Tão bons que até deviam ser proibidos

A Angelus Novus, editora de Coimbra, renasceu das cinzas com extraordinário vigor. Para além da nova colecção de Micronarrativa (com Augusto Monterroso e Rui Manuel Amaral a abrir), estão a apostar em clássicos (Pessoa, Bernardim Ribeiro) e no melhor do pensamento contemporâneo (Rorty, Vattimo e, sobretudo, Peter Sloterdijk). Têm ainda um site catita e moderno, com blogue acoplado e tudo.
O arrojo chega também à publicidade, como se pode ver por este comentário de além-tumba que recebi ontem por e-mail:

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Paulo Branco vai produzir filme inspirado num livro de Don DeLillo

Na 61.ª edição do Festival de Cannes (que abre esta noite com a projecção de Blindness, o filme que Fernando Meirelles fez a partir de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago), o produtor Paulo Branco apresentará um projecto ambicioso: a adaptação cinematográfica do romance Cosmopolis, de Don DeLillo. O realizador será anunciado em breve, mas já se sabe que o orçamento será de 10 milhões de dólares e que a rodagem está prevista para o final de 2009.
Entretanto, Paulo Branco produzirá igualmente Mistérios de Lisboa, um filme (e série de TV), co-produção entre Portugal, França e Brasil, que parte da obra homónima de Camilo Castelo Branco, com argumento de Carlos Saboga e realizado pelo veterano Raoul Ruiz.

Tudo é literatura

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O Jogo do Mundo (Rayuela)
Autor: Julio Cortázar
Título original: Rayuela
Tradução: Alberto Simões
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 631
ISBN: 978-989-623-079-1
Ano de publicação: 2008

Obra-prima de Julio Cortázar, Rayuela é uma das narrativas que mais influenciaram os escritores latino-americanos da segunda metade do século XX. Que só agora seja publicada em Portugal, com 45 anos de atraso, diz bem da indiferença a que foi votada no nosso país, durante muito tempo, alguma da melhor literatura estrangeira. Saúde-se então a Cavalo de Ferro pela iniciativa de suprir esta imperdoável lacuna, ainda por cima numa magnífica tradução de Alberto Simões, que resgata quase sem mácula a força poética, o fôlego e a cadência da prosa torrencial do escritor argentino. Eis, desde já, a par de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Dom Quixote), um forte candidato a livro do ano.
O enorme impacto de Rayuela (à letra, o infantil “jogo da macaca”, desenhado no chão com giz; imagem recorrente em vários dos planos narrativos) deveu-se sobretudo ao seu experimentalismo formal. Como se diz logo de início numa “tábua de orientação”, o livro “é muitos livros”, na medida em que a ordem pela qual devem ser lidos os seus 155 capítulos depende apenas da vontade (ou dos caprichos) do leitor. Cortázar sugere duas escolhas possíveis: 1) começar no primeiro capítulo e acabar no 56, seguindo o esquema habitual, o que implica prescindir do último terço do livro; 2) ler a obra na íntegra, mas seguindo uma sequência irregular de capítulos: 73, 1, 2, 116, 3, 84, etc. Na verdade, qualquer ordem é válida (mesmo a leitura de trás para a frente), o que multiplica as abordagens possíveis a esta ficção aberta.
Dito isto, há três núcleos principais a que os fragmentos narrativos se agregam. Na primeira parte, ‘Do lado de lá’, acompanhamos a vida do argentino Horacio Oliveira em Paris, onde se apaixona por uma uruguaia (Maga), discute interminavelmente com um grupo de amigos artistas (O Clube da Serpente) e encontra, por mero acaso, o seu escritor-guru (Morelli). Na segunda parte, ‘Do lado de cá’, Horacio regressa a Buenos Aires, reencontrando um velho amigo (Traveler, que se revela uma espécie de duplo), a mulher deste (Talita, na qual projecta a memória de Maga) e uma galeria de personagens secundárias, com as quais se cruza primeiro num circo e depois num manicómio. Por fim, a terceira parte, ‘De outros lados’, compõe-se de 99 “capítulos prescindíveis”, onde cabe tudo e mais alguma coisa: citações de pensadores e poetas, notícias de jornal, notas do acervo de Morelli, pequenos ensaios, aforismos ou episódios soltos que ajudam a esclarecer certos factos e a definir traços psicológicos.
No fundo, não há nada que o livro enjeite, na sua ânsia de absorver, por exemplo, a cidade de Paris – esse novelo de “matéria infinita enrolando-se sobre si mesma”, logo transformada numa “enorme metáfora”. Como diz alguém: “Tudo é literatura, isto é, fábula.” À semelhança de Morelli, que sonha escrever uma obra “onde o micro e o macrocosmos se unissem numa visão fulminante”, assumindo o “texto desalinhado, desordenado, incongruente, minuciosamente anti-literário (mas não anti-romanesco)”, Cortázar vai contra os “hábitos mentais” e rebenta com as fórmulas clássicas de contar uma história, consciente de que é preciso “desescrever” e “incendiar a linguagem”, para a libertar. Algo que só se consegue com a cumplicidade do leitor, arrancado à força da sua tradicional atitude passiva.
Mesmo quando arrisca mais, ao narrar uma cena erótica com palavras inventadas (o “gíglico”, dialecto dos amantes) ou ao fundir dois textos num só (em linhas alternadas), Rayuela nunca soçobra na mera pirotecnia, no virtuosismo estéril. Romance de ideias (não apenas literárias), muitas das suas reflexões mantêm uma impressionante actualidade e algumas delas anteciparam mesmo agitações futuras. Como quando Cortázar questiona, cinco anos antes do Maio de 68: “E o que é que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, deixar-se cair em si mesmo com uma tal violência que a queda acabasse nos braços do outro.”

Avaliação: 10/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

LeYa compra Oficina do Livro

A LeYa já era enorme, agora vai ficar gigantesca. Ao rol de editoras que passou a deter no final de 2007, Miguel Pais do Amaral acrescenta o Grupo Oficina do Livro, num processo de aquisição que está neste momento em curso, por verbas ainda não divulgadas. Eis o comunicado de imprensa emitido ao final da tarde, dando conta do negócio:

«A Leya e a Explorer Investments assinaram ontem o contrato-promessa de aquisição do Grupo Oficina do Livro, que integra as editoras Oficina do Livro, Casa das Letras, Teorema, Estrela Polar e Sebenta.
Com o objectivo de consolidar a Leya no mercado editorial nacional, reforçando a sua liderança em termos de volume de negócios, esta operação vai ao encontro da estratégia de criar um grupo com dimensão internacional no campo da Língua Portuguesa, garantindo que o pilar português da Leya apresente uma dimensão que lhe permita encontrar o necessário equilíbrio com o que se pretende que venha a ser o pilar brasileiro, a desenvolver.
Por outro lado, esta aquisição justifica-se pelo facto de o Grupo Oficina do Livro ser uma empresa muito rentável e com uma agressiva dinâmica editorial, de marketing e comercial. O Grupo Oficina do Livro é, ainda, uma empresa que dispõe de excelentes recursos humanos e de uma forte organização e posicionamento de mercado. Acresce, também, que ambas as empresas comungam de uma aposta estratégica de promoção dos autores de língua portuguesa.
A Leya manterá a identidade e independência editorial das editoras que integram o Grupo Oficina do Livro, à semelhança do que aconteceu com as restantes editoras do grupo Leya. A Direcção-geral do Grupo Oficina do Livro continuará a ser da responsabilidade de António Lobato de Faria, que tem vindo a desempenhar um trabalho notável no desenvolvimento daquelas editoras.
A Explorer Investments congratula-se com esta operação, que vem culminar todo o trabalho desenvolvido para transformar o Grupo Oficina do Livro no conjunto de editoras sólidas e de referência nacional que hoje representa e que contribuiu de forma decisiva para a sua valorização.»

Curioso é este comentário, que evoca tanto O Padrinho como Os Sopranos, deixado pelo escritor Rui Zink na edição electrónica do jornal Público (partindo do princípio de que se trata mesmo do escritor Rui Zink e não de alguém a fazer-se passar por ele): “Just when I thought that I was out, they PULL me back in!”

Pré-publicação: ‘O Meu Irmão - Théo e Vincent Van Gogh’

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«Os pássaros desapareceram sobre os ramos de amendoeira pintados por Vincent. Já não assobio as melodias deles, à noite, para adormecer o meu filho. Ainda há pouco tempo, eu convocava para ele toutinegras, rouxinóis e estorninhos na tela azul pendurada por cima do piano. Agora, limito-me a depositar mecanicamente um beijo na sua testa e passo para a sala ao lado. Instalo-me diante da minha mesa de trabalho, aflorando ao sentar-me a gaveta central. É a que contém as cartas de Vincent. Nunca a abro.
Acontece que o corpo tem os seus hábitos. E eu tenho o de escrever ao meu irmão. Aparentemente, nada se alterou. Continuo a ser o mesmo: cotovelo esquerdo assente no rebordo da mesa, testa à procura do apoio da mão, maxilares apertados, têmporas que latejam, os olhos a fecharem-se enquanto procuro as palavras, a minha pluma mergulhando no tinteiro negro… Estes gestos são uma forma de enganar a morte e eu um simples figurante no teatro de sombras. Mas antes escrever do que permitir que a voz de Vincent cresça, essa voz que troveja desde que se tornou uma recordação. Vou respondendo às últimas condolências.
Jo deixa-se ficar no quarto do nosso filho mesmo depois de ele ter adormecido. Passeia a sua mão pela colcha como para endireitar as dobras, as ondas invisíveis. Diz “o pequeno” porque sempre tivemos dificuldade em chamar-lhe Vincent. A minha mãe escreveu num destes últimos dias: “Fizeram muito bem em chamar Vincent Willem ao vosso filho.” Neste momento, já não tenho assim tanta certeza. Não há como as pessoas mais velhas para acarinharem a ideia do recomeço, acreditando que as duas extremidades do tempo podem encontrar-se.
Gostava apenas que o meu filho fosse tão perseverante e corajoso como o meu irmão. São qualidades que não possuo.
Jo vigia-me, sinto o seu olhar inquieto pousado em mim através da porta entreaberta. Sei que descreve o meu boletim clínico aos seus pais, sei que lança alarmes e marca prazos, sei que fica gelada com o movimento incessante da minha pluma, sei que os meus ombros e nuca curvados a fazem sentir-se sozinha, sei que a minha tosse a preocupa. Arreliante, a tosse voltou a raspar a minha garganta, torna-se cada dia mais cavernosa e em breve começará a dar-me náuseas. Certa vez disse a Jo que nunca mais tossira desde o dia em que a conheci e quisemos acreditar nessa ilusão, oferecida pelo amor, de que há um antes e um depois, mas a doença, como todos os segredos escondidos, voltou à superfície. Sinto-a a saquear o meu corpo, esta goela da minha desgraça. E vou calculando frequentemente os seus progressos. Leio a mesma pergunta nos olhos de Jo: o grau último da dor já foi atingido ou será que a temperatura do meu corpo amputado vai ainda ser capaz de subir?

***

Esta manhã, cerca das dez horas, Durand-Ruel passou por cá. Insisti para que o apartamento fosse limpo de uma ponta à outra e alguém tomasse conta do nosso filho. Não queria que nada interferisse com esta visita que solicitara por correio. Ele entrou como se fosse um dignitário das artes, todo aperaltado. A sua rigidez e arrogância compensam o facto de ser baixo. Este grande galerista parisiense ocupa uma posição de força no mercado, é agressivo nos negócios, um católico fervoroso que nunca se deixou levar pela Revolução mas foi ainda assim conquistado para a causa renovadora dos impressionistas. Soube acumular as telas deles quando nada valiam, pagou-lhes avenças, esteve à beira da falência e da degraça, mas regressou triunfante da sua viagem à América. Ele é uma síntese bem sucedida do comércio com a arte.
Depois de andar em passo lento pelo nosso apartamento inteiramente dedicado a Vincent, observou algumas das telas de forma mais demorada, mas sem deixar transparecer o que pensava. No seu rosto, a máscara fria dos comerciantes que passam o negócio de pai para filho. Eu fiquei sempre um passo atrás dele, perscrutando o mínimo franzir do sobrolho, a mínima contracção da comissura dos lábios. Nunca tentei louvar as telas. Prescindi da eloquência para não revelar o meu estado febril. Dei-lhe apenas algumas indicações sobre os períodos e os lugares, avancei algumas das teorias da cor tão caras a Vincent e sublinhei o seu movimento em direcção à luz. Fui um irmão mascarado de negociante e defendi a mais audaciosa, a mais livre de todas as pinturas que alguma vez me foi dado mostrar. Enquanto falava, fixei as mãos enluvadas do visitante. Esperava, se não um gesto, pelo menos um estremecimento, um reflexo, porque muitas telas subestimadas obtiveram, ao passarem por aqueles dedos, o merecido reconhecimento.
Mas Durand-Ruel nunca chegou a tirar as luvas.
Ele não gosta de mim, apercebi-me logo, porque sou um assalariado da concorrência, um caçador furtivo que invadiu os seus domínios, tanto assim que Monet e Picasso também me entregam alguns dos seus quadros. Podia ter negligenciado a minha carta, mas nela afirmava-se que qualquer audácia artística passa forçosamente por ele.
A dada altura, o visitante parou de forma brusca e disse: “Tudo isto é muito interessante.” A escolha de palavras tinha mais de educação polida do que de entusiasmo, mas eu propus-lhe logo organizar uma exposição na sua galeria da rue Laffitte. Estranhamente, já não tinha medo, já não tinha medo das minhas palavras e das minhas escolhas, já não tinha medo de nada, nem de mim nem dos outros. Quero que me julguem pela minha capacidade de dar a conhecer o valor da pintura de Vincent.
Durand-Ruel tossicou, visivelmente surpreendido com a minha reacção, e acrescentou quase por meias-palavras: “Compreendo esse desejo de irmão, mas é preciso pensar melhor no assunto. Tudo isto pode vir a dar polémica. E não quero responsabilizar-me por uma exposição que corra o risco de não ser compreendida.”
Quis prolongar a visita e por isso propus-lhe uma passagem pela galeria de Tanguy, onde poderíamos descobrir outras telas pintadas em Auvers, mas Durand-Ruel disse dispor de pouco tempo, estendeu-me a mão que não chegou a sair da luva, como se já soubesse que estava apenas de passagem, e foi-se embora prometendo voltar na semana seguinte.»

[A narrativa O Meu Irmão - Théo e Vincent van Gogh, de Judith Perrignon, traduzido por mim e editado pela 90º, chega esta semana às livrarias]

The Best of the Booker

Foi ontem anunciada a shortlist para o prémio com que o Booker Prize assinala o 40.º aniversário e que pretende escolher o melhor entre todos os vencedores desde a primeira edição (1969). Os seis candidatos são:

  • The Ghost Road, de Pat Barker (1995)
  • Oscar and Lucinda, de Peter Carey (1988)
  • Disgrace, de JM Coetzee (1999)
  • The Seige of Krishnapur, de J G Farrell (1973)
  • The Conservationist, Nadine Gordimer (1974)
  • Midnight’s Children, de Salman Rushdie (1981)

Convém lembrar que o romance de Rushdie foi considerado, em 1993, o Booker dos Bookers. Ao contrário do que aconteceu então, desta vez a escolha será feita pelos leitores, através da Internet. A urna virtual ficará aberta até 8 de Julho, aqui.

O Pedro Vieira é que a sabe toda

Feira por PV

Haverá K.O.? E em que round?

[Ilustração retirada daqui]

Telenovela

Eis o último episódio da telenovela do Parque Eduardo VII. Mais do mesmo: muita conversa, pouca acção, nenhum desfecho à vista. E já só faltam nove dias para a abertura.

Regresso

O Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, voltou a blogar “sobre livros, sobre música, arte ou até os problemas do PSD” no novíssimo Rua da Castela. O link já está na coluna da direita.

Debate no Chiado

Os Booktailors estiveram lá e filmaram. Ver aqui e aqui.

Um poema de Manuel Gusmão

A TERCEIRA MÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA

i

A primeira mão escreve com o tempo e contra
o tempo
a segunda reescreve o passado com o futuro e
por todo o lado instaura o presente do fim
depois a terceira mão vem e escova
e constela os tempos

ii

A primeira monta um cenário nocturno à espera
da noite que virá. A segunda traz a esse cenário
a noite glaciar. A terceira sobrepõe as noites
e revela o seu povoamento
comum: luz eléctrica, papel intensificado,
uma teoria da escrita, desolação.

iii

Uma segreda e comove-se
no espelho tempestuoso. Outra seca
o saco lacrimal e deduz de si mesmo o movimento
que faz a emoção: A terceira contribui
com o espelho das metamorfoses, a câmara
que filma a dedução
[e enlouquece numa só letra.

[in A Terceira Mão, Caminho, 2008]

Depois da Guimarães, a Ática

Paulo Teixeira Pinto vai somando editoras clássicas.

Relâmpagos em busca de uma tempestade

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A primeira vez que assisti a Café Müller foi em 1994, quando Pina Bausch trouxe a Lisboa, então Capital Europeia da Cultura, uma retrospectiva dos seus principais trabalhos (A Sagração da Primavera, Kontakthof, Viktor), momentos para mim de pura descoberta e deslumbramento.
Uns anos mais tarde, em 1999 ou 2000 (já não sei precisar), escrevi um poema que viria a incluir no livro Nuvens & Labirintos, publicado pela Gótica em 2001. Era um exercício sobre o modo como as imagens de Café Müller permaneciam, já um pouco vagas nos contornos, mas ainda incandescentes, dentro do espectador que fui e sou. Imagens no fio da navalha, lutando contra o esquecimento, fixando na sua incerteza a beleza que um dia me comoveu.
Eis esse poema cuja precariedade ficava assumida logo no título:

MEMÓRIA, TALVEZ IMPRECISA, DE «CAFÉ MÜLLER»

O palco era uma desordem de cadeiras.
Havia corpos (seriam apenas dois?), corpos
lentos e desesperados – como náufragos.
Dido, sem Eneias, repetia a tragédia,
uma e outra vez. Os corpos rodavam,
indiferentes à sua própria magia, breves
relâmpagos em busca de uma tempestade.
Aquele não era, percebia-se, um lugar de
oráculos, certezas, declarações de amor.
Era um palco de cadeiras vazias.
Um deserto à espera de redenção.

No domingo passado, assisti de novo a Café Müller. Os seis bailarinos (sim, afinal são seis) reavivaram as imagens uma a uma, com os mesmos gestos, apenas feitos por corpos mais velhos. Pina Bausch lá ao fundo, como que desligada da acção, antecipando-a, foi mais do que nunca um fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso. E os outros corpos desesperados (mas nem sempre lentos), agitando-se como náufragos; sim, como náufragos. Confirmei o que suspeitava: as duas figuras que melhor recordava, como que acima das outras, eram a rapariga sonâmbula e a personagem masculina (Dominique Mercy). Ela atirando-se para os braços dele, incapaz de a agarrar. Os dois atirando-se com estrondo contra uma parede. E a música de Purcell, a sua tristeza infinita: «Remember me but forget my fate.»
Quando cheguei a casa, procurei no YouTube e encontrei isto:

Escusado será dizer que em 1999 (ou 2000, tanto faz) ainda não existia YouTube.

[A última récita de Café Müller é hoje, pelas 18h00, no Teatro São Luiz; a lotação está esgotada]

Afinal, Gabo ainda não acabou para a literatura

Segundo esta notícia do The Guardian, Gabriel García Márquez estará a retocar a quinta versão do próximo romance (ainda sem título). Depois de ter anunciado o fim da carreira literária, parece que o escritor colombiano “redescobriu a sua musa”.

Avanços e recuos

Agora a sério: ontem à noite, a participação da LeYa na Feira do Livro de Lisboa continuava em aberto. O prazo dado pela APEL ao grupo de Pais do Amaral, para que este “regularizasse” a sua inscrição, terminava ao meio-dia. Ou seja, expirou há uma hora. Alguém deu pelo fumo branco?

A Feira, versão bunker

Nos comentários ao post anterior, o Rui Almeida chamou a atenção para uma proposta ainda mais ousada do que a do Jaime Bulhosa. A coisa é assim a modos que um tratado de Tordesilhas arraçado de Auschwitz, mas talvez seja a única forma de resolver definitivamente o problema da Feira do Livro de Lisboa.
Falta dizer que a casca deste ovo de Colombo foi partida (na extremidade do dito, como convém) pelo inimitável e mui irónico Luís Graça, numa das caixas de comentários do blogue da Ler. Ora apreciem:

Eu acho que o Parque podia ter sido dividido em dois (para já, nas edições seguintes podia mesmo ser dividido em mais parcelas).
Punha-se arame farpado a meio, para evitar que os leitores pudessem comprar livros às editoras da APEL e da UEP.
Criava-se um posto veterinário para tratar dos cães que ficassem presos no arame farpado.
Montava-se um ninho de metralhadoras na zona do restaurante “Eleven”, para abater os vendedores de farturas que as tentassem vender através do arame farpado.
As sessões de autógrafos de editoras mais “underground” decorreriam no parque de estacionamento.
Há tanta coisa que se pode fazer. Para quê tentar conciliar as partes? Mais vale assumir abertamente o conflito. Se o livro não servir para animar a vida das pessoas, afinal para que serve? Para ler?

Uma ideia a ter em conta

Diz o Jaime Bulhosa, não sei se a sério, se a brincar:

«Proponho, para acabar com as guerras, nós livreiros organizarmos a feira do livro. Isto é, durante 15 dias fazíamos descontos de feira e promovíamos debates, sessões de autógrafos, conferências, etc.. E cada um ia à livraria que lhe apetecia.»

É certo que perderíamos o sobe-e-desce no Parque Eduardo VII à tardinha, o encontro com os amigos junto ao Multibanco ou na esplanada, a explosão roxa dos jacarandás. Mas evitava-se a angústia dos dias de chuva e a aparelhagem sonora a anunciar, de cinco em cinco minutos, os livros do dia que podemos encontrar no stand 117.
A mim, não me parece mal pensado. Vendo o rumo que as coisas levam, com a APEL e a UEP às turras, mais os novos grupos a quererem afirmar-se e a provocarem ciúmes, ainda é capaz de ser uma saída airosa para o caos em que a Feira mergulhou este ano.

Saramago em plasticina no cinema (enquanto esperamos pelo ‘Ensaio sobre a Cegueira’ segundo Fernando Meirelles)

O realizador espanhol Juan Pablo Etcheverry adaptou ao cinema A Maior Flor do Mundo, única história infantil publicada por José Saramago. A sua curta-metragem de animação combina várias técnicas (2D com 3D, stop motion, etc.). O Nobel português aparece enquanto personagem e narrador.
Feito em 2007, o filme ganhou o prémio de melhor animação do Anchorage Internacional Film Festival e foi nomeado para os Goya deste ano na categoria de melhor curta-metragem.
A TVE ouviu tanto o cineasta como o escritor:

Três poemas alcoólicos de Malcolm Lowry

OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.

O ÚLTIMO HOMEM NO DÔME

Onde está o sublime bêbado? Será o grande bêbado?
Este pequeno mistério imponderável
Perturba-me sempre à meia-noite:
– Para onde foi, para onde levou a sua caneca?
Para onde foram eles, os meus amigos, os que não têm porto?
Já não se lamentam nos bares, já não se fazem ao mar;
Um estremecimento da vontade e então podem sonhar,
Vivendo enfim as vidas que sempre ansiaram –
Intermináveis corredores de botas para lamber,
Ou no fim de todos eles o Pope com a sua biqueira.
Onde estão os teus amigos, seu tolo?, só te resta um,
E também esse já te enjoa –
Embora muito menos que os outros; e isto sei muito bem,
Uma vez que sou o último bêbado: bebo sozinho.

UMA ORAÇÃO

Deus, dá de beber a estes bêbados que acordam ao amanhecer
Balbuciando sobre o peito de Belzebu, destroçados,
Espiando uma vez mais, através das janelas,
A vaga e terrível ponte quebrada do dia.

[in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]

Ciclo dedicado a Luiz Pacheco

Em Beja, teatro, cinema e conferências no Teatro Municipal Pax Julia (antigo cinema). Até dia 9.

É já amanhã

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Estou mortinho para saber quantas câmaras de TV é que estarão presentes, a captar imagens para o minuto e meio da praxe no telejornal da meia-noite. Isto descontando a RTP, claro, que por razões óbvias não deve faltar.

Prémio Rainha Sofia para Pablo García Baena

O escritor Pablo García Baena (n. 1923), natural de Córdoba, venceu a 17.ª edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, atribuído pela Universidade de Salamanca e pelo Património Nacional. O prémio, no valor de 42.100 euros, distingue “o conjunto da obra de um autor vivo que pelo seu valor literário constitui uma contribuição importante para o património cultural comum iberoamericano e de Espanha”. José Saramago fez parte do júri.
Eis um dos poemas de García Baena:

Hay una débil música enredada en mis dedos
como indolentes, verdes algas dormidas,
cuando mayo desnuda de negros pabellones
mi errante pensamiento.
Hay un tejido espeso como aroma de mieles y de trigo,
que envuelve adormeciendo roca y nube.
Es temprano en la tarde.
El arroyo abandona su flauta entre la hierba.
Me inclino reverente para beber y el agua
pone en mis cerrados párpados su húmeda caricia.
Sobre la tierra extiendo mi pereza
y mayo me despoja de la corteza gris y extraña de mi traje
ciñéndome triunfal con la guirnalda azul de
sus ramajes lánguidos
y en el silencio olvido el remolino inquieto de mi alma.
Ahora soy complacido todo tierra,
sólo un montón de tierra donde crecen florecillas salvajes
como desnudas piernas deseadas
y hay un himno en mis labios,
un himno que levanta su corola
como la púrpura de la diana en un alba con lluvia.
Por el pinar en sombra se difunden sonrisas de armonía
cuando la tarde estruja jacintos olorosos
en el cáliz temblante de los árboles.
La montaña se aleja en éxtasis de humo…
Yo espero confiado que tu inicial escrita en la piedra
vuelva a hablarme en la noche con tu voz,
con la voz del agua en el venero,
de esa agua que rompe su líquido alabastro
en el silencio verde de las hierbas.

A língua nómada

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A Ressurreição da Água
Autora: Maria Antonieta Preto
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-628-008-6
Ano de publicação: 2008

Com Chovem Cabelos na Fotografia (Temas e Debates, 2004), Maria Antonieta Preto (MAP) entrou de rompante na cena literária portuguesa, acumulando elogios quase unânimes da crítica. Apesar de uma ou outra fragilidade narrativa, as 18 histórias do volume de estreia – nas quais se fixava uma visão mitificada do Alentejo rural: decadente e triste, abandonado e violento, crepuscular e lírico – eram de facto, mais do que uma promessa, a expressão de uma escritora de corpo inteiro.
Ao regressar ao conto em A Ressurreição da Água, agora editado pela QuidNovi, MAP confirma o seu talento ficcional e a sua fé inabalável nos poderes da literatura: “Conto-te, querida neta, para que contes sempre. Quem faz o conto és tu a partir de mim, e outros a partir de ti. Porque aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele.” É nestes outros mundos, bizarros e introspectivos, muitas vezes difíceis de penetrar (ou até de compreender), que a autora nos vai mergulhando, com uma prosa tão etérea que dá a sensação de estar sempre prestes a transformar-se em poesia.
Tal como no primeiro livro, voltamos a encontrar um Alentejo reconhecível (mas nunca nomeado), mulheres velhíssimas, padres incapazes de ter mão nas cerimónias litúrgicas, segredos guardados em arcas, cenas de violência doméstica e até palavras ditas no útero por quem ainda não nasceu. A diferença é que a escrita de MAP se tornou mais barroca e abstracta. Em vez de alcunhas de forte pendor regionalista, surgem nomes ostensivamente desligados da onomástica nacional: Carofénia, Pertólio, Vidânia, Sélmio, Noalma. E embora a matriz alentejana persista, sobretudo nas descrições de uma terra exangue, eternamente à espera da chuva redentora (como no belíssimo conto que dá título à obra), é como se MAP procurasse diluir os contornos geográficos da paisagem, tornando-a mais universal e como que fora do tempo, um lugar onde a morte paira, omnipresente, sobre todos os gestos. Um lugar onde há lenços bordados que contam vidas ancestrais, malignas penas de corvo, rosas salvíficas e cortejos de querubins; além de personagens que comem pedras e morrem muito, de tristeza, amor ou vergonha.
Apesar de alguns passos em falso (como O conto dos sabonetes, muito fraco e disparatado), MAP aprimorou um estilo e uma voz singulares, talvez fechados em demasia sobre si mesmos, mas ainda assim fascinantes. Mais do que as capacidades de efabulação, valem aqui a riqueza e a liberdade do trabalho sobre a linguagem. Como se diz em A Língua das Rosas: “A minha língua é nómada. A minha língua está em toda a parte do mundo. A minha língua está onde existe o requinte, a nobreza, a espontaneidade, a lucidez, o respeito. (…) A minha língua não gosta de cangas nem de ferros.”

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Fair play

É sabido: nem sempre os escritores reagem bem às críticas que lhes são feitas (ou a qualquer aspecto dos livros que escrevem), mesmo quando essas críticas são construtivas. Por isso, não posso deixar de referir a notável capacidade de encaixe e simpatia de que Pedro Paixão deu mostras no comentário a este post sobre incongruências que detectei no romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro:

«Caro José,
obrigado pela tua leitura atenta, certamente mais atenta do que a minha que deixou passar esses erros e inconsistências.
o caso do Beckett é incrível, pois é um dos autores que mais leio, e há mais tempo, tendo traduzido todos os seus poemas em francês.
mas também sabes que os apelidos ingleses podem ser escritos de várias maneiras. No caso do apelido Eliot já o vi escrito de três ou quatro maneiras.
quanto à equipe de basket tem a sua graça pois também os vi jogar mais de uma vez. um espectáculo incrível.
quanto às obras de Proust os volumes variam conforme a edição. Na Pleyade é só um ou dois. mais uma vez aqui não sei se estou a escrever bem o título da colecção e não vou verificar quantos são embora os tenha ali no outro quarto. é estranho. não dou, mas talvez devesse dar, importância a isso. e gosto de gralhas. sem gralhas o texto não canta.
e nunca esqueço a Madame Bovary que muda de cor de olhos várias vezes e não deixa de ser belíssima.
eu faço sempre muitos erros ortográficos e outros talvez porque a língua que primeiro aprendi e na qual escrevi não ser o português.
de qualquer modo muito obrigado. se houver uma segunda edição será corrigida.
com um abraço,
pedro»

Adenda: um dia depois, Paixão comentou igualmente a recensão, bastante dura, que fiz ao seu romance. Nestes termos:

«Caro José,
compreendo muito bem a tua critica e poder-me-á ajudar no próximo volume já que este é o primeiro de uma série de três.
quanto ao espírito do livro acho que o captaste muito bem com o titulo da tua critica. O abismo vazio é onde de facto estamos, ainda não reparaste? E o tédio por debaixo de tudo (Heidegger). E o indizível (Wittgenstein).
E de facto a acção é completamente acessória, como em Beckett, Joyce e Proust. O que ela gosta é de pensar e foder. Como eu.
abraço
pedro

ps - já descobri porque não consigo escrever o nome do S.B. correctamente. Porque estudei quatro anos num colégio que se chamava Thomas Becket - só com um T. deve ser de um traumatismo na memória.»

Apresentação de ‘Rayuela’

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Daqui a pouco (18h30), na Fnac do Chiado, será lançada a edição portuguesa da obra-prima de Julio Cortázar: Rayuela (O Jogo do Mundo). Só agora, 45 anos depois, é que alguém decidiu colmatar a escandalosa lacuna (e por isso tiro o meu chapéu à Cavalo de Ferro). Como se costuma dizer, antes tarde do que nunca.
Depois da leitura a mata-cavalos, numa espécie de transe, das 631 páginas e 155 capítulos deste romance desvairado, vou tentar dizer alguma coisa que seja digna de tão transcendente experiência, assim como quem lança uma pedra para a figura desenhada a giz no chão e sobe ao pé coxinho da Terra ao Céu.

Georges Perec, dá-me a tua camisola!

O Alexandre Andrade escreveu um post intitulado Arte Corporal, que tomo a liberdade de reproduzir abaixo (por não me entender com o sistema de links do blogue verde alface):

Graças à revista Ler, fiquei a saber que o escritor José Luís Peixoto tem o nome do condado imaginário dos romances de Faulkner (”Yoknapatawpha”) tatuado no braço. Isto decidiu-me a tatuar “11, rue Simon-Crubellier” na minha omoplata direita. É a minha resolução de primavera.

Pois eu digo que tão iluminada resolução merece ser partilhada. Quando fores ao tattoo shop, Alexandre, não te esqueças de me avisar. Pode ser que nos façam desconto por sermos dois. E já reservei, para a sublime morada, a planta do pé direito.

Pedro Tamen de calções

Tamen no tempo em que foi miliciano em Nampula

Uma preciosidade iconográfica para descobrir aqui, juntamente com poemas de várias fases, a bibliografia e uma longa lista das traduções assinadas por Tamen desde os finais da década de 50.

[via Ciberescritas]

No eBay encontra-se de tudo

Até um exemplar numerado (141 de um total de 280) da primeira edição do livro Cuaderno San Martin, publicado em 1929 pelo então jovem Jorge Luis Borges (teria uns 30 anos), com um retrato do escritor desenhado por Silvina Ocampo. Quem quiser pode licitar, a partir dos 2020 dólares (1306 euros).

A melhor profissão do mundo

Sei que vou parecer exagerado. Ou ingénuo. Não importa. A verdade é esta: num mundo em que 99,99% das pessoas se queixam do emprego que lhes coube, eu posso gabar-me de ter a melhor profissão do mundo. Não estou na lista da Forbes, não tenho a vida de lorde do Cristiano Ronaldo em Manchester, não sou estrela pop, não pertenço a elites, não gozo as supostas vantagens da fama (nem sofro, já agora, com as respectivas desvantagens). Mas tenho a melhor profissão do mundo. Leio, leio, leio e depois escrevo, escrevo, escrevo. Leio para escrever. Escrevo sobre o que leio. Vivo rodeado de livros. E pagam-me, ainda por cima. Só o suficiente, mas pagam.
Para um bibliófilo compulsivo e sem grandes ambições materialistas, isto é o mais próximo da ideia de Paraíso a que se pode chegar. Um Paraíso borgesiano, claro: forradinho de estantes do Ikea, abauladas com o peso dos volumes em cujas páginas de rosto aparece, como um ferrete, o carimbo a dizer “oferta do editor”. Um Paraíso que se transforma em Inferno quando as novidades do mês, lá no topo dos vários estratos geológicos de papel que se debruçam das estantes, nos atiram à cara o facto de ainda não lhes termos dado a atenção de que se julgam merecedoras.

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É um trabalho ao mesmo tempo sublime e ingrato. Ingrato porque ninguém, nem mesmo o mais voraz dos leitores, consegue acompanhar tudo o que de interessante se publica (magro consolo: saber que certos romancistas passam às vezes dois anos a escrever um livro que devoramos em dois dias). Sublime porque permite – aliás, exige – a entrega à leitura compulsiva, sem complexos de culpa nem distracções. Lembram-se daquele poema de Pessoa intitulado Liberdade? Pois é exactamente ao contrário: “Ai que prazer cumprir um dever. Ter um livro para ler e fazê-lo.”
Entretanto eles vão chegando, todos os dias ou quase, de mansinho. Formam pilhas cada vez mais altas, cada vez mais instáveis. Durante muitos anos, essa periclitante cordilheira dos Himalaias ocupou a minha mesa no jornal, para espanto e inveja dos camaradas de outras secções. Agora que trabalho por conta própria, as montanhas transferiram-se para o escritório lá de casa, para a sala de estar, para os corredores, para o quarto – lugares onde os livros vão disputando o meu interesse, numa comovente e darwiniana struggle for life. Refastelado no sofá, eu selecciono, elimino, premeio os mais aptos, sabendo que com o tempo acabarei por receber, em envelopes de papel pardo, uma biblioteca inteira a conta-gotas, enviada por uma espécie de Amazon ainda mais virtual que a Amazon virtual, uma Amazon que me impinge muito lixo (é verdade) mas nunca me pede o número do cartão de crédito.
O carteiro toca. Pelo intercomunicador diz “mais uma encomenda para si” e depois leva muito tempo a subir as escadas, como quem estica a corda da expectativa até ao limite. Encontra-me à porta de casa, sorridente e ansioso. Antes de o entregar, avalia o peso do pacote. Nunca precisei de lhe explicar o porquê do meu sorriso e da minha ansiedade.

[Crónica publicada no n.º 69 da revista Ler]

Livros de culto

O jornal Telegraph elaborou uma lista dos 50 principais livros de culto. Há algumas pérolas e muito lixo, o que não surpreende se tivermos em conta a definição de “cult book” de que se partiu: “Books often found in the pockets of murderers; books that you take very seriously when you are 17; books whose readers can be identified to all with the formula ‘ whacko’; books our children just won’t get…
Dos 50, só li 11:The Bell Jar (Sylvia Plath), Catch-22 (Joseph Heller), The Catcher in the Rye (JD Salinger), Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid (Douglas R Hofstadter), If on a Winter’s Night a Traveller (Italo Calvino), Labyrinths (Jorge Luis Borges), No Logo (Naomi Klein), On The Road (Jack Kerouac), The Rubáiyát (Omar Khayyám), The Stranger (Albert Camus), Thus Spoke Zarathustra (Friedrich Wilhelm Nietzsche).

Capítulo 7 (agora dito pelo autor)

E que voz, meus amigos, que voz.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges