Do Twitter ao Facebook
Primeiro, só tinha pessoas que seguia e pessoas que me seguiam. Agora também tenho amigos (amigos que pedem para ser meus amigos, amigos que já eram amigos reais mas agora insistem em ser amigos digitais, amigos que nunca vi mais gordos, amigos que estão em listas de amigos de amigos, amigos que confirmam magnânimos a amizade que lhes peço, amigos que sugerem amigos que nem sabia que poderiam ser meus amigos, etc).
É divertido, isto das redes sociais.
Elogio de Pepe Carvalho
Por Mónica Marques.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
– Suttree, de Cormac McCarthy (Relógio d’Água), por Rogério Casanova
– O Gato de Uppsala, de Cristina Carvalho (Sextante), por Luísa Mellid-Franco
– O Principezinho segundo a obra de Saint-Exupéry, de Joann Sfar (Presença), por Sara Figueiredo Costa
– O Outro Eu, de Daphne du Maurier (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
– Paisagens dos confins – Fernando Gil, Vários Autores, org. Maria Filomena Molder (Vendaval), por António Guerreiro
– Não me F**** o Juízo, de Colin McGinn (Bizâncio), por Luís M. Coelho
– Obra Poética, de Afonso Duarte (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por António Valdemar
– A Vida da Poesia, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
’38 miniaturas’ em árabe (2)
A tradução para árabe da secção final de micronarrativas do livro Efeito Borboleta e outras histórias, publicada no suplemento literário do jornal marroquino Almonataf pelo prof. Saïd Benabdelouahed, chegou-me esta semana pelo correio.
Um amor animal
«Lá em casa viviam dez mulheres, um menino e um senhor. As mulheres eram a Tatá, que fora ama da minha avó, tinha quase cem anos e estava meio surda e meio cega; duas criadas – a Emma e a Teresa; as minhas cinco irmãs – a Maryluz, a Clara, a Eva, a Marta e a Sol; a minha mãe e uma freira. O menino, eu, amava o senhor, seu pai, acima de todas as coisas. Amava-o mais que a Deus. Um dia, tive de escolher entre Deus e o meu pai, e escolhi o meu pai. Foi a primeira discussão teológica da minha vida e travei-a com a irmã Josefa, a freira que tomava conta de mim e da Sol, os irmãos mais novos. Se fechar os olhos, ainda consigo ouvir a sua voz áspera, grossa, comparada com a minha voz infantil. Era uma manhã luminosa e estávamos no pátio, ao sol, a olhar para uns colibris que faziam o percurso das flores. Sem mais nem menos, a irmã espetou-me:
– O seu pai vai para o Inferno.
– Porquê? – perguntei eu.
– Porque não vai à missa.
– E eu?
– O menino vai para o Céu porque reza todas as noites comigo.
De noite, enquanto ela trocava de roupa atrás do biombo dos unicórnios, rezávamos pai-nossos e ave-marias. No fim, antes de irmos para a cama, rezávamos o credo: «Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis…» Ela despia o hábito atrás do biombo para que não lhe víssemos o cabelo; tinha-nos dito que ver o cabelo de uma freira era pecado mortal. Eu, que percebo bem as coisas, mas devagar, passei todo o dia a imaginar-me no Céu sem o meu pai (espreitava por uma janela do Paraíso e via-o lá em baixo, a pedir ajuda enquanto ardia nas chamas do Inferno) e, nessa noite, quando ela começou a entorar as orações atrás do biombo dos unicórnios, disse-lhe:
– Nunca mais rezo.
– Ai não? – desafiou-me ela.
– Não. Eu já não quero ir para o Céu. Não gosto do Céu sem o papá. Prefiro ir para o Inferno com ele.
A cabeça da irmã Josefa apareceu (foi a única vez que a vimos sem véu, ou seja, a única vez que cometemos o pecado de ver as suas melenas desprovidas de encanto) e gritou: «Chiu!» Depois, benzeu-se.
Eu gostava do meu pai com um amor que nunca mais voltei a sentir até ao nascimento dos meus filhos. Quando estes nasceram, reconheci-o, porque é um amor igual em intensidade, embora diferente e, de certa maneira, oposto. Eu sentia que a mim nada me poderia suceder se estivesse com o meu pai. E sinto que nada acontecerá aos meus filhos se estiverem comigo. Ou seja, eu sei que me deixaria matar, sem vacilar um só instante, em defesa dos meus filhos. E sei que o meu pai se teria deixado matar sem vacilar um só instante para me defender a mim. A ideia mais insuportável da minha infância era imaginar que o meu pai podia morrer e, por isso, decidi que me atiraria ao rio Medellín se ele alguma vez morresse. E também sei que há algo muito pior que a minha morte: a morte de um filho meu. Tudo isto é uma coisa muito primitiva, ancestral, que se sente no mais profundo da consciência, num sítio anterior ao pensamento. É algo que não se pensa, mas que simplesmente é assim, sem atenuantes, pois não o sabemos com a cabeça, mas com as entranhas.
Eu amava o meu pai com um amor animal. Gostava do cheiro dele, e também da lembrança do cheiro dele, sobre a cama, quando estava de viagem, e pedia às criadas e à minha mãe que não mudassem os lençóis nem a fronha da almofada. Gostava da voz dele, gostava das suas mãos, da pulcritude da sua roupa e da meticulosa limpeza do seu corpo. Quando tinha medo, à noite, esgueirava-me para a sua cama, e ele sempre arranjava um espaço para me acolher. Nunca disse que não. A minha mãe protestava, dizia que estava a ficar malcriado, mas o meu pai deslizava até à ponta do colchão e deixava-me ficar. Eu sentia pelo meu pai a mesma coisa que os meus amigos diziam que sentiam pela mãe deles. Cheirava o meu pai, passava-lhe o braço por cima, enfiava o dedo polegar na boca e adormecia profundamente até que o barulho dos cascos dos cavalos e as sinetas da carroça do leite anunciavam o amanhecer.
[in Somos o Esquecimento Que Seremos, de Héctor Abad Faciolince, Quetzal, 2009]
Já há data para a chegada de ‘luz indecisa’ às livrarias
2 de Abril.
As cicatrizes da memória
O Mundo
Autor: Juan José Millás
Título original: El Mundo
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-989-657-003-3
Ano de publicação: 2009
Há uma imagem que atravessa, com a energia de uma metáfora fundadora, este romance autobiográfico de Juan José Millás. Na oficina das traseiras, onde o pai reparava aparelhos de medicina, o pequeno Juanjo assiste aos testes, em bifes de vaca, do bisturi eléctrico inventado pelo progenitor: um instrumento que garantia ao mesmo tempo o golpe preciso e a sua cicatrização imediata. Anos mais tarde, ao mergulhar nas memórias de infância (desafiado pelo jornal El País, que lhe encomendou uma reportagem sobre si mesmo que nunca concluiu), tornou-se evidente a similitude entre aquele instrumento e uma caneta: «Quando escrevo à mão, num caderno, como agora, acho que me pareço um bocado com o meu pai quando estava a experimentar o bisturi eléctrico, pois a escrita abre as feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo.»
As cicatrizes dos primeiros anos – da problemática mudança de Valência para Madrid (onde o esperava a pobreza e o frio) ao desatino adolescente que o levou ao seminário – são justamente a matéria-prima deste livro em que Millás se entrega à reinvenção literária da sua vida. Uma reinvenção feita em estado de transe, tocada por uma espécie de «febre» que transfigura a simples realidade dos factos. Tudo o que se narra pode ter acontecido, mas decerto que não aconteceu exactamente assim. A biografia é apenas a paisagem, o «cenário», o pretexto para a literatura.
Mais do que um romance, este livro é «um processo metabólico», uma coisa arrancada a ferros lá onde mais dói, um testemunho de quem atravessa o espelho sabendo que está a atravessar o espelho. Millás circula pelos espaços míticos da infância (a rua de Canillas, «espécie de maqueta do mundo» que reencontrará noutros lugares; a casa familiar; o imaginado Bairro dos Mortos) e reelabora vários momentos traumáticos (a relação difícil com a mãe; a perda do amigo Vitaminas; os descalabros amorosos; a dificuldade de deitar as cinzas dos pais ao mar). Mas estas deambulações são evocadas com um certo distanciamento, como se tudo aquilo – as euforias e as tragédias – fosse vivido por outrém, por essa personagem que construiu para si próprio e que vai, sintomaticamente, abandonar na última página.
Com a sua «textura onírica», algures entre a normalidade quotidiana e a esfera da alucinação (a «hiper-realidade» descoberta ao espreitar pela janela de uma cave, na mercearia do pai do Vitaminas, e que se tornará um ideal platónico para o narrador), O Mundo alterna estados delirantes, «frágeis como bolas de sabão», e momentos de uma lucidez implacável. Talvez porque é mínima a distância entre os extremos: «Às vezes sonho com uma escrita que me afunde e me eleve, que me adoeça e me cure, que me mate e me dê a vida.» É dessa escrita que se faz este livro magnífico.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
Ver no dicionário a palavra ‘árvore’
Depois de se terem juntado numa campanha de reciclagem de dicionários, a Porto Editora e a FNAC associaram-se num programa de reflorestação que plantará mil novas árvores no concelho de Castro Daire, já na próxima segunda-feira. Eis o texto integral do press-release que anuncia a iniciativa:
«Ao todo, são mil novas árvores. Quinhentos pinheiros bravos e quinhentos carvalhos serão plantados no concelho de Castro Daire, resultado de uma campanha de reciclagem de dicionários
promovida pela Porto Editora e pela FNAC.
A acção de reflorestação realiza-se no próximo dia 16 de Março, a partir das 10h00, numa área ardida do concelho de Castro Daire e abre a Semana Florestal que aquele município organiza anualmente.
O objectivo da Porto Editora e da FNAC é o de sensibilizar a sociedade e, em especial, as crianças e os jovens, para a importância de cuidar e preservar a nossa floresta, elemento fundamental para o equilíbrio do meio ambiente e, consequentemente, para o bem-estar de todos nós.
Esta iniciativa da Porto Editora e da FNAC conta com o apoio da Câmara Municipal de Castro Daire, envolvendo a participação de professores e alunos da Escola EB 2,3 de Castro Daire, da Escola Secundária de Castro Daire e da Escola EB 1,2,3 de Mões. De sublinhar, também, que esta acção tem o apoio a ANEFA – Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente.
De referir que a Porto Editora vai oferecer a cada uma das escolas participantes uma biblioteca de dicionários completa, no valor de 250 € cada.»
Falso alarme
Afinal, ele ainda cá anda.
Cinco milhões de livros
Livros em segunda mão. Livros ao abandono. Livros à mercê de quem os quisesse apanhar.
Aconteceu em Inglaterra, quando o principal fornecedor de livros em segunda mão da Amazon abandonou o enorme armazém onde guardava os seus stocks.
[via Bruaá Editora]
Novidades da Assírio & Alvim e Dom Quixote
Da Assírio & Alvim podemos esperar, a partir de dia 19, os seguintes livros: Recordando a Babilónia, de David Malouf; Em cada Pedra um Voo Imóvel, de Fiama Hasse Pais Brandão (toda a sua ficção e teatro); A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket, de Edgar Allan Poe; e Silêncio a Silêncio, de Moirika Reker e Gilberto Reis.
Na Dom Quixote, em Abril, sairão O Planalto e a Estepe, de Pepetela; A Guerra da Meseta, de Artur Portela; Love, de Toni Morrison; além de mais um volume (o segundo) das Obras Completas de Urbano Tavares Rodrigues e duas reedições de Marguerite Yourcenar (A Obra ao Negro) e John Le Carré (O Espião que Saiu do Frio).
Quinta frase, página 161
O desafio chegou-me do Francisco José Viegas. E como ando a ler Proust era um Neurocientista, de Jonah Lehrer (Lua de Papel), o resultado é este: «De facto, A Sagração [da Primavera] está repleta de tons consonantes e de alusões às velhas melodias folclóricas russas.»
Passo o testemunho ao Pedro Vieira, ao Francisco Frazão, à Sara Figueiredo Costa, à Ana Cristina Leonardo e ao Rogério Casanova (a ver se ele ressuscita o blogue).
A próxima capa
Pré-publicação: ‘Deslizamento’
Eis dois pequenos contos de Jorge Listopad, incluídos no livro Deslizamento (QuidNovi), prestes a seguir para as livrarias:
O comboio de Dita
Para Manuel Gusmão
Vivemos nele. Comboio, este comboio é frio, cheio de soldados que estão a voltar às casernas. É um fim de domingo. Nesse compartimento, sou o único que não está fardado. Mais ela, a rapariga pálida de cabelos loiros, sujos. Ou então é a luz na carruagem que lhe cria a palidez e o resto. Na rede, em cima, as caixas e os sacos militares. A porta do compartimento está a abrir-se a fechar-se; entram outros militares, camaradas, com garrafas de cerveja na mão. Parece-me que é Dezembro, princípio de Dezembro.
A rapariga está quieta, e, tal como eu, não sei porque escolheu este compartimento. Talvez porque houvesse nos outros muitas malas em cima dos bancos e nos corredores. E para mim, que não estou fardado, mais perigosos. É pena que não caísse neve para iluminar um pouco a paisagem nocturna, lá fora. Dois soldados estiveram a falar um com o outro, mas já se calaram cansados, meio adormecidos.
Não sei nada. Isto é a guerra? Ou será apenas a sua ameaça? Aparentemente, só aparentemente, estamos sem destino.
– Você também é alemão? – pergunta-me a rapariga. Não sei o que responder, por prudência.
Pergunto à Renée o que vai ela fazer assim grávida. Mas isto já é, evidentemente, outra situação, outra época, noutro país. Não se trata da Renée com quem vivi dois ou três anos, ou mais – é outra Renée, embora parecida com ela.
É o último dia que aqui estou. Tento dar a impressão de um homem tranquilo, que viaja normalmente para outra cidadezinha, perto da fronteira.
– C’est impossible – digo eu. – Qu’est-ce qu’on fera? O marido dela está, não está, está a trabalhar. É simpático, dirige uma secção da UNESCO, que ainda está situada na avenida Kléber. – Não se pode brincar com as crias, digo, com algum mau gosto.
Adivinha-se que nos sacos dos soldados, ou pelo menos de alguns, há roupa limpa. Aliás, são matulões lavados, que parecem mais limpos do que é habitual. Mas cheiram a cerveja. Agora não bebem.
Paixão. Vamos estudar juntos Paul Klee. As nossas baixezas são as assimilações às situações. Creio no que estou a dizer. Paris dégueulasse, terra batida e cultura para os outros.
Mas nada disto eu sabia ainda. Na última estação possível desci, tal como eles, os soldados; Dita, a rapariga, nunca mais a vi. Passei ilegalmente a fronteira para a Suíça, entre a morte e a vida.
Foi isto que aconteceu no comboio da Dita, o resto começou depois.
Entre a claridade e as trevas, entre a memória e o esquecimento, pouco espaço.
O cerco de Kafka
A medalha Franz Kafka chegou por correio com outras cartas, encomendas e folhetos. Foi uma surpresa absolutamente inesperada. Fui à janela para verificar se já tinha começado a nevar. Esqueci-me que estava em Lisboa; a última vez que nevou, durante alguns minutos, foi nos anos sessenta. A máquina da meteorologia local é diferente.
Kafka não é um acaso, mas também não é o destino. À primeira vista tenho qualquer coisa em comum com ele, nos lados literário e existencial, e por isso deixou cedo de me interessar. No mundo começaram a acontecer coisas inenarráveis e, assim, passei a confiar apenas na segunda – ou em nenhuma – vista. Evitava Kafka, não como o diabo mas como um vizinho incómodo que partilhasse connosco a mesma varanda. A sua literatura parecia-me impotente,
enferma, friorenta, auto-hipnótica; de ânimo sufocante causado por uma doença imaginária. Filme a preto e branco numa cópia acinzentada. Escrevi sobre ele uma boa porção de artigos informativos e até reflexões e estudos, mas sempre a pedido de outros, redactores e instituições estrangeiras que nos pressentiam ligados por um parentesco. Na área do teatro, dramatizei os seus contos. Quanto menos estudava Kafka, mais sabia sobre ele e reconhecia a sua realidade antipática.
Kafka é o micélio. Aquilo que não se vê. E nós apenas registamos o que, a partir do substrato complexo e oculto, cresce à luz do mundo. Luz do bosque ou luz da cidade gótica. Chamemos-lhe lusco-fusco. Sombra da sombra. Não há muita coisa objectivamente inegável. Como nos icebergues do mar polar: nove décimos vogam na escuridão das águas.
Kafka nasceu demasiado cedo e demasiado tarde. A medalha de ouro, que eu também recebi demasiado cedo e demasiado tarde, tenho-a exposta no soco estreito da lareira, com um seixo em forma de coração que o ano passado encontrei numa praia amada, com um bilhete de comboio para Kolín, com um gancho de cabelo de H., com uma pedra de âmbar onde ficou imobilizado um insecto sem nome e sem tempo, ao lado de uma pequena cruz polaca de madeira de choupo-tremedor. A lareira, no Inverno húmido deste país meridional, de vez em quando aquece-me.
Escrever quer dizer ir confessando e apagando os rastos.
O rosto de Shakespeare

Parece que afinal o Bardo era assim. Ler sobre o assunto aqui e aqui.
Três poemas de Nunes da Rocha
COMUNIDADE
Quisera um alguidar sob
O pescoço da galinha
Logo por cima da televisão
Quisera uma taça de vinho
A nódoa roxa na camisa
De domingo
O canivete, clac, na ponta da unha
Quisera uma alcunha
Que a toda a gente pagasse
A amizade cheia até cima
A rasar os lábios estendidos
Um croquete, pastel de bacalhau
A recolha do óleo na discrição
Da manga da camisa às calças
E daí advir uma braguilha mais alta
Porque a Fátima (oh, a Fátima de avental!)
Faria cabidela para a finalíssima
da Taça de Portugal
CROMO 1
À porta da Estrela da Parreira,
À segunda visão rimbaldina,
Sebastião da Falagueira
Emborcou a terceira de vinho.
Ao espasmo do Sol e à estafa
Do bairro, recitou o poema garrafa:
Olhai ácaros, hemípteros,
Bicha solitária!, vós meus irmão
Em corpo e destino:
Tomaremos de assalto a Beleza
e nada restará desta botelha;
Olhai que o belo pode ser branco
Ou tinto, inteiro ou com mistura,
A uva que importa se o que importa
É da alma a descompostura.
EPICURO NA TABERNA
Encosta a larga barriga
Ao balcão negro da taberna;
E no modo como sorve a jeropiga
(chapéu para a nuca,
Cigarro pendente)
Reconhece no espelho o claro
Entendimento do mundo:
É no gerundo que um verbo se conjuga
E, se um copo não chegar, não esquece,
Há outra nota, dentro da peúga.
[in Cancioneiro da Trafaria – Eróticas, mitologias de Borda d’Água, burlescas assim-assim, da matulagem & pesca à linha seguido de Alguns cromos e basbaques pelo Graça, o Orfeu da Reboleira, que Nunes da Rocha dedica à memória do poeta António Lobo de Carvalho, o Lobo da Madragoa, &etc, 2009]
Emendas
O texto do post anterior levou muitas voltas, mas mesmo muitas, a maior parte delas depois de ter sido publicado há cerca de uma hora. A quem o tenha lido neste período, se tiver paciência para tanto, sugiro uma releitura.
Já agora, os ecos do jantar vão-se espalhando pela blogosfera. Mais relatos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Um jantar memorável
Onde – A Licorista (um restaurante muito em conta, na R. dos Sapateiros, Lisboa).
Quando – Uma noite da semana passada (quarta? quinta? o que é que isso interessa?)
Quem – Bastantes pessoas (aquilo a que os senhores da restauração chamam um grupo: mais de dez, menos de vinte).
Porquê – Ninguém faz a minímina ideia.
Como – É aqui que as coisas se tornam interessantes, como perceberá o leitor ao acompanhar o relato que se segue, por ordem cronológica (quase minuto a minuto), à maneira dos sites de futebol e de certos exercícios de maldade bloguística.
Ora então foi assim:
20:37 – Olho à volta: só três macacos à porta da Licorista. O resto da malta encara de forma um bocadinho elástica a expressão oito e meia.
20:52 – Os convivas lá chegam a conta-gotas: enregelados, alegres, atrasadíssimos. Tão portugueses.
21:00 – Entramos em cima da meia hora da praxe, as vozes a misturarem-se, uma procissão de casacos a atafulhar os cabides.
21:08 – Pacotes miniatura de manteiga abertos, pastéis de bacalhau (bem bons) e ninguém se atreve a fazer a pergunta: «Será que ele vem mesmo?»
21:10 – Sem se conseguir conter, a Isabel Coutinho faz a única pergunta que lhe acode ao espírito desde que jantou no Bairro Alto com o Paolo Giordano: «e então, acham que ele é sobredotado?» As pessoas disfarçam, fingem olhar para o telejornal, mas eu não escapo: «se já perguntaste uma vez, o que é que te custa perguntar outra?» Desdobro o guardanapo e coloco-o no meu colo, enquanto respondo: «Isabel, Isabel, é melhor esqueceres essa história do italiano, já te disse. Olha lá, por que é que não vês quem é que anda a dizer o quê no Twitter?» Os olhos dela iluminam-se e nunca mais ouvimos a sua voz, só o leve murmúrio das pontas dos dedos, matraqueando suavemente o ecrã táctil do iPhone.
21:19 – Francisco José Viegas continua com um ar exausto. Não é fácil, estar uma hora e meia ao lado de Maria José Morgado (o Darth Vader do F. C. P., a nemésis de Pinto da Costa), ainda por cima num debate literário.
21:24 – Os Booktailors passam este minuto a conspirar, com sorrisinhos melífluos, sobre tudo o que se passa no mundo dos livros em Portugal, na Europa, no Planeta Terra, no Sistema Solar, na Via Láctea e mais além. «Sabem que é que vai comprar a Far as Hell Publishers, a mais importante editora de Alfa do Centauro e arredores?» Toda a gente suspende as conversas, alguém manda baixar o Jornal Nacional da TVI. Resposta de Paulo Ferreira: «Pois bem, vejam amanhã no nosso blogue.»
21:32 – Começam a chegar os primeiros pedidos: costeletas de encher o prato, bacalhau com natas. O restaurante recebeu um importante prémio gastronómico pelo seu afamado Bacalhau à Braz. Previsivelmente, não há Bacalhau à Braz. Mas há bacalhau com grão. E essa mera possibilidade, prevista num canto da lacónica ementa, foi como que o detonador da chegada dele. Do próprio. Porque toda a gente sabe que Rogério Casanova só come bacalhau com grão, ao almoço e ao jantar, durante 365 dias por ano (366 nos bissextos).
21:35 – E eis que ele aparece. O mais parecido com isto que alguma vez vi foi uma aurora boreal (mentira). Mas acho que até uma aurora boreal coraria de vergonha, se andasse pela Baixa e se cruzasse com uma coisa assim. Coisa é a melhor palavra, realmente. Já assombro, embora seja uma palavra pequenina para descrever a descarga eléctrica que encheu de luz e pavor a Licorista, parece-me capaz de se aguentar à bronca. Vou resumir então a coisa ao mais minimalista dos inventários: sapatos Manolo Blahnik (com tacões agulha de dez andares e uma cobertura de cristais Swarowski, a desenhar um R num dos pés e um S no outro); um vestido metalizado com fechos em ouro, resultado de um brainstorming entre Jean-Paul Gaultier (depois de uma tarde a contemplar os operários nos estaleiros de Saint-Nazaire), o par Dolce & Gabbana (ressacado de uma festa onde as drogas tinham nomes de cometas) e Fátima Lopes, convalescente de uma operação plástica à sua franja. Por cima disto tudo: um top em angorá, cor fúchsia; um gorro de astracã; uma écharpe em caxemira com delicados padrões fractais; e um crachá branco com letras vermelhas, que diz: «Eu sei onde mora o Thomas Pynchon. Pergunte-me como».
21:38 – Enquanto se livra dos atavios, Rogério Casanova diz para todos: «Vou só ali à casinha. Já volto.» Observador atento, julgo ter sido o único a aperceber-me de que o rímel esborratado, mesmo por baixo dos olhos, replica de forma admirável os contornos, nem sempre firmes, do vasto delta do Zambeze.
22:10 – Rogério Casanova sai do WC transfigurado [como podem constatar no fim deste post]. Algumas pessoas já vão na sobremesa, há mesmo quem peça cafés. Impávido, Rogério Casanova senta-se, consulta o menu e insiste no mantra: «Bacalhau com grão».
22:50 – A previsibilidade, no entanto, termina ali. Nos últimos 40 minutos, mas não necessariamente por esta ordem, Rogério Casanova construiu uma caravela com palitos (velame = guardanapos), dançou sapateado em cima da mesa ao estilo do Lord of the Dance (conseguindo ser talvez um nadinha mais frenético do que o próprio Michael Flatley), recitou em voz alta e de cor os 53.478 caracteres do último artigo de James Wood para a New Yorker, desenhou na toalha de papel uma quimera sportinguista assustadora (cabeça de Romagnoli, corpo de Miguel Veloso, pés de Rodrigo Tiuí), fez um minuto de silêncio em memória do esfíncter de John Updike (sem se aperceber que o resto do pessoal se estava a, enfim, marimbar para isso), alinhou uns quantos números de prestidigitação em que a única coisa que desaparecia era o fio do seu raciocínio e repetiu 163 vezes a pergunta: «Já te disse que sei desarrincar uns anagramas porreiros?».
23:08 – O massacre continua. Rogério Casanova não pára, não abranda, não larga. Já faltou mais para alguém chamar a polícia.
23:21 – Bocas caladas. Apenas o barulho do multibanco a imprimir papéis para os que pagam com cartão. O restaurante todo – até mesmo as cadeiras, as mesas, as paredes e o painel de mármore com o «flagrante delitro» de Pessoa – parece tremer. O silêncio é semelhante ao que se segue aos grandes sismos, aos maremotos, aos apocalipses. Rogério Casanova está encostado à porta de vidro, olhando melancólico lá para fora, para o mundo, para a realidade, para tudo isso que nunca fica verdadeiramente nos livros.
23:34 – Casacos, chapéus-de-chuva, rituais de pré-despedida, uma gargalhada como o pontapé que se dá nas brasas, a ver se ainda vale a pena reacender a fogueira.
23:35 – Não vale a pena.
23:37 – As luzes começam a apagar-se dentro da Licorista. Por muito subtil que seja a linguagem gestual dos empregados, o que eles estão a fazer, repetindo n vezes «Boa noite, boa noite, até à próxima», é enxotar-nos. E enxotados saímos para a rua, à espera do flash que eternize este memorável jantar.
23:49 – E agora, tchanan, tchaNAN, TCHANAN, eis a fotografia de grupo, tirada por um dos empregados de mesa (o mais paciente dos seres humanos, garanto-vos), imagem que desvenda por fim o que faltava desvendar:
Rogério Casanova é o segundo a contar da direita. Sim, esse mesmo. O da gravatinha berrante e carinha de totó. Sim, a improvável mistura do homem da Regisconta com o Pedro Miguel Ramos. É ele. O único, o verdadeiro, o maior.
Depois despedimo-nos calorosamente e fomos todos para casa.
Grandes Ideias
Jeff VanderMeer é um talentoso e hiperactivo escritor norte-americano, com uma obra ficcional que pode ser arrumada – embora este tipo catalogação seja sempre redutora – no género Fantástico. Aos 40 anos, tem já uma razoável bibliografia (quatro romances, oito volumes de contos e a assinatura em várias antologias), além de colaborações regulares na imprensa e vários poisos na blogosfera. A Portugal chegou apenas, por enquanto, a novela com que ganhou um World Fantasy Award em 2000 (A Transformação de Martin Lake, Livros de Areia, 2006).
No ano passado, Jeff decidiu concentrar-se no seu último romance (Finch, com edição prevista para Outubro, na Underland Press) e durante seis meses desligou-se praticamente do mundo, reduzindo ao mínimo o tempo passado na Internet. Quando acabou esta maratona literária, para descomprimir, decidiu oferecer-se «um pequeno desafio». Ou seja, outra maratona literária. Num e-mail enviado a Colin Brush, da Penguin Books, propôs: «Se me enviar os 60 volumes da vossa série Great Ideas, escreverei as respectivas recensões em 60 dias.» Leram bem: 60 textos sobre 60 livros, em 60 dias. Dito de outro modo: em dois meses, o trabalho que um crítico literário costuma fazer em dois anos.
Os amigos de VanderMeer oscilaram entre considerá-lo «louco» e «parvo», mas Colin Brush gostou da ideia e enviou-lhe pelo correio as ditas seis dezenas de livrinhos com obras maiores de grandes autores que «mudaram o mundo» – Platão, Cícero, Maquiavel, Rousseau, Darwin, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Voltaire, Marco Polo, Sun-Tzu, O Manifesto Comunista de Marx e Engels, etc. – «resumidas» a 128 páginas e sem extratextos. Desde 15 de Dezembro, Jeff ainda não fraquejou: todas as noites lê um livro, por vezes razoavelmente denso, sobre o qual escreve na manhã seguinte, com uma pontualidade exemplar e imune a circunstâncias que costumam distrair os outros humanos, como os feriados do Natal e Ano Novo.
A estrutura dos posts não varia. Começa com uma citação memorável; a seguir vem a sinopse; logo depois meia dúzia de parágrafos em que VanderMeer discute os principais argumentos do livro, muitas vezes partindo da experiência concreta da leitura ou de pequenas histórias pessoais; por fim a conclusão telegráfica e uma pergunta provocadora, geralmente capaz de gerar debates profícuos na caixa de comentários. Exemplo de uma sinopse (Confissões, de Santo Agostinho): «Uma viagem do pecado à epifania e à redenção, no contexto de uma fé palpável na fisicalidade de Deus, mas também no mundo enquanto realidade abstracta». Sobre Séneca, Jeff conclui que o filósofo romano, se vivesse hoje, «não desperdiçaria tempo a procurar referências ao seu nome no Google». Já quanto a Montaigne, uma certeza: «nunca seria companheiro de copos de Dylan Thomas».
Embora recorra muitas vezes ao humor, VanderMeer aborda esta «constelação de livros», como lhe chamaria Gabriel Zaid, da forma mais séria possível. O resultado, quase sempre brilhante, pode ser lido no seu blogue – Ecstatic Days – até 19 de Fevereiro.
PS – Devido a compromissos profissionais, VanderMeer ainda não acabou a sua odisseia livresca. Mas, como ele próprio explica aqui, o projecto não foi abandonado, apenas suspenso.
[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]
Pedro (que se chama Rui) continua a procurar Inês
Há uns anos, o Rui Faustino, quando ainda era estudante na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, criou um verdadeiro hype analógico em Lisboa, sem qualquer recurso à parafernália tecnológica que hoje permite fazer coisas giras em três tempos, desde que se tenha, para além da boa ideia, o telemóvel, a máquina fotográfica, a câmara de vídeo e acesso à Internet (YouTube, redes sociais, etc.). Naquele tempo não havia nada disto; ou, se havia, esses meios ainda eram algo de muito incipiente, algo que acontecia lá bem longe, onde os fenómenos globais começam.
A ideia do Rui Faustino, como já devem ter percebido, passava por conquistar uma miúda chamada Inês e ele não se poupou a esforços. Quer em telas de vários metros de altura, montadas junto à estátua de Camões, no Chiado, quer junto ao portão da Avenida de Berna, Faustino foi colocando, sob a capa do anonimato, exaltadíssimas mensagens de amor. A dita Inês, porém, não se comoveu. Desmentindo cruelmente os happy ends de milhares de comédias românticas, «enrolou-se com o guitarrista da sua banda rock», para usar as palavras do poeta desiludido, e aniquilou a performance. Curiosamente, a sedução pelas palavras e pelo gesto, que falhou o alvo a que se destinava, acabaria por arrebatar a sensibilidade de Eduardo Prado Coelho, que dedicou à história uma das suas crónicas no Público (escasso consolo para o amante, podemos dizer, mas consolo ainda assim).
Agora, uns aninhos depois, a Inês é outra mas o Rui (isto é, o Pedro, que entretanto aprendeu o poder da mitologia amorosa nacional) é o mesmo. A demanda vai sendo narrada, com cópia de detalhes e mensagens de apoio, aqui. E nas últimas semanas, vi de facto umas dezenas de cartazes feitos à mão, com cartolina e papel A3, ali para os lados da Graça. Eis alguns exemplos, não fotografados por mim:



Infelizmente, a maior parte já foi rasgada, revelando alguns óbvias marcas de uma destruição feita com ímpeto, com violência, talvez com raiva. E eu pergunto-me: quem andará a apagar os rastos deixados pelo Pedro/Rui? Será o namorado da Inês? Será alguém que não tolera uma fé tão inquebrantável (e provavelmente ingénua) nas forças da paixão? Será a própria Inês?
Quem é Rogério Casanova? (A REVELAÇÃO)
Vai ser às 15h00 em ponto, neste blogue (e talvez noutros), com direito a fotografia e tudo. Estejam atentos.
A arca de Bolaño
À medida que avança a catalogação dos arquivos de Roberto Bolaño, começam a descobrir-se tesouros atrás de tesouros. Depois do agente Andrew Wylie ter anunciado a descoberta do romance inédito El Tercer Reich, que será publicado em breve, surge agora a notícia de mais dois romances inéditos do genial escritor chileno, encontrados entre os seus papéis: Diorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora.
«El futuro del archivo, un mar de libretas y cuadernos de todos los tamaños, una vez inventariado, será seguramente una universidad. Adentrarse en sus páginas requiere la paciencia del paleólogo o del domador de pulgas», escreve o jornalista do La Vanguardia.
Estaremos na presença de um novo fenómeno pessoano, pelo menos na extensão e complexidade do material deixado para os seus futuros estudiosos?
Regressos ao futuro
Slam – A vida como ela é
Autor: Nick Hornby
Título original: Slam
Tradução: Rita Graña
Editora: Teorema
N.º de páginas: 305
ISBN: 978-972-695-778-2
Ano de publicação: 2008
Um dos maiores flagelos sociais do Reino Unido tem sido a elevadíssima incidência de gravidezes adolescentes, que ocorrem em muito maior número nas ilhas britânicas do que em qualquer outra parte da União Europeia. Sabendo-se que os métodos tradicionais de luta contra o problema (o esclarecimento público, a distribuição de preservativos, etc.) não parecem dar grandes resultados, talvez fosse de sugerir ao governo de Gordon Brown uma medida mais radical: a leitura obrigatória de Slam, o livro em que Nick Hornby mostra como a chegada precoce de um bebé pode transtornar a vida de um jovem que nem sequer sabe ainda muito bem o que é o amor, quanto mais o que é (ou deve ser) a paternidade.
O narrador desta história é Sam Jones, um rapaz banalíssimo e adolescente até à medula. Aluno mediano, come no McDonalds, bebe frappuccinos no Starbucks, ouve Green Day, vê televisão em doses industriais e dá cabo do juízo da mãe, uma divorciada de 32 anos que o teve aos 16. A paixão maior de Sam é andar de skate e tudo o que lhe acontece no dia-a-dia, dos encontros com um amigo meio lerdo (Rabbit) aos curtos namoros, é partilhado com Tony Hawk, «a J. K. Rowling dos skaters», cujo póster colado na parede faz as vezes de amigo imaginário. Sempre que tem dúvidas, elas são postas à consideração da imagem bidimensional de Hawk e a imagem bidimensional de Hawk responde-lhe com frases retiradas da respectiva autobiografia – «o melhor livro alguma vez escrito», segundo Sam, que o leu dezenas de vezes (e por isso o sabe de cor).
As coisas começam a complicar-se quando Alicia, uma rapariga igualmente banal, se atravessa no seu caminho e o azar, ou a inconsciência, faz com que engrossem a estatística a que nos referimos no início deste texto. As consequências são as que se adivinham: crises familiares, dramas telenovelescos, o pânico de crescer à força. Se a mãe de Sam desespera com a repetição do erro que ela própria cometeu, os pais de Alicia, do alto da sua snobeira de classe média-alta, ficam horrorizados com o facto de a filha nem sequer ponderar um aborto, deitando assim às urtigas os planos que para ela haviam traçado.
O principal mérito de Hornby, além da escrita desenvolta e divertida, é conseguir colocar-se no lugar de Sam e escrever como ele de facto escreveria, nunca caindo em moralismos fáceis, nem sequer quando a narrativa salta no tempo (à laia do filme Regresso ao Futuro), permitindo ao protagonista espreitar por duas vezes a sua vida uns meses depois, já como pai que não sabe muito bem como é que se leva, por exemplo, um filho às vacinas.
Avaliação: 6,5/10
[Texto publicado no n.º 77 da revista Ler]
Tinta da China oferece livros no Twitter
Depois de ter criado uma conta no Twitter para o livro O Japão É Um Lugar Estranho, a Tinta da China lançou, também no Twitter, «um concurso em que vai atribuir livros aos autores das frases mais criativas acerca do prazer (ou da angústia, ou do receio, ou do desejo) de viajar».
Enviadas via Twitter, todas as frases a concurso devem ter este formato: @JAPAOcarey [texto do concorrente] (ver http://bit.ly/Bpegu). Serão escolhidas as três melhores frases: o primeiro classificado receberá três livros da colecção de literatura de viagens da Tinta da China, o segundo classificado dois e o terceiro premiado um.
Os concorrentes podem candidatar-se com quantas frases quiserem. Em caso de desempate, o maior número de frases de um candidato será tido em conta. Ao fim de uma semana, os vencedores serão anunciados publicamente pela conta de twitter do livro O Japão É Um Lugar Estranho.
Novo livro de Jorge Listopad
Intitula-se Deslizamento (QuidNovi) e «perambula» por diversos géneros: conto, microficção, teatro, vinheta, memória. Lembra a editora:
«Jardineiro do real, respigador de memórias pessoais e colectivas, pequenas e grandes, delicadas e graves, Jorge Listopad cultiva a escrita e a ficção com a leveza que só quem viveu muitas vidas e amou muitas línguas poderia fazer. Em cada estação se cumprem os desígnios da escrita: “Escrever quer dizer ir confessando e apagando os rastos.” Em cada estação, novos encontros: grandes nomes da cultura europeia e portuguesa descem as áleas de braço dado com mínimas e secretas ficções, encenações, amores inquietos, nostalgias de sabores perdidos. Da árvore milenar à erva do baldio suburbano, o prosaico poético vai da periferia para o coração da Europa e volta. Ou será o contrário?»
O livro será lançado no dia 24, pelas 19h00, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, com apresentação de Pedro Mexia.
Errata
É mais forte do que eu: no poema de Melville transcrito no post anterior, onde está «icebergue» eu leio «Moby Dick».
Um poema de Herman Melville
O ICEBERGUE
(um sonho)
Vi um barco de porte marcial
(De flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa –
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.
Ao longo das escarpas de pálidos cumes,
Nem um ínfimo, frágil raio de luz,
Um prisma sobre os solitários desfiladeiros de verde espelhados,
Vacilou; ou rendas de fino recorte,
Nem ínfimos pendentes em grutas ou minas
Se agitaram quando o perplexo barco se afundou.
Nem as solitárias nuvens de gaivotas, descrevendo
Círculos em torno de um distante cume coberto de neve;
Mas as aves mais próximas, as massas de gelo deslizando
E as praias de cristais, tão pouco se agitaram.
Tremor algum agitou a base
Do feixe de frágeis agulhas de gelo;
Torres escavadas pelas vagas – rochedos
Suspensos, instáveis – imóveis persistiram.
Gaivotas, dormitando lustrosas em escorregadios recifes
Não escorregaram quando, impelido em diante
Pela força da sua própria inércia,
O impetuoso barco, perplexo, se afundou.
Insensível icebergue (pensei), tão frio, tão vasto,
De mortais névoas envolto;
Exalando ainda tua respiração húmida e fria –
À deriva dissolvendo, suscitando a morte;
Embora desajeitado, pesado –
Um marinheiro desajeitado, indolente,
Pesaroso, contigo colide e afunda-se,
Sondando as profundezas do teu precipício,
Nem agita o viscoso verme que, indolente,
Percorre a funérea indiferença de tuas paredes.
[in Poemas, trad. de Mário Avelar, Assírio & Alvim, 2009]
Descubra as diferenças
Num press-release, a editora Lua de Papel explica por que razão o livro Proust Era um Neurocientista, de Jonah Lehrer, chegará aos escaparates (já na próxima quinta-feira) com duas capas tão diferentes que se tornam semelhantes:
«O cérebro é por natureza imperfeito, e são as suas imperfeições que nos permitem apreender a realidade. Jonah Lehrer explora os enganos da mente em vários capítulos de Proust Era um Neurocientista, e muito especialmente em “Paul Cézanne: O Processo da Visão”.
Para reforçar a ligação entre a apresentação gráfica da obra e o seu conteúdo editorial, a Lua de Papel publicou a obra de Jonah Lehrer com duas capas diferentes. Ambas evocam, de forma subtilmente figurativa, os contornos das circunvoluções cerebrais; mas as duas diferem na paleta cromática escolhida para o fundo e lettering – diferenças essas que, apesar de radicais, dificilmente são perceptíveis para o leitor, provando a tese do autor, e os princípios defendidos por Cézanne: “A crua realidade é que a visão é como a arte. O que vemos não é real. Foi regulado para se moldar à nossa tela, que é o cérebro.”»
Se bem me lembro, o meu exemplar tem o título a letras brancas. Ou será que eram negras? É melhor confirmar. [Pausa de um minuto.] São brancas, sim. Resultado do derby cérebro enganador de JMS vs. memória de JMS: 0-1.
Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’
– Obra Completa, de Nuno Bragança (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
– Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian, de Alaa El Aswany (Presença), por José Guardado Moreira
– Histórias Possíveis, de David Machado (Presença), por Luísa Mellid-Franco
– Quem quer ser bilionário, de Vikas Swarup (ASA), por Luís M. Faria
– O Mundo, de Juan José Millás (Planeta), por José Mário Silva
– Perdidos na América, de Joey Goebel (ASA), por Rogério Casanova
– Ao Arrepio, de Joris-Karl Huysmans (Cotovia), por António Guerreiro
Encontros Ler no Chiado (tema: os policiais)

Da esquerda para a direita: Anabela Mota Ribeiro, Maria da Piedade Ferreira, Francisco José Viegas e Maria José Morgado
A sessão de ontem à tarde foi animada. Quem tomasse notas, poderia levar consigo um pequeno atlas da literatura policial dos últimos cem anos, com nomes de autores e perfis de detectives para todos os gostos.
Uma conferência i-m-p-e-r-d-í-v-e-l
Apontai já nas agendas: 9 de Março, 18h30, Sala de Leitura do CCB. Rodrigo Fresán, autor de Jardins de Kensington (Cavalo de Ferro), abre o Festival Fervor de Buenos Aires com a conferência “Mi Buenos Aires leído: Apontamentos para uma possível enciclopédia de uma cidade escrita”. A entrada é livre. Mais informações aqui.
Uma Casa para esquecer

A Casa do Esquecimento
Autor: Fernando Dinis
Editora: Teorema
N.º de páginas: 210
ISBN: 978-972-695-783-6
Ano de publicação: 2009
O primeiro romance de Fernando Dinis traz na página de rosto a menção ao Prémio Fnac/Teorema 2008 que lhe foi atribuído, entre «cerca de uma centena de candidaturas de elevada qualidade», por um júri de que fizeram parte Carlos da Veiga Ferreira (editor), Dóris Graça Dias (crítica literária) e Rui Zink (escritor). Mesmo sabendo que estas distinções nem sempre são sinónimo de excelência literária, nada nos prepara para o desastre que este livro é. Além de lamentarmos que a Teorema admita uma nódoa assim no seu exigente catálogo, sobra-nos uma perplexidade: se o vencedor foi este romance desconchavado e fátuo, como seriam as restantes «candidaturas de elevada qualidade»? Só de pensar nisso, uma pessoa treme.
A Casa do Esquecimento segue um modelo clássico: duas histórias paralelas, contadas em capítulos alternados, com algumas simetrias e um mistério latente (cuja resolução acabará por fundir as linhas narrativas, ao descobrirmos que a segunda é como que o corolário da primeira). Fernando Dinis domina as regras do suspense e gere bem a curiosidade do leitor, pelo menos até este se aperceber que tanto acicate é só uma manobra de dilação, uma forma de prolongar expectativas que nunca se cumprem totalmente.
O romance gira todo à volta de uma ideia que está longe de ser original – a noção de que o Destino se pode esquecer de nós, mas acaba sempre por nos apanhar na sua rede – e serve aqui de mero pretexto para um exercício de estilo oco. O estilo, de resto, é o principal problema de Fernando Dinis, mais ainda do que a falta de espessura das personagens, os diálogos frouxos ou a banalidade das atmosferas kubrickianas de pacotilha.
Para começar, a sintaxe é tosca e vítima de mil e uma contorções. Abundam os hipérbatos, os adjectivos empolados («exorbitante», «estrondoso», «fulgurante») e as imagens de mau gosto («era agradável sentir a sua saliva, que escorregava da sua boca para a minha como uma lágrima que desce sobre um rosto arredondado»). Nas frases deste livro – em que se sente a ausência absoluta de um trabalho de edição, capaz de minimizar os seus defeitos – há sempre palavras a mais ou palavras a menos; e raras vezes as palavras certas.
Às tantas, o protagonista está a «suar literalmente» e o leitor apercebe-se de que a única arte em que Fernando Dinis se destaca é a arte da redundância. Nunca na literatura portuguesa se concentraram tantos pleonasmos como neste romance: «chegava sempre em primeiro lugar que todos os outros»; «um homem solteiro (…) que nunca casou»; «sempre que alguém é despedido do seu local de trabalho»; «gorda e balofa»; «brilho reluzente»; «o fim derradeiro»; etc.
Fernando Dinis ainda pode vir a tornar-se um escritor interessante, mas, para seu bem, este livro merecia ter ficado muito quietinho (isto é, convenientemente esquecido) na gaveta onde ele diz guardar as suas experiências falhadas.
Avaliação: 2/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]
Quem é Rogério Casanova? (subsídios para um mito urbano em construção)
Hoje, pelo menos no Twitter, ele é um irmão gémeo de Carlos Daniel (tinha que ser, tinha que ser). E está em forma. Como quem não quer a coisa, ofereceu ontem aos seus seguidores (no Twitter toda a gente pode sentir-se um profeta) a seguinte galinha dos ovos de ouro:
«Tive uma ideia espectacular para um jogo de computador.
Tipo jogo de estratégia, mas, em vez de um gajo fazer de treinador de futebol ou comandante de um exército, faz de poeta laureado.
Depois tem de cumprir tarefas, fazer rimas, etc. Há vários níveis. Tenho tudo planeado.
Rhymes of Doom. Não me digam que isto não vai ser um sucesso.»
Vai ser, vai. E se fosse a ti, Casanova, mandava já um mail para a EA ou para a id Software com o projecto todo bem explicadinho, não vá alguém enriquecer à tua custa.
Notícias soltas
Eis algumas das novidades dos últimos dias que, por uma razão ou por outra, não cheguei a assinalar:
– Teresa Salema é a nova presidente do P.E.N. Clube (venceu as eleições de dia 3 com 64 votos, contra os 52 da lista de Rui Costa).
– O prémio Goncourt du premier roman 2009 foi atribuído por unanimidade, logo no primeiro escrutínio, ao romance Une éducation libertine, de Jean-Baptiste Del Amo, finalista do Goncourt tout court (escrevi sobre o livro aqui).
– Gonçalo M. Tavares é um dos dez nomeados para o Prix Cévennes du Roman Européen e José Eduardo Agualusa volta a ser candidato ao The Independent Foreign Fiction Prize, desta vez com a tradução inglesa do romance As Mulheres do Meu Pai (feita mais uma vez por Daniel Hahn para a Arcadia Books; título: My Father’s Wives).
– Francisco José Viegas deixará de apresentar semanalmente, às quartas-feiras, o programa Escrita em Dia, que mantinha há quase seis anos na RDP Antena 1 (uma pena).
– O Vale da Paixão, de Lídia Jorge, foi editado na Roménia (ver capa aqui).
– A Bertrand inaugurou, em Barcelona, a sua nona livraria da rede espanhola.
– As vendas de livros em Portugal desceram 1,3% em 2008.
– Os Blogtailors estão a divulgar o novo livro de José Afonso Furtado, publicado com a chancela Booktailors (excertos aqui, aqui, aqui e aqui).
Diz-me que dicionário usas
A pergunta é da Sara Figueiredo Costa. Eu fui um dos que responderam.
Revista ‘Ler’, n.º 78
Amanhã nas bancas.
Poesia no Frágil
Logo à noite, a partir das 23h00, há Poesia no Frágil. Este ano, na 3.ª edição destas leituras nocturnas, serão ouvidos versos de Luiza Neto Jorge, Ângelo de Lima, António Gancho e José Agostinho Baptista. Do alinhamento da primeira noite constam poemas de Luiza Neto Jorge, ditos pela actriz Lucília Raimundo (com música ao vivo de Adriano Filipe e do DJ Vítor Silveira), entre os quais estes dois:
A CASA DO MUNDO
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirenéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida.
MINIBIOGRAFIA
Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.
Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda.
E se a nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.
Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.
Oficina do Livro na blogosfera e no Twitter
Aqui (blogue) e aqui (Twitter).
Amanhã, no Chiado, à tardinha
«O romance policial está vivo ou mataram-no?»
Respondem Francisco José Viegas (autor), Maria da Piedade Ferreira (editora) e Maria José Morgado (leitora), a partir das 18h30, na livraria Bertrand do Chiado. Esta sessão dos Encontros Ler será transmitida pela Speaky.tv, «um canal de aprendizagem que se dedica a pessoas que não têm tempo para se deslocar ao local onde os eventos acontecem», nas palavras de Fernando Alvim, responsável pelo canal.
Quando o ‘Público’ recorre a ‘O Inimigo Público’ como fonte de informação algo vai mal, muito mal, no jornalismo português. Ou estarei a exagerar?
Reparem no último páragrafo desta notícia, publicada ontem no Público. E agora relembrem o texto de Vítor Elias sobre a morte de David Foster Wallace que eu citei aqui.
Sou só eu (e o Francisco Frazão) a achar isto um escândalo?


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