Uma cidade entre o cérebro e o coração

Paris
Autor: Julien Green
Título original: Paris
Tradução: Carlos Vaz Marques
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-8955-75-5
Ano de publicação: 2008

Logo no início de Paris, pequeno livro tão belo quanto discreto, Julien Green recorda-nos uma evidência: «A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para se comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que a circunscrevem.» Julien Green, nascido com o século XX no 17.º bairro, teve muitas oportunidades para se aborrecer e sofrer em Paris, como aliás qualquer parisiense que conheça a sua cidade para além das glórias óbvias e do esplendor de postal ilustrado. Talvez por isso, o escritor abdica rapidamente de dizer «uma palavra a respeito dos grandes monumentos e de todos os lugares acerca dos quais se esperaria uma descrição como deve ser». Alguém falou em Torre Eiffel? Esqueçam. Green sempre lhe teve um ódio de estimação e sonhava mesmo eliminá-la, deixá-la longe da vista, debaixo de água. A Paris que lhe interessa não é a oficial, não é a que vem nos guias. É a outra, a «cidade secreta», vedada aos turistas e mais inacessível do que em tempos foi a mítica Timbuctu.
Nestes ensaios breves, Green escreve sobretudo para si mesmo. Não se trata de revelar aos outros os tesouros escondidos de Paris (embora algumas pistas sejam preciosas), mas antes de reencontrar as muitas aproximações que fez, durante décadas, ao lugar onde nasceu. Uma espécie de arqueologia sentimental, com alguns ditirambos nostálgicos mas nunca abusando do pathos. A sua Paris está sempre a migrar «imperceptivelmente da carne para o espírito». Começa por ser uma «enorme massa de pedra» para logo se transformar em cosa mentale, cenário de um romance por escrever, «mundo interior» autónomo, uma presença «quase sobrenatural». O mais importante, para Green, é colocar-se no sítio certo: «Estar sentado ao colo do modelo que nos propomos pintar nunca me pareceu a posição ideal. Por mais pequeno que seja o recuo, já é uma conquista.» E esse recuo tanto pode ser geográfico (escrever sobre Paris em Copenhaga ou Nova Iorque) como cronológico (lembrar-se de como era o bairro de Passy nos anos da infância, há mais de quatro décadas).
O fio condutor do livro está numa atenção obsessiva aos pormenores que escapam a um primeiro olhar. Pode ser a «graça robusta» de uma pequena igreja românica (a de São Julião, o Pobre); a nobreza das árvores que ainda vão subsistindo depois de todos os abates; as escadas e escadarias (subindo em espirais que fixam uma «ideia de perseguição» ou descendo em degraus de pedra até ao rio); uma tempestade sobre o Palais-Royal; cenas de miséria humana; os castanheiros iluminados «de dentro para fora» como lanternas japonesas; o céu cinzento; a brancura de Notre-Dame; as ruínas do Trocadéro; ou as estátuas que espiam, lá de cima, «as nossas atitudes incompreensíveis». Green é sobretudo um flâneur perscrutador e baudelairiano, «propenso a certas formas de divagação» que me parecem, vistas deste lado, milagres de escrita.
Na juventude, ele começou por ver em Paris a forma de um cérebro humano. Mais tarde mudou de ideias: «Agora já não seria a um cérebro que eu compararia Paris, mas a um coração, um coração deitado, atravessado pela sua grande artéria, o Sena.» É justamente entre o cérebro e o coração, entre a racionalidade neutra e o fervor de quem ama a sua cidade como se ama uma pessoa, que estas prosas magníficas se insinuam.
A tradução de Carlos Vaz Marques é excelente: fluida, cuidada, com oportunas notas de rodapé. Para ser exemplar, só falta a este trabalho editorial uma referência, breve que fosse, ao facto de Paris recolher textos escritos por Green entre 1943 e 1983 (ano em que o livro foi publicado pela Champ Vallon, na colecção «Des Villes»). Pior do que isso: a nota biográfica final sugere, erroneamente, que a obra surgiu em 1991, quando essa data corresponde apenas à edição norte-americana (pela Marion Boyars, de Nova Iorque).

Avaliação: 9/10

Um parisiense americano

Julien Green nasceu em Paris (1900), morreu em Paris (1998), habitou em Paris durante a maior parte da sua vida e escreveu quase toda a sua obra na língua de Molière. Ainda assim, nunca se tornou cidadão francês. Filho de pais norte-americanos, manteve-se norte-americano até à morte. Em 1971, distinguiu-se por ser o primeiro «não-francês» a entrar para a Academia Francesa, onde ocupou a cadeira 22 (substituindo o falecido François Mauriac). Um ano mais tarde, o Presidente da República Georges Pompidou ofereceu-lhe oficialmente a cidadania francesa. E ele recusou. Na história de Paris, contudo, não terá havido muitos parisienses mais parisienses do que este homem que escreveu: «Cada um de nós traz em si a Paris da sua infância, da sua juventude e dos seus sonhos, com uma secreta preferência pela Paris que guardou na memória e que lhe parece mais bela que a do próximo» (pág. 42).

[Textos publicados no suplemento Actual do Expresso]

‘Gatos Comunicantes’ no museu

O livro Gatos Comunicantes – Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny (1952-1985) vai ser apresentado amanhã (18h30), no auditório da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, por Perfecto E. Cuadrado (um dos maiores especialistas no estudo do surrealismo português) e pela professora universitária Helena Barbas.
Os actores João Grosso e Teresa Lima lerão algumas das cartas.

Frases (feitas com títulos) dos leitores – 5

De António Gregório:

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«Amanhã na batalha pensa em mim, Lolita.»

Lições de jardinagem

A Carla Maia de Almeida acaba de abrir os portões do seu Jardim Assombrado. Lá em cima, por entre os ramos do jacarandá, um verso de Herberto: «Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos.» Ao correr dos dias, haverá «livros, escrita, pessoas, personagens, animais, lugares, pequenos prazeres e coisas que fascinam».
Vantagem em relação aos jardins verdadeiros: este não fecha, pode ser visitado a qualquer hora.

Lançamento do primeiro romance de Manuel Halpern

O jornalista Manuel Halpern, crítico de música e cinema do Jornal de Letras (recém-chegado do Festival Hay, em Segóvia, que foi relatando aqui), lança esta noite, pelas 22h00, no Bairro Alto Hotel (Lisboa), o seu romance de estreia: Fora de Mim (Caderno). A obra será apresentada por Carlos Vaz Marques e a festa contará com vários DJ’s que criarão uma espécie de banda sonora para o livro. Manuel Halpern, diga-se, será um desses DJ’s.
Segundo a editora, Fora de Mim é «um romance repleto de aventura, êxtase e suspense» sobre «a impossibilidade do amor num tempo em que todos os amores são possíveis».

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Dois poemas de José Rui Teixeira

A profecia descia a rua como a luz a oriente em manhãs douradas e pousava sobre uma caixa onde Zerbino guardava búzios e dedos amputados. Se cerrava os olhos, via uma mulher pela qual lutariam até à morte homens piedosos e honrados; lutariam até à morte para exibi-la como um troféu de caça; na intimidade, marcá-la-iam com os dedos no flanco. Zerbino amava-a cheio de compaixão, como se amam pêndulos e planisférios.

***

Durante muito tempo errou na periferia de poços e taludes. Cresceram-lhe êmbolos no abdómen como fúcsias na densidade de Maio. Durante muito tempo Zerbino fugiu da crueldade de homens piedosos. Amava ainda Deus com todo o seu coração, como se amam cães sem dono ou mulheres silenciosas. Caim matara o justo Abel por esses dias, mas Zerbino nada sabia sobre a ciência circunscrita dos venenos ou a hermenêutica das máscaras.

[in Zerbino, Cosmorama, 2008]

Diário do Booker (4)

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Já chegou a segunda remessa da Amazon. Agora só fica a faltar o Sea of Poppies, de Amitav Ghosh. O dono da mercearia do rés-do-chão, onde o carteiro costuma deixar as encomendas que não cabem na caixa do correio, olhou para mim ainda mais admirado do que é costume: “Ena, isso é que é peso. Qualquer dia têm que instalar um monta-cargas no prédio só para você” (frase dita com um ligeiro sotaque brasileiro, que o Sr. João viveu nos arredores do Rio mais de 30 anos).

***

Ontem a leitura não avançou muito, porque tive que dar prioridade ao último número da revista Relâmpago, sobre a qual vou escrever para o Expresso. Ainda assim, cheguei à página 450 e estou a meio de um dos clímaxes dramáticos do livro.

Fogo posto

A casa de Martin Rynjia, proprietário da editora independente Gibson Square, que vai lançar a 30 de Outubro o polémico romance The Jewel of Medina, de Sherry Jones, foi alvo de uma tentativa de fogo posto no último sábado. Além de não publicar uma narrativa literariamente fraca (segundo a opinião dos seus consultores), também foi disto que o Manuel Alberto Valente se livrou.

Marketing inventivo

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A Dom Quixote enviou-me a nova edição de O Deus das Moscas, de William Golding, dentro de um mosquiteiro onde jaziam, com as asas partidas, umas quantas moscas de plástico.

A livraria do século XXI

Será que as livrarias devem temer a difusão cada vez maior dos sistemas de leitura digitais (Kindle, Sony, Plastic Logic, etc.)? Para Audrey Williamson, que analisa aqui um relatório da SLF (Sindicato das Livrarias Francesas) e da Alire (Associação das livrarias informatizadas e utilizadoras de redes electrónicas), mais do que ter medo, os livreiros devem adaptar-se o mais rapidamente que puderem ao novo paradigma. E termina com um sinal de esperança: se antes desta revolução em curso «as livrarias não podiam armazenar todos os livros nas suas lojas», em breve «vão poder vender, na forma digital, qualquer livro que exista».

‘Para Cima e não para Norte’ (o booktrailer)

Eis um vislumbre do primeiro romance de Patrícia Portela, até agora mais conhecida pelos seus trabalhos dramatúrgicos. Pela amostra, estamos algures entre Gonçalo M. Tavares e Edwin Abbott Abbott (o autor de Flatland, livro transdimensional que inspirou a Patrícia Portela uma trilogia de espectáculos, o primeiro dos quais justamente intitulado Para Cima e não para Norte). O livro, editado pela Caminho, tem saída prevista para Outubro. E promete. Promete muito.

Pessoa & Machado de Assis

E se Fernando Pessoa tivesse escrito cartas ao autor de Dom Casmurro, como seriam? Talvez assim, como Paulinho Assunção as imagina.

Prémio Fernando Namora/Estoril Sol para Mário Cláudio

O romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, editado pela Dom Quixote, venceu por unanimidade o Prémio Fernando Namora/Estoril-Sol, no valor de 25 mil euros. Presidido por Vasco Graça Moura, o júri juntou Guilherme d’Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura), José Manuel Mendes (Associação Portuguesa de Escritores), Maria Carlos Gil Loureiro (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), Manuel Frias Martins (Associação Portuguesa dos Críticos Literários), além de Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz (convidados a título individual) e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu (em representação da Estoril Sol).

Frases (feitas com títulos) dos leitores – 4

Muito ao seu jeito, o Francisco Frazão também respondeu ao repto.
Uma das frases mistura livros de Eduarda Dionísio e Jorge Silva Melo:

«Comente o seguinte texto: “António, um rapaz de Lisboa, prometeu deixar a vida antes que a noite venha. O fim? As histórias não têm fim.”»

A outra só podia vir de um cinéfilo:

«L’Analyse des films: le champ aveugle le fantôme de l’opéra; devant la recrudescence des vols de sac à main, l’homme ordinaire du cinéma voyage au bout de la nuit.»

E lá foi o Francisco buscar o Daney à estante.

Uma fraude chamada Luís Miguel Rocha

Há pouco mais de um mês, reproduzi aqui uma informação veiculada pelos serviços de “assessoria” (whatever that means) de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa, segundo a qual o The New York Times teria convidado o escritor português a escrever um artigo de opinião sobre a morte do Cardeal Albino Luciani (João Paulo I), tema do seu livro. A publicação aconteceria na última semana de Setembro, “por altura dos 30 anos da morte” de Luciani. Ou seja, hoje. Na altura, concordei com alguns dos comentadores que levantaram sérias dúvidas sobre tudo o que diz e faz Rocha, uma figura obscura, saída não se percebe bem de onde e que se calhar até nem é um testa-de-ferro mitómano e burlão, mas parece mesmo um testa-de-ferro mitómano e burlão.
A prova dos nove, disse eu então, poderíamos tirá-la no fim de Setembro. E foi isso que fiz agora mesmo. Vasculhando a edição de hoje, 29 de Setembro, do The New York Times, não encontrei o mínimo vestígio de Luís Miguel Rocha ou do artigo de opinião sobre a morte do Papa João Paulo I. Rocha evoca os 30 anos da morte do Cardeal Luciani no seu site, mas nem se dá ao trabalho de explicar o que terá acontecido ao suposto texto encomendado pelo NYT, tal como nunca explicou outras promessas bombásticas que ficaram por cumprir.
Disto tudo, o que se retira é que Luís Miguel Rocha mente descarada e repetidamente. É, em todos os sentidos da palavra, uma fraude literária. Uma fraude literária à espera que alguém se dê ao trabalho de o desmascarar de vez.

Centenário da morte de Machado de Assis

Faz hoje cem anos que morreu um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos (se não o maior): Joaquim Maria Machado de Assis. Na Casa Fernando Pessoa, está neste momento em curso a leitura integral do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo registo gravado será oferecido à Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO). A sessão, aberta ao público, teve início às 10h00 e só deve acabar pelas 18h00, pelo que ainda pode chegar a tempo dos últimos capítulos.
Há ainda um Colóquio Machado de Assis, organizado pela Fundação Gulbenkian (hoje e amanhã), a que a Isabel Coutinho está a assistir e de que vai dando conta no seu blogue.

Um escritor português on the road nos EUA

Durante uma semana, António Lobo Antunes andou em digressão promocional pelas terras de Barack Obama e John McCain. Hoje, no suplemento P2, do Público, o jornalista e escritor Rui Cardoso Martins conta na primeira pessoa a viagem bem sucedida, por Nova Iorque, Boston e Washington, do autor de What Can I do When Everything’s on Fire?. Eis um excerto:

«O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já leu e publicou dos melhores,
– Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado…], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!
Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
– Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iorque…?
– Eu só faço livros.
Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything’s on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lezama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e suspira
– Mestre António…
quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.
Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: “Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original.” E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado… palavras para quê?
Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:

– Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.

ou

– A polícia política era tão estúpida que apreendia as obras de Lenine e de Estaline e guardava-as no meio de Racine.

ou

– Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto das mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.

e

– Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.

e

– O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e… olhe!

– Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
– Então e a história de Ulisses, da Odisseia? “Chego tarde a casa”.
E todos riam, porque além disso
– Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.
Até que, por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
– Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.
Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros. Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.
António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
– Para mim isto é o paraíso.
– Sim.
E discutiram Borges.»

O resto é para ler em papel (ou aqui). Ler mesmo. Reportagens assim não aparecem por aí todos os dias.

Diário do Booker (3)

No Livro Dois (pág. 163 à pág. 303) assistimos aos vários estilhaços da cena capital da primeira parte: aquela em que Katherine espezinhou a cobra do filho, libertando nesse acesso de raiva uma série de tensões acumuladas durante anos de uma felicidade familiar que não passava, como em tantos outros casos, de um simulacro.
Entre os Glover, o mais afectado foi, previsivelmente, o pequeno Tim. Na escola, torna-se agressivo, participa em estranhos jogos de violência entre rapazes (com qualquer coisa de bullying à mistura) e mantém uma relação obsessiva com um colega que parte uma perna num desses jogos, descobrindo-se no hospital que a fragilidade do osso é sinal de uma doença sem cura. Visitando-o todos os dias, Tim quer acompanhar, com um interesse mórbido, o trabalho da morte num corpo demasiado jovem.
Quanto a Katherine, acaba por concretizar o adultério que começou por a destruir quando era apenas uma ameaça, uma possibilidade. A quimera romântica desfaz-se no próprio instante em que deixa de ser uma quimera e isso levanta-lhe um peso de cima, permitindo a recuperação gradual do contacto com os outros, principalmente com Alice Seller, a nova vizinha que a apoiou no dia do descontrolo, que ouviu as suas confidências em estado bruto e que por isso mesmo (pela vergonha de se ter exposto daquela maneira) deixara de conseguir olhar de frente, olhos nos olhos.
Fora isso, assistimos à dificuldade de integração escolar dos vários miúdos e à amizade estranha (feita só de passeios juntos no regresso a casa) entre o rapaz mais velho dos Glover, Daniel, e a rapariga mais velha dos Seller, Sandra. Há também cenas que tornam mais definido o contorno de certas personagens, como Anthea Arbuthnot, a bisbilhoteira-mor da rua, fanática pela Família Real (ao ponto de ter ido a Londres assistir aos principais casamentos e funerais de Estado); Jane Glover, que decide tornar-se vegetariana militante, só para chatear; ou Malcolm Glover, o marido desconfiado que foi incapaz de desaparecer quando supôs que a mulher lhe era infiel. A qualidade da escrita mantém-se, mas Hensher não precisava de se dispersar tanto. Há cenas que se arrastam para lá do razoável e algumas das descrições, virtuosísticas mas narrativamente supérfluas (como o longo relato de uma das batalhas encenadas em que Malcolm participa), podiam ter sido eliminadas no trabalho de edição.
O Livro Dois-e-Meio funciona como um parêntesis e um salto no tempo. Agora estamos em 1983 e Jane, depois de se formar em Oxford, trabalha em Londres, onde partilha o apartamento com dois australianos. Um deles morre em circunstâncias terríveis (enforcado enquanto se masturbava com um cinto em volta do pescoço) e ela anda à procura de um novo inquilino para ajudar a pagar a renda, o que dá azo a algumas das páginas mais divertidas do livro. Entretanto, reencontra Francis Seller, o filho mais novo dos vizinhos da frente, num concerto em que se toca Bruckner. Os dois passeiam junto ao Tamisa, relembrando os anos de Sheffield e as frustrações de quem não faz aquilo que gostava de fazer. Por momentos, ergue-se a hipótese de uma relação mais próxima, Jane chega a ponderar convidá-lo para ocupar a vaga no seu apartamento, mas ao imaginar-se vinte anos mais tarde, com três filhos e as fanfarras de Bruckner a estremecerem as paredes, desiste da ideia.
Estou agora na página 353.

Privilégios da blogosfera

Passar por aqui e assistir à construção quase diária – elíptica, composta por fragmentos, aproximações, ideias soltas e notas bibliográficas – de um belíssimo, pessoalíssimo (e por vezes comoventíssimo) ensaio sobre Cesare Pavese. Um ensaio que talvez nunca venha a ser publicado em papel, pelo menos com esta forma caótica e pungente.

Frases (feitas com títulos) dos leitores – 3

Continuam a chegar colaborações. As mais recentes:

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«O poeta descalço, ontem à noite, em trânsito do lado de dentro, a preços de ocasião»

[enviada por Rui Almeida]

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«Byzantium in cold blood: the decline and fall of the Roman Empire»

[enviada por João Sousa André]

«Pode um desejo imenso perdoar Helena de tirar polo natural para sempre os meus amores»

[enviada por André Filipe Simões]

Rogério Casanova sobre David Foster Wallace

«É um fenómeno sazonal americano: aproximadamente de 10 em 10 anos, um tijolo enciclopédico é depositado no zeitgeist, elevando a fasquia literária para os contemporâneos mais ambiciosos. Foi assim com The Recognitions, Giles Goat-Boy e Gravity’s Rainbow. Depois de um hiato minimalista, e numa altura em que a elefantite pós-moderna parecia condenada a ser uma nota de rodapé, David Foster Wallace decidiu adicionar-lhe mais quatro centenas de (precisamente) notas de rodapé, precedidas por novecentas exuberantes páginas de génio. Infinite Jest não foi apenas o livro dos anos 90 – foi o livro de uma geração. Avaliá-lo apenas como a derradeira manifestação de um gigantismo moribundo, contudo, seria cometer a pior espécie de injustiça elegíaca.
(…) DFW acreditava que a mediação de uma consciência é a característica central da ficção literária (…). O realismo nunca o inquietou; apenas a anestesia induzida pelas suas manifestações mais sacramentais. A sua grande contribuição foi o apontar de uma terceira via: um meio-caminho entre os excessos da meta-ficção e os defeitos do minimalismo; entre a elevação da consciência narrativa a protagonista do texto (processo cujo corolário é uma ironia mórbida e um exibicionismo vazio) – e a auto-imolação dessa consciência narrativa, em que o texto é cinzelado até uma impessoalidade árida e falsificada. DFW acreditava que era possível restaurar a função ética da literatura sem abandonar a ousadia formal e a puerilidade rebelde.
Infinite Jest foi a concretização desse programa teórico. Uma exploração magistral da afinidade metafísica entre arte, entretenimento e vício; e o retrato escrupuloso de uma cultura tecnofílica em crise, onde qualquer elo pessoal é soterrado por avalanches de informação. O romance formalmente mais ambicioso da década de 90 era animado por uma compaixão genuína, e exaltava sem pruridos as recompensas da empatia. Don Gately, o seu núcleo emocional, é uma das mais comoventes personagens da literatura americana.
O legado impossível de DFW é a sua voz: omnívora, generosa e quase sempre hilariante, transmitida num registo coloquial, mas com um vocabulário infinito. A espaços, assemelha-se a uma redução ao absurdo da auto-reflexividade, mas os seus excessos são o veículo perfeito não apenas de um intelecto colossal, mas de um inimpugnável sentido ético. DFW era assombrado por um constante pânico moral: estava ciente da propensão das palavras para falsificarem os mais genuínos conteúdos emocionais, e da tremenda facilidade em forjar uma autenticidade instantânea através de acrobacias estilísticas. Os seus melhores parágrafos – e a sua incapacidade para a compressão – são um resultado directo dessa angústia e desse combate. DFW triunfou quase sempre, mas não é claro que o tenha percebido.
Como todos os génios, ocupou terreno virgem e destruiu a ponte. Deixa uma mão-cheia de obras-primas e dezenas de promessas por cumprir. Deixa órfãos e imitadores; mas não deixa sucessores.»

[Excerto de um texto de Rogério Casanova, publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

A História que não foi

Sete Partidas
Autor: Manuel Alegre
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-95597-6-9
Ano de publicação: 2008

«Pode escrever-se um poema quando as águas / irrompem no caderno e as montanhas se abrem / e do outro lado subitamente aparece // o país que não há». Assim começa Sete Partidas, o mais recente trabalho poético de Manuel Alegre, com entrada directa para o lote das suas obras menores.
Se ignorarmos o tom demiúrgico, a prosódia demasiado solene e os efeitos verbais do costume («um rosto um resto / um rasto um cheiro um som coisa nenhuma»), entrevê-se neste livro uma curiosa revisitação da História de Portugal, lírica e utópica como convém a quem se desgosta de ver «em toda a parte o mesmo / à mesma hora nos telejornais». Partindo do que «podia ter sido» mas «não foi», Alegre debate-se com a figura do Infante D. Pedro em Penacova, no momento em que este abdica de atacar militarmente D. Afonso I, consumido por uma hesitação que inverte «o sentido do futuro». Numa reflexão sobretudo política, o deputado do PS vê «nesse instante de renúncia» a grande oportunidade perdida de transfigurar o país e «derrotar a inveja/ o mal dizer a mesquinhez e a mentira/ essas velhas doenças que são o cancro/ de Portugal».
Fazendo a ponte entre o presente (assinatura do Tratado de Lisboa) e o passado (a carta escrita por D. Pedro em Bruges, em que se esboçavam reformas para desenvolver o país, nunca cumpridas), Alegre avança «pelos campos da memória», reconstruindo simbolicamente as viagens que o irmão de D. Duarte e D. Henrique fez pelas «sete partidas do mundo».
O que o «poema» procura, acima de tudo, é o rasgão na ordem imutável do tempo, através do qual possamos assistir ao espectáculo da nossa própria catástrofe anunciada: «Caminha-se de encontro ao desencontro / e mesmo quando há ganho vem a perda / o segredo da História é o momento em que / tudo podia ser diferente. E o poema escreve-se nesse breve senão.»

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]

Do alto de Penacova

Do alto de Penacova D. Pedro observa
lá em baixo as tropas de Bragança o irmão
bastardo. Vêm cansados sujos desprevenidos.
Pode escrever-se um poema nesse momento

não haverá outro assim para o Infante
acabar com boatos e depois tranquilamente
dizer ao jovem rei que não pretende a coroa
mas apenas respeito pelo modo

como regente serviu sem ambição o reino.
Pode escrever-se um poema nessa hora
com D. Pedro pôr fim à intriga e derrotar a inveja
o mal dizer a mesquinhez e a mentira

essas velhas doenças que são o cancro
de Portugal. Mas de súbito por um escrúpulo moral
um supremo desprendimento que será talvez
um narcisismo do avesso ou (o que é o mesmo)

um excesso de confiança um desinteresse
ou uma incontrolável melancolia
D. Pedro não segue o impulso inicial
nem ouve os que lhe dizem que é preciso

atacar sem demora. O poema escreve-se
nessa razão misteriosa que leva o Infante a retirar-se
sem saber ou talvez sabendo que ao fazê-lo está
a retirar-se da própria História e a permitir

que sejam outros a fazê-la e a escrevê-la. Ninguém
saberá nunca porque hesitou naquela hora. O poema
escreve-se do alto de Penacova e nessa
hesitação fatal em que D. Pedro

inverteu o sentido do futuro. O seu e o nosso.
Talvez acima de tudo ele gostasse
não propriamente do poder mas de
podê-lo ter e não o querer. O poema escreve-se

com D. Pedro no alto de Penacova
nesse instante de renúncia em que ele diz
que mais do que poder o que é preciso
é outro modo de ser e outro país.

[Segunda das Sete Partidas de Manuel Alegre, Edições Nelson de Matos, 2008]

Diário do Booker (2)

O mais difícil, já se sabe, é o arranque. Assim que a leitura entra em velocidade de cruzeiro, a coisa flui. Mas ao princípio a máquina leva algum tempo a aquecer. Talvez por isso, a minha meta para o primeiro dia só foi atingida ao fim de dois: chegar ao fim da primeira parte (Book One, como lhe chama o autor, Philip Hensher) de The Northern Clemency.
A designação “Livro Um” não é gratuita porque estas primeiras 160 páginas funcionam como um todo. Se o romance fosse apenas isto, já faria sentido. E embora ignore o que o resto da obra me reserva, esta abertura não engana: Hensher é um escritor de primeira água, com um domínio total das técnicas narrativas clássicas. Nada de pós-modernismos, nem uma sombra de invenções formais para encher o olho. Esta é uma ficção “old school”: sóbria, eficaz, de uma elegância estilística imaculada.
The Northern Clemency começa com uma festa, numa noite de Agosto de 1974, contada nos seus mais ínfimos detalhes. Uma festa para a qual a família Glover convida os seus vizinhos, sem que se perceba bem porquê. A mãe, Katherine, parece esperar alguém que acaba por não vir e é para esse alguém, percebe-se, que ela quis organizar a coisa. Eles vivem nos arredores de Sheffield (Norte de Inglaterra), numa rua de casas parecidas mas ligeiramente diferentes umas das outas, mesmo na fronteira entre o tecido urbano e o campo, neste caso charnecas desoladas e pântanos expostos ao vento. O principal tema de conversa, durante a festa, é a chegada iminente, um ou dois dias depois, dos novos proprietários da casa que fica diante da dos Glovers. Essa família chama-se Sellers, vem de Londres e depressa compreendemos que é entre eles e os Glover que a narrativa se estrutura, alternando as respectivas linhas narrativas.
Nesta primeira parte, porém, o foco está quase em permanência sobre os Glover. Há Katherine, a mãe que volta a trabalhar depois de anos de dedicação aos filhos, centro gravítico de uma família presa por arames. há Malcolm, o pai rezingão e fechado no seu casulo, funcionário de uma empresa de construção civil que só se realiza em actividades esdrúxulas, como a reconstituição de antigas batalhas (a cuja Sociedade pertence), ou supostamente pacificadoras, como a jardinagem (embora no seu caso o cuidar das plantas seja uma fonte de frustração). E há os filhos: Tim (nove anos), fanático por cobras, sobre as quais sabe tudo o que os livros lhe podem ensinar; Jane (14 anos), uma miúda à volta com as transformações da puberdade e o desejo de se tornar escritora (anda a escrevinhar um romance passado no século XIX); e Daniel (16), um rapazote que só pensa em sexo e em miúdas.
Sobre os Sellers sabemos muito menos. Bernie, o pai, convenceu Alice, a mãe, a trocar Londres pelo Norte, tendo em vista um excelente lugar na companhia eléctrica. Com eles vão os filhos: Sandra (14 anos) e Francis (11). A descrição da viagem num Simca verde (atrás da carrinha das mudanças) e dos contratempos por que passam até verem a sua mobília espalhada na rua, à porta da nova casa, numa cidade conhecida pelas suas metalurgias e minas de carvão, ocupa dezenas de páginas e chega a ser brilhante.
É justamente na manhã em que os Sellers se instalam que acontece a cena crucial, habilmente preparada por uns quantos flashbacks que nos mostram, por exemplo, o processo de fascinação de Katherine pelo seu patrão, um florista chamado Nick (o tal convidado que nunca chega a aparecer na festa). Embora nada de menos lícito aconteça entre eles, Malcolm convence-se de que a mulher está a ter um caso e sai de casa, sem dizer para onde. Transtornada, Katherine entra em desespero. Ao descobrir que Tim guarda uma cobra verdadeira debaixo da cama (segredo que não contara a ninguém), leva o réptil para a rua e esmaga-lhe a cabeça com o salto do sapato, à frente de toda a gente, sem se comover com os gritos do filho. Um dia depois, Malcolm volta para casa e tudo regressa aparentemente à normalidade (se é que podemos chamar normalidade à vida de uma família em piloto automático), embora seja óbvio que nada voltará a ser como era.

***

Na papelaria do bairro, pouso o livro na bancada enquanto peço o jornal. Olhando de lado, o rapaz diz-me: «Shiiii! Que livro tão grosso. Se tivesse que ler isso, levava a vida toda.» Digo-lhe que só tenho dois ou três dias para chegar ao fim e ele olha-me perplexo, um olhar não sei se de pena, se de admiração: «Isso para mim seria uma tortura maior do que sei lá o quê, até porque, sabe, vou dizer-lhe uma coisa: eu nunca consegui ler um livro até à última página, um único que fosse.»

‘Pessoal e… Transmissível’ com vhm

Amanhã, a partir das 19h00, o convidado de Carlos Vaz Marques para a sua habitual conversa ao fim da tarde na TSF é valter hugo mãe, “o escritor… e o cantor”. Eis um excerto da entrevista, em que valter canta uma canção dos Madredeus:

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O projecto desmesurado de Véronique Aubouy

Com Le Baiser de la Matrice, Véronique Aubouy, realizadora, lançou-se numa tarefa hercúlea: propor a mais de 3000 pessoas do mundo inteiro a leitura, diante das respectivas webcams, de uma página de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Até agora, inscreveram-se leitores de 246 países. O único português é Rui Alexandre Lopes da Silva, que a esta hora já deve ter lido a página 475 (uma passagem de A l’ombre des jeunes filles en fleur).
Os pormenores do projecto estão explicados aqui.

Frases (feitas com títulos) dos leitores – 2

Os Booktailors e a RPVP Designers capricharam. Cinco-frases-cinco. As duas melhores, em meu entender, são estas:

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«Domingo à tarde, madrugada, tarde ou noite: quando a fé move montanhas, as aves levantam contra o vento.»

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«A sangue frio, o animal moribundo, criatura sem tecto, entre ruínas, desgraça as virgens loucas.»

Ficcionauta

A Fictionaut ainda não existe. Quando existir, “real soon” ao que parece, vai ser uma “literary community for adventurous readers and writers”, com o objectivo de colocar as potencialidades das redes sociais da Net ao serviço da escrita literária. Cá estaremos para ver o que pode sair daqui.

‘Weltliteratur’ na Gulbenkian

Na próxima terça-feira, a Fundação Gulbenkian inaugura uma exposição interessantíssima: ‘Weltliteratur – Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!‘, uma espécie de viagem através da literatura portuguesa do século XX, partindo de uma figura central do modernismo (Fernando Pessoa) mas fugindo a sete pés da previsibilidade académica que o respeitinho pelo cânone costuma impor. Pensada pelo professor universitário António M. Feijó (comissário) e desenhada pelos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus, a mostra organiza-se como um labirinto de referências cruzadas e «nexos» que unem textos de autores diferentes (ou textos e obras visuais: mapas, quadros, esculturas, desenhos, fotografias, filmes).
À entrada, no funil que desemboca na primeira sala, está reproduzido um recado manuscrito da empregada doméstica de Pessoa, com erros ortográficos e tudo, fazendo a ponte entre o mundo da criação artística e a realidade concreta do quotidiano:

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Seguem-se, num percurso circular, onze espaços autónomos que mostram a relação de Pessoa com a sua cidade e a própria ideia de literatura (sala 1), questões de identidade nacional (sala 2) e sexual (sala 3), o fascínio exercido pela figura do imperador Juliano tanto em Pessoa como em Kavafis (sala 5) e aproximações a Teixeira de Pascoaes (sala 6), Camilo Pessanha (sala 7), Mário de Sá-Carneiro (sala 8), Almada Negreiros (sala 9), Vitorino Nemésio (sala 10) e uma espécie de síntese final (sala 11) que pretende sublinhar «como a noção de progresso em arte é impertinente». À saída da última sala, onde Pascoaes é colocado no mesmo patamar de Pessoa (com tudo o que uma tal equivalência sugere), encontramos este excerto de uma entrevista dada pelo escritor de Amarante, em 1950:

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A exposição poderá ser vista até 4 de Janeiro de 2009. Paralelamente, o Auditório 3 da Fundação Gulbenkian acolherá, sempre às 18h00, uma série de conferências livremente inspiradas nos temas da exposição, com destaque para a que será proferida pelo Prémio Nobel da Literatura V. S. Naipaul, a 22 de Novembro. Eis a lista completa:

1 Out. – António M. Feijó, Francisco Aires Mateus e Manuel Aires Mateus
4 Out. – António Coutinho
8 Out. – Eduardo Lourenço
11 Out. – Clara Pinto Correia
15 Out. – Miguel Tamen
21 Out. – D. José Policarpo
5 Nov. – Rui Vieira Nery
12 Nov. – Maria Filomena Mónica
15 Nov. – Rui Ramos
19 Nov. – Eduardo Batarda
22 Nov. – V. S. Naipaul
26 Nov. – Vasco Graça Moura
29 Nov. – José Pacheco Pereira
3 Dez. – Maria Filomena Molder
6 Dez. – Luísa Costa Gomes
10 Dez. – Pedro Mexia
13 Dez. – Frederico Lourenço
17 Dez. – Teresa Beleza

O subprime ideológico segundo António Guerreiro

«Baudrillard, que nos seus tempos de glória deu nome a um modo de pensamento, gostava de usar uma palavra que transformou num conceito: “hipertelia”. Segundo ele, hipertélico – aquilo que vai para além dos seus próprios fins e se anula na sua funcionalidade – é o regime actual de manifestação dos acontecimentos e dos objectos, na sua “estratégia fatal”. O que está bem patente neste fait-divers que ele relatava: uma empresa americana, tendo de apresentar provas de uma contabilidade regular, entupiu a secção de finanças local com uma montanha de papéis que transportou em dois camiões. Agora, que a crise dos mercados financeiros começou a suscitar um discurso de ordem moral (por todo o lado ouvimos falar de ganância, avidez, falta de escrúpulos), seria útil recuperar o poder analítico e interpretativo desse quase-conceito, em vez de continuarmos a procurar uma “face humana”: depois da “face humana do comunismo”, chegou a vez de reclamar a “face humana do capitalismo financeiro”. Com a noção de hipertelia, Baudrillard quis-nos libertar deste humanismo inerte que, no mercado das ideias, é o produto especulativo mais tóxico que existe.»

[Texto da secção ‘Ao Pé da Letra’, publicado na edição de hoje do suplemento Actual, do Expresso]

Frases (feitas com títulos) dos leitores – 1

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«a paixão: a noite e o riso, por outras palavras, rumor branco.»

[Enviado por Ana Ferreira]

Amanhã, na secção de Livros do suplemento ‘Actual’

Paris, de Julien Green (Tinta da China), por José Mário Silva
Dicionário Imperfeito, de Agustina Bessa-Luís (Guimarães), por Carlos Bessa
A Ciência Terá Limites?, coord. de George Steiner (Fund. Gulbenkian e Gradiva), por Virgílio Azevedo
As Três Vidas, de João Tordo (QuidNovi), por Ana Cristina Leonardo
O Peso dos Números, de Simon Ings (ASA), por Rogério Casanova
A Casa do Silêncio, de Orhan Pamuk (Presença), por José Guardado Moreira
A Hora Má: O Veneno da Madrugada, de Gabriel García Márquez (Dom Quixote), por Vítor Quelhas

A cabeça-prisma de uma jovem burguesa

Menina Else
Autor: Arthur Schnitzler
Título original: Fraülein Else
Tradução: José Maria Vieira Mendes
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 106
ISBN: 978-972-795-246-5
Ano de publicação: 2008

Fraülein Else, filha de boas famílias vienenses, passa férias no Fratazza, um hotel de luxo em San Martino di Castrozza. Entre «gente barulhenta a quem a vida corre bem», não destoa: sabe movimentar-se com elegância entre partidas de ténis, passeatas ao monte Cimone e jogos de sedução pueris. Aos 19 anos ainda não fez nada da sua vida, mas não se apressa: o ar à sua volta «está como champanhe», é leve, inebria.
Uma carta expresso, enviada pela mãe, chega então para abalar o idílio italiano. Como acontecera de outras vezes, o pai, advogado de renome que esbanja dinheiro no casino e na Bolsa, afundou-se em dívidas e corre o risco de ser preso, caso não entregue certa verba num prazo muito curto. O problema é que nem a família nem os amigos, escaldados com empréstimos anteriores, se mostram dispostos a ajudá-lo. A única hipótese de salvação passa por convencer Dorsday, um marchand que está precisamente instalado no Fratazza. Acontece que Dorsday tem uma proposta indecente na manga: a troca do dinheiro pela contemplação da nudez de Else. Após muitas hesitações, a rapariga entra em pânico e desce a correr a escada da loucura, até à humilhação pública e ao suicídio (com um copo de veronal).
O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente em 1924, não é tanto a história (drama psicológico de uma burguesa romântica) mas o modo como a narrativa se desenvolve, através de um tumultuoso monólogo interior que regista tudo o que vai cruzando a consciência de Else: imagens, fragmentos de conversas, frases repetidas, inquietações, sonhos, ideias fixas, perguntas sem resposta. A cabeça de Else, prisma que capta (ou distorce) a realidade circundante, é o único local da acção. E Schnitzler, ao mostra-nos de dentro a forma como essa acção implode, transporta-nos, maravilhados, aos limites mais íntimos da experiência humana.
A tradução de José Maria Vieira Mendes é exemplar (uma das melhores, se não a melhor, de entre as que li este ano).

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 72 da revista Ler]

Gradiva vai publicar romance vencedor do Jabuti 2008

O Filho Eterno, romance de Cristovão Tezza que acaba de ganhar o Jabuti na categoria Melhor Romance, sairá com chancela da Gradiva já em Novembro. O livro, que narra a relação entre um escritor e o seu filho (com síndrome de Down), foi também premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e é um dos finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2008, cujo vencedor será anunciado a 29 de Outubro.

Frases (feitas com títulos)

É uma ideia simples (e nem sequer original) mas funciona sempre. Criar cadáveres esquisitos com títulos de livros:




Estes exemplos são de Nina Katchadourian, incluídos no projecto ‘Sorted Books’.
Se alguém quiser experimentar uma coisa deste tipo com livros portugueses, é favor enviar as respectivas imagens para o endereço de correio electrónico deste blogue: josemariosilva@bibliotecariodebabel.com.

Pré-publicação: ‘Myra’

O novo romance de Maria Velho da Costa, Myra (Assírio & Alvim), sucessor de Irene ou o Contrato Social (2000), só vai para as livrarias dentro de cerca de um mês. Data prevista: 23 de Outubro. Enquanto esperam, os muitos admiradores da ficcionista podem levantar desde já uma pontinha do véu. Eis, na íntegra, o segundo capítulo do livro:

«Era noite cerrada. O camionista Kleber segue pela faixa da direita. As traves de madeira estralejam por detrás da cabine. Ora se vê, ora não se vê bem o perfil hirsuto, ruivo, de Kleber. A miúda vai sentada ao seu lado com o cinto de segurança por cima da manta de que só tira uma das mãos para afagar a cabeçorra do cão aos pés. E para ter comido o hamburger que Kleber lhes comprou na estação de serviço.
Os antigos egípcios acreditavam que era um deus-cão, Anubis, que os conduzia na barca dos mortos, diz Kleber.
Eu queria que este se chamasse Tzar, mas eles não deixaram. Que era falta de respeito. Ficou César.
Vem a dar ao mesmo, Sónia. Um nome é um destino. E depois?
Não é não, senão a pessoa mudava de destino cada vez que mudasse de nome. E depois, já lhe contei, só que comecei pelo fim, quando o Senhor Kleber me apanhou na berma, toda encharcada, com o César neste estado.
Myra continuou a bela narrativa. Kleber não parecia espantado, nem incrédulo. Como se tudo na vida fosse possível.
Depois eles fizeram-me vir de lá tinha eu seis anos para eu não ficar ladra como os meus irmãos. A minha avó chorou muito. Eu vim de carrinha em carrinha. Ninguém tinha papéis, mas os que me iam trazendo tinham sempre dinheiro e onde ficar. Quando cheguei aos meus pais não os conheci. Eles também choraram muito mas eu chorava mais com saudades de casa da avó, que era muito pobre mas tinha um quintal e às vezes lá conseguia que eles lhe dessem dinheiro para comprar um ganso que ela engordava com sobras de pão seco e couves do quintal. Isto no Verão porque no Inverno passávamos muito frio a pedir na neve à porta de S. Basílio e das entradas quentes do Metro, até nos enxotarem por causa dos turistas. Escumalha russa, diziam, escumalha russa.
Santa mãe Rússia, disse o Sr. Kleber, abrandando para deixar passar uma carrinha com um carregamento de fardos de palha. Para lá cortiça, para cá palha e betoneiras. Santa mãe Mundo. O cão vai vivo?
Vai sim, agora que comeu e bebeu água da chuva. E vai quente.
E Myra afagou o que não seria mais Rambo.
Vais bem, César?
E o cão agitou a cauda.
Bom, bom, também sabia mentir.
E depois? disse o Sr. Kleber. Como foi cá? Desamarra-lhe a corrente. Há para aí um cinto, o bicho no estado em que está não precisa de levar tanto ferro no cachaço.
Tantos cuidados, pensou Myra. Se eu tiver que fugir deste, como é que faço?
E continuou com a sua narrativa mirífica pela noite e estrada dentro. Clareava. Havia plainos e sobreiros descarnados e casas caiadas, com os pés, as portas e as janelas em azulão. Casas caiadas. Já não estavam na auto-estrada mas num ramal bordejado de mimosas em flor. Pode-se ser morto e esquartejado em qualquer lugar, mas Myra, ladina, não tinha muito por onde escolher. Nem que ele lhe pedisse uma mamada e isso ela tinha aprendido a fazer.
Falta muito? perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.
O Sr. Kleber é professor?
Não, mas fui bem ensinado. Não como crianças e muito menos carne de cão. Ora diz lá, que até chegarmos há tempo.
O que é uma herdade, senhor Kleber?
É aquilo que se herda, mas também se compra e vende.
É sua, a casa?
São várias casas, como cogumelos aos pés de um castanho, que é a patroa, na Casa Grande. É para lá que vais. E depois? Há quanto tempo tens o cão, Sónia?
Há cinco anos, mentiu Myra mais.»

Wigtown

Localizada numa península de Galloway, Wigtown é, desde há dez anos, a Cidade Nacional do Livro na Escócia. O fotógrafo Luís Ramos, do Expresso, passou por lá e fez um portfolio que pode ser visto aqui (visto e ouvido, embora a voz off se dispensasse).
A pequena povoação de mil habitantes acolhe, de amanhã até 5 de Outubro, um concorrido Book Festival.

Diário do Booker (1)

Este é o relato de uma missão impossível.
Uns dias depois de ser conhecida a shortlist do Man Booker Prize 2008, encomendei pela Amazon os seis livros finalistas. Objectivo: ler tudo antes da decisão do júri, a 14 de Outubro. Devorar os seis romances de enfiada e ir dizendo o que penso de cada um deles. Os entusiasmos, as desilusões, os pontos fortes e fracos de cada livro, os avanços e recuos das tramas narrativas, alguns excertos e, no fim, seis críticas que justificarão o meu veredicto, a minha escolha – coincidente ou não (veremos) com a do júri presidido por Michael Portillo.
Enfim, a ideia é fazer uma espécie de diário de leitura. Este diário de leitura.
Para terem uma ideia do que me espera, eis uma apresentação sucinta dos romances finalistas:

The White Tiger, de Aravind Adiga (Atlantic) – 322 páginas

The Secret Scripture, de Sebastian Barry (Faber & Faber) – 300 páginas

Sea of Poppies, de Amitav Ghosh (John Murray) – 471 páginas

The Clothes on Their Backs, de Linda Grant (Virago) – 294 páginas

The Northern Clemency, de Philip Hensher (Fourth Estate) – 738 páginas

A Fraction of the Whole, de Steve Toltz (Hamish Hamilton) – 710 páginas

Percebem agora o fatalismo com que iniciei este post? Ler 2835 páginas em língua inglesa, num período inferior a três semanas, é quase impossível. Agora, fazê-lo com outras leituras pelo meio, além de uma série de trabalhos que não posso suspender (mais a vida familiar, etc.), obriga-me a retirar o advérbio da última frase. Ainda assim, vou em frente. O mais certo é não conseguir, mas pelo menos tento.

***

O primeiro livro chegou ontem e é, nem de propósito, o mais volumoso.

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Algumas breves impressões:

– Na capa do livro já está a referência que acelera as vendas: “Shortlisted for the 2008 Man Booker Prize”.

– Na ficha técnica encontrei o selo da FSC, uma organização internacional sem fins lucrativos que promove a gestão responsável dos recursos florestais. Ou seja, o calhamaço que tenho em mãos foi feito com papel proveniente de árvores “that are managed to meet the social, economic and ecological needs of present and future generations”.

– Eis dois dos blurbs da contracapa: «Hensher is an anatomist of familial tensions and marshals his large cast of characters deftly. An engaging and hugely impressive novel» (The Times); «Hensher is fascinatingly good on how social transformation manifests itself in the textures, colours and manners of a culture… Extremely funny, but also deeply humane» (Sunday Times).

– O livro é composto por quatro livros e meio. Entre o segundo e o terceiro livros, há um “Book Two-and-a-Half”.

– Logo na página 4 encontrei este diálogo, curioso se tivermos em conta que acontece não no presente, mas em 1974:

«”People are busy in August, these days,” Mrs Arbuthnot said. “They go away, don’t they?”
“We were thinking about the Algarve,” Mrs Warner said.
“Oh, the Algarve,’ Mrs Arbuthnot said, encouraging and patronizing as a magazine.»

E agora vamos ver como isto avança.

Lembrete

– Às 18h30, na Livraria Pó dos Livros, apresentação de Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos (Dom Quixote), por Miguel Real. Os Jograis Utópico lerão excerto das novelas originalmente publicadas em 1968.

– Às 21h30, na Casa Fernando Pessoa, mais uma edição de ‘Os Livros em Desassossego’, desta vez para assinalar os dez anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago. A pergunta de partida é: “Que efeito teve o mais importante prémio literário a nível mundial nas letras portuguesas?” Tentarão responder o professor universitário Carlos Reis, o crítico/escritor Miguel Real e o editor Zeferino Coelho (Caminho). Haverá ainda tempo para João Tordo apresentar o seu mais recente romance: As 3 Vidas (QuidNovi). Carlos Vaz Marques assume, como sempre, a moderação do debate.

As bolsas da MacArthur

Conhecidas como “genius grants”, as bolsas literárias do Fellows Program da Fundação MacArthur já apoiaram no passado grandes escritores, na área da ficção (Thomas Pynchon, David Foster Wallace, Lydia Davis) e na da crítica (Harold Bloom, Susan Sontag). Em 2008, os beneficiários desta autêntica sorte grande (cem mil euros anuais, durante cinco anos) vão ser Alex Ross e Chimamanda Ngozi Adichie, que assim poderão concentrar-se exclusivamente no seu trabalho criativo. Ross, 40 anos, é crítico musical da New Yorker e autor de uma ambiciosa biografia da música no século XX: The Rest is Noise (título com que baptizou, de resto, o seu blogue). Ngozi Adichie, 31 anos, nasceu na Nigéria mas escreve em inglês. Publicou dois romances: Purple Hibiscus (2003) e Half of a Yellow Sun (2006). Este último ganhou o Orange Prize em 2007.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges