Um bom exemplo

Na Cidade do México, um programa de promoção da leitura empresta antologias literárias aos passageiros do metro. A última, com uma tiragem de 250 mil exemplares, inclui textos de Gabriel García Márquez e Paco Ignacio Taibo I, entre outros escritores. Iniciada em 2004, com grande aceitação popular, esta iniciativa abrange as 21 estações da linha 3 do metro da capital mexicana, em cada uma das quais há locais próprios onde os livros podem ser levantados gratuitamente, com a premissa de que o utente, depois da leitura, os devolverá (cada exemplar é lido, em média, por cinco passageiros).

A atracção das fronteiras

A Lâmpada de Aladino
Autor: Luis Sepúlveda
Título original: La Lampara de Aladino
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 172
ISBN: 978-972-0-04183-8
Ano de publicação: 2008

Com os 13 contos reunidos neste volume, Luis Sepúlveda não regressa apenas ao território da ficção pura, após um longo intervalo em que publicou essencialmente livros de intervenção cívica ou denúncia política, como O General e o Juiz (2003), Uma História Suja (2004) e O Poder dos Sonhos (2006), todos editados ainda pela ASA – trocada agora pela Porto Editora, para onde se mudou entretanto o seu amigo Manuel Alberto Valente. Mais do que um regresso à narrativa, A Lâmpada de Aladino marca o reencontro com geografias e personagens de obras anteriores do escritor chileno, numa espécie de evocação – umas vezes eufórica, outras nostálgica – das suas próprias fronteiras, humanas e criativas.
Café Miramar é um exercício sobre os fantasmas da paixão amorosa, na Alexandria de Kavafis. Em Hotel Z, é o poder da selva (e, atrás dele, o da literatura) que toma de assalto um edifício perdido nos confins da Amazónia. Coração de Maria gela-nos com a evidência da morte, surgindo sob a chuva de confettis do Carnaval de Ipanema. Ding dong ding dong son las cosas del amor, um dos relatos menos interessantes do livro, quer contar uma história de intermitências mas fica-se pelo cansativo jogo do toca-e-foge. A ilha é um elíptico tratado sobre a perda, a renúncia e a traição; O anjo vingador, enquanto conto policial de tom germânico, tem tudo no sítio (menos a verdade completa, talvez irrelevante e inútil); A lâmpada de Aladino mostra os segredos de um estranho comércio no fim do mundo; e A chama obstinada da sorte desdobra-se engenhosamente para nos revelar a difícil recuperação de um tesouro, enterrado em tempos, numa cabana da Patagónia, pela quadrilha de Butch Cassidy e Sundance Kid.
Os dois melhores contos são, porém, A reconstrução da catedral e Desventura final do capitão Valdemar do Alentejo. No primeiro, Antonio José Bolivar Proaño, o protagonista de O Velho que Lia Romances de Amor, volta ao molhe de El Idílio, às conversas com o dentista e às travessias da selva, desta vez com uma guerra absurda como pano de fundo. No segundo, narra-se a morte lenta de um pirata português, ferido e à deriva no mar alteroso da Terra do Fogo, perto do Estreito de Magalhães. Uma história magnífica que Sepúlveda ampliará num futuro romance de piratas, em relação ao qual se podem alimentar, desde já, as melhores expectativas.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler; entrevista ao autor, sobre este livro, aqui]

Cúmulo da ironia

Num dos WC do Freeport de Alcochete, mesmo por baixo dos lavatórios, está inscrita nos azulejos a seguinte frase de Kafka: «As maiores falhas humanas provêm da impaciência.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Raga, de J.M.G. Le Clézio (Sextante), por José Mário Silva
Deserto, de J.M.G. Le Clézio (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Estrela Errante, de J.M.G. Le Clézio (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
O Processo de Adão Pollo, de J.M.G. Le Clézio (Europa-América), por Ana Cristina Leonardo
Corpo e Imagem, de José A. Bragança de Miranda (Vega), por António Guerreiro
Intelectuais, de Paul Johnson (Guerra & Paz), por Rogério Casanova
César – A Vida de um Colosso, de Adrian Goldsworthy (A Esfera dos Livros), por Luís M. Faria

Updike Updated

Claro que entretanto alguém corrigiu o erro (é, sem ironia, a vantagem da Internet: os updates).

[via Pastoral Portuguesa]

Ponto final

Numa das muitas páginas que o site do The New York Times dedica ao desaparecimento de John Updike, encontrei este poema em que o autor da tetralogia Rabbit antecipa as reacções à sua morte:

REQUIEM

It came to me the other day:
Were I to die, no one would say,
“Oh, what a shame! So young, so full
Of promise — depths unplumbable!”

Instead, a shrug and tearless eyes
Will greet my overdue demise;
The wide response will be, I know,
“I thought he died a while ago.”

For life’s a shabby subterfuge,
And death is real, and dark, and huge.
The shock of it will register
Nowhere but where it will occur.

O poema foi retirado de um livro a editar em breve. Título: Endpoint and Other Poems.

O ciclo (nem sempre feliz) dos livros

Uma visão de livreiro (Jaime Bulhosa):

«O ritmo é alucinante. O vendedor mostra uma mala cheia deles. Nós fazemos má cara. Ficamos indecisos. Escolhemos apenas alguns. O vendedor faz má cara. Não atinge os objectivos. O editor protesta. O autor não percebe porquê. Nós temos pena. Não podemos ter todos. É fisicamente impossível. Economicamente errado. (…) Esperam em cima das mesas. Há quem lhes toque. Os abra. Leia uma passagem. Os deixe. Não podem esperar mais. Em breve vêm outros. Só mais uns dias. Aconselham-se mais uma vez. Ninguém os quer. Volta-se a pegar neles. Nem sequer ganham pó. (…) Processa-se a devolução. Novamente em caixotes. Chama-se o transportador. São levados para um armazém frio, escuro. Cheio de livros, azarados como eles.»

Texto completo aqui.

Revista ‘Ler’ n.º 77

Nas bancas a partir da próxima segunda-feira.

Novidades da Livrododia

A editora Livrododia, de Torres Vedras, vai lançar em breve Lábio Cortado, de Rui Almeida, vencedor do Prémio de Poesia Manuel Alegre, da Câmara Municipal de Águeda (dois poemas deste livro podem ser lidos aqui). Ainda no primeiro semestre, sairão Árctico, de Xavier Queipo (Prémio da Crítica Espanhola em 1990); És uma besta, Viskovitz, do italiano Alessandro Boffa; A Prisão do Ético, um conjunto de micro-narrativas de Paulo Rodrigues Ferreira; e a reedição do Caderno Negro, de Cláudia Clemente (publicado em 2003 pela Tinta Permanente).

O que vamos ler em 2009

A lista do Ípsilon não é exaustiva, porque ainda agora o ano começou. Mas podemos ir acompanhando, aqui, as novas entradas neste work in progress.

Um poema de Petöfi Sándor

OH, QUERIDA, TEUS OLHOS

Oh, querida, teus olhos
que negros,
e brilham;
resgato-me,
quando me olhas;
brilha assim,
qual em noite rude,
clarão de incêndio,
do algoz cutelo.

[Tradução de Ernestro Rodrigues, in Os Dias do Amor – Um poema para cada dia do ano, Ministério dos Livros, 2009]

Lembrete

O lançamento da antologia Os Dias do Amor – Um poema para cada dia do ano, organizada por Inês Ramos, é daqui a nada (18h30) na FNAC do Colombo. A apresentação será feita por Sérgio Godinho.

Coluna + estante (dois em um)

Era de uma coisa destas (branca e tudo como as Billy) que eu precisava na minha sala.

[via Notas 2009]

Costa Book of the Year para Sebastian Barry

O Costa Book of the Year, antigo Prémio Whitbread, vai este ano para The Secret Scripture, de Sebastian Barry, um belo romance sobre o qual escrevi aqui e aqui. A edição portuguesa está prevista ainda para este ano, na Bertrand.

O milésimo número do ‘JL’

Uma proeza. No país que somos, um jornal dedicado à cultura chegar aos 1000 números é uma proeza. Parabéns, Jornal de Letras. Que venham mais 1000 e que o futuro (leia-se: o horizonte cada vez mais negro da imprensa escrita) não te troque tão depressa as voltas, como vem trocando a quase tudo.
Vale a pena acompanhar as celebrações em curso no Blogue de Letras, aqui e ali toldadas pela tristeza.

Saldos na Cotovia

De 2 a 14 de Fevereiro, os livros da Cotovia poderão ser comprados com descontos de 20 a 40%, na livraria da editora (R. Nova da Trindade, 24, Lisboa). Haverá ainda livros manuseados a preços entre um e cinco euros.

John Updike (1932-2009)

Morreu um dos grandes da literatura norte-americana contemporânea (um dos grandes a quem o adjectivo grande assentava de facto bem), autor prolífico, vencedor de dois Pulitzer, mas não do Nobel (acontece aos melhores).
«His style was one of compulsive and unstoppable vividness and musicality. Several times a day you turn to him, as you will now to his ghost, and say to yourself ‘How would Updike have done it?”», escreveu Martin Amis, no The Guardian.

‘Os Escritores e o Oriente’

A Fundação Oriente vai organizar uma série de palestras com escritores portugueses contemporâneos, «sobre as viagens que fizeram, as leituras que os influenciaram, o processo de criação e a imagem do Oriente que construíram». Para já, estão previstas cinco sessões, com João Aguiar (6 de Fevereiro), José Pedro Castanheira (20 de Fevereiro), Jacinto Lucas Pires (6 de Março), Marcello Duarte Mathias (20 de Março) e Gil de Carvalho (3 de Abril).
As conferências decorrerão na sala Nova Deli/Beijing (piso 4) do Museu do Oriente, em Alcântara, entre as 18h00 e as 19h00. A entrada é livre. Mais informações aqui.

Notícias da grafomania global

Livros de mais – Ler e publicar na era da abundância
Autor: Gabriel Zaid
Título original: Los demasiados libros
Tradução: Miguel Graça Moura
Editora: Temas e Debates
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-644-048-0
Ano de publicação: 2008

Na história da humanidade, nunca se publicou tanto como agora. Desde a invenção da imprensa de caracteres móveis (séc. XV) aos actuais sistemas de print on demand, a «grafomania» conheceu uma progressão exponencial: de poucas centenas de obras diferentes no tempo de Gutenberg para mais de um milhão de títulos editados por ano. Gabriel Zaid, poeta e ensaísta mexicano, esforça-se por tornar palpável a magnitude desta abundância: um milhão de títulos novos equivale a um livro cá fora a cada 30 segundos. Ou 20 quilómetros de prateleiras cheias, a cada translação da Terra em volta do Sol. Escusado será dizer que ninguém consegue acompanhar este ritmo alucinante. Mesmo os leitores mais vorazes estão condenados a conhecer apenas uma minúscula parte de tudo o que se publica.
O que Zaid defende é que esta «experiência da finitude», em vez de nos deprimir, deve ser entendida como «o único acesso que temos à totalidade que nos chama, e nos perde, com a sua desmedida ambição totalitária». Mais importante do que o número sempre ínfimo de livros que conseguimos efectivamente ler ao longo da vida, é «o estado em que eles nos deixaram». Recorrendo a exemplos concretos e pequenas histórias, num estilo ameno, quase coloquial, Zaid explica ainda porque razão o objecto-livro sobreviveu a todos os prognósticos sobre o seu fim próximo. Além das qualidades intrínsecas (ser portátil, poder folhear-se, etc.), a principal vantagem é o baixo preço de produção, que torna economicamente viáveis tiragens muito reduzidas e permite manter uma razoável diversidade na oferta.
Optimista quanto ao funcionamento do mercado editorial, apesar das suas idiossincrasias e paradoxos, Zaid não esconde a dificuldade de conseguir, no caos de um mundo de papel em expansão, o necessário «encontro feliz» entre o leitor e o seu livro. Necessário porque é só quando esse «encontro» acontece que se cumpre o ideal socrático da cultura enquanto «conversação», iluminada pelas «constelações» de sentido que só os livros sabem e podem oferecer-nos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

A força das coisas (em ficheiro WMA)

Já está disponível, no site da Antena 2, a entrevista que dei ao Luís Caetano. O ficheiro áudio pode ser ouvido aqui.

‘Shortlists’ dos Prémios de Edição

Novidades diárias, agora em fase de apertar o crivo na escolha das melhores capas e projectos gráficos.

Três poemas de Nuno Dempster

PARTÉNON ILUMINADO

I take you a photo, disse-me ela
uma noite de Agosto
no terraço do
Athens Center,
quando me viu guardar o templo
cheio de luz
numa
Canon barata.
Era uma prostituta de hotel
e já livrava os homens do seu peso
na era da casta Atena,
entre os blocos de Fídias
ou à noite, em enxergas miseráveis.


EM ARQUÀ

Na casa de Petrarca, Safo escrevia
e depois atirou-se
do cimo de uma penha,
e Vénus e Cupido
jogavam o seu jogo com Vulcano.
Tudo isto sobre o lume a que Francesco
de velho se aquecia,
os dedos estendidos para as brasas,
Laura ida havia muito, nunca tida.


PARTIDA DE XADREZ COM IVAN JUNQUEIRA

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do
eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

[in Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, 2008]

Colecção BIS (segundo round)

São 15 os novos títulos da BIS (colecção de livros de bolso da LeYa) que seguem hoje para as livrarias: Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe; O Vale da Paixão, de Lídia Jorge; Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira; Contos e Diário, de Florbela Espanca; Amadeo, de Mário Cláudio; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro; História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges; , de António Nobre; As Intermitências da Morte, de José Saramago; Capitães da Areia, de Jorge Amado; e Aldeia Nova, de Manuel da Fonseca; Os da minha rua, de Ondjaki; A Montanha da Água Lilás, de Pepetela; e o Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida.
Além das livrarias, estes pequenos volumes estarão também à venda, por 5,95 euros, em supermercados, aeroportos e estações ferroviárias. Mais informações aqui.

António Lobo Antunes em Passo Fundo

No blogue de Alfredo Aquino, fiquei a saber que o romancista português, Prémio Camões 2007, vai participar na 13.ª Jornada de Literatura, na cidade gaúcha de Passo Fundo, entre 24 e 28 de Agosto.

Finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa 2009

A edição deste ano do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distinguirá um livro de poesia. Dos 90 concorrentes (ver lista completa aqui), foram seleccionados para a escolha final os seguintes 12:

  • A Moeda do Tempo, Gastão Cruz (Assírio & Alvim)
  • As Coisas Mais Simples, Nuno Júdice (Dom Quixote)
  • Filho Pródigo, José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim)
  • Inquietude, Maria Teresa Horta (Quasi)
  • O Acidente, Jorge Gomes Miranda (Assírio & Alvim)
  • As Têmporas da Cinza, A.M. Pires Cabral (Cotovia)
  • O Amante Japonês, Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim)
  • Oráculo, José Rui Teixeira (Quasi)
  • Rua do Mundo, Eucanaã Ferraz (Quasi)
  • Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva, Eduardo White (Campo das Letras)
  • A cidade e os livros, Antonio Cicero (Quasi)
  • Descrição da Mentira, Antonio Gamoneda (Quasi)

O anúncio do vencedor será feito a 11 de Fevereiro, na abertura da 10.ª edição das Correntes d’Escritas.

Um poema por dia

No blogue Atravessando o Inverno, o poeta Paulo Tavares (já publicado pelas Quasi), resolveu à sua maneira o facto de «as “programações editoriais” portuguesas estarem “demasiado sobrecarregadas”». Não querendo esperar pela edição dos seus próximos três livros em papel, decidiu partilhá-los com os leitores da blogosfera, ao ritmo de um poema por dia. A primeira obra a ser divulgada desta forma é Atravessando o Inverno (47 poemas, ver índice aqui), que começa com os seguintes versos:

AO LER UM POEMA

As âncoras e as raízes
são fundamentais: umas aos barcos,
outras às plantas, ambas aos seres humanos.
São também palavras belas, embora representem
o poder da inércia e o obscuro das profundidades.
Por vezes é preciso esquecê-las
ao ler um poema.

Seguir-se-ão Minimal Existencial (30 poemas) e Linhas de Hartmann (um poema longo dividido em oito partes).

A revolta dos pequenos

Que o aparecimento de grandes grupos, como a LeYa, veio reduzir o peso negocial dos pequenos editores, sobretudo na definição da percentagem (cada vez maior) do preço de cada livro que fica para os livreiros e para os distribuidores, já se sabia. Nalguns casos, sobra para os editores apenas 15 ou 20% do preço de capa. Para contrariar esta tendência, há agora movimentações no sentido de criar uma «frente editorial», que permita a várias editoras negociar em bloco. A iniciativa partiu da Nova Vega, da Afrontamento e da Campo das Letras. Veremos quem mais se junta à iniciativa e que resultados efectivos é que ela conseguirá.

Torres gémeas

Eis, da forma mais gráfica possível, uma visão da colheita 2008 da Assírio & Alvim.

Bibliotecário de Babel na Antena 2

Esta tarde, a partir das 16h00, vai para o ar na Antena 2 (frequência 94.4, em Lisboa) uma entrevista que dei ao Luís Caetano, inserida no programa A Força das Coisas. Além de livros em geral, e do Efeito Borboleta… em particular, a conversa aborda o primeiro ano de actividade deste blogue e a importância da blogosfera na divulgação crítica do que se vai publicando em Portugal.
Logo a abrir, o Luís pediu-me para ler uma das histórias mais curtas do meu livro. Esta:

PARAÍSO PERDIDO

Após vários meses de triagem (os candidatos foram mais de 20.000), a produção de Paraíso Perdido escolheu por fim os dois únicos participantes – um homem (A) e uma mulher (E) – do mais aguardado programa televisivo dos últimos anos. Transportados de helicóptero, com uma venda nos olhos, A e E foram deixados numa floresta virgem, algures no interior de uma ilha do Pacífico, exactamente como vieram ao mundo: nus, frágeis e desprotegidos. Um número não especificado de câmaras e microfones, montados nos sítios mais improváveis (raízes, lianas, quedas de água, formigueiros), captam, 24 horas por dia, o mínimo gesto ou sussurro do agora célebre par. A saga começou há uma semana mas as audiências têm sido decepcionantes. A e E quase não falam e pouca gente acredita que o amor possa nascer assim, de geração espontânea, no meio da selva. Ontem, os responsáveis pelo programa tomaram a medida que se impunha. Numa conferência de imprensa, anunciaram que a serpente (uma píton com sete metros de comprimento) já está a caminho.

Arte de matar

Crimes Exemplares
Autor: Max Aub
Título original: Crímenes Ejemplares
Tradução: Jorge Lima Alves
Editora: Antígona
N.º de páginas: 141
ISBN: 978-972-608-201-9
Ano de publicação: 2008

«Espanhol por decisão própria», Max Aub (1903-1972) deve muito da sua fama literária a este volume de «confissões espontâneas», supostamente recolhidas em Espanha, França e México (onde viveu, exilado, as três últimas décadas de vida). Aub coloca-se no lugar do antropólogo que regista variações de um gesto humano – neste caso, o acto de matar o seu semelhante pelos motivos mais fúteis –, devolvendo-o intacto, sem quaisquer melhoramentos (explicação dada para «a sua banalidade»). É justamente a ilusão de um rigor quase científico que faz deste catálogo de impulsos assassinos, narrados na primeira pessoa, um dos mais divertidos e glosados exercícios de humor negro da literatura do século XX.
O que todas as personagens de Crimes Exemplares têm em comum, além de uma perigosíssima mistura de intransigência e ingenuidade, é uma radical obliteração do superego, essa instância psíquica que nos obriga a resistir aos instintos mais básicos. Neste universo, até os mais ínfimos pecadilhos merecem o castigo máximo. Mata-se literalmente por tudo e por nada: porque alguém palita os dentes em público, porque ressona, porque tem borbulhas, porque pisa uns sapatos novos, porque faz barulho a mexer o café com leite, porque chega escandalosamente atrasado, porque é melhor e mais bonito, porque é demasiado feio, porque se engana a satisfazer um pedido, porque não pára de falar, porque dança mal, ou apenas porque teve a pouca sorte de mostrar-se ingrato, casmurro, egoísta, desastrado, indiferente. Qualquer pretexto é bom para transformar o outro em vítima; o que, se descontarmos os exageros e a violência cega, não anda assim tão longe de corresponder ao que os seres humanos à nossa volta fazem (ou, pelo menos, pensam).
Esta nova edição, maliciosamente anunciada pela Antígona como «aposta para o Natal», recupera a tradução de Jorge Lima Alves (1982) e enxerta-a na versão publicada pela editora espanhola Media Vaca, em 2001, com 32 belíssimas ilustrações a vermelho (de sangue) e negro (de morte) feitas por artistas ibero-americanos, como Arnal Ballester, Mariana Chiesa, Paco Giménez, Isidro Ferrer, Pep Monserrat, Eduardo Muñoz Bachs ou Santiago Sequeiros.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Biografia de um inspector da PIDE – Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português, de Irene Flunser Pimentel (A Esfera dos Livros), por José Pedro Castanheira
As Eleições de 1958 – Humberto Delgado na campanha do Norte, de Teresa Henriques e Miguel Nunes Ramalho (Prefácio), por Nair Alexandra
Quando Escreve Descalça-se, de Miguel-Manso (Trama), por Manuel de Freitas
Livros de mais – Ler e publicar na era da abundância, de Gabriel Zaid (Temas e Debates), por José Mário Silva
A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano (Bertrand), por José Guardado Moreira
O Cozinheiro Alemão, de Mafalda Ivo Cruz (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Sombra, de Neil Jordan (Cavalo de Ferro), por Rogério Casanova

Mais uma vantagem do Twitter

Ontem fiquei com pena de não poder assistir ao debate na Casa Fernando Pessoa, a partir do ensaio Livros de mais, de Gabriel Zaid (Temas e Debates), com Miguel Graça Moura, tradutor do livro; Guilhermina Gomes, editora do livro; Bárbara Bulhosa, da Tinta da China; Francisco José Viegas, director da revista Ler; e Vasco Graça Moura, poeta. Por sorte, o Paulo Ferreira, um dos Blogtailors, fez-me o favor de narrar a sessão, quase minuto a minuto, quase frase a frase, aqui.

Livros da Quetzal que chegam hoje às bancas

São cinco. Dois deles novidades: A Infância É um Território Desconhecido, de Helena Vasconcelos, e Com os Holandeses, de J. Rentes de Carvalho. A que se juntam três reedições: Porno, de Irvine Welsh; Quatro Últimas Canções, de Vasco Graça Moura; e o belíssimo Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch.

Os livros da Porto Editora para os primeiros quatro meses de 2009

Foi apresentado esta manhã, no Hotel Altis (Lisboa), o plano editorial da Porto Editora (PE) para este início de ano. Animadas com as boas vendas de 2008 (meio milhão de exemplares, só no segmento literário), as duas Divisões da PE, a de Lisboa (dirigida por Manuel Alberto Valente) e a do Porto (Cláudia Gomes), comprometeram-se a «editar pouco mas bem».
Dos 21 títulos que aí vêm, uma parte significativa corresponde a romances cor-de-rosa ou a títulos de auto-ajuda e histórias de vida (com direito a uma nova chancela: Albatroz). Como o meu interesse em sucedâneos de Nicholas Sparks é nulo e o meu interesse em sucedâneos de O Segredo é abaixo de nulo, limito-me a referir as obras que farão, quase de certeza, parte das minhas listas de leitura: A Ofensa, de Ricardo Menéndez Salmón, em Março; e, em Abril, O Mar em Casablanca, de Francisco José Viegas, A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, Chagrin d’École (ainda sem título português), de Daniel Pennac, e Devisadero, de Michael Ondaatje.
Para o segundo semestre, fica agendada a estreia no catálogo da PE de Gonçalo M. Tavares («nunca antes de Outubro», garantiu Cláudia Gomes) e de Pedro Sena-Lino, com um romance. José Manuel Saraiva, um autor da Oficina do Livro que já se comprometeu com Manuel Alberto Valente, só deve assinar o primeiro livro na nova casa em 2010.

Dor e dano

Myra
Autora: Maria Velho da Costa
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 221
ISBN: 978-972-37-1369-5
Ano de publicação: 2008

Na cena de abertura deste romance, Myra encontra Rambo, um cão de combate ferido, numa praia atravessada por «carris desconjuntados», «chorões apodrecidos» e marcas das «marés vivas sujas de crude». O narrador assinala: «O céu estava baixo e muito escuro.» É uma caracterização meteorológica, claro, mas também metafórica. Durante o resto da narrativa – embora aqui e ali se assista a uma aberta – o horizonte das personagens permanecerá igual ao céu da primeira página: opressivo, de um violento negrume, sempre à beira da tempestade devastadora.
Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com o Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de «manha e força». Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a lerdinha que não é. E assim vai avançando por entre «criaturas íngremes», através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de «dor e dano».
A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que «a castidade é porca» (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores. Isto até descobrir Orlando/Rolando, um «rapaz pardo» que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, «parado como um dócil corcel expectante». A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado cerce por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.
De certa forma, Maria Velho da Costa escolheu ficar com um pé no romance de aventuras picarescas do séc. XVIII e outro na exploração pós-moderna das possibilidades da linguagem. O seu principal mérito está justamente na forma como gere esta dicotomia, por um lado explorando e sabotando as regras romanescas clássicas, por outro abrindo o seu livro a vários idiomas (o inglês, o francês, o russo, o alemão, o italiano, o crioulo; além do português em muitos registos: do mais elevado ao calão e aos regionalismos), bem como à simples celebração da literatura, escondida em diversos envios e homenagens a outros escritores, como Herberto Helder, Manuel Gusmão, Jorge de Sena, Adília Lopes ou Helder Macedo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

Vida nova para o P.E.N. Clube?

As eleições para os órgãos sociais do P.E.N. Clube Português, que se realizam a 3 de Março, vão contar pela primeira vez com duas listas concorrentes. Uma deve sair da direcção em funções e já não contará com Casimiro de Brito, presidente nos últimos 15 anos. A outra é liderada por Rui Costa, que tem como objectivo «democratizar» esta associação de escritores: «Achamos que o P.E.N. Clube tem feito pouca coisa, para além de garantir presença em alguns festivais de teatro ou poesia, na pessoa do seu presidente. O que os associados têm recebido nos últimos anos são apenas comunicados, afirmando que o presidente vai a um festival de poesia na Tunísia ou em Tóquio. Só muda o destino, mas é sempre o presidente aqui ou ali. O P.E.N. assim não deve continuar», afirmou Rui Costa à Lusa. Para além do vencedor do Prémio Daniel Faria 2005, da lista «alternativa» fazem parte Rui Lage, Rui Cóias, Ivo Machado, José Viale Moutinho e António Rebordão Navarro.

Novidades Orfeu Negro para 2009

A chancela mais ensaística da Antígona vai publicar este ano, sobre arquitectura, O Modulor Modulor 2, de Le Corbusier (trad. de Marta Sequeira); sobre dança, Poética da Dança Contemporânea, de Laurence Louppe (trad. de Rute Costa); e, sobre artes visuais, Espelho do Mundo, de Julian Bell (trad. de Luís Leitão). Haverá ainda mais um volume da Orfeu Mini, dirigido a um público a partir dos quatro anos: O Incrível Rapaz que Comia Livros, de Oliver Jeffers (trad. de Rui Lopes).

He moves across my vision like a ship

Máscara mortuária de Ludwig van Beethoven (1770-1827).

Um poema de Stephen Spender

BEETHOVEN’S DEATH MASK

I imagine him still with heavy brow.
Huge, black, with bent head and falling hair,
He ploughs the landscape. His face
Is the hanging mask transfigured,
This mask of death which the white lights make stare.

I see the thick hands clasped; the scare-crow coat;
The light strike upwards at the holes for eyes;
The beast squat in that mouth, whose opening is
The hollow opening of an organ pipe:
There the wind sings and the harsh longing cries.

He moves across my vision like a ship.
What else is iron but he? The fields divide
And, heaving, are changing waters of the sea.
He is prisoned, masked, shut off from Being.
Life, like a fountain, he sees leap – outside.

Yet, in that head there twists the roaring cloud
And coils, as in a shell, the roaring wave.
The damp leaves whisper; bending to the rain
The April rises in him, chokes his lungs
And climbs the torturing passage of his brain.

Then the drums move away, the Distance shows:
Now cloud-hid peaks are bared; the mystic One
Horizons haze, as the blue incense, heaven.
Peace, peace… Then splitting skull and dream, there comes
Blotting our lights, the Trumpeter, the sun.

[in Selected Poems, Random House, 1964]

Nos bastidores da trilogia ‘Millennium’

A história é conhecida e já ganhou a aura dos mitos literários. Stieg Larsson, um jornalista de investigação famoso pelo seu trabalho de denúncia do racismo e das actividades da extrema-direita escandinava, começou a escrever, aos 47 anos, para se divertir nas poucas horas vagas, o seu primeiro livro de ficção. Um policial. Mas um policial que escapava aos estereótipos do género. Entusiasmado, Larsson avançou logo para outro, com as mesmas personagens centrais. E para um terceiro. Quando finalmente procurou um editor, tinha na cabeça o projecto de uma série de dez romances. Contudo, em Novembro de 2004, ainda antes da publicação do primeiro volume (Os Homens que Odeiam as Mulheres, edição portuguesa da Oceanos) e quando já tinha 200 páginas escritas do quarto livro, Larsson sucumbiu a um ataque cardíaco fulminante. O elevador do edifício em que trabalhava avariou-se e o seu coração, martirizado pelo excesso de nicotina e um colesterol altíssimo, não resistiu ao esforço de subir as escadas até ao sétimo andar.
Seguiu-se um fenómeno editorial que pede meças a O Código Da Vinci e Harry Potter. Primeiro na Escandinávia (só na Suécia venderam-se dois milhões e meio de exemplares, o que dá a extraordinária média de um livro para cada 3,5 habitantes), depois em França (onde a trilogia já ultrapassou a barreira psicológica do milhão de exemplares), por fim em todo o mundo, à medida que as traduções (em 25 línguas) começaram a conquistar tanto os consumidores habituais de best-sellers como os leitores literariamente mais exigentes. O segredo das aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander está no seu carácter viciante: quem começa a ler, não consegue parar. Na internet encontram-se relatos das insónias de pessoas que leram os livros (cada um com cerca de 500/600 páginas) de uma só vez, bem como descrições da síndrome de abstinência por que passaram os mais «agarrados», antes da publicação do volume seguinte. Em Portugal, embora tenha chegado a figurar nos tops de vendas, Os Homens que Odeiam as Mulheres ficou um pouco aquém das expectativas (tiragem de 11 mil exemplares), mas é provável que o efeito cumulativo de A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo desperte a propagação viral, através do boca-a-boca, que tem alimentado o sucesso da série em todo o lado.
Para compreender algumas das razões deste sucesso, vale a pena ler a correspondência que Stieg Larsson trocou com Eva Gedin – 22 e-mails publicados pela Actes Sud numa pequena brochura que acompanha a edição especial da trilogia completa, lançada no final de 2008. Foi Eva Gedin quem recebeu Larsson nos escritórios da Norstedts, uma espécie de Gallimard sueca, instalada num palacete gótico de Estocolmo. Estávamos no início de 2004 e ao escritor foi feita logo ali, poucos dias após os ter enviado para avaliação, uma oferta pelos três livros (o último dos quais ainda por terminar). Satisfeito, Larsson assumiu desde logo que encarava a sua produção literária como um PPR, esperando conseguir com os direitos de autor um razoável pé-de-meia para gozar na reforma. Esta humildade reflectia-se igualmente na aceitação de que os seus livros precisavam de ser trabalhados e sujeitos ao escrutínio rigoroso dos editores da Norstedts, um processo que está implícito em quase todos os e-mails agora trazidos a lume.
Na primeira mensagem, enviada às 18h10 de 28 de Abril de 2004, Larsson acusa a recepção dos contratos («sinto que posso confiar em vocês, por isso nem vou perder tempo a analisar os detalhes») e coloca questões práticas, como a de saber se Gedin pretende avançar de imediato com a caneta vermelha sobre o manuscrito incompleto do terceiro volume («faltam-me pouco mais de 40 páginas») ou se prefere esperar pela versão final, que só estaria pronta em Julho-Agosto «porque ainda não burilei os diálogos nem aprimorei os detalhes». A resposta chega um dia depois: «Prefiro ler o volume 3 na versão em bruto. A situação ideal é esta: ter a possibilidade de ler uma série no seu conjunto. Podemos discutir melhor cada um dos volumes e fazer logo as correcções gerais, o que poupa muito trabalho.»
Para descanso de Gedin, conhecedora da dificuldade em fazer cortes nas obras de autores muito ciosos de cada palavra que escrevem, Larsson confessa o seu desprendimento: «Não sou esquisito.» Repórter com experiência de edição jornalística, na revista Expo (inspiradora da Millennium, de que Blomkvist é sócio), ele faz mesmo questão de que lhe apurem a prosa: «Não tenho uma confiança cega na minha capacidade de escrita; em geral, os meus textos ficam bem melhores depois de passarem pelo crivo de um editor e estou tão habituado a intervir eu próprio como a ser corrigido.»
Um dos aspectos mais interessantes desta correspondência prende-se com a reflexão de Larsson sobre «o que quis dizer» com os seus livros. «Em diferentes níveis, a minha intenção foi ir a contra-corrente dos códigos estabelecidos para os romances policiais.» A caracterização das personagens marca logo essa diferença: Mikael Blomkvist «não tem uma úlcera, nem problemas de alcoolismo, nem angústias». Nada de ouvir árias de ópera, nada de passatempos extravagantes («estilo construir maquetas de aviões»). Os lugares-comuns foram banidos. E, já agora, inverteram-se os papéis sexuais: se Blomkvist é um pachola que não faz mal a uma mosca, a personagem feminina (Lisbeth Salander) acumula «os valores e as qualidades geralmente consideradas “masculinas”». Além de abrir o jogo sobre a génese da sua problemática heroína, «uma sociopata com tendências psicopatas», Larsson demora-se ainda na análise das personagens secundárias, «que em vários aspectos acabam por ter tanta importância como as personagens principais». E se algumas delas se impuseram naturalmente, caso de Erika Berger, sócia de Blomkvist na Millennium, outras transformaram-se em dores de cabeça: «Nos livros que aí vêm, tenho um problema com a Miriam Wu [melhor amiga de Lisbeth], não sei muito bem o que fazer dela.»
A troca de e-mails vai registando, com grandes hiatos e silêncios pelo meio, os avanços no trabalho de edição. Há envios de ficheiros, reuniões marcadas, esboços de ideias para as capas, pedidos de sinopses, a preparação da Feira de Frankfurt. A 20 de Outubro, Stieg tenta unir as últimas pontas soltas do volume 2: a autorização do pugilista Paolo Roberto (uma figura real que aparece na história); o endereço do casal Dag Svenson/Mia Bergman («ainda não decidi qual é a rua deles, tenho que verificar na zona, para que os automóveis sigam trajectos possíveis»); um telefonema de Blomkvist à irmã que precisa de ser reformulado, para colar com o livro seguinte; a inserção de um mapa verdadeiro (para substituir um provisório, tirado da internet). Oito dias depois, Larsson escreve o seu último e-mail, agradecendo os elogios de Gedin ao terceiro volume. A 9 de Novembro, acontece a fatal escalada até ao sétimo andar.
Nesta correspondência de trabalho, o que mais impressiona é a meticulosidade com que a editora trata os mínimos detalhes do projecto narrativo de Larsson. A 31 de Agosto, por exemplo, Gedin escreve: «Também discutimos o peso de Salander, que para nós deve andar à volta dos 42 quilos. Com esse peso, é-se claramente magra, mas sem parecer doentia. Ainda assim, vou confirmar. Não me importo de ser indiscreta e perguntarei às miúdas franzinas quanto é que elas pesam.» A 2 de Setembro, Larsson dá o seu aval: «Por duas ou três vezes, estive quase a perguntar o peso a raparigas no metro, mas contive-me a tempo. Podia dar mau aspecto. Mas os 42 quilos parecem-me plausíveis.»

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges