“Não foi surpresa nenhuma”

João Ubaldo Ribeiro abdicou da hipocrisia ao comentar, para a GloboNews, o facto de lhe terem atribuído o Prémio Camões 2008.

[via Ciberescritas]

E um dia a Obra morre

«Iñaki Echavarne, Bar Giardinetto, Rua Granada del Penedés, Barcelona, Julho de 1994. Durante um tempo a crítica acompanha a Obra, depois a crítica desvanece-se e são os Leitores quem a acompanha. A viagem pode ser longa ou curta. Depois os Leitores morrem um por um e a Obra continua sozinha, se bem que a pouco e pouco outra Crítica e outros Leitores vão acompanhando a singradura. Depois a Crítica morre outra vez, e os Leitores morrem outra vez, e sobre essa esteira de ossos a Obra continua a sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar no seu rasto, é sinal inequívoco de morte certa, mas outra Crítica e outros Leitores se lhe aproximam, incansáveis e implacáveis, e o tempo e a velocidade devoram-nos. Finalmente, a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidade. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirão o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo o que começa como comédia acaba como tragédia.»

[in Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, trad. Miranda das Neves, Teorema, 2008]

Cem mil

Há poucos minutos, este blogue ultrapassou a fasquia das 100.000 visitas (correspondentes a mais de 167 mil pageviews). Aos leitores que por aqui têm passado nestes oito meses, o meu agradecimento.

‘A Criança n.º 44′ (o booktrailer)

Booker: os 13 finalistas

Já é conhecida a longlist do Prémio Man Booker deste ano: 

  • The White Tiger, de Aravind Adiga (Atlantic)
  • Girl in a Blue Dress, de Gaynor Arnold (Tindal Street Press)
  • The Secret Scripture, de Sebastian Barry (Faber & Faber)
  • From A to X, de John Berger (Verso)
  • The Lost Dog , de Michelle de Kretser (Chatto & Windus)
  • Sea of Poppies , de Amitav Ghosh (John Murray)
  • The Clothes on Their Backs, de Linda Grant (Virago)
  • A Case of Exploding Mangoes , de Mohammed Hanif (Jonathan Cape)
  • The Northern Clemency, de Philip Hensher (Fourth Estate)
  • Netherland , de Joseph O’Neill (Fourth Estate)
  • The Enchantress of Florence , de Salman Rushdie (Jonathan Cape)
  • Child 44, de Tom Rob Smith (Simon & Schuster)
  • A Fraction of the Whole, de Steve Toltz (Hamish Hamilton)

Neste momento, segundo a casa de apostas Ladbrokes, o favorito é Salman Rushdie:

  •  4/1 Salman Rushdie – The Enchantress of Florence
  • 5/1 Aravind Adiga – The White Tiger
  • 6/1 Joseph O’Neill – Netherland
  • 6/1 Linda Grant – The Clothes on Their Backs
  • 10/1 Tom Rob Smith – Child 44
  • 10/1 Amitav Ghosh – Sea of Poppies
  • 12/1 Sebastian Barry  –The Secret Scripture
  • 12/1 John Berger – From A to X
  • 12/1 Michelle de Krester – The Lost Dog
  • 12/1 Gaynor Arnold – Girl in a Blue Dress
  • 14/1 Mohammed Hanif – A Case of Exploding Mangoes
  • 14/1 Philip Hensher – The Northern Clemency
  • 16/1 Steve Toltz – A Fraction of the Whole

Depois de Howard Davis, o chairman do júri deste ano é Michael Portillo, antigo deputado conservador. Neste momento, dos 12 romances finalistas, apenas um está editado em Portugal: A Criança n.º 44, de Tom Rob Smith, pela Dom Quixote.

Acima do limite humano

capa_Morte na Pérsia

Morte na Pérsia
Autora: Annemarie Schwarzenbach
Título original: Tod in Persien
Tradução: Isabel Castro Silva
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 141
ISBN: 978-972-8955-65-6
Ano de publicação: 2008

De vez em quando, há autores que saem do limbo a que as contingências históricas (ou infortúnios pessoais) os relegaram, durante décadas, para nos maravilharem com belíssimos livros inéditos. Foi o caso da russa Irène Némirovsky e do seu portentoso Suite Francesa (Dom Quixote): um romance inacabado que esperou mais de 60 anos numa mala. E é o caso de Annemarie Schwarzenbach, uma escritora, fotógrafa e viajante suíça cuja obra só começou a ser publicada na década de 90 – meio século após a sua morte, aos 34 anos, na sequência de uma queda de bicicleta em 1942 (curiosamente, o mesmo ano em que Némirovsky desapareceu no horror de Auschwitz).
Morte na Pérsia, primeira escolha de Carlos Vaz Marques para a nova colecção da Tinta da China dedicada à literatura de viagens, é uma obra difícil de catalogar. Embora nela se desenhe uma visão do país que a autora percorreu de lés a lés, depois de se casar, em 1935, com Claude Clarac (diplomata francês instalado em Teerão), a sua prosa nunca resvala para a objectividade pobre dos guias turísticos ou para a evocação pitoresca da cultura iraniana, associada por muitos europeus aos eflúvios mágicos das 1001 noites.
Logo na primeira frase da nota prévia, Schwarzenbach deixa o aviso: “este livro trará pouca alegria ao leitor” e nem sequer “o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer”. Se a Europa ficou para trás por uma questão de consciência, compreensível à luz das suas idiossincrasias (era antifascista, morfinómana e lésbica), nunca se chega a compreender muito bem o que procurava na aridez que se espraia do Mar Cáspio ao Golfo Pérsico, com “cordilheiras cinzentas de basalto, desertos amarelos cor de lepra, vales lunares sem vida, ribeiros de greda e rios de prata, onde bóiam peixes mortos”. A dada altura, Malraux pergunta-lhe: “O que é que espera da Pérsia?” Ela não consegue explicar-se mas o escritor francês intui a resposta: vai para lá “só porque fica muito longe“.
É essa distância em relação a tudo que Annemarie procura e alcança, ao cabo de um percurso de “desvios”, “escapatórias” e “falsos caminhos”, que a fazem passar pelas escavações arqueológicas das ruínas de Persépolis ou pela cidade morta de Rages, antes de atingir, por desfiladeiros e encostas íngremes, o “cone liso” do monte Damavand. Ali, junto a um vulcão extinto, no vale de Lar (a que chamam “o fim do mundo”), ela encontra o mais solitário dos lugares, “já acima do limite humano”, onde se pode entregar à vertigem do medo e do desespero em que a mergulhou o desenlace da história de amor falhada com Ialé, uma jovem moribunda que não conseguiu salvar.
O tom é o de um diário “impessoal”, escrito sem nunca se “aproximar demasiado” das coisas que a cercam, mas nem esse voluntário desprendimento faz adormecer, por um momento que seja, a extraordinária capacidade de observação de Schwarzenbach. Quem lê estas páginas vai sentindo na pele o sol branco do meia-dia, o calor agreste que faz tremer o ar, a desmesura das montanhas que parecem despenhar-se no céu. E as paisagens sucedem-se, ao mesmo tempo nítidas e difusas, como aguarelas: “Os navios que atracam têm velas cor de púrpura. Por vezes vemos fogo no horizonte negro e pensamos que há um incêndio num dos barcos. Mas é apenas a lua a subir.”
Em certas passagens, esta escrita revela um descontrolo emocional típico de quem está à beira do abismo, um excesso de pathos (veja-se as conversas com o “anjo”) que quase deita tudo a perder. E se o livro não se desconjunta é porque por ele passa um sopro lírico tão forte como as ventanias que atravessam os vales perdidos no interior da Pérsia. Um sopro lírico que nos arrebata e eleva.

Avaliação: 8/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

O Último Teorema de Clarke

O jornal Daily Telegraph pré-publicou, em exclusivo, algumas páginas do derradeiro e póstumo romance de Arthur C. Clarke, escrito a quatro mãos com Frederik Pohl: The Last Theorem, com lançamento em breve pela Harper Voyager. Nem de propósito, a narrativa descreve uns Jogos Olímpicos realizados, não em Pequim, mas na Lua.

Buda ditoso

João Ubaldo

João Ubaldo Ribeiro (pós-Camões) por Pedro Vieira

O problema da rotatividade

A questão que aqui se levanta é legítima mas algo forçada. De uma maneira ou de outra, toda a gente sabe que o Prémio Camões foi – e é – atribuído segundo uma escala de rotatividade entre os países mais poderosos da CPLP. Basicamente, a coisa divide-se entre o Brasil e Portugal (relembre-se: os países que instituíram o prémio e o pagam), com um desvio por Moçambique ou Angola, de tempos a tempos, para não melindrar demasiado as gentes. No fundo, mais do que um prémio literário, é um prémio político. E é como prémio político que deve ser entendido.
Depois de António Lobo Antunes ter ganho em 2007, não creio que algum autor português com obra digna de consagração estivesse à espera de ser escolhido este ano. Por isso, o suposto lapsus linguae do presidente do júri, Ruy Espinheira Filho, ao admitir que desta vez a discussão estava limitada, à partida, a autores brasileiros, não é a prova de um qualquer processo de escolha “inquinado” mas antes a confirmação de um modus operandi que já se tornara mais do que óbvio para qualquer observador minimamente atento.
Concorde-se ou discorde-se da lógica subjacente ao Prémio Camões, ele é o que é. Aliás, ele é (e continuará a ser) o que sempre foi. Uma escolha política. Não me parece que valha a pena pensar que pode ser outra coisa.

‘Morte na Pérsia’ (o booktrailer)

[via blogue da Pó dos Livros]

Dois poemas em prosa de José Ángel Valente

Escrever é como a segregação das resinas; não é acto, mas lenta formação natural. Musgo humidade, argilas, limo, fenómeno do fundo, e não do sonho ou dos sonhos, mas de barros escuros onde as figuras dos sonhos fermentam. Escrever não é fazer, mas sim aposentar-se, estar.

***

Jogar o jogo. Às primeiras, o jogo é torpe, sujeito a regras imitadas. Até que chega o dia em que se começa a jogar o jogo dentro do jogo, simplesmente, nas movediças fronteiras da sombra e da luz. Jacinto, ferido mortalmente pelo disco de Apolo, renasce na intensificada fragrância da flor. Jacinto e Apolo jogam: o lance é o da morte e da ressurreição.

[in revista DiVersos, n.º 13, Junho de 2008, trad. de António Cabrita]

O país que temos

A conferência de imprensa em que seria anunciado o Prémio Camões deste ano estava marcada para as 17h30. O Prémio Camões é o mais importante dos galardões atribuídos a escritores de língua portuguesa; ou seja, um dos mais importantes acontecimentos culturais no espaço da lusofonia. Na minha ingenuidade, supus que pelo menos o canal público de televisão se dignasse a transmitir a conferência de imprensa em directo. E por isso, contra os meus hábitos, sentei-me diante do televisor a meio da tarde. Enquanto a SIC e a TVI exibiam comédias e filmes de acção, a RTP1 repetia mais um episódio de Dança Comigo, a RTP2 transmitia um jogo de hóquei em patins e a RTPN informava, em rodapé, que “o Prémio Camões é atribuído hoje”, enquanto passavam reportagens sobre assuntos menores da actualidade.
Esperei até às 18h40, em vão, e depois soube que João Ubaldo Ribeiro tinha ganho. Como? Desligando a TV e acedendo à internet. Já se sabe que se algum futebolista chamasse a imprensa para dizer que quer mudar de clube, as emissões seriam interrompidas para um “directo”, mas João Ubaldo, o grande João Ubaldo, ficou pendurado no rodapé e só teve direito a peças de dois minutos nos telejornais da noite, lá para o fim do alinhamento. Alguém fica surpreendido? Eu não. Há muito que deixei de esperar mais do que isto do país que temos.

Prémio Camões 2008 para João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro

A 20.ª edição do Prémio Camões, o mais importante dos que distinguem autores de língua portuguesa (valor: cem mil euros), acaba de ser atribuída ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Istambul – Memórias de uma Cidade, de Orhan Pamuk (Presença), por José Guardado Moreira
Carla e Nicolas – Crónica de uma Ligação Perigosa, de Paul-Éric Blanrue e Chris Laffaille (Alêtheia), por Luísa Meireles
Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach (Tinta da China), por José Mário Silva
Portugal Classificado, de Nuno Simas (Alêtheia), por João Mesquita
Os Portugueses no Faroeste – Terra a perder de vista, de Donald Warrin e Geoffrey Gomer (Bertrand), por Rogério Casanova
Fantasmas de Espanha, de Gilles Tremlett (Alêtheia), por Fernando Venâncio
As Viúvas das Quintas-Feiras, de Cláudia Piñeiro (QuidNovi), por Vítor Quelhas
Wilt na Maior, de Tom Sharpe (Teorema), por Luís M. Faria

Mais um prémio de poesia para Amadeu Baptista

Desta vez foi em Espanha, na Galiza. A XVI edição do Prémio de Poesia Espiral Mayor, ao qual concorreram 206 obras, foi atribuída por unanimidade ao livro Açougue, de Amadeu Baptista, que receberá 15 mil euros. O júri, composto pelos poetas Xosé María Álvarez Cáccamo, Xavier Rodríguez Baixeras e Miguel Anxo Fernán Vello, destacou a originalidade da “estrutura do conjunto poético, com uma base autobiográfica”, assim como a sua “capacidade de evocação do passado”, que permite desenhar uma crónica pessoal que “ilumina” uma espécie de “crónica colectiva” do povo português.

APEL já tem novo presidente

É, previsivelmente, Rui Beja (Lisboa Editora) – ou não fosse ele o único candidato ao cargo. Segundo a APEL, Beja recebeu o total dos votos da assembleia eleitoral, «que corresponde a 25 por cento dos 300 associados». Da direcção fazem ainda parte João Espadinha (Presença), Henrique Mota (Principia), Pedro Cabrita Carneiro (Círculo de Leitores/Bertelsmann) e Ana Neves (Livrarias El Corte Inglés). Fotos do acto eleitoral aqui.

Prémio Camões

Esta tarde, pelas 18h30, António Lobo Antunes receberá o Prémio Camões 2007 nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, encerrando simbolicamente a VII Cimeira da CPLP. A distinção será entregue pelos presidentes de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, e Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.
Amanhã, pelas 17h30, será anunciado em conferência de imprensa o vencedor do Prémio Camões 2008 (que, se continuar a ser seguida uma lógica de rotatividade entre os países lusófonos, não deverá ser português).

Foi assim

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Uma mesa, dois livros, três microfones, quatro pessoas: Marcelo Teixeira (Oficina do Livro), Ana Sá Lopes, eu, Pedro Mexia.

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No fim, com proverbial lentidão e caligrafia de escola primária, assinei 23 livros em 35 minutos. A anos-luz, portanto, de Salman “Pepe Rápido” Rushdie.

Foi bonita a festa, pá (2)

O auditório encheu-se de rostos esperados e outros inesperados (mais bloggers do que no primeiro lançamento, amigos que não via há muitos anos e até uma antiga colega do curso de Biologia que me envergonhou: “não sabes a que espécie pertence a borboleta da capa? tsss, tsss, tsss, olha que é das mais vulgares”). Antes disso, já o lepidóptero batera asas por todo o lado, do estômago da Ana Sá Lopes (que se confessou aterrorizada por ter de falar em público, mas depois se saiu muito bem numa exposição breve e, também ela, sem “tralha”) ao vestido verde da minha filha, guardado há várias semanas para a ocasião. Depois de “ouvir os senhores” atentamente (“e sem fazer barulho, pai!”), a Alice confessou-me ter gostado de tudo, mas em particular das “tuas histórias” na voz do Pedro Mexia, que além das coisas todas que faz (crítica literária, poesia, blogue, cinemateca) pode agora candidatar-se ao emergente mercado da leitura para audiolivros.
No fim da sessão, as borboletas da capa voltaram para o escaparate normal, provocando no caminho sabe-se lá que maravilhas e desastres no outro lado do mundo.

Depois de Leonard Cohen e Lou Reed (salvo as devidas distâncias), eis um outro dilema para quem não tem o dom da ubiquidade

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Às 18h30, na Fnac do Chiado, a jornalista Ana Sá Lopes apresenta o meu livro de micronarrativas (algumas das quais serão lidas pelo Pedro Mexia). Exactamente à mesma hora, na Fnac do Colombo, a jornalista Isabel Lucas apresenta o romance do valter. Eu, se pudesse escolher, ia ao Colombo. Mas vocês, na dúvida, atirem uma moeda ao ar.

O declínio dos conquistadores

Já havia melancolia que chegasse no subtítulo da obra autobiográfica de Zézé Camarinha: “o último macho man português”. Mas o golpe de misericórdia foi dado pela Fnac, ao colocar o donjuanesco catálogo (profusamente ilustrado com imagens das “amigas” suecas e irlandesas, estendidas ao sol na Praia da Rocha) em décimo lugar no seu top. Quer dizer, no seu top dos livros de ficção.

Encostem-se à parede

capa_Bansky

Um título do caraças (hello, mr. Tolstoi) para um artista do camandro.

portugal

«não é meu, respondeu ela ao maldito. e ele sorriu e disse, entra, portugal. o animal saltou o degrau e pôs-se dentro de casa como se soubesse tudo sobre estar ali e lhe pertencesse cada coisa. a maria da graça não reagiu. correu para a cozinha e sentou-se para não desmaiar. o bicho foi ao encontro dela em alguns segundos. quer quisesse, quer não, o cão era como seu, afinado pelos seus passos para as quatro patas que mexia. ela viu-o bem visto pela primeira vez e gritou para o senhor ferreira que, afinal, a espreitava já na porta da cozinha, temos de lhe pôr um nome, há que saber como chamar pelo traste, para se habituar a ter-nos medo quando nos ouvir gritar-lhe. e o senhor ferreira respondeu, mas já lhe dei o nome, não ouviu, chama-se portugal. é como se tivesse nascido hoje ou, melhor, como se hoje fosse festa, digna de baptizado e tudo. e ela respondeu, então devia ser república ou implantação, qualquer coisa assim. mas seriam mais nomes para menina, e muito feia. nada disso, retorquiu ele, é portugal. e ela aceitou, respondeu, é nome de menino, embora feio. apaziguou-se muito pouco, de início, depois mais, e vendo o animal tão comportado disse, é um rectângulo castanho, um ridículo rectângulo castanho, deve estar cheio de pulgas e chama-se portugal. tem razão, é um bom nome. vamos dar-lhe banho.»

[in o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe, QuidNovi, 2008]

Segundo round

Logo à tarde, pelas 18h30, acontecerá na Fnac do Chiado, em Lisboa, a segunda apresentação do livro Efeito Borboleta e outras histórias, feita pela jornalista Ana Sá Lopes. A leitura de textos estará a cargo de Pedro Mexia.

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Apareçam.

Biblioteca de Arte da Gulbenkian no Flickr

“estão disponíveis a qualquer pessoa que faça uma busca no Flickr (uma rede social destinada à partilha de fotografias na Internet) mil imagens das colecções da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian”. As imagens podem ser consultadas aqui.

Termos alfarrabísticos

É quando arrumo certos livros no bibliotáfio que mais valor dou à bibliopeia.

Novo site da APEL

Fica aqui. E está melhor, mais fácil de utilizar, mais útil.

Sortilégios, incensos, magias

capa_'FilhoJAB'

Filho Pródigo
Autor: José Agostinho Baptista
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-37-1313-8
Ano de publicação: 2008

Este é o livro de um regresso difícil: o de José Agostinho Baptista (JAB) às suas raízes, à geografia da infância que a memória e o trabalho da escrita foram transfigurando. A ilha da Madeira, presente em muitos dos seus livros (enquanto paradoxo, fantasma ou ausência), emerge aqui como o problemático locus em que o sujeito poético revê o fio dos seus dias e se questiona.
“Não é impunemente que se nasce num lugar”, sugere António Fournier no texto introdutório. Há um peso que persegue quem foge da claustrofobia atlântica, procurando outras paragens, mas JAB parece ter sobrevivido ao “despaisamento” dos ilhéus de que falava Nemésio. A “reserva mítica que alimentava a sua poesia”, escreve Fournier, resistiu “à travessia de uma passagem secreta”, e por isso “a matéria bruta continua intacta, as fontes da sua melancolia não secaram”.
Há, de facto, uma constância nos modos da linguagem poética de JAB, um tom de litania que prolonga as obsessões temáticas e os ritmos das obras anteriores. O desencanto diante de um país “sem esplendor”, triste “pátria onde tudo apodrece”, sinaliza um mal-estar mais vasto, que abrange todo o mundo ocidental neste início de um século “cruel” e “indigno”. O tom apocalíptico conduz-nos por toda a sorte de desastres e abismos, até ao paroxismo do “bolor” que se adensa “nas folhas do livro do / desespero”.
A esta “demência” da realidade, a este “envenenamento da alma”, contrapõem-se “sortilégios, incensos, magias”. Ao redescobrir os espaços originais da sua vida, JAB procura recuperar um sentido que a passagem por outros meridianos destruiu. Diante das forças elementares da natureza, procurando até fundir-se com elas, “o poema surge para, / em sobressalto, / retomar o destino de uma solidão primitiva”, através da mão que escreve “misteriosamente comovida” e sustenta os alicerces de uma mitologia pessoal. Dessa mitologia fazem parte a paisagem – com as suas encostas a pique, o mar que ruge “imprecações”, a “penha d’águia” –, mas também o culto dos mortos, cujos rostos perduram “numa moldura de fulgor / e orquídeas”. Partindo de um olhar sobre a terra (“sou aquilo que vejo”), esta poesia vai acumulando imagens suspensas e “evidências submersas”, algumas de uma beleza visceral: “E eles iam e vinham, esses pássaros, / (…) enquanto o crepúsculo acciona o rumor das / suas armas.”
Aqui e ali, porém, a capacidade metafórica começa a tender para o esgotamento e para a repetição, um pouco à semelhança do que aconteceu com António Ramos Rosa. Em várias passagens deste livro, JAB podia ter controlado melhor o ímpeto do seu lirismo, que às vezes parece funcionar em piloto automático e espalha versos frágeis por poemas que mereciam ser tão perfeitos como Voz:

Vindo do oeste, ao fim da tarde,
era quase branco o pássaro que pousava
naquele jardim,
na árvore do pai.

E então, como quem esquece as razões de uma
profunda mágoa,
eu podia adormecer serenamente,
ouvindo a sua voz nos ramos da cerejeira,
chamando devagar.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Um conto perfeito

Este. O facto de ser tudo verdade (mesmo se uma verdade tão secreta que nos aparece assim, oblíqua) é irrelevante.

Qualquer coisa como medo

«O que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.) Numa manhã, ela senta-se diante da sua tenda e olha para lá do rio. No outro lado estão as mulas escondidas pela erva alta da margem. A erva verga-se ao sopro do vento como uma seara, e o vento traz também para o desfiladeiro o fumo que se escapa da porta do tchai-khan. Os coudéis do xá, vindos das pastagens, chegam nos seus cavalos brancos e malhados, já estafados, e com gritos fazem-nos passar a galope os bancos de saibro. O sol do meio-dia é forte e branco. O vento parece arrastá-lo consigo, juntamente com as nuvens e a poeira. Os olhos cansam-se de olhar para cima. Rochedos cinzentos, basalto contra azul, dor sem esperança. Se pousamos por algum tempo o olhar na água negra, rápida, quebrada, sentimos uma vertigem, qualquer coisa como medo.»

[in Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2008]

O bater de asas de uma borboleta no espelho retrovisor de um automóvel pode provocar a queda de um barco de recreio no telhado de um vizinho

São mesmo infinitas, as aplicações do Efeito.

Nenhures também não é mau

Nesta altura do ano, quase toda a gente vai para sítios concretos: Caraíbas, Algarve, Fonte da Telha, esplanada na Marginal ou, hélas, para o escritório (esperando que o ar condicionado não avarie). Ora onde eu gostava de estar é onde está o Jorge Fallorca: algures.

Aproveitemos

No que resta de Julho e em Agosto, a livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67 B, Lisboa) fará descontos de 20 e 30% nos livros de arte e de viagens.

A vida, modo de acelerar

capa_'Esta Historia'

Esta História
Autor: Alessandro Baricco
Título original: Questa Storia
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 293
ISBN: 978-972-20-3212-4
Ano de publicação: 2008

Numa madrugada de 1902, Libero Parri leva o filho, não a ver o gelo (como em certo livro famoso de Gabriel García Márquez), mas antes uma maravilha menos efémera: um automóvel. A visão daquela “coisa estranha” e na altura ainda rara, monstro metálico emergindo de uma nuvem de pó a “velocidade inaudita”, sela o destino da família Parri. O pai, camponês do Piemonte, venderá, dois anos mais tarde, as suas 26 vacas para montar uma garagem no meio do nada, à espera de um futuro em que as máquinas de quatro rodas andarão por todo o lado. E Ultimo, o rapazola de cinco anos, não mais deixará de perseguir aquela espécie de vertigem mecânica.
No entanto, a vida de Ultimo nunca se chega a confundir com a dos pioneiros da indústria automóvel. Mais do que o som dos pistões ou a anatomia dos motores, o que lhe interessa é “a estrada”, a forma dos caminhos que se insinua tanto no “perfil de uma colina” como na “anca de uma mulher”. O seu desígnio, descobre um dia, é “construir uma pista para automóveis de corrida” como ainda ninguém inventou: um lugar fechado onde se anda às voltas e “não se vai a lado nenhum”.
Esta História acompanha a concretização desse desígnio, mas infelizmente a dispersão narrativa de Baricco, empurrada pelos seus experimentalismos formais e por um estilo que abusa das frases de efeito, fura os pneus ao que podia ser um fresco do século XX – ou, pelo menos, uma elegia à aceleração das vidas humanas trazida pelos avanços tecnológicos. Baricco não resistiu a incluir no livro os dramas da I Guerra Mundial (focando-os na catastrófica retirada das tropas italianas em Caporetto) e a centrar o enredo no implausível romance entre Ultimo e Elizaveta, uma aristocrata russa que fixa quase tudo num diário, entre 1923 e 1969. Quando esta consegue, por fim, ressuscitar o circuito com 18 curvas que condensa a vida do amante perdido, um engenheiro pragmático avisa-a: uma tal pista é “intrasitável”. Como este romance, acrescentamos nós, lamentando ver desbaratada de forma inglória uma ideia fortíssima.
Os tropeções e equívocos de Baricco não retiram brilho, porém, ao extraordinário prólogo do romance (Ouverture sobre uma épica corrida Paris-Madrid, em 1903, tão acidentada que não chegou ao fim). Só por estas 14 páginas, exemplo perfeito do que a literatura pode e deve ser, vale a pena comprar um livro que não chega a cumprir o que o seu arranque avassalador promete.
Nota final para a cuidadíssima tradução de Simonetta Neto, capaz de atravessar, sem uma arranhadela, as sinuosas idiossincrasias do estilo de Baricco.

Avaliação: 4,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Um poema de Hugo Claus

GRAVO-TE NO PAPEL

(do poema O Grilo de Pedra)

Minha mulher, meu altar pagão,
que toco e afago com dedos de luz,
meu bosque viçoso onde hiberno,
sinal neurótico, terno, impudico,
gravo o teu bafo e o teu corpo no papel
em papel de música pautado.

E contra o teu ouvido sussurro horóscopos felizes
e falo-te de viagens à volta do mundo
com paragem na Áustria ou coisa do género.

Mas apesar dos deuses e dos signos do Zodíaco
a felicidade eterna também se cansa,
e eu não tenho casa, não tenho cama,
nem flores para te oferecer nos teus anos.

Gravo-te no papel
enquanto inchas e desabrochas como um pomar em Julho.

[do livro Een huis dat tussen nacht en morgen staat, Uma casa entre a noite e a alvorada, trad. de Ana Maria Carvalho, revista DiVersos n.º 13, Junho de 2008]

A Livrododia vista por um adulto de 36 anos

É menos vertiginosa e pixelizada do que esta, captada por uma criança de seis anos:

Em vez da correria com câmara à mão (ou máquina fotográfica digital à mão?), eu optaria por uma sequência de planos fixos da escola Manoel de Oliveira, longos de cinco minutos para se perceber como é a atmosfera de uma das melhores livrarias que tive o prazer de visitar nos últimos tempos, durante umas férias que apontaram, não por acaso, à zona Oeste.

422

São 422, os romances originais concorrentes ao Prémio LeYa. Quatrocentos e vinte e dois cães a um osso. E um osso que no fim de contas pode não passar de uma ilusão.

As nossas palavras ditas por outros

Como aqui, na 36.ª estação de inverno, um programa de João Blake, emitido pela rádio Zero.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi), por Álvaro Manuel Machado
Mais uma Noite de Merda nesta Cidade de Treta, de Nick Flynn (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
A Escrava de Córdova, de Alberto S. Santos (Porto Editora), por Luísa Mellid-Franco
Pensadora entre as Coisas Pensadas, de Agustina Bessa-Luís e Aniello Angelo Avella (Guimarães), por António Valdemar
A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, de Bill Bryson (Quetzal), por Luís M. Faria
Deus Apesar de Tudo, de Jacques Duquesne (ASA), por Mário Robalo
A Cultura Integral do Indivíduo – Conferências e outros escritos, de Bento de Jesus Caraça (Gradiva), por Nuno Crato
Filho Pródigo, de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim), por José Mário Silva

Tirar a limpo

Tal como eu temia, o comentário que transcrevi no post anterior é de um anónimo interessado em armar confusões e não do verdadeiro António Luís Catarino, que se apressou a enviar-me este e-mail:

Já não é a primeira vez que acontece. Inclusivamente, no seu blogue, já apareceu o mesmo tipo de comentários de alguém que se faz passar por mim. Não, não sou eu e seria impossível qualquer tipo de venda da Deriva. Fundei a editora, tenho por ela um carinho muito especial e mantenho o mesmo projecto editorial com as pessoas que se identificam connosco. Ultrapassando todas as dificuldades que vão aparecendo pelo caminho. Devido a este tipo de comentários em meu nome formalizarei, na próxima semana, uma queixa-crime contra desconhecidos no DIAP do Porto, estando a ouvir alguns conselhos legais e a ultimar os documentos necessários para o efeito.
Obrigado pelo seu pedido de esclarecimento.
Os meus sinceros cumprimentos,
António Luís Catarino

Resta saber, agora, qual é afinal a editora que Paulo Teixeira Pinto tenciona adquirir.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges