A Deriva de Paulo Teixeira Pinto?

Por vezes, há notícias que estão mesmo à nossa frente e parece que ninguém dá por elas. Na sexta-feira, o blogue da revista Ler escreveu que “Paulo Teixeira Pinto poderá anunciar muito em breve a sua nova operação no meio editorial português – trata-se da aquisição de uma editora”. Agora reparem no quinto comentário a esse post. Diz assim:

“Apenas para dizer que estamos muito honrados por termos sido escolhidos por Paulo Teixeira Pinto, sobretudo pelo nosso catálogo de nova poesia portuguesa. A Deriva é uma editora que tem lutado por impor-se, e finalmente conseguiu-o. Um enorme agradecimento a todos quantos nos ajudaram nesta missão.”

Quem assina o comentário é um ALC que remete para este perfil público da plataforma de blogues do Sapo. Ora acontece que António Luís Catarino é o nome do principal responsável editorial da Deriva, cabendo-lhe nomeadamente a actualização do respectivo blogue.
Se o comentário foi de facto escrito por António Luís Catarino, temos notícia. Se o comentário pertence a um qualquer anónimo engraçadinho, temos apenas mais um exemplo de como a internet pode induzir em erro.
Assim que souber qual das duas opções está certa (e estou neste momento a tentar descobrir), digo qualquer coisa.

Nulle Part

Ne cueille pas les fruits tardifs ou les semailles abandonnées ni ne récolte des épines ce qui fut jeté aux épines : tu serais sot. Pourquoi approuver ce que les autres méprisèrent ? Si tu cherches la sagesse et l’instruction ne campe pas dans le collège des prévaricateurs, même s’ils te promirent du vin et de la manne ; leur vin fut craché para eux et la manne te fut offerte après une dégustation insipide. Il est préférable que tu ne les connaisses point. Réserve toute inclination matinale pour la réflexion vespérale. Elle t’aidera à franchir la première comme de l’or expérimenté et d’accord avec les lois. Tu épargneras ainsi beaucoup de jours à ta souffrance. Sois attentif à tout ce que tu rejetas et médite. Il est possible que tu oublies le visage dont tu te dévias ; ou qu’en te déviant une fois tu puisses maintenant mieux savoir le motif et ainsi ne pas te dévier, comme souvent dit le sage. Le temps est le plus féroce de tes ennemis. Conduis ta charrue sur du gravier qui te connaît. Et ne te promènes point par des chemins connus des autres. Car de la même façon que ces chemins les connaissent et les ramènent chez eux, ton chemin te ramènera et te reconnaîtra davantage. Tu ne voudrais pas que ton propre chemin se prostitue et qu’il ramène d’autres chez toi. Ce serait inopportun. Ne foule pas le chemin qui est des autres. Te méconnaissant, il te conduirais aussitôt à leur demeure et à leur demeure tu y serais conduit et perdues seront toutes tes épiceries. Ne souffre pas en excès la douleur des autres. Car comment pourrais tu ressentir ta propre douleur une fois épuisée celle des autres ? Songe bien à mes leçons pour qu’elles soient comme une parure dans d’éternelles fiançailles. Aux prévenus appartient la consolation et aux connaisseurs la joie. Il n’y a pas de raison pour militer dans une guerre qui n’est pas la tienne et donner ta chair comme rançon aux tyrans. Les jours te seront légers si tu suis mes conseils. A quoi de bon la précaution si elle n’est pas durable ? Tu ravageras tout ton arsenal dans le plus bref de tes sommeils. Même la plus lourde des nuits se réveille avec la plus silencieuse des étincelles. N’offre pas tes lèvres aux joies précoces ni ta langue aux célébrations éphémères, car nombrables furent ceux qui se réjouirent dans les fêtes étrangères. Quand tu écouteras le cliquetis des cadeaux et le vacarme chez ton voisin, ne soit pas sot d’y courir. En arrivant précipitamment, il est bien possible que tu découvres que c’est toi le motif de la fête et de la raillerie et qu’ils se moquent encore plus de toi. Ton voisin est tant ton voisin comme tu es le sien, et il pourra un jour rire de toi comme toi de lui, car les demeures sont voisines. N’apaise pas tes études et considère sagement mes leçons. Quand tu seras vieux, les années te seront légères et bienfaisantes comme un huile et elles plaqueront tes souffrances. L’imprévoyant dit J’y vais, le sage Vas-y. Quand quelqu’un tombera devant toi, soit attentif aux raisons de sa chute et ne te précipite pas à le soulager comme un sot. Ne dis pas Demain il est possible que ce soit moi, quand tu l’as déjà été hier. Échoués seront tes desseins si tu ne reconnaît pas en toi la férule et l’ardoise. Munis-toi des choses qu’il convient à un élève et n’ose jamais l’enseignement : à quoi de bon enseigner ce que tu connais déjà ? Ce que tu connais est du lait caillé et de la matière morte : suis plutôt de nouveaux chemins.

[Excerto do sermão da personagem «o Sábio», retirado da peça teatral Nenhures (Cotovia), de Daniel Jonas, traduzido para francês por João Pedro da Costa]

Encontro com Poetas do Porto, no Porto

O segundo ciclo de “Encontros com Poetas do Porto” prossegue, no próximo sábado, dia 19, com Daniel Jonas, apresentado por Marta Afonso. Haverá leitura de poemas e diálogo com o público. Lugar: a Fundação Eugénio de Andrade (a partir das 18h30). A entrada é livre.
Para abrir o apetite, publica-se já de seguida mais uma tradução para francês de um texto do Daniel Jonas, feita pelo JPC.

Bertelsmann continua em Portugal

Depois da entrada em cena da LeYa, foram surgindo vários rumores que davam a entender que a Bertelsmann poderia abandonar o mercado português, onde detém o Círculo de Leitores, o grupo Pergaminho e as editoras Temas & Debates, Quetzal e Bertrand (mais a respectiva rede de livrarias e distribuição). Aparentemente, os rumores eram falsos.

Depois da capa da ‘Ler’, os EUA (e o Mundo)

Um poema de Daniel Jonas, traduzido por João Pedro da Costa

LES CANARDS

Les canards qui voguaient au fil
des poèmes de Mandelstam,
encore une fois : les canards qui patinaient
les poèmes de Mandelstam
m’ont rendu visite comme si
un soleil et un lac limpide
m’appartenaient.

Et moi, si indigne de recevoir de
créatures si pures, si blanches,
j’ai essayé de dissuader ces
créatures si pures, si blanches,
de vouloir ainsi apparaître
dans cet atoll
dans ce brai.

[O poema original foi publicado no livro Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia, 2005]

DJ en français

O João Pedro da Costa, velho amigalhaço desta coisa dos blogues, fez-me uma daquelas propostas irrecusáveis:

«Tenho estado a traduzir alguns poemas do Daniel Jonas para Francês e lembrei-me que poderias porventura estar interessado em publicá-las no teu blogue. As traduções foram feitas a pedido do autor que vai estar num encontro de poetas mediterrânicos (…), onde poderá surgir a possibilidade de publicar os mesmos numa editora francesa. Que me dizes?»

E o que é que eu haveria dizer? Que sim, claro. E com todo o prazer. O primeiro poema sai já a seguir.

Prova Oral

Logo à tarde, a partir das 19h00, respondo na Antena 3 às perguntas do Fernando Alvim e da Cátia Simão. A ver se não chumbo.

Melancolia e vento turvo

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Velhos
Autor: Jorge Gomes Miranda
Editora: Teatro de Vila Real
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-95686-3-1
Ano de publicação: 2008

Uma das características da obra recente de Jorge Gomes Miranda – poeta dos mais activos no nosso país (dez títulos desde 2002, em sete editoras distintas) – é o modo como altera o tom e as coordenadas da sua escrita, de livro para livro, criando para cada um deles universos autónomos, com uma lógica interna muito vincada. Se em O Acidente (Assírio & Alvim, 2007) eram os objectos do quotidiano – lâminas de barbear, chávenas, cassetes, molas da roupa – a descrever o embate de um homem contra uma ausência que tudo devora, em Velhos é de um ciclo épico que se trata, com direito a proposição, invocação e dedicatória, mais o improvável coro de tragédia grega, acomodado nas “cadeiras de plástico” de um lar de idosos. “Velhos, divinos velhos, como esquecer-vos?”, pergunta JGM, tratando esses “soberanos escorraçados da beleza” com um respeito que o resto da sociedade, por acção ou omissão, deixou de lhes prestar.
Com os corpos inclinados “na direcção do inverno”, os velhos avançam até ao “proscénio do poema” e ali ficam, à mercê da memória ou de um golpe de súbita ternura, esperando que os leitores não os abandonem à sua sorte. A atmosfera do livro está saturada de melancolia e “vento turvo”, mas também do rancor amargo com que os “patifezinhos de segunda”, sentindo próxima a hora, inventam maldades, embirrações e vinganças para enganar o medo.
Só é pena que alguns poemas de coloquialidade algo forçada, cheios de exclamações (há um com cinco), acabem por comprometer, lá mais para o fim, a coerência até aí impecável do conjunto.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Aos 40, como aos 25

Quinze anos depois de ter sido escolhido como o Booker dos Bookers, o romance Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, mantém o estatuto. Resta saber se alguém será capaz de o destronar na próxima década (e, já agora, se continuará no topo da lista em 2068).

Crónicas de um bibliotecário-ambulante

No domingo, em viagem, ouvi uma reportagem na Antena 1 sobre o Bibliomóvel, uma biblioteca itinerante que anda a espalhar o gosto pelos livros no concelho de Proença-a-Nova (até entre os analfabetos). Depois, descobri o blogue de Nuno Marçal, o homem que conduz a carrinha. Vale a pena espreitar o seu trabalho, mas também ouvir as suas histórias, caso a rádio volte a passar aquela peça notável.

O cartão mais do que perfeito

Efeito Borboleta (o conto), translated

Uma das surpresas que tínhamos previsto para o encontro na Livraria Pó dos Livros, entre mim e o Bruce Holland Rogers, era a leitura mútua de histórias. Eu leria um conto do seu livro Pequenos Mistérios (inclinava-me para este, mas O Rei Duende talvez impressionasse mais a assistência), enquanto o Bruce dar-me-ia a honra de dizer em voz alta o primeiro texto do livro Efeito Borboleta, traduzido à velocidade da luz (e com diálogos em tempo real via GTalk) pelo Luís Rodrigues.
À laia de magro consolo, aqui deixo essa versão em inglês:

The Butterfly Effect
José Mário Silva

The man stands in front of the mirror. It’s September outside, and the wind carries leaves, detritus and dust away with it, the wind shakes the branches of trees, pushes black clouds threatening rain, the wind sweeps everything away outside, and the man watches his face closely, as if he had never seen those three horizontal creases on his forehead, the mole by his lower lip, the pale gray bags under his eyes or the wisp of white hair that overhangs his temple.
The man is very still. He looks in the mirror and thinks of all he has to do that afternoon. Mow the lawn, move the firewood into the cellar, prune the rosebushes, pen a few letters, play chess with the Colonel, translate a few lines from Horace, take a sip of warm rum, listen to some of Froberger’s pieces for harpsichord, read Baudelaire aloud to an assembly of cats, fasten the attic windows against the wind.
The man imagines himself carrying out these tasks. Each movement of the afternoon, individualized. Pushing the lawnmower, flexing his knees and bending down to pick up the wood, squeezing his right hand around the pruning shears. He mentally performs every one of these actions as if he were able to isolate them from his own body.
The man does not move. He thinks back on the article he read half an hour ago. Downstairs, while sitting in his armchair, with a cat on his lap and a cup of tea in his hand. Appearing in a science magazine, the article outlines a theory which — broadly — states the following: minute variations in the initial condition of a system may produce greater variations in its outcome. The author gives this phenomenon a name, the butterfly effect, and provides a suggestive image: a butterfly flapping its wings somewhere in the Amazon Rainforest may cause a tornado over in Texas. This idea upsets him. Worse yet, this idea brings about a kind of paralysis in him.
The man is puzzled. He considers many possible applications of the butterfly effect. A Romanian police officer kicks down a door in Bucharest and causes an earthquake in Greenland; a woman kisses her lover and hastens her husband’s heart attack; palms struck by a ruler in a Cairo school cause heavy rain to fall in Auckland; one of his cats kills a fly and a plane crashes in Patagonia.
The man is in agony. In his mind, reality takes on the form of an immense web where everything is connected, where everything depends on everything else. He is the center of this web. And invisible strings will not allow him to move.
The man gives up. He is still because he is afraid any sudden move will wreck a ship. He is afraid every cut rose will raze a city. Standing motionless in front of the mirror, he will hardly breathe now, convinced that his moving body will eventually destroy the world.

Uma pena

Regresso a casa, abro o GMail e deparo logo com a má notícia: por motivos de força maior, o escritor Bruce Holland Rogers teve que cancelar a sua vinda a Portugal. Logo agora que eu me preparava para defender a honra dos lepidópteros face à biologicamente comprovada superioridade dos passariformes:

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Espero que o encontro de quarta-feira não tenha sido cancelado de vez mas apenas, como diria o Rogers, postponed.

Segunda oportunidade

No próximo dia 24, quinta-feira, pelas 18h30, na FNAC do Chiado, acontecerá outra apresentação pública do livro Efeito Borboleta e outras histórias. Desta vez, Ana Sá Lopes falará sobre a obra e Pedro Mexia lerá alguns dos contos.

Mini-férias

Hoje recebi por e-mail um anúncio a piscinas em betão, “a preço low cost” (sic). Foi uma espécie de sinal. O Verão chegou de vez, com a silly season atrás. E este blogue vai parar durante uma semana, para que o respectivo blogger possa recuperar do excesso de canseiras acumuladas nos últimos meses.
Quando estiver de volta, lá para dia 14, talvez o ritmo de actualização melhore. E se houver uma boa rede de cibercafés na costa oeste, a norte de Peniche, pode ser que apareça por aqui algum post tresmalhado (mas não prometo).
Até já.

A consistência da internet

Agora a exposição A Consistência dos Sonhos também pode ser percorrida virtualmente, online.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Lacrimae Rerum, de Slavoj Žižek (Orfeu Negro), por Francisco Frazão
Correspondência e Textos Dispersos (1942-1979), de Joaquim Paço d’Arcos (Dom Quixote), por António Valdemar
Lápis Mínimo, de Ana Marques Gastão (Oceanos), por Álvaro Manuel Machado
Fidel, de José Fernandes Fafe (Círculo de Leitores), por Nair Alexandra
Rumo ao Farol, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Rogério Casanova
A Ferver, de Bill Buford (Sextante), por Luís M. Faria
Duluoz, o Vaidoso, de Jack Kerouac (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Esta História, de Alessandro Baricco (Dom Quixote), por José Mário Silva
– entre outros

1001 Culturas

Hoje e amanhã, na Fábrica do Braço de Prata (Lisboa), discute-se “Esquerda e cultura”, sob o lema “o futuro já não é o que era”. O programa é excelente e abre esta tarde (17h45) com uma conversa de Nuno Ramos de Almeida com Slavoj Žižek, sobre “Esquerda, cultura e pensamento crítico, hoje”. A não perder.

Dois poemas de Manuel A. Domingos

Talvez o conheçam como blogger, mas ele é também poeta, agora com um segundo livro a chegar às livrarias. Intitula-se Mapa e vale a pena uma pessoa perder-se lá dentro.
Eis a capa:

mapa.jpg

E eis dois poemas:

quando nos juntávamos
o tema era sempre
o mesmo. mas muitas
vezes discutiam-se
outros, e até ideias como
a imortalidade ou
não da alma: e fumar
tornava-se mais
pertinente. as conclusões
ficavam sempre
com cada um, ou então
deixadas em cima da mesa,
à espera que alguém as limpasse.
eram longos e luminosos
os dias, apesar do preto
que predominava
nas nossas roupas
e em alguns poetas
que líamos, de quem
decorávamos sempre
alguns versos. como
por exemplo estes:
«Par délicatesse
j’ai perdu ma vie».

LONDRES

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes. nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.

Pássaros & Borboletas

A livraria Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar, 89 A, Lisboa) acolhe, no próximo dia 16, pelas 18h30, um encontro sobre micronarrativa “e o que de fascinante ela tem para quem a produz e quem a lê”. Lado a lado, estarão um gigante (Bruce Holland Rogers, autor de Pequenos Mistérios) e um pigmeu (este vosso humilde escriba).
Nesse mesmo dia 16, tem início o Curso de Escrita Criativa que Bruce Holland Rogers vai dar em Lisboa, integrado nos Cursos de Verão da FCSH da Universidade Nova.

A misteriosa gramática da Ciência

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A Matemática das Coisas
Autor: Nuno Crato
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 246
ISBN: 978-989-616-241-2
Ano de publicação: 2008

Distinguido pela Comissão Europeia, já em 2008, com um European Science Award, Nuno Crato é um divulgador científico exemplar, num país em que os docentes universitários raramente partilham com o comum dos mortais os seus saberes. Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), além de presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, Crato mantém há 12 anos uma actividade intensíssima de divulgação na imprensa, na rádio e na TV, a que tem acrescentado diversas reflexões sobre os problemas do sistema de ensino nacional.
Didáctico sem deixar de ser lúdico, Crato volta a trocar por miúdos A Matemática das Coisas, num volume que recolhe 45 textos breves, quase todos publicados no semanário Expresso. O subtítulo da obra – “Do papel A4 aos atacadores de sapatos, do GPS aos engarrafamentos de trânsito” – dá desde logo o mote para uma abordagem que, não abdicando do rigor, se pretende ligeira. Ou seja, o objectivo do autor é não apenas revelar “a extraordinária eficácia da matemática para a descrição, compreensão e previsão dos fenómenos naturais” (característica que fez dela, ao longo dos séculos, a “misteriosa gramática da ciência moderna”), mas igualmente exemplificar como ela “atravessa o nosso dia-a-dia”.
É de exemplos concretos, muitas vezes ilustrados por infografias (quase sempre mal paginadas, diga-se), que Crato parte. Dos algoritmos que permitem resolver problemas de partilha de um bolo entre amigos, ou aperfeiçoar sistemas de criptografia electrónica, ao funcionamento do GPS e dos faróis, passando pela importância dos interruptores ou pela diferença entre loxodromia e ortodromia, o espectro de temas tratados é vastíssimo. Tão vasto que inclui ainda a influência da matemática nas obras de Pablo Picasso, M. C. Escher e Jackson Pollock, o número de ouro, os sólidos platónicos ou a famosa máquina Enigma (usada pelos nazis para codificação dos seus segredos militares, durante a II Guerra Mundial; e que os ingleses conseguiram decifrar, ao reunir um dream team de sábios numa mansão em Bletchley Park, perto de Londres).
Crato escreve com grande clareza, num estilo acessível ao mais leigo dos leigos, sendo capaz de resumir em poucas linhas os contributos dos grandes matemáticos do passado (Pedro Nunes, Euler, Gauss, von Neumann, etc.). Em certos casos, porém, esta capacidade de síntese é levada longe demais e os textos acabam por saber a pouco. É que num jornal, onde imperam as limitações de espaço, ainda se tolera ver o Rossio metido na Rua da Betesga. Num livro, não.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 70 da revista Ler]

Auto-perguntas

O número 100 da revista Granta, com a sua espantosa capa concebida por David Hockney e uma lista de participantes de cair para o lado (Martin Amis, Julian Barnes, Alan Hollinghurst, Hanif Kureishi, Doris Lessing, Mario Vargas Llosa, Ian McEwan, Harold Pinter, Salman Rushdie, Nicholas Shakespeare, entre outros), traz lá dentro um desafio curioso lançado por Tobias Wenzel, um jornalista freelancer que vive em Berlim, a vários escritores por ele entrevistados.
Explica Wenzel:

«”I have never been asked by a journalist what my favourite colour is”, Frank McCourt told me once, with a tinge of irony and some disappointment. His statement made a link to a problem that I have experienced for a long time as a literary journalist: the doubt that I might forget a question, a question that could be crucial to the person I was interviewing. So, two years ago, I decided to turn my anxiety into a game. At the end of each interview, I asked the writer to adopt the role of the interviewer, asking him- or herself a question and then supplying the answer.»

O projecto tem um site, já deu origem a um livro e algumas das auto-perguntas vão aparecendo ao longo desta edição especial da Granta.
Aquelas de que mais gostei foram as de Hans Magnus Enzensberger:

«Mr. Enzensberger, why are you not unhappy?
The time I have left is too precious for that.»

De Jonathan Franzen:

«Mr. Franzen, you’re at a point in your life and in your career where you really don’t have to pose for photographs anymore. You’ve been photographed hundreds of times. You could just say: no more. Why don’t you do that? Why are you so agreeable when people ask to take your picture?
Well, Mr. Franzen, that’s a very good question. I think I do it because it would be even more costly of energie to try to say no. I do it because it’s the path of least resistance. I do it because sometimes it’s easier just to be nice. It’s a way of preserving privacy paradoxically to put yourself out there and smile for the camera. When you say yes, you’re controlling something which by saying no you might be not in control of. The more you show of yourself the more protected you are. I don’t know how that works. But that’s the way it feels.»

E de Richard Ford:

«Richard Ford, do you know what’s important to you?
No, but I can make it up.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges