A máquina lírica

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O Amante Japonês
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-972-37-1308-4
Ano de publicação: 2008

Armando Silva Carvalho reuniu recentemente a sua obra poética, iniciada há mais de quatro décadas, num volume cujo título é todo um programa (O Que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim, 2007). Existe de facto nesta escrita uma procura do rigor a partir de sucessivas depurações, rasuras e insistências, partindo da ética oficinal aplicada ao trabalho da linguagem – na linha de um Carlos de Oliveira, por exemplo.
Neste O Amante Japonês, último opus de ASC, surge-nos uma “máquina lírica” que está longe de ser, como em Herberto Helder, uma abstracção. Muito pelo contrário: o japonês a que o título alude é simplesmente um automóvel made in Japan. Tão prosaico quanto isto. É com esse “animal acabrunhado” feito de chapa e quatro rodas, esse “Pégaso cansado” que voa baixinho rente ao asfalto (e no interior do qual se erguem “palácios de palavras no ar ao nível do volante”), é com esse interlocutor mudo que o sujeito poético estabelece uma cumplicidade sempre mais melancólica do que eufórica.
Estamos, como se adivinha, diante de um tour de force que nem sequer dispensa a intertextualidade assumida (envios a Camilo Pessanha, Pessoa, Novalis, Herberto, William Blake, entre outros) e que só não se desmorona porque consegue manter um distanciamento irónico, ou uma sombria lucidez, em relação ao seu objecto: “Pobre carro de um pobre num país de pobres. / Um cão lento e sem pêlo que vai onde lhe permite o dobrar da pobreza / Forçando a pele da boca contra a resistência / Do açaime.”

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 70 da revista Ler]

Já não se fazem títulos assim

A Fenda acaba de editar, numa tradução de Miguel Serras Pereira (sucessora da que Manuel João Gomes fez para a &Etc em 1984), um livro de Denis Diderot quilometricamente intitulado Suplemento à viagem de Bougainville ou Diálogo entre A. e B. sobre o inconveniente de ligar ideias morais a certas acções físicas que as não comportam.
Bendito século XVIII.

Mr. Žižek goes to Cinemateca

O magnífico esloveno estará logo à noite (21h30) na esplanada da Barata Salgueiro, para lançar o livro Lacrimae Rerum, editado pela Orfeu Negro. Apresentação de Pedro Mexia.

Foi bonita a festa, pá

Sala cheia, um texto lido pelo António Mega Ferreira que me deixou sem palavras, algumas histórias primorosamente interpretadas (interpretadas é o termo) pelo Tiago Rodrigues, muitos amigos, galinhas a cacarejar nas traseiras da Casa Fernando Pessoa, a mão direita habituando-se à azáfama dos autógrafos, um calor desmedido a entrar pelas janelas abertas (ainda assim menor do que o calor de dentro, a que se costuma acrescentar o adjectivo humano).
Eu, que esperava muito, não esperava tanto.
Obrigado.

Apareçam

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É às 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Além de António Mega Ferreira, confirma-se a presença de um convidado de última hora: o meu amigo Tiago Rodrigues (actor e encenador), que lerá alguns dos contos.

Não sei qual dos dois escreve este post

O jornalista cultural José Mário Silva influenciou o autor José Mário Silva, isto é, escreveu alguma frase a pensar que iria agradar à crítica?
Não. É verdade que os dois habitam o mesmo corpo, mas mal se conhecem. E ainda bem, porque o primeiro seria naturalmente implacável com o segundo. Aliás, o segundo só escreve quando o primeiro está a olhar para outro lado.

[Pergunta e resposta retiradas da entrevista que dei ontem aos Blogtailors]

Anselm Jappe: “Debord tinha paciência e sabia pensar a longo prazo”

Em tempo de celebração dos 40 anos do Maio de 68, a Antígona editou um volume sobre Guy Debord, escrito pelo filósofo Anselm Jappe. O livro analisa sobretudo ideias e conceitos. Quem estiver à procura de pormenores sobre a vida do célebre situacionista deve procurar noutros lados, garante o autor de As Aventuras da Mercadoria.

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Mais do que uma biografia, este livro é o retrato intelectual de um pensador, construído a partir da análise teórica dos textos que deixou. Teve receio de se aproximar do mito criado em torno de Guy Debord?
Digamos antes que não quis acrescentar elementos não conhecidos da sua biografia, como fizeram outros investigadores depois de mim. É preciso ter em conta que a primeira edição deste trabalho surgiu em Itália, em 1993, antes da recente explosão bibliográfica. Naquela época existiam algumas obras sobre os situacionistas, mas o meu livro foi o primeiro especificamente consagrado a Debord. Escrevi-o em 1992, quando ele ainda estava vivo e controlava o seu próprio mito. Só sabíamos da sua vida aquilo que deixava que se soubesse. E era muito difícil encontrá-lo fora dos textos.

Não dava entrevistas.
Não dava entrevistas, estava longe de tudo. Mas como não era a sua biografia que me interessava, nem sequer me esforcei para o encontrar.

Nunca fez uma aproximação?
Enviei-lhe uma vez uma carta, à qual juntei este livro. Ele respondeu a dizer que tinha apreciado a abordagem, ao mesmo tempo que me convidava a colocar outras questões sobre o seu pensamento. Isso foi poucos meses antes da sua morte [em Novembro de 1994], por isso não chegámos a ter tempo para entrar em diálogo.

Quando é que o livro começou a ganhar forma?
O primeiro núcleo nasceu de uma análise comparativa entre Adorno e Debord que eu fizera na universidade. Nessa altura apercebi-me da importância de Lukács e de Lefebvre para a sua formação. Quis sobretudo demonstrar de que forma Debord contribuiu para renovar certos conceitos do marxismo.

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Houve quem visse nele o “mais livre” de todos os homens.
E talvez fosse, se tivermos em conta que conseguiu libertar-se de quase todos os constrangimentos sociais. Nunca trabalhou, não teve formação académica, nem família, nem chefes. Sobretudo, havia nele uma característica que me parece rara hoje em dia: era alguém que sabia pensar a longo prazo. Tinha paciência. Não queria escrever um livro que fosse lido imediatamente e esquecido no dia seguinte. Todos sabemos que A Sociedade do Espectáculo, publicado em Novembro de 1967, teve um enorme impacto imediato. Mas o seu objectivo era que o ensaio fosse compreendido aos poucos. Se o leitor levasse 20 ou 30 anos a descobrir todas as alusões, melhor. Tranquilizava-o escrever para a eternidade, o que de certa forma contrasta com a sua obsessão em viver no presente.

Como é que descobriu a obra de Debord?
Eu fiz o liceu na Alemanha nos anos 70 e politizei-me ao acompanhar, à distância, a revolução portuguesa. Tinha apenas 12 anos e simpatizava com as correntes esquerdistas mais radicais. Um amigo quatro anos mais velho revelou-me a existência dos situacionistas e quando os li fiquei bastante chocado, porque iam contra todas as ideias feitas do esquerdismo, do militantismo, do sacrifício. O que me atraiu mais foi a linguagem, muito polémica mas também muito poética. Alguns anos mais tarde, quando estava em Itália, voltei a interessar-me. Nesse momento, já era quase impossível encontrar um exemplar de A Sociedade do Espectáculo, o livro tinha esgotado. Perguntava às pessoas se conheciam alguém que tivesse o livro, e esse alguém enviava-me para outra pessoa e assim cheguei a Mario Perniola, que era professor de Estética em Roma. Foi ele que me propôs que fizesse uma tese sobre este tema, que viria a estar na origem do primeiro núcleo do livro.

Mais de quatro décadas após a primeira edição, como é que vê A Sociedade do Espectáculo enquanto instrumento analítico do sistema capitalista?
O que acho mais interessante é a forma como ele retomou alguns temas de Marx, como a crítica do fetichismo da mercadoria, do valor, do dinheiro. Ele foi um dos primeiros a descobrir isto em Marx e a actualizar o conceito. Outro dos aspectos originais da teoria de Debord, com curiosos paralelos na obra de Hannah Arendt, consiste na defesa da vida enquanto possibilidade de criação de uma existência única. Esta é de resto uma das chaves possíveis para compreender a vida de Debord, que quis criar o seu próprio destino, à maneira do ideal dos gregos antigos.

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Concorda que as ideias de Debord tiveram uma influência directa nos acontecimentos de Maio de 68, em Paris?
Em meu entender há influências subterrâneas que são mais fortes do que as influências directas, que se faziam sentir sobretudo no meio estudantil. Mas o certo é que os situacionistas foram os únicos a trabalhar, desde os anos 50, para um acontecimento daquele tipo. Os esquerdistas de outras tendências (leninistas, trotskistas, etc.) também queriam a revolução, mas pensavam-na em termos muito mais clássicos.

É possível repetir Maio de 68 ou a crítica da sociedade contemporânea deve assumir outras formas?
Se houver de facto uma mudança, penso que tomará a forma de algo como o que aconteceu em Maio de 68: uma greve geral selvagem, por exemplo, com dez milhões de cidadãos a paralisarem o país. Passará mais por aí do que pelos partidos ou por eleições. Por outro lado, é verdade que aquele foi um momento muito particular, em que as pessoas ainda não tinham interiorizado completamente o que implica e impõe a globalização capitalista. Foi o tipo de acontecimento que se produz facilmente na passagem de uma época para outra. Hoje, embora continuemos a viver numa era de grande fragilidade, o sistema conseguiu criar, em parte por ter incorporado as ideias de 68, um outro tipo de mentalidade e de subjectividade que me parecem menos mobilizáveis. É evidente que continua a existir muito descontentamento. As pessoas não estão satisfeitas com as suas vidas. Mas tenho a impressão de que se perdeu a capacidade dos indivíduos se articularem. Por isso, arriscamo-nos a que as revoltas sejam cada vez mais violentas e irracionais.

Como nos subúrbios de Paris, com os carros e as bibliotecas a arder?
Sim. Compreendo a raiva dessas pessoas mas ela está nos antípodas do Maio de 68, porque essa revolta é tão degradante como o sistema que a produz.

Está então pessimista?
Não é uma questão de se ser optimista ou pessimista. Assistimos hoje a um empobrecimento total da capacidade de imaginar ou de acreditar numa vida diferente. E esses são factores antropológicos. Por outro lado, como disse recentemente num artigo, durante a História humana houve tantas previsões optimistas desmentidas pelos factos que só nos resta esperar que as previsões pessimistas também o sejam.

[Entrevista publicada no n.º 70 da revista Ler]

A “marca” Pessoa

No mês em que se assinalaram os 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, o debate “Livros em Desassossego” vai tentar perceber de que modo se poderá valorizar, ainda mais, a “marca” Pessoa. Os convidados de Carlos Vaz Marques são o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro (para quem “Pessoa, enquanto produto de exportação, talvez seja mais valioso que a PT”), Manuela Nogueira (sobrinha do poeta), António M. Feijó (professor universitário), Jerónimo Pizarro (investigador pessoano) e Manuel Rosa, responsável da Assírio & Alvim, que escolherá, entre os livros publicados nos últimos tempos, três que gostaria de ter no catálogo da sua editora.
A conversa está marcada para as 21h30, logo à noite, na Casa Fernando Pessoa.

O adeus de Albert Cossery

Cossery por PV

Por Pedro Vieira.

Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2) – uma antologia

De João Sousa André:

«Uma prostituta checa tem pela primeira vez na vida um orgasmo no seu quarto na rua Zengrova, em Brno, o qual causa a erupção de um vulcão no campo de coca de um narco-traficante colombiano de Medellín.»

«No dia 28 de Junho de 1914, um domingo, o condutor do automóvel onde seguia o príncipe Francisco Fernando notou que se tinha enganado no caminho para o hospital de Sarajevo. Ao recuar para corrigir o erro, passou em frente do café Moritz Schiller, de onde saía Gavrilo Princip com uma sanduíche na mão. Esta marcha-atrás levou a que, quase 31 anos mais tarde, a 30 de Abril de 1945, uma segunda-feira, Mikhail Petrovich Minin entrasse no Reichstag, em Berlim, para erguer a bandeira soviética.»

De Jorge Vaz Nande:

«MOSCARDOS
Um padre desliga a box da TV Cabo, detonando uma bomba num jogo de futebol.
Mãe, toca o orvalho no quintal só mais uma manhã, faz desaparecer o cocó de cão das ruas da minha cidade.
Eu aprendo a dizer “name-dropping” e, ups, duzentos operários fabris no desemprego!
O músico diz “não foi para isto que se fez o 25 de Abril” – o cocó de cão reaparece.

ABELHAS
Se Santana abre uma torneira, Durão derrama uma lágrima.
Eu toco uma campainha em Portugal e assim mato Kim Jong-il.
Tony Hoagland pensa em Frank O’Hara, escreve, de uma assentada, três poemas, e o mundo ganha uma hora de sono.
Uma baleia engole um pescador indonésio 33 minutos depois de um primo distante (do homem, não da baleia) se imolar pelo fogo numa aldeia palestiniana.

MOSCAS
A actriz olhou só mais uma vez para a Broadway, mas não deixou de haver tempestade no falso deserto de sal dos Andes.
Um homem chamado Joseph Grand decidiu imitar o seu homónimo do livro de Camus e pensa na frase que reescreverá no resto da vida porque, num cinema abandonado de Bombaim, um rapaz e uma rapariga beijam-se e choram ao mesmo tempo.
O padre liga novamente a box da Tv Cabo, impedindo que algo de interessante aconteça até 2011.
Em 2011, o mundo acaba, mas outro na fila logo lhe toma a vez.»

De Marta Barreto:

«Uma árvore é arrancada na floresta da Amazónia e uma criança morre de asma em Xangai; ninguém chega a tempo de evitar que o leite transborde de um fervedor em Mafra e na Nova Zelândia milhares de vacas tentam o suicídio colectivo; enquanto na Rússia se treina o lançamento do dardo, nos Pirinéus pequenas avalanches vão-se sucedendo; um beijo é roubado no Equador e um menino de 2,200kg nasce em Jacarta.»

De Gaspar Matos:

«Augusta atira um livro à água e na Ásia um duende vê mais um Western; o recibo de vencimento espreitou do envelope, e uma ucraniana riu-se na Ajuda; o tsunami no Índico lavou o Grupo Coral da Brandoa; ela fechou o frigorífico mas não evitou a constipação dos galegos de Ourense; esse columbófilo chorou, e todos os coelhos de Stanford perderam o pêlo; eles beberam Frangelico, e um abade mesquinho faleceu em Trento; o vento recuou em Marrazes, e um pedopsiquiatra cortou um salpicão em fatias transparentes.»

De O Salgador da Pátria:

«Enquanto o Papa Bento XVI redige uma encíclica em Roma, dentro dos seus sapatos Prada, morrem milhares de crianças de fome em todo o mundo.
José Sócrates, primeiro-ministro português, puxou de um cigarro num avião enquanto sobrevoava o Atlântico e encheu os jornais portugueses de fumo no dia seguinte.
Os Irlandeses votaram “não” num referendo e provocaram um terramoto em Bruxelas e Estrasburgo.
A Mars Phoenix mostrou gelo no planeta Marte e milhares de pessoas continuam a ir à missa, à mesquita e à sinagoga no planeta Terra.»

Resultados do passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2)

Fechadas as inscrições (às zero horas desta quarta-feira) e lidos os trabalhos concorrentes, o júri do BdB (composto por me, myself and I) decidiu premiar os seguintes leitores:

  • João Sousa André
  • Jorge Vaz Nande
  • Marta Barreto
  • Gaspar Matos
  • O Salgador da Pátria

Cada um deles ganhará um exemplar de Efeito Borboleta e outras histórias, oferecido pela Oficina do Livro.

Sexo, mentiras e cumulonimbos

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A Teoria das Nuvens
Autor: Stéphane Audeguy
Título original: La Théorie des Nuages
Tradução:
Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teorema
N.º de páginas: 275
ISBN: 978-972-695-761-4
Ano de publicação: 2008

Akira Kumo é um mestre japonês da alta-costura que preza, acima de tudo, a sua nova colecção de objectos raros. Depois de “espetos de manivela saboianos, saris tradicionais de seda natural, opalas australianas, tapeçarias dos Gobelinos e vasos Ming”, entretém-se agora a reunir, no terceiro andar da sua casa apalaçada (na rua Lamarck, em Paris), a mais completa das bibliotecas privadas de temática exclusivamente meteorológica. Para organizar e catalogar esses livros sobre nuvens (mas também sobre os homens que as estudaram ao longo dos tempos), contrata Virginie Latour, uma jovem bibliotecária.
O principal eixo deste livro, em que os planos narrativos se acumulam e sobrepõem constantemente, assenta na relação entre Kumo e Latour. Numa primeira fase, ainda com as formalidades habituais entre mestre e discípula, o estilista limita-se a contar histórias, às quais “acrescenta elementos” que potenciam o seu impacto dramático. São histórias sobre figuras reais, como Luke Howard (um quaker que inventou a primeira nomenclatura consistente das nuvens, no início do séc. XIX) ou Lewis Fry Richardson (um dos fundadores da meteorologia moderna), mas também sobre personagens ficcionais, como o pintor Carmichael, obcecado pelas paisagens do céu ao ponto de por elas perder a razão e a vida, ou a dupla de rivais que se digladiam no Congresso Mundial de 1889: o sueco William S. Williamsson e o escocês Richard Abercrombie.
Atrás destes fluxos narrativos autónomos, que podem prolongar-se por dezenas de páginas, esconde-se o verdadeiro objectivo de Kumo. Ele partilha conhecimentos enciclopédicos com Latour para a manter perto de si, para ganhar tempo até conseguir contar a história que verdadeiramente lhe interessa: a sua. Sobrevivente do ataque a Hiroxima, este homem bizarro e misantropo, que só se satisfaz com prostitutas, fez tábua rasa da infância vivida no Japão, esquecendo-a tão completamente que se julga com menos 13 anos do que realmente tem.
Se evoca a “obstinação irreflectida” dos homens que aos poucos vai resgatando do passado, esses seres solitários que olhavam para as anfractuosidades das nuvens como para um abismo, “girando na noite eterna da vertigem” com uma propensão para a queda (e, em muitos deles, para o suicídio), é para chegar à sua nuvem primordial: o cogumelo nuclear que devorou tanto a cidade onde habitava como a irmã, Kinoko, transformada em cinza como os judeus de Auschwitz. A culpa por manter-se vivo (estava dentro de água no momento da explosão) abre-lhe um buraco negro na memória que o perseguirá até ao fim dos seus dias.
Todas as mentiras, pequenas e grandes, confluem para essa verdade – tão dura que, ao materializar-se, o destrói. Antes disso, porém, há ainda tempo para orientar Latour na procura duma espécie de Santo Graal da meteorologia (o Protocolo Abercombrie), exemplar único que nunca ninguém leu porque Abigail, filha adoptiva do seu autor (Richard Abercombrie), o manteve diligentemente fora de alcance. À maneira de um livro dentro do livro, a narrativa das deambulações de Abercombrie pelo mundo, registadas no famoso Protocolo (documento inclassificável que Virginie decifra como quem desenreda uma meada), é o registo de uma metamorfose. Na ilha de Bornéu, a meio caminho de uma volta ao mundo, o até então casto Richard transfere a sua obsessão das nuvens para o sexo das mulheres, que passa a fotografar com uma diligência e numa quantidade que fariam D. João Tenório corar de vergonha.
Espantosamente, os muitos fios que Audeguy lança, nas mais variadas direcções, atam-se todos no fim e as tragédias como que convergem, embora de uma forma não linear, deixando o leitor à mercê de uma magnífica tempestade que paira sobre o local perfeito para observar nuvens perto de Londres (como bem sabiam Howard e Carmichael): a charneca de Hampstead, onde Latour cumpre, numa espiral de melancolia, o desígnio de Kumo.
Antes deste belíssimo livro de estreia, majestoso e etéreo como uma nuvem cumulonimbo, a Teorema já editara o segundo romance deste autor, Filho Único, auto-biografia imaginária do esquecido irmão mais velho de Jean-Jacques Rousseau, livro que confirmou Audeguy como um dos nomes mais estimulantes da literatura francesa actual.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Sobre Cossery

«Il y a encore quelques jours, on le croisait dans les rues du quartier de Saint-Germain-des-Prés, à Paris. La silhouette de plus en plus maigre, la démarche de plus en plus lente, mais toujours habillé comme un seigneur, pochette colorée à la veste, tête droite, oeil espiègle.
Il n’avait jamais interrompu son “Cossery Tour”, commencé il y a plus de soixante ans, cette promenade d’avant sieste qui le menait de l’une à l’autre des terrasses de café du quartier, entre Dalloyau (ex-Pons), la brasserie Lipp, Le Café de Flore et Le Chai de l’Abbaye, pour y mater le ciel et les jolies filles. Il retournait ensuite à La Louisiane, le modeste hôtel de la rue de Seine où il avait élu domicile depuis toutes ces longues années. C’est là, dans sa petite chambre surencombrée par le temps, qu’Albert Cossery s’est éteint tranquillement, dimanche 22 juin, à l’âge de 94 ans.»

Este é o início do texto necrológico que Marion Van Renterghem publicou hoje, no Le Monde, sobre Albert Cossery. A continuação pode ler-se aqui e não resisto a transcrever o final:

«Les dix dernières années de sa vie, donc, Albert Cossery n’écrivait plus, ne parlait plus. Il ne faisait que penser, rêver, observer, faire la sieste et déambuler dans les rues de Saint-Germain-des-Prés, de sa démarche désarticulée, souvent au bras d’une jeune amie blonde. Etre vivant le réjouissait, son propre silence le comblait, il était heureux. On lui avait demandé un jour s’il s’ennuyait. Du temps où il parlait encore, il avait répondu : “Je ne peux pas m’ennuyer, je suis avec M. Cossery.“»

Agradecimento

Por isto. E por isto. E por isto.

Albert Cossery (1913-2008)

Albert Cossery

Morreu o escritor da preguiça. Uma preguiça langorosa e magnífica.
Eis os parágrafos finais de dois dos seus sete romances, todos editados pela Antígona:

«Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades? Si Khalil imagina a casa desabada sob o pó dos escombros. Vê os livros aparecer por entre os mortos. Pois nem todos serão mortos. É preciso contar com eles, quando se erguerem com os seus rostos sangrentos e os seus olhos de vingança.»

[in A Casa da Morte Certa, trad. de Ana Margarida Paixão, 2001]

«Quando Samantar saiu da gruta, o sol levantava-se por cima do mar, fazendo explodir debaixo dos seus raios mágicos todas as cores da paisagem. O verde dos palmeirais, o ocre das extensões arenosas, o azul do mar, apareciam em todo o esplendor da sua frescura primitiva. Era quase um chamamento sensual, uma exortação ao amor que Samantar sentiu com uma indizível felicidade. Então, fez vaguear o olhar maravilhado por toda aquela beleza cintilante debaixo do sol, como uma oferenda àquele que simplesmente quer viver e que a ambição de um homem quase destruíra.»

[in Uma Ambição no Deserto, trad. de Sarah Adamopoulos, 2002]

Rayuela, modo de usar

Logo no início do romance Rayuela, finalmente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro (com um atraso de quase meio século), Julio Cortázar oferece ao leitor uma “Tábua de orientação” onde explica que o seu livro “é muitos livros”. Os 155 capítulos desta narrativa não-linear podem ser percorridos como se queira: tudo de seguida, aos saltos, do fim para o princípio, aleatoriamente ou até deixando de lado uma parte inteira (há 99 capítulos considerados “prescindíveis” pelo autor). Não apenas por isto, mas também por isto, Rayuela – que se converteu em O Jogo do Mundo na excelente tradução de Alberto Simões – abre a porta a uma experiência literária singular e talvez única, porque a ordem da leitura que escolhermos (uma entre milhares de possibilidades) pode não ter sido escolhida por mais ninguém.
Para evitar que os leitores se assustem com o livre arbítrio, habituados que estão desde sempre a seguir um fluxo narrativo pré-determinado, Cortázar sugere desde logo duas opções: ou a leitura no modo tradicional até ao capítulo 56 (esquecendo os exercícios meta-literários da terceira parte) ou seguindo uma cábula que fixa uma espécie de ziguezague (começa-se no capítulo 73, depois vem o 1, o 2, o 116, o 3, o 84, o 4, o 71, etc.). Ao optar por este último, quis testar o caminho sugerido pelo autor mas o sistema trocou-me as voltas. No fim de cada capítulo, aparece entre parêntesis o número do capítulo para o qual se deve saltar. Por exemplo, ao acabar o 152, Cortázar envia-nos para o 143; mas eu, nem sei bem como, fui parar ao 144 e quando dei pelo lapso, mais à frente, a minha leitura já tinha divergido consideravelmente da pista oficial.
Histórias destas são comuns entre os leitores de Rayuela, essa imensa confraria de cúmplices que alguns fazem questão de transformar, abusivamente, em sociedade secreta – com rituais de iniciação e um culto quase religioso ao grande Cronópio Cortázar. Entre os exercícios a que os fãs se entregam, destaca-se a escolha do capítulo preferido. Há os que preferem a prosa poética do 7 (“Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão”), outros inclinam-se para o 68 (cena de sexo narrada em glíglico, um dialecto de palavras inventadas) ou para o terrível 28 (em que morre um bebé e os amigos adiam a revelação da notícia à mãe, mergulhando em discussões filosóficas durante 25 páginas). Por mim, escolho o 23. Não porque seja o capítulo em que Horacio Oliveira, o protagonista, primeiro depara com Morelli (escritor-guru e teórico da literatura, porta-voz das ideias de Cortázar), quando este ainda não passa de um velhote desconhecido, atropelado por um autocarro, nem porque nele se faz a mais deliciosa paródia à música contemporânea (através da figura de Berthe Trépat, pianista e compositora), mas antes porque abre com a meticulosa descrição do que Oliveira observa enquanto está “parado numa esquina” de Paris: pedreiros ao balcão do café, uma mulher à janela, um clochard, uma vendedora de lotaria no seu cubículo.
Lembrei-me imediatamente da Tentative d’épuisement d’un lieu parisien, texto em que Georges Perec enumera, como um entomólogo, tudo o que aconteceu na Place Saint-Sulpice, entre 18 e 20 de Outubro de 1974. E também me lembrei (lembrar é talvez o mais perequiano dos verbos) do monumental A Vida Modo de Usar. Publicado em 1978, quinze anos depois de Rayuela, eis um monumento com 99 capítulos (nenhum deles prescindível), que também se pode ler de várias maneiras e não é apenas um romance, mas sim muitos “romances”, como de resto Perec o subtitulou. Se Rayuela é um livro-mandala, que faz de Paris e Buenos Aires duas faces da mesma moeda, A Vida Modo de Usar é um prodigioso mosaico que cruza dezenas de histórias e personagens num prédio da imaginária rue Simon-Crubellier. Na estrutura de Rayuela paira a imagem do jogo da macaca (desenhado a giz no chão, entre a Terra e o Céu); no livro de Perec a do puzzle a que falta sempre uma peça. Ambas são ficções devoradoras da realidade inteira do mundo: ultra-romances, hiper-romances, supra-romances.
Sim, lembrei-me de Perec ao ler Cortázar. E perguntei-me se os dois alguma vez se terão encontrado por mero acaso, no Pont des Arts. Provavelmente não. Mas tenho a certeza que Horacio e a Maga, que nunca combinavam os seus encontros, foram várias vezes tocar às campainhas do n.º 11 da rue Simon-Crubellier, acompanhados das restantes personagens do argentino (o Clube da Serpente em peso). E alguém lhes abria a porta, sempre.

[Versão longa da crónica publicada no n.º 70 da revista Ler]

Novo site da Casa Fernando Pessoa

Ironia das ironias: no próprio dia em que me queixava aqui do “estado comatoso” em que o site oficial da Casa Fernando Pessoa se encontrava há vários anos, começou a funcionar a novíssima encarnação do dito.

A fórmula

Follet + Grisham = James Patterson, diz o El País. Foi assim que o novo rei dos bestsellers chegou à fasquia dos 16 milhões de exemplares vendidos, só em 2007.

Passatempo ‘Efeito Borboleta’ (parte 2)

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Para ilustrar um dos conceitos centrais da teoria do Caos, segundo o qual “ínfimas diferenças nas condições iniciais de um dado sistema não linear podem provocar grandes diferenças nas condições finais”, o matemático e meteorologista Edward Lorenz deu a uma conferência, proferida em 1972 na American Association for the Advancement of Science, um título que se tornou lendário: Predictability: Does the Flap of a Butterfly’s Wings in Brazil Set Off a Tornado in Texas? Esta sugestão de que o bater das asas de uma borboleta num canto do mundo pode provocar catástrofes naturais nos seus antípodas, através de um intrincado novelo de causas e consequências, instalou-se solidamente no imaginário colectivo, transformando-se num dos mais persistentes lugares-comuns científicos.
No primeiro conto do livro, há um homem que conjectura possíveis aplicações deste “Efeito Borboleta”:

Um polícia romeno dá um pontapé numa porta em Bucareste e causa um sismo na Gronelândia; uma mulher beija o amante e acelera o ataque cardíaco do marido; reguadas numa escola primária do Cairo originam bátegas em Auckland; um dos seus gatos mata uma mosca e cai um avião na Patagónia.

O desafio que hoje se lança aos leitores deste blogue é o seguinte: propor outros exemplos de Efeito Borboleta, obedecendo ao esquema da citação acima. Ou seja, quatro orações em que “X faz qualquer coisa que provoca uma reacção Y em Z”.
Estas frases podem ser lineares, barrocas, irónicas, poéticas, o que quiserem. Os autores dos cinco melhores trabalhos que chegarem aos endereços de e-mail deste blogue até terça-feira, dia 24, às 24h00, receberão pelo correio um exemplar da obra, oferecido pela Oficina do Livro.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Teoria das Nuvens, de Stéphane Audeguy (Teorema), por José Mário Silva
Jardins de Kensington, de Rodrigo Fresán (Cavalo de Ferro), por Rogério Casanova
A Cara da Gente, de Baptista-Bastos (Oficina do Livro), por Ana Cristina Leonardo
Vida Extenuada, de Fátima Maldonado (& Etc), por Manuel de Freitas
A Mãe de Todas as Histórias, de José António Almeida (Averno), por António Guerreiro
O Espaço Vazio, de Peter Brook (Orfeu Negro), por Francisco Frazão
– entre outros

Bibliografia recomendada para o jogo desta tarde (ou como chutar a bola para Kant)

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O único imperativo categórico é ganhar, dizendo com elegância auf wiedersen a Ballack, Schweinsteiger, Podolski e companhia.

Adenda – E pronto, acabou-se. Já não vou ter que procurar capas de livros do Ivo Andrić ou do Orhan Pamuk, para antecipar a meia-final. Já com a cabeça em Londres, Scolari manteve Ricardo (o guarda-redes mais ridículo do mundo) e tramou Sócrates. Agora, o país vai descer outra vez à terra, vai enfrentar outra vez a realidade sem anestesias patrioteiras. E a realidade, por estes dias, não é coisa bonita de se ver.

Adenda à adenda – A seguir vem o Campeonato do Mundo na África do Sul (2010), não é? Então se calhar podemos ir relendo este romance, em jeito de pré-estágio:

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Resultados do passatempo ‘Efeito Borboleta’

Em poucas horas, ficou tudo resolvido. Da dezena e meia de respostas que chegaram à caixa de correio electrónico do BdB, dez acertaram na mouche. A resposta certa ao desafio lançado aqui era: “O ensaio Nova refutação do tempo, incluído no livro Outras Inquirições” (houve quem fizesse questão de enviar os títulos em castelhano).

Os cinco leitores mais rápidos, e por isso premiados, foram:

  • Bruno dos Reis (Aveiro)
  • Leonel Vicente (Lisboa)
  • Joaquim Duarte (Vila Boa, Barcelos)
  • Santiago Lupino (Leiria)
  • João Ferrão (Lisboa)

Aos que tentaram e não conseguiram, uma mensagem: não desanimem. Amanhã será lançado aqui outro passatempo, com mais cinco exemplares para oferecer. 

Um exemplo da ‘Gramática Histórica’ de Liberto Cruz

Este poema experimental, sobre o poder ou a incapacidade dos verbos, foi originalmente publicado em 1971:

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Para os mais míopes, aqui fica uma transcrição da página:

VERBOS

1. Reflexos

eu queixo-me, tu queixas-te, ele queixa-se,
nós queixamo-nos, vós queixais-vos, eles queixam-se.
Todos nos queixamos

2. Perifrásticos

Vamos pôr toda a esperança no futuro do País.
Não podemos deixar de acreditar no bem-estar dos
nossos filhos.

3. Incompletos

Ser homem
Estar sujeito
Ficar eleito
Parecer defeito
Continuar feito

A temática, 37 anos depois, não envelheceu assim tanto como isso, pois não?

Lembrete

Mais logo, por volta das 18h30, é lançada na Casa Fernando Pessoa a reedição (revista, corrigida e actualizada) do livro Gramática Histórica (Roma Editora), de Liberto Cruz. A apresentação estará a cargo de Ernesto de Melo e Castro.

PS – Houve quem tentasse adiar o jogo de Portugal com a Alemanha, para precaver a sobreposição dos eventos, mas já se sabe como é a insensibilidade literária da UEFA.

Passatempo ‘Efeito Borboleta’

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Com o apoio da Oficina do Livro, o Bibliotecário de Babel lança hoje um passatempo: os cinco primeiros leitores que responderem correctamente a uma pergunta relativa ao conto Parábola, publicado no post anterior, ganham um exemplar do livro Efeito Borboleta e outras histórias.
Eis a pergunta:

Jorge Luis Borges analisa a história em que Chuang-Tzu sonha com a borboleta num ensaio publicado em 1952. Qual o título do ensaio e do livro em que esse ensaio foi incluído?

As respostas devem ser enviadas para um dos dois endereços electrónicos deste blogue, indicados na coluna da esquerda (Correio). Aos vencedores, será posteriormente solicitada uma morada postal para envio dos livros.

Parábola

Toda a gente conhece a história de Chuang-Tzu.
Um dia, o mestre taoísta sonhou que era uma borboleta e, ao despertar, já não sabia se era um homem que sonhava ser uma borboleta ou uma borboleta que sonhava ser homem.
A história, porém, não termina aqui, onde toda a gente julga que ela acaba. Chuang-Tzu (ou terá sido a borboleta?) foi apanhado mais tarde na rede literária de Jorge Luis Borges e a borboleta (ou terá sido Chuang-Tzu?) foi apanhada na rede literal de Vladimir Nabokov.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, nas livrarias a partir de 23 de Junho]

Parabéns, MAV

Manuel Alberto Valente, actual director editorial da Porto Editora, foi nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo governo francês. Christine Albanel, ministra da Cultura, declarou que assim se distingue o “notável contributo” de Valente para a divulgação da cultura francesa.
O editor confessou-se “surpreendido, mas feliz” pela condecoração recebida, fazendo questão de a partilhar com “todos aqueles – autores, editores, jornalistas – que, ao longo de quase trinta anos, contribuíram para o meu entusiasmo pela literatura e pela cultura francesas”.

Vislumbres de um género em expansão

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Primeira antologia de micro-ficção portuguesa
Organizadores: Rui Costa e André Sebastião
Prefácio: Henrique M. B. Fialho
Editora: Exodus
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-989-8048-75-2
Ano de publicação: 2008

Até há pouco tempo vista como um género marginal, e talvez por isso quase invisível no plano mediático, a micronarrativa está a ganhar cada vez mais espaço e importância no panorama editorial português. Se na Internet já havia um vasto rol de praticantes da ficção muito curta, agrupados em torno de uma excelente revista online (Minguante) ou espalhados por blogues individuais, só em 2008 é que o fenómeno começou a chegar às livrarias. Ao mesmo tempo que era lançada esta Primeira antologia de micro-ficção portuguesa, a editora Angelus Novus criou uma colecção de micronarrativa (inaugurada com livros de Augusto Monterroso e Rui Manuel Amaral). Indicador do interesse crescente pelo género é o facto de neste momento a procura no Google pelo termo “micronarrativa”, em páginas de Portugal, chegar perto das 1600 referências. No seu prefácio à antologia, escrito em finais de Janeiro, Henrique Manuel Bento Fialho queixava-se de ter obtido, para a mesma pesquisa, “pouco mais de 500 resultados”…
Embora não se furte às complexas questões classificativas (por exemplo, a fronteira entre «nanoconto» e «miniconto»; ou as várias terminologias em língua inglesa, de flash fiction a short short story), Fialho estabelece no seu “esboço” de ensaio uma genealogia do género, tanto global – dos enigmas maias a Confúcio, Omar Khayyam, Baudelaire, Machado de Assis, Ramón Gómez de la Serna ou Raymond Carver – como especificamente portuguesa (de Mário-Henrique Leiria a Gonçalo M. Tavares, passando por Luís Pignatelli ou Ana Hatherly). Além da “confusão que instala entre poesia e prosa”, destaca-se na escrita sintética a capacidade de “anulação das fronteiras” entre as várias formas de expressão literária.
Entre os 22 autores escolhidos para esta antologia, muitos deles bloggers, há belíssimas descobertas (Pedro Amaral, Rafael Miranda, Rui Almeida, Rute Mota), confirmações (Henrique M. B. Fialho, Luís Ene, Paulo Kellerman, Rui Costa) e duas boas surpresas (o tradutor Filipe Guerra e a poeta Inês Lourenço). As restantes escolhas, sujeitas às flutuações qualitativas da praxe, não comprometem o objectivo principal: dar a conhecer a diversidade temática e estilística que este género em expansão permite.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Mr. Gore Vidal, igual a si mesmo, aos 82 anos: «It’s my interview, so we’ve got to stay with me»

«(…) Are you a supporter of gay marriage?
I know nothing about it. I don’t follow that.

Why doesn’t it interest you?
The same reason heterosexual marriage doesn’t seem to interest me.

If we look at the situation apart from you…
It’s my interview, so we’ve got to stay with me.

Have you ever considered leaving the United States permanently?
No, it’s my subject.

Do you read a lot of contemporary fiction these days?
Like everyone else, no, I don’t.

Anyone in the 20th century you might have a kind word about?
Yes, I liked Italo Calvino, and I thought he was the greatest writer of my time.

Your new collection includes an essay in which you note, “Calvino does what very few writers can do: he describes imaginary worlds with the most extraordinary precision and beauty.” What about American novelists?
Can’t think of one.

Norman Mailer?
Oh, dear, we’re not going to go into pluses and minuses now.

(…) What do you think is your own best novel?
I don’t answer questions like that. Ever. And you ought not to ask them.

Well, it was a great pleasure talking to you.
I doubt that.»

[Retirado daqui]

‘o apocalipse dos trabalhadores’

Estou muito curioso em relação ao novo romance do valter hugo mãe, que chegará aos escaparates das livrarias em Julho, com chancela da QuidNovi.
Depois da sórdida Idade Média, o presente precário. Ou seja, este tempo duro que é o nosso, com desemprego e imigrantes mal integrados (se bem percebi a ideia do trailer).

Prémio de conto da APE para Ondjaki

O autor angolano Ondjaki, que acaba de lançar um romance (AvóDezanove e o Segredo do Soviético, Caminho), foi hoje distinguido pela Associação Portuguesa de Escritores com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, pelo seu livro Os da Minha Rua (Caminho). O prémio, no valor de cinco mil euros, é patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

Bibliografia recomendada para o jogo de hoje (a posteriori)

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Foi bonito. A selecção portuguesa, grata pela hospitalidade dos suíços, fez tudo o que estava ao seu alcance para que os anfitriões do Euro 2008 saíssem de forma airosa. Para começar, deixou no banco oito-onze-avos da equipa principal. Depois, vendo que mesmo assim o seu futebol era muito superior ao dos adversários, refinou os procedimentos: Nani fez pontaria à barra e ao poste, Postiga marcou um golo limpo no mesmo segundo em que comunicava por telepatia com o árbitro auxiliar (levando-o a assinalar um fora-de-jogo inexistente), Pepe deu um passo atrás para tornar válido o primeiro golo de Hakan Yakin e até Meira esticou a perna para fazer penalty a poucos minutos do fim, confirmando a derrota.
A seu modo, Robert Walser teria gostado desta história de amor em que é o abandonado, eufórico, a festejar o seu abandono.

Um poema de José Luiz Tavares (a propósito de FP)

MADRUGADA DO CHIADO
(Desconversando com F. Pessoa)

Múltiplo solitário poeta
com o universo inteiro na cabeça,
eis-te agora sentado em extática glória
aqui onde te assopram ao ouvido
os lodosos detritos dos dias
e as líquidas profecias
gizadas ao refluir das luzes.

Triste despessoado fernandinho,
aqui posto em estado de estátua,
a rara chuva destes dias
já não aleita as raízes donde crescem
as visões – roubam-te o desassossego
com o escárnio da madrugada e os tráficos
que a noite desfecha contra o sono,

mas ainda te ouço sonhador ao griso
que descampa este largo (pois sem sonho
não há glória), embora o enxame turístico
empalideça o manso rufar das náufragas estrelas,
as madrugadas de fêveros ecos
quando o universo cisma nas razões que cunham
a solidão e seu luminoso rasto debruando a alba.

Dos desastres da pátria, nem te falo:
tu que navegaste soçobrados sonhos
de império, hoje és segura escada para cátedra;
não te cotaram ainda em bolsa, mas é coisa
para ser pensada, agora que no fundo da arca
nenhum enigma se dissimula, nem o arroto
que prateia algum verso descartável.

Sei que rumoreja mal o altivo rogo por entre
o tinir dos copos nas mesas da esplanada
onde se empoleira a viçosa vacuidade do mundo
e não há porfia que acenda o coração amortalhado,
drenando ainda, como intérmina rebentação,
fulgores de vinho sorvidos com a mansidão de um
touro, mas manda sempre a este que não é teu devoto,
porém, como tu, peregrina sob o essencial desamparo,
à acrílica mansidão com que a treva nos acolhe.

[via Os Livros Ardem Mal]

JG Ballard by himself

Just because you’re right, it doesn’t mean you shouldn’t be viewed with great suspicion“, diz o autor de Crash, numa extraordinária conversa com James Campbell, publicada ontem no The Guardian.

Este blogue apoia

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Fica dito aqui e fica dito na coluna da direita, mesmo por baixo da pub.

Saramaguianos de todos os países, uni-vos!

A Fundação José Saramago ainda não tem um site activo, mas o blogue, esse, já arrancou. E com um apelo à participação dos saramaguianos, enquanto auto-designada “espécie autóctone”:

“Nós, os saramaguianos, uma espécie autóctone que se produz em vários continentes e em qualquer terreno, estávamos a precisar de um blog para trocarmos as nossas impressões de leitores atentos. Já o temos, agora vamos tratar de o fazer respirar todos os dias.”

A destruição subterrânea

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Um Segredo
Autor: Philippe Grimbert
Título original: Un Secret
Tradução: F. Coelho
Editora: Livros de Seda
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-972-970-616-7
Ano de publicação: 2008

Neste aclamado segundo romance (vencedor de vários prémios, entre os quais o Goncourt des Lycéens 2004), Philippe Grimbert, psicanalista de profissão, utiliza os instrumentos da narrativa ficcional de fundo autobiográfico para recuperar uma dramática história familiar, acontecida antes do seu nascimento (1948). Filho único de pais atléticos e belos “como estátuas gregas”, o protagonista lida mal com a sua fragilidade de rapaz enfermiço, a que não faltam imperfeições físicas (“joelhos proeminentes”; “braços aracnídeos”). Para preencher um certo vazio, inventa um irmão imaginário, “mais velho, mais forte (…), glorioso, invisível”, até ao dia em que descobre a existência sempre negada de um irmão a sério; melhor dizendo, de um meio-irmão, fruto do primeiro casamento do pai.
Aos 15 anos, as mentiras que lhe protegeram a infância começam a ruir, uma a uma. Além de se descobrir judeu, identidade que o pai quis ocultar pela troca de duas letras do apelido (transformando Grinburg em Grimbert), na esperança de que a diferença ortográfica lhe permitisse “lançar raízes profundas no solo de França”, Philippe vai confrontar-se aos poucos com a forma como os progenitores realmente se apaixonaram e viveram o seu amor cheio de interditos (eram cunhados), durante os anos da ocupação nazi, momento histórico que dividiu ao meio não só o país como muitas famílias. Olhar para o passado, através das memórias alheias, equivale a abrir a caixa de Pandora. Porque o tempo que assim se resgata é um poço cheio de culpa e acasos dolorosos: se o meio-irmão Simon e a sua mãe, Hannah, não tivessem acabado em Auschwitz devido a um erro estúpido, os pais de Philippe nunca concretizariam a sua paixão proibida e ele nunca teria visto a luz. Mesmo à distância, o Holocausto contamina tudo com as suas cinzas. E «a obra de destruição empreendida pelos carrascos alguns anos antes do meu nascimento prosseguia assim, subterrânea, disseminando remessas de segredos, de silêncios, cultivando a vergonha, mutilando os patronímicos, gerando mentira».
O verdadeiro segredo de Grimbert (o escritor) está no modo como conseguiu cerzir, com delicadeza, os fios de uma história fortíssima, faltando apenas à sua prosa um pouco mais de audácia.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

O ‘meu’ poema de Fernando Pessoa foi escrito por Álvaro de Campos a 15 de Janeiro de 1928

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossìvelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos sêres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e êste lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz de propósito nenhum, talvez tudo fôsse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos,
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que seu eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fêz.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segrêdo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma
parede sem porta,
E cantou a cantiga de Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num pôço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sôbre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrêlas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e êle é opaco,
levantámo-nos e êle é alheio,
Saímos de casa e êle é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões tôdas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de fôlha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida dêstes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprêso sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fôsse viva,
Ou patrícia romana, impossìvelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –,
Tudo isso, seja o que fôr, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degrêdo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbedo tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconfôrto da cabeça mal voltada
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Êle morrerá e eu morrerei.
Êle deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas
como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da
superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entra na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever êstes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de tôdas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal
disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fôsse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo trôco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria
sorriu.

Biblioteca e espólio de Pessoa na Net

Eis uma excelente prenda de aniversário. Espero agora que ela passe rapidamente da declaração de intenções à prática. Quando se lê que “será através do site [da Casa Fernando Pessoa] que, no futuro, os interessados irão poder folhear virtualmente os livros do poeta”, prevendo-se “para breve” a disponibilização online de “algumas dezenas de páginas, a título de arranque simbólico da iniciativa”, é bom ter presente que o referido site está num estado comatoso há vários anos.

120 anos

Pessoa por PV

Ilustração pessoana de Pedro Vieira, concebida para a montra da livraria Almedina (Atrium Saldanha), assinalando o facto de o sr. Fernando António Nogueira Pessoa ter nascido a 13 de Junho de 1888, faz hoje um século e quatro lustros.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges