Maio em Abril

maio_68_net1.jpg

Dois posts sebaldianos

Este e este, ambos sobre Campo Santo, o livro póstumo de W. G. Sebald que a Teorema acaba de editar. Assina-os João Ventura, autor de um dos melhores blogues portugueses (em termos absolutos).

Serviço público

Quem revela um talento, depois não o pode deixar cair.
Por isso aqui deixo, pensando nos leitores sem acesso à edição de ontem da revista NS, mais três pérolas de Paulo Teixeira Pinto, a grande revelação literária de 2008.
Comecemos pelos aforismos:

Atenção: o tempo pode fazer mudar as convicções mas não o carácter.

Nós não somos números. Mas os números estão em nós.

E fechemos com o poema:

meteoro

brutal

precipitado
do sobretecto
celestial

descontrolado

aí vem
o meteoro

nada o detém

brutal

logo
nuvem
colossal

de fogo

impiedoso

ominoso

cego
sem ego

arquitecto
iridescende
[sic]

incandescende [sic]

fosfórico

catastrófico

poro
por
poro

puro

final

Todas se apaixonam por ele (diz ele)

capa 'Todas se apaixonam...'

Quarta-feira, 2 de Abril, José Pinto Carneiro lança a “comédia (quase) romântica” Todas se Apaixonam por Mim (Guerra e Paz). A apresentação estará a cargo de Francisco José Viegas e Carla Hilário Quevedo. É às 18h30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos (Campo Grande, 10 B).

Ecos de um debate desassossegado (ou nem por isso)

João Villalobos assina hoje, no DN, uma reportagem sobre a última sessão dos “Livros em Desassossego”, escrita com a habitual acidez das suas crónicas do croquete. Entre o tédio e a adrenalina, o “chato de primeira” explica-nos como a conversa lhe serviu para confirmar que os críticos são (como dizia O’Neill) “uma chatice”.
No Cadeirão Voltaire, Andreia Brites vê as mesmas coisas de outra perspectiva.

Origami

Conheço muitos livros sobre origami mas ignorava a existência de um origami com forma de livro.

[Vídeo encontrado no blogue do BiblioFilmes, um concurso que fecha as inscrições dentro de cinco dias]

Poesia infantil

No final dos anos 80, o Instituto Jean Piaget publicou vários volumes de um Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, onde se reuniam “poemas” de crianças e adolescentes. Alguns dos participantes tinham três, quatro ou cinco anos e os seus “versos” tinham sido coligidos por educadoras, espantadas com formulações verbais surpreendentes. Chamar-lhe poesia sempre me pareceu exagerado, pela simples razão de que a maioria dos supostos rasgos traduziam apenas os deslizes, erros e lacunas de quem está a aprender uma linguagem e ainda não a domina. Exemplo: um dos poemas premiados, que deu título ao respectivo volume, consistia no verso “Eu moro na minha mãe”. Memória uterina? Metáfora de um extremo amor filial? Não me parece. O miúdo só quis dizer que morava na casa da mãe. A poesia, involuntária, estava nos olhos dos adultos embevecidos.
Dito isto, havia alguns achados (como aquele “o magusto é o carnaval das castanhas”) e muitas ideias fortes, nascidas dos ângulos inesperados que as crianças utilizam para se aproximarem das coisas e das palavras. Mesmo sem serem poetas, os miúdos de três anos conseguem muitas vezes ser poéticos (a anos-luz, diga-se, de Paulo Teixeira Pinto e de muita gente com obra publicada). Lembrei-me disto há uma semana, quando estava no CCB com a Alice. Não sei se inspirada pelos poemas que pairavam no ar (e nas paredes), disse duas frases que me deixaram de cara à banda.
A primeira surgiu enquanto fazia um desenho: círculos, linhas sobrepostas, uma espécie de espiral. “O que é isso?”, perguntei. “É um retrato”, disse ela. “Retrato de quem?” A Alice continuou a desenhar, cara virada para o papel: “De uma pessoa com uma fome inteira.”
A segunda foi já à saída, quando voltávamos para o carro. O vento soprava gélido, cortante. Fiz uma referência qualquer ao facto de a Primavera já ter chegado, embora não parecesse. A minha filha apertou-me a mão e exclamou: “Olha pai, eu tenho uma amiga que está no Verão.”

Do Millennium bcp para a Guimarães

Paulo Teixeira Pinto

No princípio de 2008 ficou a saber-se que Paulo Teixeira Pinto, ex-CEO do Millennium bcp, saíra da administração do banco uns meses antes, enviado por uma junta médica para a mais dourada das reformas: dez milhões de euros (sim, 10.000.000) do acerto de contas “referente ao exercício de 2007″, mais 500 mil euros de pensão anual vitalícia. Isto no fim de uma ligação profissional à empresa de apenas 12 anos (só um sexto dos quais no cargo de presidente executivo) e depois de deixar o bcp no estado em que deixou.
Escândalos e faltas de pudor à parte, muita gente deve ter pensado em que é que Teixeira Pinto, liberto da pressão da actividade bancária (tão instável por estes dias), iria aplicar o seu tempo e o seu dinheiro. Aos 46 anos, tem de sobra estes dois factores que tanto condicionam — pela falta de um, de outro ou de ambos — a vida dos portugueses normais, afogados em dívidas e numa crise que não abranda. Deixadas para trás as reuniões de accionistas, bem como os cilícios da Opus Dei, a que se dedicará agora Teixeira Pinto? A resposta não deixa de ser desconcertante: à literatura.
Segundo notícia avançada ontem pelo Diário de Notícias, Teixeira Pinto comprou a Guimarães Editores, passando a deter cem por cento do capital. A ideia não é fazer negócio mas criar “uma casa da cultura”, diz o novo proprietário. Até porque “se eu quisesse fazer uma aplicação financeira ou com perspectivas de rentabilização económica escolheria outra área”. Pode por isso ficar descansado Miguel Pais do Amaral: não se prevê a compra de mais editoras ou a criação de um grupo rival da LeYa.
Para já, sabe-se que surgirá em breve um novo logótipo e imagem gráfica, que a linha editorial será mantida no essencial (embora o catálogo passe a incluir obras no campo da “estética”: pintura, fotografia, design e arquitectura), que está prevista a publicação da obra completa de Agustina Bessa-Luís, que a livraria da Rua da Misericórdia vai ser transformada num “espaço mais apetecível” (incluindo cafetaria com acesso wireless à internet) e que a metamorfose da Guimarães estará terminada a tempo da Feira do Livro, dentro de dois meses.
Esta pulsão bibliófila só surpreenderá quem anda muito distraído na leitura da imprensa. Porque o empenho literário de Teixeira Pinto salta à vista, todos os sábados, na dupla página que a revista NS (distribuída com o DN e o JN) lhe concede. Um verdadeiro mimo que começa logo na ironia do nome — Cálculo sem folha — dado àquele generoso espaço de opinião.
E de que fala o ex-banqueiro no seu cantinho? O último número da NS (22 de Março) permite-nos ficar com uma ideia. A rubrica divide-se em três textos, dois aforismos, uma citação (Madre Teresa de Calcutá) e um poema (cá está a ambição literária). Um dos textos aborda uma tela de Berthe Merisot que pode ser vista no Museu de Orsay, outro os dez anos da Ajuda de Berço e o principal, com direito a cercadura, pertence à série “da cor das palavras”. O vocábulo em causa, desta vez, era pobreza, essa “palavra de cor âmbar”. Deixo-vos um excerto:

«Quem mais sofreu na carne a ajuda e sentiu na alma o sofrimento dos pobres extraiu uma conclusão definitiva. A qual sempre me impressionou. E essa confessa-se da maneira mais simples que é possível. Assim: o que seria dos pobres se não fossem os pobres!
De tão comum que é, até parece (quase) normal que sejam precisamente aqueles que menos possuem que, por norma, sejam também os mesmos que sempre se provam dispostos a dar. Dir-se-á que tal se há-de justificar pela presunção segundo a qual quem tem pouco, pouco valor lhe há-de dar também. Não me parece. Creio mesmo que é por terem mesmo muito pouco que os pobres reconhecem um valor extraordinário a essa pequena parte que é a sua. E que é exactamente por lhe conferirem a tal importância que os pobres se dispõem a ajudar aqueles que ainda têm menos. Talvez isto seja pouco lógico à luz dos critérios de racionalidade económica — mas faz todo o sentido segundo os ditames da generosidade.»

Convém não esquecer: esta defesa da generosidade dos pobres — feita numa prosa confusa, mal articulada e reveladora de um péssimo domínio da língua portuguesa (o que é isso de sofrer na carne uma ajuda?) — vem assinada pelo ex-CEO que não teve pejo em receber os tais dez milhões de euros, mais a pensão vitalícia. Depois disto, estou mortinho para saber qual é, para Teixeira Pinto, a cor da palavra hipocrisia.
Já os aforismos revelam o mais inesperado dos filósofos.
Ora aqui está um:

Nós e os Nos
O que faz de cada um de nós um indivíduo é exactamente ser in-dividuo, ou seja, não divisível, uno e único

O outro não lhe fica atrás:

do estado do tempo
Atenção: em cada vida, há sempre múltiplas vidas, mas cada homem é ainda e sempre o mesmo desde o primeiro sorvo de ar até ao último sopro sob os ossos

Esqueçam Pascal. Esqueçam Spinoza. Isto é que é profundidade de pensamento. Repararam na subtileza daquele “último sopro sob os ossos”? Não foi sobre os ossos, não foi à volta dos ossos, não foi entre os ossos, foi mesmo por baixo dos ossos. Até me arrepiei.
Mas o poema consegue ir ainda mais longe:

lado reverso

pensar
e não sentir

sentir
e não saber

saber
e não perceber

perceber
e não dizer

dizer
e não poder

poder
e não conseguir

conseguir
e não perecer

perecer
e viver

Esqueçam Pessoa. Esqueçam Sophia. Eis o Bardo que nos fazia falta, o nosso Wallace Stevens. O único poeta que escreve poemas, todas as semanas, na imprensa portuguesa.
Se isto não é um sinal do fim dos tempos, anda lá perto.

“Para dedicarmos um livro, é preciso que ele seja dedicável”

Na mouche, a crónica de Pedro Lomba sobre o dilema das dedicatórias.

Teaser

A modelo e actriz Inês Castel-Branco lê uma passagem do romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro, de Pedro Paixão (Bertrand). O lançamento do livro acontecerá no dia 2 de Abril, às 18h30, na livraria Bertrand do Chiado.

20 pinheiros mansos

A Livrododia, de Torres Vedras, está a dar um bom exemplo, ao tornar-se a primeira editora portuguesa que compensa, com a plantação de árvores, as emissões de CO2 resultantes da produção dos seus livros. O gesto ecológico inicia-se hoje e o novo miradouro situado na estrada Torres Vedras/Serra da Vila, na entrada Sul da cidade, vai ganhar 20 pinheiros mansos.
Parabéns Luís Filipe. E vamos lá ver se os grandes grupos editoriais que se formaram recentemente, com muito mais meios e responsabilidades do que a Livrododia, se lembram de seguir os teus passos.

Lembrete

Logo à noite, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa acolhe mais uma sessão dos “Livros em Desassossego”. Tema: os limites e obrigações da crítica literária. Convidados: Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia e o autor deste blogue. Moderação: Carlos Vaz Marques. Na mesa, estarão ainda Nuno Júdice, para apresentar o seu novo livro de poesia (A Matéria do Poema, Dom Quixote), e a editora Maria da Piedade Ferreira (Oceanos), que falará de três livros recentes que gostaria de ter publicado.

‘Labirinto de letras’

labirintohatherley.jpg

Eis um belo exemplo da poesia visual de Ana Hatherly, autora que celebra este ano cinco décadas de carreira literária e que publicou recentemente, na &Etc, um livrinho provocador e irónico, onde prova que não se deixou amolecer pela consagração (lá iremos ao livrinho, lá iremos).
A Biblioteca Nacional dedica-lhe uma mostra evocativa, até 5 de Abril.

[Imagem encontrada aqui]

Cena 3

«O HIPNOTIZADOR e o PAI estão de pé lado a lado. Lêem os dois de papéis na mão.

HIPNOTIZADOR Aquele fim de tarde. Crepúsculo.

PAI Aquele fim de tarde.
Ver a Claire a sair — o walkman ligado, as pautas enfiadas num saco. Cinco minutos a pé para a lição.

HIPNOTIZADOR O meu percurso era este. Uma festa de alguém que fazia 50 anos num pavilhão desportivo. Tive de telefonar a desmarcar. Disse que tinha havido um acidente, não dei pormenores.

PAI Aquela noite. Aquela noite tem uma cor, uma sensação ao tacto e um som. A Dawn tinha voltado. Esperámos pela Claire para jantar. A Marcy estava a ver os Simpsons.
Azul. Esperámos para jantar em azul. Tocámo-nos ao de leve em cinzento-ardósia. Olhámos para os relógios em amarelo.

HIPNOTIZADOR Eu estava a conduzir um Renault Laguna Estate. 1,6 Litros. Bom carro. Bons travões. ABS. Airbags. Lá atrás, colunas, mesa de som, microfones, figurinos. Tinha os faróis ligados. Novembro.

PAI Roxo. As nossas pulsações aceleraram em roxo. Telefonámos à professora de piano em castanho. Ficámos com um nó no estômago em verde. O polícia avançou pelo carreiro em cinzento. Vimo-lo da janela em cor-de-laranja. Tirou o chapéu em dourado. Branco. Os joelhos da Dawn cederam em branco.

HIPNOTIZADOR Este é o ponto no mapa. Esta é a referência na grelha do Instituto Geográfico. Esta é a curva na estrada. Estas são as folhas junto ao passeio.

PAI A morte. A morte entrou para o hall. Pôs o capacete no banco do piano, falou connosco em prateado. Proferiu depois dois blocos de cimento em preto e deixou-os pendurados na minha caixa torácica, a fazerem-me pressão nos pulmões. Ainda hoje lá estão. Há pouco tempo perguntei à Dawn se ela achava que eu devia ir ao médico e marcar uma operação para os tirar. “Onde é que está o meu homem?” gritou ela. “Para onde é que foi o meu marido, foda-se?”

HIPNOTIZADOR Estas são as linhas amarelas, as linhas brancas. Esta é a qualidade da luz. Esta é a árvore junto à berma. Esta é a vista do Norte. Esta é a vista do Sul. Esta é a minha mão, que vai buscar um cigarro. Por um segundo. Um segundo a 57, 58, 59, 60. Vinte metros. Ao crepúsculo. Esta é a rapariga. O walkman ligado. Música de piano. A caminho da lição.

Ouve-se o Bach, depois pára.

Ouve-se o Bach. O HIPNOTIZADOR fornece as seguintes instruções ao PAI:

“Fantástico. Excelente. Vem para aqui. Vamos voltar àquele momento em que eu estava de joelhos e continuamos a partir daí. Vou buscar mais um bocadinho de texto.”

O HIPNOTIZADOR vai buscar o texto apropriado.

“Agora trabalhamos juntos. Representamos juntos. Começamos quando a música parar.”

Continua a ouvir-se o Bach.

[Terceira cena de Um Carvalho, de Tim Crouch, editada juntamente com INGLATERRA, uma peça para galerias, do mesmo autor, na colecção Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos). Textos traduzidos por Francisco Frazão.]

Refutação astrológica

capa livro JCF

O que está escrito nas estrelas
Autor: José Carlos Fernandes
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-8955-51-9
Ano de publicação: 2008

Aos 43 anos, José Carlos Fernandes ocupa, por mérito próprio e falta de “rivais” à altura, um lugar absolutamente central no panorama da Banda Desenhada portuguesa. Com mais de trinta trabalhos editados desde o opus 1 (Controlo Remoto, 1993), JCF consegue publicar muito sem pôr em causa a qualidade final dos seus livros, numa espécie de voragem que o aproxima de outro mestre da prolixidade profícua: Gonçalo M. Tavares. Para lá das óbvias diferenças, em ambos assistimos à criação de uma obra tendencialmente infinita (com vários ramos, ou séries), obra em contínua expansão, como que nascida de uma máquina ficcional imparável e cuja verdadeira magnitude ainda está, num caso como no outro, por determinar.
Consciente do seu traço pouco dúctil e tecnicamente limitado, JCF apostou, desde os primeiros livros, no engenho dos argumentos e numa escrita de grande perfeição estilística. A sensação com que se fica é a de que as suas histórias valem por si mesmas; existirem na forma de pranchas ilustradas não passa de uma casualidade. Pode mesmo afirmar-se que em JCF a palavra vem sempre antes do desenho e o ficcionista se sobrepõe ao autor de BD, o que não impede que algumas das suas criações sejam modelos do que a nona arte pode e deve ser. Um exemplo: os seis volumes da celebrada série “A Pior Banda do Mundo”.
Depois de publicar, em 2004, A última obra-prima de Aaron Slobodj (talvez o mais brilhante e radical dos seus livros, sobre a arte enquanto forma de destruição) e de inagurar as Black Box Stories, em 2006, com o belíssimo Tratado de Umbrografia (seis narrativas ilustradas por Luís Henriques), JCF acaba de interromper a sua ligação à Devir, lançando O que está escrito nas estrelas [Anos I & II] na Tinta-da-China, editora que assim se estreia muitíssimo bem no universo da BD, ao fazer deste volume um exemplo de bom gosto e esmero gráfico.
Muito ao seu jeito, JCF recorre ao humor cáustico e às referências eruditas para negar e subverter os supostos princípios divinatórios da Astrologia, oferecendo-nos “um horóscopo de assombroso rigor científico, elaborado com base na sabedoria milenar dos magos caldeus, dos druidas de Stonehenge e dos sacerdotes-astrónomos de Chichén Itzá, aliada às mais modernas observações do telescópio Hubble e à capacidade de cálculo dos computadores do CNRS”. Os dois conjuntos de 12 textos, cada um relativo a um mês, são supostos fragmentos dos cadernos de um José Carlos Fernandes imaginário (1911-1964), cientista que teria trocado “a bata de laboratório por um manto de mago, os manuais de bioquímica pela Cabala e a tabela periódica pelo Zodíaco”, criando um sistema capaz de prever acontecimentos futuros: a queda da cadeira de Salazar, a morte da princesa Diana, o 11 de Setembro, a conversão de Tom Cruise à Cientologia e até mesmo a “breve passagem de um comediante involuntário pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal”.
Os fragmentos propriamente ditos são microcontos irónicos, macabros, nihilistas, melancólicos ou líricos, pequenas prosas cheias de golpes verbais, beleza rude e lições de moral incerta, cujo tom crepuscular se reflecte nas soberbas gravuras de página inteira que as acompanham.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Profissão: leitor

Em cinco dias, 509 + 423 = 932 páginas. Embora não transpire uma só gota de suor, há alturas em que me sinto o homem da maratona.

Ora deixa cá ver que t-shirt gostava de vestir hoje

Hmmmm, talvez esta:

t-shirt Pessoa

O desenho heteronímico, criado por sofisma, ganhou o último concurso do site mangacurta.com. À atenção de Inês Pedrosa.

And they keep coming

Os bons blogues colectivos, quero dizer. Como este, onde se juntam seis bloggers de grande gabarito: Alexandre Borges, João Bonifácio, Nuno Costa Santos, Nuno Miguel Guedes, Pedro Marques Lopes e Pedro Vieira. Chama-se Sinusite Crónica e acho que a coisa não passa nem com doses industriais de Aspirina B.

Nova editora + nova chancela

bruaa.jpg

A Bruaá promete barulho e silêncio ao mesmo tempo. É uma novíssima editora direccionada para o público infanto-juvenil, de grafismo cuidado e criteriosa nas escolhas: o primeiro livro que publicam é o clássico A Árvore Generosa, de Shel Silverstein. Também tem um blogue.

Livros de Seda

Quanto à Livros de Seda, a nova chancela da editora Plátano, aposta exclusivamente no segmento feminino. Por norma sou avesso às distinções de género, tanto na vida como na literatura (alguém me explica o que é um romance para mulheres?), mas neste caso prometo dar o benefício da dúvida, até porque uma das primeiras obras do catálogo é do Moacyr Scliar.
Os consultores do projecto foram os muito activos e profissionais Booktailors.

Uma excelente notícia

A edição on-line do Público decidiu ligar-se directa e assumidamente à blogosfera. Ganha o jornal, ganham os blogues, ganham os leitores. Ganhamos todos.

Três histórias minúsculas de José Carlos Fernandes

ABRIL

Abril, já dizia o Poeta dos Três Leopardos Brancos, é o mais cruel dos meses. Para lhe sobreviver é preciso ser mais cruel ainda: magoe profundamente a pessoa de quem mais gosta.

jcf_abril.jpg

JULHO

Já Julho é um mês propenso a descalabros. Desfaça-se quanto antes das acções que adquiriu com base em recomendações insensatas, afaste-se de torres, campanários e miradoiros, evite subir escadas e escadotes, mesmo que seja para uma operação aparentemente tão inócua como substituir uma lâmpada fundida. Claro que as viagens aéreas são vivamente desaconselhadas. Mais vale permanecer com os pés firmemente assentes na terra até que comece um novo mês. Nem os que possuem asas estarão a salvo da força da gravidade, pois o calor excepcional que se fará sentir alterará drasticamente a consistência da cera.

jcf_julho.jpg

AGOSTO

Se adormecer ao som da água corrente, poderá ver-se mergulhada num estranho sonho: está suspensa no oceano, a algumas dezenas de metros de profundidade; abaixo, muito abaixo, por entre o negrume, cintilam miríades de pontos luminosos que se movem sem cessar. Um peixe-lua aproximar-se-á e explicará «são os peixes abissais, que esperam, esfaimados, por uma presa», «não gosto deste sonho, quero acordar», «para isso é necessário que me beijes», responderá o peixe. Ansiosa por sair daquele sonho inquietante, assentirá (os lábios do peixe-lua serão inesperadamente quentes e suaves), porém, nada acontecerá: continuará a pairar no oceano. Do peixe-lua, nem rasto. Lá em baixo, as luzes parecem agora mais próximas.

jcf_agosto.jpg

[in O que está escrito nas estrelas [anos I & II], Tinta-da-China, 2008]

Clarke e Claus

Durante esta semana desapareceram dois escritores muito diferentes: no estilo, nos temas e na escala das respectivas obras. O britânico Arthur C. Clarke (1917-2008) e o belga flamengo Hugo Claus (1929-2008).
O primeiro era obcecado com o infinitamente grande (os mistérios do universo) e tão visionário que inventou uma fronteira, o ano 2001, a que chegámos muito aquém do que ele imaginara. Morreu na plena posse das suas faculdades, lúcido e depois de terminar o que sabia ser o seu últimpo opus.
O segundo era obcecado pelo infinitamente pequeno (a identidade da Bélgica) e estabeleceram-lhe um objectivo inalcançado, o Nobel. Morreu na plena posse do seu livre arbítrio, porque ao ver-se destruído pela doença de Alzheimer pediu que lhe encurtassem o sofrimento através da eutanásia.

Hoje no CCB

Um dia depois do Dia (por causa da Sexta-Feira Santa), o Centro Cultural de Belém, em parceria com o Plano Nacional de Leitura, decidiu abrir portas à poesia. Houve leituras, conferências, videowalls, exposições, feira do livro, ateliês para miúdos e graúdos, etc.
Por razões compreensíveis, uma com três anos e outra com ano e meio, fui parar à mais distante das salas, onde se contavam histórias infantis e havia letras espalhadas pelo chão:

dp_ccb1.jpgdp_ccb.jpgdp_ccb2.jpg

A poucos metros de distância, penduravam-se versos na corda como se fossem roupa:

dp_ccb4.jpgdp_ccb5.jpg

As palavras estavam por todo o lado:

dp_ccb31.jpgdp_ccb7.jpg

Até nas árvores:

dp_ccb6.jpg

E agora algumas palavrinhas de Wislawa Szymborska

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

[in Alguns gostam de poesia, antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, 2004]

Dia Mundial da Poesia

Just read it.

A edição lá fora

Teresa Cremisi, administradora da Flammarion, fala das transformações do ofício de editor no programa ParlonsNet, durante o Salão do Livro de Paris:


ParlonsNet n°4 Teresa Cremisi PDG Flammarion MétierEditeur
Colocado por FranceInfo

[Sugestão de Shyznogud]

LeYa menos

Era previsível. Enquanto grupo, a LeYa só arranca no final do mês, mas as deserções já começaram. Se a transferência de Francisco José Viegas para a Bertrand se compreende, uma vez que vai dirigir a partir de Maio a revista Ler, do grupo Bertelsmann/Círculo de Leitores (evitando assim conflitos de interesses), já a saída de Manuel Alberto Valente, um dos melhores editores portugueses (editor-editor, a sério, para quem a literatura é muito mais do que um negócio), representa um sinal claro do que aí vem.
Valente escreve a meias com Viegas na blogosfera. Ao contrário deste, ainda não explicou as suas razões. Nem precisa. Qualquer pessoa com dois dedos de testa adivinha quais foram e sabe que não auguram nada de bom.

Anatomia do Homo hispanicus

capa_goytisolo.jpg

Espanha e os Espanhóis
Autor: Juan Goytisolo
Título original: España y los Españoles
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: 90º
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-8964-08-5
Ano de publicação: 2008

Considerado um dos mais importantes escritores espanhóis vivos, Juan Goytisolo (n. 1931) traz consigo, há mais de meio século, as marcas do exílio. Feroz opositor de Franco, mudou-se em meados da década de 50 para Paris, onde foi leitor da Gallimard e conheceu Monique Lange, companheira a quem cedo revelou a sua homossexualidade e ao lado de quem ficou até à morte desta, em 1996. Desde então vive em Marraquexe, onde já passava parte do ano, continuando a criticar de forma contundente — à distância, do Café France, na praça Jemaa el Fna — os rumos seguidos pela sua pátria e pelos seus compatriotas.
Espanha e os Espanhóis, publicado em 1969 por uma editora alemã, devido à proibição dos seus livros pelo regime franquista, é um conjunto de textos que, segundo Ana Nuño, “se situa na trajectória do escritor e do intelectual como uma espécie de Jano bifronte”. Ao mesmo tempo que antecipa temáticas futuras, desenvolvidas tanto nos seus trabalhos ensaísticos como na obra ficcional, Goytisolo lança um olhar para o passado, tentando compreender as raízes e especificidades do “caso espanhol”, à luz dos princípios historiográficos de Américo Castro.
O que se tenta desfazer aqui é o mito de uma falsa espanholidade, tão essencialista que funcionaria retrospectivamente, fazendo de Séneca um “andaluz” e de Marcial um “aragonês”. No centro desse mito que perdurou durante séculos, impondo-se até nas regiões que nunca chegaram a “castelhanizar-se” por completo, está o cavaleiro cristão, figura ideal da “casta militar de Castela”, um paladino de Deus que despreza as coisas materiais, estóico, honrado e cioso da “pureza” do seu sangue. Ele é o símbolo da Espanha nascida no final do século XIV, quando os Reis Católicos conquistam o último reino mouro da Península e assinam o édito de expulsão dos judeus, pondo fim a vários séculos de convivência entre as três civilizações.
A partir desta “tragédia”, desta “ferida aberta” e nunca cicatrizada, inicia-se o fechamento de Espanha sobre si mesma, num processo que conduzirá, após um período de ilusória grandeza e expansão colonial, à decadência progressiva do país, tanto nas áreas científicas como artísticas, bem como ao atraso na implantação de uma burguesia capaz de tomar as rédeas da economia (algo que também aconteceu em Portugal). Depois de desconstruir a imagem do Homo hispanicus de matriz cristã-velha, oscilando entre “a façanha e a imobilidade”, Goytisolo analisa o modo como este paradigma foi sendo reforçado ou questionado, através da literatura (Quevedo, Cervantes, Unamuno), da pintura (Goya) ou dos olhares estrangeiros (Borrow, Hemingway, Brenan), culminando na súbita “mudança de mentalidades” que se dá na década de 60, quando o duplo efeito da ida para fora (emigração) e da chegada de estrangeiros (turismo de massas) arranca o povo espanhol do seu marasmo.
Este livro que Espanha só conheceu em 1979 (é dessa época o último capítulo, expectante e pessimista quanto à transição democrática em curso), apesar de datado, mantém intacta a lucidez da sua visão crítica.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Crianças indefesas contra um calafrio

«Era triste a atmosfera na sala do piano. Apenas tinham acendido um candeeiro, o que iluminava o cadeirão onde se encontrava Susan. Cinthia, Julius, Santiaguito e Bobby, elegantíssimos, enchiam um sofá que permanecia na penumbra. Fora, no corredor, os empregados sussurravam, como que deixando sentir a sua participação em tanta tristeza; calavam-se, e a ausência das suas vozes deixava as crianças indefesas contra um calafrio, pele de galinha no que dizia respeito à pobre Susan, muda; voltavam a começar, e os seus murmúrios eram como breves, frágeis pausas dum silêncio acumulado e total, um silêncio que gritava o seu nome, que avançou um pouco ou que se deteve ainda mais quando soaram as dez badaladas da noite num relógio, noutro salão, triste e obscuro também, porque no dia em que Cinthia partiu, desde o entardecer, as divisões do palácio tinham-se ido convertendo em vasos comunicantes de tristeza e profundidade. Vasos enormes como lagos para onde agora gotejavam lenta, desesperadamente, um por um, os tic-tac tic-tac tic-tac, meia hora mais para a partida; eles escutavam mudos, imóveis como o enfermo húmido de febre que descobre o caminho do sono na respeitosa aceitação da insónia, na mais atenta contabilidade das gotinhas duma torneira mal fechada, “esta noite não durmo, lixei-me”, diz e conta.
Assim, eles não se apercebiam que as malas iam passando para o Mercedes cor de ginja, lá fora, na noite. Susan suspirou funda, profundamente. A triste notícia tinha-a surpreendido numa época de particular beleza, de total elegância, e agora parecia um cisne ferido navegando, ou melhor, deixando-se levar pelo vento para uma margem que talvez alcançasse ao tocar o telefone para ela. “Pelo menos tu tens com que matar o tempo”, pensou Santiago, ao vê-la sair para o ir atender. Os serviçais aproveitaram a sua ausência, iam entrando em pontas de pés, Nilda diante, os outros seguiam-na, parece que ela ia falar por todos, Cinthia, Cintita, o resto não o sabiam dizer.»

[in Um Mundo para Julius, de Alfredo Bryce Echenique, trad. Miranda das Neves, Teorema, 2008]

Outro escritor na Cinemateca

Pedro Mexia

A nomeação do Pedro Mexia para subdirector da Cinemateca Portuguesa parece-me uma excelente notícia. E digo-o — não escondendo ser seu amigo — apenas porque estou certo de que fará um excelente trabalho no velho casarão da Rua Barata Salgueiro.
O Pedro é provavelmente o melhor crítico literário português sub-40, um notável poeta, cronista e blogger, um intelectual sólido com uma cultura abrangente e, sobretudo, alguém que não se limita a reflectir o air du temps, antes o analisa, critica, pensa. Além disso, é um cinéfilo na verdadeira acepção do termo: alguém que ama o cinema. Nunca esquecerei as muitas tardes que passei com ele, numa tertúlia de amigos, a discutir Scorsese, Ozu, Bergman ou Rohmer. É verdade que do seu currículo consta a tradução de um livro de Bresson (Notas sobre o Cinematógrafo) e vários anos de crítica cinematográfica no Diário de Notícias, mas a mim bastava-me a sua cinefilia para compreender e saudar o convite que lhe fez Bénard da Costa. Mais: se a ideia era escolher alguém que não fosse do meio, alguém exterior à teia de interesses e capelinhas que envolvem o cinema português, olho à volta e não vejo outra figura que melhor possa cumprir esse papel.
Uma palavra ainda para o novo ministro da Cultura. Ao nomear Pedro Mexia, um opinion maker que nunca escondeu o seu alinhamento ideológico com a direita conservadora, José António Pinto Ribeiro mostra a sua abertura, a sua independência política e a sua inteligência estratégica. Porque se quiser realmente, como afirmou logo de início, “fazer muito com pouco” (os míseros 0,4% do Orçamento do Estado), tem que chamar ao serviço público as pessoas mais capazes e não os eventuais boys que se ponham a jeito para os lugares.
Estão ambos de parabéns, o Pedro e o Ministro.
Agora mãos à obra.

Intermitências

Se há estatuto ingrato, hoje, é o de freelancer. Pelo menos em Portugal. Teoricamente, o trabalhador a recibos verdes deve receber mais do que um trabalhador por conta de outrém, para compensar o risco da precariedade e os vários descontos obrigatórios (IRS, Segurança Social). Mas da teoria à prática, já se sabe, vai um abismo. O tempo é de vacas magras e de pagamentos não menos esquálidos (sobretudo se comparados com o que se pagava, na comunicação social, durante a década de 90). Um profissional independente tem hoje de trabalhar muito mais para ganhar o mesmo e, se por acaso se queixa, ainda o olham de lado, como quem insinua que atrás da porta estarão, no mínimo, centenas de estagiários, ex-estagiários ou eternos estagiários dispostos a bulir o que for preciso, à borla ou quase.
Resumindo, a liberdade do freelancer é muito relativa, uma vez que se vê obrigado (na maioria dos casos, como o meu) a multiplicar as suas fragmentárias fontes de rendimentos. Em vez de um emprego certo, tem vários trabalhos incertos. E uma lista de prioridades, deixa cá ver o adjectivo, tramada. Sim, tramada.
Tudo isto para dizer que as intermitências deste blogue, hélas, vão continuar a acontecer mais vezes do que eu gostaria que acontecessem. C’est la vie.

Chavetas, parêntesis rectos, parêntesis curvos

estante (entre parêntesis)

[via Blogtailors, que descobriram a genial prateleira aqui]

Três micro-contos de Rui Manuel Amaral

O bibliotecário

Sempre ao fim da manhã e também ao fim da tarde, o bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas, com gestos ternos e profissionais. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, procura então colocar cada volume na posição mais cómoda, alinhando a lombada com as restantes lombadas da mesma estante. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.
No entanto, e apesar do cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua meticulosa tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia.
O bibliotecário ouve-os falar e dá conta de tudo. Mas tanto se lhe dá porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama-os apaixonadamente com todas as suas forças. Os livros, porém, não se deixam comover por estas demonstrações de afecto. Escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os de medicina escondem-se sob as capas dos de teologia, e assim por diante.
Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi clássicos da poesia puxarem-lhe a língua, cuspirem-lhe na cara, chamarem-lhe falso Judas e lambe-cus. Felizmente, são dos menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas escandalosamente azuis ou desmesuradamente grandes, raras são as vezes em que saem do lugar. Por isso, o ódio cresce a cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.

Os autocarros

De algum tempo a esta parte, dir-se-ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá-los com um romance muito lindo de…*

* Trata-se, de facto, de um romance muito lindo no qual se conta a história de três homens que decidem fazer uma viagem de barco, durante 15 dias, através do lago Léman. Obviamente, não sou tolo ao ponto de dizer o título.

Gregor Samsa

Um dia, Gregor Samsa decidiu visitar uma cigana famosa para que esta lhe lesse a sina.
A cigana pousou os dedos sobre a palma da mão dele e, depois de um breve prefácio de “huns” e “hans”, disse:
— Caro senhor, prepare-se. Em breve, vão crescer-lhe guelras e barbatanas.
Gregor Samsa considerou as palavras da cigana muito justas e sábias. Pagou e saiu.
Mais tarde, tentou reaver o dinheiro. A cigana, porém, mandou dizer pela secretária que não falava com insectos.

[in Caravana, Angelus Novus, colecção Microcosmos, 2008]

Mais dois teasers (desta vez feitos pela editora Angelus Novus)

Um mais directo (leitura em voz off do micro-conto Possibilidade de aguaceiros):

Outro mais elíptico (a jogar com um conhecido adágio):

O livro intitula-se Caravana e é a estreia literária de Rui Manuel Amaral.

Editores da escola anglo-saxónica

Aqueles que mexem no texto, discutem com os autores, apontam o dedo quando é preciso apontar, cortam quando é preciso cortar, apresentam alternativas, sugerem soluções e procuram melhorar os manuscritos que lhes chegam em bruto, para bem de quem os escreveu e de quem os há-de ler. Joana Gorjão Henriques foi à procura deste espécimes raros por cá, numa excelente reportagem publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público. Histórias concretas: Vítor Silva Tavares/Alberto Pimenta (o binómio heteredoxo), Francisco José Viegas/Francisco Camacho (o desafio entre jornalistas) e Maria do Rosário Pedreira/José Luís Peixoto (a descoberta merecida).

Lídia Jorge na ‘Lire’

lidiajorge.jpg

André Clavel, o crítico da Lire que elogiou Saramago no número de Fevereiro da revista, volta a abordar um romance português na edição deste mês: Nous combattrons les ombres (Combateremos a Sombra), de Lídia Jorge, traduzido por Geneviève Leibrich para a Métailié, mereceu-lhe igualmente três estrelas e comentários como estes:

«Avec Nous combattrons les ombres, la grande dame des lettres portugaises [estará a esquecer-se de Agustina?] continue à égregner sa petite musique lancinante, légère et mélancolique comme un air de fado. (…) De pièges en tentations, ce prisonnier des ombres [Osvaldo, o psicanalista que protagoniza a história] ne cessera d’être confronté à des combats que le dépassent, dans un monde où s’effacent les frontières entre réalité et illusion. Sur le thème du “mentir vrai”, Lídia Jorge est intarissable, et sa prose crépusculaire nous envoûte.»

Marcar na agenda

No próximo dia 27, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa acolhe mais uma sessão dos “Livros em Desassossego”. Tema: os limites e obrigações da crítica literária. Estarão presentes Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia e o autor deste blogue, numa conversa moderada por Carlos Vaz Marques. Na mesa, sentar-se-ão ainda Nuno Júdice, para apresentar o seu novo livro de poesia (A Matéria do Poema, Dom Quixote) e a editora Maria da Piedade Ferreira (Oceanos), que falará de três livros recentes que gostaria de ter publicado.

Apocalipse menor

capa 'O quase fim do mundo'

O quase fim do mundo
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 382
ISBN: 978-972-20-3525-5
Ano de publicação: 2008

Um dia aconteceu aquilo, a “coisa”, uma “luz intensa, como um flash num céu azul”, sopro de morte a varrer do planeta Terra todos os vestígios de vida animal. Todos, não. Como que por milagre, há quem sobreviva ao súbito desastre, uma espécie de dilúvio do Antigo Testamento mas sem água. Simba Ukolo, médico na imaginária Calpe (dois milhões de habitantes, algures na África Central, perto do Equador), é um dos sobreviventes. De regresso a casa após uma campanha de vacinação, encontra a cidade vazia: automóveis abandonados na rua, um silêncio absoluto, roupas caídas no solo a marcar o sítio onde as pessoas se volatilizaram. A primeira reacção é de pânico; depois chega a certeza de que enlouqueceu. A caminho do hospital, onde tenciona entregar-se aos cuidados de um psiquiatra, pára numa dependência bancária de portas abertas e só então esbarra na realidade. Ou seja, encontra Geny, senhora já entradota, seguidora de uma religião particularmente rígida (a dos Paladinos da Coroa Sagrada), no momento em que os dois se entregam à pouco edificante tarefa de «levantar» dinheiro à borla.
É a partir deste encontro entre náufragos, diametralmente opostos em tudo, mas ambos capazes de violar interditos sociais numa situação-limite, que se começa a estruturar a narrativa do último romance de Pepetela, arremedo de parábola pós-apocalíptica que questiona, por reductio ad absurdum, o estado da Humanidade nos tempos que correm. Para isso, o escritor cria uma pequena tribo de sobreviventes: ao médico e à fanática cristã juntam-se um ladrão pacífico, um pescador agora sem peixes para pescar (a fauna desapareceu quase toda), uma jovem historiadora somali, uma americana que passava meses na selva a estudar gorilas, um electricista nascido no sopé do Kilimanjaro e um sul-africano branco, segurança numa mina de diamantes com pinta de mercenário; entre outros.
O suhaili é a língua franca e eles vão-se conhecendo, confrontando, unindo, desunindo, resolvendo situações, acasalando, medindo forças e conjugando vontades ao sabor de uma dinâmica de grupo algo coxa — já que seriam de esperar, em circunstâncias tão precárias, muito mais conflitos. É notório que Pepetela gosta das suas personagens, às quais atribui por vezes o papel de narrador, cuida bem da prosa (apesar de algumas flutuações estilísticas) e sabe manter o ímpeto do enredo, mesmo se com uma explicação pouco plausível para o grande mistério, simbolicamente encontrada nas Portas de Brandenburgo, em Berlim, ao melhor estilo dos filmes de série B. O pior, porém, são as sistemáticas entorses na verosimilhança (a forma ultra-rápida como Jude aprende a pilotar aviões, por exemplo, ou a manutenção do fornecimento de electricidade em cidades desertas, vários meses após a catástrofe) que nem as liberdades do pacto ficcional conseguem justificar.
Já as reflexões que atravessam as longas conversas filosóficas do grupo, sobre o passado colonial, as diferenças étnicas impostas, o peso da História, a “fortaleza de Schengen” ou o regresso final às origens (para um novo começo da Humanidade a partir do seu antigo berço), conversas que ocupam grande parte do livro, raras vezes ultrapassam a superficialidade das evidências e e dos lugares-comuns.

Avaliação: 6/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

“O livro pediu para parar ali”

O Diário de Notícias publica hoje, nas suas páginas centrais, uma entrevista de Isabel Lucas a Pepetela. Começa assim:

«Quando terminou o romance Os Predadores disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?
Foi diferente. Este livro foi um jogo, espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei, pensei: “Isto até dava mais umas 800 páginas.” Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?
O livro estava a pedir-me para parar ali.»

Continue a ler no site do DN.

Trailer do novo romance de Pepetela

O investimento na promoção online das novidades editoriais é cada vez maior em Portugal. Depois dos notáveis e precursores clips da Livros de Areia, é a vez de uma grande editora como a Dom Quixote apostar em pequenos filmes sobre os seus livros, colocados no YouTube. Será isto um vislumbre da futura estratégia de marketing das chancelas da LeYa?
Deixo-vos, como exemplo, o trailer do novo romance de Pepetela, O quase fim do mundo, neste momento a chegar às livrarias e com lançamento marcado para amanhã, na Fnac do Colombo (18h30):

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges