O último teorema de Salander

A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo
Autor: Stieg Larsson
Título original: Flickan Som Lekte Med Elden
Tradução: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos
N.º de páginas: 611
ISBN: 978-989-23-0345-1
Ano de publicação: 2008

Em Os Homens que Odeiam as Mulheres, primeiro romance de Stieg Larsson, a figura central é Mikael Blomkvist, um jornalista caído em desgraça que consegue reabilitar o seu nome, e o da revista que dirige (a Millennium, que dá nome à trilogia), ao desmascarar um corrupto (Wennerström), depois de encontrar o paradeiro de uma mulher desaparecida desde 1966. A ajudá-lo em ambos os casos, com a sua quase infinita capacidade dedutiva e de investigação, está Lisbeth Salander, uma hacker sobredotada, toda ela piercings, tatuagens, paranóias e problemas de integração social, a meio caminho entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas.
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo é justamente Lisbeth e os papéis entretanto inverteram-se: Blomkvist passa para segundo plano, cabendo-lhe agora reunir provas da inocência dela e salvar-lhe a vida, retribuindo o que ela fez por ele no primeiro volume. No centro do vasto enredo está o duplo homicídio de Dag Svensson (jornalista) e Mia Johansson (criminologista), um casal em vias de denunciar uma rede de tráfico humano, responsável por introduzir e explorar, na Suécia, prostitutas dos países de Leste. Quando uma equipa da polícia, chefiada pelo inspector Bublanski, começa a investigar, as suspeitas recaem logo sobre Salander, cujas impressões digitais estão na arma do crime: um Colt 45 Magnum (semelhante ao que foi usado no assassínio de Olof Palme). O facto de o tutor de Lisbeth, Nils Bjurman, também aparecer morto, com um balázio disparado pelo mesmo revólver, complica ainda mais a situação.
Se excluirmos o empenhamento na denúncia dos vários tipos de violência contra as mulheres, bem como do «descalabro» dos sistemas judicial e de acompanhamento psiquiátrico suecos (temas caros ao autor, enquanto repórter da revista Expo), esta história é um thriller que cumpre as regras do género: muito suspense, muitas cenas de acção e um final extraordinariamente inverosímil. O golpe de génio de Larsson é assumir os estereótipos narrativos e dar-lhes a volta, criando com eles um labirinto que o leitor percorre avidamente, mas sem se sentir perdido. E se há segredos (como a identidade de um certo criminoso chamado Zala, por exemplo) que parecem mais inacessíveis do que o último teorema de Fermat, o mais certo é Lisbeth Salander matar dois coelhos de uma cajadada, chegando a Zala no preciso momento em que resolve o mais famoso dos enigmas matemáticos por si mesma (isto é, sem o auxílio dos computadores a que Andrew Wiles recorreu para chegar à sua solução, em 1993).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 76 da revista Ler]

Bizarrias do Twitter

Comecei a ser seguido por um tal de Fernando_Pessoa.

João Aguardela (1969-2009)

Esta apanhou-me desprevenido. A morte aos quase 40 anos é sempre de uma violência que nos esmaga.
O João Aguardela, em palco, parecia um feixe de energia. Disso eu lembro-me. Um corpo completamente à mercê da música, do seu poder transfigurador. E é transfigurado que o recordo, quer nos tempos da permanente aceleração (Sitiados), quer nos modos mais suaves do projecto A Naifa.
Em rigor, não posso dizer que o conhecia. Meia dúzia de frases trocadas num camarim, no final de um concerto, não permitem conhecer ninguém. Mas agora que penso nesse encontro tão breve, nos bastidores do Maria Matos, em 2004, consigo ver o sorriso e o movimento do queixo, «A sério? Gostaste mesmo?», quando lhe disse que apreciara muito a canção que ele e Luís Varatojo fizeram de um poemeto meu, publicado há muito tempo na revista Bíblia.

Herberto escreve a Eugénio

Hoje, dia em que Eugénio de Andrade faria 86 anos, o site da revista A.23 publica uma carta inédita de Herberto Helder: quatro páginas manuscritas, enviadas ao poeta de Rente ao Dizer no final do ano 2000.
É um documento notável e revelador, sobretudo por nos mostrar a visão «pessoal» de Herberto sobre a poesia portuguesa da segunda metade do século XX, na qual Eugénio é colocado no lugar cimeiro. «Não há nenhum poeta português que possa ombrear consigo neste meio século», diz HH. «Talvez o Cesariny e a Sophia se aproximem de si, mas seria necessário, tanto a um como a outra, eliminar vários poemas maus. Quanto a si, não existe um só verso que deva ser eliminado.»
Falo por mim, mas esta admiração por Eugénio e esta certeza no veredicto não deixam de ser surpreendentes, vindas de quem vêm.

Pré-publicação: ‘Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe’

Em Março, a Tinta da China vai publicar a Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, traduzida por Margarida Vale de Gato. Eis, em antecipação, um dos poemas e uma das várias ilustrações de Filipe Abranches que serão incluídas no livro:

A CIDADE NO MAR

Olhai! A morte ergueu seu alto trono
Numa estranha cidade ao abandono,
Lá longe, onde o Sol morre com langor,
E os bons e os maus, e os piores e os melhores,
Desfrutam nessa terra o eterno sono.
Aí, palácios, templos, coruchéus
(Que o tempo corroeu, mas não estremecem!)
Com nada do que é nosso se parecem.
Em torno, resignadas, sob os céus,
Esquecidas do furor da ventania,
Jazem as águas quedas de apatia.

Do santo céu nenhum raio se esparze
Sobre a noite tão longa da cidade;
Mas no mar medonho há uma luz que arde,
Que as torres silenciosamente invade,
Que trepa aos pináculos, tudo abrasa:
As cúpulas, salões, colunas jónicas,
Os fanos, as paredes babilónicas,
Os canteiros sombrios e esquecidos
De flores de pedra e musgo carcomidos…
Os muitos, muitos templos altaneiros
Em cujos frisos se urdem, reunidas,
A viola, a violeta e a videira.

Esquecidas do furor da ventania
Jazem as vagas quedas de apatia.
E nas sombras se enlaçam torreões
Pelo ar em pendulares oscilações,
Enquanto a morte altiva, na seteira,
Vigia a cidade, sobranceira.

Aí fanos e campas se descobrem,
Abertos como as ondas de luz fátua;
Porém, nem as fortunas que se escondem
Nos olhos diamantinos das estátuas,
Nem os mortos de jóias cumulados,
Fazem vibrar as vagas no seu leito;
Pois nada, ai, perturba o mar sujeito
Àquele seu desterro envidraçado…
Nenhuma escuma indica o movimento
De um outro mar distante, mais dilecto…
Nenhuma crispação sugere o vento
Em mares menos quietos e abjectos.

Mas oh, eis que no ar paira uma brisa!
A onda… qualquer coisa que desliza!
Como se as torres, mansas, sucumbissem,
Repelindo a maré do mar estagnado…
E seus cumes um espaço oco cindissem
Entre as nuvens do Céu envernizado.
As ondas brilham já com mais rubor…
As horas sopram já… brando rumor…
E quando, sem qualquer pranto mundano,
Tal reino for tragado pela voragem,
O Inferno, emergindo soberano,
Prestar-lhe-á sua homenagem.

Colóquio internacional sobre Poe em Lisboa (Março 2009)

De 18 a 20 de Março, a Faculdade de Letras de Lisboa acolherá o colóquio “Poe and Gothic Creativity”, organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos, em colaboração com a Biblioteca Nacional, a Cinemateca Portuguesa, a FLAD (Fundação Luso-Americana) e a Casa Fernando Pessoa. Haverá comunicações académicas, debates, exposições (tanto iconográficas como bibliográficas), e ainda uma festa gótica.
Eis alguns dos temas sugeridos no call for papers:

Trans-Romantic Poe: Poe and other Romantic writers and artists; Poe and the Transcendentalists; Poe’s sources; Poe and the 19th century Press; Poe and the Transatlantic
exchanges; Poe in / out his time and place; the American Poe; the French Poe, etc.

Gothic Poe: Poe, the Gothic and/or Dark Romanticism; Poe and Horror, the Supernatural and the Fantastic; gore Poe; etc.

Pop Trickster Poe: Poe and pop culture; Poe, drugs and alcohol; Poe and literary hoaxes; Poe and novelty; Poe and humor; etc.

Psycho Poe: Poe and Psychoanalysis; Poe and the paths to Supernal Beauty (Pseudo-sciences, religion); Poe and the Romantic categories of Imagination and Fancy; Poe’s cosmogony; etc.

Formula Poe: Poe and the genres / categories of detective fiction, science-fiction, symbolist poetry, etc; Poe’s aesthetic views; Poe and the theories of the short-story; Poe and verse.
Biopic Poe: Poe and Autobiography; Poe’s fictionalized life and the lives in his fiction; the mysterious death of Edgar Allan Poe.

Forever Poe: Poe’s influences and aftermath; Poe and Modernism, Surrealism, Postmodernism, etc.; Poe, Music and the Arts; Poe and the (new) media; Poe in the cinema; Poe in Translation.

200 anos de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe, um dos maiores escritores norte-americanos de todos os tempos, nasceu a 19 de Janeiro de 1809. Muitos dos seus textos podem ser lidos aqui.
Eis o mais famoso dos poemas de Poe, The Raven, lido por:

Vincent Price

Christopher Walken

John Astin

e Willem Defoe.

Um poema de Hilde Domin

POSTULADO

Eu quero uma tira de papel
do meu tamanho
um metro e sessenta
nele um poema
que grita
quando alguém passa
e grita em letras negras
a exigir o impossível
coragem cívica por exemplo
essa coragem que nenhum animal possui
compaixão por exemplo
solidariedade em vez de rebanho
fazer nossos através de actos
esses conceitos

Homem
animal que tem coragem cívica
Homem
animal que conhece a compaixão
Homem animal-palavra animal-conceito
Animal
que escreve poemas
poema
que pede impossíveis
a quem passa
urgentemente
irrefutavelmente
como se apregoasse
“Bebe Coca-Cola”

[in Estende a mão ao milagre, antologia organizada e traduzida por Maria José Peixoto Lieberwirth, Cosmorama, 2008]

Tereza Coelho (1959-2009)


Fotografia de Luís Vasconcelos

Nasceu precisamente 13 anos antes de mim, a 2 de Março de 1959. Ao longo dos anos, habituei-me a ler o que escrevia sobre os livros dos outros e depois a ler os livros dos outros que fazia seus (nesse minucioso, secreto e invísivel ofício que é o de editor). António Lobo Antunes, cuja obra trabalhava com desvelos maternais, nunca deixou de elogiá-la como merecia e merece.
Cruzei-me com ela poucas vezes, mas de todos esses encontros breves, e em contexto profissional, guardo a memória de uma paixão pelos livros que se sobrepunha a quase tudo o resto. Tereza Coelho era uma Leitora maiúscula, omnívora mas exigente. Se houvesse um apocalipse cultural como o previsto por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, estou certo de que se tornaria uma mulher-livro, recitando de memória uma qualquer obra maior da literatura mundial (talvez um dos romances de Marguerite Duras que traduziu com obstinado rigor).

[No Ciberescritas, Isabel Coutinho reproduz as duas páginas do obituário do Público e faz o link para uma página onde se podem ler vários depoimentos de amigos e de pessoas que a conheceram.]

‘Não sejamos fortes…’

Em memória de José Manuel Rodrigues da Silva, Margarida Ferra confiou-nos o seguinte texto:

“São ínvios os caminhos do Senhor.” É a frase que me lembro mais de lhe ouvir. Deixou-a escrita n’O Mau Tempo no Canal, que me ofereceu quando fiz 23 anos. Quando lhe disse pela primeira vez o meu nome pareceu-lhe que me chamava Margarida Terra, avó e sósia de Margarida Clark Dulmo, segundo a longuíssima tábua de personagens do livro que nunca cheguei a acabar, até hoje à espera de uma viagem ao grupo central dos Açores. Ínvios os caminhos que o trouxeram à nossa turma, professor-substituto da disciplina de Iniciação ao Jornalismo, no terceiro período do ano lectivo de 1992-1993. (Do terceiro andar, debruçado sobre o corrimão, chamou aos gritos a turma alvoroçada no rés-do-chão. Depois, explicou-nos que não havia sebenta, não havia caderno diário, não havia faltas, a quem quisesse não ir às aulas bastava escrever o número no quadro, as notas eram de dez a vinte, os testes eram feitos em casa.) Menos ínvios os atalhos que me levaram a um encontro no S. Jorge, seguido de um café na Rua de S. José, uma longa conversa sobre os caminhos esperados e os percorridos, que me abriu depois a porta à colaboração no JL. (E agora fazes o favor de me tratares por tu que não admito de outra maneira na mesma redacção.)
“Não sejamos fortes, quando a honra é ser fraco”, da Fanny Owen da Agustina, Francisca do Oliveira, o Zé Manel tinha este tom certeiro para servir frases que parecia coleccionar com elegância e usar na medida justa. Podia ouvi-lo, ainda, se passasse pelos corredores do D. Pedro V, se lhe telefonasse bem tarde (oito postais, pelo menos, que dizem: “liga-me noite alta para combinarmos um encontro“). Uma pessoa de rastos, coração destroçado, a vida toda a desmembrar-se, e o Zé Manel lá, do outro lado do fio, na caixa de correio com um pouco mais de insistência, mais postais naquela semana, “não sejamos fortes…“.
De todas as frases que usou para se explicar melhor, aquela de que mais gostei era do Vivre Sa Vie, “A felicidade não é alegre”. Depois de a dizer escreveu no quadro Jean-luc Godard (a caligrafia quase indecifrável, o modo como desenhava a letra l, minúscula, caixa baixa). E nas cartas. Em pelo menos uma das cartas, A felicidade não é alegre, as letras da máquina a saltarem ligeiramente da folha de ponto que usava para a correspondência privada, mais tarde foram impressas em papel branco, normal, depois enviadas por email, e outras formas por que soube chegar a nós nos últimos anos. Mesmo havendo o JL, os livros, os textos, a escrita do Zé Manel terá sempre esta mancha, a folha de ponto dobrada ao meio, e mais umas vezes para caber no envelope, às vezes o próximo texto sobre Cinema a ilustrar uma ideia (no cabeçalho: R. da S., JL número xyz, para Cinema; era preciso imprimir a versão final, sair do número 202 da Avenida, ir à Gráfica, na Rodrigues Sampaio, entregar o texto em papel e numa disquete, fazer todo o caminho de volta).
A felicidade não é alegre serve-me sempre, assentava-me como uma luva nos nossos encontros, noite alta alguns deles, lá em casa, no Galeto, ou à tarde, num café da Almirante Reis, como da última vez em que nos vimos. Tenho um postal em minha casa, ainda hoje à espera de selo: Adorei o nosso encontro de ontem, com a durée dos do D. Pedro V. Obrigada pelos textos. Não seguirá.
Margarida Ferra

Prémio Fundação Inês de Castro 2008 para Teolinda Gersão

Depois de já ter ganho o Prémio Máxima com A mulher que prendeu a chuva (Sextante), Teolinda Gersão acaba de vencer o Prémio Fundação Inês de Castro 2008, no valor de cinco mil euros, precisamente com o mesmo livro de contos (por mim recenseado aqui). Segundo o presidente do júri, Aníbal Pinto de Castro, citado pela Agência Lusa, Gersão «escreve muito bem e tem uma maneira de estruturar a narrativa muito nova».
Sem querer pôr em causa a qualidade literária da autora, não compreendo por que razão foi escolhida esta obra em particular, se o prémio pretende distinguir trabalhos «sobre a temática do mito inesiano». Mesmo alargando o foco a «temas tão abrangentes como a paixão, a vingança, a tragédia, a razão de Estado ou outros aspectos da representação histórico-cultural portuguesa», é preciso muito boa vontade para encaixar as histórias íntimas de A mulher que prendeu a chuva nestes pressupostos. Paixão, vingança e tragédia, ainda se arranja. Agora «razão de Estado» e «aspectos da representação histórico-cultural portuguesa», nada. Pelo contrário, as histórias passam-se quase todas no estrangeiro (em Berlim, Roma, Florença e num «pedaço de África»), sendo que as que se passam em Portugal poderiam ter como cenário outro lugar qualquer.
Eis um daqueles casos em que seria útil ler a acta da reunião do júri, para perceber que critérios se sobrepuseram aos critérios previamente anunciados.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Livro do Desassossego, de Vicente Guedes e Bernardo Soares, edição de Teresa Sobral Cunha (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Lisboa – História Física e Moral, de José-Augusto França (Livros Horizonte), por António Valdemar
Musicofilia, de Oliver Sacks (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
O Príncipe Negro, de Iris Murdoch (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Os Despautérios do Padre Libório e outros contos pícaros, de António Manuel Couto Viana (Opera Omnia), por Manuel de Freitas
És Mesmo Tu?, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa

‘From the Typewriter to the Bookstore: A Publishing Story’

As coisas não se passam bem assim, claro, mas nalguns casos andam lá perto.

Promessas de Ano Novo (a versão dos detectives)

Neste post, quatro autores de livros policiais partilham os desejos para 2009 dos seus protagonistas. Das 30 «resolutions», as minhas preferidas são:

– «Get the decomposed dead guy smell out of my favorite jeans»
– «Talk to that guy about that thing»
– «I will not be disturbed by the strange ideas of other zombies»
– «I will try not to examine my own emotions so closely that they disappear»
– «I will steal my mother’s clown pants. That is not code for anything with a deeper meaning. No one likes a clown»
– «Wake sleepwalkers as soon as you see them. You never know who they’re working for»
– «Get less sleep»

Habemus Feira do Livro

Depois de todos os sobressaltos vividos em 2008, parece que há luz verde, a tempo e horas, para a realização da Feira do Livro de Lisboa deste ano. O apoio da Câmara Municipal de Lisboa (150 mil euros) ficou garantido, ontem à tarde, numa reunião entre a APEL e a autarquia, mas nem tudo são rosas. Os 200 novos pavilhões, «feitos em contraplacado de abeto colorido» e moduláveis, conforme ficou previsto no projecto de modernização da Feira, ainda não existem. E o administrador da Jis, a empresa encarregada de os fabricar, garante que «vai ser muito difícil tê-los prontos a 23 de Abril», o que pode fazer com que a data de abertura seja adiada uma semana.

12 anos

O Ciberdúvidas já cá anda desde 1997. Parabéns ao meu homónimo Costa e ao seu excelente «corpo de colaboradores».

Paradoxo

Quatro perguntas de Pablo Neruda

Que pensarão do meu chapéu,
daqui a cem anos, os polacos?

Que dirão da minha poesia
os que não tocaram o meu sangue?

Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?

O que faz uma mosca encarcerada
num soneto de Petrarca?

[in Livro das Perguntas, trad. de Albano Martins, Campo das Letras, 2008]

Confusões pessoanas

Na literatura portuguesa, não há nada que provoque tantas guerrinhas e questiúnculas como os papéis de Pessoa. Mais do que uma arca, o que o poeta nos deixou foi uma caixa de Pandora.

Começa hoje

Às 18h30.

Cats & dogs

Volto à Poesia Incompleta debaixo de uma carga de água diluviana (como no outro dia), talvez a chuva comece a fazer parte do ritual.

Uma nova edição de ‘À Sombra da Memória’

Na próxima segunda-feira, dia 19, Eugénio de Andrade faria 86 anos. Assinalando a data, a Fundação do poeta (Rua do Passeio Alegre, 584, Porto) lançará, a partir das 18h30, uma nova edição do livro À Sombra da Memória, com um texto inédito de Gonçalo M. Tavares, que será lido durante a sessão, assim como outros textos de Eugénio de Andrade. A entrada é livre.

Descontos na Cavalo de Ferro

Até 28 de Fevereiro.

40 segundos


One year in 40 seconds from Eirik Solheim on Vimeo.

[via blogue da Planeta Tangerina, que fez com o espaço (O Mundo num Segundo) o que Solheim fez com o tempo]

Prémio Fundação Inês de Castro anunciado no dia 17

O vencedor do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2008 será conhecido no próximo sábado, pelas 17h00, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, numa cerimónia em que será homenageado o poeta António Osório. Instituído em 2007, o prémio distingue obras inspiradas no mito inesiano ou em outros temas da representação histórico-cultural portuguesa. O júri é composto pelo professor catedrático Aníbal Pinto de Castro, por José Carlos Seabra Pereira (coordenador do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos), pelo escritor Mário Cláudio, pelo crítico literário Fernando Guimarães e por Frederico Lourenço (tradutor e ensaísta).

Infindável cortejo

O Carnaval dos Animais
Autor: Rui Caeiro
Editora: Letra Livre
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-95114-6-0
Ano de publicação: 2008

Velho cúmplice de Vítor Silva Tavares num exercício prático de amor à literatura e desprezo pelas leis do mercado (a editora &Etc), Rui Caeiro é também um dos mais discretos e secretos poetas portugueses. Desde Sobre a nossa morte bem muito obrigado (1989), vem publicando com certa regularidade livros de tiragem reduzida e circulação quase subterrânea, objectos de artífice que se sente bem no seu cantinho, a cinzelar os seus materiais (a sua linguagem), distante de glórias fátuas e alaridos mediáticos.
Em 1997, numa plaquette intitulada 49 espinhas para um gato (edição de autor), Caeiro multiplicou os ângulos de abordagem ao mais doméstico dos felinos, visto como «um animal eminentemente aforístico». Agora, em O Carnaval dos Animais, os aforismos estendem-se à restante fauna do mundo, num infindável cortejo onde se cruza todo o tipo de bicharada: formigas, tubarões, leopardos, abutres, hienas, pirilampos, hipopótamos, catatuas, pulgas, medusas, etc. E até seres não classificados por Lineu, como as sereias.
Ao contrário do que acontece em muitos bestiários, Caeiro não cede à tentação da fábula. No lugar das lições de moral, temos ironia (veja-se o poema sobre os bois: «O que neles me atrai não é tanto a força ou a paciência / mas aquele seu jeito único de olhar, com alguma / atenção, com alguma demora, para os palácios»). Os homens, esses «destroços de meter medo», ou estão ausentes ou são pressentidos como estúpida ameaça à ordem natural das coisas.
Na verdade, o que o poeta pretende fixar, com extraordinária economia verbal (nunca em mais de três versos), são os mínimos detalhes que fazem a singularidade de cada espécie. O voo das andorinhas deixa hieróglifos no ar, as otárias fazem amor com a água, o camelo é «um ser raro, um senhor» e os vermes, nos labirintos escavados na terra, «sonham com a nossa carne». Há também muita intertextualidade, nem sempre subtil, e alguns versos a que falta o rasgo que sobra a outros (como aquele em que as águias se mostram orgulhosas «da sua cabeça de Álvaro Cunhal»).
Longe da mera contemplação, esta é uma poesia que se quer, ela mesma, animal. Isto é, capaz de atacar «o cerne da literatura e da escrita / não com os olhos ou o parco entendimento / mas com a boca, mas com os dentes». Tal como fazem os peixinhos de prata, esses devoradores de bibliotecas que Caeiro eleva, magnânimo, a objecto poético.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Antígona, primeiro semestre

Para a Antígona, as principais apostas até meio de 2009 vão ser estas: Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, de Heinrich von Kleist, tradução de José Miranda Justo (Fevereiro); Poesia Cubana Contemporânea – 10 Poetas, com selecção, prefácio e notas de Pedro Marqués de Armas e tradução de Jorge Melícias (Março); o romance Correios, de Charles Bukowski, com uma nova tradução de Rui Lopes (Abril); a edição ilustrada de Os Cantos de Maldoror, do Conde de Lautréamont, com nova tradução de Manuel de Freitas (Maio); e o ensaio Orwell e a Política, de John Newsinger, tradução de Fernando Gonçalves (Junho).

Dois poemas antigos de Ruy Duarte de Carvalho

CHAGAS DE SALITRE

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.

Olha-me as igrejas restaudadas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.

Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.


VENHO DE UM SUL

Vim ao leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.

Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.
De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.

[in A Decisão da Idade, União dos Escritores Angolanos, 1976]

Livraria Buchholz no Chiado (agora a sério)

Depois de um arranque em falso, a Buchholz Chiado está finalmente operacional:

Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 30
De segunda a sábado, das 10h00 às 24h00

PS – Entre as edições antigas a preço de saldo, vindas dos armazéns da Livraria Sá da Costa, encontrei esta preciosidade:

É a segunda recolha poética de Ruy Duarte de Carvalho (a primeira foi Chão de Oferta, 1972). Foi editada em Portugal pela Sá da Costa, em 1976, para a União dos Escritores Angolanos. A capa é de Sebastião Rodrigues, um dos mais importantes designers portugueses. Preço: dois euros e meio.

Uma boa notícia para quem ficou sem o último livro de Herberto Helder

A história de A Faca Não Corta o Fogo é conhecida. Editado no final de 2008 pela Assírio & Alvim, o livro com a «súmula & inédita» de Herberto Helder esgotou num ápice 3.000 exemplares, o que faz de A Faca Não Corta o Fogo um best-seller poético, se me permitem o oxímoro. Acontece que Herberto recusa quaisquer reedições da obra, pelo que muita gente lamenta agora não ter sido mais lesta a comprar aquele que a crítica literária, quase unanimemente, considerou o melhor livro de 2008 publicado por um autor português.
Se também faz parte deste grupo de órfãos, não desespere. A Assírio & Alvim acaba de anunciar o lançamento, em breve, de Ofício Cantante – Poesia Completa, um volume de 624 páginas que incluirá, além de mais poemas inéditos (e outros retrabalhados), todos os textos que constavam de A Faca Não Corta o Fogo. Custará 48 euros. Agora não se distraia.
Eis um excerto:

«não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,
»

A Assírio prepara ainda a edição do segundo volume de um catálogo raisonné de Amadeo de Souza Cardoso, um livro de ensaios de Mário Cesariny sobre a dupla Vieira da Silva-Arpad Szenes e os textos críticos reunidos de Gastão Cruz (A Vida da Poesia).

A sina da Literatura

O escritor brasileiro (e gaúcho) Tabajara Ruas, um dos convidados das Correntes d’Escritas em 2008, explica ao Bibliotecário de Babel o que mais o atrai no encontro literário da Póvoa de Varzim.

Vêm aí as Correntes d’Escritas

A décima edição das Correntes d’Escritasaka o maior encontro literário que por cá se faz – arranca precisamente dentro de um mês (11 a 14 de Fevereiro). Tal como o ano passado, acompanharei a par e passo tudo o que acontecer na Póvoa de Varzim. Até lá, além das notícias que se forem sabendo e dos detalhes da programação, irei publicando algumas entrevistas com escritores e depoimentos vídeo inéditos, material que acabei por não utilizar (como tencionava) durante a cobertura das Correntes em 2008.

Capa da edição portuguesa do Goncourt 2008

O romance Pedra-de-Paciência, com que Atiq Rahimi ganhou o Prémio Goncourt, em Novembro, está prestes a sair do prelo, com chancela da Teorema e tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. A capa é esta:

Quem desejar conhecer a obra anterior do escritor afegão radicado em França, igualmente publicada pela Teorema, pode comprar na FNAC, por apenas cinco euros, um pack com os seus dois primeiros romances (Terra e Cinzas + As Mil Casas do Sonho e do Terror).

valter hugo mãe vai ser blogger convidado do ‘Público’

A partir de agora, o casa de osso passa a constar deste rol.
Parabéns, valter.

Viagens em Itália

«Um salto no tempo e eis-me agora com 16/17 anos, em 1955-57, no Liceu já, às voltas com a Filosofia. Gratas voltas porque o Professor se chamava Augusto Abelaira e uma vez numa aula proferiu um nome: Piero della Francesca. Nós «quem?!», ele, sem ligar, prosseguiu falando de Florença («Mas se um dia lá forem, não deixem de ir a Siena»). Itália, outra vez, ali à minha frente. E mais à frente ficaria quando, com 18 anos, já na Faculdade, tendo trocado a Filosofia pela História, li de um folêgo o romance de estreia do meu ex-professor Augusto Abelaira. Chamava-se A Cidade das Flores. Quem diz «flores» diz «fiori», Fiorenza se chamou outrora Florença. A acção passava-se lá, no tempo de Mussolini, mas toda a gente percebeu que era um truque para ludribiar a Censura fascista – a portuguesa, de 1958. A «Cidade das Flores» era Lisboa, no tempo de Salazar.
De qualquer modo, Florença («Não deixem de ir a Siena») ficou-me no ouvido. Até porque, nesta altura, de Itália eu sabia já mais alguma coisa: o rio Arno, para lá das suas margens se passava O Bairro, o romance de Vasco Pratolini, um dos meus livros da vida, como todos os que lemos e amamos na adolescência.
E… Sim, por esta altura também eu já sabia, ou ouvira falar de Miguel Ângelo, Rafael, Botticelli e tutti quanti. Mas, se aos 9 anos a minha Itália era a Embaixada, a sua bandeira e o Torino de Bacigalupo, aos 18 era o Arno, Florença e a tal Siena onde não podia deixar de ir. Não só. Aos 18 anos, a Itália subitamente alargara-se-me para outros insuspeitados territórios. Um filme chamado Guendalina, de um tal Alberto Lattuada, fizera furor em Lisboa entre os adolescentes. Talvez em Itália não se saiba, mas foi graças a ele que em Portugal, desde então e até hoje, se passou a dizer «ciau» (ou «xáu», à portuguesa). Foi o que ficou de Guendalina, só décadas depois ao revê-lo descobri que se passava em Viareggio. Na Toscânia do Arno, Florença e Siena.
O cinema… Sim, o cinema que me trocaria outra vez as voltas, graças a Sentimento (Senso, como dizíamos, porque era mais bonito dizê-lo em italiano). Realizara-o Visconti, e a capital de Itália mudou-se-me outra vez. Agora para Veneza. A Veneza do Risorgimento, quando a Itália – enquanto país, estado, com as fronteiras de hoje – praticamente nasceu. Mas, antes de nascer (ou de Senso chegar ao fim), já eu por Itália chorara as primeiras lágrimas, quando no início do filme, no palco do La Fenice, há aquela cena do Il Trovatore, de Verdi; quem não se comove com ela é desprovido de coração.
(…) Para onde fui, por esta altura, foi para a Guerra Colonial, já feito o curso de História. De Itália nem memória nesse longíquo Moçambique aonde fui parar. Mas… Mas uma noite, numa cidadezinha à beira do Oceano Índico, hoje chamada Pemba, imagine-se só que filme passava no barracão adaptado a cinema – Senso, esse mesmo! As lágrimas, outra vez.
Regresso, sou professor (no mesmo Liceu onde uma dúzia de anos antes, pela primeira vez, ouvira falar de Piero della Francesca, Florença e Siena), a polícia política impede-me de dar aulas ao fim de um ano e em 1968 torno-me jornalista. Para apenas em 1973, no Setembro em que o Chile cai nas mãos de Pinochet, a Itália se me deparar de novo no caminho. Agora para ir lá, em serviço do jornal. «Florença?» – pergunto. Não. Era Milão. Milão do Duomo, da Galeria Vítor Manuel, do La Scala (a que não fui), da Ceia de Cristo (que não vi). Tal como, depois, sempre em serviço, não iria nem veria muita coisa que há em Roma. Onde estive sem ver o Papa, ajoelhando-me, todavia, perante a Pietà e sentando-me na Fontana di Trevi da Dolce Vita, de Fellini – o sagrado e o profano, e também desta simbiose vive a Itália.
Em Assis, sim, descobri Giotto e S. Francisco, como depois me extasiei em Veneza, vendo tudo sem ver nada, não extasiando já quando lá voltei (Ninguém duas vezes – assim intitulei o meu artigo para o jornal). Antes, porém, já me matriculara no Instituto Italiano de Lisboa. «Perché?» – perguntou a professora (Rosella Puppo, de Génova). Respondi-lhe «Per piacere». E era mesmo por prazer que me propusera estudar italiano. Por prazer de ser capaz de proferir duas ou três frases na mais bela língua do Mundo. E o francês? O francês continuava a ser a minha segunda língua, mas o italiano destronara-a no prazer de a ouvir falar. Francesco é mais bonito que François, e S. Francisco – desde que o lera e, pela mão de Giotto, o descobrira em Assis – passara a ser o meu santo. Com Marx e outros incréus ao seu lado no conclave.
Nunca mais voltei a Assis (também de Santa Clara, ou Chiara, que é mais belo de dizer e de ouvir), mas, em 1996, quando da segunda vez aportei a Milão, disse «basta!» e, escapulindo-me do serviço, tomei o comboio para Florença. Florença, enfim, 40 anos depois de Augusto Abelaira dela me ter falado. Mandei-lhe um postal de lá («Levei todo este tempo para aqui chegar, mas, graças a si, cá estou; obrigado»), mas não lhe disse que, à primeira vista – à primeira vista de três horas –, Florença me desiludira.

[in Uma Carta de Amor, de José Manuel Rodrigues da Silva, edição do Festival Sete Sóis Sete Luas, 2005]

José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009)


Fotografia de Margarida Ferra

Morreu o Rodrigues da Silva. Esta madrugada, vítima de um cancro. Morreu o jornalista exemplar, no activo desde 1 de Agosto de 1968 (tinha a carteira profissional n.º 161), com passagens por jornais entretanto extintos (o Diário Popular, o Diário de Lisboa, o semanário O Jornal) e uma longa permanência no Jornal de Letras, de que foi editor desde 1992 e com o qual por vezes quase se confundia. Homem atento a todos os aspectos da actividade cultural, foi um cinéfilo voraz e um leitor não menos voraz, tendo entrevistado nas últimas décadas todos os grandes escritores e cineastas portugueses. Escrevia textos longos num estilo característico, feito de encadeamentos e deambulações, entusiasmos e embirrações. Contra a mediocridade reinante, defendeu sempre a arte e os artistas que exigem, do público, não apenas tempo e atenção, mas também inteligência e sentido crítico. Nunca escondeu o seu posicionamento ideológico (à esquerda das esquerdas convencionais) ou a sua insatisfação com o estado do mundo.
Morreu o Rodrigues da Silva, o camarada, o jornalista. Mas morreu também, e isso é que dói mais, o Zé Manel. O amigo atento. O incansável remetente de postais ilustrados com as palavras certas. O homem que foi uma referência para várias gerações mais novas (às vezes, muito mais novas). O professor que ensinava nas escolas secundárias, mas igualmente na mesa do café ou na redacção do jornal, e que sabia cultivar uma proximidade rara, de velho sábio e compincha. A sua principal obra, discreta e invisível como a de todos os bons editores, foi talvez essa: transmitir os fundamentos de uma ética, de um modo de estar no mundo que não passe pela resignação face ao que existe. No seu sentido mais nobre, mestre é uma palavra que lhe assentaria bem. Mas um mestre que nunca seria capaz de se assumir como tal, mais por desconfiança em relação à autoridade do que por modéstia.

Acordo Ortográfico: Brasil + Coimbra

«O mais antigo jornal de Coimbra, O Despertar, adoptou no início do ano a grafia do novo acordo ortográfico que, no dia 1 de Janeiro, entrou em vigor no Brasil, destaca o semanário na primeira página da última edição.
Em declarações à agência Lusa, o director daquele semanário, Linho Vinhal, explicou que, “estando em perspectiva a entrada em vigor do acordo a curto prazo, seria útil e dentro do papel da comunicação social ir habituando os leitores a uma grafia que boa parte das pessoas vai estranhar”.»

‘Ler no Chiado’ sobre literatura e judaísmo, ontem



À esquerda a moderadora, Anabela Mota Ribeiro; ao centro, Richard Zimler; à direita, João Paulo Esteves da Silva

A conversa andou por muitos lados e foi parar, inevitavelmente, à situação em Gaza. Curiosamente, João Paulo Esteves da Silva, que tem pena de não ser judeu, mostrou-se mais pró-israelita do que Zimler, que não tem pena de ser judeu mas está longe de concordar com tudo o que os israelitas fazem. Esteves da Silva, que é músico, abordou com uma densidade quase ensaística temas importantíssimos da cultura hebraica (o poder das 22 letras do alfabeto, por exemplo, enquanto «representações visíveis do invisível»). Zimler foi mais emotivo, mais terra-a-terra. Falou da forma como os grandes escritores judeus americanos, sobretudo Philip Roth e Saul Bellow, fizeram dos problemas de integração dos imigrantes (por vezes já de segunda ou terceira geração) matéria essencial dos seus romances. No seu caso particular, o foco do trabalho literário centra-se mais na memória de injustiças históricas e na necessidade de usar a literatura como forma de não as esquecer. «Eu escrevo para participar no mundo», resumiu Zimler, que mais à frente pôs toda a gente a rir com uma tirada típica do celebrado humor judaico, quando um espectador invocou as teorias da conspiração anti-semitas: «Os judeus querem dominar o mundo? Quem me dera que dominassem o mundo. Era da maneira que vendia muito mais livros.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Jukebox 2 (Teatro de Vila Real) e Boa Morte (edição de autor), de Manuel de Freitas, por António Guerreiro
O Carnaval dos Animais, de Rui Caeiro (Letra Livre), por José Mário Silva
Comércio Tradicional, de Vítor Nogueira (Averno), por António Guerreiro
Odes, de Horácio (Cotovia), por Hugo Pinto Santos
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, de Stieg Larsson (Oceanos), por Luís M. Faria
Pablo La Noche, de Marcello Mathias (Quetzal), por Rogério Casanova
É a Aless, de Jon Fosse (Cotovia), por Francisco Frazão
A Arte de Matar, de Jonathan Santlofer (Presença), por Paulo Nogueira

Revista ‘Ler’ n.º 76

Amanhã nas bancas.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges