Debaixo de ‘Debaixo do Vulcão’

Lowry com garrafa
caricatura de Lowry

Malcolm Lowry
Late of the Bowery
His prose was flowery
And often glowery
He lived, nightly, and drank, daily,
And died playing the ukelele.

Eis o epitáfio de Malcolm Lowry, o escritor inglês que entrou para o panteão da literatura do século XX com um único romance: Debaixo do Vulcão (1947). No blogue da Fundação Malcolm Lowry encontramos tudo e mais alguma coisa sobre o homem que mergulhou no México através de uma espiral de álcool e desespero. Há fotografias dos cenários descritos no livro, comentários sobre a obra, capas das várias edições, notícias dos colóquios, imagens de Cuernavaca e murais de Diego Rivera, peregrinações aos locais por onde Lowry passou e apontamentos biográficos. Um maná para fanáticos de Under the Volcano e não só.

PS — Da fundação e da equipa que redige o blogue faz parte um português: Marcelo Teixeira (editor da Oficina do Livro, onde é responsável pela excelente colecção Ovelha Negra, dedicada à literatura latino-americana).

Logo Fundação Lowry

10 anos de Fnac

Faz hoje dez anos que a Fnac abriu portas em Portugal. A história de sucesso, já a conhecia bem. É um case study que prova como os estudos de mercado podem ser falíveis (em 1998 não havia, dizia-se, massa crítica para garantir a viabilidade destas lojas; depois, foi o que se viu). O que mais me impressiona, porém, é um número: 27 milhões. Segundo os números fornecidos pelo DN, foram mais de 27 milhões os livros vendidos no nosso país pela Fnac, numa década. Eu, ciente de que contribui amiúde para a estatística (sobretudo no eixo Chiado-Colombo), não deixo de me espantar com a magnitude das vendas. Vinte e sete milhões?! Não haverá por aí um zero a mais?

Lembrete

— Hoje, pelas 17h00, o fotógrafo Daniel Blaufuks conversa sobre os seus livros com o crítico de arte Nuno Crespo, na biblioteca do Arquivo Fotográfico Municipal (R. da Palma, 246, Lisboa)

— Segunda sessão do ciclo Asas sobre a América (organizado por Filipa Melo): Philip Roth por Gonçalo M. Tavares. Às 18h30, no auditório da FLAD (R. do Sacramento à Lapa, 21, Lisboa)

Mário de Carvalho no Jornal de Letras

MC no JL

«(…) Sabes, os livros saem-me do pêlo. É que eu tenho uma facilidade enorme de escrever, o que é um perigo terrível (…) E mais ainda: com a idade um tipo compete consigo próprio, procura soluções, policia os lugares-comuns, vê se há ecos, se há repetições, está atento à coerência, ao raccord, interroga-se se as palavras são exactas, se irradiam sentido, se não são vazias. É um grande esforço. Como tenho grande facilidade em escrever, as fórmulas ocorrem-me rapidamente e tenho de as evitar.»

[Retirado da entrevista concedida pelo escritor a José Manuel Rodrigues da Silva, a pretexto do lançamento do romance A Sala Magenta, pela Caminho]

Um poema de Ruy Belo (no dia em que faria 75 anos)

A FORÇA DAS COISAS

Passeio sob a sombra de mulheres frondosas
de uma infinitésima memória
Restam-me os limões doces da síria
já que me falta deus ó alpedrinha
ou súbito desejo de ficar na noite
dormindo o sono íntimo da terra
Foi-se o milagre das fontes pelo estio
e não sei que fazer das favas novas
pois abril é um mês que não conheço
Não mereço o barco encalhado de abidjan
após o nascer público do sol
sobre o ramo do cardo emblema da traição
Calmo com um pôr-do-sol vermelho
encerro a cerimónia quotidiana
Quantos fatos vesti quantos despi
nas ruas devassadas por domingos
perante a áspera censura do mar
ou a grande catástrofe do meio-dia
assinalando a morte da manhã
Não terei mesmo um céu sem privilégios
tão previsível como uma recordação
a arte embaladora das palavras
Eis que está próximo o funesto inverno
é o tempo de tudo abandonar
a começar no lençol branco destes dias
Os mortos nem dos vivos se alimentam
é essa a única verdade útil
tão deslumbrante como um grande vento natural
A vida é cada dia mais difícil de lidar
e um velho poeta refugia-se nas tábuas
A mim mulheres frondosas nulo mar

[in Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, 2.ª edição, 1990]

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São João da Ribeira (Rio Maior), 27 de Fevereiro de 1933 – Queluz, 8 de Agosto de 1978

olamtagv

Os Livros Ardem Mal é, pelo que pude ler, um excelente encontro sobre a actualidade editorial que acontece todos os meses no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra (o próximo é já no dia 3, às 18h00, com o Ricardo Araújo Pereira a suceder a Manuel António Pina no papel de convidado). À volta de uma mesa, António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Bebiano falam dos livros que foram chegando às livrarias e tertuleiam (o verbo existe?) como já vai sendo raro tertulear-se, na província ou no centro de Lisboa.
Só isto já era muito bom. Mas o painel-residente ainda faz o obséquio de nos oferecer, com mais uns amigos (Miguel Cardina, Ana Bela Almeida, Manuel Portela, Pedro Serra e Sandra Guerreiro Dias), um blogue que reflecte, amplifica e complementa o teor dos encontros, um blogue com alguns posts de qualidade estratosférica, um blogue supimpa que é já um dos favoritos entre os favoritos aqui do Bibliotecário.

Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes – 2)

Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema

Maria do Rosário Pedreira, editora da QuidNovi e poeta

Luís Filipe Cristóvão, gestor editorial, livreiro, poeta e blogger

Vamos ajudar a aguasfurtadas a sair do impasse?

Por dificuldades financeiras, a excelente revista aguasfurtadas tem vindo a adiar a publicação do seu número 11. Uma lástima, uma grande lástima, mas que não abateu o ânimo dos industriosos animadores do projecto. Vai daí, decidiram organizar uma venda de trabalhos oferecidos por vários artistas, ao “preço comum” de 20 euros. Sim, isso mesmo, uma daquelas notas azuis que desaparecem em três tempos numa noite de copos. Fica então o desafio: poupem no álcool e ajudem a aguasfurtadas.
A venda abre sábado (1 de Março) na Galeria Espaço JUP, R. Miguel Bombarda, 187, Porto. E sosseguem os mais copofónicos: será servido vinho tinto.

Baratas e homens

capa 'Kockroach'

Kockroach — A Metamorfose
Autor: Tyler Knox
Título original: Kockroach
Tradução: Luís Coimbra
Editora: Paralelo 40º
N.º de páginas: 334
ISBN: 978-989-8134-02-8
Ano de publicação: 2008

“Quando Kockroach, um artrópode pertencente ao género Blatella e à espécie Blatella germanica, acorda de um sono típico sem sonhos numa dada manhã, descobre-se transformado numa qualquer criatura vil de grandes dimensões.” Essa criatura vil é um homem, o que faz deste primeiro parágrafo de Kockroach uma assumida e engenhosa piscadela de olho literária. Gregor Samsa, o protagonista da novela Metamorfose, de Franz Kafka, desperta com seis patas e carapaça quitinosa. Aqui acontece precisamente o contrário: o insecto com K maiúsculo (em inglês, barata é cockroach) descobre que ganhou forma humana e não sabe o que fazer de um corpo tão “ridiculamente estreito e macio”, tão pálido e engelhado “como uma ninfa em época de muda”.
Embora seja evidente o gozo com que Tyler Knox narra a progressiva adaptação de Kockroach ao seu novo estado, depressa compreendemos que o escritor não caiu no erro de levar o jogo intertextual às últimas consequências. Quem procurar neste livro uma simples versão às avessas do clássico kafkiano, desiluda-se. Este romance nada tem a ver com o universo e as obsessões do escritor checo. É, acima de tudo, um divertimento muitíssimo bem escrito que pode ser lido de várias maneiras: como história clássica de ascensão, queda e ressurreição; como parábola sobre a sociedade americana e a importância que esta dá ao dinheiro, ao poder e à figura do self made man (expressão levada aqui mais à letra do que nunca); ou ainda como retrato fiel do submundo nova-iorquino dos anos 50, num estilo que parodia a linguagem de Dashiell Hammett e Raymond Chandler.
Na sua frieza amoral e determinação sem escrúpulos, Kockroach é uma personagem desconcertante porque nunca sabemos muito bem o que esperar dela. Ao contrário de Samsa, que vive enredadado no seu próprio desespero, incapaz de mudar o curso dos acontecimentos, Kockroach nunca tem dilemas ou angústias, só instinto de sobrevivência. A tenacidade torna-o invulnerável e permite-lhe triunfar num mundo hostil.
Os dramas existenciais, esses, ficam por conta de Mickey Mite (um gangster parasita) e de Celia Singer (mulher coxa, cheia de complexos), que alternam o protagonismo dos capítulos com Jerry Blatta (o nome civil de Kockroach), enquanto este vai sucessivamente trepando as hierarquias da mafia de Times Square, do mundo empresarial e da política. Mite, que resgatou aquele a quem chama Chefe na rua, de óculos escuros à noite, quando ainda estava na fase de aprender os gestos dos homens e a sua linguagem (repetindo fora de contexto as frases que ouvia pelas esquinas), é o contraponto de Blatta — o seu Sancho Pança, mas também a sua Nemésis; o fiel escudeiro que às vezes trai — e o elemento humano que equilibra a história até ao seu final em aberto, quando Kockroach, apoiado pelo presidente Nixon, está prestes a ser eleito senador, anunciando uma “nova e gloriosa era para a América”.
Quando o livro saiu nos EUA, em Dezembro de 2006, especulou-se bastante sobre Tyler Knox. A inexistência de fotografias e a escassa informação biográfica — “formado pelo Iowa Writer’s Workshop, vive na Costa Leste com a mulher e um cão” — geraram todo o tipo de desconfianças em relação ao romancista “estreante”. Legítimas, diga-se, porque Sarah Weinman acabou por revelar, no seu blogue, que Knox afinal é o pseudónimo de William Lashner, um relativamente obscuro escritor de thrillers judiciais.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Quer ganhar 100 mil euros? Pergunte-me como

É simples. Primeiro, procure nas gavetas lá de casa se tem um romance com mais de 200 páginas pronto a editar. Caso não tenha, compre uma resma de papel e uma Remington em 15.ª mão (se for um fetichista armado em Hemingway) ou abra um ficheiro do Word e lance-se ao trabalho (se for apenas um candidato a escritor, moderno e pragmático). Quando tiver terminado a sua obra-prima, de preferência antes de 15 de Junho, leia este regulamento, trate da parte burocrática, envie tudo para a morada no Cacém e aguarde que a sorte grande ande à roda em Frankfurt, lá para Outubro. Ah, já agora não se esqueça de ler as letras pequeninas, que neste caso têm o mesmo tamanho das outras mas foram deixadas estrategicamente para os artigos finais (o 13, o 14, o 15 e o 16).

Memórias das Correntes

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A livraria improvisada, na Casa da Juventude, onde se podiam comprar os livros de que se falava lá dentro, nos debates.

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O escritor Ondjaki na manhã do último dia, já de malas feitas, depois de uma directa.

Cecília

«Assim, a sombra de Cecília paira sobre mim e o Meu Amigo, dois conversadores nocturnos sentados sob o alpendre duma casa de praia. É por enquanto uma sombra, um contorno de mulher, se quiserem. Esse contorno compõe-se de instantes de memória, deslocados no tempo e na distância, tal como sucede com os farolins das embarcações de pesca que andam ao largo: existem mas levantam-se e desaparecem ao sabor da ondulação. É necessária a memória (esse terceiro plano ou esse poder de recriar que é, ainda, memória, cheiro e reconhecimento) para situar os farolins dos barcos no verdadeiro lugar em que se encontram e construir, para além dos nossos olhos, todo um rosário de luzes boiando nas águas em trevas. Então poderemos traçar o desenho exacto de um cerco de pesca, uma companha de homens sonolentos, o enorme saco de rede que devora os peixes no próprio ventre do mar…»

[in Lavagante — encontro desabitado, de José Cardoso Pires, Edições Nelson de Matos, 2008]

No gueto de Bedzin

capa 'Diário de Rutka'

O diário de Rutka
Autora: Rutka Laskier
Título original: Pamienik, Rutki Laskier
Tradução: Maria Milewska Rodrigues
Editora: Sextante
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-8093-38-7
Ano de publicação: 2007

A primeira coisa a fazer diante deste voluminho é não o reduzir a mais uma variação do Diário de Anne Frank, por muito semelhantes que sejam as vidas de Rutka Laskier e da judia alemã que vivia escondida num anexo secreto, em Amsterdão. Se ambas escreveram sobre o terror do nazismo — nunca deixando de registar os típicos dilemas psicológicos das adolescentes — e se ambas morreram em campos de concentração (Anne Frank em Bergen-Belsen, aos 15 anos; Rutka em Auschwitz, aos 14), o certo é que também há grandes diferenças entre as duas.
Para começar, o diário de Frank cobre quase dois anos de vida na clandestinidade (1942-44), enquanto as entradas no caderno de Laskier vão apenas de Janeiro a Abril de 1943. Depois, o testemunho da alemã foi publicado em 1947, logo após o fim da guerra, tornando-se um dos mais populares livros sobre o Holocausto, traduzido em 67 línguas. Já o diário da rapariga polaca ficou escondido debaixo do soalho duplo de umas escadas, num prédio do antigo gueto judeu da cidade de Bedzin, durante mais de 60 anos, sendo apenas descoberto, lido e publicado em 2006.
Desengane-se, porém, quem pensar que o livrinho de Rutka é uma espécie de amostra do que se encontra, mais desenvolvido, nos escritos da outra mártir. Se as preocupações são as mesmas, o estilo diverge. Não há aqui nada que se pareça com o “Querida Kitty” e o tom é muito mais seco, objectivo, pouco dado a arroubos sentimentais. Rutka tem noção de que está no inferno, de que o cerco se vai apertando e de que dificilmente sobreviverá a uma guerra cuja evolução militar mostra conhecer bem. Se escreve, é para deixar um registo — como quando narra com grande detalhe, seis meses após os factos, uma Aktion de deportação feita pelos nazis sobre os judeus de Bedzin, em Agosto de 1942.
O mais arrepiante neste notável documento humano é a forma como Rutka alterna entre o relato dos pesadelos do gueto e as coscuvilhices do seu círculo de amigos, que reflectem o brusco desabrochar da puberdade. A 6 de Fevereiro, por exemplo, escreve estas linhas terríveis: “Algo em mim se destruiu. Quando passo ao pé de um alemão, tudo em mim se contrai. Não sei se é por medo ou por ódio. Queria poder torturá-los, e às suas mulheres e aos seus filhos, (…) estrangulá-los vigorosamente, mais e mais ainda.” Logo depois, ainda no mesmo parágrafo: “Acho que a minha feminilidade acordou dentro de mim.” E descreve como sentiu pela primeira vez, durante o banho, a força do impulso sexual.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

Capítulo a capítulo

E se os livros se pudessem comprar capítulo a capítulo (este sim, este não) como as canções na Internet?
Esqueçam o “se”: já está a acontecer.

Lembrete

cartaz da homenagem a Kerouack

Os 50 anos de On the Road, de Jack Kerouac, são evocados logo à noite, a partir das 23h30, no Maxime (Lisboa). Tiago Gomes, director da revista Bíblia, lê excertos. Tó Trips, músico dos Dead Combo, improvisa à guitarra.

Desafios de um editor freelancer

Edições Nelson de Matos. Assim mesmo, a assinatura confundindo-se com a designação comercial da empresa. Depois de 23 anos na Dom Quixote e de uma breve passagem pela Ambar, de onde saiu em Abril do ano passado, está de volta o editor que sempre gostou de trabalhar os textos de perto com os seus escritores, dos quais muitas vezes se tornou amigo e confidente.
A personalização da editora não é fenómeno único, mesmo no nosso país (basta pensar nas Edições Romano Torres, na Parceria António Maria Pereira, na Lello & Irmãos, na Assírio & Alvim ou nas Edições João Sá da Costa, por exemplo), mas traz consigo a consciência de uma marca autoral. “Esta é uma editora com rosto e assinatura. Representa os meus critérios, os meus gostos, a minha estética. Não vou encher um catálogo por encher. Quero dar-lhe um sentido e uma ética”, diz Nelson de Matos, na sala espaçosa de um apartamento virado para a Alameda Afonso Henriques, em Lisboa.
É ali, entre pilhas de manuscritos e textos enviados por correio electrónico (tantos que o computador até “está a perder capacidade”), é ali que vem gerindo a nova etapa profissional. “Estou reformado, recebo uma pensão que me dá para viver, acumulei umas economias. Isso permite-me ser editor freelancer. Ou seja, dispor do tempo como quero, sem necessidade de publicar livros a correr, com o fito de que sejam rentáveis, só porque é preciso pagar salários.”

Nelson de Matos, por Leonardo Negrão

Fazendo jus ao nome da editora, o único funcionário de Nelson de Matos é Nelson de Matos. Cabe-lhe fazer quase tudo, da escolha dos corpos de letra aos tipos de papel, passando pela negociação dos preços com as gráficas. E para aquilo que não faz — paginação, revisão, armazenagem ou distribuição — recorre ao outsourcing.
As vantagens parecem-lhe evidentes: “Posso fazer o trabalho com toda a lentidão, com todo o cuidado. E só tenho de dar ordens a mim mesmo.” Além disso, a leveza da estrutura permite-lhe apostar em projectos minoritários (com tiragens de mil ou 1500 exemplares) que são economicamente incomportáveis para as editoras maiores. Esta é, aliás, uma das razões por que Nelson de Matos não teme os grandes grupos editoriais que se estão a formar em Portugal. “Nós, os pequenos, podemos competir de vez em quando nas áreas deles, mas eles dificilmente virão competir nas nossas.”
Quer isto dizer que o ex-editor da Dom Quixote não descarta a hipótese de incluir alguns best-sellers no seu catálogo? Sim, o que de resto já se está a comprovar com o lançamento do primeiro livro: Lavagante, uma ficção inédita de José Cardoso Pires. As encomendas dos livreiros foram tantas que ultrapassaram a tiragem inicial (3000 exemplares), obrigando a imprimir a segunda edição ainda antes de a obra ser posta à venda.
Com Cardoso Pires, a amizade durou quase 30 anos. “Éramos muito íntimos. Ele batia-me à porta aos domingos de manhã, entrava em casa e sentava-se, sem cerimónias. A relação acabou por envolver as famílias. Quando ele morreu, quis sublinhar que não era apenas amigo do Zé mas também delas: da Edite [sua mulher], da Ana e da Rita [filhas]. A Ana tem dito que se o pai soubesse que eu ia fazer uma editora e não tivesse um inédito, escrevia um para me dar. Havendo um inédito, ela entregou-mo.”
Nelson de Matos considera que Lavagante é um texto acabado (há três versões manuscritas e três dactilografadas, “a última bastante limpa, apesar de algumas emendas que incluímos”). Cardoso Pires não o publicou antes de 1974 “porque seria logo apreendido” e não o fez depois do 25 de Abril “porque se envolveu noutros projectos, deixando para trás este texto escrito sob o peso da censura e que para ele talvez fosse um pouco datado”.
Feliz por lembrar o autor de Alexandra Alpha dez anos após a sua morte, algo que a editora da sua obra (Dom Quixote) não está a fazer, Nelson de Matos resume: “Está lá tudo, escrito com aquela simplicidade que dava uma enorme trabalheira.”

[Texto publicado no suplemento DN Gente do Diário de Notícias; fotografia de Leonardo Negrão]

Parábola do embarque

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Walt ou O Frio e o Quente
Autor: Fernando Assis Pacheco
Edição: Abel Barros Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-972-37-1216-2
Ano de publicação: 2007 (1ª edição: 1978)

Publicada pela primeira vez em 1978, esta “noveleta” de Fernando Assis Pacheco tem como cenário os EUA e fala do Vietname “por coisas da causa”. Quatro anos após o fim da guerra colonial, ainda havia uma espécie de tabu sobre o tema na sociedade portuguesa e por isso o jornalista, que se estreava na ficção, situou a história nas docas de San Diego, quando “queria apenas dizer ‘Gare Marítima de Alcântara, Lisboa’, num ano qualquer entre 1961 e 1974″.
A estratégia compreende-se mas na verdade o que está ali, na lenta descrição de um embarque de soldados para uma guerra estúpida, é Portugal escondido com o rabo de fora. A carne para canhão pode ter nomes camones, como Scott Bombardeiro, Cold Prick, King Size ou Joãozinho Scarface, mas as suas acções e forma de falar não podiam ser mais tugas.
À frente de um pelotão, o “autor-narrador-alferes” vai descrevendo tudo o que se passa nas horas anteriores à entrada no Apocalypse, o barco-besta que os levará para Saigão e seus infernos. Isto é, preenche o vazio da espera com olhares sarcásticos sobre as “gajas” das Women of America que distribuem tabaco à tropa fandanga ou sobre as tricas entre oficiais “e outros monstros de aspecto saudável”.
Neste microcosmos ninguém é completamente bom nem mau, “antes pelo contrário”. Estes são homens aflitos, a disfarçar o medo. E a falarem um calão de caserna, bruto mas inventivo, intercalado pelo experimentalismo do autor, que baralha os códigos ficcionais e chega a armadilhar o seu texto contra a crítica. Que 30 anos volvidos os explosivos ainda funcionem, eis o prodígio.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

À atenção das editoras (e são muitas, e são muitas) que continuam a publicar livros cheios de gralhas

Oficina de Introdução à Revisão de Texto. É na BookTailors. Começa a 3 de Março.

A triste história da ‘morte’ de Manuel Rosa

Isabel Coutinho conta-a em detalhe, aqui. Faço minhas as palavras de Arnaldo Saraiva: «Nunca tive conhecimento de nenhuma história assim. Existe gente louca, perversa ou até ressentida ou então é um caso de psiquiatria.»

Correntes d’Escritas por quem as faz (participantes – 1)

Ruy Duarte de Carvalho, vencedor do Prémio Casino da Póvoa (com o livro Desmedida, publicado pela Cotovia)

Manuel Rui, veterano entre os escritores veteranos (participa no encontro desde a primeira edição, em 2000)

Pepetela (Prémio Camões 1997)

Palavra Ibérica 2008

Já há programa para o Palavra Ibérica 2008, III Encontro Hispano-Luso de Escritores, que decorrerá em Punta Umbría, a 7 e 8 de Março. Eis alguns destaques:

Sexta-feira, 7 de Março

19h00 – Inauguração na Sala Polivalente, com Antonia Hernández Galloso (Vereadora da Cultura do Ayuntamiento de Punta Umbría), José Carlos Barros (Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Real de Sto. António) e Fernando Esteves Pinto (Círculo Literário do Algarve “Sulscrito”; co-coordenador Palavra Ibérica), Uberto Stabile (Coordenador do Encontro Hispano-Luso de Escritores Palavra Ibérica)

19h30 – Acto de entrega e apresentação dos Prémios Internacionais de Poesia Palavra Ibérica 2007, atribuídos a El sitio justo, de Rafael Camarasa (Valencia), e Sobre as imagens, de Amadeu Baptista (Viseu)

20h30 – “Cara a cara, verso a verso: outros tempos para a lírica”, com José Mário Silva (Lisboa) e Manuel Moya (Fuenteheridos, Huelva)

Sábado, 8 de Março

11h30 – Apresentação do livro Lo que cayó del Conquero (Antologia de Narradores Onubenses), com apresentação de Marcos Gualda e Uberto Stabile, seguida de intervenções de Rafael Delgado, Francis Vaz, Manuel Garrido Palacios e Manuel Moya

13h00 – “Cara a cara, verso a verso: espaços para a poesia”, com Manuela Ribeiro (directora do encontro “Correntes d’Escritas”, Póvoa de Varzim, Portugal) e Antonio Orihuela (director do encontro “Voces del Extremo” de Moguer, España)

18h00 – Apresentação dos livros e recitais poéticos dos autores da colecção Palavra Ibérica: Las moradas inútiles, de José Carlos Barros (Vila Real de Sto. António), Só mais uma vez, de Uberto Stabile (Valencia) e Pequeña antología para el cuerpo, de Luis Filipe Cristóvão (Torres Vedras)

20h00 – “No feminino plural”, com Margarida Vale de Gato (Lisboa), Josefa Virella (Huelva), Ana Mafalda Leite (Moçambique), María Gómez (Isla Cristina), Diana Almeida (Lisboa), Rosario Pérez Cabaña (Sevilla)

Amanhece o que é feio no que é belo

«Copacabana amanhece isolada do resto do mundo por pedras e pelo mar. O Túnel Novo abre caminho pra onde a vida parece desenrolar sem culpa. O ressentimento dos duzentos mil moradores começa a escorrer pelos bueiros dos botecos em cada esquina, cinco por quarteirão. São poucos os que vêem o dia surgir vermelho. Vagabundos, garis, entregadores de jornais, meia dúzia de travas, putas cansadas, cachorros e alguns velhos andando na praia. Velhos de sono curto que surgem de todas as portas e escadas. O sono dos velhos é cada vez menor. Madrugam. Quando não têm mais o que acordar, morrem estampando avisos fúnebres no meu elevador. Toda semana um novo aviso — “COMUNICAMOS O FALECIMENTO DO EX-MORADOR DO APTO. 503″. A distância e o tempo que os velhos carregam fazem seus dias parecerem ainda mais iguais. E os dias em Copacabana não param de nascer iguais. Cada vez mais iguais.

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O sol se desprende do mar, esquenta o sono das putas, gringos por trás de cortinas prateadas, mendigos e pivetes sob marquises, cobertores imundos. Ilumina janelões na Avenida Atlântica. Brilha em cada fresta de ar-condicionado, desenha o teto de conjugados porcos, superpovoados, ilumina quadros caros, coberturas e a piscina do Copacabana Palace, espia basculantes, esquenta as lágrimas de crioulas gostosas, cicatrizando feridas, pingando sangue pelo chão, a oração de beatas que rezam ajoelhadas em frente do espelho de cômodas gastas, o passeio de cachorrinhos estúpidos, o tédio dos porteiros, essa gente sem esperança que dorme cada vez menos enquanto seus dias somem num ralo comum. O sono dos velhos é cada vez menor. Amanhece em Copacabana, as crianças vendendo pó na Djalma Ulrich. Sonhos caindo do céu. Amanhece por trás dos prédios, amanhece o que é feio no que é belo. Amanhece até que não exista diferença.»

[in Corpo Presente, de João Paulo Cuenca, Planeta (Brasil), 2003]

Lembrete

Começa hoje (18h30), na FLAD, com uma conferência de Eduardo Lourenço (Imagens da América), o ciclo Asas Sobre a América, coordenado pela jornalista e escritora Filipa Melo. A ideia é discutir “os trânsitos literários ocorridos entre Portugal e os EUA”. Para a sessão desta tarde, a FLAD decidiu convidar “um painel de editores de blogues que escrevem regularmente sobre arte e literatura” e é nessa qualidade que aparecerei na Rua do Sacramento à Lapa, n.º 21.
A entrada é gratuita.

Correntes d’Escritas por quem as faz (organização)

Luís Diamantino, vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Manuela Ribeiro, coordenadora do encontro e faz-tudo

Coisas que se ouvem

Em 2006, o autor guineense Waldir Araújo começou a escrever um blogue (Rio Geba). Entusiasmado, aproveitou o telefonema ao pai para falar da sua nova actividade na Internet:

— Pai, queria dizer-lhe outra coisa. Há uns dias que tenho um blogue.
— …
— Pai, eu tenho um blogue.
— [silêncio ainda mais longo]
— Pai, percebeu o que eu disse?
— Ó filho, percebi, percebi. Mas vamos com calma. Pode ser que seja benigno.

O boato

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Às 9h23, publiquei aqui uma notícia tristíssima, chegada por SMS horas antes (1h42): «Soube agora mesmo que o Manuel Rosa morreu, num acidente.» Não sabendo mais pormenores, lamentava nesse post a terrível perda e o golpe brutal — mais um — que atingia assim a Assírio & Alvim, uma das melhores editoras portuguesas. O principal pormenor em falta era este: a notícia é falsa. Completamente falsa.
Apesar do inqualificável boato que alguém certamente muito desequilibrado pôs a circular, para desespero e dor de quem conhece o Manuel, este encontra-se de perfeita saúde, tal como a Ilda David’, que supostamente teria partido uma perna no suposto acidente de viação.
Como devem imaginar, até me arrepio só de pensar que durante umas horas “matei” alguém que muito estimo e admiro. É certo que coisas destas já aconteceram várias vezes (a começar pelo mais famoso dos antecedentes); é certo que ninguém está a salvo de mentes retorcidas e capazes de espalhar as mentiras mais sórdidas; mas ainda assim impõe-se um pedido de desculpas ao Manuel Rosa, claro, e a todos os leitores que se sobressaltaram (felizmente) em vão.

[Fotografia: João Moreira dos Santos, reenquadrada]

Um rapaz das Galveias

Podemos tirar o escritor da aldeia mas ninguém tira a aldeia do escritor. Por muito que José Luís Peixoto viaje pelo mundo, meses a fio, com uma agenda digna de estrela pop, por muito que dê autógrafos na FLIP (Festa Literária Internacional de Parati, no Brasil), se instale durante uma temporada na Ledig House de Nova Iorque (lugar de criação para autores de todas as latitudes) ou jante com Umberto Eco em Paris, ele nunca deixa de ser um rapaz das Galveias, a pequena povoação do concelho de Ponte de Sor onde nasceu, há 33 anos. É esse, talvez, o segredo da sua humildade e de uma candura que desarma todos os que o conhecem de perto. Os altos voos nunca o deslumbraram e ele continua a ser o “filho do Peixoto”, como repete certa personagem do seu último livro (Cal, Bertrand, 2007). Que é como quem diz: um “filho da terra”, um filho desse Alentejo rural que tem sido a matéria-prima, mesmo se sublimada, de quase tudo o que escreveu até hoje.
José Luís começou a publicar muito cedo, ainda adolescente, nas páginas do DN Jovem (quando por lá andavam Pedro Mexia, José Riço Direitinho, Alexandre Andrade ou Margarida Vale de Gato). Foi no suplemento do Diário de Notícias, dirigido por Manuel Dias, que apareceu a primeira versão de Morreste-me, uma belíssima elegia em prosa sobre a morte do pai. Mais tarde, a versão ampliada desse texto acabou por se transformar no seu primeiro livro, publicado numa edição de autor minúscula e de capa preta (hoje uma raridade bibliográfica). O estilo de Peixoto está todo ali: um denso negrume existencial aliado a um ritmo encantatório, feito de frases bem desenhadas, repetições, síncopes, crescendos e um lirismo sempre à beira do derrame.
Esta forma de escrever atingiu o seu zénite em Nenhum Olhar (Temas e Debates, 2000), um dos melhores primeiros romances portugueses da última década, ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago, da Fundação Círculo de Leitores. O romance seguinte, Uma Casa na Escuridão (Temas e Debates, 2002), marcou uma mudança na forma como o meio literário nacional recebe a sua obra. A factura do êxito súbito mostrou-se elevada: houve quem lhe apontasse uma dificuldade em libertar-se de uma lógica narrativa fechada sobre si mesma e surgiram os primeiros sinais de desconfiança face ao “fenómeno Peixoto”, nalguns casos indissociáveis da proverbial invejazinha. Talvez por isso, o seu terceiro e mais recente romance, Cemitério de Pianos (Bertrand, 2006), notável tour de force que cruza uma saga familiar com a história de Francisco Lázaro (o atleta português que morreu durante a maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912), esteve longe de obter o destaque que merecia.

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Não que José Luís Peixoto se preocupe muito com isso. O seu único objectivo, afirmou-o várias vezes, é ser lido. E por aí não se pode queixar. Há uma verdadeira rede de leitores que acompanham tudo o que escreve, uma rede de pessoas com quem o escritor mantém contacto permanente, seja através da Internet, seja através de encontros nas actividades promocionais ou nos eventos literários que lhe ocupam parte significativa do tempo. Não sendo best-sellers, os seus livros sempre se venderam bem — mesmo os de poesia (A Criança em Ruínas, publicado pelas Quasi em 2001, já vai na sétima edição). A fila de pessoas à espera do seu autógrafo, na Feira do Livro de Lisboa, costuma ser maior do que a de autores mais velhos e consagrados.
Decidido a viver apenas da escrita, Peixoto raramente recusa uma encomenda. Além de colaborar regularmente na imprensa (tem uma crónica fixa no Jornal de Letras), fez um CD/livro com os Moonspell (Antídoto, 2003), escreveu a letra de uma canção dos Da Weasel (Negócios Estrangeiros, do álbum Amor, Escárnio e Maldizer), e colaborou com várias companhias teatrais, tanto em adaptações de obras suas como na criação de textos dramatúrgicos. De entre estes, os mais importantes foram Anathema (para os belgas tgSTAN, 2005), À Manhã (Teatro Meridional, 2006) e Quando o Inverno Chegar (encenado no São Luiz pelo realizador Marco Martins, 2007).
Entretanto, a internacionalização do escritor não pára. Os seus livros já foram editados em França, Itália, Holanda, Espanha, República Checa, Bulgária, Croácia, Turquia, Finlândia, Bielorrússia e Brasil, acabam de sair na Hungria e Reino Unido (no catálogo da Bloomsbury, “casa” de Harry Potter), estando previsto que o mapa se alargue brevemente a Israel, Grécia, Polónia, Japão e EUA (na prestigiada chancela Nan A. Talese/Doubleday). Num momento em que já olha mais para fora do país do que para dentro, o principal risco de Peixoto seria a cristalização criativa. Isto é, ficar preso a uma linguagem que em vários momentos já deu sinais de estar à beira do esgotamento.
Quem leu Cal, recolha de textos avulsos sobre a velhice, terá consciência dessa ameaça. Não há ali nada que um leitor de Peixoto não conheça. Mas se quisermos um vislumbre do futuro literário do escritor, o melhor é procurar em dois livros que passaram quase despercebidos: Minto até ao Dizer que Minto (distribuído em 2006 com a revista Visão) e Hoje Não (incluído numa colecção da Sábado, 2007). É por aqui, numa linha próxima dos experimentalismos de alguns jovens autores norte-americanos (como Jonathan Safran Foer ou Dave Eggers), que a escrita de Peixoto se pode reinventar. E não será por acaso que ele está neste momento a traduzir, para a Casa das Letras, precisamente um romance de Dave Eggers (What is the What).
Uma coisa é certa: ainda vamos ouvir falar muito do rapaz das Galveias.

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

O fim das ilusões

capa 'Mauricio'

Mauricio ou as Eleições Sentimentais
Autor: Eduardo Mendoza
Título original: Mauricio o las elecciones primarias
Tradução: Helena Pitta
Editora: ASA
N.º de páginas: 304
ISBN: 978-989-23-0023-8
Ano de publicação: 2008

Eduardo Mendoza, que participou este ano nas Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim), regressa com Mauricio ou as Eleições Sentimentais ao romance e a Barcelona, cenário e objecto de quase todos os seus livros. Desta vez, a época abordada pelo escritor, conhecido pelo afinco com que observa as metamorfoses sociais, não é o início do século XX — como em A Verdade sobre o Caso Savolta ou A Cidade dos Prodígios (narrativa que espelha a evolução da capital catalã entre a exposição universal de 1888 e a de 1929) — mas sim o período que se seguiu à «transição democrática». As balizas cronológicas estão de resto bem marcadas: a história arranca pouco antes das segundas eleições autonómicas da Catalunha (Abril de 1984) e termina com o anúncio, dois anos e meio mais tarde, de que Barcelona acolheria os Jogos Olímpicos de 1992.
Uma década após a morte de Franco, a democracia “ainda usa fraldas”, o país é um “castelo de areia” sempre em risco de vir abaixo e os cidadãos começam aos poucos a voltar às suas vidas, “uns por cansaço, outros por desencanto e todos, definitivamente, por egoísmo”. É neste contexto de refluxo cívico que Mendoza coloca a sua personagem principal: Mauricio Greis, um dentista cinzentão, leitor de Goethe, regressado a Barcelona para exercer numa clínica privada. O seu tédio é posto em causa pelo convite para fazer parte das listas do PSOE às já referidas eleições (em que os socialistas perderam a Generalitat, como sempre, para Jordi Pujol). Vítima da má-consciência burguesa, Mauricio aceita entrar na vertigem da campanha, com uma exaltação rapidamente anulada pela tristeza de descobrir como as coisas de facto se passam; ou seja, pela consciência de que entre a ideologia e a praxis política há um desfasamento que destrói todas as ilusões de mudança radical da sociedade.
Paralelamente, o dentista anódino envolve-se num triângulo amoroso com duas mulheres que pertencem a “mundos irreconciliáveis”: a advogada Clotilde, insegura nas suas relações, tanto profissionais como afectivas; e Porritos, cantora de rancheras, desempregada, pobre, carente, que se descobre com Sida e lança uma sombra de morte sobre grande parte do romance. Nestas personagens que colidem de frente com a realidade, Mendoza consegue fixar de forma muito nítida o desencanto de uma geração confrontada com a ideia de que “tantas energias e tanto entusiasmo não serviram para nada”.
A escrita é veloz, transparente, fluida, de uma precisão e desenvoltura narrativa sem mácula. O humor tem conta, peso e medida. Aos diálogos não falta a cadência certa. As trezentas páginas lêem-se num sopro. Ainda assim, há um excesso de linhas narrativas secundárias (dissipam a força da história central), bem como personagens tão periféricas e difusas que mais valia não terem sido convocadas.
Uma última palavra para a tradução de Helena Pitta: excelente.

Avaliação: 7/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

Alain Robbe-Grillet, por Roch C. Smith

Morreu Robbe-Grillet, um dos “pais” do Nouveau Roman, o que quer dizer que o Nouveau Roman ficou apenas um pouco mais órfão do que já estava. Pierre Assouline, no seu blogue, chamou-lhe «grand bourgeois marginal» e lembrou alguns aspectos paradoxais da morte de quem não chegou a ser imortal:

«Par un étrange paradoxe, alors qu’elle affronte une pénurie de candidats de qualité conjuguée à un taux de mortalité inquiétant, c’est bien la première fois que l’Académie française respire en apprenant la disparition de l’un de ses membres. Celui-ci ayant refusé depuis son élection il y a plusieurs années de se soumettre à ses rituels (port de l’épée et de l’habit, discours préparé etc), sa réception se fait attendre. Il n’aura donc jamais été immortel.»

O que aí vem (e eu esfrego as mãos de contente, em antecipação)

  • Num dos almoços das Correntes, o Jorge Sousa Braga garantiu-me que sairá em breve, na Assírio, a sua tradução de uma antologia do poeta polaco Zbigniew Herbert (de que faz parte este poema, revelado aqui no BdB). O título: Escolhido pelas Estrelas.
  • Leonardo Padura revelou estar a escrever neste momento um romance sobre Leon Trotsky e o seu assassino, Ramón Mercader.
  • Diogo Madre Deus, da Cavalo de Ferro (a editora que em 2007 publicou a primeira tradução completa do Orlando Furioso para a nossa língua), garantiu-me que na Primavera dará à estampa um romance que já se perfila como o grande acontecimento editorial de 2008: Rayuela, de Julio Cortázar. O título português será, em princípio, O Jogo da Vida.

Imagens do último dia (sábado)

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Às 10h30, o Auditório Municipal ficou cheio como um ovo para ouvir Leonardo Padura, Mia Couto, Onésimo Teotónio de Almeida, Pepetela e Tabajara Ruas (com moderação de Maria João Seixas) dissertarem sobre o tema “Cada Homem é uma Língua”

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Ruy Duarte de Carvalho (Prémio Casino da Póvoa) abraçou e foi abraçado, com enorme entusiasmo, por Pepetela e Luandino Vieira (ambos vencedores do Prémio Camões)

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No final da mesa-redonda, Mia Couto tinha esta fila de pessoas à espera de um autógrafo. O contacto com os fãs teve que prosseguir no exterior do Auditório, porque era preciso preparar o palco para a sessão de encerramento

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O vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Luís Diamantino, fez questão de chamar ao palco todos os autores convidados para as Correntes e ainda o vasto staff que garantiu o excelente funcionamento da organização, dos elementos do secretariado aos motoristas que zelaram pela eficiência e pontualidade dos transportes

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Ruy Duarte de Carvalho fechou as Correntes d’Escritas 2008 ao receber o Prémio Literário Casino da Póvoa (20 mil euros e a miniatura de uma caravela) pelo seu livro Desmedida, que reúne crónicas de viagem

Os títulos das sessões

Nas Correntes d’Escritas, os motes lançados pelos organizadores são sempre um desafio. Leonardo Padura perguntou-se mesmo onde raio vão a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes buscar aquelas frases que tantas vezes encostam à parede os autores convidados. “Devem começar a pensar nelas logo que uma edição acaba”, rematou o cubano. Carme Riera foi ainda mais longe: “Cada um destes títulos parece um verso e acho que se os juntássemos todos conseguiríamos fazer um poema.”
A mim, pareceu-me uma óptima ideia. Eis como poderia ficar a coisa, com acrescentos mínimos de pontuação:

CORRENTES D’ESCRITAS

A meu favor tenho a poesia,
a lenta volúpia de escrever
poesia: a bem dita e a mal dita.
Escrever é um gesto perverso,
dar a palavra à voz.
A literatura rasga a realidade,
a rua faz o livro,
cada homem é uma língua.
Sou do tamanho do que escrevo.

Balanço pessoal

– sete mesas-redondas (quase todas interessantes, algumas memoráveis)
– conversas com escritores
– histórias avulsas à mesa do restaurante
– uma dezena de livros (entre oferecidos e comprados)
– alguns reencontros
– novas amizades
– três entrevistas na memória do gravador digital
– uma série de pequenos depoimentos em vídeo
– a sensação de que os três dias foram uma semana
– estas olheiras:

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Versão impressa (3)

O texto sobre o encerramento das Correntes, aqui.

Aviso

Com grande esforço e dedicação à causa, tenho conseguido assistir a quase todas as mesas-redondas, das quais vou tirando notas em folhas A4, agora muito dobradas no bolso do meu casaco (desde sempre um poço sem fundo de papelada e caligrafia caótica). Não esperem é que transcreva tudo num repente, do pé para a mão. O acesso à internet é limitado e dirigido para as obrigações urgentes (enviar textos para o DN), pelo que o resto virá aos poucos, durante os próximos dias.

Caçador caçado

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Ao ler o Expresso, no bar do hotel

O problema dos cortes num texto feitos telefonicamente é este: mais tarde, quando lês a prosa no papel, há sempre qualquer coisa que não ficou onde devia (hoje foi uma vírgula que abandonou o seu lugar legítimo numa frase e apareceu noutro parágrafo, ainda por cima pontapeando a gramática).

Ontem à noite

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O jantar foi num restaurante apropriadamente chamado Zé das Letras, com uma muralha etílica na parede a zelar pelo bom rumo das conversas.

[Na mesa da direita, podem ver-se Carlos Quiroga, José Carlos Vasconcelos, Onésimo Teotónio de Almeida e Luís Ricardo Duarte, jornalista do JL]

Versão impressa (2)

Não há link para o artigo no Diário de Notícias de hoje, por isso transcrevo:

A literatura que nasce na rua
e por vezes rasga a realidade


A história foi contada ontem por Carlos Quiroga, moderador do sétimo debate do encontro Correntes d’Escritas, que tinha “A Rua faz o Livro” como mote. Há uns anos, num colóquio de escritores em Moçambique, um grupo de que faziam parte Onésimo Teotónio de Almeida e Manuel Rui decidiu regressar a pé para o hotel. No caminho, os literatos cruzaram-se com um bando de jovens que em condições normais não hesitaria em roubar-lhes as carteiras. Contudo, ao ver Manuel Rui, o líder do gang apontou: “Ei! Aquele ali é o da Onda [o romance Quem me dera ser Onda].” Resultado: o que era para ser um assalto transformou-se numa guarda de honra.
Este tipo de efeito da literatura sobre a realidade quotidiana (e vice-versa) foi o grande tema que atravessou as várias mesas-redondas que voltaram a levar muito público ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim. Por exemplo, na sessão intitulada “A Literatura Rasga a Realidade”, moderada por Michael Kegler, o brasileiro João Paulo Cuenca contou como o seu romance sobre Copacabana, Corpo Presente, “virou um atractor de mulheres loucas”, que o assediam e por vezes até o perseguem. Se os outros escritores presentes — Eduardo Halfon (Guatemala), Ignacio del Valle (Espanha) e os portugueses Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe — não tinham intromissões tão explícitas nas suas vidas privadas para contar, o certo é que todos viram na fronteira entre a literatura e o real um “rasgão” que dá passagem e permite contaminações nos dois sentidos.
Na mesa de Quiroga, a rua também foi vista como metáfora dos vários caminhos que podem levar à ficção, vista no contexto das suas obras pelo peruano Oscar Málaga Gallegos, pela moçambicana Paulina Chiziane, pela espanhola Susana Fortes, pela luso-argentina Cristina Norton e por Júlio Moreira.
Quanto à sessão da manhã, sobre “Poesia: a bem dita e a mal dita”, juntou Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Teresa Rita Lopes e Janet Nuñez, com moderação de Luís Machado e animada participação do público no período de perguntas e respostas.

O lugar das palavras

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É lá dentro, durante as sessões de duas horas. É cá fora, no resto do tempo.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges