O que é que a Póvoa de Varzim tem? (Ninguém sabe, mas toda a gente fica de boca aberta)
Venham de onde vierem, os escritores convidados pelas Correntes d’Escritas espantam-se sempre com as centenas de espectadores que enchem ao longo dos quatro dias o auditório municipal, seja nas sessões da manhã (10h30), seja na única sessão nocturna (começou ontem às 22h00, terminou depois da meia-noite e deixou à cunha até o primeiro balcão).
O dilema
É simples. Ou estás nas Correntes, ou comentas as Correntes. Ou falas com as pessoas que aqui estão, ou tuítas (isto é, comunicas com o mundo através do Twitter). Ou participas em mesas e vais às escolas, ou blogas. Acumular as duas coisas não é fácil. No meu caso, sem telemóvel de última geração, sem placa wireless e com os pouquíssimos minutos de acesso à internet reservados para a consulta de e-mails, preferi este ano ficar quase offline. De regresso a Lisboa, talvez escreva os posts que fui esboçando em papel. Por agora, desfruto apenas do que por aqui se vai passando. E sem problemas de consciência, sabendo que a cobertura exaustiva está a ser feita aqui, aqui, aqui e aqui.
Primeiras impressões
A família alargou-se. Na Póvoa reconheço rostos, mas a multidão aumenta, os encontros multiplicam-se, o auditório fica ainda mais cheio. Um habitué das Correntes comenta: “Isto está muito bom, mas no limite. Nem sei como é que se mantém o espírito da coisa, com tanta gente. É um milagre. É porque isto é mesmo especial. Agora, só espero que o encontro não cresça mais ainda. Porque se crescer mais ainda, perde-se, fica igual aos outros encontros todos.”
Tem razão. E acho que a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes (este quase sem voz, “por causa do ar condicionado”) também sabem que ele tem razão.
Haikus do Alfa Pendular
Sobre a colina
espreita o Sol,
olho ofuscante.
***
Três reflexos no rio.
Para que eles existam,
os patos batem as asas.
***
Campos azulados.
A neblina pairando
é a sua coroa.
***
Paralelos aos carris,
os fios eléctricos.
Atrás deles, um falcão.
***
Entre os ramos
do salgueiro, imóveis,
floresce a manhã.
A caminho das Correntes
Esta madrugada (07h00), parto de Santa Apolónia para Campanhã. Depois, de Campanhã à Póvoa de Varzim é um pulo e talvez ainda chegue a tempo da primeira sessão do dia (10h30). Para mim, as Correntes d’Escritas começam hoje.
O fogo
Fotografia de Mick Tsikas/Reuters
Centenas de mortos, cidades riscadas do mapa, filas de automóveis carbonizados com pessoas lá dentro: os piores incêndios da história da Austrália deixaram um cenário de devastação de uma violência inimaginável. Ao ver as imagens nos telejornais e os relatos dos sobreviventes, lembrei-me logo de três magníficas e terríveis páginas do romance A Fraction of the Whole, um dos finalistas do Man Booker Prize, escrito precisamente por um autor australiano (Steve Toltz):
«Then I saw it.
The sky.
Fat cones of dense smoke spiralled into thin trails. Layers of hazy orange overlapping grey fingers stretching out from the horizon.
Then I felt it. The heat. I winced. The land was on fire!
A bushfire!
A big one!
Standing on the hill, I saw another in a quick series of searing images that I knew at once would never leave my mind. I saw the fire split. One half raced toward my parents’ house, the other to the prison.
I don’t know what possessed me as I watched that fire encircle my town – but I became convinced that it was within my power to rescue at least part of my family.
(…) The bushfire season had started early that year. Soaring temperatures and strong winds saw to it that small fires had sprung up along the periphery of northwestern New South Wales throughout the summer. It takes only one sudden gust of searing wind to fan the isolated fires, pushing them rapidly into raging uncontrollable infernos. That’s how it always happens.
(…) Smoke crept over the town in a opaque cloud. I ran toward my parents’ house, passing fallen trees, poles, and power lines. Flames crept along both sides of the road. Smoke licked my face. Visibility was zero. I didn’t slow down.
(…) ‘The wind!’ someone screamed. They froze. They were all waiting to see which direction the fire would run next. A flame whirling up behind them, standing tall, was ready to pounce. I felt like a man about to be guillotined hoping that his head could be stuck back on later. A hot breeze touched my face.
Before I could scream, the flames leapt on top of me. In a split second my head was on fire. And then, just as quickly, the wind changed direction and the flames leapt away toward the group of people. This time it kept going.
Tough the fire was gone, my eyes and my lungs were filled with smoke and my hair was in flames. I wailed at the pain of it. I tore the clothes off my body, threw myself on the ground, and rubbed my head in the dirt. It took a few seconds to extinguish myself, and by then the fire had devoured an ear and scorched my lips. Through puffed-up eyelids I could see the flaming hurricane sweep over the group of people, my parents included, and devour them. Naked and burned, I dragged myself to my knees and screamed in a helpless, frenzied rage.»
Abertura das Correntes d’Escritas (em tempo real)
O Hélder Beja, jornalista e blogger (do Húmus/Rascunho), está agora mesmo a relatar no Twitter a cerimónia de abertura das Correntes d’Escritas, com a presença do Ministro da Cultura (José António Pinto Ribeiro), numa sala cheia e com a Alice Vieira «sentada bem aqui ao lado».
Um poema de Gastão Cruz
RELATÓRIO EM FORMA FECHADA
Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera
desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água
de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas
da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam
[in A Moeda do Tempo, de Gastão Cruz, Assírio & Alvim, 2006]
Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa para Gastão Cruz

O livro A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim, 2006), de Gastão Cruz, é o vencedor por unanimidade do Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa 2009, este ano dedicado à poesia e com o valor de 20 mil euros. Do júri fizeram parte Ana Luísa Amaral, Casimiro de Brito, Fernando Guimarães, Jorge de Sousa Braga e Patrícia Reis. A lista dos outros 11 finalistas pode ser consultada aqui.
Inéditos de Cortázar também em português
A notícia foi divulgada há alguns dias: «A editora Alfaguara vai publicar em Maio um volume de quase 500 páginas com um grande número de textos inéditos do escritor argentino Julio Cortázar, preparados para edição por Aurora Bernárdez, primeira mulher do autor, e por Carles Álvarez, especialista na sua obra.»
Em conversa informal com Diogo Madredeus (editor da Cavalo de Ferro, responsável pela primeira versão portuguesa de Rayuela, lançada em 2008), encontrei resposta para a pergunta que todos os cortázarianos se devem ter colocado: «E nós? Também vamos ter por cá esses promissores Papeles Inesperados?» Pelos vistos, sim. Sem avançar datas, Diogo garantiu-me que a Cavalo de Ferro vai fazer tudo para editar o livro o mais rapidamente que lhe for possível.
Até que o vento amaine

Estende a mão ao milagre
Autora: Hilde Domin
Título original: Dem Wunder die Hand hinhalten
Tradução: Maria José Peixoto Lieberwirth
Editora: Cosmorama
N.º de páginas: 90
ISBN: 978-989-8029-04-8
Ano de publicação: 2008
Em 1999, Agustina Bessa-Luís escreveu um texto intitulado Dominga, sobre um inverno passado em Heidelberg, na casa de uma escritora nonagenária, «que estivera a maior parte da vida no exílio» (República Dominicana) e se mantinha «extremamente lúcida», com os seus «olhos azuis de uma beleza ofuscante».
Essa mulher extraordinária e ingrata, fora do tempo, imersa na memória da devoção por Saint-Exupéry, era Hilde Domin (1909-2006) – uma singularíssima poeta alemã que o crítico Marcel Reich-Ranicki colocou fora das duas grandes correntes da poesia germânica: a «solene, sacerdotal, sacra» (de Hölderlin a Paul Celan) e a «profana e racional» (de Schiller a Brecht).
Nesta antologia, organizada e traduzida por Maria José Peixoto Lieberwirth, embora nalguns dos versos transpareça aquilo que se tornou a imagem de marca de Domin – uma escrita de protesto, de «revolta e rebelião» contra a indiferença e o conformismo; poesia de raiz judaica mas «fora de toda a regra» –, o que sobressai é o ímpeto lírico que modula a sua voz:
Tem de se conter a respiração
até que o vento amaine
e o ar desconhecido nos comece a envolver,
até que o jogo de luz e sombra,
de verde e azul,
nos mostre as estruturas antigas
e estamos em casa,
seja onde for.
Em 2006, Agustina escreve novamente sobre Domin, a propósito da sua «morte elegante»: colapso no meio da rua, depois de adquirir um par de luvas (esse «trabalho poético»). A escritora portuguesa gaba-lhe quer a «imensa força e lucidez» quer o facto de reservar, para ela própria, «um dedo de paixão, como um dedo de bebida espirituosa». E é difícil não concordar com Agustina quando deparamos com estrofes como esta:
Eu não forcei ninguém para a luz
só palavras
palavras não voltam a cabeça
elas levantam-se
imediatamente
e vão-se.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
‘The Jewel of Medina’ publicado em Espanha
O polémico romance de Sherry Jones sobre uma das mulheres de Maomé, que a Random House retirou do seu plano editorial e a Porto Editora se recusou a publicar, chegará em breve às livrarias espanholas, com chancela da Ediciones B.
[via blogue da Ler]
O twitter do Rogério Casanova
Ao contrário deste falso Mexia, este Casanova é mesmo verdadeiro (podem confiar). Tal como este José Mário Silva, by the way.
Novidades da Dom Quixote (para Março)
Das apostas da Dom Quixote para o próximo mês, destacam-se desde já dois livros: O Segredo de Leonardo Volpi, primeiro romance do poeta Fernando Pinto do Amaral, e A Vingança de Marcolina ou O Último Duelo de Casanova, de José Sasportes, auto-denominado «romance de capa e espada» que tem como protagonista uma personagem de Arthur Schnitzler. Haverá mais cinco títulos de ficção: Eu Sou a Charlotte Simmons, de Tom Wolfe; O Sétimo Véu, de Juan Manuel de Prada; outra reedição de Dom Casmurro, de Machado de Assis (poucos meses após a da Relógio d’Água); e dois policiais de Robert Wilson anteriormente publicados pela Gradiva (A Companhia de Estranhos e Último Acto em Lisboa). Quanto à não-ficção, teremos A Filha do Destino, autobiografia de Benazir Bhutto, reescrita pouco antes do assassinato da antiga primeira-ministra do Paquistão.
Um nome bom de se pronunciar
«Na mochila, Celina levava seu diário e o diário de Bashô. Um pouco de dinheiro para as passagens e para a comida. Foi de ônibus até sua estação habitual, Katsura. Dali era preciso pegar o trem até a estação Arashiyama. E caminhar a pé até seu destino final.
Era curioso passar tantos dias sem falar praticamente nada. Sem trocar palavras com o resto do mundo, além de fugazes pedidos em balcões, de cumprimentos desajeitados e breves, de agradecimentos lacônicos. Sua voz parecia um casulo de borboletas dentro da garganta, operando alguma espécie de transformação interna. Sua voz parecia se equilibrar com fragilidade sobre aquela categoria delicada – o mínimo indispensável.
O mínimo indispensável. O latido suave de um coração feito de palavras estranhas, estrangeiras, difíceis de decorar.
E aquele nome, que também estava no campo semântico do coração: Rakushisha. Um nome morno e um tanto rascante.
Rakushisha. Um nome bom de se pronunciar.
Rakushisha. Dava para sentir os grãos das consoantes na língua.»
[in Rakushisha, de Adriana Lisboa, Quetzal, 2009]
Adriana Lisboa na Casa Fernando Pessoa
A escritora brasileira Adriana Lisboa, vencedora do Prémio José Saramago em 2003 (com Sinfonia em Branco, Temas e Debates), lança esta tarde o seu romance Rakushisha, editado pela Quetzal, na Casa Fernando Pessoa. A apresentação será feita por José Eduardo Agualusa, a partir das 18h30.
[Fotografia de A. Sequeira]
Uma “história curta (e exemplar)”
Praticante ocasional da micronarrativa, Fernando Venâncio enviou-nos esta miniatura:
Susto
A bebé era linda de morrer. E tão inocente, tão pura! Os pais chamaram-na Flora. Havia lá nome mais merecido?
Quando, semanas depois, a Flora da novela se revelou a vilã, os pais correram, transtornados, ao registo.
Fastidiosas burocracias se seguiram, e algum doce suborno. Mas hoje, num alívio, olham embevecidos, no berço, os bracinhos roliços da Donatela.
Fernando Venâncio
A escrita depois da escrita

Mais espesso que a água
Autor: Luís Quintais
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 126
ISBN: 978-972-795-269-4
Ano de publicação: 2008
De A Imprecisa Melancolia (1995) a Canto Onde (2006), Luís Quintais publicou sete livros que o impuseram como um dos nomes mais interessantes da chamada novíssima poesia portuguesa. Mais espesso que a água, o oitavo opus, confirma esse estatuto e a singularidade da sua escrita analítica, densa e filosófica (uma poética do pensamento), sempre apoiada numa linguagem de um rigor quase ascético.
Veja-se o poema Psicogeografia:
Como nos salvámos, ainda que só por instantes?
Recusando mapas, designando ocasos,
espreitando
a intransparência do vidro das casas
após a entropia que devora famílias.
Salvámo-nos por inquietação móvel,
por solidão contrafeita
e vigilante.
O tom é predominantemente pessimista, sobretudo quando o sujeito poético deambula por paisagens que remetem para o universo do escritor JG Ballard: piscinas vazias, subterrâneos de cimento, courts de ténis abandonados e a «ameaça do liso metal».
Os poemas são minuciosas construções vocabulares que embatem contra a estranheza das coisas, que testam a resistência dos materiais e questionam a possibilidade de um sentido, de algo que supere «a plena paixão do ilegível», num tempo em que «todas as línguas do mundo se sujaram» e ficámos «condenados à gaguez triunfal / pela qual procuramos ainda dizer / o que nos foi recusado».
Embora não deixe de invocar o «agon», a «aflição semântica» ou «a tóxica pele que envolve os símbolos», este livro de Quintais também é capaz de descer à terra, com subtis e comovidas memórias familiares, abordagens musicais (do jazz à «destruída presença» do piano de Glenn Gould), pequenas epifanias, diálogos com outros autores (Fernando Assis Pacheco, Philip Larkin, Ingmar Bergman, T. S. Eliot, Fiama Hasse Pais Brandão, Cesare Pavese, Thom Gunn) ou a sabedoria animal de um cão chamado Borges. O resto são vestígios, pontos de fuga, tropeços nas «movediças leis» que nos governam. E a consciência exacta de que «toda a escrita começa depois / da escrita».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
– Evolução: História e Argumentos, vários autores (Esfera do Caos) e A Origem das Espécies de Charles Darwin, de Janet Browne (Gradiva), por Virgílio Azevedo
– A Física do Impossível, de Michio Kaku (Bizâncio), por Luís M. Faria
– A Monstruosidade de Cristo, de Slavoj Zizek (Relógio d’Água), por António Guerreiro
– Estende a mão ao milagre, de Hilde Domin (Cosmorama), por José Mário Silva
– A Festa de Anos, de Panos Karnezis (Bizâncio), por Ana Cristina Leonardo
– Crimes Exemplares, de Max Aub (Antígona), por Vítor Quelhas
– Filhos de Estaline, de Owen Matthews (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Kinderszenen Op. 15
Esta maravilhosa música de Schumann é para o meu primeiro sobrinho, David, nascido ontem em Paris, sem sobressaltos e sem romper as águas – o que na tradição das parteiras francesas é sinal de bom augúrio. «C’est un bébé chanceux», dizem elas. E eu digo que sortudos somos nós, por o recebermos neste mundo e ele ser tão perfeitinho, e bonito, e saudável.
Lembrete
Daqui a nada, a partir das 18h30, farei com Diana Almeida a apresentação do livro Os Ventos e outros contos, de Eudora Welty (Antígona), na FNAC do Chiado.
O mundo exterior resiste a tudo
«Mantiveram-se todos no banco de areia, contrariados, segurando a rede. A leste no céu, viram os castelos familiares, as conhecidas torres redondas, cinzentas, cor-de-rosa e azuis, tornarem-se mais escuras e encherem-se de trovões. Os raios tremeluziam ao sol, delineando as suas paredes espessas. Porém, a oeste, o Sol brilhava com tamanha violência que, numa iluminação como um clarão de relâmpago prolongado, o céu apareceu a preto e branco; toda a cor deixara o mundo, as tonalidades douradas que antes cobriam tudo eram apenas uma memória, e apenas o calor se abatia sobre as suas cabeças, numa espécie de sedução opressiva. As pesadas árvores espessas no outro lado do rio foram pincelada por longas linhas de prata, e um vento aflorou a fronte de cada homem. Em simultâneo, ouviu-se ribombar a trovoada, primeiro atrás deles, depois subindo e descendo as montanhas e os vales do ar, passando-lhes sobre a cabeça e deixando-os imóveis, à escuta. Com um barulhinho próximo, uma cotovia seguiu-a, as pequenas barras brancas da plumagem dardejando sobre os salgueiros.
– Vem aí a tempestade agora – anunciou Virgil. – Vamos ter de ficar aqui até acabar.
Recolheram-se um pouco, e começaram a cair gotas fortes nas folhas envernizadas, sobre os seus ombros e à volta das suas cabeças.
– A magnólia é a árvore mais barulhenta numa tempestade – declarou Doc.
Então, a luz mudou a água, até que as árvores em redor pareceram ficar mais altas, no vento que se levantava, e soprar para dentro juntas, tornando-se de súbito negras. A chuva batia pesadamente. Uma cauda gigantesca pareceu fustigar os ares, e o rio quebrou-se numa ferida de prata. Em silêncio, o grupo agachou-se e curvou-se junto ao tronco de uma árvore enorme que, na investida da tempestade, se erguia cheia de uma fragrância e de um peso firmes. No sítio para onde todos olhavam, além daquela árvore, encontrava-se outra árvore, e, depois dessa, outra e outra, ao longo da margem do rio, todas sobranceiras e escurecidas pela tempestade.
– O mundo exterior resiste a tudo – comentou Doc. – Resiste a tudo.»
[in Os Ventos e outros contos, de Eudora Welty, trad. de Diana Almeida, Antígona, 2008]
Concerto para Remington e orquestra
Em tempos, era esta a música que se ouvia nas redacções dos jornais (descontando as cordas).
[via blogue da Pó dos Livros]
Nova morada para o Sushi Leblon
O blogue da «diáspora blasé», escrito por Mónica Marques, a portuguesa mais carioca do Rio e autora do romance Transa Atlântica (acabadinho de sair na Quetzal), agora fica aqui, com rabiscos do Vieira no cabeçalho e tudo.
Instituto Cervantes de Lisboa evoca Juan Gelman
A exposição biobibliográfica sobre o poeta argentino, Prémio Cervantes 2007, intitulada El emperrado Corazón Amora, foi inaugurada ontem.
Tiago Guillul superstar
Era uma vez um blogger que se tornou o Bob Dylan português (ou para lá caminha). Um homem que anda sempre com a Bíblia atrás e fala dela como poucos.
A propósito do post anterior
Não é a primeira vez que o Pedro Mexia se embrulha em «tautologias identitárias». Num post do desaparecido blogue Dicionário do Diabo, posto a salvo no volume Fora do Mundo (Cotovia, 2004), a questão já emergia em toda a sua complexidade:
TODOS OS NOMES
Furto-me a uma determinada comparência, alegando que outras pessoas representam bem melhor o tema em causa. Então dizem-me: “mas o Pedro Mexia é o Pedro Mexia”. Talvez inspirado pela leitura recente de uma antologia de E. M. de Melo e Castro, abro quatro hipóteses no que a esta frase diz respeito:
1) o Pedro Mexia é o Pedro Mexia
2) o Pedro Mexia é o “Pedro Mexia”
3) o “Pedro Mexia” é o Pedro Mexia
4) o “Pedro Mexia” é o “Pedro Mexia”
Vamos à análise:
1) o Pedro Mexia é o Pedro Mexia – uma tautologia identitária. Sou, sou eu, embora com uns auto-desentendimentos à Sá de Miranda. Neste sentido, a frase significa que eu, sendo eu, tenho que me portar como eu; acontece que Pedro Mexia só existe dada a existência de “Pedro Mexia”, o que me leva a descartar esta possibilidade.
2) o Pedro Mexia é o “Pedro Mexia” – o efeito da assinatura. Não é preciso ler Derrida para reconhecer razão a esta frase. Eu, Pedro Mexia, existo porque há um “Pedro Mexia” que poeta, critica e bloga. Sem o “Pedro Mexia” eu, Pedro Mexia, não teria qualquer relevância, ao ponto de não ser convidado para a tal comparência. Assim, o “Pedro Mexia” pode manietar à vontade o Pedro Mexia, uma vez que não existiria sem ele. Este sentido da frase confere, e assusta-me.
3) o “Pedro Mexia” é o Pedro Mexia – a tese da transparência. Como dissertarei em seguida, o “Pedro Mexia” não é o Pedro Mexia, porque o primeiro tem cuidado com a sintaxe e as aliterações, e o segundo é capaz de comer tremoços e ver televisão. Podem detestar o “Pedro Mexia”, mas esse ao menos tenta fazer as coisas bem feitinhas, ao passo que o Pedro Mexia é apenas um triste palerma. Hipótese errada, portanto.
4) o “Pedro Mexia” é o “Pedro Mexia” – a tautologia da assinatura. É uma coisa borgesiana: estou preso dentro do meu nome (do meu nome literário e profissional), não tenho existência civil, sou um títere do intelecto e da linguagem. Uma tese horripilante.
Limitei-me pois a responder: “Não sou nada”.
Being Pedro Mexia
Há alguém que se apresenta como Pedro Mexia no Twitter, mas o verdadeiro Pedro Mexia já me disse que aquele é um falso Pedro Mexia. Parece evidente que não basta ouvir The Smiths (e o verdadeiro Pedro Mexia nunca se esqueceria do The) para se ser Pedro Mexia.
Metal sem melancolia
A novíssima loja das Quasi, que parece saída de uma das naves de Kubrick (em 2001, Odisseia no Espaço), já tem blogue: este.
O dilema da cabra hitchcockiana
Será que os livros são sempre melhores do que as adaptações cinematográficas que deles se fazem? Um cineasta, um argumentista e o director interino da Cinemateca Portuguesa respondem.
E se a Biblioteca de Babel inspirasse uma versão de Dungeons & Dragons?
Seria qualquer coisa como uma megadungeon, vocábulo que Jorge Luis Borges certamente desconhecia e que eu também não sei lá muito bem o que significa.
Discussão do tema, aqui.
Seis milhões de corações partidos
«Não foi fácil consertar seis milhões de corações partidos ao mesmo tempo, mas eu consegui-o.
Esta é a primeira linha do livro que um dia vou escrever. Será o melhor livro de sempre: baseado na história da minha vida, mais sagaz do que todos os tablóides e mais sexy do que a Bíblia. Terá a aprovação da Oprah.
Este mesmo quarto será vedado por cordas de veludo, e as manchas da alcatifa tornar-se-ão artigos de coleccionador vendidos no eBay. E quando aqueles que provêm de onde as listas telefónicas são mais grossas virem as minhas humildes origens, todos pensarão o mesmo:
“Como é possível que, enquanto telemóveis tocavam temas de musicais, enquanto distúrbios de ansiedade se tornavam transmissíveis pelo ar, e o mundo ficava tão pesado que a gravidade se tornou redundante, existisse um rapaz subnutrido a disparar pensamentos tão valiosos e capazes de mudar o mundo, que mais tarde se tornariam hinos, a escrevinhar uma revolução por minuto em cadernos de espiral sobre uma cama infestada de larvas num quarto bafiento de uma casa grotesca numa rua analfabeta numa cidade incestuosa num estado tão, tão triste?»
Faço a mesma pergunta a mim mesmo com a resposta a pairar atrás de mim, tresandando a álcool e marijuana.»
[in Perdidos na América, de Joey Goebel, trad. de Luís Rodrigues dos Santos, ASA, 2009]
Lançamento de ‘Os Ventos e outros contos’
No centenário do nascimento de Eudora Welty (1909-2001), a Antígona publica uma antologia de oito contos representativos dos vários registos ficcionais desta mulher admirável, vencedora de um Pulitzer (1973) e excelente fotógrafa. Os Ventos e outros contos será apresentado por mim e pela Diana Almeida (a tradutora), amanhã, a partir das 18h30, na FNAC do Chiado.
Alçada Baptista homenageado pela SPA
O escritor António Alçada Baptista, falecido a 7 de Dezembro de 2008, vai ser homenageado amanhã, dia 5, pela Sociedade Portuguesa de Autores, de que era cooperador desde 1990. A sessão está marcada para as 18h30, no Auditório Frederico de Freitas (Edifício 1 da SPA, Av. Duque de Loulé, 31, Lisboa). Participam Guilherme de Oliveira Martins, Leonor Xavier e Frei Bento Domingues, que abordarão «as diversas facetas da obra do escritor, ensaísta e editor, com relevo para o seu papel no debate sobre a modernização da igreja católica no anos 60, a sua ligação ao Brasil, a sua obra como memorialista e ainda a acção que desenvolveu à frente do Instituto Português do Livro».
Monos em saldos
Monos é como quem diz: são cinco títulos de Raymond Carver (editados pela Teorema), a preços entre os 5 e os 7,5 euros. Na Trama.
Dois prémios Gourmand para ‘Uma Cozinha no Douro’
Uma Cozinha no Douro, de Rui Paula, editado pela QuidNovi em Novembro, acaba de ser distinguido com dois Gourmand World Cookbook Awards. O júri do prémio considerou-o «o melhor livro de cozinha publicado em Portugal no ano de 2008 nas categorias de Primeiro Livro (autoria de Rui Paula e Celeste Pereira) e Fotografia (Nelson Garrido)». Proprietário do restaurante D.O.C., o chef portuense é ainda candidato ao prémio Best in the World, anunciado em Maio.
O making of do livro pode ser visto aqui.
Sarkothon 2009
No dia 28 de Janeiro, Nicolas Sarkozy fez 54 anos. Conhecendo-se a sua «alergia à literatura» (ele, como se sabe, é mais música), o blogue literário da revista Nouvel Observateur resolveu lançar uma grande «operação terapêutica»: «redonner le goût de la lecture à l’ennemi personnel de Mme de La Fayette». Previsivelmente, surgiram de todas as partes sugestões de livros para a mesa de cabeceira do principal inquilino do Palácio do Eliseu. A lista das ofertas dos jornalistas do Nouvel Obs pode ser lida aqui e a dos leitores aqui.
Uma viagem sem regresso
Raga – Abordagem do continente invisível
Autor: J.M.G. Le Clézio
Título original: Raga – Approche du continent invisible
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-989-8093-80-6
Ano de publicação: 2008
No discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura, proferido em Estocolmo a 7 de Dezembro de 2008, J.M.G. Le Clézio recorreu, quando quis reflectir sobre o lugar do escritor no mundo actual, a um paradoxo de Stig Dagerman: «Aquele que deseja escrever para os que têm fome, e apenas para estes, logo descobre que só os que enchem a barriga se apercebem da sua existência.» Levar a palavra aos excluídos, aos que muitas vezes nem sequer sabem ler, continua a ser uma tarefa particularmente difícil. «Porquê?», perguntou-se o autor franco-maurício diante do rei da Suécia, para logo lembrar: «Os povos sem escrita, como os antropólogos gostam de os nomear, conseguiram inventar uma comunicação total, através de cantos e de mitos. Por que razão isso já não acontece na nossa sociedade industrializada? Será preciso reinventar a cultura? Será preciso regressar a uma comunicação imediata, directa?»
Estas são questões que atravessam o conjunto da obra de Le Clézio, desde os primeiros livros – sobre a dificuldade de viver nas grandes cidades – às sucessivas abordagens a povos que escapam aos paradigmas da civilização ocidental: os índios do Panamá, os herdeiros dos maias no México, os nómadas do Norte de África. Ou os ilhéus da Melanésia, a quem Le Clézio dedica este belíssimo Raga, relato publicado agora, numa magnífica tradução, pela Sextante.
Se África é o continente esquecido, começa por dizer Le Clézio, a Oceania é o «continente invisível», porque «os viajantes que pela primeira vez aí se aventuraram não se aperceberam dela, e porque hoje continua a ser um lugar sem reconhecimento internacional, uma passagem, de certa forma uma ausência». Foi neste não-lugar, nesta imensidão oceânica semeada de ilhas, ilhotas e atóis, que se deu «a mais temerária odisseia marítima de todos os tempos». Isto é, o povoamento ancestral dos arquipélagos do Pacífico Sul, para Le Clézio menos fruto do acaso de ventos e correntes (como quis provar Heyerdhal) do que das navegações de quem sentia a urgência de descobrir um mundo novo para habitar.
Esse mundo ganha forma em Raga, nome nativo da antiga ilha de Pentecostes, nas Novas Hébridas (Vanuatu desde a independência, em 1980), quase dois mil quilómetros a leste da Austrália. É sobre esta «muralha de lava» que o livro nos faz planar, entrelaçando várias linhas narrativas, como as mulheres melanésias entrelaçam as folhas secas de pandano nas suas esteiras (objectos que hoje são tanto um símbolo de identidade cultural como moeda de troca). Uma das linhas narrativas ficciona a «viagem sem regresso» dos primeiros povoadores, enquanto atravessam o mar de piroga e se orientam pelas estrelas. Outras consistem na descoberta física da ilha (um assombro vegetal), na enumeração dos respectivos mitos (recorrendo a quase duas dezenas de fontes etnográficas) e na evocação dos aspectos mais negros da sua História (sobretudo os raptos dos blackbirders, que enchiam os porões de homens condenados à escravatura nas plantações de algodão de Queensland ou nas minas da Nova Caledónia).
Por fim, a fechar este hino à resistência dos povos que não se deixam engolir pela globalização, Le Clézio, fiel a si mesmo, não deixa de fustigar o Ocidente que «ferrou os dentes nos arquipélagos», mais o seu cortejo de colonos, turistas e missionários «vindos para extirpar os demónios e vestir a nudez dos habitantes».
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
Re: Paulo Rosário
Manuel Alberto Valente pediu-nos a publicação de uma resposta aos argumentos defendidos, aqui, pelo leitor Paulo Rosário. Eis essa resposta:
«O texto do leitor Paulo Rosário produz afirmações que poderiam alimentar uma longa resposta. Julgo, no entanto, que não é este o lugar certo para a dar, nem quero entrar em polémicas com uma pessoa que não conheço.
Mesmo assim, gostaria de acrescentar o seguinte:
– acusar-me de intelectualmente desonesto é, no mínimo, … desonesto, dado que todo o texto de Paulo Rosário praticamente confirma o que eu disse;
– na verdade, esgrimir com a realidade do livro de bolso é desconhecer as regras que lhe estão inerentes e que têm inviabilizado quase sempre a sua prática corrente em Portugal (quando aparecem, como na recente – e louvável – iniciativa do grupo LeYa, os livros de bolso em Portugal também são comercializados a preços semelhantes aos praticados lá fora: o Sr. Paulo Rosário pode comprar agora, por exemplo, O Vale da Paixão, de Lídia Jorge, por 5,95€, quando a edição normal custa 16,50€);
– não sei o que é “a prática mais indecente e monopolística da edição portuguesa” e Paulo Rosário também não o explica;
– os livros de António Lobo Antunes que custam em Espanha 8,50€ são livros de bolso; o Manual dos Inquisidores, por exemplo, que não está editado em bolso no mercado espanhol, custa… 18,50€; ou seja, continuamos com as confusões entre edições normais e edições de bolso…
O diálogo, assim, é muito difícil.»
Manuel Alberto Valente
‘Quando sono nato’

A versão italiana do livro Quando eu nasci, da dupla Isabel Minhós Martins/Madalena Matoso (Planeta Tangerina), vai ser publicada em Itália, pela editora Topi Pittori. Uma internacionalização mais do que merecida.


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