Capítulo 7

«Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.»

[in O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008]

Canto do cisne

sebald.jpg

Campo Santo
Autor: W. G. Sebald
Título original: Campo Santo
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-695-748-5
Ano de publicação: 2008

Publicado em 2003, quase dois anos após a morte de W. G. Sebald num acidente rodoviário em Norwich (Reino Unido), onde leccionava há mais de três décadas, Campo Santo é um volume que deixará nos admiradores do escritor alemão um travo de melancolia. Isto porque os textos nele reunidos, por muito que reflictam as suas obsessões e o seu estilo singular – feito de subtis questionamentos, sínteses poderosas e derivas tanto geográficas como mentais –, não deixam de ser uma espécie de canto do cisne, o derradeiro legado de um autor que desapareceu, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas.
O livro abre com uma sequência de quatro textos, independentes uns dos outros, sobre a Córsega. Sebald tencionava inclui-los numa obra dedicada à ilha francesa, mas o projecto foi suspenso para a escrita do seu magnum opus (Austerlitz). Na primeira das “prosas”, o escritor cumpre o seu desígnio de explorador dos “abismos sem fim do passado” e deambula por Ajaccio em busca dos traços de Napoleão na cidade que o viu nascer. Não por acaso, Sebald foca-se na visita à Casa Bonaparte, em tempos descrita por Flaubert, um museu onde a grandeza extinta do Império se cristalizou, com os seus mitos e símbolos. Dos objectos mencionados pelo autor de Madame Bovary, “somente a capa imperial com abelhas douradas que ele vira reluzir no chiaroscuro já não estava lá”. O que interessa ao visitante é perceber como era Napoleão antes de ser Napoleão. Ou seja, o vislumbre da História enquanto entidade “que se move e muda de direcção no seu movimento (…) por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível”. No texto que dá título ao livro, um velho cemitério rural torna-se o palco para uma meditação sobre a decadência do culto dos mortos e os perigos de vivermos o “presente sem memória”, enquanto em Os Alpes no mar o tom é de lamento pelo abate progressivo das florestas corsas e pela “febre” da caça, reflexo da “infâmia que é a violência humana”.
A segunda parte do livro compõe-se de artigos, ensaios e discursos que abrangem um vasto arco temporal (a começar na crítica, escrita em 1975, à peça Kaspar, de Peter Handke). Além de analisar a problemática relação da literatura alemã com a destruição do país durante a II Guerra Mundial, Sebald revela-se um leitor muitíssimo atento de autores consagrados (Kafka, Nabokov, Bruce Chatwin) e menos conhecidos (Peter Weiss, Jean Améry). Os melhores textos, porém, são aqueles em que evoca a sua infância em Wertach im Allgäu, nos Alpes bávaros, seja através de uma melodia de clarinete (Moments musicaux), seja através de um jogo de cartas onde as cidades em ruínas, como Estugarda, permaneciam intactas (Uma tentativa de restituição).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Ela está a chegar

flyer_caravana_em_lisboa.jpg

Assentai, ó gentes, nas vossas agendas (uma amostra do livro pode ser lida aqui). Aos mais tímidos, ou a quem partiu uma perna e não pode sair de casa, aconselha-se o inovador serviço de “apresentação ao domicílio”.
Já agora, espreitem também o belo clip promocional da Microcosmos (colecção de micronarrativa da Angelus Novus), com fragmentos manuscritos dos contos mínimos do Rui Manuel Amaral e do Augusto Monterroso espalhados por tudo o que é sítio:

Um poema de Armando Silva Carvalho

Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.

Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.

Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.

Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.

Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.

[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]

Eduardo Mendoza: “Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção”

O escritor Eduardo Mendoza, 65 anos, nome maior das letras espanholas contemporâneas, participou na edição deste ano das Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde lançou o romance Mauricio ou as Eleições Sentimentais (ASA). Nesta entrevista, fala do livro, das suas circunstâncias e da sequela que está a escrever neste momento. Uma sequela que pode ficar pelo caminho, como muitas outras das suas tentativas ficcionais.

eduardo_mendoza1.jpg

Neste último romance, situa como sempre a acção na cidade onde nasceu, Barcelona, mas pela primeira vez num período histórico recente. O que é que o levou a abordar um momento político tão concreto como as eleições autonómicas de 1984, na Catalunha?
Para ser sincero, não sei. Um dia dei comigo a interessar-me por esse momento. Há muitos livros escritos sobre a transição para a democracia, mas ninguém se debruçara ficcionalmente sobre esta fase concreta que foi, para mim, o parêntesis pior da História Contemporânea espanhola posterior ao fim da ditadura. Após um período de alegria e grandes mudanças, começávamos a pagar a factura. A lua-de-mel acabou, deixando-nos perguntas a que não sabíamos responder: “E agora? Para onde vamos?”

Depois da euforia, o choque com a realidade.
Sim. Havia também uma crise económica muito forte, que complicava tudo.

A primeira parte do livro sugere um enredo sobre a política catalã, vista do campo socialista. Mas ao fim de apenas 90 páginas dá-se a derrota eleitoral, face aos nacionalistas conservadores de Jordi Pujol. Daí em diante, o romance muda de foco, centrando-se nos dilemas amorosos de Mauricio, o protagonista. Já tinha prevista esta inflexão quando começou a escrever ou foram as personagens que lhe roubaram a trama?
Não tinha nada previsto à partida, mas quis evitar que esta fosse uma história meramente política. O que me interessava era seguir uma pessoa enquanto ela passa por várias etapas, do entusiasmo ao desencanto. Mas se abordas uma campanha eleitoral, a dimensão política do livro vai estar sempre em primeiro plano. Não há nada a fazer. Aliás, é a mesma coisa se te lembrares de introduzir um homicídio na história: o teu livro converte-se imediatamente num policial. Neste caso, a minha ideia inicial era acompanhar o regresso de um homem à sua cidade. Porque foi isso o que me aconteceu, mais ou menos naquela altura.

Voltou de Nova Iorque, onde foi tradutor na ONU durante quase uma década.
Eu vivia em Nova Iorque e ao voltar a Barcelona encontrei uma situação que não esperava. Nos Estados Unidos e noutros lados ainda se falava da transição espanhola, mas em Espanha ela já tinha terminado.

O livro é também sobre esse culminar de um ciclo, sobre o fim das ilusões quanto a uma mudança mais radical da sociedade.
Claro. Esse desencantamento coincide com a emergência de uma geração mais jovem do que a minha, uma geração que muda de vida enquanto o país vai mudando. A evolução de Espanha coincide com a sua, na passagem da juventude à maturidade. Era esta a geração que me interessava descrever.

Descreve-a com um olhar clínico, onde outros teriam um olhar cínico.
Não quis fazer julgamentos. Se escrevo livros, é para desenhar um panorama, ver o que se passa. Habituei-me a viajar com um caderno e um lápis. Eu não tenho um grande traço, não sou um artista plástico, mas acho que me safo menos mal. E gosto do exercício de esboçar no papel as realidades com que deparo. Ao desenhar, observas coisas que à vista desarmada te escapariam. E com a escrita passa-se o mesmo. Tento escrever como desenho, com o mesmo grau de atenção.

Para que não escapem os detalhes, as coisas mínimas?
Precisamente. Não basta dizer como foram as coisas, é preciso explicá-las. E no acto de explicar, tu próprio entendes melhor o que se passou.

eduardo_mendoza2.jpg

O seu protagonista está longe de ser um alter-ego. Quais são as maiores diferenças entre a criatura e o criador?
Creio que Mauricio é demasiado passivo. Eu não era assim. Ele fica à espera que as coisas lhe aconteçam, revela uma atitude expectante. Não sei, talvez eu devesse tê-lo feito menos plano. Acontece que os romances, por natureza, comprimem o tempo. Se as personagens fossem tão complexas e contraditórias como as pessoas reais, os livros não acabariam nunca. Bem, houve quem fizesse quase isso, como Proust…

Em sete volumes.
Pois. É sempre preciso cortar algo e quando se corta, perde-se.

Sendo este um livro passado em Barcelona, como quase todas as suas obras, é interessante verificar que há poucas descrições da cidade. Sabemos que é ali que as coisas se passam, mas Barcelona não se vê. É quase como um estado de espírito das personagens, mais do que uma realidade física.
Eu não queria que fosse um romance sobre Barcelona. O que se passou é que me interessava contar o que realmente aconteceu na cidade durante aquela época, que não era o mesmo que acontecia em Madrid, muito pelo contrário. Durante muitos anos, Madrid foi a cidade burocrática e Barcelona a cidade rica, activa. Mas naquele período isso mudou. Barcelona perdeu importância, devido à crise económica que se seguiu à entrada de Espanha na Comunidade Europeia, uma entrada que a longo prazo trouxe grandes benefícios mas no curto prazo foi problemática. Os preços subiram muito, havia desemprego, o que também contribuiu para a decepção das pessoas. O romance termina justamente quando começa a mudança.

Ou seja, no dia em que a cidade é escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de 1992.
Tendo esse projecto em mira, Barcelona deixa de ser uma cidade industrial para se converter numa cidade de turismo, de serviços, de grandes centros de medicina, informática, alta tecnologia. E onde antes havia fábricas, passou a haver complexos habitacionais, uma cidade moderna. Esta transformação, que se deu muito, muito depressa, era outro tema que gostaria de tratar.

Ficcionalmente, a porta está aberta. Ao chegarmos à última página do livro, fica implícito um eventual casamento entre Mauricio e Clotilde, com tudo o que isso implica. Os seus leitores podem esperar uma sequela, qualquer coisa como Mauricio e as Olimpíadas?
(Risos) O título é prematuro, mas sim, já estou a avançar numa continuação, embora não saiba ainda o que lhe vai acontecer. Eu começo muitos romances que depois ficam pelo caminho. Este é suposto passar-se dez anos mais tarde, em 1996. Mauricio e Clotilde casaram e Barcelona já mudou. Têm filhos e veremos o que lhes acontece.

A escrita corre-lhe bem?
Não, neste momento estou sem saber o que fazer. E entretanto escrevi outra coisa, uma novela.

Quando é que sabe que um romance vai mesmo até ao fim?
Isso é terrível. Nunca. Nunca sei. Às vezes, depois de terminar um livro que me consumiu quatro anos de trabalho, fico sem saber se o devo publicar ou destruir. É nessas alturas que peço ajuda à minha mulher ou a alguns amigos. Mas antes de estar concluído, nunca mostro nada a ninguém. Guardo o texto à chave.

Essa incerteza não o angustia?
Muito. Muitíssimo. Por isso peço a opinião dessas pessoas próximas. Às vezes dizem-me que sim, outras que não. E o mais normal é que digam: “esta parte está bem”, “aquele capítulo ficou grande demais” ou “isto não se percebe”.

Acolhe essas opiniões?
Sim. E volto a escrever. Mas aí já é um processo rápido. Outro motivo de angústia tem a ver com este desfasamento: o que o escritor levou vários anos a escrever, é julgado pelo leitor de uma só vez, em dois ou três dias. Sinceramente, considero um milagre o livro manter sempre o mesmo nível, porque um dia acordas optimista, noutro estás deprimido ou doente, umas vezes estás em casa, outras em viagem. Às vezes é difícil que o livro não registe tamanhas oscilações.

eduardo_mendoza3.jpg

O humor e o sarcasmo são marcas do seu estilo e este romance não foge à regra.
Muitas vezes me perguntam porque recorro ao humor nos meus livros e a verdade é que não há nenhuma razão. Se fosse japonês, escreveria de outra maneira. Se fosse uma mulher, também. Sou como sou e por isso escrevo como escrevo.

Alguns dos episódios mais divertidos de Mauricio ou as Eleições Sentimentais ocorrem em sessões de esclarecimento do PSOE catalão. Frequentou na altura esse tipo de acções de campanha?
Sim, claro. Foi uma época bonita. A democracia ainda estava no começo e as pessoas dos bairros pobres acreditavam que todos podiam e deviam participar no processo democrático. Eram tão empenhados quanto ingénuos. As reuniões eternizavam-se porque nunca ninguém se punha de acordo.

Mais ou menos a meio do romance surge o tema da Sida, doença nova que atinge um dos vértices do triângulo amoroso. Quando Porritos morre, há quem a associe ao fim de um tempo, que tanto pode ser o da esperança ideológica na revolução como o da verdadeira liberdade sexual.
Naqueles primeiros anos da epidemia, a Sida foi vista por muita gente como uma espécie de castigo a pairar sobre a liberdade sexual conquistada nas duas décadas anteriores. Porritos poderia simbolizar o fim dessa ilusão, como simboliza o ocaso de uma certa forma de luta política, a dos velhos militantes que se sacrificavam e corriam perigos, mas que os partidos foram afastando porque já não serviam para nada. De certa forma, Mauricio tenta lutar contra isso, contra a transformação de Porritos em símbolo. Ela é apenas uma pessoa que morreu com uma doença terrível. Mais nada. Nenhuma pessoa deve ser reduzida a um símbolo. E por isso fiz aquele epílogo em que remeto esse peso para figuras mitológicas como os anjos, que são, esses sim, símbolos de símbolos.

[Versão ampliada de uma entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]

A inaudita guerra do Parque Eduardo VII

O conflito entre a APEL e a UEP, por causa da Feira do Livro de Lisboa, tem dado pano para mangas. Pelos vistos, neste momento “todos os cenários são possíveis”, quando falta menos de um mês para o começo da Feira. Como sempre, a batalha entre as duas estruturas representativas dos editores esconde outras guerras que a reestruturação recente do mercado veio ressuscitar e ampliar. Neste editorial, Francisco José Viegas disseca o “regresso da balbúrdia” e apela ao necessário bom senso das partes em “confronto”.

And the winners are…

Foram anunciados ontem os vencedores do concurso BiblioFilmes.
A escolha do júri recaiu no vídeo Onde me levam as palavras, de um grupo de alunos do Externato de Nossa Senhora dos Remédios, em Tortosendo:

Já a escolha “popular” (dos internautas) foi para Aprendendo com a leitura, trabalho dos alunos do Instituto Santa Teresinha de São Paulo (Brasil):

Falta de esmero

Um dos aspectos em que as editoras portuguesas infelizmente menos apostam, hoje em dia, é na qualidade da revisão dos livros que publicam. Ao dizer isto, nem sequer me refiro à escandalosa profusão de gralhas e erros ortográficos em que o leitor tropeça com uma frequência assustadora (alguns deles de bradar aos céus), talvez reflexo de uma decadência cultural que estranhamente já não choca ninguém. Aquilo de que falo é outra coisa: a ausência de uma leitura minimamente crítica dos textos a publicar, capaz de identificar e corrigir os deslizes que os autores (mas também os tradutores), na sua cegueira ou imperícia, cometem.
Querem um exemplo? O último romance de Pedro Paixão, sobre o qual falei aqui. Sem ser exaustivo, encontrei estes erros óbvios:

— Pág. 12: “A sua última paixão chama-se Cate Blanchet.”; pág. 198: “Becket deve ser sussurrado.” (O nome da actriz australiana é Cate Blanchett; o apelido do escritor irlandês é Beckett; talvez haja aqui um problema com as consoantes dobradas.)

— Pág. 70: “Por vezes vão ver jogar os Knickers.”; pág. 77: “Já não consegue receber um presente dele, uma ida a Miami, um jogo dos Knickers, uns sapatos Fendi, sem pensar de onde vem todo aquele dinheiro.” (A palavra knickers designa “roupa interior feminina”; a equipa de basquetebol de Nova Iorque chama-se New York Knicks; a repetição do lapso mostra que não é um lapso; e, no caso improvável de se tratar de uma ironia propositada de Paixão, que até pode ser um escrupuloso fã da NBA, não há nada que a sustenha ou justifique.)

— Pág. 75: “Em casa dela lê Marcel Proust. Em francês. Vai durar até ao fim da minha vida. Nove volumes. Um exagero.”; pág. 91: “Gostaria de poder reler os sete volumes de Proust depois de os ler uma primeira vez.”; pág. 106: “Obviamente não se esqueceu dos comprimidos. Nem dos nove volumes de Proust. Não quis levar mais livro algum.” (Para a protagonista de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, a obra-prima de Proust tem um número flutuante de volumes; na verdade são sempre sete.)

— Um dos locais da (pouca) acção é uma quinta lindíssima, em Sintra. Mas também aqui a nomenclatura oscila. Se o narrador começa por dizer que se trata da Quinta das Rosas (páginas 112, 126, 150, 151), logo a transforma em Quinta das Flores (nas páginas 189 e 190), para voltar a ser Quinta das Rosas (a meio da pág. 204) e novamente Quinta das Flores (no fim da mesmíssima página 204). Sete páginas adiante, regressamos à Quinta das Rosas, que ainda vai a tempo de se transmutar, quase no fim, em Quinta das Flores (pág. 238).

— Na página 53/54, é referida a morte de Chet Baker, “com uma sobredose de heroína atirando-se do terceiro andar de um hotel barato em Amesterdão”. Na página 148, o trompetista volta “a deixar-se cair, a atirar-se”, mas desta vez é “do quarto andar do hotel barato em Amesterdão”. (Na verdade, Baker caiu do segundo andar e ainda hoje não há a certeza de que o músico se tenha suicidado.)

— O nome do poeta Herberto Helder aparece quase sempre com a grafia correcta, excepto na página 214 (“Herberto Hélder”).

Uma análise deste tipo pode ser igualmente arrasadora para outros livros recentemente lançados, como o Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier, no qual abundam os erros ortográficos (“espiação” em vez de expiação; cadeiras com “acento” em vez de assento; etc.), de tradução (na página 176, por exemplo, há um “escurecer” onde devia existir um amanhecer ou clarear) e de raccord (uma fita de cetim negro que se transforma em fita de veludo negro, para voltar depois a ser fita de cetim negro). Pelo que pude apurar, estes erros no livro de Mercier foram corrigidos em edições posteriores mas isso não apaga, como é óbvio, o mau trabalho inicial.
Citei dois livros de duas editoras de prestígio (a Bertrand e a Dom Quixote), pertencentes a dois importantes grupos editoriais (o Direct Group/Bertelsmann e a LeYa). Muitos outros chumbariam em semelhante escrutínio. E o que me preocupa é justamente isso: sentir que esta falta de esmero começa, cada vez mais, a ser a regra e não a excepção.

Esta noite, 21h30, em Belém

O dia mundial do Livro também é o dia nacional da (regressada) Ler. A festa é mais logo, a distribuição da revista só começa amanhã, mas já se pode ir espreitando o look do novo grafismo:

página Ler_1páginaLer_2páginaLer_3páginaLer_4

Em jeito de pré-publicação, deixo aqui três dos textos que escrevi para o dossier dos “50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”:

Jorge Luis Borges (1899-1986)

Tal como Joyce, foi esquecido pela Academia Sueca, tão lesta a entregar o Nobel a escritores menores. A bem dizer, nunca necessitou desse tipo de caução. A sua fama, ganhou-a com textos buriladíssimos – ficções labirínticas, poemas de uma elegância clássica, ensaios desvairadamente enciclopédicos – e com a pose de sábio cego, feliz no recato de uma biblioteca sem limites, alimentando-se apenas da música das palavras. Erudito, bibliómano, Borges é o escritor por antonomásia, o homem que tinha na cabeça a Literatura toda (das 1001 Noites às sagas islandesas, de Cervantes a Chesterton) e a soube reinventar em livros que são como jogos de espelhos em que se aprisiona o infinito. A sua escrita, cerebral e de uma lógica avassaladora, prestou-se a todo o tipo de pastiches. Poucos autores do século XX terão influenciado tantos bons escritores e tantos maus epígonos, iludindo-se estes com a aparente facilidade de imitar o que afinal era inimitável.

O que nos ensinou: uma biblioteca pode ser um lugar mais aventuroso do que a selva amazónica

Primo Levi (1919-1987)

“Há dois tipos de sobreviventes do Holocausto: os que calam e os que falam”, disse um dia este discreto químico italiano – vítima, como tantos outros judeus, das atrocidades que fizeram de Auschwitz um “buraco negro” na História do século XX. Após o fim da guerra, Levi, que nunca deixou de ser o prisioneiro n.º 174517 (número que substitui o epitáfio na sua campa), escolheu falar do horror nazi em vários dos seus livros, um dos quais, Se Isto é um Homem, crónica quase científica do que se passou, narrada de forma objectiva e destituída de pathos, viria a transformar-se num dos melhores reflexos literários do “dever de memória” que pesava sobre quem conseguiu escapar do inferno.

O que nos ensinou: uma posição ética inabalável perante a barbárie nazi

André Breton (1896-1966)

Com o Manifesto do Surrealismo (1924) explicou ao que vinha: a procura de automatismos psíquicos capazes de expressar o funcionamento real do pensamento, “na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão e para além de qualquer preocupação estética ou moral”. O resultado foi uma revolução, em França e em várias artes (da poesia à pintura), que chegou tarde e suavizada a Portugal. “A beleza será convulsiva ou não será”, dizia Breton, Papa do movimento e responsável-mor pelos seus cismas.

O que nos ensinou: a escrita automática como forma de arrombar as portas do inconsciente

Uma aranha no crânio

«Foi em Maio de 1976 que desembarquei pela primeira vez de um comboio na estação de Bonatz porque me tinham dito que o pintor Jan Peter Tripp, com quem tinha andado na escola em Oberstdorf, vivia na Reinburgstrasse, em Stuttgart. A visita que lhe fiz ficou a ocupar um lugar notável na minha memória, pois a admiração que de imediato me suscitou a obra de Tripp levou-me a pensar que também eu gostaria de fazer qualquer coisa para além de dar aulas e orientar seminários. Tripp deu-me nessa altura de presente uma das suas gravuras onde se vê o presidente do Senado Daniel Paul Schreber, doente mental, com uma aranha no crânio — que pode haver de mais medonho do que os nossos pensamentos em constante correria? — e muito do que mais tarde escrevi deve-se a essa gravura, até na maneira como procedo, adoptando uma perspectiva histórica concreta, esculpindo pacientemente, juntando coisas aparentemente alheias umas às outras, ao jeito de uma nature morte

[in Campo Santo, de W. G. Sebald, trad. de Telma Costa, Teorema, 2008]

A nova vida (editorial) de Manuel Alberto Valente

Pouco tempo após a sua saída da ASA (isto é, do grupo LeYa), Manuel Alberto Valente, um dos mais experientes e sólidos editores portugueses, volta a começar do zero um projecto que se antevê de qualidade exemplar. Sorte a da Porto Editora. Sorte a nossa. Bom trabalho, MAV.

O abismo vazio

capa 'Rosa Vermelha'

Rosa Vermelha em Quarto Escuro
Autor: Pedro Paixão
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 257
ISBN: 978-972-25-1715-7
Ano de publicação: 2008

Recém-chegado à Bertrand (após passagens pela Cotovia, Oficina do Livro, PrimeBooks e Quetzal), Pedro Paixão lançou o seu mais recente romance quase em simultâneo com a reedição do livro de estreia (A Noiva Judia, 1992). Esta coincidência, ao unir os dois extremos de uma obra com mais de 20 títulos, permite confirmar o que obras como Boa Noite (1993), Muito, meu amor (1996) ou PortoKyoto (2001) já prenunciavam: Paixão é excelente quando se dedica aos contos curtos mas torna-se um escritor sofrível sempre que envereda por narrativas mais longas.
Volta a ser o caso de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, romance palavroso no qual o leitor vai da exasperação ao aborrecimento e vice-versa. A história, se é que a podemos designar assim, está cheia de “fantasmas” que se alucinam uns aos outros e de solidões intransponíveis. Tudo girando à volta de uma nova-iorquina trancada na sua angústia, a quem acontecem coisas: a paixão mal resolvida por uma iraniana de “olhos cor de chuva”, tentativa de suicídio, um caso com o homem que a salvou in extremis, a morte do pai ou os sobressaltos que a empurram de Nova Iorque para Sintra, de Sintra para os Açores e dos Açores novamente para Nova Iorque, onde por fim uma gravidez redentora parece abrir portas ao improvável recomeço.
O resto é tão vago que escapa a qualquer resumo. A protagonista pensa muito e os seus pensamentos são o corpo do romance. O que acontece chega-nos através de um discurso analítico, capaz de dissecar, até ao osso, tudo e mais alguma coisa: uma paisagem ou as leis do amor, “o problema da escala” ou a metafísica do “destino”. E assim, nesta imponderabilidade, se vai dissolvendo um débil fio narrativo que só de vez em quando faz, quase por favor, uma ou outra concessão à verosimilhança.
Pelo meio, há leitmotivs — o primado da beleza, ecos do “romance infinito” de Proust — e alguns encontros com personagens que parecem saídas de um sonho: o traficante de ópio com uma quinta edénica; o professor de português que é poeta alcoólico depois das sete da tarde (e lhe revela Ruy Belo, Cinatti, Herberto Helder); ou o escultor judeu que escapou, cheio de culpa, ao horror do Holocausto. No entanto, até estes pontos de fuga acabam por ser devorados pela vertigem verbal da americana sem nome, que tudo absorve e sufoca num ímpeto solipsista.
A escrita de Paixão não mudou: frases curtas, fluidas, sempre à beira do aforismo ou do paradoxo. Mas se este estilo aéreo resulta muito bem em textos de cinco parágrafos, está longe de aguentar a travessia de duas centenas e meia de páginas. Seria necessário outro fôlego, outro rasgo, outra coesão. Em vez disso, na ânsia de fixar epifanias e retratos dos abismos existenciais, o texto dissipa-se numa verborreia filosofante, que tanto se coloca em bicos dos pés (alusões a Joyce e a Balthus) como se aproxima de uma espiritualidade new age, com anjos decididos a salvar a “alma” de burgueses entediados. O tédio, que “está por debaixo de tudo, antes de tudo, à espera de tudo”, é justamente o mínimo denominador comum deste livro atravessado por ideias, pessoas e palavras que “aparecem para logo desaparecerem” da nossa memória, devoradas pelo mais absoluto vazio.

Avaliação: 4/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Dias de fecho

Os dias de fecho às vezes duram semanas.

A/C Relógio d’Água: é favor traduzir

capa Zizek

Saiu em França, pela Fayard, esta semana.

A viagem que não fiz (a Matosinhos)

E tenho pena.

Sobre a arrogância de Saramago

Disse que temos sempre boa imagem de nós próprios: reconhece razões a quem não tem boa imagem sua? É visto como um homem austero, arrogante, duro. Isso corresponde ao que vê em si?
Não corresponde, não. Em primeiro lugar, de arrogante não tenho nada. Rigorosamente nada. Se querem que lhes dê uns quantos exemplos de escritores arrogantes no mundo, e em Portugal também, posso dar. Não correspondo a esse figurino. [pausa] Austero? Uma austerida de carácter não é defeito, pelo contrário. Duro? Sou um sentimental! Como podem dizer que sou duro? Mas sim, sou realmente duro, seco, tão objectivo quanto posso, quando se trata de discutir ideias, opiniões. Que isso forme, no conjunto, uma imagem tão negativa que leve as pessoas a não gostarem de mim… O que hei-de fazer? Não se pode agradar a toda a gente.

[Excerto de uma longa entrevista dada por José Saramago a Ana Cristina Câmara e Vladimiro Nunes, em Lanzarote, com excelentes fotografias de João Francisco Vilhena, publicada na edição de hoje do semanário Sol]

Maldoror

Osvaldo Manuel Silvestre aborda a abordagem que os Mão Morta fizeram do livro de Lautréamont.

A primeira capa da nova ‘Ler’

Depois de revelada em fragmentos (aqui e aqui), eis a versão completa.
O lançamento da revista é na próxima terça-feira, dia 22, às 21h30, no BBC (Belém Bar Café).

Estado do Tempo

«Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual, com as dos meses mais frio e mais quente e com a oscilação mensal aperiódica. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, as fases desta última, de Vénus, dos anéis de Saturno e muitos outros fenómenos significativos correspondiam às previsões dos anuários da astronomia. O vapor de água no ar tinha atingido a sua tensão máxima e a humidade relativa era fraca. Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913.»

Eis o célebre primeiro parágrafo meteorológico do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, agora finalmente disponível na tradução de João Barrento (Dom Quixote). Os dois volumes olham para mim, tentando-me, mas vão ter que esperar pelas férias.
Sobre esta obra-prima «inacabada e inacabável», nas palavras do tradutor, vale a pena ler este artigo de Isabel Lucas e o dossier que o suplemento ípsilon (sem link) preparou sobre o acontecimento editorial do ano.

Depois de Bogotá, Amesterdão

A capital mundial do livro regressa à Europa, a partir de 23 de Abril. Para o ano será em Beirute.

Os pulmões (e o resto) de Monterroso

Bárbara Jacobs, viúva de Augusto Monterroso, doou o espólio do escritor guatemalteco à Universidade de Oviedo. São mais de cinco toneladas de manuscritos, desenhos, notas, arquivos, livros com dedicatórias, primeiras edições e todo o tipo de documentos, acumulados durante a vida pelo autor de centenas de geniais textos curtos mas apenas um romance (O Resto é Silêncio, Oficina do Livro, 2007).

desenho Monterroso
Toureiro desenhado por Monterroso (incluído no espólio)

Que no meio de tanta tralha, que inclui todos os prémios e condecorações atribuídos ao longo dos anos, conste uma radiografia dos seus pulmões e um calendário de 1986 (ilustrado pela imagem de uma pin-up, ao melhor estilo das oficinas de automóveis), diz bem da ironia com que Monterroso olhava para si mesmo e para esse território de ilusões a que chamamos posteridade.
Uma ironia bem expressa neste fragmento do livro Movimiento Perpétuo:

A LO MEJOR SÍ

Pero lo poco que pudiera haber tenido de escritor lo he venido perdiendo a medida que mi situación económica se ha vuelto demasiado buena y que mis relaciones sociales aumentan en tal forma que no puedo escribir nada sin ofender a alguno de mis conocidos, o adular sin quererlo a mis protectores y mecenas, que son lo más.

Orange Prize

Foram anunciadas, ontem, na Feira do Livro de Londres, as seis finalistas do Orange Prize 2008, prémio que distingue escritoras de qualquer nacionalidade que tenham escrito romances em língua inglesa: Nancy Huston (Fault Lines), Sadie Jones (The Outcast), Charlotte Mendelson (When We Were Bad), Heather O’Neill (Lullabies for Little Criminals), Rose Tremain (The Road Home) e Patricia Wood (Lottery).
Nenhum dos livros está editado em Portugal.

Parábola filosófica

capa 'Uma Segunda Juventude'

Uma Segunda Juventude
Autor: Mircea Eliade
Título original: Le temps d’un centenaire
Tradução: Miguel Mascarenhas
Editora: Bico de Pena
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-621-067-0
Ano de publicação: 2008

Conhecido sobretudo pelos seus estudos no campo da História das Religiões, Mircea Eliade acaba de ver editados por cá dois livros relativamente periféricos em relação ao eixo central da sua obra. Primeiro apareceu o curioso, por vezes áspero e sempre muito melancólico Diário Português [1941-1945], com chancela da Guerra & Paz, escrito no período em que o ensaísta foi adido cultural e de imprensa na embaixada romena em Lisboa. Agora surge Uma Segunda Juventude, coincidindo com a estreia do mais recente filme de Francis Ford Coppola, adaptação desta novela publicada em francês pela Gallimard, em 1981.
A história abre com uma espécie de milagre. Ao chegar a Bucareste na noite de Páscoa, decidido a suicidar-se (leva estricnina num envelope azul dentro do bolso), o professor Dominic Matei é atingido em cheio, na cabeça, por um relâmpago. Contra toda a lógica, consegue sobreviver, apesar das queimaduras teoricamente fatais, transformando-se no objecto de estudo de um médico romeno (Stàncielescu) e de um especialista francês (Gilbert Bernard). Com o passar dos dias, Matei não só recupera muito bem como começa a rejuvenescer — uma de várias impossibilidades fisiológicas que deixam abismados os clínicos (outra é o surgimento de uma nova dentição completa).
O septuagenário atingido pelo raio não aparenta agora mais de 30 anos e a progressiva perda de memória, que o levara a querer matar-se, foi substituída por uma hipermnésia — lembra-se de tudo, até de versos de Ungaretti a que não voltara desde a “primeira juventude”. Além disso, as suas faculdades mentais agigantaram-se e pode finalmente escrever o livro definitivo sobre a origem da linguagem, tratado que deixara em suspenso há várias décadas, o opus imperfectum causador de todas as suas angústias e frustrações.
Acontece isto em 1938, nas vésperas da II Guerra Mundial. A conjuntura histórica não perdoa. Para lá do interesse da comunidade médica e dos jornalistas, o estranho caso atrai a atenção dos nazis, que procuram confirmar as teses de um certo doutor Rudolf, defensor da regeneração da espécie humana através da electrocussão em grande escala. Para escapar à Gestapo, Matei altera a fisionomia, muda de identidade e exila-se em Genebra, o que não impede o confronto com toda a sorte de fenómenos fantásticos, desde epifanias com rosas a desdobramentos de personalidade (um doppelgänger que empurra para o Mal), passando por visões do “homem pós-histórico” (sobrevivente das catástrofes nucleares), arremedos de metempsicose e um desfilar de personagens inverosímeis, quase sempre mal esboçadas. Como Veronica, uma rapariga alemã na qual Matei descobre uma espécie de emanação do seu amor perdido (Laura) e que começa de repente a falar em sânscrito e sumério, durante uns bizarros “êxtases paramediúnicos”.
Parábola filosófica sobre o Tempo, Uma Segunda Juventude mergulha-nos num labirinto onírico, onde os erros se repetem e os regressos se tornam impossíveis. Infelizmente, o afã de Eliade em convocar, mesmo se de forma implícita, temas que lhe são caros (do Eterno Retorno ao xamanismo indiano) desequilibra e fragiliza uma narrativa que transborda de ideias, é certo, mas depois parece não saber o que fazer com elas.

Avaliação: 5,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Quatro ‘mínimas ficções’ de Ana Marques Gastão

bala

Cada batida do coração arrasta mais sangue. Não adianta descalçar os sapatos nem o gemido os abriga desse líquido espesso escorrendo pelas pernas. Nem mesmo. Nem mesmo vivemos algo semelhante a um romance vitoriano. Somente este não-sono profundo e forçado, o medo pisando folhas caídas sob o céu azul.

lírio

És uma lonjura sem nome, um lírio numa sebe de cactos.

clarão

A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.

cintura

Deixo-te ir, dizendo palavras inabitadas, tenebrosas. Sou caruma, vento violento, borboleta esvaziada pela malignidade. Procuro, em minha perplexidade de asa, um outro coração. Na avidez do golpe, caminho com água pela cintura. Desapareço.

[in lápis mínimo, Oceanos, 2008]

Manchas, riscos, cortes

José Cardoso Pires tinha o hábito de oferecer ao seu editor, Nelson de Matos, caixas com os seus manuscritos lá dentro (ainda cheios de emendas e garatujas), além do material iconográfico utilizado para a construção das personagens e da narrativa. No momento em que a família do escritor começou a doar o seu espólio à Biblioteca Nacional, Nelson de Matos abriu uma dessas caixas (a relativa ao romance Alexandra Alpha) diante da jornalista Isabel Coutinho, do Público. O momento ficou registado em vídeo:

Obrigado, Isabel, pelo serviço público.

O Luís Januário veio a Lisboa e foi à Byblos

Não sei se comprou algum livrinho, o LJ, mas pelo menos trouxe de lá um poema:

Esta livraria é grande demais para mim
A estante de FILOSOFIA, hèlas,
é difícil de distinguir da AUTOAJUDA
Enganaram-se trocaram os carros das reposições
ou trocaram a sinalética
ou os olhos
E a estante da LUSOFONIA tem o mesmo
ar desamparado
subsidiado mal lido
mal fodido dos lusófonos
E nos GUIAS de VIAGENS
falta Berlim o meu destino
A Escócia Islândia o deserto
de Atacama
E nos visores de procure você mesmo
os meus autores Roth, o Joseph,
Blanchot, Bolaño, Ángel Vásquez
estão indisponíveis peça ajuda
Felizmente que existe a Alícia Galloti
Aqueço-me à 14ª edição revista e
melhorada como a uma lareira
e como na Blackwell de Leicester em tempos
de emigrante quando olhos parados
no divino triângulo a tesão doía
e a mesma humidade embaraçava

Agora é público

Que a Ler vai regressar aos escaparates no final deste mês, já se sabia. Que o Francisco José Viegas me convidou para ser um dos cronistas (e colaboradores permanentes) da revista, ficou a saber-se hoje através de uma notícia do ípsilon. Acrescento apenas que é com muito prazer que embarco nesta aventura.

Intermitências (2)

Elas continuam a acontecer e as razões são as mesmas de sempre. Esta semana, porém, houve uma agravante: a instabilidade da rede TubarãoEsquilo, com largos períodos em que os servidores ficaram kaputt e em que tanto a leitura como a actualização deste blogue tiveram que ser adiadas.

Uma Segunda Juventude

O mais recente filme de Francis Ford Coppola estreia hoje em Portugal. Intitula-se Uma Segunda Juventude (Youth without Youth) e é a adaptação relativamente fiel de um romance de Mircea Eliade, lançado por estes dias pela Bico de Pena, sobre o qual escreverei na próxima edição do Expresso.

Islândia

Li aqui que a Islândia é simultaneamente o país com maior Índice de Desenvolvimento Humano e o lugar onde se compram mais livros per capita. Há uns anos, era também o país com maior número de grandes mestres de xadrez por 100 mil habitantes e menos horas de televisão emitidas por semana. Motivos mais do que suficientes para suspirar quando espreito pela janela e não vejo neve nem vulcões.

Agualusa no grande ecrã

O Vendedor de Passados, romance cuja tradução inglesa (The Book of Chameleons) deu a José Eduardo Agualusa o prémio Independent de Ficção Estrangeira 2007, vai ser adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Lula Buarque de Holanda, com produção da Conspiração Filmes. O actor brasileiro Lázaro Ramos desempenhará o papel do protagonista, Félix Ventura.
Publicado pela Dom Quixote em 2004, o livro já vai na nona edição e foi traduzido em França, Itália, Holanda, Espanha, Sérvia, Croácia, Eslováquia, Coreia do Sul e Estados Unidos da América (pela conceituada editora Simon & Shuster).

Lembrar o Olímpio (2)

Faz hoje um mês que os amigos do Olímpio Ferreira se juntaram para o homenagear, um encontro que na altura o Daniel descreveu assim e a que tive muita pena de faltar (estava em Espanha naquele fim-de-semana). Além da despedida emocionada, houve também a distribuição de um livro feito para o Olímpio, com depoimentos, desenhos e poemas (edição Diatribe).
Eis a capa:

olimpio_livro.jpg

Lá de dentro, resgato este poema do Paulo da Costa Domingos:

CARPIR

Vamos lá. Vamos lá sorrir um pouco. A vida
é isto: fugir-nos como areia entre dedos;
versos soltos por uma outra manhã, ou
versos soltos aconchegando um féretro…

A vida, que é isto (amigos perdem o gás,
súbitos, e vêm então celebrá-los poetas,
os seus queridos poetas), vai descer à
terra, onde nada cessa e tudo se reagrega.

Zona da grã paciência, lá onde o anjo
que partiu dialogará, enfim, com o fantasma;
e os vivos, entre si, pedem lhes seja concedida
nova manhã de luto e luta. Vamos lá, vamos lá.

E já agora este desenho/poema do Luís Manuel Gaspar:

olimpio_livro2.jpg

Nota – Aos três primeiros leitores deste blogue que o solicitem por e-mail, tenho todo o gosto em oferecer um exemplar da obra (por favor indicar morada para o envio).

Lisbon Story

O escritor suíço Pascal Mercier (pseudónimo literário do filósofo Peter Bieri) está parado diante do n.º 75 da Rua Luz Soriano, ao Bairro Alto. Este “edifício de três andares, azul não só devido aos azulejos que lhe cobriam a fachada, mas sobretudo devido ao facto de todas as janelas serem abobadadas por altos arcos redondos pintados com um ultramarino brilhante” é, no romance Comboio Nocturno para Lisboa, recentemente lançado pela Dom Quixote, a “casa azul” do médico Amadeu de Prado, que ali dá consultas, muitas vezes gratuitas, e se confronta com o maior dos seus dilemas éticos: salvar ou deixar morrer um torcionário da PIDE.
Amadeu só se materializa na escrita de Mercier. O prédio, esse, não podia ser mais real – embora o que ali existe, no lugar do consultório, seja um conhecido hotel gay. “Quando vim aqui preparar o livro, em 2003, já se chamava Anjo Azul, mas não tinha o toldo nem estas bandeirinhas.” Frequentador da capital portuguesa desde os anos 90, como turista, o escritor regressou quatro vezes a Lisboa para cumprir um escrupuloso plano de investigação documental. “Nunca escrevo sobre nada que não tenha visto, tocado ou sentido”, garante. “E foi por isso que em duas dessas viagens apanhei o mesmo comboio nocturno de Gregorius, para ter a certeza de que estava a transmitir ao leitor as impressões correctas.”
Descendo a rua, Mercier não se coíbe de elogiar a luz da manhã, tão meridional, e explica que em cada uma das vindas assentou arraiais durante cerca de uma semana. Sempre sozinho, porque a tarefa exige concentração absoluta. Instrumentos de trabalho: o caderno de notas e a máquina fotográfica. “Usei uma teleobjectiva para fotografar tudo em pormenor: pessoas, prédios, o céu, os eléctricos, o Tejo.” No processo de escrita, a imaginação necessita de algo a que se possa agarrar. Quando teve que descrever o rosto de Amadeu, por exemplo, Mercier colocou à sua frente um retrato do jovem Anton Tchékhov; para a figura do farmacêutico Jorge O’Kelly, inspirou-se no escultor Alberto Giacometti; enquanto o molde de João Eça, resistente antifascista, foi “um homem que certo dia vi entrar na pastelaria Suíça, do Rossio”.
Ao fundo da Luz Soriano viramos à esquerda, seguimos pela Calçada do Combro, Rua do Loreto e Largo Camões, até ao Chiado. Na Rua Garrett, paragem obrigatória. “O interior do exterior do interior”, um dos muitos textos reflexivos de Amadeu espalhados pelo romance (e que formam, no seu todo, um livro dentro do livro), nasceu precisamente aqui. “Eu estava diante desta montra [loja Paris em Lisboa] e apercebi-me que de repente ela servia de espelho, o que deu origem a uma série de projecções mentais nos seus reflexos” – mote para o citado fragmento do médico-poeta. Mesmo em frente, na Livraria Sá da Costa, Mercier lembra-se de ter comprado um livro com 500 nomes portugueses (“muito útil para baptizar as minhas personagens conforme as suas classes sociais”), mas foi um pouco mais abaixo, na centenária Bertrand, que o escritor procurou dicionários de Português para a sua colecção – optando pelo mais recente de todos, já conforme ao novo acordo ortográfico.
Das duas personagens centrais do romance, Raimund Gregorius e Amadeu de Prado, foi Gregorius a primeira a surgir. “Andava há mais de dez anos com ele na cabeça e sabia que era inevitável escrever qualquer coisa sobre este homem lento, especialista em línguas mortas, apreciador de rotinas, um pouco aborrecido, que um dia decide romper com tudo e partir para Lisboa.” Prado teve uma génese ainda mais curiosa: “Há uns anos, escrevi uma obra filosófica sobre o livre-arbítrio. Como não encontrava na literatura uma epígrafe que me agradasse, decidi escrevê-la eu mesmo. Notei então que o ritmo daquelas frases era muito semelhante ao das frases de Pessoa. Nunca escrevera antes nada assim, não sabia de onde é que aquilo vinha. Pedi então a um professor português que me traduzisse a epígrafe para a vossa língua e inventasse o nome de um autor imaginário. Assim surgiu um tal Pedro Vasco de Almeida Prado, que toda a gente pensou que era um filósofo desconhecido.” Estava aceso o rastilho: “Depois, eu quis continuar com aquele tipo de frase porque a sua melodia linguística incitava-me a escrever sobre experiências e temas essenciais da condição humana: a morte, a solidão, a amizade, etc.” Os textos iam surgindo mas “o rapaz de Berna” não os sentia verdadeiramente como seus. “Estavam acima do que julgava serem as minhas capacidades.” Então inventou, por sua vez, um autor. Uma espécie de heterónimo de Pessoa, neto ficcional do não menos ficcional Pedro Vasco. “Esse autor era o Amadeu de Prado.”
Continuando a descer pela Rua Garrett, chegamos num instantinho à Baixa, comparada pelo narrador de Comboio Nocturno para Lisboa a um tabuleiro de xadrez. No livro, a farmácia de O’Kelly fica na Rua dos Sapateiros. É antiga, fuma-se lá dentro e durante a noite uma das suas lâmpadas nunca se apaga. O exacto oposto da farmácia real, nova e asséptica. “Pois é, a do romance inventei-a”, admite Mercier, que só começou a exercer os poderes da imaginação literária relativamente tarde, aos 45 anos. “Eu era professor de filosofia e tive uma licença sabática para escrever um livro académico. Fui com a minha mulher para uma casa perto de Lucca, em Itália, mas um dia fechei todos os livros de trabalho no armário, peguei numa folha em branco e comecei a escrever o meu primeiro romance [Perlmanns Schweigen]. Foi uma fuga, uma libertação do escritor que há muito esperava uma oportunidade.” Seguiu-se Der Klavierstimmer, escrito em França (Provença). Quanto a Comboio Nocturno, também nasceu em frente ao Mediterrâneo, mas em Lloret del Mar, a cidade preferida dos finalistas portugueses. “Instalei-me lá no Inverno, quando a cidade está deserta, e dediquei-me à escrita num regime intensivo: dez horas diárias. Foi para mim uma época muito feliz. Escrever um romance aproxima-nos da essência do que somos.”
O tema das viagens de comboio, essa forma de lentidão iminentemente literária, surge na esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição. Diz Mercier: “Sentados numa carruagem, temos pensamentos que não teríamos fora da carruagem. É como se o movimento exterior se transformasse num movimento interior, das ideias, das imagens, das memórias. Por outro lado, há ali a sensação de estarmos no mundo dos estrangeiros, que viajam muito e não pertencem a nenhum lugar. Uma metáfora para a instabilidade e a fragilidade da vida humana.”

pascal_mercier.jpg

É na Rua Augusta que Prado morre, fulminado pelo derrame de um aneurisma cerebral. Para lá do Arco, vê-se a estátua equestre de D. José e o brilho do Tejo. O périplo pelos lugares do romance poderia continuar até Cacilhas, onde fica o lar da terceira idade que acolhe João Eça, mas o escritor tem um avião para apanhar daqui a nada e por isso ficamos pela “rua mais bela do mundo”, às voltas com um mistério difícil de resolver: como é que um romance de temática metafísica conseguiu transformar-se num dos maiores best-sellers europeus dos últimos anos (vendas superiores a dois milhões de exemplares e 140 semanas de permanência nos tops alemães)? “Ainda não compreendo o fenómeno, foi uma grande surpresa”, confessa Mercier. O êxito, porém, não o deslumbra. “A única coisa que me interessa é a experiência da escrita. Nada mais.” Encontros de escritores, frivolidades mundanas, programas de TV, detesta isso tudo. “Terei muitos defeitos de carácter mas há um a que escapei: o ser vaidoso. A vaidade é uma forma de estupidez sancionada. Não a consigo entender. Tudo o que fazemos é pequeno na escala cósmica e atribuir-lhe muita importância é ridículo.”
Nem de propósito, no momento em que o fotógrafo [do Expresso] capta as últimas imagens do escritor, surge das arcadas uma mulher, Comboio Nocturno para Lisboa debaixo do braço. “Desculpe, o senhor é o autor deste livro, não é?” E o autógrafo já não escapa. Mercier sorri, ao ver a leitora a afastar-se, tão incrédula quanto ele. “Coisa incrível, não acham? Quem é que explica acasos destes?” Ninguém. Mas Amadeu de Prado, que na Lisboa ficcional do escritor suíço morreu ali a dois passos, era bem capaz de tentar.

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

O ouro das palavras

capa 'Comboio Nocturno'

Comboio Nocturno para Lisboa
Autor: Pascal Mercier
Título original: Nachtzug nach Lissabon
Tradução: João Bouza da Costa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 423
ISBN: 978-972-20-2983-4
Ano de publicação: 2008

Uma epifania em dois actos. Eis o que Raimund Gregorius, 57 anos, sólido nas suas rotinas de professor de línguas clássicas (latim, grego, hebraico) num liceu de Berna, divorciado solitário, não esperaria que lhe acontecesse. Mas acontece. E nesse dia a sua vida muda radicalmente. Primeiro acto: uma mulher na ponte de Kirchenfeld, debaixo de chuva, ameaçando o salto para o rio. É portuguesa, misteriosa, uma espécie de anjo anunciador que lhe escreve um número de telefone na testa. Segundo acto: já depois do desaparecimento da mulher angélica, a descoberta, numa livraria espanhola, de Um Ourives das Palavras – voluminho de fragmentos filosóficos editado, em 1975, por um tal Amadeu Inácio de Almeida Prado.
A unir os dois acontecimentos, uma palavra: “português”. O idioma desconhecido – mas vivo – que ressuscita o homem das línguas mortas. Em casa, põe-se a aprender os rudimentos, recorre a dicionários e tenta traduzir os textos de Prado, à cata do ouro das palavras de que o livreiro lhe concedeu um vislumbre. Gregorius deixa-se contaminar gradualmente pela ressonância pessoana de frases que parecem ter sido escritas a pensar nele: “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que em nós existe, então o que acontece ao resto?” O interesse literário transforma-se em obsessão. Num impulso, decide partir para Lisboa no comboio da noite, à procura daquele pensador singular que reflecte sobre a solidão, a morte e o poder da linguagem.
Na capital portuguesa, cedo descobre que Prado, um médico que lutou contra Salazar, morreu um ano antes da revolução. Mas não desiste. Um a um, contacta familiares, amigos e conhecidos, tentando compreender o autor dos textos que parecem espelhar as suas mais escondidas aspirações e angústias. O retrato que emerge é o de um homem complexo e contraditório, um “sacerdote ateu” que sublimou na escrita os seus dilemas morais, frustrações amorosas e traumas familiares.
Ao recolher informações e memórias alheias, cruzando-as, Gregorius acaba por intuir a verdade de Prado, talvez melhor do que as pessoas que lhe eram mais próximas: Adriana, a irmã que em tempos Amadeu salvou com uma traqueotomia, agradecida e adoradora ao ponto de transformar o seu consultório num mausoléu de objectos intocados, onde o tempo se imobilizou; Jorge O’Kelly, pianista frustrado, farmacêutico e melhor amigo (até que uma mulher se atravessa entre os dois); ou João Eça, o resistente antifascista a quem arrancaram unhas e cujas mãos tremem tanto que não pode beber mais do que meia chávena de chá. Com um impressionante rigor analítico, o professor suíço, bom xadrezista, junta as peças no tabuleiro: cartas nunca enviadas, sinais, segredos, vozes mortas saindo de um antigo gravador de bobinas. No fim, a ameaça de um tumor na cabeça (uma de muitas simetrias com o objecto das suas investigações, vítima de um aneurisma cerebral) força o regresso a Berna.
Terceiro romance de Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa é um livro sobre o modo como a linguagem pode iluminar ou obscurecer a compreensão do mundo à nossa volta, além de uma odisseia existencial fascinante mas algo pesada, em parte devido ao estilo palavroso. Após inúmeras deambulações por Lisboa, com breves passagens por Coimbra, cabo Finisterra e Salamanca, Gregorius consegue aproximar-se da essência de Prado, mas é sobretudo a si mesmo que se desvenda, como se o médico-poeta português fosse, desde a primeira hora, o pretexto para uma viagem de descoberta interior.
Numa narrativa densa e bem construída, com personagens de grande profundidade psicológica, não deixa de ser curioso que o elo mais fraco esteja nas prosas de Amadeu, o livro-dentro-do-livro que justifica a fuga de Gregorius. Muitos dos fragmentos são banais, pretensiosos ou redundantes. E mesmo os melhores, os que mais se aproximam do tom de Bernardo Soares, ficam a anos-luz do heterónimo que trabalhava na Rua dos Douradores. É ainda notório o desconhecimento, por parte de Mercier, do que foi a verdadeira oposição a Salazar, aqui apresentada como uma espécie de Resistência francesa transposta para o eixo Bairro Alto-Baixa, despolitizada e só com o Tarrafal ao fundo.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

A paz no coração do bosque

«Cuando escribo una novela me siento como un ciervo que se aleja y busca la paz en el corazón del bosque. Hoy parece difícil comprender eso, pero hay un placer muy intenso en el gesto de marchar, de alejarse de cierta cotidianidad. Hace 13 años que dejé la seguridad de un trabajo y corté con el mundo editorial. Los primeros meses, el primer año, es extraño: no tienes citas, comidas, cenas, entrevistas organizadas. Nadie te llama. Hay una cierta forma de venganza, que es lógica, porque si tú has querido alejarte, los demás sienten eso con cierta agresividad. La sociedad tiende a comportarse de manera mafiosa. Mire, en el siglo XVII, un comerciante o un magistrado, cuando cumplía los 50, tenía derecho a consagrar el resto de su vida a Dios. Ahora la obsesión es mantener los vínculos sociales hasta el último minuto, entretener a los jubilados o hacerles trabajar de nuevo. No te dejan escapar hacia una relación más vertical, como la que podían buscar los eremitas o quienes se refugiaban en un convento. Eso permite tener una mirada distinta sobre lo que es tener una vida plena, sobre lo que es la felicidad. Creo que una de las cosas más tristes, más siniestras que le pueden ocurrir a uno es tener que simular alegría y felicidad todo el tiempo, como esas personas que viven de salir en la pequeña pantalla: me suicidaría si tuviese como oficio el ser feliz por obligación.»

Pascal Quignard, em entrevista ao El País

Livrarias londrinas

waterstones
koenig books
black gull books, camden
daunt books

Captadas, em baixa resolução, pelo irmaolucia.

Avondo

«Ao abrir a porta, para ouvir a chuva, escapando-se por breves momentos do calor do serão, os seus olhos tingiram-se de sangue – da cor do sangue que os sanguinhos escorrem dos troncos nos anos felizes. E de Tâmara começaram a cair memórias do ano que passara…

Eulípio, seu marido, a chegar a meio dos setenta anos, arrumava a carqueja de acender o lume, sobrara um bocadinho, a um canto da chaminé, tomando devagar conta de um grosso tronco de azinho, teria avondo para o serão, levantou os olhos para Tâmara, sua mulher, em estado de espanto, mas um estado de espanto natural. Queria ouvir cair as memórias, como agora podia ouvir cair a chuva. Ele que tanto gostava de ouvir a chuva a bater nas telhas…

Betuma, solteirão, homem dessas idades de Eulípio, atracado a umas pedras antigas, encontradas numas escavações, feitas a poder de braços e a pedido da sua tia Ágara, mulher viúva, quase da idade da pedra, que sonhava com iludidos tesouros, arrastou a cadeira até ficar, por pouco, dentro do lume. Depois, juntou os pés em cima de alguma cinza e preparou o corpo em cómodos convenientes no assento da cadeira (mais alta do que a das mulheres) para ouvir aquilo que lhe ia por dentro da sua terra, que era o mesmo que aquilo que lhe ia por dentro de si, e sentou o olhar em Tâmara. Ele que tanto pisara a dor no ano que passara, ele que tanto se metera à vereda, que calcorreara terrenos a direito, terrenos a subir, a procurar em vão estevas, pampilhos, sargaços, margaças, carrasqueiros, medronheiros, lentiscos, adernos, tojos, alecrim, rosmaninho. De quando em vez, lá lhe apareceram roselas. Folhas de roselas, pouco feitas, a lembrar as de hortelã, em terreno seco, ainda serviram para alguma coisa…

Ágara, a velha mais velha daquele monte, não demoraria muito para chegar aos cento e oito anos de vida, findos os lamúrios – como em todos os serões que ainda se faziam no monte dos Esquecidos de Cima à roda do lume – de que queria morrer, de que já bastava o tempo, de que já cá não estava a fazer nada (conversa fiada, isso lhe atentavam todos nas manhas e na saúde), acartou os olhos para junto dos de Tâmara, carregada com tão vasta genica que era ela muito superior à que lhe escasseava agora para acartar os cântaros de água do poço até à sua casa; mas ai de alguém que lhe viesse tentar acalmar o peso e a estafa. Se calhar, era mais certo uns moitanitos de sal a desfazerem-se, mesmo nos anos enguiçados, do que alguém fazer-lhe essa desfeita…»

[in A Ressurreição da Água, de Maria Antonieta Preto, QuidNovi, 2008]

Um francês à procura de Salinger

Frédéric Beigbeder, escritor, cronista e figura mediática (aparece muito na TV), viajou em 2007 para os EUA à procura de J. D. Salinger, o mais invisível e inalcançável dos escritores americanos. Registada por Jean-Marie Périer, a aventura deu um documentário. Eis o trailer:

Apesar da pose ostensivamente cool de Beigbeder, uma espécie de versão light de Bernard-Henry Lévy, o filme deve ter alguma piada. Pode ser que o DocLisboa o seleccione para a sua próxima edição.

BiblioFilmes (agora a doer)

Já começou a “votação popular” para escolher o melhor BiblioFilme, de entre 17 candidatos. A urna virtual fica aberta até 23 de Abril, Dia Mundial do Livro.

Leituras obrigatórias

Eis que chegam à blogosfera, quase ao mesmo tempo, dois reforços importantíssimos para a bibliofilia online: o Ciberescritas (prolongamento da excelente crónica que a Isabel Coutinho publica há vários anos no Público, sobre literatura na Internet); e o blogue da revista Ler (com regresso previsto às bancas, em grande estilo, lá para o fim do mês). Quando os descobri, ontem, até pensei que era mentira.

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges