Um bom 2009

Apesar de tudo.

[A imagem reproduz um dos livros artisticamente modificados por Nicola Dale]

Listas

São obrigatórias, não são? Então aqui vai:

LITERATURA ESTRANGEIRA

FICÇÃO PORTUGUESA

POESIA PORTUGUESA

  • A Faca Não Corta o Fogo, de Herberto Helder, Assírio & Alvim
  • A Terceira Mão, de Manuel Gusmão, Caminho
  • Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso, Trama
  • Mais Espesso que a Água, Luís Quintais, Cotovia
  • Vida Extenuada, Fátima Maldonado, & Etc
  • O Amante Japonês, de Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim
  • Comércio Tradicional, de Vítor Nogueira, Averno
  • Velhos, de Jorge Gomes Miranda, Teatro de Vila Real
  • Jukebox 2, de Manuel de Freitas, Teatro de Vila Real
  • A Mãe de Todas as Histórias, de José António Almeida, Averno

Uma escolha é uma escolha é uma escolha. E esta contempla, como é óbvio, apenas uma selecção dos livros efectivamente lidos por mim, de entre os publicados em 2008, o que explica desde logo as lacunas mais óbvias (por exemplo, a ausência de O Homem Sem Qualidades, de Musil, ou das Odes, de Horácio).

Um ano sem o Olímpio

Retrato de Olímpio Ferreira, por Pedro Vieira
(Ilustração de Pedro Vieira)

Não gosto por aí além de efemérides, mas a verdade é que o tempo passa e nós quase que nem damos por isso e de repente são necessárias balizas que nos orientem, pelo menos quando olhamos para trás. Há precisamente um ano, perdemos o Olímpio Ferreira (e cabe muita gente dentro deste plural). A sua ausência, não sei porquê, magoou-me mais do que outras. Foram muitas as vezes em que o recordei, sobretudo ao folhear livros de poesia que ele desenhou com um cuidado tão raro, mas também ao ver certas coisas, ao ouvir certas coisas («o que é que o Olímpio pensaria disto?») e ao descobrir, ia dizer a posteriori (se isso não fosse injusto para os que ficaram), o espaço tão acolhedor da sua casa, cheia de literatura e vida e memórias.
Não gosto por aí além de efemérides, excepto quando elas assinalam datas que não consigo esquecer.

Notas about Pinter

Por Francisco Frazão: aqui, aqui e aqui.

Prémios Arrastão

Os «três escribas» do melhor blogue político português consideraram que o Bibliotecário de Babel foi, em 2008, o melhor blogue de cultura. A troca de galhardetes é sempre um embaraço, mas não posso deixar de agradecer a escolha e retribuir o gesto.

Luis Sepúlveda: “A vida está cheia de literatura”

Depois de muitos anos na ASA, Luis Sepúlveda publicou o seu mais recente livro de contos (A Lâmpada de Aladino) na Porto Editora, acompanhando a mudança de agulha de Manuel Alberto Valente, seu amigo de sempre. A conversa que se segue, prevista para uma das esplanadas do Centro Comercial Vasco da Gama, acabou por acontecer durante uma sessão de autógrafos, por entre elogios dos fãs e dedicatórias manuscritas com rapidez profissional.

Na última década, tem publicado mais livros de crónicas e intervenção cívica do que propriamente de ficção. Como é que se deu este regresso à narrativa?
É verdade que eu publiquei várias obras em que reuni artigos, crónicas e ensaios, aquilo a que se chama livros de contingência, mas nunca me afastei da ficção. Mesmo durante os anos de aparente pousio, continuei sempre a escrever ficção. Acontece que este tipo de projecto necessita de muito tempo, de muito trabalho.

Não gosta de ser pressionado para publicar.
Não, não gosto. Aliás, nunca aceito pressões, seja de que tipo for. Limito-me a entregar os livros quando sinto que estão prontos.

E como é que sabe que estão prontos?
Sou muito crítico comigo mesmo, trabalho muito os textos. Se tiver alguma dúvida, não avanço. Os contos deste livro foram escritos em épocas diferentes e um dia apercebi-me que havia neles uma coerência que permitia juntá-los. Mas mesmo assim não publiquei todos. Elegi alguns, outros continuam na gaveta.

Algumas histórias têm como cenário a Patagónia mais remota, outras decorrem em Santiago do Chile (onde passou a juventude) ou em Hamburgo (um dos seus lugares de exílio). E há ainda um regresso ao coração da selva amazónica, aos cenários e às personagens de O Velho que Lia Romances de Amor. A ideia foi abranger de novo as muitas latitudes da sua vasta geografia pessoal?
Sim, claro. Mas sobretudo quis voltar a publicar ficção com um livro que fosse muito pessoal. Isto é, que permitisse aos meus leitores um reencontro com as atmosferas dos meus romances mais antigos e dos livros de viagens.

O título completo deste volume é A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento. Que tipo de memórias pretendeu convocar?
Muitas memórias diferentes. Memórias de amigos, de paisagens, de situações, de personagens que me marcaram. Em certo sentido, toda a minha literatura tem sido uma grande homenagem à memória, que é, ela própria, uma forma de ficção. Nunca conseguimos reproduzir as coisas exactamente como elas foram. Quando recordamos o que se passou ontem, já estamos a ficcionar.

Grande parte dos contos estão dedicados a amigos, alguns dos quais já desaparecidos. Em «Jantar com Poetas Mortos», escreve: «Os amigos não morrem simplesmente: morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.»
A perda de um amigo é sempre sentida como uma mutilação atroz, há algo muito importante de nós mesmos que desaparece com eles. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de não permitir que o esquecimento nos vença. Como diz um personagem desse conto: «Enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem».

O amor é outra forma de melancolia. As mulheres amadas são sempre muito esquivas. Ora surgem como fantasmas; ora se escapam, fugidias; ora se assemelham à própria morte. Parecem impalpáveis, voláteis. É quase como se o amor fosse uma espécie de utopia que os protagonistas não conseguem fixar.
Esse padrão é uma coincidência. Eu acho que o amor, como muitas outras coisas, não é algo que nasça de repente. Precisa de tempo para amadurecer, como o vinho. Só assim pode ter cheiro, sabor, textura. E às vezes, realmente, como que se escapa das mãos e desaparece. Ou então, quando chega, afinal era outro o destinatário. E tudo isto tem que ver com o paradoxo da fortuna, que é o tema geral da maioria dos contos. A fortuna que nunca chega, ou chega demasiado tarde, ou quando chega traz-te mais problemas do que aqueles que tinhas antes. A fortuna que pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. No conto do Aladino, por exemplo, aparece uma índia para quem a fortuna era uma simples manta. Só isso. Quis contar esses outros rostos que pode ter a fortuna.

Costuma dizer que as suas histórias se inspiram em relatos que vai ouvindo, aqui e ali, nas deambulações pelo mundo. Aconteceu o mesmo com estas?
De facto, a maior parte das minhas histórias foram ouvidas a pessoas que conheci nos lugares mais díspares. Ou então nascem de situações em que fui testemunha ou participante. A vida está cheia de literatura. A nós, escritores, cabe-nos olhar com atenção e encontrar esses pequenos detalhes da existência que podem ser transformados em material literário, que podem ser narrados. Há escritores que se comportam na vida como um moinho de vento, sempre a girar, enquanto tentam agarrar as histórias. E depois há outros escritores que escrevem simplesmente porque sentem que têm de escrever, deixam que as histórias venham ter com eles, calmamente, sem urgências, sem problemas de tempo. Pode vir uma história hoje e outra amanhã. Ou uma hoje e a próxima dez anos depois. Pouco importa. Porque as histórias acabam sempre por chegar.

Outro tema recorrente no livro é a ideia de limite territorial. O Hotel Z, por exemplo, fica na povoação de Tres Fronteras, «lá onde, sem que ninguém se importe, se tocam as fronteiras ilusórias do Peru, Colômbia e Brasil». No conto «A reconstrução da catedral», assiste-se a uma guerra absurda entre o Peru e o Equador para garantir o domínio de áreas quase inexploradas da Amazónia. Já no caso da Patagónia, a fronteira é com o fim do mundo. As personagens parecem procurar um limiar geográfico, que é também o limiar entre a vida e a morte, o amor e o desaparecimento.
Eu creio que na vida estamos sempre a passar uma fronteira. Em todos os sentidos. Não há fronteira mais imprecisa do que a fronteira dos afectos, por exemplo. Os afectos têm de ser mantidos. Se passas para o lado de lá da fronteira, transformam-se em desafectos. A relação com a tua família, com os teus filhos, é outra fronteira. Sabes que virá um momento em que os teus filhos se tornarão adultos e estarão do outro lado, um momento em que vão definir as suas próprias fronteiras. Talvez por ter viajado muito pelo mundo, tenho realmente o sentimento de ser um cidadão de fronteira. Por outro lado, não creio que se possa existir de outro modo. Todos vivemos em lugares que são, de uma maneira ou de outra, fronteiriços. Todos somos habitantes de fronteiras.

Nestes contos há também muitos espelhos. Um deles, o mais interessante, reflecte apenas o lado bom das pessoas.
A mim, os espelhos intrigam-me muito. Causam-me sempre uma enorme curiosidade.

A Borges, davam-lhe pavor.
Sim. No meu caso, intrigam-me não no sentido Lewis Carroll, o de querer saber o que fica do outro lado do espelho, nada disso. Intrigam-me porque muitas vezes os espelhos melhoram a imagem do que reflectem. Deformam a realidade de uma forma benigna. São generosos. Há uma generosidade óptica nos espelhos que é muito misteriosa. E acho que foi isso que me levou a criar a bizarra personagem do libanês que fabrica espelhos. Quando ouvi falar dele, em Tres Fronteras, sabia que era uma invenção do tipo que me estava a contar a história. E disse, está bem, mas agora eu vou melhorar um pouco a tua história, acrescentar-lhe detalhes e transformá-la em literatura. O espelho que mostra o lado melhor das pessoas apela a uma certa carga utópica. Cabe à literatura dizer que era bom que existisse um espelho assim.

Nenhum destes textos é explicitamente político. Prefere guardar para os livros de crónicas um olhar mais empenhado sobre a realidade do mundo contemporâneo?
O ponto de vista político não está muito presente na minha literatura, naquilo que escrevo de puramente literário. Sou mais explícito nos artigos de opinião, nas crónicas, nos ensaios. Mas como a literatura depende do nosso estado de espírito, a realidade acaba sempre por afectar a forma como escrevemos. Ainda assim, procuro manter um equilíbrio entre essa posição ética que tenho perante a vida e a minha posição estética no campo da literatura. Nunca deixando de fazer pontes, através das quais tento dar à literatura a mesma carga ética que me norteia na vida e dar à vida a mesma carga estética com que escrevo os meus livros.

Como é que vê a situação em que nos encontramos agora, com o espectro da crise financeira a assustar toda a gente?
Estamos numa época particularmente crítica. Primeiro, porque os actuais dirigentes mundiais são de uma mediocridade absoluta. Todos, não se salva um. Não há ninguém com coragem suficiente para dizer que o que falhou foi o sistema, que o capitalismo colapsou. Quando eu e milhões de pessoas como eu dizíamos que não se pode deixar tudo nas mãos do mercado, que o mercado não tem ética, não tem moral, éramos quase apelidados de terroristas. Mas agora toda a gente acha que o Estado é necessário.

Há nisso uma certa ironia.
Sim, uma ironia trágica. Quando Evo Morales, num país tão pobre como a Bolívia, nacionalizou um banco, foi um escândalo. Quando Gordon Brown nacionaliza todos os bancos ingleses, é um génio, o salvador da Europa e do mundo.

O penúltimo conto tem como protagonista um pirata português, Valdemar do Alentejo. De onde é que surge esta figura? Inspirou-se numa história verdadeira?
Sim. Valdemar do Alentejo é uma personagem absolutamente real. E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas, que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares. No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava os navios da liga hanseática e distribuía o saque pelos pobres, à laia de Robin Hood; nas costas africanas, sob a forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo; e depois no Estreito de Magalhães, onde coexistiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha de guerra dos Países Baixos, os Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano.

Os piratas sempre encarnaram aquilo que gostávamos de ser e não podemos, a liberdade absoluta.
Claro. Infelizmente, a imagem que temos hoje dos piratas é uma simplificação muito grosseira do que eles foram, uma mitificação ao pior estilo Walt Disney. A mim, por exemplo, fascina-me saber que os piratas da Patagónia e os do Mar do Norte, apesar de separados por centenas de anos e por muitos milhares de quilómetros de distância, tinham muito em comum. A bandeira de Störtebeker era igual à dos Van der Meer e do Alentejano. Nada de bandeira preta, com caveira e tíbias. Não. Era uma bandeira metade vermelha e metade negra. Quatro séculos mais tarde, foi essa também a bandeira dos anarquistas.

A uni-los a todos está a luta contra a ordem estabelecida.
Sim. E a vontade de aplicar uma ideia elementar de justiça: devolver aos mais fracos o que lhes foi tirado pelos mais fortes.

Ao ler a «Desventura final do Capitão Valdemar do Alentejo» fiquei com a sensação de que estava ali o esboço para um romance.
E está mesmo. Num livro de História holandês, descobri que existem umas vinte versões diferentes da morte do Alentejano. E pensei: então vou escrever essas vinte e mais uma. A que está neste livro é a 21.ª e faz lembrar a morte de São Sebastião, crivado de setas. Mas, noutras versões, ele morre em combate, ou no assalto a um navio espanhol, ou executado nas Ilhas Molucas (provavelmente a verdadeira). O romance que ando a escrever há-de recolher todas essas variantes.

Já tem título?
Sim. Vai chamar-se O Alentejano.

O conto que fecha A Lâmpada de Aladino tem um lado simbólico muito forte. Aquela árvore solitária que resiste aos ventos gelados da estepe polar, mantendo-se vertical numa ilha onde tudo caiu, representa mais do que um exemplo de heroísmo. É a metáfora perfeita, o «estandarte necessário da dignidade do Sul».
Nem mais. É isso mesmo: uma espécie de ícone da resistência.

[Entrevista publicada, em versão ligeiramente mais curta, no número 75 da revista Ler]

Cinco miniaturas de Rui Caeiro

BORBOLETAS

Como o fogo, duram o tempo que duram
Duram pouco. Ninguém espera de uma labareda
que fique para sempre


SEREIAS

Brilham ao sol a negra cabeleira, a verde
opulência das ancas e a pele fria e morna
escorregadia como os limos que há nas rochas


LINCES

Para bem escutar o rumor do mundo, ou melhor
filtrar o pouco que importa ouvir, nada como
duas imponentes orelhas em bico de flecha


PAPAGAIOS

Dizem o que eu digo e dizem tão bem
que fico sem saber quem imita quem


VERMES

Nos negros labirintos do interior da terra
também sonham, sonham com a nossa carne

[in O Carnaval dos Animais, Letra Livre, 2008]

Alice e a «livraria dos poemas»

Ela insistiu muito. «Pai, tens que me levar à livraria dos poemas.» «Pai, quero muito dizer ao Changuito para fazer mais discos com poemas.» «Pai, leva lá, leva lá, leva lá.» Estava a chover muito, hoje à tarde. Cordas de água a fustigar a cidade, o asfalto brilhante dos reflexos de faróis e candeeiros. Um pai, uma filha, um guarda-chuva. E a Alice, maravilhada, entrou pela primeira vez na Poesia Incompleta. Fez as perguntas que tinha a fazer, olhou para as fotografias do Cesariny, leu com a Alexandra Lucas Coelho (as duas sentadas no chão) um livro do Robinson Crusue, só com imagens. À saída, chovia menos. E enquanto voltávamos para o carro, ou pouco depois, o Changuito escreveu isto (quem agradece somos nós).

Harold Pinter (1930-2008)

Na véspera de Natal, à noite, morreu Harold Pinter, um dos mais importantes dramaturgos ingleses do século XX e Prémio Nobel da Literatura em 2005. Eis o obituário do The Guardian. E eis um excerto da peça O Encarregado (The Caretaker, 1959), traduzido por Francisco Frazão:

Aston Você podia ser… o encarregado disto, se quisesse.
Davies O quê?
Aston Podia… tomar conta do sítio, se quisesse… sabe, as escadas e o patamar, os degraus da entrada, ficar de olho nisso. Arear as campainhas.
Davies Campainhas?
Aston Vou colocar algumas, lá em baixo, junto à porta da rua. Latão.
Davies Encarregado, hã?
Aston Sim.
Davies Bom, eu… eu nunca me encarreguei assim dum sítio, sabe… quero eu dizer… nunca… o que eu quero dizer é que… inda nunca fui encarregado.
Pausa.
Aston O que é que acha de ser, então?
Davies Bom, admito… Bem, ia ter de saber… sabe…
Aston Que tipo de…
Davies Pois, que tipo de… sabe…
Pausa.
Aston Bom, quer dizer…
Davies Quer dizer, ia ter de… ia ter de…
Aston Bom, eu podia dizer-lhe…
Davies É… é isso… percebe… tá-me a compreender?
Aston Quando chegar a altura…
Davies Quer dizer, é aí que eu quero chegar, percebe…
Aston Mais ou menos exactamente o que é que…
Davies Percebe, o que eu quero dizer… onde eu quero chegar é… quer dizer, que tipo de tarefas…
Pausa.
Aston Bom, há coisas como as escadas… e as… as campainhas…
Davies Mas ia ser coisa para… não ia… ia ser coisa para uma vassoura… não é?

Neste diálogo está, parece-me, a essência do que foi o teatro de Pinter. As famosas pausas. A conversa que se enrola sobre si mesma e não vai dar a lado nenhum. As frases interrompidas, partidas ao meio, atropeladas. As personagens que não sabem muito bem o que esperar dos outros (e de si mesmas). A interacção humana como coisa imperfeita, mal acabada, dúbia, frágil, indiscernível. E, também por isso, assustadora e comovente.

Ler Cícero

O romano, claro. Mas também este: António Cícero, poeta brasileiro.

60/60

Eis uma ideia sensacional: durante 60 dias, ler integralmente durante a noite e comentar na manhã seguinte cada um dos 60 livros da colecção Great Ideas da Penguin (obras de pensadores e visionários que «mudaram o mundo»). E quem é o maluco que embarcou neste projecto megalómano, a exigir disciplina espartana até meados de Fevereiro? Nada mais nada menos do que Jeff VanderMeer, um dos mais importantes autores do género fantástico nos EUA (e que entrevistei em 2006).
A aventura do Jeff pode ser acompanhada aqui. Até agora, ele já despachou Séneca, Marco Aurélio, Santo Agostinho, Kempis, Maquiavel, Montaigne, Jonathan Swift, Rousseau, Edward Gibbon, Thomas Paine e Mary Wollstonecraft. Cada post inclui uma citação memorável, uma sinopse mínima, uma abordagem às ideias defendidas pelo autor no livro, uma conclusão e uma pergunta-desafio aos leitores.
Eis o texto publicado hoje, sobre o livro On the Pleasure of Hating, de William Hazlett:

Memorable Line
«The pleasure of hating, like a poisonous mineral, eats into the heart of religion, and turns it to rankling spleen and bigotry; it makes patriotism an excuse for carrying fire, pestilence, and famine into other lands: it leaves to virtue nothing but the spirit of censoriusness, and a narrow, jealous, inquisitorial watchfulness over the actions and motives of others.»

The Skinny
A series of strong, combative essays on subjects from boxing to modes of government.

Relevance? Argument?
I hate stickers on books that leave glue behind, self-stupidity, cruel people, sentimental movies, most small talk, cockroaches, bad carbs, pretentiousness, vapid pop music, rapacious governments, itchy tags on t-shirts, bookshelves you have to put together yourself, getting shocked by the car door, cats breathing on my head when I’m lying on the couch, empty tape dispensers, fascists, people who don’t keep to-do lists, infomercials that aren’t surreal, and most forms of jello.
William Hazlitt hates «people who have no notion of any thing but generalities, and forms, and creeds, and naked propositions, even worse than I dislike those who cannot for the soul of them arrive at the comprehension of an abstract idea.» He also hates spiders, mostly I believe because he thinks they are «little reptiles,» Charles Darwin’s On Natural Selection not having permeated the life of his Great Ideas because it’s downriver, at #16 in the Great Ideas series. But Hazlitt hates the «spirit of malevolence» more, which is why he counsels against stomping spiders, unless you are «a child, a woman, a clown, or a moralist…» (Sigh. See: A Vindication of the Rights of Women.) Pure good is just as bad as pure evil to Hazlitt, and love «turns…to indifference or disgust.» Hazlitt’s also not fond of crowds that gather «to witness a tragedy» and «superfluous bile.» He is not much for cannibals, either. Mostly, though, Hazlitt hates hate, and does an admirable job of proving his point.
In other essays, like «On Reason and the Imagination,» Hazlitt finds a solid middle ground that feels less like compromise (see: Montaigne) and more like common sense. Also of note are «On the Spirit of the Monarchy» and «What is the People?» Hazlitt’s essays, in their pugnaciousness, their focus, and their tone represent the first thoroughly «modern» approach I’ve found in the Great Ideas series.

Conclusion
I would’ve enjoyed having a conversation with Mr. Hazlett.

Question for Readers
What do you hate?

Na ponta do anzol, uma bota

Em Busca do Grande Peixe – Meditação, Consciência e Criatividade
Autor: David Lynch
Título original: Catching the Big Fish: Meditation, Consciousness, and Creativity
Tradução: Mariana Spratley
Editora: Estrela Polar
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-989-95565-3-9
Ano de publicação: 2008

Em Julho de 1973, David Lynch tinha 27 anos, uma carreira artística errática (algures entre a pintura e o cinema), uma bolsa de dez mil dólares do American Film Institute e uma primeira longa-metragem encalhada por falta de meios (Eraserhead, futura obra de culto que só completaria em 1977). Um belo dia, entrou num centro de Meditação Transcendental (MT), em Los Angeles, conheceu uma instrutora «parecida com a Doris Day» e tudo mudou. Sentado numa pequena sala, de olhos fechados, Lynch repetiu certo mantra («um pensamento-vibração-som») e «foi como se estivesse num elevador e tivessem cortado o cabo». Ou seja: «Buum! Caí em beatitude – pura beatitude.» E nunca mais quis outra coisa. Desde aquele dia, há três décadas e meia, que o realizador cumpre, sem falhas, o mesmo esquema: «Medito uma vez de manhã e, de novo, à tarde, durante cerca de vinte minutos de cada vez. Depois, vou à minha vida.» Só que com muito mais energia e capacidade criativa, diz ele.
No fundo, a MT é o método através do qual Lynch «pesca» literalmente as ideias para os seus filmes e este livro pretende ser uma explicação prática desse método. Tudo se resume a uma metáfora ictiológica, repetida vezes sem conta: «As ideias são como peixes. Se quisermos capturar peixes pequenos, podemos ficar pelas águas pouco profundas. Mas, se quisermos capturar os peixes grandes, temos que ir mais fundo.» Mais fundo, entenda-se, no «oceano de consciência pura e vibrante» que existe dentro de cada ser humano. A julgar pelos exemplos descritos, Lynch domina tão bem esta arte da introspecção que para ele se tornou fácil mergulhar até à Fossa das Marianas do seu Ser (com maiúscula) e arrancar de lá as ideias perturbantes que depois vemos, transfiguradas, no grande ecrã.
Apesar do estilo telegráfico, com irritantes tiques de guru oracular, os capítulos em que Lynch fala da aplicação da MT ao seu trabalho artístico, ou da paixão pelo cinema, ou do entusiasmo pelo vídeo digital, ainda escapam. O problema é que o autor de Mulholland Drive tenta ao mesmo tempo evangelizar o leitor, apelando à sua grande causa: a luta «contra a negatividade», em prol da «paz verdadeira na Terra». O discurso, de tão ingénuo, chega a parecer irónico. Mas não é. Atrás do Lynch perverso dos filmes, esconde-se um insuportável avatar new age.
Quando vi Em Busca do Grande Peixe na secção de Espiritualidades de uma livraria, fiquei chocado. Depois de o ler, porém, acho que é precisamente ali o seu lugar.

Avaliação: 3,5/10

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]

Bom Natal

Etc & tal.

Vento destruidor

Num jornal, a função dos copydesks é salvar os jornalistas. Depois dos textos colocados em página, esses perscrutadores atentos voltam a ler as prosas alheias, tantas vezes escritas à pressa para cumprir prazos de fecho. São eles que confirmam estar tudo bem: a lógica interna das frases, a sintaxe, a grafia das palavras estrangeiras. São eles que corrigem erros ortográficos ou de concordância (antes ainda do revisor), incorrecções factuais, lapsos freudianos.
A função, repito, é salvar os jornalistas. Mas também acontece o contrário. No seu afã cheio de boa vontade, por vezes alteram o que não deviam alterar. E foi isso que se passou com o meu texto sobre o livro Contos, de Hélia Correia, publicado na última edição do Expresso (ver post anterior). Onde eu escrevera, citando a autora, «primeiro livor da madrugada», apareceu «primeiro livro da madrugada». De livor para livro vai uma grande distância: a que separa um vocábulo raro de uma palavra de uso comum. E a que separa uma bela imagem, escolhida pela autora (não por mim), de um disparate que deturpa e estropia essa mesma imagem. A correcção é ainda mais absurda porque torna ininteligível a referência ao facto de «aquela luminosidade» não poder ser descrita de outra forma. Mais: antes desta nódoa involuntária no meu texto, eu afirmo que «cada frase [de Hélia Correia] é trabalhada com um extremo cuidado» e que «cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível», cuidado e certeza que os leitores do livro terão julgado não se aplicarem no meu caso. Cúmulo da ironia, tive que cortar da versão impressa a frase que se seguia ao erro: «É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor.»
Infelizmente, saber que não fui eu a abrir a janela (pelo menos desta vez) não me serve de consolo.

Um laboratório para o mal

Contos
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-641-059-9
Ano de publicação: 2008

«Dos contos que escrevi, só gosto destes», assume Hélia Correia, com desarmante sinceridade e veemência, na nota final do volume que a Relógio d’Água acaba de publicar, reunindo apenas cinco prosas curtas e uma quase novela da autora de Lillias Fraser. Num país em que não faltam escritores a publicar demais, ou com pouco critério, louve-se a coragem de reduzir a própria obra ao essencial, num movimento de exigência e depuração que estamos habituados a ver nalguns poetas (sendo Herberto Helder um caso limite) mas bastante raro nos ficcionistas – curiosamente, Carlos de Oliveira, o exemplo que nos ocorre de imediato, era também um poeta.
Mais do que na simples eliminação de contos menos bons, essa exigência de Hélia Correia consigo mesma reflecte-se na matéria textual das ficções sobreviventes. Cada frase é trabalhada com um extremo cuidado, cada metáfora tem a intensidade justa, cada substantivo sinaliza uma certeza semântica indiscutível (quando uma personagem se depara com o «primeiro livor da madrugada», sabemos que aquela luminosidade não podia ser descrita de outra forma). É como se as palavras fossem feitas de poeira e alguém ameaçasse abrir uma janela, por onde entrasse um vento destruidor. A prosa de Hélia Correia paira sobre as coisas, ampliando tanto a beleza como o horror. E acede obliquamente às zonas mais escondidas da experiência humana, animada por um impulso tão visceral que chega a parecer mediúnico.
Nos seis textos deste livro, ressurgem algumas das obsessões temáticas de HC: o universo feminino, marcado pelo apelo da maternidade e respectivos fantasmas; o esmagamento de um certo mundo rural, desfasado do seu tempo; a mitologia clássica; ou a resiliência das superstições e dos preconceitos. Em Sul, o astrólogo Joan de Sória vive resguardado da peste num torreão de adobe e pedra, de onde contempla as «tarefas despóticas dos homens», empurrando-os para o fim do mundo, atrás de quimeras nascidas da sua suposta capacidade de ler o que dizem os astros, quando o que o céu lhe oferece é «a mudez dos corpos luminosos». De Capadores, pode dizer-se que é um diálogo impossível entre dois homens impossíveis, resquícios de um passado à beira da extinção (ou talvez já extinto). Eirene é uma bela parábola: a deusa da Paz, estátua enterrada debaixo de «séculos e séculos de pó», volta à superfície e torna-se humana, depois de lhe arrancarem do colo o cego deus da abundância, descobrindo então o pavor da guerra num lugar em que a entropia destrutiva triunfou e já não se escuta «a encantadora duração das sílabas helénicas». Escrita originalmente em inglês, Doroteia é uma história de miséria e obscurantismo, na órbita de Emily Brontë; enquanto Nessa noite oferece a mais fantástica das explicações para o nascimento dos heterónimos de Pessoa, na célebre noite de 8 de Março de 1914.
Com 54 páginas, A Compaixão aproxima-se da cadência das narrativas mais longas de Hélia Correia e é atravessada por uma energia negra, que devora a protagonista e a projecta contra as suas pulsões mais fundas. Como diz uma das personagens, «tudo começa no desgosto», porque o desgosto é «um laboratório para o mal».

Avaliação: 8,5/10

[Versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Cavalo de Ferro no Twitter

Ver aqui. E o Instituto Camões também já lá está.

A nova estratégia da APEL

Depois de um ano de 2008 muito conturbado, com guerras e guerrinhas que quase comprometeram a realização da Feira do Livro de Lisboa, a APEL, que passou a ser dirigida por Rui Beja, parece estar disposta a pacificar o sector editorial. A apresentação antecipada do novo modelo de Feira foi um primeiro passo. Agora, anuncia-se uma «abertura à sociedade», com uma revalorização do movimento associativo, novos modelos de formação profissional e até «tertúlias para troca de conhecimentos, impressões e debate cultural», a realizar em 2009 na sede da APEL.
As intenções são boas, claro. Falta só ver até que ponto serão capazes de sair do papel, sobretudo tendo em conta que algumas das feridas abertas (ou reabertas) durante a crise da Feira do Livro, no ano passado, estão longe de estar saradas.

Pen Clube

A primeira vítima foi o Arnaldo, que na primavera de 1981 costumava aparecer na tasca do Cardoso com um sorriso de satisfação mal contida. Uma noite, encostámo-lo à parede e ele lá se descoseu. Andava a escrever um romance gigantesco, mais de 800 páginas, uma coisa nunca vista, «melhor do que o Mau Tempo no Canal e o Sinais de Fogo juntos». E acrescentava: «O que Nemésio fez pelo Faial e Sena pela Figueira da Foz, vou eu fazer pela Cova da Piedade.» Infelizmente, nunca chegámos a ler o tão promissor Margem Sul. No dia em que ele se deslocou a Lisboa para entregar o manuscrito, impecavelmente dactilografado, aconteceu aquilo. À entrada do cacilheiro, pousou as folhas para apertar os atacadores e uma súbita rajada de vento destruiu-lhe a vida literária. Ainda hoje os olhos de Arnaldo se embaciam, quando se lembra das páginas a esvoaçar sobre o Tejo, como gaivotas aturdidas.
A segunda vítima foi a Madalena, já no tempo das disquetes. Depois de um verão fechada em casa, conseguiu finalmente terminar o volumoso ensaio sobre Pessoa e a «pré-pós-modernidade», arrojadíssima teoria que nunca chegou a explicar muito bem, mas com a qual tencionava agitar os meios académicos e provocar taquicardias nos pessoanos mais ortodoxos. Quando um professor da Faculdade de Letras mostrou interesse na obra, ela não se deu ao trabalho de imprimir as 458 páginas. Apanhou o metro para a Cidade Universitária e só depois de entregar o pequeno objecto azul, em mão, é que descobriu o significado do verbo desmagnetizar.
A terceira vítima foi o Rafael. No seu portátil, tinha instalado um software especialmente concebido para a escrita de poemas visuais. Ele dizia que a sua linguagem estava a meio caminho entre Ana Hatherly e Ernesto Melo e Castro, mas não pudemos confirmar, porque a muito aguardada Lira Digital desapareceu para sempre na terra dos documentos informáticos irrecuperáveis, quando o disco rígido deu o berro.
De então para cá houve mais umas quinze vítimas. Eu fui das últimas e poupo-vos à descrição da minha miséria. Posso ser infoexcluído, mas tenho vergonha na cara. O que interessa é que decidimos formar – o Arnaldo, a Madalena, o Rafael e os outros – uma espécie de confraria para exorcizar e precaver tragédias pessoais deste jaez. Todas as quintas-feiras, marcamos mesa num restaurante da moda (o Arnaldo às vezes tem saudades da tasca do Cardoso, mas com o tempo, já se sabe, aburguesamo-nos). Então, no fim do jantar, erguemos as nossas Pen Drives de oito gigas como se fossem espadas de mosqueteiros. Um de nós pergunta: «E de que é que não nos podemos esquecer?» Resposta em coro: «Do backup, do backup, do backup».
Tendo sido eleito porta-voz do grupo, queria aproveitar esta crónica para fazer um convite público ao conhecido escritor de bestsellers a quem roubaram recentemente um computador com dois livros dentro. Nós já estivemos na sua posição, Miguel. Sabemos o que custa. Por isso, se aceitar ser nosso membro honorário, recebê-lo-emos de braços abertos. E teremos uma Pen para lhe oferecer, com o seu nome gravado e tudo.

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]

Caixa Pessoa

A Portugália Editora acaba de lançar uma caixa especial com sete obras de Fernando Pessoa, assinalando os 120 anos do seu nascimento. Deste conjunto, que não será reeditado, constam os Poemas Escolhidos e Mensagem, do poeta ortónimo; fragmentos escolhidos do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; Poemas Escolhidos, de Alberto Caeiro; Poemas Escolhidos e Opiário/Ode Triunfal/Ode Marítima, de Álvaro de Campos; e Poemas Escolhidos, de Ricardo Reis.
A caixa inclui ainda uma obra original, com sete poemas dedicados a Pessoa (de Almada Negreiros, António Botto, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Rui Knopfli, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vasco Graça Moura), mais sete retratos do poeta, feitos por Almada Negreiros, Carlos Carreiro, Costa Pinheiro, José João Brito, Júlio Pomar, Mário Botas e Rolando Sá-Nogueira.
Armando Alves concebeu tanto as capas dos livros como a própria caixa. Preço de venda ao público: 140 euros.

2666 (uma leitura colectiva)

Depois da febre Sebald, há uns anos, os EUA foram atingidos recentemente pela febre Bolaño. Críticos rendidos, êxito de vendas, presença nos principais tops dos melhores livros de 2008 – é o triunfo da Bolañomania.
O fenómeno espalha-se também, como é óbvio, na Internet (ou a partir dela). Agora, o autor de um blogue sobre Bolaño (e também, talvez não por acaso, de uma mailing list sobre David Foster Wallace) criou um grupo de discussão no Google sobre o escritor chileno. A partir de 12 de Janeiro, este grupo iniciará uma leitura colectiva de 2666, o magnum opus póstumo de Bolaño, ainda inédito em português.

As cidades visíveis

A Metrópole Feérica
Autores: José Carlos Fernandes (texto) e Luís Henriques (ilustração)
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-89557-9-3
Ano de publicação: 2008

O algarvio José Carlos Fernandes (n. 1964) costuma ser apontado, com toda a justiça, como o mais importante autor de Banda Desenhada português. O seu imaginário fantástico, apoiado numa superlativa qualidade de escrita, permitiu-lhe assinar ao longo dos anos várias obras magníficas, como os seis volumes da série “A Pior Banda do Mundo” ou A última obra-prima de Aaron Slobodj (2004) – ela própria, em nosso entender, uma obra-prima.
Desenhador mediano, Fernandes compreendeu que o seu traço, demasiado rígido e monótono, acabaria por limitar visualmente as suas histórias. Procurou então alguém capaz de mudar mais vezes de estilo do que a Cher muda de roupa durante um concerto ao vivo. No belíssimo Tratado de Umbrografia (Devir, 2006), percebeu-se que Luís Henriques (n. 1973) era o homem certo para a função. Com um talento camaleónico, este ilustrador sugeria atmosferas radicalmente diferentes para cada narrativa, mas com uma adequação estilística (e até cromática) que roçava a perfeição. A dupla regressa agora com A Metrópole Feérica, volume inicial de uma nova série, “Terra Incógnita”, a publicar pela Tinta da China. E o resultado final supera o que haviam conseguido com a primeira colaboração.
Organizado como um Atlas de Criptogeografia, «completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias», o livro descreve seis urbes soberbamente disfuncionais, modelos perfeitos da catástrofe humana. Em Fílon, «o teatro do mundo», leva-se à letra a ideia shakespeareana da vida enquanto representação num palco, com cada existência a ser determinada pelas deixas de pontos teatrais, escondidos em lugares estratégicos. Em Khamsin, é a circulação dos ventos (ou melhor, as trocas de chapéus por eles causadas) que altera e subverte a ordem social e económica da cidade. Manata, a metrópole feérica do título, sofre uma espécie de castigo bíblico, quando o seu esplendor – ao pé do qual «Babilónia, Alexandria, Roma, Constantinopla, Bagdad, Pequim, mais não foram do que pálidas estrelas» – acaba devorado pelos subprodutos do lixo excessivo que a prosperidade gera. Trabântia, a «sociedade perfeita» desenhada a traço grosso, com manchas de vermelho a emergir de um preto e branco baço, é uma poderosa metáfora sobre o afundamento dos regimes autoritários comunistas, mais os seus esquemas paranóicos de vigilância e controlo dos cidadãos. Com as suas paisagens aquáticas e difusas, Tangaroa, «o umbigo dos oceanos», aparece-nos saturada de melancolia, à medida que as marés de todo o mundo lhe trazem tristes despojos e os «cadáveres incorruptos» dos afogados. E, por fim, em Babel ergue-se a torre impossível que Deus destrói, conforme diz a lenda, para logo a substituir pelo mais irónico dos sucedâneos.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 75 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk (Edições 70), por Ricardo Lourenço
Meninos Soldados – Quando as crianças vão à guerra, de Jimmie Briggs (Caleidoscópio), por Cristina Peres
A Mulher em África – Vozes de uma Margem sempre Presente, de Inocência Mata e Laura Cavalcante Padilha (Colibri), por António Loja Neves
Neves e Sousa – Pintor de Angola 1921-1995, coord. de Miguel Anacoreta Correia (Sextante), por Nair Alexandra
Contos, de Hélia Correia (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Servir o Povo, de Yan Lianke (Teorema), por Luís M. Faria
Nada Serve, de José Amaro Dionísio (Averno), por António Guerreiro

Nuno Júdice é o novo director da Colóquio Letras

Depois do polémico afastamento de Joana Varela, a administração da Fundação Gulbenkian acaba de nomear o poeta Nuno Júdice como novo director da Colóquio Letras. No seu caderno de encargos, aparentemente, está a publicação a tempo e horas dos números da revista, que chegaram a sair com três anos de atraso. Eduardo Lourenço presidirá ao novo conselho editorial.

‘Crimes Exemplares’ (booktrailer)

O segundo crime seleccionado pela equipa da Antígona para o booktrailer é um clássico: a cena em que um homem enlouquece, no café, ao ouvir o tilintar constante de uma colher de metal. Em 1997, foi também esse um dos crimes escolhidos pela realizadora Rita Nunes para a sua curta-metragem de estreia, Menos 9. João Grosso, barbudo, faz de assassino (reparem no sorriso de prazer/alívio, depois do disparo).

Três crimes exemplares de Max Aub

«Convidou-me para dançar sete vezes de seguida. E não valia a pena estar com manhas: os meus pais não tiravam os olhos de mim. O imbecil não tinha a menor noção de ritmo. E suava das mãos. E eu tinha um alfinete, comprido, comprido.

***

Ela falava, e falava, e falava, e falava. Falava pelos cotovelos. E continuava a falar. Eu sou a dona da casa. Mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indemnização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. Enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro.

***

FICHA 342

NOME DO DOENTE: Agrasot, Luisa.
IDADE: 24 anos.
NATURALIDADE: Veracruz, Ver.
DIAGNÓSTICO: Erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
TRATAMENTO: 2.000.000 unidades de penicilina.
RESULTADO: Nulo.
OBSERVAÇÕES: Caso único. Recalcitrante. Sem precedentes.
A partir do décimo quinto dia senti-me vencido. O diagnóstico era perfeitamente claro. Impossível ter a menor dúvida. Perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. Dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. A paciência – mesmo com os pacientes – tem limites.»

[in Crimes Exemplares, de Max Aub, versão ilustrada, trad. de Jorge Lima Alves, Antígona, 2008]

O ‘Inferno’ de Dante na XBox 360

Criado pela Electronic Arts, Dante’s Inferno é apresentado como um “third person action and adventure game based on the epic poem”. O press release completo pode ser lido aqui.

[via Book Patrol]

Rui Cardoso Martins editado em Espanha

O romance E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, de Rui Cardoso Martins, acaba de ser editado, em Espanha, pela Bruguera. Título castelhano: Y Si Me Gustara Morir.
Entretanto, a Dom Quixote anuncia que Deixem Passar O Homem Invisível, o segundo romance do jornalista do Público, será lançado em Abril de 2009.

Twingly

O BdB está mais ou menos a meio da tabela, no Top-100 dos «most popular blogs written in Portuguese» do site Twingly. Por curiosidade, gostava de saber quais os critérios de ordenação, não por achar que esteja mal colocado (pelo contrário), mas porque um dos blogues da lista é… o Diário de Notícias.

As mil faces da verdade

As Vozes do Rio Pamano
Autor: Jaume Cabré
Título original: Les Veus del Pamano
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Tinta-da-China
N.º de páginas: 653
ISBN: 978-972-8955-72-4
Ano de publicação: 2008

Ao fim de muitas décadas de persistência, Elisenda Vilabrú, a mulher mais rica e poderosa de Torena (aldeia fictícia, perdida nos Pirenéus catalães), consegue cumprir o desígnio maior da sua vida. No Vaticano, assiste à cerimónia em que o Papa João Paulo II beatifica Oriol Fontelles, pacato mestre-escola e herói franquista, a quem é atribuída uma morte de mártir, às mãos dos guerrilheiros ateus que supostamente pretendiam profanar, em Outubro de 1944, o sacrário da Igreja de Sant Pere. Única testemunha viva, Elisenda dá por bem empregues os rios de dinheiro com que oleou os lentíssimos mecanismos da burocracia eclesiástica, ganhando o apoio de figuras influentes – entre as quais o Monsenhor Escrivà de Balaguer, fundador da Opus Dei.
Mas será que o «falangista» Oriol caiu mesmo «por Deus e por Espanha», como sugerem a lápide no cemitério e a placa toponímica numa das ruas de Torena (placa que a transição democrática se apressará a substituir)? A história real é muito mais complexa e ambígua do que o mito criado por Elisenda, ao manipular a verdade dos factos a seu bel-prazer, com uma obstinação nascida da fé, sim, mas de uma fé pouco católica.
Involuntário símbolo do fascismo, Oriol só começa a ser redimido quando uma professora, Tina Bros, encontra quatro cadernos escritos pela sua mão, no interior de uma caixa de charutos escondida atrás de um quadro de ardósia, numa escola prestes a ser demolida. Esses textos secretos, dirigidos a uma filha que Fontelles não chegou a conhecer, permitem então iluminar, aos poucos, o denso labirinto de histórias que se foram sobrepondo, durante seis décadas, nas pedras ásperas de Torena, esse lugar marcado por mal-entendidos trágicos e vinganças brutais, onde as divergências políticas criam muros de desprezo entre as famílias e «o ódio cola-se às paredes».
Com uma notável inteligência narrativa, Jaume Cabré nunca perde o controlo das muitas intrigas paralelas, mesmo quando estas se fundem num mesmo parágrafo (por vezes até numa mesma frase), ignorando a tradicional rigidez do binómio Espaço/Tempo. Se é certo que o livro começa por ser uma reflexão sobre o problema da memória colectiva (ainda hoje gerador de crispações na sociedade espanhola), circunscrevê-lo à categoria do romance histórico não lhe faz justiça. Porque As Vozes do Rio Pamano é também uma impressionante saga familiar (sobre os Vilabrú e o seu império económico, que vai da exploração das pistas de ski ao fabrico de roupa desportiva), uma história de amor desesperado, com recorte oitocentista, e um exercício de experimentação literária.
Dos muitos jogos a que Cabré se entrega com visível gozo, destaco um dos mais recorrentes: a adequação camaleónica do estilo da prosa às personagens descritas. Por exemplo, quando Tina fala com uma amiga do filho, adolescente ou quase, o diálogo enche-se de abreviaturas e palavras com «k», sinalizando que a rapariga pertence à geração dos telemóveis, capaz de dizer por SMS o que não diz em voz alta.
Uma última nota para a tradução – magnífica – de Jorge Fallorca, feita directamente do catalão.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Regresso à normalidade

Já há luz, já há posts retroactivos (façam scroll, s.f.f.), já há um princípio de erradicação do súbito caos. Não é ainda a habitual velocidade de cruzeiro, mas é o melhor que se pode arranjar.

Tudo e nada

Há semanas em que acontece tudo: fechos sucessivos e sobrepostos (Expresso + Ler + Expresso + continuação da Ler), longas sessões de tortura no dentista (ainda por cima para me colocarem uma coroa; a mim, o mais republicano dos republicanos), leituras a contra-relógio, encontros impossíveis de desmarcar, trabalhos de Natal para a escola dos miúdos, os próprios miúdos (coitados, ávidos de atenção), dezenas de outras coisas a que vos poupo, tudo culminando em dois clássicos do pânico civilizacional: ontem a água desapareceu das torneiras à hora do almoço e só voltou muito depois da hora do jantar; hoje foi ao quadro eléctrico que deu o badagaio, vítima dos muitos aquecedores acesos pela casa fora e a luz ainda não voltou (escrevo a uns quilómetros de distância, à espera de resolver o assunto por telefone).
Resumindo, há semanas em que acontece mesmo tudo. E por isso neste blogue não acontece nada (nada que se veja, porque os posts começados e incompletos continuam à espera, em draft). Lamento muito, I’m really sorry, désolé.

Uma história fabulosa

Certo ilustrador inventou uma narrativa sem palavras sobre um homem que recolhe lixo na praia e constrói uma máquina-instalação a partir dos detritos. O que ele não sabia é que o homem existe mesmo, em carne e osso. Há pouco mais de uma semana, esse homem entrou numa livraria, folheou por acaso o livro do ilustrador (mais uma pérola da editora Planeta Tangerina) e depois, bem, o que aconteceu depois podem descobrir aqui.


É uma história do outro mundo, não acham? Daquelas que nos deixam de queixo caído, olhos esbugalhados, cara à banda. Uma história quase boa demais para ser verdade (mas é mesmo verdade).

Dois poemas de Vítor Nogueira

MUSAS

Apolo, chamemos-lhe assim,
é caixeiro-viajante «por acaso», mas
quer tirar enfermagem. Diz que escreve poesia
– está visto, pode acontecer a qualquer um.
Em cima do escadote, o farol do comércio tradicional
organiza a prateleira das águas-de-colónia.
Tudo lhe parece um pouco excessivo.

Apolo insiste numa espécie de sermão
de Santo António aos desodorizantes:
alexandrinos e decassílabos,
arquitecturas de grande entusiasmo,
a nossa relação com a História,
seres iluminados que alcançam o Nirvana.

Mas, de novo, as leis do «acaso»
desempenham um papel importante:
pede-se ao dono do Fiat branco que o afaste,
ou será rebocado. Aí vai ele, o viajante.
De algum modo, a poesia é difícil para todos.
Basicamente, não fazemos a menor ideia
do que se passa no mundo.


RODA

«Naquele tempo só havia a quarta classe.»
Trabalha desde os doze e está com sessenta
e sete. Já foi trolha, motorista, sapateiro.
Na verdade, só tem medo das alturas.

Certo dia preparou a cabeça para poder
andar à roda. E partiu para o Luxemburgo.
«Há terras que a gente nem imagina que existem.»
Regressava quase sempre pela festa de S. Lázaro,

o presente e o passado a uma estrada de distância.
Com os anos percebeu uma coisa curiosa:
«os rapazes que ficaram queriam ter a minha vida
e eu queria ter a vida dos rapazes que ficaram.»

[in Comércio Tradicional, Averno, 2008]

O enorme José Afonso Furtado merece um Shorty

José Afonso Furtado, o melhor twitterer português (a anos-luz de qualquer outro), está nomeado para um Shorty Award na categoria News. Mais do que um direito, votar em JAF é um dever cívico de qualquer internauta que se preze. Façam favor.

Ainda a nova Buchholz

As reacções da blogosfera à inauguração da Buchholz foram tudo menos meigas. Ler aqui, aqui e aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré (Tinta-da-China), por José Mário Silva
Sementes Mágicas, de V. S. Naipaul (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Elogio do Passeio Público, de Filipa Martins (Guimarães), por Vítor Quelhas
O Tempo Canário e o Mário ao Contrário, de Rita Taborda Duarte e Luís Henriques (Caminho), por Sara Figueiredo Costa
Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín, de Teresa Veiga (Cotovia), por António Guerreiro
A Vida num Sopro, de José Rodrigues dos Santos (Gradiva), por Rogério Casanova
O Festim da Aranha – Histórias em estado de crueldade, antologia de Aníbal Fernandes (Assírio & Alvim), por Manuel de Freitas

A nova Buchholz (uma antevisão)

«Isto é só uma antestreia, uma antevisão do que será a Livraria Buchholz», disse ontem ao fim da tarde Sérgio Moreno, porta-voz da Fundação Agostinho Fernandes, justificando o que todos os convidados já tinham percebido: as obras na nova livraria Buchholz Chiado (situada num edifício anterior ao terramoto, que foi outrora uma cavalariça e era ultimamente um armazém da livraria Sá da Costa) não chegaram ao fim a tempo da inauguração, marcada para as 19h00.
Verdade seja dita, quando na terça-feira passei por lá e vi o estado dos trabalhos, pensei imediatamente que aquela era uma missão impossível:

O empreiteiro garantiu que tudo estaria pronto a horas, mas já se sabe como é que estas coisas são. Os responsáveis pela livraria nunca deviam ter dado como adquirida uma previsão falível, porque sujeita a imprevistos, ainda por cima quando já havia uma data impressa nos convites. Depois, chegado o dia D, quando se tornou evidente que não havia margem para fazer as coisas como deve ser, improvisou-se, ao melhor estilo português. E de inaguração formal passámos a uma mera antevisão do espaço.
Ainda assim, louve-se o engenho da instalação. Os cabos das estantes que ficaram por montar, por exemplo, converteram-se em molduras e as prateleiras em elementos decorativos.
Eis a reportagem fotográfica:

Descontando estes sobressaltos, pouco desculpáveis numa estrutura profissional, importa sublinhar que o espaço é efectivamente lindíssimo (sobretudo o tecto com tijolo à vista, em abóbada). Na qualidade de amigo e antiquíssimo cliente (desde 1954), Jorge Silva Melo lembrou que a Buchholz «nunca foi propriamente muito arrumada» e que por isso os montes de livros empilhados até respeitam o espírito da livraria. Karin Sousa Ferreira, a alma mater do projecto, voltou a sublinhar que era apenas o espaço que se apresentava aos convidados, aproveitando para lembrar os momentos muito difíceis na vida recente da Buchholz (que esteve em vias de fechar) e o apoio salvador da Fundação Agostinho Fernandes, «a única que nos deu a mão». O arranque a sério da loja deve acontecer nos próximos dias e «em Janeiro começarão a chegar os livros importados (vindos da Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e talvez da Itália)». Embora chegando atrasado, directamente de um compromisso no Algarve, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, também ele um cliente de longa data, elogiou em Karin Sousa Ferreira «a persistência de uma actividade gloriosa: dar às pessoas o acesso à leitura». Pelo n.º 30 do Largo Rafael Bordalo Pinheiro passaram ainda, entre outros, o ministro Mariano Gago, José Pacheco Pereira, António Mega Ferreira e Marcelo Duarte Mathias.

Bibliotecas Assírio & Alvim

A Assírio & Alvim está a fazer packs a preços reduzidos de livros dos seus principais autores (Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário Cesariny, Carlos de Oliveira, Alexandre O’Neill, Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão, etc.), mesmo a jeito para o Natal. Chamou-lhes «bibliotecas». E algumas são mesmo bibliotecas a sério, como a dos Pequenos Tesouros da Literatura (composta por títulos da colecção Gato Maltês): 50 voluminhos com um preço real de 329,50 euros, agora reduzido a 200 euros.
O catálogo completo pode ser consultado aqui.

‘Um homem muito procurado’ (booktrailer)

Diagnóstico em três versos

Tusso. Pego num livro (Mais espesso que a água, Luís Quintais, Cotovia). Tusso. Leio as primeiras páginas. Tusso. Encontro isto:

Acordo. Sinto os pulmões.
Gentis ramos entrelaçam-se e crescem
nos meus brônquios.

O poeta diz tudo – e sem precisar de estetoscópio.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges