Primeiras frases

«Sempre imaginei que a história da minha vida, se e quando a escrevesse, teria uma primeira frase grandiosa: uma coisa lírica como “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade”, de Nabokov; ou, caso eu não tivesse queda para o lírico, então uma coisa epopeica como “Todas as famílias felizes são iguais, mas as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira”, de Tolstoi. São palavras que as pessoas não esquecem, mesmo que já não se lembrem do resto dos livros. No que diz respeito a primeiras frases, porém, a melhor, na minha opinião, é sem dúvida a que inicia O Bom Soldado de Ford Madox Ford: “Esta é a história mais triste que alguma vez ouvi.” Já a li dezenas de vezes e continua a deixar-me de rastos. Ford Madox Ford era dos Grandes.
Toda a minha vida foi uma luta para conseguir escrever, mas aquilo com que lutei mais virilmente – sim é esse o termo, virilmente – foram os inícios. Sempre me pareceu que se eu acertasse com eles, o resto viria automaticamente. Considerava a frase inicial uma espécie de útero semântico recheado de irrequietos embriões de páginas por escrever, pequenas pepitas brilhantes de génio praticamente a pedir para vir ao mundo. Desse fabuloso receptáculo jorraria, por assim dizer, a história. Que ilusão! Passa-se exactamente o contrário. Não que não existam boas primeiras frases. Saboreiem estas, por exemplo: “Quando o telefone tocou às três da manhã, Morris Monk sabia, antes mesmo de pegar no auscultador, que a chamada era de uma senhora e sabia ainda outra coisa: chamadas de senhoras trazem problemas.” Ou esta: “Imediatamente antes de ser cortado aos bocados pelos soldados sádicos de Gamel, o coronel Benchley viu à sua frente a imagem da casinha caiada de Shropshire, com a senhora Benchley à soleira da porta, mais as crianças.” Ou esta: “Paris, Londres, Djibuti, todas lhe pareceram irreais, ali sentado entre os despojos de mais um jantar de Acção de Graças com a mãe, o pai e aquele idiota do Charles.” Quem não se deixa impressionar por frases como estas? São tão ricas de significado, tão, atrevo-me a dizer, fartas de significado, que quase rebentam de capítulos inteiros por escrever – por escrever, mas já presentes, já ali!
Infelizmente, afinal não passavam de bolhas, ilusões, todas elas. Cada uma dessas frases maravilhosas, que tanto prometiam, eram como um lindo embrulho nas mãos ansiosas de uma criança, daqueles embrulhos que contêm apenas cascalho e escória, embora produzam um som tão aliciante quando chocalhados. A criança pensa que vai encontrar guloseimas lá dentro! Eu pensava encontrar literatura. Todas essas frases – e muitas, muitas outras também – eram, afinal, não trampolins para o grande romance que ainda não foi escrito, mas obstáculos intransponíveis à sua realização. Bem vêem, eram demasiado boas. Eu não estava à altura delas. Alguns escritores não voltam a escrever um romance tão bom como o primeiro. Eu nunca seria capaz de voltar a escrever uma frase tão boa como a minha primeira frase. Basta olhar para mim agora. Vejam como comecei este livro, a minha última obra, a minha grande obra: “Sempre imaginei que a história da minha vida, se e quando…” Francamente, “se e quando”! Estão a ver o problema? Um horror. Esqueçam.»

[in Firmin, de Sam Savage, trad. de Sofia Gomes, Planeta, 2009]

‘O Japão é um lugar estranho’ (booktrailer)

[via Livraria Pó dos Livros]

’38 miniaturas’ em árabe

As 38 miniaturas que fecham o livro Efeito Borboleta e outras histórias foram hoje publicadas no suplemento literário de um jornal marroquino (o Almonataf, de Rabat). A tradução para a língua árabe foi feita por Saïd Benabdelouahed, professor de Língua e Literatura Hispânicas na Faculdade de Letras da Universidade Hassan II Ain Chok (Casablanca), que tem publicado na imprensa do seu país traduções de poemas e contos de Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga.
Como é evidente, agradeço ao professor Benabdelouahed esta inesperada divulgação das minhas micronarrativas.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Loucura de Deus, de Peter Sloterdijk (Relógio d’Água), por António Guerreiro
12 Erros que Mudaram Portugal, de João Vasco Almeida e Rui F. Baptista (Guerra & Paz), por Rui Gustavo
Fórmula para o Caos, de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Tribuna da História), por Luísa Meireles
A Infância é um Território Desconhecido, de Helena Vasconcelos (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
A Arte da Alegria, de Goliarda Sapienza (Dom Quixote), por Vítor Quelhas
O Verão Selvagem dos Teus Olhos (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
A Casa do Esquecimento, de Fernando Dinis (Teorema), por José Mário Silva

Folha de sala

Logo à noite, a organização dos “Encontros de Cinema na Malaposta” vai entregar ao público uma crónica que escrevi, em Abril de 2003 (no suplemento DNA), sobre o documentário Entre Muros, de João Ribeiro e José Filipe Costa, a pièce de résistance desta primeira sessão. Eis o texto:

OS UCRANIANOS

Eu cruzo-me com eles nas ruas de Lisboa, oiço no metro a sua língua cheia de «k’s» e de «y’s», reconheço na fila do supermercado o seu sorriso onde às vezes brilham dentes de ouro, vejo-os pendurados nos andaimes com o olhar melancólico de quem estudou para ser engenheiro de minas ou médico ortopedista, mas agora se descobre numa terra estranha, a assentar tijolos dias a fio, sem papéis e sem futuro.
Eu sei que eles estão para nós como nós estivemos para os franceses, nos anos 60. São gente trabalhadora que ergue Expos e constrói estádios, uma mão-de-obra baratíssima, sempre disponível e pouco conflituosa, que só quer receber o magro salário ao fim do mês para enviá-lo, quase por inteiro, às famílias que em Kiev anseiam pelos euros, como Portugal ansiava pelas remessas dos homens e mulheres que atravessavam os Pirenéus em busca de uma vida melhor. A diferença é que os portugueses tinham em geral uma educação limitada (muitos eram mesmo analfabetos), enquanto os novos imigrantes de Leste só não apresentam os diplomas universitários porque ninguém lhos pede.
Pelo que leio nos jornais, sei também que os ucranianos já são mais numerosos no território português do que os angolanos e guineenses, por exemplo. Sei que há redes mafiosas que controlam o «negócio» (esta forma encapotada de escravatura), cobrando-lhes um balúrdio à vinda e outro balúrdio à ida. Sei que existe um submundo de empreiteiros sem escrúpulos a enriquecer à custa deles, por não pagarem horas extraordinárias nem descontos para a Segurança Social. Sei que há alguns casos notáveis de integração: alunos com resultados brilhantes e pessoas de todas as idades que revelam uma extraordinária fluência na nossa língua. Sei igualmente que há casos de desespero, de suicídio, de mortes criminosas em noites de álcool e navalhas.
Sei tudo isto. Mas, ao mesmo tempo, não sei nada. Porque os textos dos jornais, as reportagens da televisão, só mostram uma parte da realidade. Nunca nos mostram como eles vivem mesmo, no quotidiano, quando a câmara se desliga e já ninguém lhes pede depoimentos, dramas existenciais ou demonstrações de apego à pátria distante. Isso que nunca nos mostram – a vida como ela é, sem «voz off» – foi o que João Ribeiro e José Filipe Costa quiseram fixar num documentário, Entre Muros, gravado em vídeo durante seis meses (Novembro de 2000 a Abril de 2001).
O que torna este filme uma obra fascinante é, desde logo, a sua «perspectiva cinematográfica». Ou seja, a forma como o documentário foi pensado enquanto corpo de imagens. Os autores, em vez de ensaiarem uma qualquer abordagem sociológica do fenómeno da imigração de Leste, preferiram focar a sua câmara na experiência de dois homens, dois imigrantes que partilham a solidão e o cansaço, algures nos arredores de Lisboa. A estratégia parece-me correcta, porque através das acções, desabafos e silêncios destes homens concretos, vai sendo contada, em surdina, a história da maioria dos ucranianos que atravessaram um continente, milhares de quilómetros, para procurar a sorte no país mais ocidental da Europa (facto que é sublinhado por uma das poucas cenas de exterior, junto ao Cabo da Roca).
João Ribeiro e José Filipe Costa resumem o seu projecto de forma muito clara: «O que queríamos era construir em forma de sons e imagens este encontro, entre “eles” e “nós”, fazer sentir o estado de suspensão numa terra estrangeira, à espera que venham melhores dias. A descoberta, a pausa, a dúvida, a privação, estar cá e lá ao mesmo tempo». E é isso precisamente que acontece no ecrã. Acompanhamos Serguei e Edvard no espaço que partilham: uma garagem cheia de humidade, com um frigorífico decrépito, roupa estendida e posters com mulheres nuas na parede. Se não vemos quase nada do que se passa fora daquelas quatro paredes, é porque não se passa quase nada fora daquelas quatro paredes. Eles são clandestinos, trabalhadores ilegais, devem por isso esconder-se tanto quanto possível. O único caminho que existe, fora da casa, é o que vai dar ao estaleiro de construção civil ou ao supermercado.

Há mais três compatriotas que partilham a garagem, mas o filme centra-se em Serguei Rodikov, 31 anos, ex-engenheiro numa central telefónica, e no seu primo, Edvard Onichuk, 24 anos, electricista e disc jockey nas horas vagas. Ao fim de uns minutos, não é difícil perceber que são homens com motivações muito diferentes. Serguei trabalha como servente para juntar o dinheiro que lhe permita, lá na aldeia-natal, concluir as obras na sua casa (falta rebocar as paredes e pôr os azulejos). Edvard, pelo seu lado, não tem poupanças em vista e por isso pode render-se aos encantos da sociedade de consumo. Compra uma câmara de vídeo e um telemóvel.
O que vemos neste documentário começa por ser isto: as pequenas alegrias e irritações quotidianas, o jantar feito num tacho velho, a TV ligada, um telefonema rápido para os pais («pergunta como é que está o tempo!»). Mas depois há uma densidade que se instala, uma melancolia que já nos fora sugerida pelas imagens iniciais, esses planos magníficos em que um dos homens deambula frente às montras de Lisboa, enquanto ouvimos uma canção muito triste, sobre uma menina que o amor abandona pela primeira vez. A melancolia regressa com a evocação dos mortos («Quantos ucranianos já morreram em Portugal?», pergunta um dos amigos; mas ninguém sabe responder) e prolonga-se na sequência da passagem de ano, da entrada em 2001, quando a rolha do espumante salta às 22 horas portuguesas, meia-noite ucraniana.
Importa ainda dizer que a câmara, neste filme, nunca é intrusa. É mais um corpo no meio dos corpos que se embebedam e dançam, trôpegos, no vazio. Um corpo tão cúmplice que no fim, quando os homens regressam à pátria, vai atrás deles. E então a estranheza inverte-se. Há agora amigos sorridentes, uma mesa farta e histórias do país onde os homens espetam ferros no lombo dos touros. Há imagens captadas por Edvard: casas, ruas, um homem de mão na anca que agradece os aplausos após a faena. Os familiares espantam-se, de olhos muito abertos. E alguém pergunta: «Lá as temperaturas nunca são negativas, pois não? Como é que eles aguentam?»

Três filmes de José Filipe Costa, esta noite na Malaposta

Os “Encontros de Cinema na Malaposta”, marcados para a última sexta-feira de cada mês no Centro Cultural Malaposta, começam esta noite (21h30) com a apresentação de um documentário e duas curtas-metragens de José Filipe Costa. O documentário é Entre Muros (2002); as curtas são Chapa 23 e Domingo (ambas de 2006). Seguir-se-á um debate em cuja mesa participarei, ao lado do realizador e de Ana Brandão (actriz). Entrada: dois euros.

Preto e amarelo

Ainda está a dar os primeiros passos, mas o blogue da Quetzal já é um mimo: útil, atento ao que se passa com os seus autores e lindíssimo.

[Declaração de interesses: a responsável pela actualização do blogue, e pela comunicação da Quetzal, é a minha mulher, Margarida Ferra.]

O que é que José Saramago e Barack Obama têm (ou vão ter brevemente) em comum?

Um cão-de-água português.

Sofá + estante (dois em um)

O conceito, muito ao estilo 2001 Odisseia no Espaço, é da designer russa Irina Zhdanova.

[via Jacket Copy]

‘Nós e os Clássicos’ na Almedina

Partindo de uma pergunta de Italo Calvino («Porquê ler os clássicos?»), a jornalista e escritora Filipa Melo organiza e modera uma comunidade de leitores na livraria Almedina do Atrium Saldanha, intitulada ‘Nós e os Clássicos’. A ideia é levar «todos os que gostam de ler a descobrirem os grandes clássicos da Literatura Universal, apresentados por leitores excepcionais e numa perspectiva de ligação com a actualidade». As obras em foco abrangem um arco temporal vastíssimo: dos grandes Livros religiosos (Bíblia, Alcorão, Talmude) a Homero, Dante e Shakespeare; das teorias de Einstein, Marx e Freud aos romances de Proust, Joyce e Kafka. As sessões, abertas ao público em geral, estão marcadas para a última quinta-feira de cada mês, na Almedina (Atrium Saldanha, Pç. Duque de Saldanha, 1, Loja 71 – 2º Piso, Lisboa). A sessão de hoje começa às 19h00 e aborda a Divina Comédia, de Dante Alighieri, com a presença do tradutor português (Vasco Graça Moura).

Algumas micronarrativas resgatadas de uma crónica de jornal (circa 2003)

O PROBLEMA DA INSPIRAÇÃO
Naquele dia, as musas resolveram descer à cidade. Houve quem as visse – luminosas, belíssimas – arrastando longos vestidos, sorrindo muito, pairando numa leveza feita de véus e coroas de flores. No quarto andar de um prédio decrépito, bateram à porta com a insistência convicta das Testemunhas de Jeová, mas também com muito mais doçura. Do outro lado, só silêncio. Quando regressou a casa, dez minutos depois, o escritor apenas sentiu, nas escadas, um perfume desconhecido. Trazia no bolso o maço de tabaco que fora comprar à rua e na cabeça uma dúvida: «será hoje que venço o maldito bloqueio?»

NATUREZA MORTA
Começou por recuperar, à sua maneira, temas clássicos: três pêras e um violino; uma caveira junto a um candelabro; cestos de figos e flores murchas; copos de cristal, um elmo. Depois, aos poucos, foi introduzindo elementos bizarros, combinações grotescas: um cão morto de olhos cosidos, sobre a carcaça de um automóvel; dois pneus a arder dentro de um armário forrado de espelhos; lírios brancos flutuando numa banheira de esmalte cheia de sangue. Passou a viver no atelier, tecendo lentamente a sua loucura. Perdeu os laços com a família, com os amigos, com as galerias. Quando o prenderam, acusado de homicídio na pessoa do amante e modelo, trabalhava na sua «obra-prima». Um quadro gigantesco – seis por cinco metros – inteiramente preenchido pela cabeça degolada de S. João Baptista.

TITANIC
Quando a noite chegou, com a lua brilhante a subir no horizonte tão escuro, ela tirou do baú os sapatos brancos, algumas jóias, o melhor vestido. Caminhou até ao salão, toda veludo e pérolas. A meio do baile, disse-lhe baixinho ao ouvido: «estou grávida». Ele empalideceu, os vidros embaciaram-se, a orquestra atacou uma última valsa. Já no convés, ela decifrou em cada gesto dele, mais do que nas palavras, os sinais claros da decepção. Compreendeu tudo. O olhar que a seduzira numa rua de Viena – há quantos séculos? – era agora de uma frieza que só se encontra no coração azul do gelo.

FIM
O escritor não sabia como concluir as suas histórias. Por isso, numa noite de álcool, insónia e lucidez, decidiu nunca mais correr o risco – pérfido, vicioso – de as começar.

O colectivo Casanova

Numa das cinco notas prévias à versão em papel do blogue Pastoral Portuguesa (edição Quetzal), blogue e livro atribuídos a esse avatar misterioso chamado Rogério Casanova, o autor explica-se:

«A idealização, criação e manutenção de Rogério Casanova foi um processo colectivo, dependente da dedicação de inúmeros profissionais. Todos eles – o presidente do Conselho de Administração, o director de Projectos, a secretária de redacção, as dezenas de estagiários responsáveis pela produção de conteúdos – desempenharam um papel determinante nesta empreitada. São eles os responsáveis pelo produto final, e merecem um sentido agradecimento. Os outros também. Toda a gente, no fundo.»

Não é difícil perceber que os textos em causa foram escritos até 2008. Actualmente, a situação é outra. No início de Janeiro, o colectivo Casanova desfez-se (escudado pela Crise, com maiúscula, o patrão fechou a empresa, despediu toda a gente e fugiu para um paraíso fiscal offshore) e o outrora grandioso e multitudinário Rogério, ao mesmo tempo que vê o seu nome chegar ao Olimpo das livrarias, arrasta agora o seu corpinho solitário (um downgrade com forma humana) pelas vielas dos bairros populares de Lisboa e respectivas espeluncas.

Uma deriva controlada

Os selos da Lituânia
Autor: Amadeu Baptista
Editora: &Etc.
N.º de páginas: 76
ISBN: 978-989-8150-10-3
Ano de publicação: 2009

Amadeu Baptista é um caso singular na literatura portuguesa. Embora seja um autor prolixo, a sua obra tem mantido uma assinalável constância qualitativa, como se pode verificar em Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), que as Quasi editaram há menos de dois anos. De então para cá, Baptista lançou nove títulos (se não é recorde, anda lá perto), o que se explica em parte pela urgência expressiva de um poeta torrencial por natureza, e em parte pelas dificuldades económicas que o atormentam. Desempregado de longa duração, tem feito da vitória sistemática em concursos literários uma espécie de actividade profissional, ao ponto de poder dizer-se que vive literalmente da poesia (se não é caso único, anda lá perto).
Em Os selos da Lituânia, Baptista recorre ao poema longo como forma de organizar recordações dispersas da infância e da adolescência, num «ajuste de contas com o passado» que deixa atrás de si um denso rasto de melancolia. O ponto de partida é quase sempre um momento forte, traumático ou epifânico: uma ida à praia («para ver do mar o fundo»), o primeiro dia de aulas, o velório da avó que a cidade em breve eclipsará, uma carga policial vista de longe (apertando a mão da ama assustada), visões líricas do mundo natural (um bosque, um pomar de limoeiros), os castigos corporais, a descoberta do sexo, retratos vívidos de familiares próximos, etc.
À medida que avança através das sombras, tanto do espaço como do tempo, o discurso assume a forma de uma deriva controlada, em que o sujeito poético se entrega às marés da memória, mas sem nunca perder o pé. Esta é uma poesia da contemplação e do desamparo face às arestas cortantes do mundo, um mundo em que o «irreal mostrava-se, de súbito,/ a única custódia possível para os olhos». Baptista acredita no poder de resgate da poesia, esse «denso» e «inquestionável» mistério que, entre outras coisas, «ampliava/ os recantos do sótão», nessa casa de família em que agora se sobrepõem, coalescendo, outras casas – com os seus próprios instantes, e silhuetas, e gestos perdidos. A crença no poder da poesia, porém, não o cega para os aspectos mais brutais da realidade, antes lhe provoca a «angústia de quem sabe/ que nenhuma palavra é redentora/ e um verso ou uma frase não nos salva/ do que quer que seja». O último poema, com os seus «traços de leveza» vagamente erótica e juvenil, deixa ainda assim uma esperança na vertigem dos sentidos como uma forma possível de sobrevivência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Encher páginas

A 4 de Janeiro de 1991, nos tempos áureos de O Independente, Miguel Esteves Cardoso assinou uma daquelas crónicas que só ele tinha coragem, lata, génio, discernimento ou falta de vergonha na cara para fazer. O texto intitulava-se 1991. Calendário da Depressão (lembro-me bem dos pormenores porque a vi recentemente emoldurada numa casa particular) e começava assim: «um de janeiro. depois, dois de janeiro. depois, três de janeiro. depois, quatro de janeiro. depois, cinco de janeiro. depois, seis de janeiro. depois, sete de janeiro.»; etc. Um etc. que ia até ao final de Dezembro: «depois, vinte e oito de dezembro. depois, vinte e nove de dezembro. depois, trinta de dezembro. depois, trinta e um de dezembro.» Lembrei-me dessa crónica ao folhear, ontem à tarde, o último romance de Douglas Coupland editado em Portugal: jPod (Teorema), uma «versão de Inforscravos para a geração Google», escrita de forma a replicar as experiências de leitura na Web 2.0. Imperam por isso as brincadeiras gráficas: listas para todos os gostos, caracteres chineses ampliados, variações sobre a linguagem das mensagens de spam, etc. Às tantas, a meio da história, passada numa empresa de videojogos, alguém se lembra de enviar aos colegas os cem mil primeiros dígitos do número pi: 3,141592653589793238462643383279502884197169, etc. Um etc. que se estende por mais de 20 páginas, logo seguido por outra série de algarismos, desta vez gerados aleatoriamente, que ocupam outras 21 páginas.
Enfim, tudo isto pode parecer gratuito ou uma mera provocação pós-moderna, mas prefiro os desaforos do MEC e de Coupland às páginas cheias de trabalhosa e trabalhada palha com que muitos esforçados cronistas e romancistas nos contemplam.

O Livro dos Eclipses

O título completo, em latim, é Eclipses luminarium summa fide et accurata diligentia supputatae, ac figuris coloribusque suis artificiose depictae, quarum rationes ab anno domini 1554, usque in annum domini 1600, se extendunt et ad meridianum Viennae Austriae referuntur. Foi escrito por Cyprian Leowitz, um astrólogo bávaro contemporâneo de Nostradamus, e descreve os eclipses solares e lunares observados, em Viena de Áustria, entre 1554 e 1600. Outras belíssimas gravuras deste volume podem ser admiradas aqui.

Dois poemas de Manuel de Freitas

MERCADO DOS LAVRADORES

Desobedece às flores,
como quem vai morrer.
Arrumam as entranhas
de espada negro, enquanto
uma mangueira firme
varre da infância
todos os que já partiram:

Gregório, Isaías, João,
alguns outros mais.
Nos bares em volta,
nas bancas de raspadinha,
procuras – mas não encontras –
o esquecimento.

Isso mesmo, o esquecimento.

BARREIRINHA

De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas,
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?

[in Boa Morte, edição de autor, 2008]

O livro que procura os seus leitores

Houve um tempo em que os livros esperavam, quietinhos e caladinhos, pelos seus leitores. Às vezes os leitores vinham e pegavam neles. Às vezes os leitores vinham e não pegavam neles. Às vezes os leitores nem sequer vinham.
Agora é diferente. Agora os livros, se quiserem, já podem escapar ao seu tradicional imobilismo. Querem um exemplo? Então espreitem aqui. O Japão É Um Lugar Estranho, de Peter Carey (Tinta da China), está a fazer pela vida no Twitter e não se limita a duas ou três mensagens anódinas, daquelas que se escrevem só para marcar presença. Como quem não quer a coisa, ele está a seguir mais de 1600 internautas (isto é, potenciais leitores) e já é seguido por quase 250. As actualizações, feitas na primeira pessoa (como se fosse o livro a escrevê-las), são constantes e os diálogos animados.
Um dos tweets põe tudo preto no branco:

«Desculpem a presunção mas sinto-me uma boa metáfora destes tempos difíceis: hoje, têm de ser os livros a ir à procura dos leitores.»

Porque escreve?

Enrique Vila-Matas responde à mais fatal das perguntas que esperam um escritor, a pergunta mil vezes repetida. E dá-lhe a volta em grande estilo.

Campo de batatas

«Há um ano, voltei a escrever contos, mas sem me dar conta de que, na realidade, continuava com os hábitos de romancista. Continuava a utilizar um tempo moroso, nada adequado para o relato. As frases alargavam-se sem pressas e concentravam-se opressivamente nos pormenores. Até que compreendi que assim não ia a lado nenhum. Tinha de estar mais consciente de que havia regressado ao conto e que era obrigado a um sentido de brevidade que o romance não pedia. Mas o maior conflito não tinha origem unicamente nesse lastro de maus hábitos adquiridos como romancista. A tensão mais forte era provocada pelo duro esforço de contar histórias de pessoas normais e ter, ao mesmo tempo, de reprimir a minha tendência para me divertir com textos metaliterários: o duro esforço, resumindo, de contar histórias da vida quotidiana com sangue e fígado, tal como me tinham exigido os que me odeiam, que me haviam censurado excessos metaliterários e “ausência absoluta de sangue, de vida, de realidade, de apego à existência normal das pessoas normais”.
Sem saber que os que me odeiam me censurariam também o contrário, quer dizer, que me recriminariam por qualquer coisa que fizesse, entreguei-me com a melhor das vontades aos contos com pessoas normais, de carne e osso, sangue e fígado. Não é que fosse algo antinatural para mim, mas logo a partir do primeiro momento senti-me pouco à vontade com as vísceras, o suor, o odor, as frases vulgares e as lágrimas dos meus personagens. Não conseguia esquecer-me até que ponto me identificava com Paul Valéry, quando assegurava que a sua mente não estava feita para os romances tradicionais, uma vez que as suas grandes cenas, as cóleras, as paixões, os momentos trágicos, longe de o exaltarem, chegavam-lhe como reflexos miseráveis, estados rudimentares onde toda a estupidez anda à solta, onde o ser se simplifica até ao disparate.
Recriminavam-me também, os que me odeiam, que tivesse mitificado tanto o literário. Não me permitiam que dissesse o que, por exemplo, deixam dizer perfeitamente a Francisco Ayala, talvez porque fez mais de cem anos, idade em que se perdoa tudo: “Eu digo que a literatura é o essencial, o básico. Tudo o que não seja literatura não existe. Porque onde está a realidade? Uma árvore é-o, porque a nomeamos. E ao nomeá-la estamos a suscitar a imagem inventada que tínhamos. Mas se não a nomearmos a árvore não existe.”
Suei em bica com as secreções e exsudações dos meus personagens, fiz um esforço incrível para mostrar “apego à existência normal das pessoas normais”. E ultimamente já me sinto bem adaptado à minha nova asquerosa vida. No fundo, contistas como Raymond Carver sempre me impressionaram, com todas as suas histórias de empregadas de motel e camionistas e outros seres anódinos, perdidos no cinzento de um dia-a-dia sufocante. Reconheço que é um dos génios do conto. Também gosto desses autores que, por exemplo, descrevem um campo de batatas com uma precisão magistral. Eu, porém, tive sempre muita dificuldade em fazê-lo. Se tinha de descrever um campo de batatas, fazia-o, mas tratava-se de batatas a germinar numa cave, por exemplo, e acabava por ter de corrigir-me a mim mesmo, batendo sadicamente na mão com que escrevia esses surrealismos.»

[in Exploradores do Abismo, de Enrique Vila-Matas, trad. de Jorge Fallorca, Teorema, 2008]

A maravilha da internet

A internet é maravilhosa porque por vezes consegue mitigar, através dos seus infinitos recursos e labirínticos meandros, os nossos sentimentos de culpa. O vila-mateano/perequiano que há em mim não perdoou ao sportinguista que há em mim a ida, ontem à noite, a Alvalade. Mas depois, de volta a casa, o vila-mateano/perequiano que há em mim, aproveitando a euforia justificada do sportinguista que há em mim, pôs-se à procura no Google. E encontrou, tchanã, o texto integral da conferência lida no CCB (belíssimo, vila-mateano e perequiano até à medula; como o sportinguista que há em mim logo admitiu, extasiado e ainda com aquele brilho nos olhos que não o abandonou desde o momento em que Pereirinha fez gato sapato da ala esquerda do Benfica).
Continuando a escavar no Google, já esta tarde, descobri este relato da sessão e percebi que Vila-Matas não se limitou a ler o texto, acrescentando-lhe muitas daquelas boutades típicas do Enrique («Chamo-me Eric Satie, como todo o mundo» e outras que tais). O vila-matiano/perequiano que há em mim entristece-se sobretudo com aquela referência à «sala surpreendentemente vazia», onde o tradutor Fallorca, de «camisola de lã cor de tijolo», não deixou de marcar presença (suponho que num intervalo da passagem de Dietario Voluble para português), embora ainda não tenha escrito nada sobre o assunto no blogue da Frenesi.
Entretanto, localizo igualmente o texto que abre com o piscar de olho a Satie (foi lido a 1 de Agosto de 2008, na Cátedra Anagrama da Universidade de Monterrey, México, tal como Café Perec). E assim de repente sinto que não perdi tudo, as palavras de Vila-Matas afinal acabam por chegar a mim pelos atalhos digitais, mas aquela «sala surpreendentemente vazia» continua a lembrar a minha ausência, o advérbio afiado como uma acusação.

Para dizer tudo numa frase

Eu estava mesmo atrás da baliza, quando Liedson fez isto:

Literatura vs. futebol

Eis um dilema tramado: de um lado, a conferência do Enrique Vila-Matas no CCB; do outro, o Sporting-Benfica em Alvalade. Em condições normais, nem hesitava. Escolhia a conferência e deixava o jogo para o resumo tardio na RTP. Mas estas não são condições normais. O jogo de logo à noite é uma oportunidade única para assistir a 90 minutos de futebol ao lado do João Paulo Cuenca, um escritor brasileiro (flamenguista do lado de lá do Atlântico; benfiquista deste, coitado) que anda a precisar de aprender umas coisas.
Enfim, seja como for, os bilhetes já estavam comprados há vários dias, por um cúmplice (também benfiquista, helás) do JL. Agora, o mínimo que exijo é uma goleada do Sporting: 4-0, com um hattrick do Liedson e um auto-golo do Carlos Martins. Caso contrário, passarei o jogo todo a culpar-me por ter perdido um dos meus escritores espanhóis preferidos a falar sob o signo de um dos meus escritores franceses preferidos.

Entrar para ver como vão as coisas

É uma coisa que não se faz na FNAC (na FNAC entra-se para comprar um determinado disco ou livro, e já está). Mas é uma coisa que tento fazer, com alguma regularidade, na Poesia Incompleta. Entro, espreito as novidades poéticas, fico à conversa, prometo levar na próxima vez os desenhos que a minha filha faz para o seu livreiro preferido.

O inferno dentro de quatro paredes

Pedra-de-Paciência
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Syngué sabour – Pierre de patience
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teorema
N.º de páginas: 113
ISBN: 978-972-695-784-3
Ano de publicação: 2008

Dedicado a Nadia Anjuman, uma «poetisa afegã selvaticamente assassinada pelo marido», Pedra-de-paciência (vencedor do Prémio Goncourt 2008) pode ser lido como uma narrativa de denúncia contra os maus tratos a que são submetidas as mulheres no mundo inteiro, sobretudo nas sociedades islâmicas mas não só. Rahimi situa o livro «algures no Afeganistão ou em outro lugar», justamente para lhe conferir um carácter universal.
No primeiro romance escrito em francês – os anteriores, igualmente publicados pela Teorema (Terra e Cinzas, 2001; As Mil Casas do Sonho e do Terror, 2004), foram traduzidos do persa –, Rahimi apura a sua prosa lírica, de frases curtas e cadenciadas, desta vez posta ao serviço de uma história que se enrola sobre si mesma, à espera de explodir, um terrível huis clos construído com precisão matemática, mas por vezes exasperante, tantas são as esperas, as alucinatórias repetições de gestos e o sufoco que a narrativa induz.
Num quarto pequeno, rectangular e quase vazio, um velho esquelético, combatente de uma qualquer guerra santa, está entre a vida e a morte, depois de lhe terem enfiado uma bala na nuca. Quem cuida dele é a sua mulher: lava-o, põe-lhe colírio nos olhos, muda-lhe as embalagens de soro (e, quando este acaba, enche-as de água açucarada), lê-lhe o Corão e invoca os muitos nomes de Alá. Trata também das duas filhas, incapazes de compreender o estado do pai, antes de as entregar a uma tia. À volta da casa ouvem-se bombardeamentos e rajadas de Kalashnikov, há um vento de destruição que entra pelas janelas, mas os rituais da devoção conjugal nunca são interrompidos.
Aos poucos, a mulher começa a partilhar com aquele corpo inerte as suas memórias, os seus segredos mais íntimos e os ressentimentos acumulados ao longo dos anos. O homem que a brutalizava, o marido que sempre preferiu a frente de batalha à vida familiar, está finalmente ali, ao seu alcance, sem poder de resposta. E ela aproveita para saldar todas as contas, uma a uma, num crescendo emocional que conduz à catarse, tão intensa que lhe chega a parecer um estado de loucura ou possessão demoníaca.
Na mitologia persa, chama-se syngué sabour a uma pedra mágica, a «pedra-de-paciência», diante da qual as pessoas confessam as suas infelicidades e sofrimentos, até ao dia em que ela se desfaz, levando consigo a tristeza acumulada. O marido catatónico é, claro está, o syngué sabour da sofrida protagonista da história. Mas quando por fim a pedra se parte, retirando o homem do limbo onde vegetava, o desenlace (no seu exagero operático) é tudo menos libertador.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]

Novidades Assírio & Alvim

A partir de 5 de Março: Poemas, de Herman Melville (tradução de Mário Avelar); Ruba’iyat, de Umar-i Khayyam (tradução do persa de Halima Naimova); O Amor Chegou com as Chuvas, de Mirabai (apresentação e versões de Jorge Sousa Braga); Obras Gráficas, de Hermenegildo Sábat.

Dois e-mails, um sonho (ou Dançar com António Lobo Antunes num terraço inclinado)

Ontem à noite, recebi do escritor brasileiro Alfredo Aquino o seguinte e-mail:

«Boa Noite.
Li a crônica do Lobo Antunes [no último número da revista Visão, sobre o suposto abandono da escrita, anunciado dia 16 em entrevista ao Diário de Notícias]… e não a entendi. Um sentimento de perplexidade frente ao texto revelado ou desejado.
Fiquei um pouco chocado com a afirmativa de que só escreverá para si e para destruir, no futuro.
Que o seu leitor ideal é um que não lê, o sem-teto de hábitos bizarros.
Estamos agora a descobrir a obra de Lobo Antunes no Brasil e procurando divulgá-la aos leitores, jornalistas, livrarias, bibliotecas e certames culturais. Com as dificuldades naturais dessa tarefa.
Daí ele produz essa abdicação e nos deixa a todos aqui um tanto desanimados e frustrados com a nossa própria palavra em favor do autor. É importante esclarecer que se trata de uma palavra espontânea sem vínculo a editoras, veículos editoriais, jornais ou qualquer atividade remunerada. Apenas a leitura e a admiração da boa literatura… o blog em sua essência.
Daí vem essa crônica e o homem desmancha de um golpe o que se está a construir com afinco e resta um sentimento de desalento, frustração e tristeza, como se tudo fosse um engano e um engodo, em que participávamos como paspalhos sem convites. Um equívoco amargo… será isso mesmo?»

Mais ou menos 40 minutos depois, respondi-lhe assim:

Caro Alfredo,
Há coisas muito estranhas.
Ainda agora estava a deitar os meus filhos e fiquei por lá, junto à Alice e à sua girafa de peluche, contando histórias. Como estou absolutamente exausto, depois de uma semana duríssima, com passagem intensa pelas Correntes d’Escritas (onde se fala muito, se bebe, se dança, mas se dorme quase nada) e um excesso de trabalho no regresso a Lisboa, adormeci. No escuro do quarto, só iluminado por um móbil de libelinhas luminosas (como pirilampos), adormeci e sonhei, um sonho muito estranho que me deixou um sabor acre na boca quando acordei, com a chamada de um amigo para o telemóvel (afinal de contas, ainda não eram onze da noite, uma hora razoável para quem me conhece). Levantei-me estremunhado, respondi como pude, arrumei a mesa do jantar e vim aqui ver os e-mails. Comecei lendo o seu e de repente lembrei-me do sonho.
Sabe com quem eu sonhei? Não vai acreditar. Sonhei com o Lobo Antunes. Ele vestia um casaco preto de cabedal, muito comprido, um chapéu de cowboy e estava bêbedo. Podia sentir o bafo à distância. E depois muito próximo, porque ele abraçou-se a mim, como se eu fosse um amigo de muitos anos (na realidade, nunca sequer estivemos juntos). A cena passava-se numa espécie de terraço, inclinado sobre Lisboa e o Tejo. Ao longe, uma música melancólica. E então ele pôs-se a dançar comigo. A sério. Eu oferecia resistência, «o que é isso, António?», mas ele, com voz arrastada, dizia «Eu gosto mesmo de si, do que escreve, do seu olhar sobre as coisas» (devia estar a referir-se aos livros que escreverei um dia; se é que algum dia escreverei algo que lhe agrade mesmo), e eu «António, vá lá, cuidado, o terraço é muito inclinado, não faça um diparate», e nisto ele rodopia, tropeça e quase cai dali abaixo, eu fico a segurá-lo por um pé, não está ninguém por perto, e é com muita dificuldade que consigo por fim puxá-lo cá para cima. Quando vou olhar para o rosto dele (o chapéu caído na escuridão, ou talvez no Tejo), toca o telemóvel e sou arrancado ao sonho, como se de repente alguém tivesse acendido todas as luzes de um teatro.
Agora que começo a ficar um pouco mais acordado e lúcido (mas não muito), apercebo-me que devia estar a sonhar isto tudo enquanto você escrevia o seu e-mail. O escritor que há em mim (o escritor que o Lobo Antunes do sonho julgava que eu era, não o escritor que realmente sou) talvez arriscasse uma explicação: a pergunta que o Alfredo se coloca («será que o Lobo Antunes vai abandonar mesmo a literatura?») teria a resposta no meu sonho (sim, ele está namorando o vazio, o abismo, mas quando decidir lançar-se nele, alguém, um dos seus leitores, simbolizado por mim naquele devaneio onírico, salvá-lo-á). Era a saída perfeita. Mas, infelizmente, temo que o sonho tenha sido apenas isso: um sonho. E a pergunta continua por responder.
Um grande abraço,
José Mário

To Kindle or not to Kindle

Já há algumas vozes a inclinar-se para o not.

[via Blogtailors]

Um poema de Amadeu Baptista

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios, ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos, não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio, se não foi isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.

[in Os selos da Lituânia, &Etc, 2009]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Consciência e o Romance, de David Lodge (ASA), por Paulo Nogueira
Os Segredos de Nova Iorque, de Corrado Augias (Cavalo de Ferro), por Luís M. Faria
Portugal na Espanha Árabe, de António Borges Coelho (Caminho), por Nair Alexandra
Os selos da Lituânia, de Amadeu Baptista (&Etc), por José Mário Silva
Grafites Rougets, de Alberto Velho Nogueira (Homem à Janela), por António Guerreiro
Se Isto é um Homem, de Primo Levi (Teorema), por Rogério Casanova
Um Homem Muito Procurado, de John Le Carré (Dom Quixote), por Vítor Quelhas
Slam – A Vida Como Ela é, de Nick Hornby (Teorema), por Ana Cristina Leonardo

Vem aí o tigre

O Tigre Branco, de Aravind Adiga, vencedor do Man Booker Prize 2008, de que falei aqui, aqui e aqui, vai para as livrarias a 3 de Março, com chancela da Presença. A capa é esta:

Pode uma capa bonita ser uma má capa? Pode. E esta é, porque não tem nada a ver com o romance de Adiga: um retrato brutal, violento e sujo, da Índia contemporânea; a história de um homem que se safa na vida com os seus dotes de predador. Para ser eficaz, a capa devia explorar ou a iconografia do mais raro dos tigres (de preferência estilizado), ou mostrar a realidade da miséria que se esconde atrás do “milagre económico” indiano (imagens de lixeiras, ruas imundas, bairros de lata). Mas uma capa dessas não seria tão comercial, tão vendável, não é?

E já agora fiquem-se com estes ‘tweets’ do Paulinho Assunção

«O PENSAMENTO POLÍTICO DE RUBEM FOCS:

1. Toda pessoa tem o direito de fazer curvas.
2. Toda pessoa tem o direito de plantar begônias dentro de um livro.
3. Toda pessoa tem o direito de escrever cartas para pessoas que não existem.
4. Toda pessoa tem o direito a janelas que dão para outras janelas que dão para outras janelas — infinitamente.
5. Toda pessoa tem o direito de andar de lado.
6. Toda pessoa tem o direito de dizer ah na hora de dizer oh.»

[O Paulinho Assunção é um escritor brasileiro (blogue aqui). Tanto ele como o Rui Bebiano escreveram estas coisas nos últimos dez minutos. Não sei, francamente, onde é que isto irá parar, mas a literatura mais convencional que se cuide.]

Poderá o Twitter transformar-se num género literário?

Não vejo porque não. Já circulam por aí algumas pérolas, quase sempre no cruzamento do aforismo com a micronarrativa. E depois há boutades geniais, meta-twitterescas. Como esta, do Rui Bebiano: «Com 200 followers (e não apenas 12) Jesus da Nazaré não se tinha tramado.»

Café Perec

Só o título já me deixa com água na boca: Café Perec. A sinopse aumenta ainda mais a expectativa: «uma observação do que acontece quando nada acontece e de como a arte se dá ao luxo de usar livremente a citação literária». O golpe final é dado pelo protagonista da coisa: «um encontro com Enrique Vila-Matas em torno da sintaxe da sua própria obra».
A conferência está marcada para a Sala de Leitura do CCB, dia 21, às 18h30, como prelúdio à estreia do espectáculo Sentido Portátil, encenado por Carla Bolito a partir de História Abreviada da Literatura Portátil.

Três poemas de Eucanaã Ferraz

OS IRMÃOS

Felicidade, era o que era.
Após uns poucos dias fora

de casa, retornar e correr
em direção ao ipê, abraçá-lo

como se abraça um amigo
alto e áspero, um avô.

E era como se ramos e flores
os reconhecessem, eu imagino,

e sabe-se lá o que pensavam
àquele instante os dois meninos,

ou se não pensavam nada
e sentissem apenas a pele rude

daquele carinho imóvel. Montanhas
moviam-se lentamente na luz,

lagartos iam e vinham rápidos
como raios. Era mais certo

que os dois meninos não pensavam
coisa alguma, embora àquela hora

fechassem os olhos como quem pensa.
Ou por isso mesmo não pensavam,

porque fechavam os olhos como quem
apenas descansa. Além disso,

eram crianças, e ainda mais inconscientes
quando abriam os olhos para o alto

e viam
a copa derramar-se convexa

em milhões de júbilos, vozerio
de lâminas, estrelas e dragões.

A árvore enlaçada, nem percebiam
que seus pés

esmagavam morangos selvagens
que se estendiam rasteiros, miúdos

em torno do imperador amarelo.
E gritavam, e riam, selvagens

eles também, selvagens o cheiro,
a sombra, a alegria,

o sol
muito azul de Friburgo.


VERDE-CLARO

Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.

Minúsculo,
só, nenhum exército.

Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.

Não sei que nome tem,
insigne inseto,

senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.


O ATOR

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.

[in Cinemateca, Quasi, 2009]

Epifanias sulistas

Os Ventos e outros contos
Autora: Eudora Welty
Tradução: Diana Almeida
Editora: Antígona
N.º de páginas: 234
ISBN: 978-972-608-200-2
Ano de publicação: 2008

Depois de Flannery O’Connor, cujos romances e contos vêm sendo publicados nos últimos anos pela editora Cavalo de Ferro (com um merecidíssimo reconhecimento da crítica), é tempo de saudar uma outra grande escritora norte-americana que, embora mais discreta, também fixou com extraordinária nitidez a paisagem física, humana, social e política dos estados do Sul – particularmente o Mississípi, onde nasceu e ficou toda a vida. Muito por culpa da singularidade da sua escrita – complexa e assumidamente feminina –, Eudora Welty (1909-2001) demorou a escapar ao estigma do regionalismo e à sombra de Faulkner, mas é hoje considerada, nos EUA, uma das escritoras mais importantes do século XX.
Até agora inédita em Portugal, Welty chega-nos pela mão de Diana Almeida, especialista da sua obra (sobre a qual escreveu uma tese de doutoramento) e tradutora desta antologia que procura «dar uma visão de conjunto da ficção curta» weltyana, dos seus primórdios (A Curtain of Green and Other Stories, 1941) até 1963, data de uma narrativa solta, publicada na revista New Yorker. De fora ficou apenas o ciclo de contos The Golden Apples (1949), «uma sequência de histórias interligadas» que Diana Almeida diz merecer «uma futura tradução no seu conjunto».
Fotógrafa experiente, Eudora Welty fez de cada texto um prodigioso trabalho de enquadramento visual e psicológico das suas personagens, muitas vezes surpreendidas em retratos de grupo – atente-se nas rodopiantes matronas de Lily Daw e as Três Senhoras; no bando de homens que passam um rio a pente fino, em A Rede Larga, à procura de um cadáver que lá não está; ou nos passageiros fechados numa mesma carruagem de comboio, em A Noiva do Innisfallen. Observados de perto, os textos não escondem uma matriz clássica (há mesmo arquétipos recorrentes, como o da viagem) mas apenas para avisar que essa matriz está ali para ser desconstruída. O exemplo mais flagrante será Circe, inversão de um célebre episódio da Odisseia, com
o ponto de vista transferido de Ulisses para a feiticeira que transformava homens em porcos, mas o efeito paródico está quase sempre presente, muitas vezes com recurso ao humor e ao sarcasmo, capaz de pôr a nu incongruências morais ou os equívocos que minam as relações entre as pessoas.
Neste processo de focagem e desfocagem, há ainda lugar para trechos de um lirismo esmagador, quando Welty suspende a acção e se entrega a epifanias despertadas por evocações da natureza em estado bruto, seja sob a forma de uma tempestade equinocial (catalisadora de uma passagem da infância à adolescência em Os Ventos), seja como projecção do mundo interior de dois solitários à deriva, nesse esboço de uma paixão impossível a sul do Sul que é Sem lugar para ti, meu Amor, o mais belo destes belíssimos contos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Cavalo de Ferro integrada na Fundação Agostinho Fernandes

Primeiro como zunzum, depois como certeza ainda não confirmada, esta foi uma das notícias que mais deu que falar nas Correntes d’Escritas. Ontem, em conferência de imprensa, as várias partes confirmaram o acordo que salva a Cavalo de Ferro de uma situação economicamente difícil, sem lhe retirar, a julgar pelas declarações, a sua independência editorial.

Novíssimos brasileiros

A ideia é estabelecer um encontro entre escritores jovens que costumam ter o Atlântico a separá-los. De um lado, os brasileiros Amilcar Bettega, Daniel Galera e João Paulo Cuenca (com livros a serem editados, por estes dias, na Caminho). Do outro, o angolano Ondjaki e os portugueses Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto.
O debate será mais logo, pelas 21h00, na Casa Fernando Pessoa, com moderação de Inês Pedrosa.

Como é que se vai para Campanhã?

Neste post, cometi uma pequena gaffe toponímico-gramatical, entretanto corrigida. Valeu-me a atenção de Helder Guegués.

‘Bestseller’ das Correntes apresentado hoje em Lisboa

A série Américas, da editora Quetzal, vai ser apresentada por Francisco José Viegas esta tarde (18h30) na Casa da América Latina (Av. 24 de Julho, 118-B, Lisboa), com a presença do colombiano Héctor Abad Faciolince (Somos o Esquecimento que Seremos), a uruguaia Andrea Blanqué (A Passageira) e o mexicano Álvaro Uribe (A Oficina do Tempo). Durante a décima edição das Correntes d’Escritas, que terminou sábado, o livro de Faciolince foi o mais vendido na Feira do Livro organizada pela papelaria Locus (Póvoa de Varzim), com o romance de Blanqué a ser o segundo mais vendido.

Mesa 7

Esta foi a minha mesa. Da esquerda para a direita: Antonio Orlando Rodriguez, Jorge Arrimar, Inês Pedrosa, Vergílio Alberto Vieira (moderador), Paula Izquierdo, eu e Rui Costa.
Eis a transcrição do texto que li:

Boa tarde. Dois escritores encontram-se num bar ao fim do dia, para o whisky do costume. Um deles olha para o outro e reconhece uma sintomatologia: olhos vermelhos, vincos na testa, ombros caídos, um esgar de angústia e exaustão. “O que é que se passa?”, pergunta. “Estás outras vez bloqueado?” O outro abana a cabeça e suspira: “Não, não. Por acaso o romance até está quase pronto, preciso só de limar os diálogos.” O amigo chega-se mais e murmura: “Não me digas que te vais separar outra vez?” O olheirento bate com os nós dos dedos no tampo do balcão, três vezes: “O diabo seja surdo, cego e mudo. Nada disso, pá, nada disso. Não agoires.” “Então o que é que se passa? Desabafa lá.” Embaraçado, o outro hesita, pigarreia, pede outro whisky e tamborila os dedos, antes de dizer, quase a medo, num fio de voz, “Enfim, sabes como é”. “Como é o quê?” Silêncio, barulho de gelo no copo. E o amigo bate com a mão na testa: “Espera lá, tu não me digas que…” “Sim, voltaram a convidar-me para uma das mesas das Correntes d’Escritas” “Xiii, coitado!” “Pois é, e agora ando às voltas com um daqueles temas malucos e eu faço a mínima ideia do que hei-de dizer.”
Esta cena é inventada, claro, mas os olhos vermelhos, os vincos na testa e os ombros caídos andam por aí, não sei se repararam. Há mesmo quem diga que a presença nestes debates é uma espécie de perverso ritual de passagem: a hospitalidade da Manuela Ribeiro, do Francisco Guedes e da imensa equipa que organiza este encontro único tem um preço. Os quatro dias na Póvoa, é preciso merecê-los. E isso passa por conseguir superar o desafio de temas sabiamente armadilhados, quase sempre reduzidos a frases ambíguas, a motes feitos de alçapões e paradoxos. Na edição do ano passado, lembro-me de ver nesta mesa o escritor guatemalteco Eduardo Halfon, explicando a sua perplexidade diante do assunto que lhe coube: ‘A Literatura Rasga a Realidade’. Confundido, ele escreveu imediatamente um e-mail à Manuela Ribeiro, pedindo mais explicações. Cito: “Perguntei-lhe se o tema era o cruzamento entre a literatura e a realidade, ou antes a irrupção da realidade na literatura, ou antes ainda a irrupção da literatura na realidade, ou o quê. E ela logo me respondeu: Isso mesmo.”
Não vale a pena dar a volta às coisas: as Correntes d’Escritas são assim. E se não fossem assim, não eram as Correntes d’Escritas. Pela minha parte, que passei da plateia para o palco (o que desde já agradeço), não me posso queixar. De entre tantos motes perigosos, coube-me um dos menos escorregadios: ‘Por onde me levam os livros?’ E a subtileza desta vez concentra-se toda naquele pronome, “me”, que liberta o orador do fardo da objectividade e do pensamento generalista. É de cada um de nós, enquanto leitores individuais, enquanto seres únicos diante do labirinto da bibliofilia, que se trata. E isso parece-me muitíssimo bem, porque, de todos os leitores do mundo, eu sou precisamente o leitor que conheço melhor (ou julgo conhecer, o que neste caso vai dar ao mesmo).
Por onde me levam os livros? Sinto-me tentado a dar a resposta mais óbvia: levam-me por todo o lado. A literatura é, foi e continuará a ser o mais completo dos passaportes. Aquele que nos permite viajar até aos confins do mundo sem sairmos do nosso quarto. Sim, um livro pode ser uma caravela, um TGV, uma nave espacial, uma máquina do tempo. Isto é, um meio de transporte, mas no sentido metafísico do termo. Quando o metemos no bolso, é uma multidão que metemos no bolso: dezenas de personagens, as suas vidas, as suas rotinas, os seus júbilos, a sua solidão. Quando o arrumamos na estante, arrumamos épocas inteiras, impérios, dinastias; ou então coisas pequenas, um cortejo de gestos, palavras por dizer, crepúsculos, amores perdidos. Um livro pode levar-nos à esquina de uma rua que não existe, mas é todas as ruas, ou ao fundo mais fundo do universo.
Posso dar exemplos. É sempre bom dar exemplos.
A Patagónia. Terra fria, na ponta mais remota da América do Sul, quase quase a chegar à Antártida. Eu nunca fui à Patagónia. Mas eu já fui à Patagónia com Bruce Chatwin. Deambulei com ele por aquelas terras desoladas, procurei com ele os vestígios de um brontossauro que afinal era uma preguiça-gigante, vi com os seus olhos o gelo e os albatrozes, aprendi com ele a soletrar a palavra Ushuaia.
Outro exemplo. Eu nunca estive na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, condado de Suffolk. Mas eu estive na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, no condado de Suffolk, ao acompanhar o escritor W. G. Sebald nas longas caminhadas sob um céu de nuvens que ele fez em Agosto de 1992 e relatou num livro magnífico e inclassificável: Os Anéis de Saturno. Agora que penso nelas, tenho a certeza que as paisagens descritas por Sebald, com as suas frases muito longas, muito precisas e muito elegantes, fios de uma longa rede de derivas e melancolias, reflexões filosóficas e apontamentos eruditos, evocação de tragédias colectivas e de reminiscências pessoais, tenho a certeza que essas paisagens são muito mais verdadeiras do que as paisagens que eu encontraria na costa Leste de Inglaterra, em East Anglia, no condado de Suffolk, se lá fosse um dia (e talvez nunca vá).
Os livros não nos levam, porém, apenas a lugares que existem. Também nos conduzem a lugares impossíveis. Jamais esquecerei o assombro com que descobri, cheio de pavor, maravilhamento e vertigens, a Biblioteca de Babel criada por Jorge Luis Borges, as suas galerias hexagonais, os vastos poços de ventilação e essa promessa fascinante (quer dizer, assustadora) de um espaço infinito em que existiriam todos os livros possíveis, incluindo os inúteis, os redundantes, os ilegíveis.
Outros lugares impossíveis a que cheguei através de um livro: as cidades invisíveis de Italo Calvino. Esses prodígios de arquitectura mental que erguem dentro da nossa cabeça o seu esplendor, a sua beleza e as suas ameaças. A maior parte das pessoas lamenta-se por ainda não conhecer cidades concretas: Sydney, Kyoto, Marraquexe, Nova Iorque, Praga, Banguecoque. Eu tenho pena de nunca ter pisado o chão de Maurília, Eudóxia, Moriana, Zemrude ou Aglaura, embora sinta que conheço, quase tão bem como conheço Lisboa, aquelas praças, aquelas muralhas, aquelas avenidas.
Por onde me levam os livros? Tenho falado dos livros dos outros. Mas também poderia falar dos meus, se não temesse a proximidade excessiva e a falta de perspectiva. Para onde me levam os meus livros? Acho que não sei. Ou então sei bem demais. No meu próximo livro, que se há-de publicar em breve, juntei numa das três partes que o compõem uma série de poemas que me empurram de encontro à criança e ao adolescente que fui, na década de 80 do século passado. Foi aí que o livro me levou: à memória do rapazinho que fui, com óculos e características que entretanto se perderam (embora, definitivamente, creio que só os óculos).
Um desses poemas refere no título uma casa baptizada com o nome da minha avó. Passo a ler:

vivenda lucinda

Junto à casa mais pequena havia uma
escada de cimento (no vão a minha avó
guardava bilhas de gás e trapos velhos).
Ao cimo da escada, olhando em frente, via-se
o pinheiro que os meus pais plantaram há muitos
anos, as canas agitadas pela brisa, o tanque [cheio
de algas e girinos, a rede de arame a esconder
coelhos assustados, o poço com uma perpétua
escuridão lá dentro. À direita ficava o telheiro
onde nos abrigávamos da chuva, durante as
longas festas de aniversário (a mesa: toalha
de linho, o bolo com poucas velas, pães
de leite às metades, desenhos geométricos
no arroz-doce). Havia ainda, mais distante,
a figueira – mas isso está noutro poema.

Esse outro poema foi publicado há mais de sete anos, em Setembro de 2001, no meu primeiro livro: Nuvens & Labirintos. O seu título é: a figueira.

a figueira

Dava uma sombra larga todo
o ano e frutos doces no verão.
Lembro-me que era baixa; as
raízes, muito grossas, pareciam
dedos; os ramos entrelaçados
simulavam a selva agreste, onde
sabia estarem o perigo e o mistério.
Lá em cima era o cesto da gávea, onde
resisti às tormentas, aos relâmpagos
e à astúcia sempre maligna dos piratas.
Lá em cima era o refúgio, eram as altas
muralhas defendidas meses a fio, espada
de madeira na mão, contra inumeráveis
alcateias que cercavam o castelo e talvez
o reino. A figueira secou há muito tempo;
já não subo aos seus ramos desde então.
Mas na sua sombra ainda escuto, em tardes
de calor e nostalgia, um estrépito de ondas
no convés e o uivo – longínquo, agudo,
terrível – dos antigos, imaginários lobos.

E se escolhi para terminar este esboço de hipertexto, é porque no fundo suspeito que os livros nos levam sempre, de uma maneira ou de outra, a outros livros, que nos levam por outra vez a outros livros, mesmo quando os links já se tornaram tão subtis, tão ténues ou ocultos, que já nem damos por eles.

Eis agora o que sobre o debate se escreveu numa das várias folhas com que a organização foi resumindo os principais momentos das Correntes d’Escritas:

«Seis envelopes numerados, distribuídos aleatoriamente. Foi esta a nova mecânica para o debate “Por onde me levam os livros”, introduzida pelo moderador Vergílio Alberto Vieira, e que causou alguma surpresa entre Antonio Orlando Rodriguez, Inês Pedrosa, Jorge Arrimar, José Mário Silva, Paula Izquierdo e Rui Costa, os participantes.
E porque o tema se relaciona também com viagem, Vergílio Alberto Vieira fez questão de atribuir a cada participante uma cidade e um escritor a ela relacionado. A Viena de Robert Musil, a Praga de Kafka, a Paris de Mário de Sá Carneiro, a Lisboa de Fernando Pessoa, a Sevilha de José Cabral de Melo Neto e a Alexandria de Durrel abriram, sobre forma de citação, cada uma das seis intervenções.
A Antonio Orlando Rodriguez calhou o envelope número um, destinando-o, assim, a inaugurar o debate. “Os livros podem levar-nos a lugares inesperados”, atirou o autor cubano, recordando que em sua casa não se lia. “Mas eu nasci leitor e a casa encheu-se de livros. A literatura ensinou-me que o mundo era maior que a minha rua, que o meu bairro, que a minha ilha. Ensinou-me que existiam outros mundos, reais e imaginários, que os livros permitiam conhecer.” E foi assim, através dos livros, que Antonio Orlando Rodriguez foi mil e uma personagens, “até os dois maridos de Dona Flor”, brincou. “Os livros levam-nos pelo passado, pelo hoje, pelo futuro. Levam-nos ao encontro de nós mesmos. O romance, a poesia tocam-nos e permitem vermo-nos nas palavras que escrevem outros”, afirmou, fazendo mesmo uma comparação entre livro e espelho, que reflecte sobre aquilo que lemos em nós. Viajar fisicamente é possível, pode-se ir a centenas de lugares diferentes mas “onde estaria eu senão dentro de mim mesmo?”, perguntou.
“Não me interessam para onde me levam os livros no sentido de sítio.” A afirmação é de Rui Costa, que considera que os livros o levam “onde a viagem me faz perder o preconceito, tento sempre aprender mais”, afiançou, num exercício que o leva a ler autores com os quais não sente afinidade. Comunidade, de Luiz Pacheco, Pedro Mexia, sobre o qual Rui Costa diz ser contrário a certas opiniões “mas que não consigo deixar de ler pelo cinismo, pela ironia, pela angústia”, e Daniel Faria, poeta que apesar de noviço no Mosteiro de Singeverga tinha uma poesia “onde há muito físico, muito corpo”, são alguns exemplos. Se ler é viajar, escrever “é uma atitude política, no sentido de que todos os animais são políticos, pois precisam de beber, de comer, de sexo, de arte.” Ficar do lado de fora é esforço que Rui Machado considera infrutífero pois “ficar de fora é sempre a parte de dentro de outro lugar”.
Paris, a cidade que Mário de Sá Carneiro escolheu para morrer é a cidade onde nasceu José Mário Silva, “mesmo não querendo”. A participar pela primeira vez no Correntes d’Escritas, o jornalista freelancer e escritor considera estes temas de debate apontados pela organização “sabiamente armadilhados”. E a armadilha de ‘Por onde me levam os livros’ está, na sua opinião, “subtilmente concentrada no pronome ‘me'” que leva de encontro à individualidade. “Um livro leva-me para todo o lado. É o mais completo dos passaportes. Um livro pode ser uma caravela, um TGV, uma nave espacial, um meio de transporte no sentido metafísico”. Na sua abordagem, considerou também que o livro é uma forma de conhecer novos locais “não só os que existem como os que não existem (…) Se há pessoas que lamentam não conhecer lugares reais, eu lamento não conhecer lugares que não existem.” Sobre os seus próprios livros, José Mário Silva diz que não sabe onde eles o levam, “ou sei bem demais”, referindo, como exemplo, o livro que se encontra a preparar e que o vai levar “às memórias do rapazinho que fui”.
Num sorteio com felizes coincidências, a Lisboa de Fernando Pessoa foi parar às mãos de Inês Pedrosa, Directora da Casa Fernando Pessoa. Evocando uma canção de Caetano Veloso, que diz que odiamos tanto os livros que escrevemos um, Inês Pedrosa criticou alguns livros que não considera livro-literatura. É o caso daqueles “que dizem que entretêm mas que a mim me aborrecem ou os de auto-ajuda que acho ditadores”. Considera um livro-literatura “aquele que inquieta alguém”. E indo ao encontro de José Mário Silva, que também viaja através dos livros, Inês Pedrosa, que os considera “a minha pátria, a minha febre, a minha cura”, vê no livro “um escape”, referindo o desassossego das pessoas “que pensam que por mudar de ares mudam de cabeça”. Através dos livros, Inês Pedrosa já viajou até Buenos Aires, Praga e S. Petersburgo. “Os livros que li e leio levam-me a escrever livros. Não sei como se vive sem o calmante das palavras.” Aprender através do livro foi outros dos pontos que Inês Pedrosa assinalou. “Conheci o mundo através da ficção e conheci o coração através da poesia e da filosofia.”
Paula Izquierdo foi a participante que se seguiu. E foi por entre muitas gargalhadas que a psicóloga e escritora acabou por confessar que interpretou mal o tema. Por isso, em vez de ‘Por onde me levam os livros’, a plateia foi brindada com uma intervenção sobre ‘O que vai ser dos livros’. “Calha bem, porque estamos em crise”, gracejou, mas mesmo assim fez referência a um dos pontos já debatidos em apresentações anteriores: o livro como viagem. “Ler um livro é o mais barato que se pode fazer sem sair de casa. Pode levar-nos a lugares longínquos (…) e permite-nos viver todo um leque de emoções sem sair do sofá.” Afirmando não se preocupar tanto com a vida dos livros como se preocupa com a vida dos escritores, dos poetas, dos contadores de histórias, apresentou uma solução bem humorada para rebater a crise do meio literário: “os que visitam as livrarias podiam começar a pagar a entrada.” Afiançou mesmo que, enquanto escritora, o que importa é que sobreviva, que seja lida. O pouco tempo de vida dos livros contribui também para esta crise, pois “ao fim de 40 dias ou menos o livro sai das prateleiras e é reencaminhado para uma trituradora de papel para que dali se imprimam novos livros”.
O bom humor manteve-se com Jorge Arrimar, escritor angolano. “Se eu vos falar de livros que já li, estou a falar-vos de livros que já leram. Por isso vou falar de livros que de certeza vocês nunca leram ou ouviram falar, que são os meus.” E de facto a escrita de Jorge Arrimar está intimamente ligada aos locais onde viveu. É o caso de Ovatyilongo, livro editado em 1975, escrito em Angola “numa altura em que não era fácil escrever” e que o levou a conhecer melhor o seu povo, as pessoas que o rodeavam. Mudando-se para os Açores, deparou-se com o problema de viver sem reparar no que o rodeava. Só quando se apercebeu da realidade que o cercava, é que começou a escrever. “Eu sou muito distraído e se não escrevo passo pelas coisas e esqueço-me delas.” Já em Macau escreveu A Fonte do Lilau e Secretos Sinais, produtos dessa mesma abertura à cidade. Mas houve um livro que o levou até Angola, antes mesmo de ele lá voltar. Planalto dos Pássaros, escrito nos Açores, “foi o romance que me fez regressar de uma forma tranquila à minha terra-natal”.
Como conclusão desta sétima mesa de debate pode dizer-se que a vários locais levam os livros. E esta viagem pode ser feita pelo leitor, que viaja por entre as paisagens e locais descritos, como pelo autor, que viaja dentro de si mesmo. O que realmente importa é que estejamos abertos a essa viagem, pelo tempo ou pelo espaço, por mundos reais ou imaginários.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges