Blurb do ano

Vem na contracapa da edição de capa mole do romance de Murilo Carvalho:

«Se algo me prendeu no momento em que abri O Rastro do Jaguar foi o ritmo da linguagem. Uma escrita musical que nos leva tranquilamente de folha em folha, praticamente sem se dar por isso.»

Autor: Luís Figo. O futebolista, sim.

Um épico wagneriano no sertão


O Rastro do Jaguar
Autor: Murilo Carvalho
Editora: LeYa
N.º de páginas: 563
ISBN: 978-989-660-011-2 (capa dura) e 978-989-660-010-5 (capa mole)
Ano de publicação: 2009

Pela janela do seu quarto de hotel, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, o narrador de O Rastro do Jaguar contempla os «escuros profetas talhados na pedra» por António Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no largo fronteiro à Igreja de Bom Jesus de Matosinhos. Chove muito sobre a paisagem barroca, faltam poucas horas para a entrada no século XX e o tempo, a mais fugidia das matérias, começa a desatar os seus nós.
«O que me proponho a escrever não são minhas memórias, não é um romance; será, talvez, uma longa reportagem sobre a história de várias guerras, grandes e pequenas, que acompanhei ao longo desta vida de repórter. Mas principalmente sobre a viagem de um homem em busca de sua alma e de seu povo», afirma Pereira, o tal narrador de que apenas conheceremos o apelido, jornalista francês com família portuguesa.
Pierre de Saint’Hilaire é o nome do homem que parte à procura das suas origens, um guarani educado na Europa, músico de orquestra que tocou na estreia do Tannhäuser em Paris, aventureiro destemido que se transformará, ao regressar ao Brasil, numa espécie de profeta-guerreiro da sua tribo (o Jaguar do título), figura de que Pereira, a dada altura, procurará reencontrar o rasto.
Cruzando reflexões finisseculares de pendor melancólico com permanentes flashbacks e a transcrição de cartas antigas, a narrativa organiza-se como «a visão de um caleidoscópio, formada por dezenas de pedaços desconexos», uma torrente de recordações que criam uma imagem, não apenas do percurso de cada uma das personagens principais, como da própria História do Brasil no século XIX, muito em particular da fase final do império.
As «várias guerras» ocupam parte substancial da acção do livro. Primeiro, acompanhamos Pierre e Pereira na travessia do sertão brasileiro, onde testemunham o triste fim dos combativos índios aimorés (ou botocudos, como lhes chamavam os portugueses), vítimas da estratégia colonial musculada e da recusa em abdicar do nomadismo. Depois, Pierre reencontra as suas raízes guaranis e mergulha nos respectivos mitos criadores, um dos quais assente na utópica procura de uma Terra Sem Males. Por fim, fechando o arco, assistimos ao apocalipse dos guaranis paraguaios, soldados de um exército valoroso que a obstinação do presidente Solano López, isolado diante de uma tríplice aliança (de argentinos, brasileiros e uruguaios), conduziu ao mais absoluto descalabro.
Enquanto deambula pelos campos de batalha, ou pelas veredas da selva impenetrável, a prosa de Murilo Carvalho revela-se muitíssimo eficaz, directa e precisa. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer do romance como um todo. Se os movimentos colectivos funcionam bem, a articulação dos percursos individuais nem sempre é convincente. As cenas europeias, por exemplo, soam quase todas a falso. E na história de amor com Francisca, cansativamente nostálgica, abundam os lugares-comuns e as imagens poéticas de gosto duvidoso. Falta, sobretudo, um maior equilíbrio entre os vários planos da narrativa e os respectivos centros de gravidade.
Dito isto, O Rastro do Jaguar não deixa de ser um muito razoável romance histórico, visão épica de vários desastres civilizacionais no Brasil de oitocentos. Para atingir outro nível, teria sido necessário que a inspiração wagneriana, assumida pelo autor, tivesse passado da partitura do compositor alemão para a linguagem do livro. Apesar do notório empenho de Murilo Carvalho, a verdade é que não passou.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]

O exército infantil

«A artilharia iniciou o ataque com uma barragem de tiros sobre as trincheiras; as bombardas caíam como gotas de fogo levantando línguas de poeira e fumaça, numa constância cadenciada de artilheiros experientes. Não houve reação do outro lado; poucos tiros de fuzis eram disparados pela tropa paraguaia, que parecia afundar-se cada vez mais na proteção das trincheiras, uma proteção pouco mais do que simbólica, pois os artilheiros estavam colocando suas bombas exatamente sobre elas e de vez em quando se viam corpos mutilados sendo lançados para o alto, em meio à fumaça e à terra arrancada. Após algum tempo a cavalaria avançou, fechando pelo flancos, galopando entre os arbustos das encostas que circundavam as linhas de trincheiras, e sumiu no mato seco, atacando com espadas e lanças. Então a infantaria recebeu ordens de avançar também, em cargas sucessivas, como ondas, contra as trincheiras; quase não houve resistência. Os clarins tocavam ordens, sempre de ataque, e facilmente as linhas do exército aliado penetraram no campo paraguaio, matando, atirando com seus fuzis, destroçando um exército paraguaio, pela primeira vez naquela guerra, sem garra, sem a agilidade dos saltos e do manejo das lanças, sem o vigor costumeiro e acostumado. Nunca os soldados brasileiros haviam visto aquilo: matavam com enorme facilidade; os paraguaios pareciam petrificados diante do avanço de homens calejados por tantos anos de combates, desejosos de acabar logo com aquela guerra para retornar à pátria; uma batalha com mais ódio, porque era uma batalha inútil. As linhas penetravam cada vez mais fundo no campo, destroçando, entre a poeira e a fumaça dos canhões, um exército quase inerme, que se agachava nas trincheiras como esperando a morte.

Aos poucos, os próprios soldados aliados, surpresos por tanta indiferença, começaram a perceber que estavam matando crianças; eram crianças com seus olhos espantados, vestidas de soldados, enfiadas nas trincheiras com fuzis enormes, que nem sequer poderiam levantar; crianças vestidas de soldados, agarradas às saias de suas mães, que as tentavam proteger com o próprio corpo, enquanto eram abatidas com suas crias pelas balas dos fuzis, certeiras. Os soldados foram reparando que ali não havia guerreiros, mas uma farsa conduzida por uns poucos velhos e muitas mulheres corajosas, que se atiravam, com lanças mal manejadas, sobre os veteranos, que saltavam pelas trincheiras como macacos treinados, matando, estripando. E começou então a fuga, no meio das macegas secas; crianças e mulheres correndo, despertados pela fúria dos soldados, que continuam matando com suas espadas e seus facões; já nem era preciso atirar mais, os pequenos vultos fugindo às centenas colina acima. Foi então que encontraram a cavalaria que descia a galope, atropelando, numa carga feroz; as espadas cortando o mato, cortando cabeças, decepando braços, espalhando sangue pelas folhas ressequidas e galhos empoeirados do mato rasteiro, que mal escondia o colorido vivo dos uniformes paraguaios.
Foi então que alguém teve uma idéia: o toque de recuar; e o soldados pararam, saíram do mato.
Foi aí que alguém teve outra idéia e passou a colocar fogo nos galhos ressequidos pelo sol e pelo inverno e o vento soprou em direcção ao Leste, para onde fugiam os meninos e suas mães, os que restavam vivos, e o fogo correu com pés mais rápidos do que os deles, alcançou-os e queimou-os como vinha queimando galhos e troncos, e o campo de batalha transformou-se na mais terrível das minhas visões. Eu vi meninos em chamas, entre a galharia; pequenas tochas coloridas, rodopiando até cair e tornar-se uma fogueira que ajudava a espalhar o fogo para outras árvores, que acendiam outras pequenas tochas, e havia um cheiro jamais sentido nas guerras, um cheiro de carne queimando, como os churrasco de campanha onde assamos o boi com seu couro.
Não sei quanto tempo durou esse horror, mas aos poucos, atônitos, os soldados pararam e apenas permaneceram olhando o fogo consumir os restos daquele exército de meninos e mulheres. Eu vi homens chorando; eu vi o espanto, o horror nos olhos de tantos veteranos, encarquilhados pelas lutas nos esteros, nos campos, nas margens dos rios; aqueles homens que haviam aprendido a respeitar um inimigo cuja coragem era o grande desafio; o inimigo que morria definitivamente pelos corpos em chamas de suas crianças; eu vi o desespero de velhos soldados, os fuzis inúteis nas mãos, as lanças esquecidas, a vergonha, a vergonha.»

[in O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho, págs. 509-512, LeYa, 2009]

A invenção do Brasil

«Uma obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética.» Foi assim que o júri da primeira edição do Prémio LeYa, presidido por Manuel Alegre, justificou em Outubro a atribuição dos 100 mil euros – valor só igualado, no mundo lusófono, pelo Prémio Camões (que distingue toda uma obra e não apenas um livro) – ao jornalista brasileiro Murilo Carvalho, autor de O Rastro do Jaguar, considerado o melhor dos 448 romances concorrentes.
No dia do anúncio, feito durante a Feira de Frankfurt, Murilo Carvalho, 60 anos, encontrava-se no coração da Amazónia a filmar um documentário. «Foi uma surpresa enorme», confessa. «Eu só consegui falar ao telefone por estar perto de um quartel do exército, mas havia pouca rede e levei algum tempo a perceber o que me diziam.»
O Rastro do Jaguar é o seu primeiro romance e o regresso à literatura (na juventude publicou dois volumes de contos, ambos premiados), após um longo período dedicado à realização de programas televisivos, ao trabalho como guionista de cinema e à escrita de livros de reportagem («sobre as lutas entre índios e poceiros, conflitos pela posse da terra, esse tipo de temas»).
Fruto de quatro anos de pesquisa intensiva, o livro estava numa espécie de impasse, muito por culpa da sua extensão: «Uma das editoras que contactei respondeu-me que preferia não publicar um romance tão grande; era mais seguro apostar em três livros de 200 páginas do que num só com quase 600.» Por isso, ao ver o anúncio do Prémio LeYa no jornal, nem hesitou.
A ideia para o romance nasceu da leitura das obras do naturalista francês Auguste de Saint’Hilaire, que viajou pelo Brasil no início do século XIX e deixou minuciosas descrições da flora tropical. Num dos livros, Saint’Hilaire revelava a intenção de levar consigo para a Europa um índio aimoré adulto, bem como um índio guarani ainda criança, destinado a um general de Napoleão. «Ele trouxe os índios até ao Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro não autorizou o embarque. Ninguém sabe o que aconteceu a esses dois. Então, eu decidi imaginar que eles chegavam mesmo a França. Ou seja, pus-me a ficcionar as suas vidas, mantendo os nomes verdadeiros: Firmiano (o aimoré) e Pierre (o guarani).»
Um dos objectivos de Murilo foi justamente explorar as questões identitárias dos povos indígenas, massacrados por uma política colonial que os conduziu ao extermínio, ou quase. «Quis sobretudo prestar homenagem à cultura guarani, à sua cosmogonia assente no poder da palavra, à sua religiosidade complexa e aos seus mitos, como o da procura da Terra Sem Males.»
Além das pequenas guerras de resistência dos indígenas, há outro conflito militar que ocupa um lugar central na estrutura do livro: a guerra do Paraguai. «Infelizmente, a história da América do Sul, contada em ficção, quase não existe. E eu pretendi lembrar esse momento dramático que moldou os países do extremo sul do continente: o Uruguai; a Argentina, ainda em formação como país; o Brasil, à beira do fim do império; e o Paraguai, que viu a sua população masculina dizimada (e ainda não se recompôs, século e meio depois). Estas nações formam hoje o Mercosul. Constituímos uma comunidade internacional. Temos um passaporte comum. E nascemos todos daquela guerra. Uma guerra que eu tentei descrever, para a entender melhor.»
O rigor histórico transformou-se numa obsessão para Murilo Carvalho, enquanto preparava o romance. Por isso visitou, um a um, todos os lugares referidos. «Cada casa, cada rua, cada descrição geográfica é absolutamente real. Andei por aqueles sítios, filmei muito, li tudo o que encontrei sobre os vários temas, desde relatórios militares a descrições das batalhas, passando por textos de filósofos e versos de poetas sobre a condição indígena.» Nos pântanos do Paraguai, encontrou ainda rastos da destruição e até balas, marcas do horror que o ajudaram na hora de escrever.
Para Murilo Carvalho, este romance impôs-se pela «necessidade de reflectir sobre a História do meu país», algo que os documentários não lhe davam, «porque só permitem mostrar a realidade como ela é», em bruto, sem o lastro de um pensamento mais elaborado. «Em minha opinião, a literatura deve abarcar os muitos aspectos de uma época, focando tanto os movimentos individuais como os colectivos. Eu não gosto dos romances demasiado intimistas, que ficam navegando apenas pelo interior das personagens.» Precisamente o tipo de ficção que domina, segundo Murilo, o panorama «muito pobre» da literatura brasileira contemporânea. «Os jovens autores estão todos voltados para si mesmos. É a literatura dos gabinetes de S. Paulo, da violência urbana. E o resto do país como que desaparece.»
Talvez por isso, embora aprecie alguns escritores mais recentes (como Luiz Ruffato, Cristovão Tezza ou Caio Fernando Abreu), as referências maiores estão lá para trás: «Há o Guimarães Rosa, claro. Eu gasto os livros dele, de tanto ler. E depois alguns nomes menos conhecidos fora do Brasil, como Autran Dourado ou Adonias Filho, autor de Memórias de Lázaro, um livro maravilhoso.» Não que o seu estilo se assemelhe ao destes escritores: «Eu escrevo de forma muito clara, muito cinematográfica. E se há alguma herança é mais dos delírios de Joseph Conrad e Richard Wagner.» A música de Wagner, explicitamente evocada no livro, foi mesmo essencial no processo de criação. «Passei o tempo todo a ouvir o Tannhäuser, com as partituras na mão, procurando compreender tanto as ideias musicais como a busca dos mitos.»
Com a folga financeira permitida pelo prémio, o objectivo é agora dedicar-se mais à literatura, mas sem abdicar do trabalho que vem fazendo. No horizonte, há vários projectos de documentários, um deles sobre a exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras. E o próximo romance, Memórias de Isabel, já está escrito. «É sobre o período da ditadura, reflectindo um pouco da minha experiência na época. Passa-se durante uma semana, uma parte na Bahia, outra parte em S. Paulo, em torno da construção de uma grande barragem no sertão e do assassinato de Vladimir Herzog, um grande amigo e jornalista. Foi com o impacto da sua morte que a ditadura começou a cair.»
O Prémio LeYa será oficialmente entregue a Murilo Carvalho no dia 6 de Abril, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Já esta semana, foi aberto o concurso para a segunda edição do prémio, cujo regulamento pode ser consultado aqui. O prazo para a entrega de originais termina a 15 de Junho.

[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]

Ecos de Bolonha

A blogosfera portuguesa esteve presente na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Com a Carla Maia de Almeida, que fez uma cobertura detalhadíssima, mas também com a Isabel Minhós Martins (Planeta Tangerina) que se entusiasmou com as edições checas.

A voz de Chico

Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: Leite Derramado (Companhia das Letras).

Soluços

O acesso a este blogue foi muito difícil, ou mesmo impossível, em vários momentos do dia de hoje. Pelo facto, que nem sequer sei explicar (mas presumo tenha a ver com os servidores da plataforma Tubarãoesquilo), as minhas desculpas.

Outros assuntos

Embora o blogue ainda esteja em processo de afinação, já comecei a escrever sobre temáticas extra-literárias aqui.

Matemática e melancolia

A Solidão dos Números Primos
Autor: Paolo Giordano
Título original: La solitudine dei numeri primi
Tradução: José J. C. Serra
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-972-25-1834-5
Ano de publicação: 2009

Este notável primeiro romance, escrito por Paolo Giordano (n. 1982) enquanto fazia uma tese de doutoramento em Física de Partículas, foi um dos maiores fenómenos editoriais do ano passado. O sucesso absoluto em Itália, onde coleccionou louvores da crítica e prémios (entre os quais o Strega), além de se manter semanas a fio no primeiro lugar dos tops, prolonga-se agora um pouco por todo o mundo. Em Portugal, foi mesmo um dos poucos livros capazes de lutar, nas tabelas de vendas, com os romances de vampiros adolescentes criados por Stephenie Meyer.
Curiosamente, um dos núcleos narrativos principais de A Solidão dos Números Primos consiste numa panorâmica sobre a adolescência, focada na burguesia de Turim mas com características comuns a todas as adolescências: um tempo de experimentações e traumas, de descobertas e rituais cruéis, euforias e desilusões. Para os dois protagonistas da história, Mattia e Alice, os anos do liceu são isso tudo, mas também uma «ferida aberta», atravessada «como que em apneia, ele rejeitando o mundo e ela sentindo-se rejeitada pelo mundo», apercebendo-se ambos «de que, no fundo, a diferença não era muita».
A origem desta dificuldade de lidar com os outros radica em dois episódios paralelos, ocorridos na infância e narrados por Giordano logo a abrir o romance. Numa manhã brumosa na montanha, Alice perde-se dos companheiros de ski, cai numa ravina e parte uma perna, convencendo-se de que vai morrer. Não morre, mas fica coxa, com uma enorme cicatriz, a auto-estima em fanicos e uma raiva contra o pai, o impulsionador das aulas na neve, que se expressa de muitas formas (uma delas: a anorexia). Mattia, transtornado pela culpa de ter perdido a irmã (uma menina com deficiência mental, por ele abandonada momentaneamente num banco de jardim e nunca mais vista), fecha-se na sua inteligência e abdica de viver uma vida normal, encontrando alívio para a dor na contemplação dos fenómenos físicos (o modo como as gotas escorrem num vidro de automóvel, por exemplo) e na auto-mutilação.
Estas duas solidões encontram-se, entendem-se mas não se resolvem, porque Mattia e Alice, mesmo quando encontram um rumo (ele como especialista em topologia algébrica; ela como fotógrafa), nunca deixam de ser a versão humana daquilo a que os matemáticos chamam primos gémeos: «pares de números primos que estão próximos um do outro, aliás, quase próximos, pois entre eles existe sempre um número par que os impede de se tocarem realmente».
Giordano gere a tristeza desta impossibilidade com pinças e controla muito bem a respiração da narrativa. Para mim, o melhor deste livro melancólico e geométrico está nos detalhes, talvez porque o autor sabe, como uma das suas personagens secundárias, que «a violência está toda encerrada na precisão de um pormenor».

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Três poemas de Lauren Mendinueta

A poeta colombiana Lauren Mendinueta vive em Lisboa e deu-me, num encontro em que ambos participámos em Torres Vedras, um livrinho de capa verde (Poesía en sí misma), breve antologia editada em 2007 pela Universidad Externado de Colombia, com uma tiragem de 12.500 exemplares (leram bem: 12.500 exemplares) vendidos a um preço de 50 cêntimos de dólar nos quiosques de Bogotá.
Do livro seleccionei três poemas, que transcrevo de seguida (primeiro em castelhano, depois na tradução que deles fiz):

ESTUDIO PARA UN POEMA

Si hay cielo
Es porque los pájaros existen.
Los cielos que caben en la cabeza
No son reales.
Nunca he visto los ojos de un muerto.
Entiendo que en esa ignorancia
Está la clave del poema.


AUTODAGUERROTIPO

Una mujer
trata de anular las imágenes que emite.
Las manos
sobre la rodilla derecha para ocultar
el vacío aliento de la juventud.
Inclinada ligeramente hacia qualquer lado
una sonrisa falsa pero hermosa.
Callada se pregunta
cómo demostrar que su cuerpo
no piensa en la muerte.
Y trata de no borrar el gesto.
Sin saber
sus ojos son ausencia
y la ausencia dibuja en la historia
una gran espiral.
Más tarde observa en el papel
la luz adentro
el mundo adentro
ella y su sombra
afuera.


POEMA DE AMOR PARA JORGE LUIS BORGES

Me pesan
el bullicio y la injusticia
La marea turbia
y el olor de un atardecer marino
que no he de presenciar
Las largas despedidas
y los encuentros fugaces
Algunas palabras
y los silencios forzados por la distancia
La noche despoblada de ti
que avanza indiferente
hacia el abismo del día
Las letras que componen tu nombre
inmensa pieza del universo
que todo lo encierra
La cifra que define tu número
El género que marca tu cuerpo
El tiempo indefinido de tu existencia.

*****

ESTUDO PARA UM POEMA

Se há céu
é porque os pássaros existem.
Os céus que cabem na cabeça
não são reais.
Nunca vi os olhos de um morto.
Entendo que nessa ignorância
está a chave do poema.


AUTODAGUERREÓTIPO

Uma mulher
trata de anular as imagens que sugere.
As mãos
sobre o joelho direito para ocultar
o alento vazio da juventude.
Ligeiramente inclinado para um lado qualquer
o sorriso falso mas belo.
Em silêncio pergunta-se
como pode demonstrar que o seu corpo
não pensa na morte.
E tenta não apagar o gesto.
Sem saber
os seus olhos são ausência
e a ausência desenha na história
uma grande espiral.
Mais tarde observa no papel
a luz interior
por dentro do mundo
ela e a sua sombra
por fora.


POEMA DE AMOR PARA JORGE LUIS BORGES

Pesam-me
o bulício e a injustiça
A turva maré
e o perfume de um crepúsculo marinho
que nunca presenciarei
As longas despedidas
e os encontros fugazes
Algumas palavras
e os silêncios forçados pela distância
A noite despovoada de ti
que avança indiferente
para o abismo do dia
As letras que compõem o teu nome
imensa peça do universo
que tudo encerra
A cifra que define o teu número
O género que marca o teu corpo
O tempo indefinido da tua existência.

A capa de Murilo

Amanhã nas bancas.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho (LeYa), por José Mário Silva
Natália, de Helder Macedo (Presença), por Luísa Mellid-Franco
O Quarto de Hóspedes, de Helen Garner (Oceanos), por Ana Cristina Leonardo
Cartas da Terra, de Mark Twain (Bertrand), por Rogério Casanova
O Herói e o Único – O Espírito Trágico do Romantismo, de Rafael Argullol (Nova Vega), por António Guerreiro
Marcello Caetano – O Homem que Perdeu a Fé, de Manuela Goucha Soares (A Esfera dos Livros), por Valdemar Cruz
Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón, de Sergi Doria (Planeta), por Vítor Quelhas

A luz forte da auréola

A Vida da Poesia
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 398
ISBN: 978-972-37-1364-0
Ano de publicação: 2009

«Falar sobre poesia parece-me tão natural como fazê-la», escreveu Gastão Cruz num breve testemunho publicado na revista Relâmpago, em 2000. De facto, o autor de Repercussão vem mantendo as duas actividades em paralelo, como faces da mesma moeda, e a complementaridade entre a sua obra poética e a reflexão teórica é particularmente evidente em A Vida da Poesia, o volume que reúne o essencial da sua produção crítica entre 1964 (três anos após a estreia literária, na publicação colectiva Cadernos de Poesia 61) e 2008.
Acrescentando mais de três dezenas de textos, escritos na última década, ao corpus das duas edições de A Poesia Portuguesa Hoje (a primeira, de 1973; a segunda, de 1999), esta súmula permite confirmar a persistência dos seus pontos de vista, que um «certo número de repetições e insistências temáticas» apenas reforçam. Pensadas para circunstâncias tão diversas como entregas de prémios, prefácios, obituários, evocações, programas de espectáculo ou artigos de imprensa, estas abordagens são colocadas por Gastão Cruz no mesmo plano dos poemas sobre os quais se debruçam e sujeitas a um crivo estético igualmente apertado. «A tensão e o rigor exigidos para o poema deverão igualmente consolidar a reflexão que toma por objecto a poesia: um texto de que a emoção não pode estar excluída e em que o poder da palavra continua a ser essencial. Falar de poesia, se não é tentar o impossível aprisionamento do poema ou do seu fugidio sentido entre as linhas do quadrilátero onde eles não hão-de caber, não poderá ser, também, o desajustado divagar extrapolante que tantas vezes encontramos na chamada crítica de poesia.»
Um tópico recorrente é o declínio da poesia portuguesa contemporânea, quando comparada com as gerações anteriores, às quais são dedicadas a maior parte destas páginas (Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Cesariny, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava). Para Gastão Cruz, falta «densidade» e «espessura verbal» aos poetas de hoje, muitos dos quais «supõem que escrever poemas é alinhar um fraseado frouxo, de decrépitas imagens e metáforas exaustas». Apontadas as excepções a este «definhamento da linguagem poética» (Luís Quintais, Daniel Faria, José Tolentino Mendonça, Rui Coias), não é difícil entender quem fica na mira: o grupo dos «poetas sem qualidades», agrupados em torno de Manuel de Freitas e verberados de forma nem sempre subtil. No prefácio, Gastão acusa: a baudelairiana «perda de auréola» passou a ser uma «justificação para a mediocridade instalada» e «para a imposição de uma “poesia” light». O desfecho do raciocínio tem tanto de irónico como de declaração de guerra: «Tentei, nestes textos, dizer alguma coisa sobre poetas que, com a sua auréola, iluminaram a minha existência. Não a tinham perdido, nem creio que a venham a perder: alguns leram-me a sua poesia, ou mostraram-ma, acabada de ser escrita – e, lembro-me bem, uma luz forte irradiava deles.»

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Blogue sobre Escrita Criativa

É do Pedro Sena-Lino e parte das suas experiências de formador na área, bem como dos livros que publicou sobre o tema na Porto Editora. Consultar aqui.

Um ano de Bruaá

Parabéns.

‘O Rastro do Jaguar’ amanhã nas livrarias

Vencedor da primeira edição do Prémio LeYa, em 2008, o romance O Rastro do Jaguar, do escritor brasileiro Murilo Carvalho, chega amanhã às livrarias, apenas com a chancela da LeYa.
Sinal da aposta forte neste livro, por parte do grupo de Miguel Pais do Amaral, é o facto de um volume com 560 páginas aparecer de início tanto em versão hardcover como paperback; e em ambos os casos com um preço muitíssimo competitivo (17 euros para a capa dura; 15 para a capa mole).
A capa dura vai ser assim:

E a capa mole assim:

No próximo sábado, o suplemento Actual, do Expresso, dará capa a uma entrevista exclusiva com Murilo Carvalho, seguida de recensão ao romance. Ambos os trabalhos são assinados por mim.

Três corvos

The Raven, de Edgar Allan Poe, um dos mais célebres poemas em língua inglesa, começa com esta estrofe:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore –
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
«’T is some visitor,» I muttered, «tapping at my chamber door –
Only this, and nothing more.»

Um livrinho recentemente editado pela Relógio d’Água (O Corvo), já na onda do bicentenário de Poe, oferece-nos as traduções do poema feitas por dois dos maiores escritores de língua portuguesa dos últimos 150 anos: Fernando Pessoa e Machado de Assis. Cotejar as duas versões não deixa de ser interessante, no que cada uma delas revela (ou não) da estratégia literária dos respectivos tradutores.
Eis a primeira estrofe segundo Pessoa:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
«Uma visita», eu me disse, está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.»

E agora a versão de Machado de Assis:

Em certo dia, à hora, à hora,
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
«É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há-de ser isso e nada mais.»

Não resisto a juntar uma terceira versão: a de Margarida Vale de Gato, no livro que vai ser lançado esta tarde. Ei-la:

Era o meio da noite sombria, fraco e lasso eu reflectia
Sobre os tomos singulares dos saberes ancestrais;
E com sono, cabeceando, eis que ouvi algo raspando,
Seco som, ténue, tocando, tocando à porta de fora,
Visita decerto seria, batendo à porta lá fora,
Isso só e nada mais.

Lembrete

Logo à tarde (18h30), na FNAC do Chiado, vai ser lançada a edição feita pela Tinta da China da Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe, com tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato e ilustrações de Filipe Abranches. Apresentam o livro Helena Barbas (professora universitária) e David Soares (escritor).

Prémio D. Dinis 2009 para Vítor Aguiar e Silva

O investigador Vítor Aguiar e Silva (n. 1939), especialista em Teoria da Literatura, acaba de ser distinguido por unanimidade com o Prémio D. Dinis (Fundação Casa de Mateus), no valor de 7500 euros, pelo livro A lira dourada e a tuba canora: novos ensaios camonianos, editado pela Cotovia em 2008. Do júri fizeram parte Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral.

A arte da antecipação


Proust era um neurocientista
Autor: Jonah Lehrer
Título original: Proust was a neuroscientist
Tradução: Ana Carneiro
Editora: Lua de Papel
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-989-23-0234-8
Ano de publicação: 2009

O famoso ensaio publicado por C. P. Snow, em 1959, sobre a «incompreensão mútua» entre as «duas culturas» (a humanística e a científica), já foi pretexto para vagas sucessivas de polémicas intelectuais. Na altura, Snow defendeu a criação de pontes entre os dois lados da barricada através de uma «terceira cultura», um espaço de diálogo em que os cientistas poderiam aprender com os artistas e vice-versa. O problema, diz Jonah Lehrer, é que esse espaço foi tomado de assalto por divulgadores científicos de «prosa elegante», capazes de introduzir temas como os buracos negros ou os genes egoístas no nosso «léxico cultural», mas que «muitas vezes assumem uma visão unidimensional da exploração científica e da sua relação com a humanística».
Para superar mais este impasse, Lehrer defende uma «quarta cultura» que equilibre por fim os pratos da balança. «Precisamos da arte» porque «ela ensina-nos a viver com o mistério», diz este wonderboy de 27 anos que se licenciou em Neurociências e Inglês na Universidade de Columbia, passou pelo laboratório de Eric Kandel (Prémio Nobel da Medicina em 2000), e é actualmente editor da revista científica Seed (além de manter o blogue Frontal Cortex). O seu primeiro contributo para a «quarta cultura» foi este Proust era um neurocientista, um livro tão ambicioso quanto arriscado.
A tese principal é simples: no início do século XX, houve artistas que «descobriram verdades acerca da mente humana – verdades reais, tangíveis – que a ciência está apenas agora a redescobrir». Lehrer concentra-se em oito artistas, e respectivas «intuições», porque «anteciparam a nossa ciência muito explicitamente». Os escritores estão em maioria: Walt Whitman, George Eliot, Marcel Proust, Gertrude Stein e Virginia Woolf. Há ainda um pintor (Cézanne), um compositor (Stravinsky) e um cozinheiro (Escoffier).
Capítulo a capítulo, o método de abordagem não varia. Lehrer começa por resumir as características principais de cada artista, depois identifica o conceito original (a antecipação) e por fim explica como as neurociências chegaram lá, muitas décadas depois. No caso de Walt Whitman, por exemplo, a sua defesa de uma fusão absoluta entre o corpo e a alma, bem como «a ideia de que os sentimentos começam na carne», encontra caução científica nos trabalhos de António Damásio. Já Proust teria intuído que a memória é um processo em curso, falível ainda por cima, e não um mero depósito de imagens cristalizadas. Sem o saber, Cézanne aproximou-se, com as suas maçãs difusas, do modo como a realidade é percepcionada pelo córtex visual. E Gertrude Stein, nos seus textos experimentais, muitas vezes impenetráveis, provou que existe uma estrutura da linguagem que permanece intacta mesmo quando o que se escreve não faz sentido, adiantando-se umas décadas às teorias de Noam Chomsky.
Lehrer sabe defender as suas ideias com paixão e estilo. A escrita é rápida, cativante, informada (remetendo para centenas de referências bibliográficas). As transições entre o universo de cada artista e o respectivo corolário científico são suaves, subtis, fluidas. Mas há qualquer coisa que não bate certo em todo este empreendimento. De tanto querer provar o seu ponto de vista, há passagens em que Lehrer embarca em saltos lógicos mal fundamentados ou simplistas, como se a elegância da prosa conseguisse, só por si, encaixar peças que pertencem claramente a puzzles diferentes. Por exemplo, ver na defesa do livre arbítrio de George Eliot uma relação com a plasticidade neural é, no mínimo, forçar as coisas. A fúria de descobrir nexos inesperados entre a arte e a ciência deixa-nos, neste livro, mais perto do wishful thinking do que do rigor metodológico, capaz de resistir ao escrutínio dos especialistas.
Proust era um neurocientista agita as águas e obriga-nos a pensar? Sim. E é esse o seu principal mérito. Lehrer, que caminhou de peito aberto por um terreno minado (não faltou quem lhe apontasse logo diversos erros e extrapolações abusivas), escreveu sobre Gertrude Stein: «Há momentos em que a confiança que deposita no seu génio raia a insolência.» Podia dizer exactamente a mesma coisa de si mesmo.

Avaliação: 7/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

I Festa do Livro Infantil

Vai acontecer na Praça da Figueira, em Lisboa, de 27 de Março a 5 de Abril (entre as 10h00 e as 20h00). Mais informações aqui.

Blogues que se transformam em livros

O debate está marcado para dia 2 de Abril, às 18h30, na livraria Bertrand do Chiado.

Três poemas de Paulo Tavares

O Paulo Tavares enviou-me, no dia em que mudámos de estação, «os dois últimos poemas de Atravessando o Inverno (esse meu livro que dificilmente verá a luz do dia) e um outro, a propósito do título do teu blogue».
Ei-los:

OS VELHOS

Os velhos falam do voo rasante
dos pombos sobre os telhados marítimos.
Sei que ao falarem do voo dos pombos
os velhos querem dizer coisas que apenas
outros velhos entendem.

Um deles diz nunca ter sido
especialista com a fisga,
mas eu oiço outras palavras:

falhar é uma bênção para quem
atira pedras aos céus.

Andei em círculo
e reparo entretanto que percorri,
fora de tempo, todas as esplanadas
das cidades à beira-mar.


ATRAVESSANDO O INVERNO

Finalmente,
atinjo a margem.
Acabo por beber a água.
Banho o corpo com as memórias
residuais. Sorrio o último
dos sorrisos que me reconheço.

Procurei durante a era glaciar
meio vivo
meio morto
um caminho ou uma ponte
para o rio onde se lavam as palavras.

Procurei
as crateras dos meteoritos,
a evidência dos terramotos,
o rasto da humanidade perdida.
Ao longo do Inverno rigoroso,
tentei encontrar em cada laje dos cemitérios
que atravessei o nome dos Antepassados,
o alento das origens, uma epígrafe para
a nova modernidade.

Mas os cemitérios
são agora campos de cultivo
e as campas estão vazias.

Nunca houve uma cratera
na ordem natural dos desastres.

Meio morto
meio vivo
banho o peito na corrente
sempre inconstante do Letes
e bebo a água para que seja possível
voltar a lembrar.

O gelo voltará um dia,
restituindo os cadáveres e germinando
o invólucro dos significados.


PASSEIO COM ECO E BORGES QUANDO JOVENS

É verdade que logo em frente
o caminho se bifurcava
e que tínhamos andado demasiado
tempo pelo interior do bosque,
para que agora,
conduzidos pela luz trémula do ocaso,
soubéssemos regressar.

Lançamento de ‘A Infância é um Território Desconhecido’

O livro de Helena Vasconcelos (Quetzal) será apresentado por Inês Pedrosa. Esta tarde, a partir das 18h30, na livraria Bertrand do Chiado.

Aumentar frases com David Foster Wallace

Requer arte, engenho, paciência e algum fulgor verbal, mas no fim, com sorte, pode ser que se consiga transformar «ten boring words into a hundred good ones». Está tudo explicadinho aqui.

Cinco ruba’iyat de Umar-i Khayyam

Não tenhas medo dos infortúnios de hoje,
Não tenhas dúvidas, o tempo os apaga.
Se tiveres um momento oferece-o à alegria,
O que virá depois, deixemos para o depois.

***

Quando for afrontado pela hora da morte,
Arrancado pela raiz da esperança da vida,
Do barro, meu abrigo, moldem uma jarra,
Enchendo-a com vinho, ressuscitarei de novo.

***

Descobri o ser e o não ser,
Revelei mistério de cima abaixo.
Envergonha-me este todo meu saber,
Prefiro estar embriagado à fama.

***

Passei ontem no oleiro,
A sua arte é um jogo divinal,
Eu vi, embora outros não tivessem visto,
As cinzas dos antepassados nas mãos dele.

***

Ó criador da criação, rei dos reis do universo,
Quem marcou os corações com as feridas de mágoa?
Escondeu os lábios de rubi,
Nas caixas de cinza onde se guardam cinzas.

[in Ruba’iyat, traduzidos do persa por Halima Naimova, Assírio & Alvim, 2009]

Uma baixa na blogosfera (e das grandes)

O Henrique Fialho fartou-se disto e decidiu ir embora. «Por que me vou? Porque enjoei, porque já não tenho paciência, porque sim, porque estou cansado, porque tenho mais que fazer, porque me doem as costas, porque está um belo dia lá fora.» Tudo razões mais do que legítimas, claro. Mas a nós, simples leitores, a escrita torrencial, a atenção panorâmica, a combatividade nas polémicas e o ímpeto divulgador do Henrique vão-nos fazer muita, mas mesmo muita, falta.

Citação do dia

«Hoje, 21 de Março, é o Dia Mundial da Poesia. Esta data comemorativa está para as coisas da poesia como o Movimento Nacional Feminino estava para o teatro de operações da guerra colonial: é uma manifestação de voluntarismo e boa vontade que não interfere no curso dos acontecimentos.»
António Guerreiro, suplemento Actual, Expresso

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Proust era um neurocientista, de Jonah Lehrer (Lua de Papel), por José Mário Silva
Biologia e Biólogos em Portugal, coord. de Maria Eduarda Gonçalves e João Freire (Esfera do Caos), por Virgílio Azevedo
História da Europa de Leste, de Jean-François Soulet (Teorema), por José Gabriel Viegas
A Sociedade Vigilante, org. de Catarina Fróis (Instituto de Ciências Sociais), por Luís M. Faria
O Japão é um Lugar Estranho, de Peter Carey (Tinta da China), por Cristina Margato
Doida não e não!, de Manuela Gonzaga (Bertrand), por António Valdemar
The Travels/Viagens, de John Mateer (Tea for One), por Manuel de Freitas

Programa para amanhã (Dia Mundial da Poesia)

Às 15h30, estarei na Livraria Bulhosa de Entrecampos (Lisboa), com António Carlos Cortez, a falar da novíssima poesia portuguesa. Às 17h30, moderarei a segunda mesa do 3.º SobrEscritas, em Torres Vedras, com os poetas Miguel-Manso e Lauren Mendinueta.
Apareçam.

Ausente

Hoje estou muito longe, lá para os lados do Paraguai, a 550 páginas de distância.

Lembrete

Esta tarde, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, lançamento de A Edição de Livros e a Gestão Estratégica, de José Afonso Furtado (edição Booktailors). A apresentação será feita por Vasco Teixeira, da Porto Editora, que comentará a realidade do mundo editorial português dos nossos dias.

Correntes d’Escritas – mesa 9

Da esquerda para a direita: Luiz Antonio de Assis Brasil, Nuno Júdice, Margarida Vale de Gato, Carlos Quiroga (moderador), Manuel Rui, Bruno Serrano e Eduíno de Jesus

Sobre a universalidade da literatura

Na nona mesa das Correntes d’Escritas, a Margarida Vale de Gato, uma das organizadoras do colóquio sobre Edgar Allan Poe que daqui a nada começa na Faculdade de Letras de Lisboa (ver post anterior), leu o seguinte texto, que em minha opinião merece, depois daquela passagem efémera pelo Auditório Municipal da Póvoa do Varzim, uma segunda vida:

«1. A universalidade da literatura e a originalidade da escrita

A universalidade da literatura é uma ideia bonita, especialmente para quem a ela se dedica, já que todos nós gostamos de pensar que o que fazemos é importante, e até mais do que isso, essencial. Gostamos de pensar que a necessidade da literatura faz parte: 1) duma necessidade do homem e da mulher se exprimirem artisticamente desde o princípio dos tempos; 2) duma necessidade de configurar através da palavra explicações para o mundo e para a identidade. Daí que uma das evidências que se pode apresentar para a universalidade da literatura seja a sua base quer num número restrito de temas comuns (o amor, a morte, a guerra, a loucura, o medo da loucura) quer mesmo num número possivelmente quantificável de enredos que nos vêm desde os mitos, os quais sabemos, tais como os contos tradicionais, repetirem-se em culturas separadas por grandes distâncias quer geográficas quer temporais.
A isto, porém, pode contrapor-se que a literatura – o que torna um texto literário – não é propriamente isso. Um enredo não faz necessariamente uma obra literária e os temas comuns (amor, morte, guerra, loucura) podem ser expressos de outras formas que não literárias. Nem sequer é a linguagem que faz a literatura. Como dizia ontem Santiago Gamboa: “nós, os escritores, não representamos adequadamente a humanidade; nem a realidade nem a linguagem na sua origem são literárias.”
Muitos defendem que literatura não é o que é dito, mas o modo como é dito. E aí surge a questão do estilo, de onde advém a necessidade de originalidade – que não convive confortavelmente com a universalidade. Se o universal é o comum, e nós acreditarmos no título de uma outra mesa aqui das Correntes, “é literatura tudo o que não é evidente” – portanto, justamente, o único, o original, o marginal –, em que ficamos?
Não creio que a universalidade da literatura seja uma existência, mas antes uma aspiração. A universalidade da literatura só pode fazer sentido como utopia que mova o escritor. E se pensarmos assim, pode dizer-se que pode ser ambição do escritor o inscrever-se na humanidade, o dar o seu contributo único, individual – subversivo, original – para tornar o universal mais amplo.
Um escritor tem um material, a linguagem, com uma série de convenções e aplicações com possibilidades ilimitadas da comunicação. Para mim, é na função comunicativa da linguagem que reside o seu potencial universal; mas o escritor vai buscar esse potencial para nele fazer preferencialmente outra coisa: expressar arte, expressar-se a si. Assim, voltamos ao conflito: o escritor poderá idealmente querer comunicar universalmente, mas antes de tudo quererá, penso, expressar-se individualmente, num registo de diferença, porque acha que tem coisas a dizer ao mundo, ou sobre o mundo, que o mundo ainda não previu nem incluiu.

2. A Tradução como o vento das escritas

Eu, que sou tendencialmente de ideias fixas, e que desde pequena meti na cabeça que queria viver a escrever, curiosamente, partindo dum amor à literatura fui desembocando cada vez mais – primeiro por um percurso pessoal (passando a adolescência nos Estados Unidos, conheci o trânsito linguístico) e depois profissional (até agora ainda só consegui viver da escrita como tradutora) – naquilo que na literatura se pode comunicar. Como tradutora, estou bem melhor com a universalidade da literatura, visto que contribuo para que se liberte da sua ancoragem mais nativa por contraposição às outras artes (música, pintura, fotografia), no esforço de superação das suas contingências, primeiro linguísticas, mas também culturais, espaciais e temporais. Porque um tradutor não só atravessa línguas, o tradutor atravessa também contextos, espaços, tempos. Nesse sentido, uma metáfora que lhe serve pode ser retirada da primeira parte do título desta mesa: o vento.
Várias imagens bíblicas – possivelmente outros tantos mitos desses que dizemos serem universais – servem a tradução. O mais conhecido será o da Torre de Babel, de que um dos meus teóricos preferidos sobre o tema, George Steiner, nos fala, e que serviu também ao grande tradutor português João Barrento para expor as suas ideias sobre tradução, O Poço de Babel. Saber se foi vingança ou ardil de Deus condenar os homens a falar diferentes línguas, por ousarem pretender que um monumento chegasse à sua altura, é ainda uma questão em aberto. Em conversa com Ana Luísa Amaral, com quem tive a honra também de aprender muito neste encontro – e com cujos livros tenho aprendido muito ao longo da vida – ela falava-me no mistério, também bíblico, da Visitação. A ideia da visitação é muito cara a uma concepção romântica da poesia, e na tradução aplica-se muitas vezes a um estado de possessão do tradutor pelo mesmo espírito que animou o autor. É, também, uma bela imagem, mas para mim, não é ainda a que me serve em tradução, porque em tradução, mais do que me imaginar em comunhão com um autor, eu considero-me em trânsito entre este e o leitor. Defendo o tradutor como alguém que deve ter a humildade e a gratidão de ser um veículo. Daí que a metáfora bíblica mais recorrente no meu imaginário de tradução seja a do Espírito Santo, o sopro ou o vento do Deus. Também gosto, confesso, do Espírito Santo que se divide em línguas de fogo na Ceia de Pentecostes e manda os apóstolos para fazerem entender a palavra divina pelos homens de todas as terras e idiomas. Sendo uma imagem de graça e iluminação, o Espírito Santo não revela a Verdade, não é uma visitação que invista o visado dum conhecimento especial que lhe permita chegar à Fonte, antes dá o meio pelo qual Deus se faz Homem; na Catequese explicavam-me que o Espírito Santo era o amor entre o Pai e o Filho, e também o Amor que levou o Pai a fazer-se Filho para viver e ser frágil ao ponto de morrer com os Homens. Para mim, a tradução é essa versão comunicável da graça, essa versão que toma um determinado corpo para chegar ao Outro.
Não me empenho especialmente em defender o tradutor como um autor, sequer como co-autor, nem tampouco, por mais lisonjeador que isso possa ser, como criador. Claro que o tradutor também cria, ou sobretudo recria. É, todavia, um criador secundário, e deve depender sempre do que foi gerado pelo autor. Habituei-me a pensar no autor como criador de universos e no tradutor como seu satélite; cada vez penso mais nesse satélite como uma sonda, um vaivém espacial, que reporta as constelações, as crateras e os mares do autor aos homens cá na terra – mais propriamente, recorrendo ao título duma mesa de ontem, cá no bairro, cá na rua. Ao tradutor aplica-se certamente o lema de pensar globalmente e agir localmente, quando ele actualiza um texto – por exemplo, uma das obras ditas universais da literatura – para o público da sua língua, da sua época, e aí ele é mais um executor do que um criador. E, no entanto, se não fosse essa tarefa, às vezes tão circunscrita (um tradutor de uma peça de teatro, por exemplo, que trabalha com encenadores e actores pensando num público-alvo específico), os clássicos, esses tais universais da literatura, não perdurariam enquanto universais. Daí que numa formulação feliz, Walter Benjamin, no seu ensaio precisamente intitulado “A tarefa do tradutor”, fale da tradução como uma “sobre-vida”, garantindo a sobrevivência do texto e insuflando-o de novas vidas. No entanto, sobre este ensaio, devo acrescentar que é para mim um texto conflituoso, precisamente porque Benjamin está, acho eu, muito preso a uma ideia de comunhão entre autor e tradutor que lhes permita recuperar uma espécie de linguagem pura. Tal como a ideia de universalidade de literatura, também acho bonito o pensamento de Benjamin, mas não me serve. A tradução, do meu ponto de vista, existe também para se sujar e promiscuir com o leitor. Para mim, e pegando na oposição que antes delineei entre a ambição de uma comunicação universal e a expressão artística original, a diferença entre tradução e literatura é que a literatura, se quiser, pode desprezar a função comunicativa da linguagem e ater-se apenas à sua função expressiva até chegar a uma poeticidade em que a palavra se torna independente duma necessidade de mensagem. Mas a tradução não pode descurar a função comunicativa da linguagem, nem a procura duma mensagem, por mais que o autor não a tenha lá posto. Afinal, se um tradutor é um mensageiro, como pode haver um mensageiro sem mensagem?
Mas se dissemos antes que a literatura não se faz nem da mensagem, nem da linguagem, a tradução corre o risco de passar ao lado da literatura. Pois corre. Robert Frost disse numa frase lapidar e cruel: “a poesia é o que se perde em tradução”. Todo o meu esforço de tradutora, a bem dizer, é contrariar isto. Eu quero meter a poesia nas minhas traduções. Quero que elas carreguem o que está lá de investimento incomum dum determinado autor (seja de sonoridade, de construção frásica, ou de metáforas como nós na garganta), mas também me sinto grata por meter nelas um esforço de trazer para o outro, fazer chegar ao outro – que pode não estar, que não tem de estar, nas intenções dum autor. Para mim, a maneira como a tradução pode contribuir para a universalidade da literatura não tem a ver com uma inscrição na posteridade tal como a conceberá um autor que se proponha escrever uma obra-prima universal. Tem a ver com um compromisso aqui e agora, com, mais do que criar novas condições de possibilidade (isso é tarefa dos autores), transmitir o mais possível nas condições possíveis.
Uma vez que sou, porém, uma criatura contraditória, e porque tenho por outro lado as minhas ambições de escrita pessoais, resolvi que não ia deixar passar este momento em que também posso fingir que vim ao Correntes d’Escritas por ser um bocadinho escritora, sem apresentar um pedaço de poesia da minha autoria. E até trouxe um que vem bastante a propósito. Primeiro, porque foi feito num encontro com algumas semelhanças com este, embora mal “acomparadas” em benefício deste. Ou seja, não era de escritores maduros como aqueles com quem tenho o prazer de estar hoje, era entre chamados “jovens criadores”. No entanto, tal como neste, trazia a oportunidade dum convívio de boas conversas e boas bebidas no lounge do hotel onde estávamos hospedados, e onde, sendo internacional, se podiam justamente discutir questões como “será que alguém vai perceber o que há de verdadeiramente literário na minha obra passando isto para uma língua franca, ou universal, como o inglês?” Segundo, e relacionado com isto, porque foi pensado também como resposta à tal citação de Robert Frost de que “a poesia é o que se perde na tradução”. Chama-se “Hotel Lounge”, e nele o lounge surgiu-me também como imagem de tradução.

Hotel Lounge

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se tresmalham
incandescentes queimam os ouvidos
internarmente eu lamento discordar
mas sendo a poesia o que perde
a tradução
haverá então coisas mais importantes
para guardar e eu não vejo
forma outra de sair deste ruído
senão um esforço extremo distendido
no transporte de chegarmos.

Eu lamento discordar
mas para mim são alvos desiguais
ter em vista o chegarmos a outrém
ou escudarmos a perda que se arrisca.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão, rondamos,
estrangeiros num abrigo, as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros,
será jamais possível emalhar nossas
línguas sem que o verso seja lenocínio?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram ou
pode haver uma outra via de sair
a via em que mudamos ao falar
quando folgamos
o freio do orgulho de ser único?

Embaraça-me, de resto, discordar
dum tão distinto parecer,
e quero mesmo assim agradecer
as lenitivas vias de acedermos
ao encontro provisório ou comunhão
aturdida no terreno transitório
de um lounge no hotel.

Margarida Vale de Gato»

Colóquio ‘Poe e Criatividade Gótica’

Começa hoje. Programação completa aqui.

Sobre António Botto

O poeta António Botto morreu faz hoje precisamente 50 anos. Eduardo Pitta assinala a data com uma conferência, esta tarde (18h30), na Casa Fernando Pessoa. Eis alguns dos tópicos com que Pitta tentará explicar o «silenciamento» de Botto: «Afinal, o que é que perturba a Academia? A crise de fé dos anos 1950, coincidente com o exílio brasileiro? O facto de Botto incorporar a tradição popular no discurso homoerótico? São isto razões sérias de rasura?»

Menos de mil

«Nós temos 110 mil palavras dicionarizadas – e não falo nas locuções, que aí iríamos para as 300 mil – e o Português básico está reduzido a menos de mil palavras, o que é péssimo.»
Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, em declarações ao Público

Chico Buarque tem novo romance quase a sair

Seis anos após Budapeste (2003), Chico Buarque regressa à literatura com Leite Derramado, a publicar ainda em Março, no Brasil, pela Companhia das Letras.

Duas variações de Josep M. Rodríguez

VARIAÇÃO UNGARETTI

Na minha casa do Egipto,
a minha mãe falava-nos de sítios como este.

(Ao longe, qualquer coisa nos parece fascinante,
ao perto,
nem sequer um milagre nos surpreende.)

Entre estas muralhas está-se apenas de passagem.
A meta é o afastamento.

Sento-me no terraço
com pessoas que falam da Califórnia como se esta fosse uma propriedade sua,
e há momentos em que se me fecham os olhos.

A minha infância nem sempre foi maravilhosa.
Do passado
e do futuro
sei tudo quanto um homem pode chegar a saber.

Conheço o meu destino e conheço a minha origem,
não me resta senão resignar-me a morrer.

Não há meio-termo.

Uma a uma, explodem as estrelas.

Quando um apetite maligno me empurrava para os amores mortais,
eu escrevia poemas sobre a vida.

Agora que descobri no amor uma garantia da espécie,
agora,
tenho a morte demasiado próxima.


VARIAÇÃO VINYOLI

Por que razão deveria abrir os olhos,
se o que me rodeia já está dentro de mim.

Em vão perco o que em vão procuro.
Olhando sem olhar,
tocando sem tocar, ouvindo
sem que até mim chegue já som algum,
imóvel,
igual a uma pedra.

Pouco a pouco,
o oculto e o visível transformam-se num só
como o rio
e a sua sombra.

(E o silêncio
é escutar o coração de um anjo.)

Ponho à prova o presente:
o seu ponto de chegada sem chegada.

Pergunto-me quem sou,
quem és,
quem somos.

De pé, em frente ao abismo do silêncio,
começa a outra noite.

[in A Caixa Negra, trad. de Manuel de Freitas, Averno, 2009]

Correntes d’Escritas – um mês depois

A 10.ª edição das Correntes d’Escritas acabou faz hoje um mês e, como de costume, não coloquei aqui nem um décimo do que poderia ter colocado. As notas soltas estão a um canto, as fotografias não chegaram a ser tratadas e o ritmo diário depressa afastou a ilusão de que «um dia destes passo isto a limpo». Ainda assim, acho que se justifica recuperar, nem que seja para que conste no arquivo, o texto de balanço que publiquei no Expresso logo no sábado seguinte (21 de Fevereiro):


Mesa 10 (“A Literatura é o sentido último das coisas”) Da esquerda para a direita: José Manuel Fajardo, Hélia Correia, Xosé Maria Alvarez Cáccamo, Maria Flor Pedroso (moderadora), Miguel Real, Maria Teresa Horta e Onésimo Teotónio de Almeida

O MILAGRE DA PÓVOA

«Isto é uma improbabilidade, um verdadeiro milagre», disse, visivelmente embevecida, a escritora Hélia Correia. E disse-o logo a abrir a sua intervenção numa das dez mesas-redondas que voltaram a levar, durante quatro dias (11 a 14 de Fevereiro), centenas de espectadores por sessão ao Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, palco principal da 10.ª edição das Correntes d’Escritas. Em ano redondo, que permitiu aumentar o orçamento, este encontro de expressão ibérica reuniu de novo autores portugueses, espanhóis, latino-americanos e africanos (desta vez, mais de 120) em animadíssimos debates sobre temas literários.
Ano após ano, o espanto dos convidados repete-se ao verem a plateia repleta, mesmo nas palestras que começam às dez e meia da manhã, em dias de semana. Ou ao aperceberem-se do interesse despertado nos espectadores pelas comunicações, que suscitam quase sempre saraivadas de perguntas no final, por vezes contidas a custo por quem tem a função de moderar as conversas. Mais difícil de explicar ainda é o facto deste «fenómeno raríssimo» acontecer precisamente numa pequena cidade do norte do país, periférica em relação aos grandes centros culturais.
Manuela Ribeiro, uma das co-organizadoras do encontro, reconhece que há algo de inexplicável à volta das Correntes, um ambiente único que propicia o convívio informal entre os escritores e o público, que adere em massa, mas sublinha que «por trás disso tudo há muito trabalho». De 2000 para cá, a equipa, formada integralmente por funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim – que durante o resto do ano assumem tarefas que nada têm a ver com estas –, foi-se aprimorando. «Costumo dizer que esta é uma estrutura profissional composta por amadores», diz Manuela, para logo acrescentar: «Amadores no sentido em que amam aquilo que fazem».
O empenho e a eficácia são reconhecidos, de forma por vezes ditirâmbica, pela maioria dos participantes. Mia Couto, por exemplo, afirmou certa vez que «o encontro está tão bem organizado que até nos esquecemos de que existe uma organização». Já este ano, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, depois de se referir a Manuela Ribeiro como «a nossa musa lusófona», lançou uma pergunta: «O que seria da literatura em língua portuguesa sem ela?» A visada, a quem o angolano Manuel Rui também chamou «a abelha-mestra das Correntes», não dá demasiada importância aos elogios, que chegam a deixá-la desconfortável. «É óbvio que o ego agradece, mas este é sobretudo um trabalho de equipa. Além disso, o entusiasmo dos participantes apenas representa, para nós todos, um acréscimo de responsabilidade.»
Ao perfazerem dez edições, as Correntes d’Escriras voltaram a crescer. Houve mais convidados (perto de 130, contra apenas 70 em 2008), mais editores presentes, mais lançamentos de livros, mais actividades paralelas, mais visitas de escritores às escolas do concelho (passaram de nove para 24, quase o triplo) e mais público (de 6000 em 2008 para cerca de 8500). «Houve pessoas que vieram de Sintra, de Coimbra, de Aveiro, nalguns casos tirando dias de férias, para poderem estar aqui», lembra Manuela, para quem as expectativas, «que já estavam lá bem no alto», foram todas superadas. «Foi perfeito, não podia ter corrido melhor. E, se havia algum risco neste crescimento, a verdade é que era um risco calculado, calculadíssimo.»
Recuperando tópicos de outras edições, as dez mesas-redondas discutiram temas que eram cada um mais ardiloso do que o outro: “Os desafios da escrita”, “Estou farto de palavras”, “O olhar escreve ou melhor a caneta vê”, “O medo ou o fascínio do desconhecido”, “Por onde me levam os livros”, “É literatura tudo o que não é evidente”, “A rua faz o livro”, “Escritas no vento, a universalidade da literatura”, “A literatura é o sentido último das coisas” e “O desafio da folha em branco”. Face a estes verdadeiros bicos-de-obra, a maior parte dos escritores, depois de se queixarem da tarefa inglória que lhes coube em sorte, optaram por contar histórias pessoais ou relatos concretos das suas experiências literárias. Também houve interpretações teóricas e densas, mas o “espírito” das Correntes privilegia o depoimento vivo, com ritmo, sentido de humor e capacidade de improviso.
Foi o que aconteceu, por exemplo, na mesa 8 (“A rua faz o livro”), moderada por Carlos Vaz Marques, com Eloy Santos, Santiago Gamboa, Fernando Pinto do Amaral, Sergi Doria, Francisco José Viegas e Gonçalo M. Tavares. Enquanto os dois primeiros oradores leram textos reflexivos sobre a matriz homérica (Santos) ou a arte de ficcionar (Gamboa), os dois últimos deambularam pelos respectivos universos: Tavares falando como escreve, atento aos achados e paradoxos da linguagem comum; Viegas partilhando histórias deliciosas sobre as reacções dos leitores aos seus romances, muitos deles (os leitores, mas talvez também os romances) incapazes de distinguir a fronteira que separa a realidade da ficção.
Outros momentos altos aconteceram na mesa 1 (Juan José Millás a lembrar que um dia destes os escritores podem ser obrigados a “desescrever”, como os agricultores que destroem as suas colheitas), na mesa 2 (uma brilhante performance do colombiano Hector Abad Faciolince, que o ajudou decerto a tornar-se o escritor que mais vendeu durante os quatro dias) e na mesa 4 (a história oral de Paulina Chiziane, que transformou o auditório num coro moçambicano).
Apesar do êxito desta 10.ª edição, as Correntes d’Escritas podem ter atingido o seu próprio limite. Se o encontro crescer ainda mais, temem alguns participantes, corre-se o risco de perder a leveza e a informalidade no convívio entre os escritores, um dos segredos do sucesso. «Temos consciência disso», diz Manuela Ribeiro. «A partir daqui, aumentar a dimensão logística será difícil, mas podemos evoluir de outras formas.» Para 2010, está previsto um downsizing, porque o orçamento excepcional deste ano de comemoração não se repetirá e «porque ainda se farão sentir, quase de certeza, os efeitos da actual crise».
Para Francisco Guedes, o outro co-organizador das Correntes, também responsável pelo encontro “Literatura em Viagem” (cuja quarta edição decorrerá entre 18 e 21 de Abril, em Matosinhos), o modelo destes acontecimentos literários pode e deve estender-se ao resto do país. «Se resulta na Póvoa e em Matosinhos, por que não há-de funcionar nas outras 306 autarquias?» Para já, Guedes estuda a possibilidade de organizar um terceiro encontro, ainda este ano, em Vila Nova de Famalicão. «O potencial é imenso. Se dependesse só de mim, se ganhasse o Euromilhões, comprava uma tenda de circo e andava em digressão, levando os escritores ibero-americanos e as suas histórias até às pessoas. Tenho a certeza de que, à semelhança do que se passa aqui na Póvoa, a tenda estaria sempre a abarrotar.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges