falar do homem quando fez a biblioteca, antes não conhecia.
Agonia – Por amor de Deus, no Porto há tanta coisa feita por ele! E em Espanha até houve uma polémica, que ele queria e não deixaram. Pronto, cada um é como cada qual.
(…) Das mesas aos puxadores das portas, tudo dentro da biblioteca é Siza, e está lá o nome, Álvaro Siza, até na perninha da cadeira de bebé. Há uma grande clareza de linhas, materiais e cores, entre cada objecto e a construção. E andando em volta, a cidade e o rio vão girando pelas janelas como num caleidoscópio.»

Remodelação

Depois de ter ganho anti-corpos em praticamente todas as áreas por si tuteladas, Isabel Pires de Lima deixou hoje de ser ministra da Cultura, “a seu pedido”. Para o cargo foi nomeado José António Pinto Ribeiro, jurista fundador do Fórum Justiça e Liberdade, advogado com larga carteira de clientes (entre eles os Gato Fedorento e José Luís Peixoto), além de membro do Conselho de Administração da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea — Colecção Berardo.
Embora respeite muitíssimo a craveira intelectual do novo ministro, concordo com o Pedro Sales: o António Pinto Ribeiro que melhor se adequava à função era o outro, o ex-programador da Culturgest e organizador do Fórum Cultural O estado do Mundo (na Gulbenkian).

Eu vou

rock in rio

Onde está Rock in Rio leia-se Correntes d’Escritas. Onde está uma guitarra eléctrica, imagine-se o teclado do computador portátil e um gravador digital.
Fica o anúncio: de 14 a 16 de Fevereiro, este blogue muda-se de armas e bagagens para a Póvoa de Varzim.

O regresso de Nelson de Matos

Num momento em que as principais editoras portuguesas se vão agrupando, num processo de concentração empresarial ainda em curso, o gesto de Nelson de Matos pode parecer romântico: criar de raiz uma nova chancela, por sua conta e risco, tão pessoal que até lhe dá o seu nome (na linha do que fez Christian Bourgois, recentemente falecido).
Em artigo de Ana Marques Gastão, publicado hoje no Diário de Notícias, o antigo editor da Dom Quixote e da Ambar explica-se:

«Quis que o trabalho editorial tivesse um nome, uma assinatura. Não é nada de invulgar, lá fora usa-se. Em Portugal também, em tempos, se usou. Estou a dar a cara por este projecto.
(…) A concentração de editoras que tem vindo a verificar-se abre um espaço para pequenos trabalhos individualizados em que a edição é feita de uma forma mais personalizada.
(…) Estou a avançar para este projecto sozinho. Vamos ver como responde o mercado. Publico os livros e aguardo que os leitores os acompanhem.»

As Edições Nelson de Matos lançarão a sua primeira obra no final de Fevereiro (O Lavagante, ficção inédita de José Cardoso Pires) e abrangem cinco colecções: Mil Horas de Leitura (conto, novela, romance e “talvez poesia”), História Hoje (História recente, biografias, reportagens), Pensar Navegar (ensaio de ciências humanas), Outras Direcções (tempos livres) e Textos Literários (apoio ao ensino, dirigida por António Melo).

Quatro poemas de Adília Lopes

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

***

No metro
cruzam-se as pessoas
como cartas de jogar
postas sobre a mesa

***

Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura

***

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

[in Caderno, & Etc, 2007]

O atlas de Borges & Kodama

exposição de fotos sobre Borges

São fotos de Jorge Luis Borges e María Kodama, pontos que unidos traçam uma vasta geografia: Veneza, Genebra, Cairo, Creta, Izumo, Filadelfia, Paris, Roma, Atenas, Buenos Aires. O escritor cego e a mulher que lhe descrevia as paisagens, essa musa que com ele preparava cada viagem, abrindo ao acaso o atlas e deixando “que las yemas de los dedos adivinaran lo imposible: la aspereza de las montañas, la tesura del mar o la mágica protección de las islas”.
A exposição intitula-se El atlas de Borges, abre as portas amanhã no Complejo El Águila (Madrid) e pode ser vista até 23 de Março.

[Imagem: EFE]

A personalidade dos livros

Um dos problemas de ter as minhas estantes arrumadas por desordem alfabética é este: perder horas de cócoras ou em bicos dos pés, à procura de um livro que era suposto estar naquela prateleira e afinal não está. Nessas desesperantes sessões de varrimento visual das lombadas, acontece-me uma coisa estranha: há livros que estão sempre a aparecer e outros que nunca os vejo. É como se uns insistissem em chegar-se à frente, criando lá atrás uma zona de sombra prontamente aproveitada pelos mais esquivos. A impaciência e irritação que se apoderam de mim durante estas buscas — tantas vezes infrutíferas — nunca me permitiram um estudo aprofundado do fenómeno, mas desconfio que há livros que têm, digamos assim, personalidade (coincidente com a dos autores que os escreveram ou nem por isso). Na minha caótica biblioteca, já vi de tudo: livros arrogantes, livros tímidos, livros cínicos, livros submissos, livros despóticos, livros exibicionistas, livros constrangidos, livros cépticos, livros ostensivos, livros a Prozac, livros elípticos, livros sacanas, livros altruístas, etc., etc., etc. E isto é cá em casa, num habitat reduzido (15 estantes estreitinhas). Como é que será na Biblioteca Nacional?

Maldições da caligrafia (aviso para os poetas que gostam de garatujar ideias em moleskines)

Nos seus cadernos de apontamentos, Robert Frost escrevia de uma forma tão enredada e difícil de decifrar que as transcrições feitas por Robert Faggen (reunidas em The Notebooks of Robert Frost, um volume com mais de 800 páginas, editado pela Harvard University Press) estão sob ataque cerrado por parte de dois críticos que apontam centenas, se não milhares, de palavras deturpadas.

Uma série que eu gostava de ver em horário nobre

Já passou na SIC Radical, meio escondida, na altura em que os Gato Fedorento por lá andavam. Chama-se Black Books, foi produzida pela Channel 4 e não tem rigorosamente nada a ver com os romances que o Gonçalo M. Tavares publica na Caminho. É uma sitcom à inglesa, desbragada e sempre a cair em espirais de nonsense, um mimo televisivo sobre uma livraria em que o livreiro faz tudo para afastar os clientes.
Veja-se, neste excerto, o fabuloso diálogo entre Bernard, o dito livreiro niilista, e um homem que quer comprar a obra completa de Charles Dickens com encadernação em couro, para condizer com o sofá.
Se eu fosse programador, exibia Black Books na RTP1, todos os dias, logo a seguir ao telejornal. É claro que me despediriam logo ao fim de uma semana (ou nem isso) mas seria uma semana (ou nem isso) absolutamente memorável.

Números

Sendo o mercado livreiro português uma área de actividade económica em que tem imperado uma espécie de vazio estatístico, é de saudar a realização de um Inquérito ao Sector do Livro, encomendado pelo Ministério da Cultura ao Observatório das Actividades Culturais. Os resultados preliminares foram ontem apresentados, mas ainda só contemplam o ano de 2005 (para o qual foi apurado um volume de negócios de 381 milhões de euros). Esperemos que o levantamento em curso, relativo a 2007, seja conhecido depressa e nos permita compreender se o mercado está realmente em expansão, como parece sugerir a emergência de grandes grupos editoriais nos últimos meses.

Prémio D. Dinis para Manuel Alegre

Um júri contituído por três poetas (Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral) atribuiu hoje a Manuel Alegre o Prémio D. Dinis, pelo livro Doze Naus, publicado em 2007 pela Dom Quixote.

18 lançamentos em quatro dias

Durante o encontro Correntes d’Escritas, que decorrerá de 13 a 16 de Fevereiro na Póvoa do Varzim, serão apresentados os seguintes livros:

  • A Neblina do Passado, de Leonardo Padura (ASA)
  • Admirável Diamante Bruto e outros contos, de Waldir Araújo (Livrododia)
  • Bricabraque e Horismós, de Mário Pinheiro (edição de autor)
  • Eis a dor, o que me resta, de Vicente Martin Martin (Bitrúbio)
  • Maurício ou as Eleições Sentimentais, de Eduardo Mendoza (ASA)
  • Música de Viagem, de Cristino Cortes (Papiro)
  • No Último Azul, de Carme Riera (Teorema)
  • O Amante Albanês, de Susana Fortes (ASA)
  • O Anjo Literário, de Eduardo Halfon (Cavalo de Ferro)
  • O Homem na Cozinha — Seduções e Volúpias, de Luís Machado (Parceria AMP)
  • O Segredo da Trapezista, de Oscar Málaga Gallegos (Teorema)
  • O Sorriso de Mona Lisa, de Pedro Teixeira Neves (Deriva)
  • O Tempo dos Imperadores Estranhos, Ignacio del Valle (Porto Editora)
  • Obras Completas de Nemésio — Poesia vol. 1 (1916-1940) e vol. 2 tomo 1 (1950-1959) / Caderno de Caligraphia, vol. III, de Luiz Fagundes Duarte (INCM)
  • Olá, eu sou um Livro, de Rui Grácio (Pé de Página)
  • Pecados de Intención, de Janet Nuñez (Dyagones)
  • Quilómetro Zero, de Ivo Machado (6 Dias 7 Noites)
  • Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique (Teorema)

Branco no Branco

No último sábado, 19 de Janeiro, dia em que Eugénio de Andrade chegaria aos 84 anos, foi inaugurado no cemitério do Prado do Repouso, Porto, o jazigo que o arquitecto Álvaro Siza desenhou para o poeta. É um monumento funerário de uma discrição absoluta, um quadrilátero de mármore rente à terra, com poemas gravados “branco no branco”, quase invisíveis a um primeiro olhar.
Rui Lage, que me enviou estas imagens, chama-lhe um “poema de pedra, de Siza para Eugénio”.

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[Fotografias: Alexandre Bahia]

O almoço agradável

Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.

Ruína

Depósito de livros escolares em Detroit

Eis a impressionante visão de pilhas e pilhas de livros escolares ao abandono num gigantesco armazém em Detroit. Os livros, muitos deles ainda por desempacotar, ficaram durante 20 anos à mercê de incêndios e intempéries, juntamente com toneladas de outros materiais educativos. Eis o que disse o blogger que captou a imagem, depois de visitar tão fantasmagórico local:

«This is a building where our deeply-troubled public school system once stored its supplies, and then one day apparently walked away from it all, allowing everything to go to waste. (…) To walk around this building transcends the sort of typical ruin-fetishism and “sadness” some get from a beautiful abandoned building. This city’s school district is so impoverished that students are not allowed to take their textbooks home to do homework, and many of its administrators are so corrupt that every few months the newspapers have a field day with their scandals, sweetheart-deals, and expensive trips made at the expense of a population of children who can no longer rely on a public education to help lift them from the cycle of violence and poverty that has made Detroit the most dangerous city in America. To walk through this ruin, more than any other, I think, is to obliquely experience the real tragedy of this city; not some sentimental tragedy of brick and plaster, but one of people.»

apocalipse dos livros

Mais imagens aqui.

[via uma cascata de links iniciada pelo comentário de um leitor deste blogue]

Livros no Metro

Dwight Garner, no blogue de livros do The New York Times, inveja a existência de máquinas dispensadoras de livros no metropolitano de Barcelona. Eu, enquanto frequentador da linha Verde e Azul de Lisboa (e também da Amarela, mas menos), compreendo-o e também alinho na cobiça, embora tema que lhes acontecesse — às máquinas — o mesmo que sucedeu às suas irmãs que ofereciam jornais e que ficaram paradas no tempo, num dia qualquer de Dezembro de 2007 (cf. estação Baixa-Chiado).

Vida de livreiro

Pedro Vieira dixit:

«hoje durante o meu turno ouvi um segurança afiançar ter visto o freddy adu junto a uma estante de livros e rematar a frase com um queres ver que o cabrão do preto gosta de ler, conheci o livro segredos sexuais das lésbicas que todo homem deve saber, que não vou comprar, ouvi um cliente confessar que tem uma grande panca [sic] pelo pollock, e pela mulher dele também, uma pena não se falar mais dela, um problema ao nível de um médio-oriente, de uma fome em áfrica, e ainda descobri o livro milagres e crendices populares, que esse sim vou comprar, é desta que a santa da ladeira não me escapa (…)»

Costa Book Award (ex-Whitbread) para A. L. Kennedy

A. L. Kennedy

A escritora escocesa A. L. Kennedy arrebatou o prémio principal dos Costa Book Awards 2007 (25 mil libras, cerca de 33,6 mil euros), numa cerimónia que decorreu ontem à noite no Hotel Intercontinental, em Londres. Sucessor do Whitbread, o Costa distingue os melhores livros do ano publicados por autores que vivam no Reino Unido e Irlanda. No início de Janeiro, tinham sido anunciados os vencedores das cinco categorias em que o prémio se subdivide, de entre os quais foi agora escolhida Kennedy, que além de romancista também faz stand up comedy.
Com Day, uma narrativa sobre o regresso à Alemanha de um aviador inglês, prisioneiro de guerra durante a II Guerra Mundial, Kennedy superou o ensaísta Simon Sebag Montefiore, biógrafo do “jovem” Staline, confirmando as previsões feitas pelas casas de apostas britânicas.

O dilema

Max Brod passou pelo mesmo: queimar ou não queimar, that is the question.

‘Para além da Mágoa’

Eduardo Pitta, ele próprio um escritor com fortes marcas da experiência colonial na sua obra, descreve em tom pessoalíssimo o que se passou no colóquio que decorreu hoje na Casa Fernando Pessoa.

Prémio Vergílio Ferreira para Mário Cláudio

O escritor portuense, escolhido por um júri composto por José Alberto Gomes Machado, José Carlos Seabra Pereira, Isabel Allegro de Magalhães, Elisa Nunes Esteves e Clara Ferreira Alves, receberá o prémio com que a Universidade de Évora distingue, desde 1997, autores de ensaio e/ou romance no próximo dia 1 de Março, aniversário da morte de Vergílio Ferreira (1916-1996). No valor de cinco mil euros, o galardão já foi atribuído a Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Agustina Bessa Luís, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães e Vasco Graça Moura.

Pó do blogue

logótipo Pó dos Livros

Agora, a livraria Pó dos Livros não existe apenas na sua morada física (Avenida Marquês de Tomar, 89 A, Lisboa). Também existe na blogosfera.

Resgate

Na caixa de comentários do post em que traduzi um poema sobre tradução, um leitor respondeu colocando a sua versão portuguesa de um poema polaco sobre a tradução de poesia.
Uma vez que esse leitor/tradutor (e poeta) se chama Jorge Sousa Braga, não resisto a resgatar o seu contributo das catacumbas do blogue, a que nem sempre toda a gente desce:

SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

Zbigniew Herbert

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo:
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen

Outros anjos (noutra biblioteca)

A coorte dos anjos bibliófilos, numa das mais espantosas cenas de As Asas do Desejo, de Wim Wenders (1987).

Traduzir um poema sobre tradução

No último número da Harvard Review (#33, Inverno 2007), deparei-me com um poema de John Mateer (sul-africano de nascimento, a viver na Austrália) intitulado Translators Are Angels.
Transcrevo-o aqui:

Translators are angels, I whispered
into the ear of my guardian angel in King João Library.
They stand beside us, hearing out thoughts,
only muttering what’s necessary
. Smiling slightly,
listening carefully to the speaker who’d mentioned my name,
she said: We are perfect nobodies; nameless,
voiceless, winged incandescence, except when we’re bad
.
Then she turned to me: Like now, if I don’t tell you what he said

Mal acabei de ler o poema, senti logo vontade de o traduzir. Em primeiro lugar, porque é um poema sobre a tradução e os seus equilíbrios precários, escrito em inglês, logo sujeitável à tradução que tão etereamente evoca. Depois, porque tudo indica que a língua incompreensível para o poeta seja o português, como se depreende pela referência à biblioteca do “King João”, que só pode ser a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (mandada construir em 1717 por D. João V).
Traduzir para português o poema equivale de certo modo a fechar o círculo. E foi isso que fiz, embora sem asas nas costas:

Os tradutores são anjos, segredei
ao meu anjo da guarda na Biblioteca Joanina.
Ficam junto a nós, ouvindo o que pensamos,
apenas murmurando o essencial
. Com um pequeno sorriso,
enquanto escutava atentamente o orador que referiu o meu nome,
ela disse: Somos perfeitos desconhecidos; anónimos,
sem voz, uma incandescência alada, excepto quando somos maus
.
Virou-se para mim: Como agora, se não revelar o que ele disse

Se não pode fumar, leia (caso as tabaqueiras deixem)

livros em forma de maços de tabaco

Uma pequena editora inglesa teve uma ideia brilhante: para assinalar a entrada em vigor das leis mais restritivas contra o tabaco no Reino Unido, em Julho do ano passado, lançaram uma colecção de clássicos (Kafka, Conrad, Kipling, Stevenson, etc.) com um desenho gráfico que imita o aspecto dos agora perseguidos maços de 20 cigarros.
O problema é que as tabaqueiras não têm sentido de humor. Alegando que a Tank fez do romance As Neves do Kilimanjaro uma espécie de facsimile do lay out da Lucky Strike, a British American Tobacco ameaça banir o livro de Hemingway das livrarias, uma vez que este “coloca em causa a saúde da marca”.
Alguém devia explicar aos senhores da British American Tobacco que os leitores, os fumadores e os leitores-fumadores não são propriamente parvos (entre outras coisas, sabem que um livro é um livro e um maço de cigarros é um maço de cigarros). E não deixa de ser irónico que uma tabaqueira acuse seja quem for de “colocar em causa a saúde” seja do que for.

[via Zero de Conduta]

Lembrete

Amanhã, na Casa Fernando Pessoa, a partir das 9h30, colóquio “Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais”, sobre a narrativa contemporânea marcada pelo fim do império e o que se lhe seguiu. Programação completa aqui.

Manuel Alegre publica antologia de poemas sobre a Guerra Colonial

É já no início de Fevereiro que Manuel Alegre vai lançar uma antologia dos seus poemas sobre a experiência trágica da Guerra Colonial, anunciou hoje a Dom Quixote. O livro, intitulado Nambuangongo, Meu Amor, está dividido em quatro partes: Nambuangongo, Meu Amor; Três Canções com Lágrimas e Sol para um Amigo que Morreu na Guerra; Continuação de Alcácer Quibir; e Explicação de Alcácer Quibir.

A biblioteca de Siza em Viana do Castelo

Sobre o edifício diz Ana Vaz Milheiro, no Público:

«A biblioteca recorre a um “esquema” clássico: um edifício perfurado por um pátio que aqui se eleva criando um vazio no plano da rua. As salas de leitura “suspensas” posicionam-se assim sobre a paisagem urbana e ribeirinha. Os serviços de apoio e áreas administrativas mantêm-se junto ao solo num volume de sentido longitudinal. Siza dá sequência a obras de forte significação urbana que têm assinalado os seus últimos dez anos de actividade, e que podem ser seguidas a partir do Pavilhão de Portugal. São edifícios de escala mais monumental que a sua obra anterior e que, situando-se à margem da cidade histórica, contribuem para “refundar” urbanamente os seus lugares de implantação.»

Foi inaugurada ontem à tarde por José Sócrates, depois de o primeiro-ministro ter corrido uma minimaratona que assinalou os 160 anos da elevação a cidade de Viana do Castelo.

Adenda – Eis a reportagem da RTP sobre o acontecimento:

Numa peça com 1’44” de duração, a jornalista dedicou um minuto à prova de atletismo e apenas 15 segundos à Biblioteca (de que só se vê um plano, de fugida), gastando o resto com o discurso redondo de Sócrates (sobre a importância das cidades serem “bonitas”…) e a recusa do PM em falar sobre outros assuntos (ameaça terrorista e fecho das urgências hospitalares). É o jornalismo televisivo no seu pior.

Crise? Qual crise?

«O livro, em Portugal, está de boa saúde e recomenda-se», escreve o Pedro Rolo Duarte. E se olharmos apenas para os números, tem razão. O mercado está a crescer e a ficar parecido com o que se vê lá fora. Há dinheiro a rodos, investimentos, grandes facturações. Está cheio de saúde, o livro. Bonitinho, lustroso, como as maçãs muito vermelhas de tamanho normalizado pela UE, alinhadas nas bancas do supermercado. Muito vermelhas e a saber a nada.
Eu concordo que a “crise” do livro é um mito, um equívoco. Mas o que me preocupa é a outra “crise”, a “crise” do que vem dentro dos livros. A igualmente antiga, polémica (e talvez equívoca) crise da literatura, por exemplo.

Livro de João Fazenda e Pedro Brito editado em França

O álbum de BD Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito (argumento) e João Fazenda (desenho), publicado em Portugal pelas Edições Polvo, vai ter lançamento em Fevereiro pela editora francesa Six pieds sous terre, com o título Celle de ma vie, celle de mes rêves.
Já em terceira edição por cá, esta obra ganhou os prémios para “Melhor Álbum Nacional” e “Juventude” no Festival de Banda Desenhada da Amadora em 2000, tendo sido considerado pela crítica um dos melhores livros de banda desenhada portuguesa dos últimos anos.

capa-tu-es-a-mulher-da-minha-vida.jpgcapa livro Fazenda

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges