Colina abaixo

O Livro Inclinado
Autor: Peter Newell
Título original: The Slant Book
Tradução: Rui Lopes
Editora: Orfeu Negro
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-989-95565-3-9
Ano de publicação: 2008

No início do século XX, Peter Newell (1862-1924), um artista norte-americano que costumava colaborar com as revistas New York Graphic e Harper’s Bazaar, escreveu e ilustrou vários livros para crianças que se tornaram clássicos, mais pelo formato e pelo engenho das soluções gráficas do que propriamente pelo conteúdo, que se limita a reproduzir os jogos de palavras habituais nas rimas infantis da época.
Entre as invenções precursoras de Newell contam-se a série Topsys and Turvys (que obrigava o leitor a virar as páginas de pernas para o ar) e três livros atravessados, literalmente, por uma ideia que estilhaça a tradicional rigidez das pranchas. Em The Rocket Book, um rapaz maroto acende o rastilho de um foguete na cave do seu prédio e o projéctil vai abrindo caminho até ao telhado, através dos vários andares e respectivas cenas da vida doméstica. O mesmo se passa em The Hole Book, mas com um revólver que outro rapaz dispara sem querer, provocando o caos à medida que a bala fura as paredes, fazendo buracos verdadeiros nas páginas, partindo trelas e canas de pesca, rebentando com canos, bombos e balões, até se desfazer contra a forma de um bolo. E se nestas duas obras o eixo era vertical (The Rocket Book) e horizontal (The Hole Book), em The Slant Book, dado à estampa pela primeira vez em 1910, o eixo passou a diagonal, inclinando o próprio livro.
É justamente este Livro Inclinado que a Orfeu Negro acaba de editar, inaugurando a sua colecção Orfeu Mini. Colina abaixo, acompanhamos a descida vertiginosa de um carrinho de bebé que uma ama distraída deixou escapar, talvez por nunca ter visto a cena da escadaria do filme O Couraçado Potemkin. Feliz da vida, o bebé vai provocando toda a sorte de acidentes e deixando atrás de si um rasto de destruição: uma boca-de-incêndio a jorrar água, pessoas caídas com baldes de tinta ou dúzias de ovos acertando-lhes em cheio na cabeça, vidros partidos, melancias cortadas às fatias pelas rodas do carrinho, piqueniques arruinados, ordenhas interrompidas, etc., até que aparece um tronco salvador e o bebé aterra num monte de feno.
As ilustrações, muito expressivas e cinéticas, são uma delícia. E a tradução de Rui Lopes respeita quase sempre o tom divertido, embora datado, do texto original.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]

Zurzidela

A propósito deste post, o André Moura e Cunha escreveu-me a dizer o seguinte:

«Já houve no meio literário norte-americano, pelo menos, uma valente zurzidela em James Wood. Foi recente e excelente na revista literária n+1, e logo no seu primeiro número. Falei disso aqui em Agosto.
Wood replicou. Infelizmente, não tenho o artigo que despoletou a troca de argumentos entre os editores da revista e o excelso realista crítico literário da New Yorker, mas envio-te a versão digitalizada da resposta de Wood, publicada na revista dois número depois.»

Se eu soubesse introduzir ficheiros pdf no blogue (em vez de nem sequer saber se isso é possível), partilhava agora a referida resposta de Wood. Aos leitores mais interessados no assunto, porém, prometo reenviar o ficheiro, bastando para tal que mo solicitem por e-mail.

A partir das nove e meia, dez

Festa a sério, hoje, na Trama. Não é todos os dias que uma livraria comemora, cheia de saúde, um ano de vida (a Byblos que o diga). Dependendo da hora a que acabe este espectáculo e da resistência do babysitter, talvez dê para passar por lá. Se não der, aqui fica um abraço apertado para a Catarina e para o Ricardo. Que se aguentem sempre tão bem como se têm aguentado até aqui é o que vos desejo.

Lembrete

Esta tarde (16h30), apesar da chuva e do frio dissuasores, apresentarei O Efeito Borboleta e Outras Histórias na Biblioteca Municipal de Ponte de Sor.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth (Dom Quixote), por Rogério Casanova
Terra Java, de João Lopes Marques (Oficina do Livro), por Micael Pereira
Os Três Desejos de Octávio C., de Pedro Eiras (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Où on va, papa?, de Jean-Louis Fournier (Stock), por José Mário Silva
McMáfia: O Crime Organizado Sem Fronteiras, de Misha Glenny (Civilização), por Luís M. Faria
Mais Espesso que a Água, de Luís Quintais (Cotovia), por António Guerreiro
Portugal Tão Longe, de Rui Ochôa (Alêtheia), por José Manuel Fernandes

Esclarecimento

Em resposta à dúvida que materializámos aqui, Paulo Gonçalves, director de comunicação da Porto Editora, escreveu-nos a lembrar que «em nenhum momento, em nenhuma comunicação, a WOOK afirmou que oferecia um milhão de livros». Segundo os regulamentos da acção promocional, em cada um dos três «momentos WOOK» seriam oferecidos 1000 livros, aos 1000 primeiros internautas que conseguissem encomendá-los online. A frase «um milhão de livros grátis», chamariz que induziu muita gente em erro, refere-se apenas ao número de títulos disponíveis para escolha.

Titus (2)

Retrato de Titus, filho de Rembrandt van Rijn, por Rembrandt van Rijn

Titus

«Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a minha única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nestes últimos cinco anos, a Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração destroçado.
Luz radiosa, depois escuridão. O sol que se derrama de todos os cantos do céu, seguido pela escuridão da noite, as estrelas silenciosas, o vento que se agita nos ramos. Tal é a rotina. Estou a viver nesta casa há mais de um ano, desde que me deram alta do hospital. Miriam insistiu comigo para que viesse para aqui, e, de início, éramos só nós os dois, para além de uma enfermeira que cuidava de mim durante o dia, enquanto Miriam estava a trabalhar. Até que, passados três meses, o mundo desabou sobre Katya, e ela abandonou a escola de cinema em Nova Iorque e veio viver para a casa da mãe no Vermont.
Os pais dele chamaram-lhe Titus porque esse era o nome do filho de Rembrandt, o menino que aparece nos quadros do pintor, a criança de cabelos dourados com um chapéu vermelho, o aluno que sonha acordado enquanto se esforça por estudar as suas lições, o menino que se transformou num adolescente destroçado pela doença e que morreu com vinte e poucos anos, tal e qual como o Titus de Katya. É um nome fatídico, um nome que deveria ser banido da circulação para todo o sempre. Penso muitas vezes na morte de Titus, na história horrenda dessa morte, nas imagens dessa morte, na minha neta, uma jovem devastada, reduzida a pouco mais que nada, por essa morte, mas, para já, não quero ir por esse caminho, não posso ir por esse caminho, tenho de mantê-lo tão longe de mim quanto possível. A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer.»

[in Homem na Escuridão, de Paul Auster, trad. José Vieira de Lima, ASA, 2008]

Festa dos Livros

A Festa dos Livros da Gulbenkian começou hoje e dura até dia 23 de Dezembro. Todos os dias, entre as 10h00 e as 20h00, na loja do Museu Gulbenkian, podem encontrar-se todas as publicações editadas pela Fundação a preços reduzidos.

E o vencedor lusófono do BOB’s é…

o blogue brasileiro Querido Leitor, que arrebatou tanto o prémio do júri como o do público. À hiperactiva blogger Rosana Hermann, muito popular no Brasil (e agora no resto do mundo que fala português), os meus parabéns.
Sem grande surpresa, o principal prémio do concurso foi para Generación Y, o blogue da cubana Yoani Sánchez, um símbolo da luta pela liberdade de expressão, já anteriormente distinguido com o Prémio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital.
Ver todos os detalhes sobre a edição deste ano dos BOB’s aqui.

Memorial de Salomão

A Viagem do Elefante
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
N.º de páginas: 258
ISBN: 978-972-21-2017-3
Ano de publicação: 2008

Dez anos após o Prémio Nobel da Literatura, e prestes a completar 86 anos [aniversário que entretanto se cumpriu, a 16 de Novembro], José Saramago dá mostras de uma extraordinária vitalidade criativa. Não só se desdobra em acções promovidas pela sua Fundação, presidida por Pilar del Rio, como começou recentemente a escrever na blogosfera, dando um passo que outros romancistas, alguns bem mais novos, ainda não se atreveram a dar. Cereja em cima do bolo é a publicação de A Viagem do Elefante, o romance em que regressa à melhor forma literária, depois de uma sequência de alegorias menores sobre os malefícios da globalização (A Caverna, 2000), as fragilidades da democracia (Ensaio sobre a Lucidez, 2004) e o mais antigo dos temores metafísicos (As Intermitências da Morte, 2005).
Salvaguardadas as devidas distâncias, se há livro com o qual A Viagem do Elefante pede comparação, tanto em termos de estrutura como de fôlego narrativo, é Memorial do Convento (1982). Não há aqui um convento a servir de metáfora do país, nem instrumentos musicais no fundo de poços, nem voos de passarola, nem personagens tão fortes como Baltasar e Blimunda. Mas há a mesma capacidade de fixar um momento da nossa História, construindo à sua volta um universo verbal («porque tudo isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada»), um universo que se expande e vai abarcando as várias faces da experiência humana.
Na sua simplicidade, o título não podia ser mais literal. A história do livro confunde-se com a de Salomão, o elefante indiano que D. João III resolveu oferecer, em 1551, ao arquiduque austríaco Maximiliano II, então regente de Espanha. A odisseia do «bruto paquiderme» através da Europa é longa e difícil: do cercado em Belém à corte de Viena, passando por Figueira de Castelo Rodrigo, Valladolid (onde é entregue aos cuidados do arquiduque) e pelos terríveis Alpes, onde a passagem do Isarco ou o desfiladeiro de Brenner se assemelham a armadilhas de neve e gelo.
Saramago é especialmente eficaz a descrever a forma como a caravana se organiza e desloca, perturbando a ordem dos lugares por onde passa, fascinando as gentes e alimentando mitos (entre eles o do falso milagre de Pádua, mesmo a jeito da Contra-Reforma que se preparava ali tão perto, em Trento). No fim, o animal e a sua extenuante jornada são apenas um «pretexto, nada mais». Um pretexto para o narrador, tipicamente saramaguiano (isto é, metaliterário, auto-irónico e com tendência para abusar dos anacronismos), cumprir a sua missão: a de nos prender aos sortilégios da literatura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]

Lançamento mundial de ‘A Viagem do Elefante’

O lançamento mundial do novo romance de José Saramago, A Viagem do Elefante, acontecerá hoje em São Paulo (20h30 locais), no SESC de Pinheiros/Teatro Paulo Autran, com organização da Companhia das Letras, editora brasileira de José Saramago. A actriz Sandra Corveloni lerá trechos do livro. Depois de assistir ao lançamento, o Prémio Nobel da Literatura de 1998 assistirá, amanhã, à inauguração da mostra “José Saramago – A Consistência dos Sonhos”, no Instituto Tomie Ohtake, onde a exposição que pôde ser vista no Palácio da Ajuda há uns meses ficará até 15 de Fevereiro de 2009.
O lançamento nacional está marcado para dia 3 de Dezembro (18h30), no Centro Cultural de Belém, com apresentação de António Mega Ferreira e Manuel Maria Carrilho.

Buchholz Chiado

Depois de um longo período de incerteza, a Livraria Buchholz não só evitou o fechar de portas como vai abrir uma nova loja, no Chiado (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, n.º 30). A inauguração está prevista para dia 11 de Dezembro, às 19h00, com a presença do Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro.

Lembrete

Logo à tarde (18h30), estarei na livraria Pó dos Livros para apresentar o romance As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré, na presença do autor.

Cristovão Tezza: “Um escritor não pode ter medo de nenhum tema”


Foto: Ana Tezza

Embora alguns dos livros anteriores já tivessem sido premiados e bem recebidos pela crítica, foi com O Filho Eterno (acabadinho de chegar às livrarias portuguesas, numa edição da Gradiva) que Cristovão Tezza alcançou um raro consenso no Brasil, ao vencer os principais prémios literários de 2008, incluindo o Jabuti para melhor romance e o Prémio PT de Literatura. «As pessoas deveriam falar por escrito», diz uma personagem do livro. E foi justamente por escrito, via e-mail, que Tezza falou nesta entrevista.

Neste romance, o protagonista partilha consigo o essencial daquilo a que se costuma chamar biografia: um percurso de vida, profissões, livros escritos, memórias e, sobretudo, o nascimento de um primeiro filho com síndrome de Down, chamado Felipe. Entre confissão e ficção, onde é que se traça aqui a fronteira?
A linguagem é a fronteira, em vários sentidos. O fundamental é a intencionalidade ficcional, isto é, de fazer um recorte de fatos reais e imaginários (que entram no texto com força idêntica) e dar a eles uma unidade temática e estrutural, um sentido particular, que a biografia jamais terá. O recorte é uma seleção que leva em conta a narrativa romanesca, e não a fidelidade biográfica (nesse sentido, o livro está cheio de «falhas» terríveis). Para mim, a ficção é um modo muito particular de ver o mundo; a biografia, ou a autobiografia (uma distinção mais ou menos irrelevante) é um outro modo. O autor vive o evento aberto da vida, que não tem «sentido», que é um amontoado de fatos em sequência; um personagem submete-se a uma moldura que lhe dá exatamente aquilo que lhe faltaria na vida, se real fosse.

Enquanto avançava no romance, alguma vez sentiu ameaçado o equilíbrio entre a vida e a escrita, que nas suas palavras devem manter «uma relação respeitosa» mas «não muito íntima»?
Sim, na verdade antes de começar a escrever. Eu sabia que se não acertasse a «porta de entrada» daquele mundo romanesco, acabaria por me perder completamente, pela proximidade com o personagem. Tive de me manter fiel à figura do narrador, muito mais do que a mim mesmo.

Optar pela terceira pessoa facilitou o distanciamento narrativo?
Sem dúvida. Tecnicamente, foi a minha «porta de entrada». Claro que é perfeitamente possível escrever um livro assim na primeira pessoa sem se confundir com o personagem. Mas como eu vivi o que ele viveu, a terceira pessoa me deu muito mais segurança. E, é claro, é uma terceira pessoa permeável, que avança frequentemente para a cabeça do personagem, embora nunca se confunda plenamente com ele.

Em dado momento do livro, diz-se que as crianças com Trissomia 21 não existem na literatura, são «seres ausentes». Mas, na sua própria obra, o aparecimento de Felipe, nascido em 1980, só se deu agora. Que bloqueios ou hesitações foi preciso vencer para transformar este tema delicado em literatura?
Um pouco pela proximidade emocional, que é muito intensa; e excesso de emoção é terrivelmente perigoso para a literatura; eu não conseguia me afastar da própria vida, por assim dizer, para escrever em seguida sobre o tema. E um pouco por preconceito, talvez – a idéia (jamais formulada, na verdade; apenas uma intuição) de que esse tema não tinha um «estatuto literário»; de que se eu me metesse a escrever sobre isso fatalmente resvalaria para a má literatura. Criei uma auto-defesa. Com os anos fui naturalmente corroendo essa defesa. E recentemente já achava que seria uma covardia eu jamais enfrentar o fato mais duro da minha vida. Um escritor não pode ter medo de nenhum tema.

Numa das epígrafes, retirada de Kierkegaard, equipara-se o filho a um «espelho no qual o pai se vê». Ao olhar para a criança, da vergonha inicial à estabilidade afectiva, é sempre de si mesmo que o pai fala, das suas inseguranças e superações, não é?
Há uma relação inextricável entre pai e filho, que é, aliás, um dos grandes temas da literatura. Num momento o narrador diz que «um filho é a ideia que fazemos dele», e sempre que essa ideia não corresponde à realidade parece que há um fracasso pessoal em jogo.

Assistimos neste livro a vários tipos de aprendizagem: a do filho, que amplia aos poucos um mundo à partida «reduzido a dez metros quadrados»; a do pai, forçado a alterar as premissas de uma sempre problemática relação com a realidade; mas também a do escritor em construção. Pode dizer-se que O Filho Eterno fixa as várias etapas do seu crescimento literário?
Sim, acho que sim. É um livro de maturidade, em todos os sentidos. Relendo-o, de certa forma percebo a técnica narrativa que fui intuitivamente usando, as mudanças de tempo e de espaço que vão se fundindo na voz do narrador representam de fato o que aprendi escrevendo meus livros; e a visão de mundo que «o filho eterno» encerra (ou talvez «abre» seja a palavra exata) é também a de alguém que já passou dos cinquenta anos e não tem mais tanto tempo para se perder com detalhes. Foi um livro que escrevi para ir quebrando «modelos», por assim dizer.


Foto: Guilherme Pupo

Um dos pontos fortes do romance está no facto de nunca resvalar para moralismos fáceis ou derrames sentimentais. Como é que se manteve alerta contra a pieguice, essa «forma grudenta, caramelizada, da mentira»?
É esse processo de «quebrar modelos». Em todas as atividades há um discurso social pronto, todo um leque de lugares-comuns à nossa disposição que em geral nos dispensa da angústia de pensar. Mas na área das crianças especiais, pela sua carga emocional, esse discurso é realmente esmagador. Mente-se muito, o que até é compreensível; repetindo o verso de Eliot, «o gênero humano não pode suportar tanta realidade». Uma das forças da literatura é justamente o seu poder de atravessar esse muro de lugares-comuns. O «ficar alerta», para mim, foi uma espécie de eixo que trouxe lá dos anos 1970 e, acho, ainda não perdi.

Há muitas frases neste livro que apetece sublinhar. Por exemplo: «Escrever é dar nome às coisas.» Parece um mandamento.
É uma bonita imagem, não? Afinal, é isso que fazemos o tempo todo. Mas não é um mandamento; a literatura jamais trabalha com eles. É sempre a percepção de alguém falível; o texto literário não fala de verdades, mas de pessoas que tentam compreendê-las, esmiuçá-las, chegar a elas, mesmo sabendo que irão fracassar.

À semelhança do protagonista, você também viveu em Coimbra durante o período pós-revolucionário, quando Portugal estava «quase em chamas» e se sucediam os governos provisórios?
Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Estive em Coimbra (numa meia-água da rua Afonso Henriques) de dezembro de 74 a fevereiro de 76. Estava nos meus 22, 23 anos. Ver o Brasil de longe (nós ainda numa ditadura), testemunhar a virada portuguesa, ler e escrever muito (lá escrevi meu primeiro livro, A cidade inventada, uma coletânea de contos), viajar pela Europa de carona (naquele tempo ainda era possível), tudo isso me marcou para sempre.

Qual a importância do tempo nesta narrativa, entre o presente perpétuo do filho (incapaz de perceber o conceito de «ontem» ou de «amanhã»), os vários passados do pai (que a memória convoca a cada passo) e um futuro deixado em aberto (no fim, ninguém «tem a mínima ideia de como vai acabar»)?
Parodiando os filósofos, «o tempo é o ser». Temos de dar algum sentido – e só a ficção tem esse poder – ao que não tem nenhum, essa passagem esmagadora do tempo.

Embora apareçam em vários momentos, a sua mulher e a sua filha são personagens periféricas, muito esbatidas, quase fantasmas à margem da relação pai-filho que domina o livro. Quis protegê-las de uma exposição indesejada?
Concentrei a narrativa no pai e na sua relação com o filho; nesse sentido, o romance tem um eixo bem fechado, um close narrativo. Mas certamente pesou na minha escolha narrativa, como você diz, a exposição indesejada, na medida em que quanto mais detalhe biográfico houvesse, menos foco o livro teria.


Autoretrato

Estava à espera que o romance conseguisse um impacto tão grande, tanto em termos de público como de crítica?
Sinceramente, não. Eu sabia que o livro teria algum impacto até em função do relativo sucesso do meu romance anterior, O fotógrafo, que havia sido bem recebido pela crítica e pelos leitores. Assim, o novo livro sempre receberia alguma atenção. Mas eu estava bastante inseguro quanto à recepção da crítica. No fim, o livro superou as mais otimistas expectativas.

E a atribuição dos principais prémios literários do Brasil, que importância teve?
Muita. Os prêmios deram uma grande visibilidade ao romance, pelo prestígio que representam. E provocam um efeito multiplicador, do interesse dos leitores ao interesse dos livreiros, passando pelo espaço na mídia, que tem sido generoso. Claro que isso me deixou bastante feliz, até porque continuo sonhando em viver dos meus livros.

Além de Portugal, mais cinco países preparam-se para lançar O Filho Eterno. Com esta internacionalização em curso, acha que a livraria alemã descrita no livro, onde em 1975 a literatura brasileira se resumia a três romances de Jorge Amado, pode vir a vender um livro seu?
Espero que isso aconteça em breve!

O verdadeiro Felipe tem hoje 28 anos. Como é que ele reagiu a tudo isto: sucesso, prémios, cobertura mediática?
Ele está bastante feliz com o livro, embora não tenha abstração para compreender de fato do que se trata. Para ele tem a mesma importância de uma vitória do Atlético Paranaense ou de uma festa de aniversário – para ele o mundo dos fatos não tem uma hierarquia racionalizada, apenas efeitos. No caso, efeitos de bom-humor, que aliás é um traço marcante dele. É claro que se ele tivesse condições de leitura, a vida teria sido outra e este livro também.

[Versão longa da entrevista publicada no suplemento Actual do Expresso]

Um milhão de livros grátis

Através da sua livraria virtual (Wook), a Porto Editora está a desenvolver uma gigantesca operação de marketing que promete oferecer – literalmente oferecer – um milhão de livros, durante os chamados «momentos wook» (para saber como é que a coisa funciona, ver aqui). A acção começou ontem e termina amanhã, mas já despertou polémicas e irritações, até porque a afluência foi tanta que o site esteve quase sempre em baixo, ou demasiado lento. Em resposta ao comentário de um leitor anónimo do Blogtailors, sobre uma alegada violação da lei do preço fixo, a Porto Editora emitiu este comunicado. Já esta tarde, a PE fez um primeiro balanço da iniciativa:

«A Campanha de incentivo à leitura promovida pela livraria online WOOK regista centenas de milhares de participações. Amanhã acontece o derradeiro “MOMENTO WOOK”. A hora, claro, é um segredo bem guardado.
A participação na campanha “MOMENTOS WOOK” está a superar de longe as expectativas mais optimistas dos responsáveis pela livraria online do Grupo Porto Editora.
Desde que a WOOK anunciou, na tarde da passada segunda-feira, 24 de Novembro, o arranque da campanha, centenas de milhares de clientes têm-se mantido online na expectativa de conseguirem encomendar um dos muitos livros – um milhão, para ser exacto – que ficam gratuitos nos designados “MOMENTOS WOOK”.
Rui Aragão, director da WOOK, afirma-se surpreendido com o impacto da campanha, detalhando que “em várias alturas destes dias, a WOOK tem tido um tráfego incrível, chegando a registar 500 consultas por segundo, levando a que muitos clientes encontrem algumas dificuldades de acesso e navegação”. Este responsável acrescenta que, ainda assim, os dois “MOMENTOS WOOK” já realizados (um ontem, outro hoje) foram bem sucedidos. Para amanhã está planeada a última oportunidade para mais 1000 clientes conseguirem grátis o livro que tanto desejam.
De relembrar que, para participar nesta campanha, basta fazer o registo na livraria online e estar atento à colocação de um banner a informar o início do “MOMENTO WOOK”. Os primeiros 1000 clientes que tiverem encontrarem um dos seus livros preferidos grátis só têm de, rapidamente, confirmar a encomenda.
Os “MOMENTOS WOOK” resultam numa campanha inédita no nosso país ao disponibilizar, ao mesmo tempo e gratuitamente, o maior número de títulos jamais reunido, incluindo bestsellers como os novos romances de José Saramago, José Rodrigues dos Santos e João Aguiar.
A campanha termina amanhã, quinta-feira, 27 de Novembro.»

Desde o primeiro momento, a minha dúvida é esta, expressa aliás por outro leitor dos Blogtailors:

«Só não percebo como é que, se houve dois momentos por dia, e só 1000 clientes por momento, e cada cliente só pode comprar um livro oferecido segundo o regulamento, e só há 3 dias com momentos, como é que se chega a um milhão de livros oferecidos?»

Lançamento de ‘U omãi qe dava pulus’

O DVD do filme Nuno Bragança – U omãi qe dava pulus, de João Pinto Nogueira, vai ser lançado esta noite, pelas 21h30, na FNAC Chiado. Esta edição do documentário, feita pela Midas em exclusivo para a FNAC, foi “enriquecida por uma longa série de extras”. Na apresentação estará o realizador e Carlos Antunes, uma das muitas figuras que prestam depoimento, no filme, sobre o autor de A Noite e o Riso.

Against James Wood (salvo seja)

Se há crítico literário que nos últimos tempos vem sendo posto num pedestal altíssimo, com direito a vénias quase unânimes das elites intelectuais (tanto num como no outro lado do Atlântico), esse crítico é James Wood, o meticuloso escrutinador da literatura contemporânea, em artigos que raramente têm menos do que 30 ou 40 mil caracteres (cerca de dez a 15 vezes mais do que uma recensão normal nos jornais portugueses). Não estando em causa a inteligência, perspicácia, vigor argumentativo e rigor estilístico de Wood, há qualquer coisa de desconfortável no endeusamento recorrente da figura, até porque as entronizações costumam ser pouco produtivas, sobretudo para quem as sofre.
Urgia, portanto, que alguém se levantasse contra este processo hegemónico, se me permitem o exagero. Leitores mais distraídos podem pensar que a primeira porrada como deve ser foi dada por William Deresiewicz, neste artigo no The Nation. Mas nós, os felizes viciados na Pastoral Portuguesa, sabemos que as hostilidades foram abertas por Rogério Casanova (who else?). Embora considere Wood o seu «crítico literário preferido», RC não deixou de ficar compreensivelmente enxofrado com as coisas que o dito andou a escrever sobre Against the Day, de Thomas Pynchon. Entre duas adorações, a adoração pyncheana sobrepôs-se à adoração woodsiana. E o resultado foi o que se viu.

Presente de Natal

Ao telefone, o editor da Antígona, Luís Oliveira, pergunta-me com voz sarcástica: «Então, já viu a nossa grande aposta para a quadra natalícia?»

Já vi, já. Uma nova edição (ilustrada) dos Crimes Exemplares parece-me, de facto, a escolha perfeita.

Poesia Incompleta no ‘Público’

Isabel Coutinho escreveu hoje, na edição em papel do Público, sobre a Poesia Incompleta. Eis um excerto:

«Poesia Incompleta é o nome da “primeira livraria portuguesa de poesia”, que abriu ontem em Lisboa, (…) a um passo da Assembleia da República e do bar Finalmente, numa casa que até tem um quintal com uma buganvília e uma pequena hera que veio da Grécia pela mão de Hélia Correia.
(…) Este é um sítio aonde se vai para comprar livros, mas também para conversar com Changuito, jovem livreiro com sentido de humor aguçado, que aprendeu a gostar de poesia com a avó e também com a mãe, a actriz Maria do Céu Guerra. (…) Aos 34 anos, perdeu a paciência e farto de ir a livrarias onde lhe diziam “esse livro está esgotado” ou “esse livro não existe”, resolveu passar de leitor a vendedor de livros.
(…) Para o projecto ser viável, tem que vender cinco livros por dia e Changuito acredita que isso é possível: “Se houvesse uma livraria destas com a qual eu não tivesse nada a ver, passaria aqui pelo menos uma vez por semana.”»

Ontem, ao sair da livraria, trouxe comigo quatro livros, todos da remessa que o Changuito foi buscar a Nova Iorque no início do mês: os Selected Poems de Stephen Spender (Random House, edição de 1964); os poemas de Ambrose Bierce (Bison Books); All of Us – The Collected Poems, de Raymond Carver (Vintage Books); e The Chinamen, de David Mamet (The Overlook Press). Se soubesse que é preciso vender cinco livros por dia, teria trazido mais um.

Reflexos num espelho deformado

O Filho Eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-989-616-289-4
Ano de publicação: 2008

Quando se decidiu a escrever, ao fim de vinte e tal anos, sobre o seu filho Felipe, Cristovão Tezza sabia perfeitamente que estava a entrar num terreno minado. Felipe nasceu com síndrome de Down e qualquer aproximação literária ao tema, por muito vigiada que seja, está sempre em risco de cair no abismo da pieguice afectivamente correcta. Pela própria natureza da história que conta, O Filho Eterno aproxima-se vezes sem conta do precipício, chega a olhar lá para baixo, mas nunca resvala. Só isto já seria suficiente para o considerar um romance acima da média, num tempo em que os romances acima da média são cada vez mais raros.
Inteligentemente, Tezza optou por escrever o seu livro na terceira pessoa, escondendo-se num narrador que lhe permite uma visão exterior, um olhar-se de perto, mas a partir de fora. Os factos da sua vida surgem assim com uma clareza que o uso da primeira pessoa, demasiado próxima da esfera emocional, talvez não alcançasse. Dito de outro modo: o protagonista, embora partilhe o percurso biográfico de Tezza e as angústias com o filho «diferente», não deixa de ser uma personagem de ficção. E este distanciamento é talvez o principal antídoto contra a autocomplacência.
O livro começa no dia do nascimento de Felipe. Enquanto espera nos corredores da maternidade, o quase pai faz um severo exame do seu lugar no mundo. Aos 28 anos, ele sente que «ainda não começou a viver». Com o curso de Letras a meio, sem profissão definida, sustentado pela mulher, as suas aspirações literárias esbarram na indiferença das editoras. Embora se sinta «predestinado à literatura», duvida das suas capacidades e sofre com isso. No fundo, ele é «delicado demais» (ou «ignorante demais») para a «realidade simples» do quotidiano e tem pânico de ser integrado pelo «sistema». Por isso, bebe muito, racionaliza tudo e encena o seu próprio teatro mental.
Para quem está aprisionado por este «leque de ansiedades felizes», no Brasil de 1980, a viver os «últimos minutos da ditadura», o nascimento do filho poderia funcionar como libertação. Só que o diagnóstico cai logo depois, brutal: Felipe tem trissomia do cromossoma 21. Isto é, síndrome de Down. Ou, como se dizia na época, «mongolismo». O problema do filho altera então o eixo das coisas e Tezza disseca, sem uma réstia de moralismo, as consequências do abalo. Acompanhamos o desespero inicial, as esperanças num falso diagnóstico, a vergonha, as frustrações, o desejo de que o filho morra cedo, a repulsa diante da comiseração alheia. É um processo doloroso e inconfessável, que se passa na cabeça do pai durante o calvário das consultas com especialistas e dos esquemas de estimulação precoce – formas de luta contra a «névoa neurológica», quase sempre violentíssimos, a raiar a tortura.
«Um filho é como um espelho no qual o pai se vê», diz Kierkegaaard numa das epígrafes. Mas se o espelho não é liso, a imagem que nele se projecta fica deformada. Ao olhar para Filipe, o pai vê o seu próprio falhanço: «O problema não é o filho; o problema é ele.» A lenta aprendizagem do amor paterno, assente numa demorada e incerta «rede tentacular de afetos», coincide então com a saída do labirinto que o escritor construira à sua volta (um labirinto que a memória recupera, ao evocar o empenhamento juvenil na «arte popular», uma passagem por Coimbra durante o PREC ou os tempos em que trabalhou na Alemanha, sem papéis, a varrer o chão de um hospital). O presente perpétuo da criança, que não distingue o ontem do amanhã, vai-se encaixando cada vez melhor nos vários passados do pai – sobrepostos pela sua reflexividade quase cartesiana – até ao apaziguamento final diante de um futuro que ninguém pode antecipar.
O consenso em torno de uma obra nem sempre é bom sinal. Mas no caso de O Filho Eterno – vencedor, em 2008, dos dois principais prémios literários brasileiros (Jabuti para melhor romance e PT de Literatura), além dos prémios da Associação Paulista dos Críticos de Arte e da revista Bravo! para Livro do Ano – é apenas uma questão de justiça.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

A Biblioteca Municipal de Viana do Castelo vista por Eduardo Pitta

«Vou com relativa frequência a Viana do Castelo, mas só há dois meses tive oportunidade de tentar visitar a nova Biblioteca Municipal, uma obra de Siza Vieira que representa um investimento de 4,5 milhões de euros, e acaba de receber o Prémio Nacional de Arquitectura Contemporânea da Associação Portuguesa de Municípios com Centro Histórico. (…) A minha curiosidade era grande. Em Setembro, saí de Afife com o propósito de a visitar. Visto de longe, o edifício impõe-se pela volumetria, embora os forasteiros não saibam exactamente onde acaba o bloco de cafés, bares e restaurantes e começa a biblioteca propriamente dita, instalada a seguir ao Tromba Rija. (…) E como é que o meteco sabe que aquilo é uma biblioteca? Ou, mais prosaicamente, como encontra a entrada principal? Em Setembro, no dia em lá fui, descobri com esforço uma folha A4, branca, presa com fita gomada ao vidro de uma porta. Havia vento, um dos cantos da folha estava solto, era preciso suster o papel para ler “Biblioteca” em Arial Black, corpo 18. A primeira reacção foi rir. Depois fiquei tão deprimido que desisti da visita. Fomos a correr para Vigo, dizer mal da pátria à mesa do Mosquito.»

Texto completo neste post do blogue Da Literatura.

‘A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo’ (booktrailer)

Eis o filme promocional do segundo volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson:

A editora Oceanos criou ainda uma página para alimentar o hype em torno deste romance, aqui.

Dois poemas de Rui Lage

HORTUS CLAUSUS

O olhar sobe as escadas da paisagem.
Muros atravessam-na duplamente
em amplos charcos de água.

Pequeno pássaro pousa
pequeno pensamento
no ramo que o frio despiu.

Nevoeiro o cerca, erguendo
vagarosos braços de lama
dissolvidos pela chuva.

Cheias de musgo e de bosta
estão as pedras do passado

de algum dono aprendido

sentam-se nelas poemas
cada vez menos aptos
a falar de mim.

Uma charneca o céu
a terra uma cisterna
que transborda.

Sou levado,
mas não irei longe
com tamanha ferrugem nos olhos.


JOVEM MULHER NUMA CAPELA DE ALDEIA

Num banco junto à parede,
fértil e escura como terra lavrada,
os olhos adormecendo no incenso
que a tomava pela cintura
e lhe dava o cansaço
da madrugada.

Os cabelos negros enredando o frio
que vinha de fora
pela porta que alguém esquecera aberta
mostrando ao fundo o rio
e a laranjeira despida
pela geada.

Morte
em ambos os lados da porta
dando entrada
e súbito o dia
e depois
mais nada.

[in Corvo, Quasi, 2008]

Primeiro dia

Sempre que posso, gosto de visitar livrarias no dia da abertura. Há qualquer coisa no ar que me atrai. Não sei se o entusiasmo dos livreiros, se a impaciência dos livros. Muitas vezes, como dizia o outro no Casablanca, é logo ali que começa uma bela amizade.
Estando por acaso no Príncipe Real ao início da tarde de hoje, decidi espreitar a Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa), a ver como iam as coisas no primeiro dia. E as coisas iam muito bem. Logo à entrada, do lado direito, à frente de um computador que o mantém ligado ao mundo, fica o deus ex machina do projecto, o ideólogo, o empreendedor, enfim, o gajo que dá o corpo ao manifesto: Mário Guerra, mais conhecido por Changuito, doido por poesia desde sempre, animador das noites do Bar A Barraca em que andam versos à solta por todo o lado, coleccionador fervoroso de raridades (autógrafos, primeiras edições, plaquetes quase secretas, esse tipo de material precioso) e gajo suficientemente louco para achar que uma livraria só de poesia se pode aguentar à bronca. No Porto, é sabido, existe a Poetria, também essencialmente dedicada à poesia mas com um dos pés assente no mundo do teatro. Agora isto, estantes cheias de livros de poesia, estantes cheias dos livros que nunca vendem nada (fora o Herberto, claro, por razões que seria interessante aclarar), agora isto sim, é coisa digna de se ver.
Enquanto espreito as prateleiras e circulo pelas duas salas exíguas, Changuito responde com amabilidade e ironia a uma rapariga de impecável sotaque francês, que entrou à procura de Boris Vian, mais concretamente de J’irai cracher sur vos tombes, do pseudónimo Vernon Sullivan. «Não temos esse, mas temos este», diz Changuito, enquanto retira da estante Canções e Poemas (Assírio & Alvim). A rapariga quer mesmo as cuspidelas nas tumbas e dois minutos depois sai encaminhada para a Letra Livre, ao fundo da Calçada do Combro, «a melhor livraria de Lisboa», mas já agora leva uns cartões para ficarem lá e outros «para dar aos papás» (franceses) ou aos amigos.
Por baixo das fotos enormes de Mário Cesariny («um dia, durante um recital, pediu-me em casamento; quando lhe elogiei a brancura dos cabelos, ele respondeu-me: “se estás a ser sincero, prova-o no altar”), por baixo de um Cesariny lânguido que fuma, Changuito fuma também. Cigarros Camel, americanos. Junto ao teclado do computador, há três maços (dois ainda por abrir). E uma lata de Coca-Cola. E um ovo de chocolate Kinder Surpresa. E pilhas de livros, cujas lombadas os visitantes tentam decifrar, torcendo os pescoços.
Quando Teresa Belo entra na livraria, sorrindo muito, é Ruy Belo que entra também. Changuito mostra o espaço outra vez, amplia o território da conversa, os olhos brilham a falar da Clepsidra, onde fomos dar já nem sei porquê, ou da experiência de estar em Nova Iorque no dia em que Obama venceu, «uma coisa fabulosa». A tarde inclina-se na rua. Fala-se de alfarrabistas e do cuidado que é preciso ter na hora de escrever, a lápis, um preço no canto superior direito da folha de rosto. Por exemplo, o Cobra, do Herberto, é o livro mais caro à venda (500 euros) e há uma razão válida para a exorbitância. Qualquer coisa na esfera do não querer ser comido por parvo. Outros livros, mesmo entre os difíceis de encontrar, são mais acessíveis: «Tenho aí alguns a dois euros e meio.» Há ainda os que não são para vender, porque pertencem à biblioteca de Changuito: «Trouxe-os só para meter raiva aos clientes», diz. E ri-se, o sacana.
Na rua, de tão inclinada, a tarde é já só sombras. Pouco depois de entrar porta dentro um rapaz do Norte que declama poemas «por aí», despeço-me. E o até breve quer mesmo dizer até breve.

Poesia Incompleta (Livros de poesia, novos e esgotados)
R. Cecílio de Sousa, 11.
Aberta de segunda a sábado, das 10h00 às 19h45.

Rogério Mendes de Moura (1925-2008)

Morreu, ontem à noite, aos 83 anos, o fundador da Livros Horizonte e decano do mundo editorial português. No site da APEL, associação a que Mendes de Moura presidiu entre 1972 e 1974, podem ser lido testemunhos de editores que o conheceram bem.

Uma história de Paul Auster por seis euros

A partir de hoje, a editora MHIJ tem disponível para download de mp3, no seu site, A História de Natal de Auggie Wren, de Paul Auster, lida por Henrique Garcia. Por cada download, dois euros (ou seja, um terço do preço) serão destinados à Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21.
Entre as publicações mais recentes da MHIJ estão as Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares, ditas por David Borges, e o livro de crónicas As Andorinhas Não têm Restaurante, de Alexandre O’Neill, lido por Jorge Silva Melo (ambos ao preço de 17,50 euros).

Diário do Goncourt (9)

Ao vasculhar em ficheiros antigos, guardados em pastas do Windows que já nem me lembrava de ter criado, encontrei uma crónica de 2001 em que escrevi sobre o primeiro livro de Atiq Rahimi, Terra e Cinzas, publicado em Portugal pela Teorema, sete anos antes da recente consagração do escritor de origem afegã, vencedor do Goncourt 2008.
Eis o essencial dessa prosa perdida num suplemento DNA, agora com folhas amarelecidas e cheio de pó:

Tudo começa com uma espera. Uma espera que parece infinita, beckettiana. Encostado ao parapeito de uma ponte, Dastaguir, um velho exausto e descomposto, sujo e com o turbante desfeito, aguarda a passagem de um carro que o leve até Karkar, a mina de carvão onde o filho, Mourad, trabalha há quatro anos. A seu lado, Yassin, o neto, ora brinca ora faz birra: tem fome, quer água. As horas passam; a boleia não chega. Perto, numa guarita minúscula, há um guarda mal-disposto e facilmente irritável, um homem fechado na sua própria solidão. Mais à frente, numa lojeca manhosa, o contraponto é dado por um comerciante gentil, capaz de romper, sem forçar, o círculo de arame farpado que é o silêncio de Dastaguir. O círculo da sua mágoa.
Temos portanto um velho, uma criança, dois homens. E mais nada. À volta, só montanhas áridas, poeira, vento, pedras negras, urtigas. O Afeganistão em meados dos anos 80. Sobre a ponte velha passa um camião com uma estrela vermelha na porta. Saberemos mais tarde que os soviéticos arrasaram uma aldeia. Mas, fora isso, podia ser o Afeganistão de há muitos séculos. Podia ser o Afeganistão de hoje.
Enquanto olha para a estrada, naquela ponte inútil que atravessa um rio seco desde sempre (querem melhor metáfora do país?), o velho masca naswar, uma espécie de tabaco com propriedades narcóticas, de cor esverdeada. Masca e cospe. Masca e cospe. Masca e ralha com o neto. Espera e afunda-se em sonhos breves, repentinos delírios que o levam aos poços da memória e às portas do inferno. E o pior não é a espera. O pior é o que tem para dizer quando, na mina, o filho lhe perguntar: «– Pai, o que te trouxe aqui?»
O que o trouxe ali, o motivo da viagem, é só um. Contar-lhe que os russos bombardearam a aldeia e toda a gente morreu. A mãe, a mulher, o irmão, os amigos, todos foram mortos. A aldeia está em ruínas e toda a gente morta. Menos eles, Dastaguir e Yassin. O velho sofre por antecipação. Como é que se partilha uma dor tão grande? E como é que se explica que Yassin está vivo mas ensurdeceu, por causa das detonações? Para o rapaz, o mundo é mudo desde o dia em que os tanques «substituíram as vozes das pessoas e foram-se embora». Já nem o avô, quando lhe ralha, consegue ouvir. «Os homens perderam a voz», diz Yassin. «O mundo tornou-se silencioso… Mas, nesse caso, porque mexem os homens os lábios?»
Quando um camião passa, finalmente, só Dastaguir segue viagem até à mina. Pelo caminho, o velho há-de apoquentar-se por ter deixado o neto aos cuidados do comerciante, um homem gentil mas que acabou de conhecer. Na estrada poeirenta, descerá de novo aos abismos do sonho e da memória. Chegará ao seu destino e ao desfecho da narrativa, um final em aberto – talvez para que os leitores o resolvam. A mina é, literal e simbolicamente, um buraco negro. Engole tudo, incluindo o próprio Mourad. O ar é denso e o velho perde as poucas forças que lhe restavam. Surge um contramestre sinistro, montanha de força, hipocrisia e poder. O velho resiste-lhe e hesita, até ao limite, sobre o que dizer a Mourad. Não será melhor, para ele, a ignorância? Dastaguir transporta a verdade junto ao peito, como um punhal. E a tragédia é essa: tem que o espetar no coração do filho, mas não sabe como.
Terra e Cinzas narra a viagem de Dastaguir ao mais fundo de um país em colapso, esse Afeganistão que nos fazem crer que foi sempre – e não foi – uma geografia de caos e ruínas. Escreveu-o Atiq Rahimi, um afegão de 39 anos, exilado em França desde 1985. Publicou-o por estes dias, em português (a partir da tradução francesa de Sabrina Nouri, que decifrou as subtilezas da língua persa), a Teorema. Rahimi exilou-se, aos 22 anos, para fugir ao alistamento no exército pró-soviético, à censura recorrente e ao inferno da guerra. Filho do governador de Pandjshir, teve uma infância dourada. A seu tempo, pôde escolher o objecto dos estudos universitários: literatura e cinema. Tem os olhos claros, barba bem aparada, um ar sofisticado. Gosta de afirmar que escolheu a França como lugar de exílio porque admira Victor Hugo e Serge Gainsbourg. Ainda não é um grande escritor, mas pode vir a ser. Neste livro, por exemplo, há coisas que não me convencem: o excesso de pontos de exclamação; o narrador omnisciente que trata as personagens por tu; a escatologia de certos sonhos; algumas facilidades de linguagem (atribuíveis porventura à tradução); e o tom demasiado solene do comerciante «sábio».
Tudo o resto é brutal, belo, surpreendente. Neste livro não há soldados (nem sequer os russos), não há mujahedines, não há talibans, não há guerrilheiros da Aliança do Norte, não há homens barbudos a sucederem a outros homens barbudos numa espiral de despotismo, barbárie e destruição. Não há bombardeamentos de aviões americanos, nem marines a levantarem pedras, armados até aos dentes. Não há, sequer, uma rajada de Kalashnikov que alguém dispara ao fim do dia, na cidade mais próxima. E no entanto, tudo isso, as histórias que vieram depois, já estão aqui, nestas páginas, a germinar. Durante a ocupação soviética, o Afeganistão transformou-se num imenso cemitério, onde «os homens perderam toda a dignidade» e «os mortos são mais felizes do que os vivos». Nessa época, talvez ainda houvesse esperança, apesar de tudo, no meio dos destroços. Hoje, nem isso há.
Quando pouso o livro, acendo a televisão. A CNN mostra pela enésima vez as mesmas imagens. Homens de turbante desfeito, arrastando-se na lama. Crianças de olhos perdidos. A voz off não fala deles, claro. Fala de consensos políticos em Cabul e de movimentos das tropas americanas. Reparo num velho muito velho, tão velho como Dastaguir. Pela mão, leva uma criança que podia ser Yassin. A cena é muito triste. O que terá ele para contar ao filho?

A casa amada e a causa amante

Alexandra Lucas Coelho visitou, sala a sala, recanto a recanto, a última casa de Maria Gabriela Llansol. Eis alguns vislumbres do texto publicado hoje – dia em que a autora de O Senhor de Herbais faria 77 anos – no suplemento P2 (Público):

«A Estalagem da Raposa é uma daquelas casas de Sintra que de fora parecem estar bem assentes na vila, e por dentro afinal estão suspensas, com o horizonte a rodar nas janelas, castelo-palácio-mar-verde, e som só de pássaros no telhado da cozinha.
Aqui morreu, a 3 de Março, Maria Gabriela Llansol, autora de uma das mais radicais metamorfoses da escrita contemporânea, obra de espantar, incessante. (…)
O chão é de tábua corrida, as paredes foram recentemente pintadas de branco, a luz atravessa os quartos. Esta é a primeira sensação – silêncio e claridade.
(…) O visitante ainda não pousou o casaco e já está dentro dos livros de Llansol, um mundo em que figuras históricas e anónimas, criadores e criaturas, objectos, pedras, plantas, animais se cruzam, estão vivos, falam uns com os outros. O que todos têm em comum é Maria Gabriela. Ela toma-os e escreve com eles.
À direita, de onde a luz vem, fica o escritório. É a única divisão onde tudo se mantém como estava, a começar pela secretária com uma obsoleta Olivetti eléctrica tão usada que já tem papelinhos colados no “azert”, onde as letras desapareceram. Há bonecas com vestidos de princesa e loiça de brincar, os livros mais importantes muito lidos e, como em todas as divisões seguintes, plantas e centenas de objectos, a meio caminho entre um gabinete de curiosidades e uma loja de velharias.
(…) Por baixo da janela estão as bonecas, pousadas em cadeiras, com o seu tabuleiro de chá para seres minúsculos.
Etelvina Santos – É o cantinho dela e da Hélia [Correia]. Sentavam-se aqui as duas a conversar. As conversas que a Maria Gabriela tinha com cada um de nós eram muito diferentes.
João Barrento – Ela percebia a natureza da pessoa. Depois, aqui não há objecto que não tenha sido transformado. Alimentam livros inteiros. Vamos reconhecendo: Cá está o pássaro do Lalique! Olha a jarra azul!
Literalmente uma jarra azul, junto à secretária. Tem sido uma revelação contínua como tudo é material e não metáfora.
(…) Entretanto Etelvina pegou numa pequena gazela.
ES – “A erva verde e a patinha recolhida…” É mesmo isto!
JB – Da descrição do objecto nasce a escrita, que é a passagem para a dobra, para o outro lado. Até em Amigo e Amiga, ela vai pela rua e a partir daí desencadeia-se o processo da escrita. Não para contar uma história, nunca. Há pensamento sobre o que se vê e um trabalho de linguagem para fixar as iluminações que lhe vêm constantemente.
ES – Ela dizia que gostava de escrever um livro em bruto.
JB – Les bêtes, les brutes. Existe uma interferência do francês nela. E nos primeiros cadernos escrevia em francês.
(…) Da divisão seguinte vê-se o mar ao fundo, em dias claros. É uma sala com mesa de trabalho e vitrinas para os objectos mais preciosos. Mas antes era o quarto de Maria Gabriela. O chão estava cheio de plantas e pilhas de livros. Havia uma cama com a cabeceira encostada à parede que agora tem uma grande pintura de Ilda David’, da série Nuvens.
(…) JB – Neste caderno, ela chama a si própria uma camponesa da escrita.
ES – Depois, havia uma loja em Campolide que vendia roupas usadas e a Maria Gabriela ia lá e transfigurava-as. Não gostava de roupas novas.
E tudo pode ser matéria física para escrever.
JB – O mesmo objecto mudado de lugar gera nova escrita. Foi o que ela fez com os milhares de objectos que herdou.
(…) Os cadernos estão guardados na divisão seguinte. Era um pequeno quarto de arrumos que Barrento e Etelvina forraram com estantes. Dezenas de dossiers de arquivo com toda a correspondência e todas as fotografias, e dezenas de cadernos manuscritos.
JB – Há um primeiro núcleo numerado e datado com 76 cadernos. E depois há mais 73 cadernos de formato diverso, recuando até aos anos 60.
Só as fotografias cobrem mais de cem anos. Tudo o que era papel estava num caos. Durante três meses, João Barrento e Etelvina só limparam e arrumaram.
Agora, ele abre o seu portátil para mostrar o sistema de catalogação que permite ver cada caderno página a página.
JB – Vamos começar com uma edição digital dos cadernos 1 a 76, acompanhados de quatro índices: onomástico, lugares, figuras e temas. Isso permite a consulta na edição manuscrita. Depois vamos fazer uma transcrição parcial dos cadernos, por ordem cronológica, uma série que se chamará Livro de Horas e sairá na Assírio & Alvim. Mas, entretanto, os investigadores poderão trabalhar on-line os manuscritos. (…) A digitalização dos 76 cadernos numerados está quase completa. São 17 mil páginas, nesta primeira fase. Com os restantes cadernos irá para 25 mil.
Cada caderno demora dois a três dias a ser digitalizado. Alguns têm muitos papéis soltos dentro, que também são catalogados. Barrento e Etelvina passam aqui dois dias por semana, ela vinda de Cascais, ele vindo de Lisboa, e depois trabalham em casa. Etelvina, que se doutorou com uma tese sobre Llansol, deixou mesmo de dar aulas na Universidade para se dedicar a isto. Está à espera de saber se terá uma bolsa de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Quer desenvolver um projecto para estudar Fernando Pessoa na obra de Llansol e conjugá-lo com o espólio.
Barrento, que nos últimos tempos suspendeu as suas traduções de Musil e Benjamin por causa dos trabalhos llansolianos, chama a isto o espírito da “causa amante”.»

‘Breakdowns’

Art Spiegelman, o autor de Maus, fala do seu último livro nesta entrevista exclusiva ao The Times.

O romance da raposa

A blusa romena
Autor: António Mega Ferreira
Editora: Sextante
N.º de páginas: 241
ISBN: 978-989-8093-70-7
Ano de publicação: 2008

Num dos vários planos narrativos que se sobrepõem e cruzam em A blusa romena (para deleite de futuros exegetas), António Mega Ferreira recupera uma célebre catalogação de Isaiah Berlin, que divide a humanidade em geral – e os escritores em particular – entre ouriços e raposas. Nos ouriços tudo se orienta para «uma perspectiva central e única, para um sistema, mais ou menos coerente e articulado, em função do qual compreendem, pensam e sentem», enquanto as raposas «prosseguem vários fins, muitas vezes desconexos e até contraditórios».
A personagem central do livro, Vasco de Almeida França, é assumidamente uma raposa. Aos 32 anos, este escritor pouco conhecido vive num estado de «ansiedade grafómana». Ou seja, escreve muito, sobre os mais diversos assuntos (do cinema à música, passando pelas artes visuais), mas de forma dispersa. Embora tenha ambições literárias, mostra-se incapaz de dar sentido ao «magma» das suas «recordações e experiências». O romance que tenta escrever há vários anos – Vida de Belidor, história bloqueada de um «escritor que se faz passar por não-escritor» – é apenas um símbolo da sua impotência criativa.
É então que surge Duarte Lobo, autoproclamado caixeiro-viajante de «almas inquietas», uma espécie de anjo «acelerador de vocações» ao serviço de uma misteriosa «organização» que trabalha em esferas supra-humanas. Quando desafia Vasco a cumprir o adiado projecto de A blusa romena, ficção inspirada pelo quadro homónimo de Matisse, Duarte oferece-lhe ao mesmo tempo a matéria-prima: um esboço de enredo que tem como ponto de partida as memórias do seu envolvimento amoroso com Nádia, filha da mulher que serviu de modelo ao pintor, bem como a possível existência de uma outra versão do quadro (a «autêntica») que ninguém sabe onde foi parar. Ao morder o isco, Vasco sai por fim do impasse, conduzido e manipulado por alguém que pode muito bem ser uma projecção, um alter ego, ou o ouriço que espicaça, desde dentro, a raposa inconsequente.
O resultado é uma engenhosa urdidura onde cabe quase tudo: as duas histórias de amor em espelho (cheias de simetrias e curto-circuitos), mas também evocações de Paris e da Roménia de Ceausescu, referências eruditas (de Joyce a Schubert, de Sonia Delaunay a Espinoza), jogos metaliterários, auto-ironias e um quarteto de personagens bem desenhadas, a executarem na perfeição a sua música de câmara. Pela sua crescente importância ao longo do livro, destaco Lumena, a prostituta por quem Vasco se enamora, cuja beleza está algures entre uma Madonna de Rafael e a «terrível Judite» que decapita Holofernes num quadro de Caravaggio.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]

Idlewild Books

É uma livraria onde predominam os globos (dos candeeiros às réplicas geográficas do planeta Terra), lugar perfeito para quem gosta de literatura de viagens. Abriu há poucos dias. Único defeito: fica um bocadinho longe (19th Street, perto da 5th Avenue, Nova Iorque).

‘O Capital’, versão manga

Ou de como os japoneses recuperam Marx à sua maneira.

Nomes de bandas inspiradas por livros

São às dezenas.

Ali só entram os mais diversos versos

Apresenta-se como «a primeira livraria portuguesa de poesia», com oferta de livros novos, esgotados e raros, em mais de 20 línguas. Terá ainda edições importadas de Espanha e do Brasil, revistas e spoken word. A Poesia Incompleta, belíssimo nome, abre amanhã.

Vítima do sucesso

O projecto Europeana (uma Biblioteca Digital Europeia que permite o acesso a conteúdos multimedia de dezenas de museus e centros culturais dos 27 países da UE) não resistiu à avalanche de visitas que se seguiu ao seu lançamento oficial, na quinta-feira. Com mais de dez milhões de hits por hora, o sistema foi abaixo e o serviço só voltará a estar disponível em meados de Dezembro, quando houver um reforço do número de servidores. Entretanto, os internautas mais curiosos podem ir espreitando o aspecto da coisa nos vídeos de demonstração que se podem ver aqui.

Búzios e dedos amputados

Zerbino
Autor: José Rui Teixeira
Editora: Cosmorama
N.º de páginas: 36
ISBN: 978-989-8029-14-0
Ano de publicação: 2008

Numa breve nota final, José Rui Teixeira explica sucintamente a génese deste seu ciclo de 12 poemas em prosa: «Zerbino começou a ser escrito no dia 31 de Outubro de 2006, em Barcelona. Uma gravura comprada numa loja de máscaras […] contribuiu com o título e com uma primeira representação descontextualizada; as ruas estreitas do Born e a sombra da Igreja de Santa Maria do Mar fizeram o resto.» Há nesta explicação uma certa aura de secretismo que se propaga ao exíguo corpo textual do livro – o quarto deste poeta que se divide entre a religião (é teólogo num Centro Catecumenal), a filosofia (tem um mestrado pela Faculdade de Letras do Porto) e a literatura (prepara um doutoramento sobre a vida e obra de Guilherme de Faria; além de ser editor da Cosmorama).
O Zerbino que se desenha nestas pagelas é um homem estranho, exposto à solidão e ao rumor dourado das profecias, ser «desprezível» que guarda «búzios e dedos amputados» numa caixa, um crente para quem Deus, que ama com todo o coração, equivale à morte (ambos trazidos «como cães amarrados às pernas»). O estilo barroco da escrita, a atmosfera veneziana e certas referências à «luz a oriente», ou a «pêndulos e planisférios», levam-nos a projectar em Zerbino o perfil de um príncipe da Renascença, perverso e decadente. Mas logo se explica que «Caim matara o justo Abel por esses dias» e a noção do tempo acelera-se às arrecuas até paisagens bíblicas.
Mais do que um sentido para o mundo, o que Zerbino procura é uma aproximação ao seu mistério, para lá das «transparências fragmentadas na superfície das águas do princípio». De texto para texto, circulam as mesmas metáforas, as mesmas imagens a arder. E José Rui Teixeira abeira-se, com a sua personagem, dos «abismos poéticos». Um exercício arriscadíssimo do qual nem sempre sai ileso, seja porque se deixa enredar no mais inexpugnável dos hermetismos, seja porque desliza para o território dos efeitos gratuitos, onde pairam «gôndolas intrínsecas na periferia da infância».

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no número 74 da revista Ler]

Ipsis verbis

Diz o Pedro Mexia na edição de hoje do Expresso (rubrica ‘Jogo de Espelhos’ da revista Única):

«Vivo muito dentro dos livros. Só sou alguém no mundo a partir dos livros e para os livros. Felizmente tenho tido a sorte de conseguir ganhar a vida a fazer o que gosto. (…)
Gostaria de escrever muito mais livros. É só nisso que penso (…). Literatura, livros, livros, escrever, escrever, escrever. Até começar a fazer algo de bom.»

São sete frases. Sete frases que assinaria de caras.

Livro + DVD

Eis uma ideia que faz todo o sentido: juntar o relato de Judith Perrignon sobre Théo Van Gogh (a sua brusca, brutal e pungente descida aos infernos da loucura, após a morte do irmão) e o filme de Maurice Pialat sobre Vincent. Enquanto traduzia o livro, eram justamente as imagens de Jacques Dutronc a deambular pelas paisagens de Auvers-sur-Oise que me vinham à cabeça, quando Théo invocava esse irmão que amou de forma tão esquiva e torturada.
A editora 90º já tem o pack livro + DVD à venda por um excelente preço (19,95 euros), mesmo a tempo das inevitáveis compras de Natal.

Um poema de Angélica Freitas + um poema de Valeska de Aguirre + um poema de Marília Garcia

RILKE SHAKE

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga

nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe

Angélica Freitas

TRABALHAR PARA NÃO FRAGMENTAR

foi o que disse Louise Bourgeois
mas poderia ter sido minha mãe.
Não há memória do tempo
apenas fragmentos
de sensações
gestos palavras avulsas
de meu pai minha mãe minhas irmãs
no corredor a pergunta
cadê o batom? na mesa,
não sabe fritar um ovo?
minha mãe minha mãe
sabia muitas coisas
trabalhar para não fragmentar
herdei o fragmento escondido
varizes coaguladoras
agora já duas vezes repartida
a cicatriz é uma só
e permanente.

Valeska de Aguirre

O QUE FAZEM A E B QUANDO CHEGAM A CIDADES DESTRUÍDAS

A.
estar tão longe num quarto com
dois quadros e uma janela
para o pátio. no meio do
pátio uma macieira
parada.
sai com duas malas de 20 quilos e na chamada
explica:
todos os nomes aqui são um
equívoco. jamais pode andar
fora da zona delimitada (“chamam
isso de um kindergarten, mas é
um palco enorme de madeira,
mal enxergo onde termina
o teto”)

B.
chega numa terça-feira depois de perder
dois vôos na mesma cidade.
a legenda da foto
dizia:
soneca. mas não explica muito
bem quem estava ao lado, o frio era o único
tema de conversação. a casa tem três
quartos com papel de parede e o vão
entre a janela e a porta congela as
primeiras noites.

A.
passados uns dias já sabe que
as tentativas aquáticas não podem ser
usadas nos rios deste país. sabe que ninguém
responde à neve. quando está sozinha
no quarto pensa que terá dois dias
úteis. depois pensa nos glúons
e quarks e nos anos estudando
a cromodinâmica quântica.

B.
pensa na chuteira que sempre quis
ter. nas aulas de pólo aquático,
nos cálculos. recebe a chamada de morte
e diz:
daqui não sinto nada. leva as roupas
até a lavanderia da esquina e fica
parado girando os olhos. no dia seguinte
escreve: amanheceu tudo branco
pela primeira vez.

Marília Garcia

[in A poesia andando: treze poetas no Brasil, antologia organizada por Marília Garcia e Valeska de Aguirre, Cotovia, 2008]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges