Férias

Daqui a nada, parto para Sul. Doze dias de praia, livros e, hélas, teletrabalho. Em princípio, o ritmo deste blogue abrandará substancialmente. Mas, como levo comigo uma placa de banda larga, nunca se sabe.

Comemoração

«Sete de cada lado, as mulheres assistindo, todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira. Cinqüenta anos, mas conservadíssimo. E brilhando em campo.
Foi depois do Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda.
Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara morder a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda.
O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava, agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco, o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração. Para aprender.»

[in Orgias, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2008]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Um Diário de Leituras, de Alberto Manguel (ASA), por Ana Cristina Leonardo
- Dicionário dos Falares dos Açores, de J. M. Soares de Barcelos (Almedina), por Carlos Bessa
- Erótica do Vinho, de Jean-Luc Hennig (Campo das Letras), por José Mário Silva
- Quaresma Decifrador – As Novelas Policiárias, de Fernando Pessoa (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
- A Última Concubina, de Lesley Downer (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
- Cabeça de Ferro, Vários Autores (Imprensa Canalha), por Sara Figueiredo Costa
- Morte no Bosque, de Harlan Coben (Presença), por Paulo Nogueira
- A Terceira Mãe, de Julieta Monginho (Campo das Letras), por Luísa Mellid-Franco

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (6)

António Guerreiro

António Guerreiro (crítico literário do Expresso):

«Um dos campos de reflexão teórica que mais me mobiliza é a filosofia e a epistemologia da história e as questões da relação entre memória e história. Por isso, um dos livros que levei para ler nas férias foi um dos títulos fundamentais de Reinhart Koselleck (1923-2006), aquele em que o historiador alemão desenvolve a sua teoria da semântica dos tempos históricos. Intitula-se Vergangene Zukunft (Futuro Passado) e foi publicado em 1979.

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Foi este mesmo interesse que me levou a um autor inglês da época vitoriana, pouco conhecido e mal amado pelas suas posições altamente reaccionárias: Thomas Carlyle (1795-1881). Este inclassificável escritor escocês escreveu palavras inflamadas a favor da escravatura e reflectiu em termos apologéticos sobre o culto dos heróis. Foi aliás referindo-se a esta concepção de que a história universal era a história dos grandes homens que Borges o classificou como um precursor do nazismo.

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De Thomas Carlyle, li um dos seus livros mais estranhos e mais inclassificáveis (nomeadamente quanto ao género: é um ensaio, expõe teorias, mas também tem elementos de ficção) que tem o título latino Sartor Resartus (1833). Este livro foi muito importante para o historiador de arte alemão Aby Warburg. Foi através de Warburg que cheguei a ele.»

Concursos literários sub-21 e sub-18

Sub-21: aqui.
Sub-18: aqui.

Novidades da Guerra & Paz

Até ao final do ano, a editora Guerra & Paz vai apostar nos seguintes livros: Porto Versus Lisboa, escrito a quatro mãos por António Eça de Queirós e António Costa Santos; Salazar na Intimidade, por Cristina Arvelos; 101 Heróis, de Simon Sebag Montefiore; Os 12 Erros que Mudaram a História de Portugal, de João Vasco Almeida; O Homem que Matou Sidónio Pais, de Paulo Barriga e Alberto Branco; Agente ZigZag, de Ben Macintyre; O Rapaz que Caiu do Céu, de Ken Dornstein; A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, de John Gray; além da reedição, num formato diferente, de As Meninas, com textos de Agustina Bessa-Luís a partir de quadros de Paula Rego.

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O Mau Leitor

O mau leitor começa a ler um conto intitulado O mau leitor e julga, a príncipio, tratar-se da história de uma personagem fictícia chamada “o mau leitor”. Só depois da primeira frase é que o mau leitor se apercebe que o conto talvez esteja dirigido simplesmente ao leitor que, agora mesmo, lê estas palavras. De que forma pode um leitor ser considerado mau? Antes, que leitor não é por vezes um mau leitor?
O mau leitor consegue lembrar-se de pelo menos um exemplo de ter sido mau, de ter visto “É uma hora” quando, na realidade, a frase dizia “É uma nora”. O mau leitor recorda-se de não ter apanhado aquela pista que todos parecem ter descoberto na história policial. Ou talvez o mau leitor não se recorde de nenhuma ocorrência de má leitura, sendo que, nesse caso, o leitor tem memória fraca ou uma imaginação pobre. Há mais do que uma forma de se ser mau leitor.
Nesta altura da história, o mau leitor começa a ofender-se com o escritor. Decerto haverá algum princípio da escrita que este conto viola. Um escritor que insulta o seu leitor só pode ser parvo. Os leitores não querem insultos. Um mau leitor, um que não seja suficientemente astuto para detectar o objectivo da história, é capaz de se enervar bastante ao ser insultado. O mau leitor é capaz de achar que um conto intitulado O mau leitor não é nada um conto, mas um acto de vingança. O mau leitor é capaz de achar que o preguiçoso do escritor o ataca em vez de se dar ao trabalho de escrever um conto a sério.
Na realidade, é igualmente provável que o leitor ache muita graça ao texto. Eis a que ponto é mau este leitor. Eis a que ponto pode ao mau leitor escapar o sentido da coisa.
Perto do final, o mau leitor chega a uma frase animadora: “O mau leitor lê na divisão mais pequena da casa.”
Ora, quem não lê na divisão mais pequena da casa? Mas o mau leitor pensa, Não sou o mau leitor descrito no conto. Também leio noutras divisões!
O mau leitor experimenta uma sensação de tranquilidade. Uma sensação enganadora.
O mau leitor, tendo terminado a leitura do conto, não voltará a pensar nele. Ou, pior, continuará a pensar no conto sem lhe discernir o verdadeiro e subtil significado.

© Bruce Holland Rogers (texto)
© Luís Rodrigues (tradução)

The Bad Reader

The bad reader begins to read a story called “The Bad Reader” and thinks at first that the story will be about a fictional character called “the bad reader.” Only after the first sentence does the bad reader consider that the story may actually be aimed squarely at the reader who is, even now, reading these words. In what sense can the reader be considered bad? Rather, what reader is not sometimes the bad reader?
The bad reader can think of at least one example of having been bad, of having seen “It was hot Tuesday” when the sentence actually read “It was not Tuesday.” The bad reader remembers having missed the clue that everyone else seems to have detected in the detective story. Or perhaps the bad reader can think of no instances of bad reading, in which case the reader has a poor memory or a weak imagination. There is more than one way to be a bad reader.
At this point in the story, the bad reader begins to resent the writer. Surely there is some principle of writing that this story violates. A writer who insults the reader must be a fool. Insults are not what readers want. A bad reader, one who isn’t smart enough to detect the purpose of the story, might get quite worked up about being insulted. The bad reader might feel that the story called “The Bad Reader” is not a story at all but an act of revenge. The bad reader might think that the lazy writer is attacking the reader instead of doing the hard work of writing a real story.
Actually, the bad reader is just as likely to think that the story is clever. That’s how bad the bad reader is. That’s how badly the bad reader can miss the point.
Near the end, the bad reader comes to a reassuring sentence: “The bad reader reads in the smallest room of the house.” Well, who does not read in the smallest room of the house? But the bad reader thinks, I am not the bad reader portrayed in this story. I read in other rooms as well!
The bad reader feels a sense of assurance. A false sense.
The bad reader, having finished reading the story, will not give it another thought. Or, worse, will keep thinking about the story without teasing out its true and subtle meaning.

© Bruce Holland Rogers

Um conto inédito de Bruce Holland Rogers

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Bruce Holland Rogers, o escritor com quem era suposto encontrar-me em Julho, é um mestre da ficção curta. Além de um site dedicado à flash fiction, ele criou um sistema de assinaturas através do qual, por uma módica quantia (dez dólares anuais), os seus leitores recebem 36 histórias, ao ritmo de três por mês. É precisamente uma dessas histórias, enviada por e-mail há poucas semanas e nunca antes publicada em livro (ou noutro formato), que o Bibliotecário de Babel se orgulha de publicar já a seguir, primeiro na versão original e depois traduzida para português por Luís Rodrigues, nem mais nem menos do que o tradutor de Pequenos Mistérios (Livros de Areia), a primeira obra de Rogers editada no nosso país.
Enjoy.

[A ambos, Bruce Holland Rogers e Luís Rodrigues, o meu agradecimento.]

No melhor pano cai a nódoa

A páginas 263 do romance de Rawi Hage, o protagonista (Bassam) fica fascinado com a forma como a empregada do hotel parisiense onde ficou a dormir sacode os lençóis da cama. Ele contempla os lençóis a “descerem vagarosa e elegantemente”, acompanha os gestos da rapariga e dá livre curso às suas fantasias sexuais:

«Quando lhe ofereci um cigarro, ela sorriu e disse que não fumava. Pegou no meu cinzeiro e esvaziou-o para um saco. Perguntei-lhe o nome. Perguntei-lhe de que país era. E quando lhe peguei na mão e exclamei: “Linda de Portugal, vou esperar que venhas ao meu quarto todos os dias! Deixa-me acariciar-te o peito, deixa-me cair suavemente sobre ti”, ela já tinha retirado a mão e saído apressada do quarto, empurrando o carrinho das limpezas para o elevador de serviço, enfiando a cabeça entre as portas antes que se fechassem para se certificar de que eu não a seguira e não a segurara pela cintura e não lhe ofereçera dinheiro e não lhe soprava à orelha e não carregava no botão de stop do elevador e não lhe desapertava o avental branco.
Depois disto, foi um homem mais velho quem veio limpar o meu quarto. Empurrava o mesmo carrinho e lançava-me olhares que diziam: “Eu conheço-te, eu conheço os do teu tipo, o tipo daqueles que se sustentam à custa de ajudantes de cozinha, de mães solteiras que trabalham arduamente, de trabalhadoras ilegais e de empregadas de limpeza silenciosas.” Não me cumprimentou, antes me tratou com desdém, tornando o voo suave dos lençóis brancos numa queda suicida, num acidente de aviação, privando-me das aterragens suaves feitas com as mãos de Linda, pelas quais eu tanto ansiava.
– Onde é que está a Linda? – perguntei-lhe.
Ele falou comigo com hostilidade, num francês com um forte sotaque português.
– Mantém-te afastado da minha sobrinha, percebe isso! – disse ele, cuspindo na carpete e precipitando-se violentamente para a porta que fechou atrás de si.»

Como se não bastasse esta cena, uma das poucas excrescências do livro, com o seu chorrilho de lugares-comuns (a femme de ménage do hotel parisiense que é portuguesa e se chama Linda, só faltando ser de Suza; a pose de ofendida da moçoila; o tio cioso da sua eventual virgindade, a cuspir na carpete e tudo), como se não bastasse este momento etnográfico de pacotilha, Hage volta à carga umas páginas mais à frente e coloca Bassam, arrependido, a tentar pedir desculpa ao tio de Linda. Numa perseguição rua fora, interpela-o 15 vezes com um insistente “Señor” (assim mesmo, em castelhano) até que o tio, farto daquilo tudo, arruma o assunto gritando “Conyo!“.
Alguém devia ter explicado ao escritor libanês a diferença subtil entre o idioma de Camões e o de Cervantes. Além disso, se o “senhor” português dispensa o “ñ”, não é menos verdade que ele é essencial no “coño” espanhol (interjeição que um português, por outro lado, jamais utilizaria, mesmo com um libanês muito chato à perna).
O mais grave, porém, não é a ignorância de Hage no campo das línguas ibéricas. O mais grave é saber que isto passou pelos olhos da tradutora (e dos revisores) sem que ninguém dissesse: “Não faz sentido, o melhor é contactar o autor, explicar-lhe a situação e corrigir o disparate.”

Futurês

Quer saber como é que a língua inglesa será falada daqui a mil anos? Então espreite aqui.

Simonetta na primeira pessoa

Após 40 anos de serviço na Administração Pública, Simonetta Luz Afonso vai reformar-se no final do mês, deixando o Instituto Camões. Em declarações ao Diário de Notícias, dá a entender que sai de consciência tranquila e resume os seus próximos objectivos:

«Vou dedicar-me à família – tenho uma neta de quatro anos que me faz grande companhia –, vou ler os livros que tenho para ler e [fazer] as viagens que tenho para fazer. E cozinhar, um dos meus hobbies»

Os 20 anos da Cotovia

A editora Cotovia começou a publicar no Outono de 1988 e vai assinalar a data redonda com um ciclo de conferências no Centro Cultural de Belém (cuja programação e datas anunciaremos em breve). As celebrações também se reflectem numa maior concentração de lançamentos no último trimestre do ano. De entre os livros que devem sair já em Setembro, destacam-se o volume com três novelas de Teresa Veiga (Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín), a antologia de contos publicados e dispersos de Jacinto Lucas Pires (Assobiar em Público), mais um volume da colecção Sabiá (Um Crime Delicado, de Sérgio Sant’Anna) e o novo livro de poesia de Luís Quintais (Mais espesso que a água).

José Luís Peixoto, lá fora

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A carreira internacional de José Luís Peixoto continua de vento em popa. A edição americana do romance Nenhum Olhar, lançada há cerca de um mês pela editora Nan A. Talese, com o título The Implacable Order of Things, está a ter uma boa recepção crítica. Mais importante ainda, o livro foi seleccionado para a restrita lista semestral “Discover Great New Writers” da cadeia de livrarias Barnes & Noble, a maior dos EUA (com mais de 70% de quota no mercado livreiro).
A partir de Setembro, Peixoto fará uma ronda por diversos eventos literários norte-americanos, tanto em meios académicos (universidades de Rutgers e Brown) como no muito concorrido Festival Literário de Brooklyn, em Nova Iorque, em que também participam autores como Jonathan Franzen, A. M. Homes, Paco Ignacio Taibo II, Joan Didion, Naomi Wolf e José Eduardo Agualusa.
Entretanto, Cemitério de Pianos, editado em França pela Grasset, vai ter agora uma edição de bolso na Folio (Gallimard). O êxito deste romance em Espanha (onde ganhou o Prémio Cálamo 2007), levou a editora El Aleph a reeditar Nadie nos Mira (Nenhum Olhar) e a primeira narrativa do escritor: Te me moriste (Morreste-me). Em Outubro, a mesma chancela lançará ainda o romance Uma Casa na Escuridão.

A cabeça sobe e desce, como que levemente desprendida do pescoço

No final da sua crítica dupla publicada no Expresso de dia 15 (a O Cheiro da Índia, de Pier Paolo Pasolini, e a Uma Ideia da Índia, de Alberto Moravia; duas faces da mesma moeda), o Francisco Frazão escreveu: «É ler a descrição da “maneira de os indianos dizerem sim”, tão bela e comovente que vale o livro: é na página 23 e a “sua religião está nesse gesto”». No jornal, não havia espaço para mais. Mas no blogue podemos espreitar o que diz a tal página 23 do livro do Pasolini:

«Basta ver a maneira que têm de dizer sim. Em vez de concordarem como nós levantando e baixando a cabeça, abanam-na um pouco como nós quando dizemos que não: mas a diferença do gesto é, apesar disso, enorme. O seu não que significa sim consiste num fazer ondular a cabeça (a sua cabeça morena e ondulada com a sua pobre pele negra, que é a cor mais bela que pode ter uma pele) com brandura, num gesto que é ao mesmo tempo doce – “Pobre de mim, digo que sim mas não sei se é possível” – e astuto – “Porque não?” –, amedrontado – “É tão difícil” – e ao mesmo tempo encantador: “Sou todo teu”. A cabeça sobe e desce, como que levemente desprendida do pescoço, e os ombros, também eles, ondeiam um pouco, com um gesto de rapariga que vence o pudor, que se torna afectuosa. (…) A sua religião está nesse gesto.»

E, ao espreitar, confirmamos que o FF tem razão.

Dois poemas inéditos de José Miguel Silva

Aqui (S. Miniato al Monte) e aqui (Galleria dell’ Accademia).

De como os nossos gostos literários podem influenciar gestos alheios

Mensagem recebida no GTalk, esta noite, às 22h26 (hora portuguesa):

“hoje pus a mão no jazigo do casares
fi-lo por ti”

Mudanças à vista no Instituto Camões

Simonetta Luz Afonso vai deixar o cargo de presidente da entidade responsável pela promoção da língua e cultura portuguesas no mundo. Quem virá a seguir?

‘Myra’

Em declarações à Lusa, Maria Velho da Costa explica que o seu novo romance parte da relação de amizade que uma adolescente russa imigrada em Portugal estabelece com um cão de raça perigosa.
Sobre o facto de publicar na Assírio & Alvim, esclarece que não tem qualquer divergência com o grupo LeYa (de que faz parte a sua antiga editora: Dom Quixote). A mudança foi uma questão de “oportunidade” e deve-se também à admiração que sente pela pintora Ilda David’, responsável pela ilustração do livro.
Maria Velho da Costa afirma ainda que o livro sairá em Outubro, embora a Assírio o tenha agendado para o final de Setembro.

De lado

Rawi Hage responde a perguntas dos seus leitores, enquanto imita descaradamente um certo autor português.

Contrastes

No balcão da papelaria, lado a lado, umas raquetas de praia e um volume de Husserl (distribuído com um jornal diário).

Questões de marketing

Experimente, caro leitor, entrar no site da editora Civilização. Posso adiantar que encontrará um booktrailer do novo romance de Victoria Hislop, capas das novidades, dois tops, demasiadas cores. Informação sobre Como a Raiva ao Vento? Nem vê-la.
Faça então uma pesquisa, mas pelo título (pelo nome do autor não vai lá). E eis finalmente a página, para a qual não faço link porque o link não funciona. Está a ver a página? Muito bem. Agora procure uma referência, minúscula que seja, ao prémio IMPAC (um dos mais importantes à escala planetária) ganho pelo livro precisamente no mês em que foi publicado em Portugal. Encontrou? Pois, eu também não.
Depois admirem-se.

Enquanto as bombas caem

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Como a Raiva ao Vento
Autor: Rawi Hage
Título original: De Niro’s Game
Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Editora: Civilização
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-26-2614-9
Ano de publicação: 2008

Natural de Beirute, Rawi Hage (n. 1964) está radicado há 15 anos no Canadá, onde escreveu este belíssimo primeiro romance directamente em inglês (a sua terceira língua, depois do árabe e do francês). Em Junho, foi-lhe atribuído o valioso IMPAC Dublin Literary Award – deixando para trás figuras de peso, como Philip Roth, Thomas Pynchon ou Martin Amis.
Para comprovar que a euforia em torno de Hage se justifica, basta ler as primeiras páginas do livro. Na Beirute de início dos anos 80, dividida ao meio pela guerra civil, deparamos com uma aproximação ao Inferno: bombas caindo sem parar, escombros e mais escombros, gritos e poeira, falta de água, violência gratuita, o cheiro da morte e a realidade desdobrando-se com a vertigem absurda das alucinações. Deste cenário dantesco emergem então o narrador, Bassam, e o seu melhor amigo, George, dois rapazes de “camisas abertas com o maço de Marlboro preso nas mangas enroladas, refugos da escola, niilistas implacáveis com armas”.
Bassam trabalha no porto, manobrando um guindaste; o outro numa casa de jogos. Fumam haxixe, seduzem raparigas, andam de moto pelo sector Oriental com gasóleo roubado, metem-se em esquemas para arranjar dinheiro e outros sarilhos característicos da pequena criminalidade. Não sabem o que é o medo. Ignoram as balas dos snipers e nunca descem aos abrigos, nem mesmo quando as explosões se aproximam tanto que desfazem o vidro das janelas, porque morrer só faz sentido “a céu aberto”.
A amizade começa a vacilar no dia em que George adere a uma milícia cristã, mais tarde envolvida no massacre de palestinianos em Sabra e Shatilla. As traições sucedem-se, Bassam fica isolado e afunda-se aos poucos, depois de passar por várias experiências-limite: a orfandade, a prisão, a tortura, o prazer da vingança, o cerco do desencanto mais negro. Quando já não há escapatória, foge de barco para Marselha e daí para Paris, só para descobrir que as histórias deste tipo são sempre mais complexas do que aparentam.
Hage atravessa estas águas turvas com impressionante à-vontade e a arquitectura romanesca mostra-se capaz de resistir a sismos com oito graus na escala de Richter. Por exemplo, a longa elipse que permite transferir para as últimas páginas a cena central do livro (um jogo de roleta russa inspirado no filme O Caçador) é simplesmente magistral. O que eleva a escrita de Rawi Hage acima da média, porém, são os seus recursos estilísticos, a sua toada poética que tanto se alimenta das mais delicadas construções verbais da lírica árabe como das simbologias bíblicas (veja-se a repetição sistemática do número “dez mil”, a que se refere a epígrafe retirada do Livro de Ezequiel).
Hage não só domina a arte do diálogo e controla muito bem o ritmo da prosa, apostando em cenas curtas mas muito intensas, como cria surpreendentes nós de intensidade dramática, através de efeitos de acumulação que se sobrepõem à ordem narrativa linear, iluminando-a e conferindo-lhe uma espécie de textura quase táctil. Eis um exemplo:

“Saltei para a motocicleta do George, sentando-me atrás dele, e dirigimo-nos para as ruas principais, onde as bombas tinham caído, onde, certa vez, uns diplomatas sauditas tinham ido buscar umas prostitutas francesas, onde os antigos Gregos haviam dançado, onde os Romanos se haviam instalado, os Persas afiado as espadas, os Mamalucos saqueado a comida da terra, os Cruzados comido carne humana e os Turcos escravizado a minha avó.”

Outro exemplo:

“No terraço havia um grande barril de água, sob o qual eu costumava esconder coisas. Tirei um pedaço de mangueira, enrolei-a em volta da cintura e esperei que o George aparecesse. A Lua estava redonda e pairava sobre a minha cidade. Nós, eu e a Lua, observávamos as velas acesas que tremeluziam calmamente nos quartos das jovens virgens que se vestiam para ir dormir, enfiando-se nas suas camas de solteiras, atirando os cabelos penteados sobre as almofadas de penas de ganso, enchidas por avós, portadoras de nomes como Djamilé e Georgette, encobrindo os pêlos púbicos sob os lençóis de algodão e seda, sonhando com homens brancos sem pêlos e com carros desportivos, trajando fatos provincianos e contando contos de fadas numa língua estrangeira, em segredo, de tal modo que os dedinhos dos seus pés se encolhiam sob os lençóis, longe dos olhares das suas mães.”

Avaliação: 8,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Todos amigos

«Atravessei as vielas de caminho para o casino, passei pela casa de Um-Sami, a modista, abandonada pelo marido que a trocou por uma criada egípcia. Estava a espetar umas agulhas no vestido de uma jovem noiva, cujo casamento iria decorrer numa capelinha ao som da gravação electrónica de uns sinos de meter dó, que arranhava como discos velhos dos anos trinta, e cujo pai tinha aceitado para genro um engenheiro canadiano de meia-idade, e cuja mãe andava atarefada a amassar pão e a juntar cadeiras e a picar salsa para o grande dia e cujo irmão planeava disparar a arma para o ar em honra do desfloramento oficial da irmã e cujo primo a haveria de conduzir, no seu carro polido e comprido, até à igreja e, depois, até ao navio atracado no Mar Mediterrâneo. O mar que está cheio das lágrimas dos faraós, dos destroços dos navios piratas, dos ossos dos escravos, dos afluentes dos esgotos e de tampões franceses.
No lado oposto ao da modista, Abu-Dolly, o merceeiro, abanava e enxotava as moscas para longe da sua cara em direcção às hortaliças apodrecidas. Abu-Afife jogava gamão com o seu sobrinho Antoine. Claude continuava à caça de um marido.
– Não hei-de ser eu! – disse-lhe. – Não hei-de ser eu.
O céu estava de um azul profundo e dele caíam fortuitamente balas e bombas. Olhar para o céu da nossa terra era como ver a morte mergulhar sobre nós – nós, um charco de água numa rua curva, um mar salgado povoado por cantarilhos, uma cama de corda para os rapazes saltarem; nós, umas cuecas bordadas, nas quais uns pés de dedos pintados se enfiam, uma bainha de diamante para uma adaga recurvada; nós…
Ao passar pela casa de Nabila, decidi deter-me e ir vê-la. Ela abriu a porta e quedou-se quieta e calada, apenas respirando.
– Andas outra vez à procura do teu amigo? – perguntou-me.
– Aqui somos todos amigos – repliquei.

[in Como a Raiva ao Vento, de Rawi Hage, trad. de Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Civilização, 2008]

Presença continua a apostar nos “seus” Prémios Nobel

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Logo no início de Setembro (dia 2), a Presença lança mais um livro de Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura em 2007. Em As Avós e outras histórias, a escritora britânica reuniu quatro contos: As Avós, “encontro de duas amigas que se apaixonam cada uma pelo filho da outra, vivendo um episódio amoroso que transcende as convenções sociais”; Victoria e os Staveney, em que acompanhamos “o percurso de uma jovem negra que se apaixona por um branco muito abastado, do qual anos mais tarde terá uma filha”; O Motivo, “alegoria que representa o nascimento, prosperidade, declínio e queda de uma cultura antiga”; e O Filho do Amor, sobre um soldado da II Guerra Mundial que se apaixona por uma mulher casada.

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Para a mesma data estava prevista a edição de A Casa do Silêncio, mais um romance de Orhan Pamuk (Prémio Nobel em 2006), mas a Presença anunciou, hoje mesmo, o adiamento deste livro para Outubro.

Bibliotecário de Papel

O Ciberdúvidas decidiu reproduzir, na sua secção Controvérsias, o texto sobre o Acordo Ortográfico que o Fernando Venâncio aqui publicou na quinta-feira. A republicação honra-nos e diverte-nos. Honra-nos porque o Ciberdúvidas é o Ciberdúvidas, um site de referência nas questões do bem falar (e escrever) português. Diverte-nos por causa do sugestivo lapsus linguae que nos torna, digamos assim, mais palpáveis do que na verdade somos.

Prazo do Prémio Literário Casino da Póvoa termina sábado

Quem quiser concorrer ao Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, tem que entregar a sua candidatura até ao próximo dia 30. Este ano, podem candidatar-se autores de língua portuguesa ou castelhana, com obras de poesia (1.ª edição) publicadas em Portugal entre Julho de 2006 e Junho de 2008. Nas seis edições anteriores, foram distinguidos Ruy Duarte de Carvalho (2008), Ana Luísa Amaral (2007), Carlos Ruiz Zafón (2006), António Franco Alexandre (2005) e Lídia Jorge (2004).
O vencedor será anunciado na sessão de abertura do X Correntes d’Escritas, encontro literário que decorre entre 11 e 14 de Fevereiro de 2009.
Mais informações aqui.

Gatos Comunicantes

Na sua excelente colheita de Setembro (a que já me referi aqui), a Assírio & Alvim vai editar um volume de epistolografia que regista o encontro entre dois dos espíritos mais geniais e livres do século XX português. Refiro-me à correspondência trocada entre Maria Helena Vieira da Silva e Mário Cesariny, entre 1952 e 1985. Tendo em conta as qualidades felinas dos dois artistas, o poeta pintor e a pintora poética, o título não podia ser mais certeiro.

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Luís Miguel Rocha no ‘The New York Times’

O escritor português Luís Miguel Rocha acaba de lançar O Último Papa nos EUA. A Putnam (chancela americana da Penguin) vê em The Last Pope, romance de tons conspirativos sobre a misteriosa morte de João Paulo I, apenas 33 dias após a sua nomeação como Sumo Pontífice, um “best-seller internacional”. O optimismo é tanto que a meta para o mercado americano ronda a barreira do milhão de exemplares. Estão também previstas versões eBook e uma edição electrónica para o Kindle.
Entretanto, os serviços de “assessoria” do escritor fizeram saber que o The New York Times terá convidado Luís Miguel Rocha a escrever um artigo de opinião sobre a morte do antigo Cardeal Albino Luciani. A publicação está agendada “para a última semana de Setembro, por altura dos 30 anos da morte de João Paulo I”, garante o comunicado, onde se lê ainda que “esta será a primeira de várias colaborações com aquele jornal”.

25 de Agosto de 2007

Eduardo Prado Coelho

Foi há um ano. De repente, alguém me disse: «Olha, eu sei que estás longe, mas é só para saberes que o Prado Coelho morreu.» Eu estava longe, de facto. A uns milhares de quilómetros, sul de França, estalagem de aldeia perdida nas montanhas, quase a sair para o casamento do meu irmão. O amigo falava e a voz era um zumbido, uma coisa impossível, um soco no estômago. Por aqueles dias, todos dissemos o quanto íamos sentir a falta do Eduardo. Um ano depois, falo por mim, continuo a senti-la (e muito).
Eis o que escrevi, no Invenção de Morel, após o regresso a Portugal:

EPC
A meio da minha ausência, um amigo telefonou-me a dizer que o Eduardo Prado Coelho morrera horas antes. Foi no sábado. Um calor brutal e os filhos mergulhados no sono frágil da sesta. Dali a pouco mais de 30 minutos, o maire da aldeia leria os artigos do Código Civil francês relativos ao casamento, com a faixa tricolor pousada em cima da mesa, a três passos do retrato sorridente do odioso président Sarkozy. Dali a pouco mais de 30 minutos, o meu irmão e a sua amada sairiam sob uma chuva de arroz (um dos poucos resquícios de formalidade nupcial a que não conseguiram escapar), belos e felizes e eufóricos.
Ao telefone, o meu amigo a dizer-me que depois explicaria melhor aquilo, o EPC morto assim de repente, eu a lembrar-me de o ver acinzentado, estranhamente emagrecido, à espera do transplante salvador, o transplante que veio, o transfigurou, o remoçou durante uns meses, afinal para nada, só para o coração o trair pouco depois.
Conheci mal o Eduardo, quase só por tangentes, conversas oblíquas em festas e encontros literários, pequenos acenos de cumplicidade. Ele gostava muito do suplemento DNA (e sobretudo das fotografias do Augusto Brázio) quando eu estava no DNA. Falávamos disso. Num meio cultural tão pequeno como o português, era impossível não tropeçar nele, no seu sorriso ao mesmo tempo malicioso e infantil, na força gravítica de um poder que era, ainda, o poder do intelectual que abarca várias áreas do saber, com noção perfeita da sua influência, capaz de exaltar (ou enfurecer) os leitores, levando-os a descobrir livros, filmes, artistas plásticos, teorias que de outra forma lhes passariam ao lado.
Junto à janela cheia de luz, calçando os sapatos para a festa, lembrei-me com extraordinária nitidez do seu rosto de papel, aquele desenho meio estilizado que encimou anos a fio a crónica do Público. Nos últimos anos, o seu rosto já não era assim (era muito mais magro), mas sempre que o lia eram aquelas barbas a meio caminho entre o Pai Natal e Karl Marx que via nas entrelinhas dos textos, miniaturas elegantes que tanto citavam Deleuze e a última descoberta bibliófila na livraria La Hune, como testemunhavam fúrias com telemóveis perdidos, impressoras avariadas e call centers kafkianos, toda a sorte de entusiasmos, maquinações e venenos, discursos redondos sobre revistas de design em papel couché ou odisseias de cidadão comum nos corredores de um hospital.
Junto à janela cheia de luz, num sábado à tarde, fiquei na fronteira entre a tristeza da morte que chega por telefone, a dois mil quilómetros de distância, e o rumor imaginário da festa que ainda não aconteceu mas já estende as suas raízes. Hesitei um momento, em frente ao espelho. E então as crianças acordaram.

Esquinas

O novo livro de Rosa Lobato Faria (As Esquinas do Tempo), a lançar no próximo mês, marca a estreia da Divisão Editorial Literária de Lisboa (DEL-L) da Porto Editora, dirigida por Manuel Alberto Valente. Tanto a romancista como o editor saíram recentemente da ASA, tal como João Aguiar (que também passará a publicar na DEL-L da Porto Editora).

O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (5)

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Rui Lagartinho (jornalista da RTP; escreve sobre livros na revista Time Out Lisboa):

«Não tenho férias grandes: apenas grandes férias.
Para ter a certeza que assim é, na minha mala, nos últimos anos, viajam sempre livros de Alexander McCall Smith.
McCall Smith é uma fonte inesgotável: de origem escocesa, é médico forense, viveu no Zimbabwe (onde nasceu) antes de se dedicar por completo à escrita. Publicou mais de sessenta livros, repartidos em várias séries. A mais conhecida é a “Agência n.º 1 de mulheres detectives”. A heroína é Precious Ramotswe uma intuitiva e curiosa detective que abre no Botswana uma agência de investigação privada. É o retrato de algo raro: uma África que deu certo. Os livros são exóticos, ternos e positivos na sua mensagem da vida numa aldeia que nunca foi tão global.
Em Portugal, a série foi comprada pela Presença, que publicou a conta-gotas três dos dez volumes já existentes: Agência n.º 1 de mulheres detectives, As lágrimas da Girafa e Moralidade e Raparigas Bonitas.

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Mais snobish são as séries “The 44 Scotland Street” e “The Sunday Philosophy Club”. Ambas passadas em Edimburgo, são um retrato perfeito da maneira de ser e de viver dos escoceses através, no primeiro caso, do microcosmos de um prédio de uma rua onde se cruzam ambições e estilos de vida muito diversos. Cada livro da série é publicado antecipadamente, em capítulos, no jornal The Scotsman.

A protagonista da série “The Sunday Philosophy Club” é Isabel Dalhousie, filósofa, editora de uma revista de Ética Aplicada. Torna-se detective acidentalmente, quando num concerto da orquestra sinfónica um espectador cai do último balcão.




Existe ainda uma outra série, para já encerrada, estando os três volumes condensados no livro The 2 ½ Pillars of Wisdom. O herói chama-se Moritz Maria Von Igelfeld, é professor de Filologia e a sua especialidade são os verbos irregulares portugueses. É uma sátira ao mundo académico.

Como o autor é prolífico e escreve a um ritmo superior aos meus tempos livres, tenho de reserva as duas últimas entregas de “Scotland Street” e espero a ocasião de incluir no rol das compras Amazon as quatro últimas histórias passadas no Botswana e sei que a filósofa Isabel Dalhousie está de volta em Outubro.
É que tenho muito respeito pelas minhas folgas, férias, momentos de tédio ou de insolente preguiça.»

Tautologias

Ou de como os pleonasmos podem levar um homem à loucura.

O acontecimento literário do ano

Não é um, são dois. Durante o mês de Setembro, a Assírio & Alvim vai publicar um livro de Herberto Helder com material poético inédito e Myra, o novo romance de Maria Velho da Costa (que assim se transfere para a editora de Manuel Rosa, deixando para trás a Dom Quixote e a Caminho; ou seja, a LeYa). O título de Herberto não podia ser mais herbertiano: A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita.

24 de Agosto de 1899

Excerto do livro de entrevistas a Jorge Luis Borges, Em Diálogo, de Osvaldo Ferrari (volume 1, Círculo de Leitores, 2001):

«Hoje gostaria que falássemos de algo que muitos querem saber. Isto é, de como se produz em si o processo da escrita, ou seja, como começa no seu interior um poema, um conto. E a partir do momento em que se inicia, como continua o processo, a confecção, digamos, desse poema ou desse conto.
Começa por uma espécie de revelação. Mas uso essa palavra de um modo modesto, não ambicioso. Isto é, de repente sei que vai acontecer algo e isso que vai acontecer pode ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma ideia mais geral e às vezes foi a primeira linha. Isto é, algo me é dado e depois intervenho eu, e talvez tudo se deite a perder (ri-se). No caso de um conto, por exemplo, bom, conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas depois tenho de descobrir, através dos meus muito limitados meios, o que acontece entre o princípio e o fim. E depois há outros problemas a resolver, por exemplo, se convém que o facto seja contado na primeira pessoa ou na terceira. Depois, é preciso procurar a época; agora, quanto a mim – isso é uma solução pessoal minha –, acho que o mais cómodo acaba por ser a última década do século dezanove. Escolho – se se tratar de um conto de um porto –, escolho locais do litoral, por exemplo, de Palermo, ou de Barracas, ou de Turdera. E a data, digamos que mil oitocentos e noventa e nove, o ano do meu nascimento, por exemplo. Porque, quem pode saber exactamente como falava aquela já morta da beira-mar? Ninguém. Isto é, que eu possa actuar com comodidade. Em compensação, se um escritor escolhe um tema contemporâneo, então já o leitor se converte num inspector e decide: “Não, neste bairro não se fala assim, as pessoas desta classe não usariam esta ou aquela expressão.”
O escritor prevê tudo isto e sente-se travado. Em compensação, escolho uma época um pouco distante, um lugar um pouco distante; isso dá-me liberdade e já posso… fantasiar… ou falsificar, até. Posso mentir sem que ninguém se aperceba, pois é preciso que o escritor que escreve uma fábula – por mais fantástica que seja – acredite, naquele momento, na realidade da fábula.»

Uma micronarrativa (ou história-para-ler-em-três-segundos) de Fernando Venâncio

Sorte

Ele corria, desde pequeno, atrás da sorte. E a sorte, sabe-se, corre atrás dos meninos-prodígio. Nunca se encontraram.

On Reading





Imagens extraordinárias de pessoas num acto ao mesmo tempo íntimo e público (a leitura), captadas por André Kertész. O resto do portfolio pode ser visto aqui.

[via Book Patrol]

Pré-publicação: ‘As Três Vidas’, de João Tordo

No seu blogue, o autor já publicou as primeiras páginas. O que se segue aparece muito mais para a frente no romance, na terceira parte, “página 260 ou por aí…”:

«A Quinta do Tempo deixara de existir. Chegámos em menos de dez minutos, percorrendo os caminhos de terra, onde algumas casas recém-construídas, à beira da estrada, levavam com a poeira dos carros. Em redor da quinta, o isolamento era idêntico ao que eu conhecera, embora os campos parecessem agora desolados, como se ninguém mais os cultivasse. Quando percorremos o carreiro em direcção ao casarão, porém, a devastação causada pelo fogo começou a mostrar-se. Tanto o casarão como a casa das heras eram esqueletos instáveis, carbonizados na parte superior pelas cinzas, o interior das divisões visível do exterior. Apenas metade do tecto da casa das heras sobrara – curiosamente, a parte que cobria o antigo consultório de Millhouse Pascal, porque o resto fora levado pelo fogo, pelo vento e pelas chuvas. As portas permaneciam iguais, os candeeiros ainda intactos, de lâmpadas estilhaçadas, mas as heras pareciam ter ganho uma vida retorcida e haviam atravessado a fronteira entre as duas habitações, começando a trepar pelo que restava da parede do casarão, como um vírus fora de controlo. A folhagem já não era verde e brilhante, como outrora, mas castanha e ressequida, aflita da falta de água do Verão no Alentejo.
O pior cenário era o do jardim, por onde passeei um pouco, enquanto Artur se encostara à porta das traseiras da nossa antiga habitação. A relva havia crescido até à altura dos joelhos, o terreno seco como a pele gretada de um velho, por toda a parte as ervas daninhas atacando o solo. A grande árvore continuava ali, menos frondosa do que há uns anos, mas ainda assim a heróica sobrevivente naquele vale da morte. Os ramos tinham descido um pouco, a copa estava menos expandida e, no geral, parecia que também ela envelhecera – mas era um ser de uma força bestial, certamente o único que sobraria depois de tudo o resto desaparecer. Caminhando pelo meio da relva selvagem, recordei as tardes que ali passara com Camila, Gustavo e Nina, tentando relembrar a posição exacta da corda bamba, o lugar especial onde a neta de Millhouse Pascal, equilibrada sobre um fio, sonhava com as possibilidades imensas do futuro. Parecia ter sido noutra vida. Agora, o próprio futuro se tornara passado, e as sombras tinham descido sobre a Quinta do Tempo, transformando-a numa terra de ninguém. O meu patrão morrera, Camila desaparecera como uma nuvem num dia ventoso, e uma solidão imensa, opressiva, ruminante, cercara a duvidosa existência que eu levava.
“É inútil andarmos para aqui a passear”, disse Artur em voz alta, claramente incomodado por se encontrar ali. “Este lugar tem mau-olhado, ainda se pega.”
Voltámos no Bentley para a casa de Artur. Quando chegámos, não havia sinal da mulher ou do filho. Num gesto despropositado, dei-lhe um abraço atrapalhado, uma palmada reticente nas costas, a que ele respondeu com outra palmada, forçando um sorriso.
“Tem uma caneta e um papel?”, perguntei-lhe.
O homem entrou na cozinha e regressou com o que lhe pedira. Escrevi o meu nome e número de telefone na pequena folha em branco, e acrescentei uma pequena mensagem: No caso de encontrares este recado. Entreguei a folha a Artur.
“Posso pedir-lhe um favor? Volte a colocar as fotografias no apartado, e deixe lá este papel junto com elas. É o meu telefone de casa.”
“Para quê?”, perguntou Artur, segurando o papel.
Encolhi os ombros.
“Nunca se sabe. Tenho a suspeita de que os fantasmas também sabem fazer telefonemas.”
Nem eu próprio sabia exactamente o que pretendia com aquele gesto. Era impossível dizer se Gustavo alguma vez chegaria a ler o recado, mas alguma coisa me dizia que isso poderia acontecer. Talvez eu quisesse recuperar alguma esperança, ou descobrir, depois da visão apocalíptica da Quinta do Tempo, que restava ainda a possibilidade de alguma ligação ao passado. Porque eu era, na verdade, o único que tinha ficado para trás; o único que, para escapar ao que o futuro guardava, me ausentara da vida.
Meti-me no meu Fiat e, depois de ouvir as indicações de Artur – não saberia chegar ao lugar sozinho – parti quando a noite já descia sobre o mundo. Enganei-me algumas vezes no percurso, voltei atrás, consultei o pequeno mapa que o jardineiro desenhara. E, depois, quando a escuridão já consumira a luz e abraçava os campos, cheguei ao lugar que procurava, reconhecendo-
o, sem surpresa, depois de tanto tempo, por causa da lua: era o mesmo vale mergulhado na vertigem, o astro branco e luminoso suspenso entre dois montes. Saí do carro, pegando numa lanterna, e caminhei pelo campo. Não tinham passado cinco minutos quando, concentrado no foco de luz que me abria caminho por entre terra e arbustos secos, encontrei a árvore junto da qual Tito Puerta fora sepultado.
As árvores sobrevivem à passagem do tempo. A menos que um tremor de terra as engula, nenhum homem é capaz de arrancar uma árvore apenas pelo prazer de o fazer, a menos que queira desbastar o terreno onde ela se encontra, ou seja louco. Aquele terreno parecia intocado há muitos anos, e os loucos não abundam nos campos desertos e por cultivar do Alentejo. Agachei-me junto da cova e, apagando a lanterna e largando-a ao meu lado, enfiei as mãos na terra seca, deixando que os meus dedos penetrassem no interior daquela massa bolorenta e quebradiça. Apenas o céu me iluminava quando comecei a cavar com as mãos, sentindo, de repente, uma aflição do tamanho da eternidade, uma angústia colossal que me trouxe lágrimas aos olhos – tantas lágrimas que, ao final de alguns segundos, era incapaz de ver o que estava a fazer, e a terra saltava por todos os lados, atingindo-me os lábios, os olhos, agarrando-se às minhas roupas, torrões entrando para dentro da minha camisa.
Cavei, cavei e cavei, até os meus dedos estarem em carne viva, até não conseguir mais mover os braços, até a lua me parecer a íris de um deus silencioso e os cadáveres fugirem do meu desespero.»

reCAPTCHA

E se um programa de segurança utilizado por 40 mil sites da Internet contribuísse para a digitalização de bibliotecas cheias de livros e jornais antigos? Seria excelente, certo? Seria, não. É.

Livros dentro de livros dentro de livros

Livros matrioshka

Eis um conjunto de livros-matrioshka concebidos por Maryline Poole Adams. Estes delicados volumes fazem parte de uma colecção com mais de 16 mil livros miniatura, pertencente à Biblioteca Lilly da Universidade de Indiana. Outros exemplares podem ser vistos aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges