Uma Beretta com silenciador

Mão Direita do Diabo
Autor: Dennis McShade
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-37-1283-4
Ano de publicação: 2008

A história é conhecida. Em 1966, à míngua de dinheiro para sustentar a família, Dinis Machado aceita escrever três romances policiais de empreitada para a editora Ibis, de Roussado Pinto. A «seis contos cada», despacha-os em menos de um ano, escondido atrás de um pseudónimo anglo-saxónico, como era da praxe. Ao republicá-los, a Assírio & Alvim começou logicamente pelo primeiro de todos, este Mão Direita do Diabo. Seguir-se-ão Requiem para D. Quixote, em Novembro; Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, na próxima Primavera; e Blackpot, um inédito, no final de 2009.
Bom conhecedor das artimanhas narrativas de Dashiel Hammett, Mickey Spillane e outros que tais, Dennis McShade imagina um enredo à prova de bala. No início, há um velho magnata que encomenda ao narrador quatro homicídios bem pagos, vingança para um crime com oito anos: o estupro da filha, tragédia que acabou por conduzi-la ao suicídio. Sem olhar para trás, Maynard executa a missão com o pundonor de um cavaleiro andante. Mais do que a promessa de oitenta mil dólares, o que o move é um inoxidável sentido de justiça. E os abusadores lá vão caindo, sob o chumbo da sua Beretta («delicada como um maître d’hotel e leve como uma pluma de arara»), pistola a que tem sempre a prudência de acoplar um silenciador.
Peter Maynard, já se percebeu, é um assassino profissional. Um duro, daqueles que nunca vergam, mas também um homem capaz de pensar mais com o cérebro do que com os punhos. Quando não está a interrogar patifes e prostitutas (com nomes patuscos: Max Bolero; Lilly Lilliput), vai ao teatro, ouve música erudita e recita poemas de Walt Whitman. Vagamente misógino, sempre a dizer «Pois» por tudo e por nada, é um melancólico que vai «arranhando» a solidão «até ela sangrar», vítima das insónias e de uma úlcera no estômago que o obriga a beber mais leite do que whisky. Os seus «monólogos maynardianos» (em itálico) dão-lhe a espessura psicológica que as outras personagens não têm.
O resto é carpintaria. Muitos diálogos e violência, muita pólvora e testosterona. A acção vai de Nova Iorque a San Francisco e de Chicago a Tijuana (México), mas as cidades são apenas um fundo, uma paisagem difusa, luzes e sombras de filme noir. Os códigos do género são todos cumpridos à risca, mas a cópia perfeita esconde um ardil. Tal como Dennis McShade americaniza Dinis Machado, Peter Maynard é um arremedo de Pierre Menard, aquela personagem de Borges que reinventa o Quixote ao repeti-lo palavra por palavra, porque se o seu texto é igualzinho ao de Cervantes – com Alonso Quijano, Sancho Pança e o resto – não o é o mundo em que foi escrito.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Ecos da vitória de Tezza

Sérgio Rodrigues, do blogue Todoprosa, coloca as coisas nestes termos:

«A vitória de Cristovão Tezza no Portugal Telecom (…) foi uma das mais previsíveis da curta história do mais importante prêmio literário do país. Isso é chato? Não, isso é muito bom.»

Continuar a ler aqui.

Grande Prémio do Romance da Academia Francesa para Marc Bressant

A Academia Francesa anunciou hoje a atribuição do seu Grande Prémio do Romance (no valor de 7.500 euros) a Marc Bressant, por La Dernière Conférence (Editions de Fallois). Na segunda volta do escrutínio, Bressant obteve 11 votos contra oito para Julie Wolkenstein (L’Excuse, POL) e um para Bruno de Cessole (L’Heure de la fermeture dans les jardins d’Occident, Editions de La Différence).
O palmarés completo, com os 51-prémios-51 atribuídos pela Academia, pode ser consultado aqui. No meio de dezenas de autores que não conheço, destaco Jacques Roubaud, que venceu o Grand Prix de Littérature Paul Morand pelo conjunto da sua obra.

Lançamento de ‘O Elogio da Leveza’

Mais logo, a partir das 19h00, estarei no Centro Cultural de Cascais a apresentar, com o Pedro Mexia, o segundo livro de Adriana Crespo: O Elogio da Leveza (Corpos Editora), atribuído por Adriana a Maria do Mar, uma das seis personagens em que assenta o seu ambicioso projecto ficcional, intitulado O inaudito, fabuloso e incrível, nunca antes visto, Divertimento de A. (as restantes personagens são F. de Riverday, Orlando I, Françoise M., Artur B. e António Pizarro).

Dois «engenhos» de Maria do Mar (aliás, Adriana Crespo)

ENGENHO 1

Embora mais elegantes, mais leves, mais delicadas e até mais subtis, estas máquinas têm a simplicidade de um moinho de vento. Deslocam-se da direita para a esquerda, muito suavemente, mas quantas são? Talvez dez, afastadas três metros umas das outas, ou talvez mais, não sei, não as contei. O seu movimento é um paradoxo, porque, embora girem com alguma velocidade, parece que se movem lentamente. Será por causa das várias fitas que em seu redor deslizam, suspensas no ar pela própria leveza do tecido? Todas elas giram na mesma direcção, mas em andamentos diferentes (como se estivessem a conversar). Na verdade, estas máquinas parecem deslocar-se tão devagar como alguém que caminhe com sandálias de chumbo a vinte metros de profundidade, debaixo de água. Não se trata, portanto, de um movimento em condições de gravidade normal. A gravidade é muito menor, quase não permite tocar com os pés no chão. É preciso acrescentar pesos ao corpo para conseguir andar, mas, mesmo assim, até com sandálias de chumbo se torna difícil tocar com os pés no chão. E é assim que estas máquinas se movem, como elementos de uma supra leveza. Elas medem dois metros de altura por um de largura, não são muito grandes. Têm nos extremos dos raios que compõem as rodas triângulos que são feitos de cartão fino e firme, forrados de seda vermelha, suave e brilhante. Nas pontas de cada um desses triângulos, as fitas transparentes estão presas e voam, à medida que rodam, da direita para a esquerda, como bandeirinhas. Nenhuma delas é igual. Todas têm cores e tamanhos diferentes, pois trata-se de um brinquedo. O que o move é uma corrente de ar, ou alguém que o faça girar com a mão (como um papagaio).

ENGENHO 2

Trata-se de um paralelepípedo encarnado e não muito grande, talvez com um metro e meio de altura, pouco mais de largura. É preciso agachar-se para entrar pela pequena porta que existe de lado, tal como fazem os adultos quando a curiosidade os impele a observar uma casinha de crianças. Logo em frente da pequena porta está uma outra parede e, não fosse o ruído muito indistinto que vem do interior, dir-se-ia que a entrada era impossível. Entra-se com esforço, andando quase de gatas. Nessa altura, fica-se no chão, à procura de uma posição, ou melhor, à procura de qualquer coisa que não se sabe o que é, à procura de um outro estado. Não se vê nada, mas há uma sensação de estar completamente encharcado, uma sensação de estar totalmente despido, e é estranho como se pode ao mesmo tempo estar tão vulnerável e tão escondido. Por causa dessa preocupação, é muito devagar que o novo mundo à roda começa a definir-se. O ruído da água a cair ocupa todo o espaço e invade os ouvidos que parecem desprotegidos. Às vezes parece chuva caindo suavemente sobre a estrada, captada no interior de uma casa, outras vezes uma bátega, caindo estrepitosamente, outras vezes um rio, outras vezes uma cascata. Mas o que é? Só muito lentamente é que os olhos habituados à escuridão começam a distinguir em redor, nas paredes da caixa, a água que cai em tons de azul muito escuro, roxo e negro. São gotas sobre um vidro, como as da chuva sobre as janelas? O que é?… Muito devagar, gradualmente, a água vai ficando mais clara, azul, verde e transparente, com bocados de espuma branca que parecem um excesso de alegria. É um rio? É o mar? É uma cascata? A água por vezes desliza como um caudal sobre um vidro transparente, mas não se consegue perceber o que é. É água, ou não é água? Quando de novo a luz se apaga, a água já não fica, nem azul, nem negra, mas vermelha e cor-de-rosa, caindo em pequenas gotas que se acumulam como sangue sobre um vidro. É o interior que se torna igual ao exterior, como um vestido do avesso? Ou é o exterior que se torna igual ao interior, como um animal esfolado? É o mesmo encarnado luminoso de quando entraste, ou é diferente? Estás aqui dentro, ou estás lá fora? Onde é que estás? Tens frio ou queres dormir? Queres sair ou queres entrar? Se eu estou de fora, então entro? Se eu estou dentro, então saio? Não se ouve mais ruído, apenas vozes de crianças a cantar. Tens frio ou queres dormir? Queres sair ou queres entrar? Um-dó-li-tá, cara de amendoá, um soneto coloreto, quem ficará. Um-dó-li-tá, cara de amendoá, um soneto coloreto, quem ficará. Tu sais quase a correr, de gatas, ou então ficas. Nesse caso, quase adormeces.

[in O Elogio da Leveza, Corpos Editora, 2008]

The world literature tour to Portugal

Depois de passagens pela Hungria e Austrália, o blogue de livros do The Guardian decidiu fazer uma viagem até Portugal. A ideia é traçar um mapa da literatura cá do burgo e olhar para o país enquanto destino literário (e não turístico). Como GPS na aventura, são pedidos os contributos de bloggers e outros cibernautas – basicamente qualquer indivíduo pensante que tenha uma dica, uma opinião ou um cânone pessoal para oferecer.
A discussão já começou (aqui) e todos os comentários que animem a conversa, e esclareçam os nossos amigos britânicos, são bem-vindos.

A liberdade de ler

Os reclusos do Estabelecimento Prisional de Vila Real vão poder requisitar, todos os meses, livros e revistas através de uma biblioteca itinerante.

Ontem à noite, em Linda-a-Velha

Oito pessoas em torno de um livro, o autor a rasgar com as mãos o véu que o separa do leitor, ali, frente a frente, numa roda amigável. Bendita a hora em que alguém se lembrou de inventar os clubes de leitura. Como estes, associados às livrarias Bulhosa.

‘A Turma’ (veja o filme, leia o livro)

A Turma (Entre les Murs), de Laurent Cantet, Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, chega hoje aos cinemas portugueses. Antecipando-se a esta estreia, a Dom Quixote lançou há poucas semanas o romance de François Bégaudeau em que o filme se inspira (e no qual Bégaudeau assume o papel do professor). A tradução, difícil e ingrata, é de Isabel St. Aubyn. Eis um excerto:

«Pedi a Khoumba que lesse o extracto, ela respondeu que não lhe apetecia.
– Apeteça-te ou não, lê.
– Não vai obrigar-me a ler.
Chamei a atenção dos restantes vinte e quatro.
– Que nome tem o que Khoumba acaba de fazer?
– Insolência.
– Muito bem, Kevin. É verdade que estamos perante um especialista.
Khoumba começou a engolir as sílabas como sempre que se insurge, com um sorriso de través porque as amigas periféricas gracejavam. Na falta de melhor ideia, disse-lhe que ficasse na sala depois da aula.
(…)
– Vamos passar o ano inteiro assim?
– Assim como?
– Pede desculpa.
– Desculpa de quê? Não fiz nada.
– Pede desculpa. Enquanto não pedires desculpa não te deixo sair.
Khoumba hesitava entre salvar as aparências e juntar-se às colegas que a todo o momento espreitavam pela porta entreaberta.
– Não, não peço desculpa não fiz nada.
Para me irritar fingiu recuperar o caderno que eu mantinha suspenso para a irritar a ela.
– Não querias mais nada. Arranca-me o braço, já agora.
Khoumba fechou-se de novo.
(…)
– Repete comigo: professor, peço desculpa por ter sido insolente.
– Não fui insolente.
– Estou à espera: professor, peço desculpa por ter sido insolente.
– Professor, peço desculpa por ter sido insolente.
Disse-o maquinalmente, com uma ostensiva ausência de convicção. Ainda assim, restituí-lhe o caderno, do qual se apoderou de imediato antes de correr para a porta. No momento de desaparecer no corredor, exclamou
– não concordo.
Dei um salto mas demasiado tarde. A pequena silhueta indisciplinada descia a correr um andar abaixo de mim. Desisti, de nada valeria gritar-lhe ameaças. De regresso à minha secretária, dei um pontapé numa cadeira que se voltou. Quatro pernas de ferro para o ar.»

Biblioteca de Murça atende leitores na blogosfera

Enviada pelos serviços da Biblioteca Municipal de Murça, acaba de chegar à minha caixa de correio electrónico a seguinte mensagem:

«A Biblioteca Municipal de Murça deseja aproximar-se cada vez mais dos seus utilizadores e de toda a comunidade murcense ao disponibilizar em linha variados conteúdos. As actividades culturais e de promoção da leitura que desenvolve, as novidades bibliográficas adquiridas todos os meses, os horários, contactos, serviços, espaços, normas regulamentares, links úteis, entre outros. Com a vontade de acompanhar os novos desafios, na área das novas tecnologias, a Câmara Municipal de Murça, através da Biblioteca local, colocou esta semana ao dispor da população um serviço de atendimento online.
Assim, quem quiser obter algum esclarecimento sobre o funcionamento da Biblioteca pode fazê-lo, em tempo real, com um técnico da instituição, podendo os utilizadores solicitar informações sobre publicações existentes na Biblioteca, proceder à reserva de obras bibliográficas, solicitar horários de funcionamento ou até mesmo pedir outro tipo de informações relativas à realização de eventos no Centro Cultural local.
Este novo serviço da Biblioteca Municipal de Murça, pioneiro na Rede Nacional de Leitura Pública, consiste no atendimento online através do blogue desta instituição, não havendo necessidade de aguardar uma resposta de um e-mail ou de uma chamada telefónica.
Segundo João Teixeira, presidente da autarquia, “este novo sistema de atendimento permitirá aos utilizadores ter mais um canal de comunicação com este serviço público, para além de proporcionar a troca de informações ou, até mesmo, tirar dúvidas instantaneamente relativamente aos serviços que dispomos”.
Para usufruir deste serviço não precisa de instalar nenhum software no seu computador, basta aceder à área de apoio ao utilizador no blogue da Biblioteca, e caso o ícone apareça online clique para falar em tempo real.
João Teixeira referiu que esta é também uma forma de dar voz aos utilizadores através de entrevistas, artigos de opinião, inquéritos. “Ambicionamos que o blogue constitua não só um canal de divulgação da Biblioteca mas, sobretudo, um espaço dinamizador de públicos.”
Recorde-se que o blogue da Biblioteca Municipal de Murça obteve no ano 2007 a oitava posição na eleição do Melhor Blogue Português na categoria de Literatura sendo a única representação de Trás-os-Montes e Alto Douro.»

Música na livraria

Tralha Mestiça, às 21h30, no primeiro andar da Trama (3 euros). A essa hora estarei a defender la belle France, sem acordes nem cantorias. Escolham vocês.

Anotar na agenda (com um sublinhado)

As conversas da Ler na Livraria Bertrand do Chiado estão de volta, agora com Anabela Mota Ribeiro a moderar. A 6 de Novembro, dois dias depois da eleição do próximo presidente dos EUA, o tema não podia ser outro.

E eu assino por baixo

«Ler é a melhor forma de conhecer alguém. (…) Passo 15 horas por dia a ler. Consegui organizar a minha vida para que possa ler tanto, mas não posso ler tudo. (…) Quanto mais precisas para viver, mais tens de trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.»

[Miguel Esteves Cardoso, entrevistado por Fernando Esteves, na edição de hoje da revista Sábado]

Murilo Antônio Carvalho na primeira pessoa

Discurso de agradecimento do vencedor do Prémio LeYa (gravado no meio da Amazónia), em que o autor de O Rastro do Jaguar fala do seu livro e evoca o «povo da floresta».

[via BlogTailors]

Lembrete

Tendo como pretexto a atribuição do Nobel da Literatura a Jean-Marie Gustave Le Clézio, a próxima sessão dos “Livros em Desassossego”, logo à noite (21h30, Casa Fernando Pessoa), discutirá se “ainda existem razões para defender a francofilia”. Do painel fazem parte o ensaísta Eugénio Lisboa, o jornalista Francisco Belard e eu. A moderação é de Carlos Vaz Marques. Participam ainda Maria do Rosário Pedreira (QuidNovi), que escolherá três livros publicados recentemente que gostaria de ter no seu catálogo, e o professor universitário Fernando Cabral Martins, que fará a primeira apresentação pública do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo, a publicar em Novembro pela Caminho.

‘O Tigre Branco’ vai para a Presença

Após um forte despique com outras editoras, a Presença acaba de obter os direitos para Portugal do romance The White Tiger, de Aravind Adiga, recente vencedor do Man Booker Prize. Recorde-se que a Presença já assegurara, em Frankfurt, a publicação do outro finalista indiano do Booker: Amitav Ghosh (Sea of Poppies).
Entretanto, Adiga abandonou a agência William Morris, que lhe conseguiu um generoso adiantamento pelo livro de estreia (quando ele ainda era um absoluto desconhecido no meio literário britânico), aparentemente por se considerar mal pago.

Efeitos da crise

A Doubleday Publishing Group, uma divisão da Random House que inclui várias editoras (entre as quais a Nan A. Talese, que publica José Luís Peixoto), vai despedir 10% dos seus funcionários. Segundo um porta-voz da Random House, não estão previstos mais cortes de pessoal nas restantes divisões do gigante editorial americano (que pertence ao ainda mais gigantesco universo empresarial da Bertelsmann).
Por muito que os seus responsáveis o desmintam, parte das dificuldades da Doubleday prendem-se com os sucessivos adiamentos do novo romance de Dan Brown, que inicialmente esteve previsto para 2005 mas só deve ver a luz do dia em Maio de 2009 (segundo rumores ouvidos com insistência em Frankfurt).

‘Homem na Escuridão’ em Novembro

A ASA vai editar no próximo mês o mais recente romance de Paul Auster (Homem na Escuridão, lançado nos EUA em Agosto, com sinopse aqui) e já garantiu a publicação simultânea, em 2009, do próximo livro: Invisible.
A nova editora de ficção da ASA, Carmen Serrano, não parece lamentar em demasia a debandada de alguns autores para a Porto Editora, como Sveva Casati Modignani, Luis Sepulveda, Rosa Lobato de Faria ou João Aguiar, autores que vendem muito (ver post anterior) e que seguiram Manuel Alberto Valente na sua nova aventura editorial.
Para Serrano, o catálogo continua a ser “extremamente rico e diversificado”, com os nomes de Paul Auster, Joanne Harris, David Lodge, Arturo Pérez-Reverte, Elfriede Jelinek ou Amos Oz à cabeça, “pelo que a identidade [da editora] nunca esteve em causa”.

Números

No almoço em que foi apresentado à imprensa o romance O Priorado do Cifrão, de João Aguiar, o responsável pela Divisão Editorial Literária de Lisboa da Porto Editora, Manuel Alberto Valente, revelou que os lançamentos de Outono estão a correr particularmente bem. Em número de exemplares impressos, o último livro de Sveva Casati Modignani já chegou aos 50 mil exemplares; As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato de Faria, aos 16 mil; e A Lâmpada de Aladino, de Luís Sepúlveda, aos 15 mil.
Entretanto, uma das compras fechadas pela Porto Editora em Frankfurt, o romance Regressar a Casa, de Rose Tremain (Prémio Orange 2008), tem data de publicação prevista para 13 de Novembro.

Prémio PT de Literatura para Cristovão Tezza

Depois de ter ganho o prémio Jabuti para melhor romance de 2008, o escritor brasileiro Cristovão Tezza confirmou o favoritismo que lhe atribuíam e arrebatou, ontem à noite o Prémio Portugal Telecom de Literatura. No segundo lugar, ex aequo, ficaram Beatriz Bracher (Antônio) e o português António Lobo Antunes (Eu Hei-de Amar uma Pedra). Em terceiro, Bernardo Carvalho por O sol se põe em São Paulo. O romance vencedor, O Filho Eterno, vai ser editado em Portugal, já no próximo mês, pela Gradiva.
Na cerimónia de atribuição, em São Paulo, estiveram presentes os ministros da Cultura do Brasil (Juca Ferreira) e de Portugal (José António Pinto Ribeiro). Mais detalhes aqui.

Que músicas ouvirá, hoje, o autor de ‘Alta Fidelidade’?

O blogue de livros do The New York Times pediu a Nick Hornby a sua playlist de 2008. E ele juntou 12 temas, explicando porque escolheu cada um deles.

História de um mito literário em construção (Roberto Bolaño)

O El País aborda, na edição desta quarta-feira, a bolañomania em curso nos EUA.

‘O Arquipélago da Insónia’ (booktrailer)

Com quase dez minutos de duração, este pequeno filme produzido pela Dom Quixote, mais do que um booktrailer, é um minidocumentário. De resto, a aposta promocional no mais recente romance de António Lobo Antunes (já na 7.ª edição) está a ser fortíssima, como se comprova por estas imagens captadas por Isabel Coutinho na estação de metro do Chiado.

E se de repente um livro tivesse não uma, não dez, não cem, não mil, mas 10.000 recensões na blogosfera?

É essa a meta de Michael Hyatt, CEO da Thomas Nelson, uma editora que promete oferecer cópias gratuitas dos seus livros aos bloggers que escrevam, em troca, textos de 200 palavras sobre essas obras nos respectivos blogues. A ideia começou a ganhar forma há uns meses, com um livro de Stephen Mansfield sobre Barack Obama, e o sucesso foi tal que a Thomas Nelson já criou um site exclusivamente para albergar os BRBs (Book Review Bloggers).
Haverá alguma editora portuguesa interessada num projecto deste tipo? E se houver, quantos BRBs portugueses é que seria possível angariar? Alguém arrisca uma estimativa?

O Kamasutra do leitor

Fora a Suástica (por motivos ideológicos e falta de abdominais), conto experimentar todas as posições.

[via Cool Marketing Thoughts]

Um acordo histórico

A Googlechegou a um acordo com a Association of American Publishers e a Authors Guild no sentido de expandir o acesso a milhões de livros esgotados, através da plataforma Google Books. A Google compromete-se a pagar os direitos que devia a autores e editores (suspendendo as respectivas acções judiciais). Em contrapartida, fica com a administração de um Book Rights Registry que vai gerir as futuras receitas obtidas com a comercialização do projecto.
Será isto bom para o consumidor ou apenas mais uma forma de monopólio engendrada pelos cérebros do Google, que passaram agora um cheque de 125 milhões de dólares mas asseguram uma rentabilização económica em larga escala nos próximos anos?
Eis algumas das primeiras reacções, apanhadas via Twitter de José Afonso Furtado (a quem tiro mais uma vez o chapéu): Olivier Ertzscheid, Sara Lloyd, James Grimmelmann, Kirk Biglione, Paul Courant (o título diz tudo: “The Google Settlement – From the Universal Library to the Universal Bookstore”) e este agregador de posts sobre o assunto (em contínua actualização).
Convém ler ainda a entrevista dada ontem ao The Wall Street Journal por Sergey Brin, um dos fundadores e patrões do Google.

My B&N

As redes sociais na Internet estão na moda e o mundo dos livros não poderia escapar a esta fúria de perfis e avatares que enxameiam a Web 2.0. Depois da Shelfari, da Goodreads ou da LibraryThing, agora é a vez das livrarias online entrarem na dança. A Barnes & Noble, por exemplo, acaba de lançar a ‘My B&N’, uma «experiência digital completamente integrada» que promete transformar-se no lugar perfeito para os bibliófilos «criarem e partilharem as suas identidades literárias». Mais informação aqui.

O discurso ambíguo

Escrever depois de Auschwitz
Autor: Günter Grass
Título original: Schreiben nach Auschwitz
Tradução: Helena Topa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-972-20-3651-1
Ano de publicação: 2008

Proferido a 13 de Fevereiro de 1990, no âmbito de umas Conferências de Poética na Universidade Johann Wolfgang Goethe (Frankfurt), este discurso insere-se num recorrente olhar de Günter Grass sobre a História da Alemanha no século XX e o seu próprio percurso, cheio de zonas de sombra que o impelem a exercícios de retórica autojustificativa. Não por acaso, ao dirigir-se a estudantes de «uma geração que, em comparação com a minha, cresceu em condições radicalmente diferentes», Grass começa por projectar-se na sua adolescência, perto do fim da II Guerra Mundial, em Maio de 1945, quando aos 17 anos se viu num campo de prisioneiros, partilhando um «buraco feito na terra, a céu aberto» com outros cem mil alemães. «O meu único objectivo era, por estar a morrer de fome, a sobrevivência, com esperteza sôfrega; quanto ao resto, não fazia grande ideia.»
Tal como noutros textos, Grass faz desta ignorância, desta imersão na «estupidez geral», uma espécie de álibi para o facto de ter participado, mesmo se às cegas, no horror nazi. Depois da guerra, quando a realidade dos campos de concentração começou a ser conhecida, a primeira reacção foi de incredulidade. «Eu dizia para mim próprio e a outros, eles diziam para si próprios e a mim: Nunca os Alemães fariam uma coisa destas.» Mas fizeram. E a «monstruosidade chamada Auschwitz», por muito «incompreensível» e «inconcebível» que fosse, instituiu um «corte» radical cujas consequências Grass, à distância, procura compreender.
A questão central nasce de uma célebre frase de Adorno: «… Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro e isto corrói também o conhecimento das razões pelas quais hoje é impossível escrever poemas». Grass admite que fez da frase, como tantos outros, uma leitura linear e superficial: «O mandamento de Adorno pareceu-me uma proibição francamente contrária à natureza; era como se alguém se tivesse apropriado do papel de Deus-pai e proibido os pássaros de cantar.» A única forma de refutar Adorno, então, era «escrevendo» contra o suposto imperativo categórico. Encontrar na escrita a via para superar a «consciência entre o nítido e o nebuloso de pertencer, não como criminosos, mas do lado dos criminosos, à geração de Auschwitz».
Grass faz assim um balanço literário da sua obra, dos poemas dos anos 50 às peças em um acto, aos romances, ao «Grupo 47» e aos conselhos de Paul Celan, o sobrevivente de Auschwitz que não foi capaz de suportar a ideia de ter sobrevivido. Mas há algo de problemático neste texto – e não é a sua desarrumação, a sua permanente deriva. É o sabermos hoje que Grass ocultava em 1990 aos alunos de Frankfurt, como ocultou de toda a gente (talvez até de si mesmo) durante 60 anos, o facto de se ter alistado voluntariamente nas Waffen-SS durante a guerra. E isso faz com que esta justificação moral da escrita pós-Auschwitz se torne particularmente ambígua.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Vénias

Na contracapa dos seus livros, a Scribas Editores faz questão de publicar uma curiosa mistura de BI com manifesto e de manifesto com declaração de intenções. Reza assim:

«scribas editores
é uma editora.
Isto quer dizer
que não é
uma mercearia,
um prostíbulo
ou uma sinecura
do Estado
ou das igrejas.

Os textos e
livros de
scribas editores
são para
leitores,
não para
clientes.

Os autores de
scribas editores
são escritores.
Não são gestores de marketing
nem têm de fazer vénias
ao Paes do Amaral.»

Dois poemas de Carlos Oliveira Santos

O cartaz ocupava
toda a fachada contrária
à plataforma da Central Park North.

Era branco
e tinha umas letras pequeninas
no meio.

As pessoas tinham tendência
a concentrar-se no meio da plataforma
para lerem o que lá estava.

«Se ao menos fosses tu próprio.»

Era isto,
em letras a preto.

Se ao menos fosses tu próprio?!

Ficava tudo a olhar,
calados.

Alguns deixavam passar
o comboio deles
só para continuarem
a matutar naquilo.

«Se ao menos fosses tu próprio.»

Pior ainda
foi quando um tipo,
lívido,
esperou a vinda
dum comboio
e mandou-se,
choque de corpo,
todos chocados
a olharem para os bocados
a romperem-se
e alguns a arderem
quando tocavam nos carris eléctricos.

Tiraram o cartaz.

Acho que anunciava uma marca de roupa interior.

***

Foi um grande truque.

Magnum, o maior mágico do Bronx,
prometeu e fez.

Dar um nó nas linhas da Flushing e da Queens Boulevard.

E deu.

Foi uma chatice para desenvencilhar aquilo.
Ele não conseguiu.

Teve de se mandar vir o Big Master de Chicago
que já tinha dado um nó
na linha do Times Square Shuttle com a da West Side,
mas desfez a coisa pouco depois,
com os aplausos de todos.

O Big abeirou-se do nó,
indo pela Quinta Avenida.

Sei lá o que ele fez.
O que é certo é que os comboios
voltaram a passar.

[in US America, Scribas Editores, 2008]

Logo à noite

A uma semana das eleições presidenciais americanas e com o colapso do sistema financeiro mundial em fundo.

Ecos dos BOBs

Notícia na edição online do semanário Sol.

Prémio Nacional de Cultura angolano para Luandino Vieira

O Ministério da Cultura de Angola atribuiu a Luandino Vieira o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, no valor de 35 mil dólares (mais informações aqui). Recorde-se que o autor de Luuanda, que vive recolhido num mosteiro de uma pequena aldeia, no Norte de Portugal, recusou em 2006 o Prémio Camões, alegando “razões pessoais”.

Acácio Barradas (1936-2008)

Conheci o Acácio no Diário de Notícias, no final dos anos 90, quando em fim de carreira assegurava, com um zelo e um rigor que já não se usam, o sempre ingrato trabalho de Agenda/Planeamento. Era um jornalista da velha guarda, no melhor sentido da expressão. Alguém que era capaz de ficar à conversa com os novatos, partilhando experiências e memórias, épicas descrições de fechos que eram só o início de noitadas boémias, queixas contra a mediocridade reinante e o abismo à beira do qual andávamos (e ainda andamos).
Como escreveu Ana Marques Gastão no obituário publicado hoje pelo DN (sem link na edição online), o Acácio era um «exímio organizador, obsessivo, perfeccionista», capaz de «gritos de fúria perante a incompetência e a negligência». Era, sobretudo, um homem íntegro. Um homem raro. Um homem desses que nos fazem cada vez mais falta.
Adeus, camarada.

Galeria da Biblioteca de Arte da Gulbenkian no Flickr (um caso de sucesso)

Com mais de 100 mil visualizações em três meses, a presença da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian no Flickr superou todas as expectativas, permitindo mesmo que a FCG ultrapassasse outras instituições da área da cultura – como o Centro Cultural de Belém, a Fundação de Serralves ou a Casa da Música – em número de referências na blogosfera portuguesa.
O balanço do projecto é feito aqui. Parabéns ao seu mentor, José Afonso Furtado, e à equipa que com ele trabalha.

Bibliotecário de Babel entre os nomeados para os prémios BOBs

A edição deste ano dos prémios BOBs (Best of the Blogs), promovidos pela Deutsche Welle, bateu todos os recordes de participação (mais de 8500 inscritos). É com alegria que anuncio que o Bibliotecário de Babel está entre os 11 finalistas na categoria “Melhor weblog em Português” (escolhidos entre mais de 400 candidatos), ao lado de oito blogues brasileiros, um moçambicano e um angolano.
A escolha foi feita por um júri internacional. Quem quiser comentar e apoiar pode fazê-lo aqui. Quem quiser votar na eleição do público, ponha a cruzinha aqui. Os vencedores das 16 categorias serão anunciados a 27 de Novembro, numa cerimónia que decorrerá no Museu da Comunicação, em Berlim.

20 anos da Cotovia

A celebração pública do vigésimo aniversário da editora Cotovia começa logo à noite (21h00), na Sala de Ensaios do Centro Cultural de Belém. Nesta sessão inaugural, dedicada ao teatro, Jorge Silva Melo lerá o primeiro acto de Os Pilares da Sociedade, de Henrik Ibsen. No fim, serão lançados os livros Peças Escolhidas III, de Ibsen, e Silenciador, de Jacinto Lucas Pires.
Próximas sessões:

1 de Novembro
Sala Jorge de Sena (Centro Cultural de Belém)
16h00: “Camões”, uma lição de Vítor Aguiar e Silva, com leitura de poemas por Luis Miguel Cintra

9 de Novembro
Sala Jorge de Sena (CCB)
Das 11h00 às 13h00 – “Brevíssimo curso de literatura brasileira”, com Abel Barros Baptista, Carlos Mendes de Sousa, Clara Rowland e Osvaldo Manuel Silvestre
Das 15h00 às 17h00 – Lançamento do livro Um crime delicado de Sérgio Sant’Anna e de A poesia andando: 13 poetas no Brasil, com a presença de Marília Garcia e Valeska de Aguirre (poetas organizadoras desta antologia)

Dia 12 de Novembro
Livraria Pó dos Livros
18h30 – Lançamento do novo livro de Luís Quintais, Mais espesso que a água; e leitura de poemas por Diogo Dória

Dia 16 de Novembro
Sala Jorge de Sena (CCB)
Das 11h00 às 13h00 – “Brevíssimo curso de literatura grega e latina”, com Delfim Leão, Frederico Lourenço e Paulo Farmhouse Alberto
Das 15h00 às 17h00 – Lançamento de Odes, de Horácio, na tradução de Pedro Braga Falcão e do livro Novos ensaios helénicos e alemães, de Frederico Lourenço

Dia 19 de Novembro
Livraria Pó dos Livros
18h30 – Lançamento do novo livro de Jacinto Lucas Pires, Assobiar em público. Apresentação de Carlos Vaz Marques

Dia 29 de Novembro
Sala Jorge de Sena (CCB)
18h30 – Apresentação da série de livros BI-África Minha, constituída por 11 títulos de vários autores africanos: Amílcar Cabral, Luandino Vieira, Hernique Galvão, Castro Soromenho, Uanhenga Xitu, Baltasar Lopes, Luís Bernardo Honwana, Ruy Duarte de Carvalho e Mutimati Barnabé João.
Participam Ana de Almeida, António Duarte Silva e Francisco Teixeira da Mota. (Apoio: Casa das Áfricas de São Paulo, Brasil)

As marcas cinzentas do lápis azul

Histórias de Amor
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 188
ISBN: 978-989-95597-7-6
Ano de publicação: 2008

Quando publicou Histórias de Amor em Julho de 1952, na colecção de bolso «Os Livros das Três Abelhas» (Editorial Gleba), José Cardoso Pires tinha 26 anos de idade e o rótulo de esperança da ficção nacional a pairar sobre a sua cabeça, fruto do aplauso generalizado, tanto da crítica como do público, com que fora recebido o seu primeiro livro: Os Caminheiros e Outros Contos (1949). Embora escrevendo com uma audácia temática e formal que já antecipa o grande escritor que veio a ser, este Cardoso Pires não é ainda o Cardoso Pires sólido dos livros seguintes (O Anjo Ancorado, 1959; O Render dos Heróis, 1960) e muito menos o Cardoso Pires vintage, de O Delfim (1968) e Alexandra Alpha (1987). É, se quisermos, um escritor em construção, com os andaimes e as inseguranças todas à vista.
Ainda assim, dos cinco textos, só “Week-end” – trôpego relato de um encontro adúltero, cheio de silêncios e meias palavras – me parece dispensável. “Uma simples flor nos teus cabelos claros” é um exercício curioso de narração paralela, que torna nítido o desajuste entre a suavidade do amor ideal (uma abstracção literária) e a aspereza concreta do quotidiano. “Romance com data” retoma a atmosfera erótica de “Week-end”, mas com um suplemento de ambiguidade na exposição da origem (e consequências) dos não-ditos entre os amantes, o que o torna muito mais original. As duas melhores narrativas, porém, são o conto “Ritual dos pequenos vampiros”, minuciosa e arrepiante descrição de um gang bang para os lados de Chelas, e “Dom Quixote, as velhas viúvas e a rapariga dos fósforos”, melancólico apocalipse da inocência em que já se detecta, aqui e ali, a voz do futuro romancista.
O principal interesse da reedição deste livro, feita por Nelson de Matos no momento em que se assinalam os dez anos da morte do escritor, está no campo da Sociologia da Literatura. Em Agosto de 1952, um mês após a chegada destas Histórias de Amor às livrarias, a Censura apreendeu todos os exemplares à venda, alegando imoralidade e exposição de misérias sociais. Na altura, o censor sublinhou com o célebre lápis azul as partes do texto que justificavam a sentença. Nelson de Matos, ao assinalar esses cortes pela sobreposição de uma rede de cinzento sobre o texto original, permite-nos constatar a tacanhice absurda e a pudicícia paranóica (mas também a cegueira) de quem se encarregava de zelar pelos bons e brandos costumes. Em anexo, há ainda uma constrangedora carta de Cardoso Pires ao director dos serviços de Censura e três críticas da época (Mário Dionísio, Luís de Sousa Rebelo, Óscar Lopes), exageradamente obcecadas com as influências americanas no estilo de JCP.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Memória da Censura

O grande achado da edição por Nelson de Matos do livro Histórias de Amor, de José Cardoso Pires, está no facto de o leitor poder descobrir à medida que lê (graficamente, cinzento no branco) as palavras, frases e expressões sublinhadas pela Censura salazarista e usadas como pretexto para apreender a primeira edição da obra, em Julho de 1952.
Pelo tipo de corte, podemos avaliar a mentalidade dos censores e a sua pequenez intelectual. Eis alguns exemplos:

«Beijavam-se, e de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas, os olhos a luzirem. (…) O moço suava, o suor corria-lhe no queixo e nas axilas misturado com a saliva dos beijos.» (pág. 17)

«(…) e a calma caindo de novo no pequeno quarto varrido de claridade, o sol e a perna loura entre os lençóis ainda quentes, tudo muito luminoso e exacto» (pág. 25)

«Depois vestiu-se à pressa e pagou o quarto. Não quis o troco, que diabo, atirou-se pelas escadas estreitas a toda a pressa, e só parou cá fora, na esplanada.» (pág. 26)

«Sou Esmeralda, Esmeralda do Rosário Ferreira, e inda não fiz dezassete anos. Quieto. Esteja quieto, não me beije. Quieto, senhor.» (pág. 55)

«Pelas mesas, à meia luz, estão os casais amigos que saíram do cinema e trocam os pares: agora a madame com o esposo, a esposa com o doutor, o doutor com a mulher do senhor. E os risos, o champanhe, e, pois bem, só queria que ouvisses o que me disse a tua mulher.» (pág. 73)

«Mas é que não tem mesmo espinhas, seu calhordas. Só assim é que os juízes se convencem. Foram quatro? Adiante, a galdéria que se arrume. É o que os juízes vão dizer uns prós outros. A galdéria que se arrume.» (pág. 114)

«– Conversa do catano, sentenciou Heliodoro.» (pág. 117)

«- E que provem? A gente declara que também a comeu, e depois? Alguém pode obrigar um homem a casar com uma galdéria?» (pág. 119)

«O homem está deitado no leito, nu e apenas coberto com o lençol.» (pág. 143)

«Fica-se a vê-la atravessar a casa, o corpo esguio, a curva das costas e das nádegas tão simples e exacta que não tem desenho nem sombra.» (pág. 146)

Dez anos sem José Cardoso Pires

O desaparecimento de José Cardoso Pires, a 26 de Outubro de 1998, será hoje assinalado de várias formas. Em Vila de Rei, concelho onde o escritor nasceu em 1925, na aldeia do Peso, o Presidente da República inaugura a nova Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, um investimento de dois milhões de euros. No Centro Cultural de Belém, a partir das 14h30, haverá leituras de textos de JCP, por António Mega Ferreira, Inês Pedrosa, José Eduardo Agualusa, Mário de Carvalho e Lídia Jorge; uma conferência de João Lobo Antunes; e uma exposição com as ilustrações de João Abel Manta para O Dinossauro Excelentíssimo. À noite, na RTP2, no programa Câmara Clara (22h30), Paula Moura Pinheiro recebe Fernando Lopes, o amigo e realizador de O Delfim, contando com depoimentos de Júlio Pomar, Nelson de Matos e João Lobo Antunes. Eis um excerto do programa, em que o cineasta se refere ao célebre retrato de Pires por Pomar:

Eu também me lembro de ver este retrato. Nos primeiros meses de 1998, estreei-me em televisão com um pequeno exercício sobre José Cardoso Pires. O programa chamava-se Portugalmente. Ajudado pelo jornalista Rogério Rodrigues, que reunira alguns textos inéditos de JCP, pensei um guião em que esses textos e outros (de Lisboa – Livro de Bordo, por exemplo) se iam escutando, ditos por Fernando Alves, nalguns casos com o ecrã a negro, noutros com pequenos clips pensados ao milímetro pelo realizador Gonçalo Megre (um jogo de bilhar, o ambiente do British Bar, etc.). A dar alguma coerência ao puzzle de palavras e imagens, depoimentos de Fernando Lopes, a beber whisky num cenário teatral. É pelo menos assim que recordo a coisa, porque o programa jaz algures numa cassete VHS que já não tem onde ser lida (o certo é que a RTP voltou a exibir este Portugalmente na madrugada de sexta-feira e ainda não sei se devo arrepender-me de não ter gravado, porque às vezes os regressos ao passado idealizado provocam-nos tremendas desilusões).
Na altura, José Cardoso Pires viu aqueles vinte e poucos minutos que lhe dedicaram uns miúdos sem qualquer experiência televisiva e gostou. Pelo menos foi o que me disse num sábado de manhã, quando fui a sua casa, perto da Avenida da Igreja, para falarmos um pouco. De garganta seca, sentado na borda do sofá, ao lado do Rogério, não terei dito mais do que uma ou duas frases enroladas. Cardoso Pires, de roupão, ignorou o meu embaraço e trouxe à tona mais umas quantas histórias da boémia lisboeta, perfis de malandretes e pugilistas de nariz partido, enquanto sorria aquele sorriso que era também uma forma de generosidade.
À saída, menos nervoso, também reparei no quadro do Pomar. Assim como ficou na minha memória, com o homem inteiro (que havíamos de perder pouco depois) lá dentro.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges