Dois poemas de Manuel de Freitas

RESTAURANT BIBLIOTEKET

Há poemas assim, que não precisam
de ser escritos; apenas enunciados,
ditos em voz baixa a mais ninguém.
A cidade levar-te-á onde te quiser levar,
indiferente à paixão ou à minúcia dos teus passos.

Quem esteve na Toldbodgade, 5,
depressa concordará comigo.

TIVOLI

Seria um conto de fadas
num jardim de chuva
se não fosse já tão tarde.

O teu sorriso sobreviveu, não
abandonou sequer por um momento
a cadeira do Mezzo Bar,
apesar das luzes e dos gritos da cidade.

Esperavam, entre cervejas,
a chegada da rainha da neve,
um pesadelo que lhes fizesse
mais próxima e feliz a noite.

Nós estávamos, porém, demasiado
longe de saber que tudo ou quase tudo
serve unicamente para nos distrair da morte.

[in Brynt Kobolt, Averno, 2008]

Como fazer com que os adolescentes leiam mais?

As duas palestras que tive ocasião de moderar no encontro Oeiras a Ler, uma com Michelle Gorman (EUA) e outra com Jonathan Douglas (Reino Unido), mostraram algumas estratégias em curso para aumentar a literacia dos teenagers. Durante a próxima semana, espero ter tempo para publicar um post desenvolvido sobre o assunto.

Alecrim, Manjerona & etc.

Ontem, o debate “Livros em Desassossego” voltou a fazer jus ao título pessoano. Com algumas das principais figuras do nosso meio editorial presentes, na mesa ou na assistência, houve mosquitos por cordas, tentativas de reconciliação, palavras contra palavras, frases venenosas e grosserias, indirectas e retórica barata, um festim. Com paciência de santa, a Sara Figueiredo Costa resumiu neste post os factos mais importantes da longa maratona. A mim, o que me impressionou foi ver como interagem e discutem, nem sempre com a civilidade exigível, meia dúzia de indivíduos que protagonizaram, desde os anos 70, os grandes cismas do associativismo editorial português, da criação do Clube dos Editores à UEP, passando pelas desavenças internas dentro desta estrutura que se perfilou como alternativa à APEL (desavenças acentuadas, este ano, com a crise em torno da Feira do Livro de Lisboa).
Quem chegasse ontem à sala principal da Casa Fernando Pessoa, por volta das onze da noite, deparava com um cenário digno de RGA estudantil ou Assembleia-Geral do Benfica. Depois de uma aparente aproximação entre a UEP e a APEL, proposta por um Carlos da Veiga Ferreira que nem sequer exclui o cenário de fusão, Tito Lyon de Castro quebrou o verniz, ao repetir que a associação de que faz parte (UEP) o tratou, e a outros membros, “abaixo de parvos”. Em causa estava a verdadeira história da preparação da Feira deste ano e logo se entrou numa troca de galhardetes absolutamente incompreensível para quem não acompanha de perto as tricas do meio, com referências a jantares no restaurante Faz Figura, em Santa Apolónia, à emergência da LeYa, à arregimentação dos votos de pequenos associados (como a “Papelaria das Barrocas” ou a “Casa dos Óculos”) e outras considerações mais ou menos conspirativas. Em suma, foi um pouco triste verificar que os fantasmas do passado ainda ensombram o presente, boicotando à partida qualquer discussão sobre o que pode e deve mudar no mundo editorial português.
Da longa noite de escaramuças e boutades salvou-se Osvaldo Manuel Silvestre, editor da pequena Angelus Novus, que lamentou o facto de os editores estarem “sempre à pancada uns com os outros”, recordou o problema essencial do espaço de exposição nas livrarias (cada vez mais um factor de redução da diversidade) e sugeriu três excelentes livros que ele gostava de ter editado: Diário 1941-1943, de Etty Hillesum (Assírio & Alvim); O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Dom Quixote) e O Mundo Num Segundo, de Isabel Minhos Martins e Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina).

“O que divide os editores?” em imagens

Eis a reportagem fotográfica do debate de ontem à noite, na Casa Fernando Pessoa:

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À mesa, da esquerda para a direita, sentaram-se Carlos da Veiga Ferreira (UEP), Tito Lyon de Castro (Europa-América), Carlos Vaz Marques (moderador), Osvaldo Manuel Silvestre (Angelus Novus) e Rui Beja (putativo candidato à presidência da APEL)

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A assistência foi crescendo ao longo da noite, com a chegada de editores que tomaram várias vezes a palavra (Guilherme Valente, da Gradiva, por exemplo)

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Das novidades do mês falou-se pouco (mas de quem as edita, muito)

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Carlos da Veiga Ferreira irritou-se muito com os remoques e insinuações de Tito Lyon de Castro

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Indiferente às quezílias para consumo interno dos editores mais antigos, Osvaldo Silvestre foi de uma lucidez exemplar

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Coube a Rui Beja a frase da noite, ao sugerir que se crie uma federação de editores “à semelhança da que existe para os fabricantes de óleos vegetais” (sic)

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Muito para lá da meia-noite, quando Carlos Vaz Marques pôs fim às diatribes editoriais, descobri esta instalação de “arte urbana” numa perpendicular à Rua Coelho da Rocha (onde fica a Casa Fernando Pessoa)

Assírio goes blogging

Depois das livrarias, as editoras também começam a compreender a importância de ter um blogue. Último exemplo: a Assírio & Alvim.

Lembrete

O ciclo ‘Asas sobre a América’ prossegue mais logo, pelas 18h30, na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com uma conferência de Lídia Jorge sobre William Faulkner. Antes, Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) fará uma breve apresentação.

O melhor título do ano (até agora)

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É ou não é um trocadilho genial? Quem se lembrou dele foi o poeta Joaquim Castro Caldas. O livrinho saiu no princípio de 2008, com chancela da Deriva Editores.

A maldição de Shakespeare

Na sua pedra tumular, o bardo de Stratford-upon-Avon mandou gravar a seguinte ameaça:

«Livra-te, meu caro amigo, por amor de Jesus,
De remexer na poeira encerrada aqui,
Bendito seja o que evitar estas pedras,
E maldito o que incomodar os meus ossos»

Agora que a cripta do poeta vai ser restaurada, era previsível que surgissem notícias como esta, onde se insinua que os trabalhos «terão de ser muito cuidadosos, a fim de evitar a maldição lançada pelo dramaturgo a todo aquele que tentar deslocar os seus restos mortais». Nonsense, como diriam os conterrâneos do autor de Hamlet. As pessoas que farão o restauro são técnicos esclarecidos e com espírito científico. Se tiverem cuidados acrescidos, parece-me evidente que é por causa da fragilidade e importância cultural dos materiais em causa, nunca por temerem uma suposta profecia ao estilo das que lançavam os faraós egípcios para protegerem a sua morada final.

Prova oral

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Segunda-feira, o Pedro Mexia vai a Coimbra. António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Bebiano, catedráticos desta universidade, serão os examinadores. No local e à hora do costume: Café-Teatro do Teatro Académico Gil Vicente, seis da tarde.

“O que divide os editores?”

Depois das confusões que antecederam (e atrasaram) o início da Feira do Livro de Lisboa, o tema do ‘Livros em Desassossego’ deste mês não podia vir mais a propósito. Participam Carlos da Veiga Ferreira (presidente da UEP), Rui Beja (apontado como sucessor de Baptista Lopes na liderança da APEL, associação que vai a votos em breve), Tito Lyon de Castro (editor das Publicações Europa-América) e Osvaldo Manuel Silvestre (editor da Angelus Novus, de Coimbra), a quem caberá escolher três livros saídos recentemente e que gostaria de ter editado. Como sempre, o debate acontece na Casa Fernando Pessoa, é moderado por Carlos Vaz Marques e tem entrada livre. Logo à noite, a partir das 21h30.

Dois poemas de Paul Bowles

CENA IX

Aqui está a matéria. Ainda não te desossaram.
Aqui está a cascata e o grilo.
Mexe um dedo. Grita. Faz um esgar –
A pesada respiração da terra contém o desespero.

Aqui estão as bocas fechadas na sua mudez, os ossos insensíveis.
Inveja as árvores com a sua dor, decepa os anos que hão-de vir.
Destrói a águia do vale, afoga o grito do clarim –
A mente transformou-se em escorpião e vive entre as pedras.

Tudo o que a vontade quer são as tesouras e a esponja,
A coroa de úlceras, a imunidade.
Uma voz estrangeira sussurra nos quartos
E interminável é o penetrante garrote do sol.

POLÉMICA

Concordo inteiramente com o que dizes.
Quando as nuvens e as palavras se separam
O ar estremece e o cosmos fragmenta-se.
Enquanto não se conhecer a intenção
Nenhum caminho será descoberto.
A Índia era pó, um leopardo à sombra de uma pedra.
Cheguei à entrada da cidade
E aí estava ela, branca, à luz do sol.

As paisagens são absurdas enquanto não se aceitam.
Salaamed humedeceu os lábios e colou-os ao pó.
Ele é o vale e o vale é ele.
Mas até à morte negar-te-ei o direito de o dizer.

[in Poemas, de Paul Bowles, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 2008]

Actualização do CV

A partir da próxima edição do Expresso, serei o coordenador da secção de Livros do suplemento Actual.

Horrores e ternuras

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Os horrores de Aub serão sublinhados, claro, pela inépcia do diseur. As ternuras, não sei.

Bandeira arreada

O José Bandeira, cartoonista genial e escriba de nível superior, teve a suprema lata de fechar o seu blogue no passado sábado. Assim, sem mais nem menos. Assim, sem uma explicação digna desse nome.
Devo dizer que considero isto um escândalo. Devo dizer, para continuar com as repetições enfáticas, que não lhe perdoo. Devo dizer que todas as leis naturais (e artificiais) do mundo postulam que ele tem que voltar – e rapidinho.
Não é preciso fazer uma petição online, ou é? Porque se é, faz-se.
Em jeito de apelo à rebelião das massas, deixo aqui um dos últimos posts:

Pessoa no Parque

O céu estava enevoado como uma eleição no Zimbabwe e eu decidi apanhar o metro. Nunca tinha entrado nessa bela e algo misteriosa estação do Parque. Nos trajectos pedonais há citações de filósofos e poetas; vi-as de Heraclito, Nietzsche, Pessoa. Acredito que a maioria dos passageiros seja indiferente a Heraclito ou Nietzsche (que importa se tudo flui ou se Deus morreu?). Já Pessoa, claro, toda a gente o conhece. Ainda que assim não fosse, a citação que li – «Dói-me a cabeça e o Universo» – resume muito bem o homem.

‘A Consistência dos Sonhos': um relance

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Mais de cinco mil já viram exposição sobre Saramago

«A exposição “José Saramago: A Consistência dos Sonhos”, inaugurada há cerca de um mês na Galeria D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, recebeu 5.442 visitantes, disse hoje à Agência Lusa fonte da entidade.»

Oeiras a Ler

Começa amanhã, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, o ‘III Encontro Oeiras a Ler – A Promoção da Leitura para os Públicos Jovens e o Papel da Biblioteca Pública’. Durante a tarde, moderarei duas sessões: uma com Michele Gorman (da ImaginOn, EUA), às 14.30; e outra com Jonathan Douglas (do National Literacy Trust, Reino Unido), às 16h00.
Toda a informação sobre o encontro pode ser encontrada neste blogue.

Quando os outros nos morrem é que os vemos muito bem

In memoriam Cadi Fernandes, cujas gargalhadas iluminavam a redacção e que tantas vezes me perguntou “afinal o que é que andas a ler?”:

«Reza um velho fado coimbrão: Morrer é estar o dia todo inteiro sem te ver. Em parte.
Definir a morte é um erro sociológico: o sujeito só conhece o objecto quando já não pode ser sujeito. Assim, levar a coisa para o infinito (não há dias inteiros porque há poentes) é um movimento de cabra-de-leque, uma ilusão de óptica (para quem conheça a cabra-de-leque).
Quando os outros nos morrem é que os vemos muito bem. É o único sentido que permanece independente da psicose.

[in Educação para a Morte, de Filipe Nunes Vicente, Bertrand, 2008]

Lembrete

Pelas 17h30, Nuno Crato vai lançar, na Feira do Livro, o seu último volume de divulgação científica – A Matemática das Coisas (Gradiva) – que reúne algumas dezenas de crónicas publicadas no semanário Expresso.
A apresentação da obra será feita pelo Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro.

Entre Neptuno e Nzambi

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Contos de Morte
Autor: Pepetela
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 94
ISBN: 978-989-95597-3-8
Ano de publicação: 2008

Depois do êxito conseguido com Lavagante, novela inédita de José Cardoso Pires que já vai na quarta edição, Nelson de Matos escolheu Pepetela para prosseguir a sua colecção Mil Horas de Leitura. Na introdução a estes cinco Contos de Morte, fica explicada a origem muito diversa dos textos (quase todos encomendas) e o facto de quatro décadas separarem o mais antigo do mais recente. Contudo, por muito que “o autor tenha forçosamente mudado” entre o início da década de 60 e os primeiros anos do século XXI, para Pepetela “pode ser que as realidades focadas não sejam afinal tão diferentes assim, ou pelo menos haja alguns fios de ligação”.
O mais óbvio desses fios, aliás sublinhado no título, é a constância da morte enquanto figura de espanto, irónica forma de castigo ou mero detonador ficcional. No primeiro conto, A Revelação (1962), ela é o agente de uma transferência simbólica, quando o miúdo protagonista vinga a indiferença com que Sô Ferreira trata uma rapariga negra, supostamente por ele engravidada, levando-a a suicidar-se com uma facada no coração. Não podendo medir forças com o comerciante português, alarve e machista, quem paga com a vida é um coelho branco e de olhos vermelhos – infeliz ersatz do colonizador.
Em O caixão do Molhado, o portuense Belarmino esconde um ataúde debaixo da cama, na sua casa nos arredores de Luanda, paredes meias com o mercado Roque Santeiro. Temendo que o levem para o cemitério de cara descoberta, só se aperceberá tarde demais que “tanta previdência pode não ser prudência”. Já Mandioca de Feitiço, em jeito de homenagem a Miguel Torga, põe Faustino, figura saída dos Contos da Montanha, a finar-se no mato africano por não dar ouvidos a “crenças pagãs”. Há também morte em O nosso país é bué, mas essa deve-se à cobiça e ilusão de quem julga que o petróleo pode nascer, pronto a usar, no quintal das traseiras.
Infelizmente, todos estes contos pecam por uma certa linearidade narrativa e limitações estilísticas que estão longe de fazer jus à obra romanesca de Pepetela. Salva-se o belíssimo Estranhos pássaros de asas abertas, escrito como introdução ao Canto V de Os Lusíadas (editado pelo Expresso em 2003), no qual se cruzam habilmente dois planos: por um lado, o contacto das populações indígenas africanas com os descobridores portugueses, vistos como “seres estranhos” e espíritos maravilhosos (ou terríveis, quando tocados pela luxúria); por outro, a luta etérea entre os deuses do concílio camoniano (Neptuno, Marte, Vénus) e as divindades locais (Nzambi, Suku, Kalunga).

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Revista Obscena (no topo do parque)

Informação recebida por e-mail:

A revista OBSCENA está presente na 78.ª Feira do Livro de Lisboa, numa colaboração especial com as Edições Orfeu Negro. Pode ser encontrada à venda no Pavilhão 32 da Antígona (no topo do parque).

Ar do Tempo

Alfredo Aquino é um escritor e artista plástico brasileiro muito atento ao que se passa do lado de cá do Atlântico. Também por isso, mas não só por isso, o seu blogue merece pelo menos uma visita diária.

quadro Alfredo Aquino

Carta, de Alfredo Aquino, óleo sobre tela (2003)

“Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas”

Assim termina um poema inédito de Fernando Pessoa (atribuído a Alberto Caeiro), descoberto no final de Abril pelo investigador italiano Antonio Cardiello. Os versos foram manuscritos nas margens da página final de um livro que pertenceu ao poeta:

«”Foi uma descoberta inesperada”, declarou Jeronimo Pizzarro,que só gostaria de ver o poema divulgado depois de “devidamente” estudado por especialistas na obra de Caeiro. Por enquanto levanta dúvidas. “Apesar da linguagem ser a de Alberto Caeiro e de o poema ser precedido pelo nome Caeiro, tanto pode ser o título como a assinatura. Além disso está num livro datado de 1907 quando sabemos que aquele heterónimo só apareceu em 1914.” As cautelas de Pizarro, o investigador que já transcreveu o poema, são partilhadas por Patricio Ferrari. Um e outro opõem-se à intenção de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, de fazer postais com réplicas do manuscrito para celebrar os 120 anos do nascimento de Pessoa, que se comemoram a 13 de Junho.»

Rosas vermelhas sobre fundo amarelo

«Estávamos sentados a olhar para o lago. Já não havia pianistas nos hotéis. Mas, dentro de um barco, havia jovens a cantar canções populares italianas, e o som chegava até nós, por vezes mais baixo, depois mais alto, misturado com risos e gritos, e por fim de novo longínquo e baixo.
– O pior foi a pista. Erguer, arrastar e empurrar, receber ordens, berros e insultos constantemente. Nunca me esquecerei do barulho surdo, vibrante, dos silvos e das explosões dos aviões e das pistolas-metralhadoras. Os tiros estalavam na pedra, e nós tínhamos de correr até chegarmos à entrada de um prédio, mas os edifícios estavam a ser dinamitados de maneira a que a pista tivesse a largura necessária, e o caminho até às entradas dos edifícios ia-se tornando cada vez maior. Enquanto corríamos, os aviões tentavam atingir-nos, e os jovens ainda conseguiam mas os velhos… Uma noite, ao regressar a casa, metade do edifício já não existia. Vi ao longe as cortinas a drapejar ao vento, rosas vermelhas sobre fundo amarelo, admirei-me e pensei: Como é possível que sejam tão parecidas com as minhas? Nessa noite houve um bombardeamento com bombas incendiárias, e de manhã as cortinas tinham ardido e com elas tudo o que estava dentro de casa. Eu fiquei parada diante da casa, e via o céu azul através dos buracos vazios das janelas.
A mãe voltou-se e olhou-me. – Ou preferes ouvir como os nossos soldados arrombavam as nossas casas à procura de objectos valiosos? Ou como festejavam nas caves com prostitutas? Ou como uma bomba atingiu o posto dos correios e dilacerou de tal maneira uma mulher, aqui a cabeça, acolá uma perna, além as vísceras, que os seus restos cabiam numa caixa pequena? Ou como uma bomba atingiu uma carroça puxada por um cavalo, o matou e atirou o soldado para um jardim diante de uma casa? Quando ele, espantado por estar incólume, se levantou e me sorriu, a casa desabou e soterrou-o. Ou queres que te conte dos trabalhadores estrangeiros, os mais miseráveis entre os miseráveis, que eram completamente abandonados quando eram feridos?
Estava a falar cada vez mais depressa e mais alto, e na mesa vizinha já se voltavam cabeças na nossa direcção. Ela desviou o olhar e olhou de novo para o lago. – Apesar disso, a Primavera chegou. No dia do meu aniversário, quando acordei, reinava o silêncio e eu ouvi um rouxinol a cantar, e no jardim floresciam primaveras e o lilás começava a rebentar. Estava uma manhã linda, embora eu só visse ruínas e escombros por todo o lado. E a chuva era bela. Na Semana Santa choveu de novo como há muito tempo não acontecia. Começou a chover durante a noite, eu estava a dormir numa cave cuja porta dava para o jardim e acordei com o rumor da chuva. Fiquei deitada à escuta e não queria tornar a adormecer porque era tão belo. Uma chuva suave e primaveril e eu sentia o cheiro da terra molhada. – Passados alguns momentos, ela encolheu os ombros. – Foi assim.
– Obrigado. Terminaste por hoje ou terminaste para sempre?
Ela olhou para mim, aliviada e ligeiramente coquete. – Para sempre? Como é que eu posso saber se é mesmo para sempre?»

[in O Regresso, de Bernhard Schlink, trad. Fátima Freire de Andrade, ASA, 2008]

Encomenda para o stand 172

t-shirt Livros de Areia

Será neste verão que circularei pela cidade, at last, com um microconto do Rhys Hughes ao peito?

“Pessoa, Pessoas”

Amanhã à noite, pelas 21h30, a Casa Fernando Pessoa promove o visionamento da totalidade dos 30 pequenos filmes que a CFP produziu para serem exibidos pela RTP, em horário nobre, durante todo o mês de Junho. Uma forma de assinalar os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, a 13 de Junho de 1888.
Com cerca de minuto e meio de duração, os filmes mostram personalidades de diferentes áreas (mas também crianças) a ler um poema de Fernando Pessoa por elas escolhido. Alguns dos participantes foram Nuno Júdice (Uma aventura amorosa), José Eduardo Agualusa (A espantosa realidade), José Luis Peixoto (Tabacaria), Paula Moura Pinheiro (Liberdade), Pacman (Poema em linha recta), José Carlos Malato (Aniversário), Fernando Pinto do Amaral (Ao volante de um chevrolet pela estrada de Sintra), Camané (Se estou só, quero não ‘star), Lídia Jorge (Ode Marítima), Marcelo Rebelo de Sousa (Para ser grande, sê inteiro), Miguel Guilherme (Prece), Carlos do Carmo (Nevoeiro) e Teresa Caeiro (As ilhas afortunadas).
Elvis Veiguinha coordena a equipa de realização.
O projecto será apresentado por Inês Pedrosa, directora da CFP.

E se a Bíblia tivesse sido escrita por uma mulher?

Depois da Dom Quixote, a novíssima chancela Livros de Seda também aposta na produção de spots promocionais para os seus livros, pensados para circular apenas na Internet. Primeiro destaque: A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar, realizado por Luís Coimbra.

[via BlogTailors]

Há mais vida para além da Feira

Na livraria Byblos, por exemplo, começa hoje o ciclo “Letras do Mundo” dedicado a Israel. Até 5 de Junho, haverá palestras, concertos, leituras e a oferta de um livro de Amos Oz a quem comprar um dos mais de cem títulos de autores israelitas em exposição.

Maio, pesado Maio

Alfredo Saramago

Depois de Torcato Sepúlveda, parte Alfredo Saramago. Há meses que parecem amaldiçoados.

Espólio de manuscritos pessoanos vai a leilão em Outubro

“Uma parte significativa do espólio de Fernando Pessoa que ainda se encontra na posse de familiares do poeta vai ser leiloada em Outubro, em Lisboa, pela P4 Photography”, explica o Público. Destaque para o “chamado dossier Pessoa-Crowley, que reúne todos os papéis relativos ao encontro do poeta português com o ocultista inglês Aleister Crowley, em 1930″.

Memória de uma montagem

praça Leya (1)

Praça LeYa quando faltavam 48 horas para abrir a Feira.

praça Leya (2)

Praça LeYa quando faltavam 24 horas para abrir a Feira.

praça Leya (3)

Praça LeYa uma hora depois da inaguração oficial da Feira.

Primeira impressão

A Sara Figueiredo Costa andou ontem pela Feira, a cumprir os rituais de sempre, e não ficou mesmo nada convencida com a novíssima praça LeYa:

«A tão falada praça Leya viu-se de passagem, entre a subida e a descida, e não impressionou. Bem sei que o preconceito (aqui entendido também no sentido etimológico do termo) não torna a visão mais límpida, mas ainda assim, a dita praça não impressionou de todo: os caixotes ainda por abrir foram apenas um pormenor sem importância; já o facto de olhar para os pavilhões, maiores do que os outros – mesmo sem fita métrica, é óbvio – e não só não distinguir umas editoras de outras como ainda por cima ficar com a ideia de que há poucos livros, pareceu estranho. Pensar que há ali editoras com catálogos extensos e de referência e só conseguir vislumbrar capas expostas e pouco mais causa estranheza. Se calhar é má vontade, se calhar foi por ser o primeiro dia; dou o benefício da dúvida e volto lá durante a semana para confirmar.»

Feira do Livro de Lisboa (esta tarde)

Depois de todas as polémicas, lá abriu finalmente a Feira do Livro de Lisboa, com os aguaceiros da praxe a abençoarem o primeiro dia da 78.ª edição.
Apesar das ameaças de chuva terem persistido até ao fim do dia, houve muita gente que decidiu subir e descer o Parque Eduardo VII:

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As farturas lá estavam, no sítio do costume:

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E também um homem-estátua a imitar Camões, em jeito de metáfora sobre a paralisia das associações de editores, que esteve quase a comprometer a realização da Feira:

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Quanto à LeYa, a tão falada “praça” só ficou pronta muito depois da inauguração. Por volta das 18h00, ainda havia homens em cima de escadotes a aparafusar letreiros e membros do staff (com sweatshirts vermelhas) a arrumar livros nas prateleiras:

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Curioso foi o encontro entre Isaías Gomes Teixeira (administrador-delegado do grupo LeYa) e Baptista Lopes (presidente da APEL), os dois da esquerda, mais Carlos da Veiga Ferreira (presidente da UEP), de costas:

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Depois de tanta guerra verbal, muitas vezes a raiar o insulto, os três riram-se muito e pareciam amigos de longa data. Veremos até quando durará a boa disposição.

A 78.ª edição será a última com “modelo tradicional”

Quem o diz é Baptista Lopes, presidente da APEL (em fim de mandato), enquanto assume que “seria desejável que tudo se tivesse processado de modo diferente, mas não conseguimos fazer melhor”. A Feira abre esta tarde (15h00) e terá Cabo Verde como país-tema. Em 2009, será a vez do Brasil.

«Out of the overhanging gray mist»

No The Guardian, James Campbell recupera as deambulações londrinas de Ezra Pound, precisamente um século depois do autor de Cantos ter chegado à capital inglesa.

A Feira, 24 horas antes de abrir

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Esta tarde, pelas 16h00, na maior parte dos stands davam-se os últimos retoques e arrumavam-se livros:

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Quanto à “praça” LeYa, tinha este aspecto:

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Medidos a olho, os stands da LeYa pareceram-me ligeiramente maiores (e mais altos) do que os outros, desmentindo o que Isaías Gomes Teixeira disse no Forum TSF (“os nossos stands terão as mesmas dimensões dos antigos, a única diferença vai estar na disposição dos mesmos e nos materiais”).
Com a montagem ainda a meio, o contraste com o resto da feira salta à vista. Quando estiver tudo pronto, suspeito que esse contraste será ainda maior.

Jardins de Edith Wharton (com dois pavões brancos, ao longe)

Escreve a Alexandra, no sempre magnífico Animais Domésticos:

«Para além da escrita, Edith Wharton interessava-se muito por viagens, arquitectura e jardins. Ao longo da vida, a escritora foi vivendo em várias casas nos Estados Unidos, em Itália e em França, algumas das quais desenhadas por ela própria.
Em França viveu quinze anos, entre os cinquenta e os setenta e cinco anos de idade. Durante esse período, passou bastante tempo em Paris e teve duas casas fora da cidade, para as quais pôde conceber meticulosamente belíssimos jardins. O jardim da casa conhecida como Pavillon Colombe, por exemplo, tinha um terraço, canteiros geométricos ornados por sebes, um lago com uma fonte, uma horta, e jardins mais pequenos, cada um deles subordinado a uma cor diferente.
Quando a biógrafa Hermione Lee visitou o Pavillon Colombe, não pôde evitar notar as modificações que proprietários posteriores a Wharton introduziram no complexo. Lee constatou que, apesar de a mobília de Wharton não ter agradado, os jardins da escritora tinham sobrevivido a todas as mudanças, mantendo-se sempre em bom estado de conservação.
Visitando o jardim com a Hermione Lee, a proprietária actual, uma princesa, confessou-lhe, porém, que, apesar de nutrir um grande respeito por todo o projecto de Wharton, tinha sentido necessidade de reformular uma componente em especial. As dálias brancas, consideradas flores insuportáveis pela princesa, tinham sido substituídas por outra coisa.
A biógrafa avistou ao longe dois pavões brancos ligeiramente envergonhados e acreditou que eles todos os dias dariam o seu melhor para estar à altura das funções botânicas que lhes tinham sido confiadas.»

O sorriso de Lhéritier

Depois de arrematar os manuscritos de Breton, eis o que disse o novo e engravatado proprietário do Manifesto do Surrealismo.

Manuscritos surrealistas vendidos por 3,6 milhões de euros

A Sotheby’s de Paris levou à praça, ontem, nove manuscritos assinados por André Breton, entre eles o Manifesto do Surrealismo. O comprador, que triplicou a base de licitação, foi Gérard Lhéritier, criador do Museu Privado de Cartas e Manuscritos de Paris.

A Feira, 48 horas antes de abrir

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Do lado dos stands antigos, está quase tudo a postos:

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Na famosa “praça” LeYa, nem por isso:

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[Imagens recolhidas hoje, por volta das 13h00]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges