Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

No Café da Juventude Perdida, de Patrick Modiano (ASA), por José Mário Silva
O Segredo de Leonardo Volpi, de Fernando Pinto do Amaral (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
A Pátria dos Loucos, de Bernardo Rodo (Presença), por Luísa Mellid-Franco
O Gigante Egoísta e outros contos, de Oscar Wilde (101 Noites), por Alexandra Carita
Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau (Antígona), por Rogério Casanova
Obras, de Trindade Coelho (Caixotim), por Álvaro Manuel Machado
Do Interior da Revolução, de Vasco Lourenço (Âncora), por José Pedro Castanheira

Letras em Lisboa (7 a 10 de Maio)

Já está fechada a programação do segundo encontro “Letras em Lisboa”, que decorrerá de 7 a 10 de Maio, na Casa Fernando Pessoa e no Jardim de Inverno do Teatro São Luís.
Ei-la:

Dia 7 (Casa Fernando Pessoa)

18h00 – Sessão inaugural com Lauro Moreira (Embaixador do Brasil), Inês Pedrosa, Guiomar de Grammont, Jorge Salavisa e o reitor da Universidade Federal de Ouro Preto

18h30 – Ficção e crónica: José Eduardo Agualusa, Luís Fernando Veríssimo e Miguel Sousa Tavares
(moderação de Inês Pedrosa)

22h00 – Espectáculo: AS FERIDAS DO AMOR – Textos de Ovídio e Fernando Pessoa, dramaturgia de Inês Pedrosa, encenação de Diogo Dória

Dia 8 (Teatro S. Luiz)

15h00 – Literatura, História e biografia: Fernando Morais, Germano Almeida e Leonor Xavier
(moderação de Lúcia Araújo)

16h30 – Jornalismo e literatura – irmãos e inimigos?: Beth Ritto, Francisco José Viegas, Patrícia Reis e Zuenir Ventura (moderação de Inês Pedrosa)

18h30 – Estímulos à criação – as fontes do escritor: Amílcar Bettega, Fuad Yazbeck e Teolinda Gersão (moderação de José Carlos de Vasconcelos)

Dia 9 (Teatro São Luiz)

15h00 – História, Ficção e Poesia: Ana Paula Tavares, Irene Pimentel, Iza Salles e Laurentino Gomes (moderação de Suzana Vargas)

16h30 – Escritores que escrevem sobre a escrita dos outros: João Gabriel de Lima, José Mário Silva, Paulo Nogueira e Pedro Mexia (moderação de Beth Ritto)

18h00 – Literatura e música: Arthur Nestrovski, Carlos Nejar, Hélia Correia e José Miguel Wisnik (moderação de Inês Pedrosa)

22h00 – Espectáculo: Carta com Resposta, textos de Fernando Pessoa e Inês Pedrosa, encenação de Hélder Gamboa, com Ângela Pinto (Casa Fernando Pessoa)

Dia 10 (Teatro São Luiz)

15h00 – O Barroco e seus personagens na literatura – do passado à contemporaneidade: Clóvis Bulcão, Guiomar de Grammont, Leandro Müller e Miguel Real (moderação de Maria Dolores)

17h00 – Literatura e história – a memória e o esquecimento: Cristóvão Tezza, Helena Matos, Luís Cardoso e Rui Tavares (moderação de Guiomar de Grammont)

19h00 – Homenagem a Eduardo Prado Coelho: Inês Pedrosa e Nuno Júdice

21h30 – Espectáculo: Vinicius, Palavra e Música, com Arthur Nestrovski, José Miguel Wisnik e Paula Morelambaum

Ian McEwan: “Ninguém me rasga a camisa quando vou a sair do hotel”


Foto: Eamonn McCabe

Músico frustrado, melómano, admirador de Mozart, Rossini e Donizetti, o romancista Ian McEwan, para muitos o melhor escritor britânico da actualidade, viu o seu primeiro libreto ser levado à cena no final de Outubro de 2008, quando a ópera Por Ti, do compositor Michael Berkeley, estreou no Linbury Studio da Royal Opera House, em Londres, numa produção do Teatro Musical de Gales.
Num hotel de Lisboa, poucas horas antes do lançamento da tradução portuguesa do libreto (com chancela da Gradiva), McEwan falou do trabalho com Berkeley, das exigências específicas da escrita operática, da popularidade, da importância das mulheres para o futuro do género romanesco e da injustiça que foi John Updike ter morrido sem receber o Prémio Nobel da Literatura.

O que significou para si o convite que Michael Berkeley lhe fez para escrever o libreto de uma ópera? Encarou-o como um desafio às suas capacidades literárias?
Bem, nós andávamos a falar disto há um quarto de século, desde que trabalhámos juntos num oratório antinuclear [Or Shall We Die?], em 1982. Logo nessa altura, ele disse-me: «Vamos fazer uma ópera.» Só que é muito fácil dizer sim, aceitar o repto, e depois não fazer nada. Sempre que ele me propunha falarmos sobre a ópera, eu dizia que tinha começado um romance e isso ocupava-me durante três anos. Quando ele voltava à carga, eu respondia-lhe que tinha começado outro romance e o projecto ficava mais um longo período à espera. A verdade é que eu não tinha ideias muito claras sobre o que fazer. Por fim, um dia o Michael desafiou-me: «Anda, vem comigo dar um passeio pelos bosques.»

Uma boa estratégia, se pensarmos que as caminhadas são um dos seus hobbies.
Sem dúvida. A ideia de um passeio a pé seduz-me sempre. Então pensei: «O Michael vem aí, é melhor pôr algumas ideias no papel.» E finalmente, mais de duas décadas após o primeiro impulso, sentei-me durante uma hora a esboçar o libreto.

Uma hora bastou?
Foi só para dar o primeiro passo, para fazer com que o texto começasse a existir.

Nesse esboço já estava o essencial do que veio a ser o libreto?
Bem, até certo ponto. Nos anos anteriores nós tínhamos procurado novelas que pudessem ser adaptadas. Eu sugeria um livro de Scott Fitzgerald, ele contrapunha com um romance sueco, depois apaixonávamo-nos por um conto de Stefan Zweig. Até que reparámos que havia um tema comum a todas essas escolhas abandonadas: a obsessão sexual. E é de facto um tema que se presta a um tratamento operático, porque arrasta grandes emoções e sugere atmosferas carregadas de energia.

Por que razão decidiu escolher Charles, um compositor e maestro, para protagonista da história?
Eu queria escrever uma ópera em que a música fosse a personagem principal. Uma das primeiras ideias foi esta: colocar o cantor que desempenha o papel de Charles a reger a música junto ao fosso da orquestra, como se fosse o verdadeiro maestro.

Isso é quase uma armadilha conceptual, uma ópera dentro da ópera. Como é que o compositor reagiu à ideia?
Com um enorme entusiasmo. Entre outras coisas, pedi ao Michael que introduzisse na partitura os sons de uma orquestra enquanto afina os instrumentos. E ele adorou a ideia, porque daquele caos sonoro começa a emergir uma ordem, à medida que a afinação tende para a nota Lá, mas nessa ordem subsiste ainda a memória do caos, que voltará a emergir com as consequências da obsessão sexual do protagonista.

Enquanto escrevia Por Ti trabalhou noutros projectos ou o libreto exigiu uma dedicação exclusiva?
Na realidade, escrevi-o ao mesmo tempo que avançava no romance Na Praia de Chesil (Gradiva, 2007). No fim de cada capítulo, voltava à ópera. Escrevia uma cena ou duas e depois prosseguia com o livro. Entretanto, o Michael ia compondo, à medida que eu lhe enviava material. Quando este se acabava, lá tinha eu que regressar ao libreto.

Lidou bem com essa pressão?
Muito bem. É uma pressão benigna, útil. Eu gosto deste tipo de pressão. Além disso, isto aconteceu durante um Verão muito agradável, passado na minha casa de campo, onde pude entregar-me à escrita sem pedidos dos jornais e outras distracções, concentrado apenas no romance e no libreto.

De que forma os códigos e convenções da ópera moldaram a sua linguagem?
Eu gosto muito dos sextetos nas óperas de Mozart e Rossini, por isso tenho pena de assistir a óperas contemporâneas em que as personagens nunca cantam ao mesmo tempo. O Michael concorda comigo e aceitou regressar a essa convenção antiga, segundo a qual é interessante termos seis pessoas em palco a cantarem em simultâneo coisas muito diferentes, por vezes em extremos opostos no espectro das emoções humanas.

O compositor pediu-lhe cortes ou acrescentos ao texto, de forma a encaixá-lo melhor na música?
Muito poucos. A nossa é uma colaboração fora do vulgar.

Porque são velhos amigos?
Sim, mas isso podia ser um problema. Na verdade, fingimos estar os dois no mesmo plano, embora eu saiba que a ópera pertence ao compositor. Neste projecto, o general é ele. Eu fui só um soldado raso.

Em que é que a escrita de um libreto difere da escrita de um romance?
No meu caso, houve algumas semelhanças entre uma experiência e outra. Eu gosto de histórias fortes, que prendam o leitor e que o mantenham na expectativa sobre como o enredo se vai resolver. Em termos de fôlego narrativo, o libreto é como uma novela, porque só tem espaço para meia dúzia de personagens. Mas também há diferenças importantes. Uma delas consiste em saber que as palavras vão ser cantadas, o que nos leva na direcção da poesia. Eu escrevi uma espécie de prosa com métrica, quase sempre em pentâmetros jâmbicos, que é como o inglês flui melhor. Mas a principal diferença é que a ópera tem a sua própria lógica. Eu queria manter-me fiel a um certo realismo psicológico, sem elementos sobrenaturais, mas não consegui, porque é impossível haver realismo psicológico, ou outro realismo qualquer, quando as pessoas cantam. Justamente porque cantam, as suas emoções transbordam e tornam-se desmedidas.

Embora curto, o texto do libreto funciona como uma súmula dos seus grandes temas: a complexidade e amoralidade dos comportamentos humanos, o amor como obsessão, os mal-entendidos e os equívocos que conduzem à tragédia, a omnipresença do sexo, etc. Quis que esta ópera tivesse, bem visível, a sua marca?
Não de uma forma consciente, mas ninguém escapa a si mesmo. Admito que existe ali qualquer coisa de O Fardo do Amor, qualquer coisa de Amsterdão, qualquer coisa de Expiação.

Já que menciona o romance Expiação, parece-me que a criada polaca de Por Ti, Maria, é uma espécie de Briony. Também ela interpreta mal (não o que vê, mas o que ouve) e torna-se o agente da desgraça alheia.
Sim, mas é mais destrutiva. Tenho muito medo desta ópera por causa dos polacos. Já disse ao Michael que, se montarem Por Ti na Polónia, a Maria tem que passar a ser romena. E depois, quando se montar Por Ti na Roménia, temos que encontrar outra nacionalidade qualquer (risos).

Ela é talvez a mais operática das personagens desta ópera.
Oh, sim, sem dúvida. Ela e Charles, mas sobretudo ela.

Há uma cegueira absoluta que a domina.
Sim. Ela é como que um prolongamento do meu romance O Fardo do Amor. Sofre de uma monomania, uma psicose que a faz interpretar tudo o que lhe dizem como uma confirmação dos seus desejos e obsessões.

Já Charles é o típico exemplo do artista que se considera genial e por isso liberto de quaisquer constrangimentos éticos.
Suponho que há um espírito do século XVIII em mim, porque sou muito céptico em relação a quem proclama viver fora da moralidade. Como disse em Amsterdão, talvez uma ou duas vezes por século aparece um homem ou mulher com a estatura de Shakespeare ou Beethoven, e a esses talvez se possa perdoar os excessos. Aos outros, aos simples mortais que se embebedam e batem nas mulheres, ou tratam mal toda a gente, usando, como Charles, a desculpa de serem artistas, a esses não perdoo.

No final, Charles recebe o devido castigo, um pouco à maneira do Don Giovanni de Mozart. Também ele se vê atirado para um inferno, embora metafórico: a prisão. Mas nesta espécie de justiça poética, que faz com que o monstro pague por um crime que não cometeu, esconde-se um desenlace moral. Bastante inesperado, diga-se, vindo de si.
Eu sei, eu sei. Não queria um desenlace moral, mas saiu assim.

Foi a ópera que o empurrou para aí?
Foi, foi mesmo. Transformou-me num moralista, contra a minha vontade.

Ainda assim, a ironia salva-lhe a reputação. Especialmente na cena, julgo que inédita na História da Ópera, em que assistimos a um caso de disfunção eréctil.
Sim. Gostei muito de escrever essa cena, em que a jovem amante de Charles canta: «Dizem que uma erecção nunca mente, mas isto também é eloquente.»

Durante os ensaios, ao ver o seu texto cantado em palco, como é que reagiu?
A primeira coisa de que me apercebi foi que as personagens podem ser alucinadas, loucas e más na página, mas a música confere-lhes calor humano. Até Charles se torna simpático, ao ponto de quase sentirmos pena dele. Ou de Maria.

Alguma vez desejou ser músico?
Sim. Fui uma daquelas crianças que desistiu do piano demasiado cedo. Devia ter prosseguido os meus estudos. Mais tarde cantei em coros. E ainda hoje fico doido se ouço uma guitarra desafinada. Às vezes tenho a sensação de que perdi qualquer coisa.

Talvez. Mas ganhou o poder de inventar músicos, e as suas vidas, nos livros que escreve. É uma consolação.
É uma consolação, de facto.


Foto: Murdo Macleod

Consegue lidar bem com a enorme popularidade de que goza no Reino Unido?
Sim. É certo que recebo muitos convites e sinto-me sempre um bocadinho culpado quando digo que não. Mas a fama literária não é como a fama futebolística, cinematográfica ou televisiva. As pessoas que me abordam gostam de livros e de literatura, pedem sempre muitas desculpas por me interpelarem e não são particularmente intrusivas. Ninguém me rasga a camisa quando vou a sair do hotel.

Em que ponto está o seu próximo romance, inspirado no problema das alterações climáticas?
Vou mais ou menos a dois terços. Estou a reescrever esses dois terços, para que fiquem sólidos, antes de me abalançar às últimas 30 mil palavras.

Este libreto foi um caso isolado ou é uma experiência para repetir?
Para repetir. Só que da próxima vez que trabalhar com o Michael talvez saia um musical. Já pensámos nisso e eu voltei a dizer que sim a tudo, mas a não fazer nada.

Há uns tempos, andou com o seu filho pela rua, no centro de Londres, a oferecer livros que tinha em duplicado na sua biblioteca. Todas as mulheres com que se cruzou aceitaram a oferta, enquanto todos os homens (menos um) a recusaram. Num texto publicado pelo The Guardian, a sua conclusão foi: «Quando as mulheres pararem de ler, o romance estará morto.» Será mesmo assim?
Bom, a verdade é que são as mulheres as principais consumidoras de romances. Porquê? Talvez porque as mulheres têm um interesse maior nas pessoas do que em coisas. Há sempre um risco, ao abordar este tema, de cair em generalizações, mas a minha experiência diz-me que as mulheres têm uma capacidade mais fina de interacção pessoal. O radar delas é mais exacto. E os romances são quase sempre sobre interacções pessoais. Independentemente do que os modernistas possam ter dito no início do século XX, o romance voltou, em minha opinião, a reclamar o que acontece na vida privada.

Num outro artigo que escreveu após a morte recente de John Updike, disse que o seu desaparecimento, depois de Saul Bellow e Norman Mailer, representava o fim de uma era dourada das letras americanas. Agora, sobraria uma enorme planície com um pico solitário: Philip Roth.
Muita gente ficou furiosa comigo por ter escrito isso.

Talvez porque é uma afirmação injusta, além de excessivamente pessimista. Então e Don DeLillo, Cormac McCarthy, Thomas Pynchon?
Eu sei que ofendi a maioria dos meus amigos. Onde é que fica o Tobias Wolf, o Richard Ford, a Toni Morrison? Pois. Eles estão ainda a crescer. As placas tectónicas movem-se e essas montanhas hão-de subir até se tornarem grandiosas. Enfim, toda a gente faz listas e esta era a minha. Só isso.

Acha que Philip Roth ainda vai ganhar o Nobel?
Sim, claro, mas acho que o John Updike é que devia ter ganho. De qualquer forma, o Nobel já foi negado a tantos escritores maiores e atribuído a tantos escritores menores que deixa de ter qualquer importância.

E o Ian, já se imaginou em Estocolmo a receber o prémio?
Não.

Costuma ler o que os autores britânicos mais novos vão publicando?
Para ser franco, nem por isso. Há tanta coisa a acontecer. Os livros dos meus amigos que chegam praticamente todos os meses. Os livros que quero reler. Não me sobra tempo para ter uma visão global do que é a literatura britânica contemporânea.

O que é que está a reler agora?
Estou a reler, de Charles Darwin, A Viagem do Beagle, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais e A Descendência do Homem. Como vou participar num seminário sobre Darwin, no Chile, mais para o fim do ano, decidi imergir completamente nas suas obras.

[Versão integral de uma entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma súmula nada intempestiva

Por Ti
Autor: Ian McEwan
Título original: For You
Tradução: Maria de Fátima Carmo
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-616-307-5
Ano de publicação: 2009

Charles Frieth julga-se um génio mas é só um canalha. Compositor no auge da fama, prestes a estrear uma nova peça sinfónica («súmula intempestiva» da obra anterior), encontra-se numa encruzilhada. Sexagenário, a energia juvenil esfumou-se. O declínio está próximo; «as capacidades moribundas». Espera-o, e ele tem consciência disso, «a longa descida até à inutilidade». Mas enquanto lhe sobram forças não deixa de se agarrar ao seu poder, de um egotismo sem limites, amarfanhando todos os que o rodeiam: a mulher, Antonia, abandonada à sua doença e à sua infelicidade; Robin, o secretário submisso e pau para toda a obra; Simon, o médico de Antonia, presumível amante dela e catalizador de um ciúme que é só sentido de posse; e Joan, alvo do seu apetite sexual, jovem trompista tão descartável como as outras raparigas da orquestra, a quem ele também prometeu «um solo de trinta e dois compassos». A única personagem que não se apercebe da verdadeira natureza de Charles é Maria, a governanta polaca, que olha para ele como para um deus e imagina nas suas palavras sinais de um amor que não está lá – mas que há-de ser o rastilho para a tragédia e para a queda, patética e irónica, do Don Giovanni de pacotilha.
Foi com este material humano que Ian McEwan construiu o libreto – em dois actos e dez cenas – de Por Ti, uma ópera de Michael Berkeley. Além de utilizar convenções operáticas clássicas – as vozes sobrepostas nos picos dramáticos ou os comentários à acção feitos por quem nela participa –, McEwan soube introduzir certos elementos (o cenário hospitalar, a cena de sexo com disfunção eréctil, o golpe de teatro final) que produzem um verdadeiro efeito de surpresa. Mas Por Ti vale sobretudo pela linguagem (mesmo se o vigor dos pentâmetros jâmbicos acaba esvaindo-se na tradução) e porque McEwan nunca deixa de ser McEwan. Ou seja, um sismólogo dos terramotos humanos que faz aqui uma «súmula» nada intempestiva das obsessões que atravessam os seus romances.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

605

Há neste momento mais de 600 pessoas que me seguem no Twitter (confirmar aqui). Nem de propósito, a tiragem de Luz Indecisa é de 600 exemplares.
Corolário lógico: um livro a cada um e a edição esgota. De que é que estão à espera?

Livraria Pó dos Livros, 19h00

Onde no post anterior se lê amanhã, leia-se hoje.

É já amanhã

Livraria Pó dos Livros, 19h00. Jorge Silva Melo apresenta o livro (em jeito de conversa). Miguel-Manso lê alguns poemas.
Estão todos convidados.

Três poemas de João Almeida

THE STONEBREAKER

Já disse como começava o alvorecer
depois olhamos o deserto dos tártaros
e enerva dizer que não fizemos o suficiente
para dizer que tentámos

se não fugisse aqui dentro
de que forma as palavras não seriam estas
um carrossel a euro e meio a viagem
junto ao porto de pesca, fim de época balnear

o ouvido esquerdo tapado
de repente nada importa
olho tudo inclinado e ao longe
nada mais urgente que ouvir

o ouvido tapado
sem poder fumar
o que fica para a poesia é sono
cansaço de não dormir

e dentro desse cansaço
um corpo a boiar
as mãos abertas mostrando tudo.

***

tudo muito limpo
os homens barbeados
a luz azul de um punhado de dólares
dois ou três versos no carro do lixo

já noutro lado
todos os dias

guardo o vinho
levo pão, neste ofício volto a dizer
é preciso pousio ou esgotamento

***

os poetas devem morrer de tuberculose, na miséria
isso ou artista doméstico
fato de treino e perversões de periferia
o resto é abaixo de gato

eis onde estou e pergunto
vais abandonar este poema
o verso que redime não to prometo

procuro nos tantos livros amontoados
nos tantos poemas à espera nas feiras ao sol e à chuva
pode ser que surja um olho avulso
a palavra invisível do primeiro verso

Herodes mata o que nasce
como todos os dias as nossas mãos.

[in Glória e Eternidade, Teatro de Vila Real, 2009]

Pepetela lê excertos do seu último romance

O escritor angolano dará a conhecer passagens de O Planalto e a Estepe (Dom Quixote), amanhã, pelas 18h30, na livraria Pó dos Livros.

“Vemo-nos na Avenida” (com cravos)

Nunca falha.

A Ninfa pré-publicada

No Público: em papel e aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

London Fields, de Martin Amis (Teorema), por Rogério Casanova
Por Ti, de Ian McEwan (Gradiva), por José Mário Silva
Arlington Park, de Rachel Cusk (ASA), por Luís M. Faria
Chiquita, de Antonio Orlando Rodríguez (QuidNovi), por Vítor Quelhas
O Anel do Poço, de Paulo Teixeira (Caminho), por António Guerreiro
Tribunais Políticos – Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários Durante a Ditadura e o Estado Novo, coordenação de Fernando Rosas (Temas e Debates), por Nair Alexandra
Trabalho, de Fausto Leite (Almedina), por Rosa Pedroso Lima

Poesia portuguesa de agora

Hoje, pelas 18h30, vou estar à conversa com António Carlos Cortez na Casa Fernando Pessoa, numa sessão intitulada “Caminhos e Reinvenções: dos anos 90 à revista Criatura“. «O que se pretende é dar a conhecer, ao público leitor de poesia, nomes, obras e poemas que nem sempre têm merecido a atenção da crítica especializada. Com presença de alguns dos autores, serão lidos e pensados os textos dos poetas “novíssimos”.»

Vítor Nogueira nas Quintas de Leitura (e eu com ele)

Esta noite (22h00), no Teatro do Campo Alegre, Porto, as “Quintas de Leitura” acolhem a poesia de Vítor Nogueira, num espectáculo que rouba o título a um dos seus livros: Bagagem de Mão. Cabe-me a honra de apresentar a obra de Vítor Nogueira e de falar com ele sobre os três volumes publicados na Averno e &Etc.
As leituras serão feitas por Maria do Céu Ribeiro, Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares e Susana Menezes. De Berlim, chega a bailarina de sapateado Cristina Delius, acompanhada por Michel (acordeão) e Beatriz Serrão (percussão).
O espectáculo fecha com um concerto de 30 minutos de Shahryar Mazgani, que foi considerado um dos artistas mais promissores da Europa pela revista francesa Les Inrockuptibles.

Feira do Livro de Londres 2009

Uma parte do mundo editorial português mudou-se de armas e bagagens para Londres, nos últimos três dias, para assistir à London Book Fair (acaba hoje). Quem quiser saber o que por lá se passou, só tem que ler o exaustivo Diário da Feira, pelos incansáveis Booktailors.
Ainda há pouco, foi através deles que fiquei a saber quem são as finalistas do Prémio Orange 2009:

Scottsboro, de Ellen Feldman (Picador)
The Invention of Everything Else, de Samantha Hunt (Vintage)
Home, de Marilynne Robinson (Virago)
The Wilderness, de Samantha Harvey (Cape)
Burnt Shadows, de Kamila Shamsie (Bloomsbury)
Molly Fox’s Birthday, de Deirdre Madden (Faber)

A vencedora será conhecida a 3 de Junho. Mais informação aqui.

Uma deriva felliniana

O Dia Mastroianni
Autor: João Paulo Cuenca
Editora: Caminho
N.º de páginas: 163
ISBN: 978-972-21-2024-1
Ano de publicação: 2009

João Paulo Cuenca, carioca nascido em 1978, apareceu como um relâmpago na cena literária brasileira em 2003. O seu romance de estreia, Corpo Presente, era uma história fragmentada de obsessão amorosa e sexual por uma mulher – Carmen – que é muitas mulheres (ou talvez um arquétipo que se projecta, fugidio, em todas as mulheres), no cenário de uma Copacabana suja, violenta, visceral, a anos-luz do brilho falso dos prospectos turísticos. A recepção crítica foi apoteótica (houve elogios, entre outros, de Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Chico Buarque), o que talvez tenha contribuído para um silêncio de quatro anos. Já se sabe: o pior que pode acontecer a um segundo romance é frustrar as promessas do primeiro.
Se esse peso pairou sobre O Dia Mastroianni, não se nota. Embora Cuenca tenha mudado radicalmente de atmosfera e de tom (ficou tudo mais leve), o fulgor meio desembestado da sua escrita permanece, bem como o gozo de contar uma história aos solavancos, assumidamente fora de qualquer cartilha do bom narrador. Em vez da toponímia precisa do Rio de Janeiro, existe agora uma cidade imaginária por onde deambulam dois anti-heróis: Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, uma espécie de Bouvard e Pécuchet pós-modernos, que, em vez de quererem compreender tudo, procuram à partida não saber nada. O resultado final é quase o mesmo: o esvaziamento diante da complexidade do mundo. Mas onde Flaubert esboça, apesar de tudo, uma «enciclopédia da estupidez humana», as personagens de Cuenca limitam-se a tirar notas sobre os gloriosos malefícios do tédio, aqui e ali elevado a uma forma de arte.
Na sua deriva felliniana por bares, restaurantes e festas para as quais não foram convidados, Cassavas e Anselmo seguem à risca, em 24 horas de folia alucinada, a definição inicial de Dia Mastroianni: «o dia gasto em pândegas excursões a flanar na companhia de belas raparigas, à brisa das circunstâncias e alheio a qualquer casuística». Entre cada uma dessas divertidas «excursões» dos dois amigos, há interlúdios meta-literários em que uma entidade superior comenta e critica a evolução da narrativa. É este o lado mais frágil do livro, porque o arremedo de peça teatral é parco em ironia (a pouca que subsiste, em vez de afiadíssima, sai romba) e porque o desfecho desilude, dando a ideia de que aquela presença divina, que só fala em maiúsculas, nasceu apenas de um capricho algo juvenil do autor.
Em suma, O Dia Mastroianni não é ainda o grande romance que o talento de Cuenca promete e reclama. Mas quem consegue fazer um livro assim, absolutamente livre e capaz de todos os riscos, pode estar certo de que voos mais altos o aguardam.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Mínimas máximas

No seu blogue, José Bandeira, para mim um dos melhores humoristas portugueses (e talvez o mais refinado), juntou uma dezenas de «mínimas» (ou aforismos; ou humorismos) anteriormente publicados na primeira encarnação do Bandeira ao Vento. Eis aqueles de que mais gostei:

«A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.»

«Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.»

«Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.»

«De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.»

«Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.»

«O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.»

«Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.»

«Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.»

«Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.»

«Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.»

«Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.»

«Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.»

«Eles pareciam desfeitos um para o outro.»

«O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.»

«Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.»

«Certeza: uma dúvida sem saída.»

«É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.»

«Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.»

«Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.»

«A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.»

«Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.»

«Morte: pronome pessoal reflexo.»

«Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.»

«Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.»

«Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.»

«Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.»

«A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.»

«As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.»

«Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.»

«Um português só faz sentido na tropa.»

«Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.»

«As aves raras poisam em lugares comuns.»

«Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.»

«A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.»

«Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.»

«Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.»

«A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.»

«A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.»

«Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.»

«Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.»

«Mito urbano: A província existe.»

«Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.»

«O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.»

«A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.»

«Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.»

«O código de Hamurabi: 6339.»

«Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.»

«Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.»

«Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?»

«Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.»

«Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.»

«Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.»

«Há um Sísifo em cada gilette.»

«Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.»

«Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.»

«”Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.»

«Não se pode ser um suicida toda a vida.»

«Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.»

Mais pequenas maravilhas aqui.

O mundo de J.G.B. (na internet)

A partir do site Ballardian, chega-se a quase todas as latitudes e longitudes ballardianas. E depois há o BallardoTube.

Ballardiana

Há uns tempos, o Luís Quintais escreveu vários posts, no blogue Os Livros Ardem Mal, sobre J.G. Ballard. Vale a pena voltar a todos eles, mas sobretudo a este, a este e a este.
Já hoje, Quintais pré-publica um ensaio a editar no próximo número da revista Nada: Acidente e Simulação em J.G. Ballard. A ler aqui.

Um título genial

Why I Want to Fuck Ronald Reagan.

J.G. Ballard (1930-2009)

Morreu o mestre das distopias tecnológicas, um dos poucos escritores que se atreveu a explorar os limites mais sombrios da condição humana.
Obituários na imprensa britânica: The Guardian, The Daily Telegraph, The Independent, The Times.

10h57

Só agora me apercebi de uma perda descomunal: J.G. Ballard.

Privilégios da profissão

Conhecer num dia o senhor Ian McEwan e no seguinte o senhor Paul Theroux.

Mais dois poemas de José Carlos Barros

UM CONGRESSO EM MONTESINHO

depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu a
palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó


A INVENÇÃO DA BICICLETA

Tudo o que fizemos no domínio
dos transportes desde a invenção da bicicleta
só contribuiu para melhor compreendermos
como a bicicleta é útil e bela
e comovente. E é mais bela e útil
e comovente quanto mais
os corredores áereos enchem os mapas
dos controladores de voo e quanto
mais os viadutos se cruzam
e sobrepõem para dar vazão às filas
de automóveis nas pontes
dos feriados. As crianças
conhecem os segredos do vento numa
roda pedaleira. As bicicletas
e os bosques abrem no verão em simultâneo
os pequenos açudes luminosos
da infância. Depois do vidro e da roda
a bicicleta foi uma das mais
belas e inúteis e comoventes
invenções da história do homem.

[in revista Criatura, n.º 2, Setembro de 2008]

Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2009 para José Carlos Barros

Um júri composto por Joaquim Cardoso Dias, João Candeias e Ruy Ventura escolheu o original Os Sete Epígonos de Tebas, de José Carlos Barros, como vencedor da edição deste ano do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, organizado pela Câmara Municipal de Setúbal e pelas Juntas de Freguesia de S. Lourenço e S. Simão. O prémio é de 2500 euros e houve 144 obras a concurso.
Licenciado em Arquitectura Paisagística, José Carlos Barros (n. 1963) é neste momento vereador com vários pelouros na Câmara Municipal de Vila Real de Santo António. Publicou os seguintes livros de poesia: Pequenas Depressões (em colaboração com Otília Monteiro Fernandes – 1984); Uma Abstracção Inútil (1991); Todos os Náufragos (1994); Teoria do Esquecimento (1995); As Leis do Povoamento (1996); Las Moradas Inútiles (edição bilingue, Punta Umbría, 2007; edição em castelhano, La Habana, Cuba, 2009).
Tem um blogue intitulado Casa de Cacela, onde se podem ler dois poemas do livro premiado.

Lembrete

Esta tarde, pelas 17h30, vou moderar a quarta mesa do encontro Literatura em Viagem, na Galeria Municipal de Matosinhos. Participam os escritores Paul Theroux, Renzo Sicco, Isabel da Nóbrega e Isabel d’Ávila Winter. O tema proposto é “Ler o mundo, viajando”. Entrada livre.

Ruído de fundo

Tudo (ou quase tudo) o que se pode saber sobre Ian McEwan está neste extraordinário perfil, escrito por Daniel Zalewski e publicado num dos números de Fevereiro da revista New Yorker.

O libretista e o compositor

Ian McEwan e Michael Berkeley conversam sobre a experiência de criar o texto e a música para a ópera For You.

Lançamento de ‘Por Ti’ no CCB

O libreto de Ian McEwan a que me refiro no post anterior vai ser lançado esta tarde, no Centro Cultural de Belém (sala Luís de Freitas Branco), durante uma conversa aberta ao público com Clara Ferreira Alves, a partir das 16h00. Entrada livre.

Ian McEwan goes to the opera

Em 2008, Ian McEwan escreveu o libreto para uma ópera em dois actos de Michael Berkeley, For You, estreada a 28 de Outubro pelo Teatro Musical de Gales, no Linbury Studio da Royal Opera House, em Londres.
A Gradiva, editora das obras todas de McEwan, acaba de lançar a versão portuguesa do libreto (Por Ti), traduzido por Maria de Fátima Carmo. Eis a segunda cena do primeiro acto:

SEGUNDA CENA

Sala de estar da casa dos Frieth, em Londres. A mulher de Charles, Antonia, observa enquanto Simon Browne, cirurgião, com uma bebida da mão, admira os quadros na parede.

Antonia Foi amável da tua parte vires a minha casa.

Simon Estou aqui como velho amigo, não como teu médico.

Antonia Eu devia estar a aguardar a minha vez na tua sala de espera.

Simon Mais uma oportunidade de ver estas maravilhas…
Ancher, Munther, O’Keeffe.
E tu…

Antonia Sim, há quem diga que estas pintoras
estiveram no limiar da grandeza.
Mas, Simon, olha para mim. Estou tão cheia de medos!
Mais outra operação. Não consigo encará-la.
Tem mesmo de ser tão depressa?
Preciso de te perguntar – não há outro modo?

Simon Uma ressecção, e uma biopsia, para nos tranquilizar.
Um procedimento relativamente simples.
Acredita quando te digo que não há outro modo
e que temos de agir já.

Faz uma pausa.

É o teu antigo medo, o que te assombra?

Antonia Sim. É ridículo, bem sei.
O meu antigo medo,
a anestesia, a anestesia geral.
A palavra «geral» soa de forma tão sinistra
aos meus ouvidos.

Simon Mas agora é perfeitamente segura. Quantas vezes
temos de falar disto?

Antonia Receio aquele momento de esquecimento,
aquele ensaio para a morte.
O maqueiro animado, com a sua geringonça,
que me vem recolher à enfermaria.
Penso em Caronte, o barqueiro,
a fazer-me atravessar o rio Estige.
Depois, corredores, luzes fluorescentes nos tectos,
o elevador para um compartimento especial, pequeno,
as vozes tranquilizadoras,
a inserção da cânula, o veneno químico,
e depois o frio a subir-me pelo braço
a uma velocidade de tal forma violenta,
e depois nada, nada.

Simon Exactamente, nada, e nada a temer,
e quando acordares…

Despercebida, Maria entra com um tabuleiro.

Antonia Se acordar. O que foi que o poeta escreveu sobre a morte?
A anestesia da qual ninguém acorda.

Simon O melhor é não se pensar em Larkin nestas alturas.

Antonia Sei que pensas que sou neurótica.

Simon Sei que és infeliz.

Faz uma pausa.

Onde está Charles? Ele sabe?
Ouvi o concerto dele na rádio.
Não vou fingir que gosto da sua música.
As notas parecem escolhidas aleatoriamente,
e que barulheira! Um coro de gatos!
Mas eu sou um tipo simples que prefere Vivaldi.

Antonia Ele ficou a trabalhar até tarde.

Simon Outra vez?

Antonia A trabalhar até tarde outra vez.
Trabalhar é a palavra a que nos agarramos,
Trabalhar é o nosso eufemismo doméstico.
Levamos uma vida privilegiada de mentiras.

Simon (baixinho)
Tens de fazer uma mala.
Voltarei esta noite para te levar
se conseguir encontrar uma cama livre.

Dirige-se a ela, hesita.

Demasiado para dizer.

Antonia Sim. Demasiado para dizer.

Simon Impossível dizê-lo.

Antonia Impossível. E desnecessário.

Simon Porque tu sabes.

Antonia Nós sabemos.

Simon Apenas silêncio.

Antonia O silêncio dirá tudo.

Repetem, em sobreposição.
Simon pega no casaco.

Simon Estou atrasado. Tenho de te deixar. Dever de médico.

Antonia O hospital? A esta hora?

Simon Uma recepção no Garrick, de homenagem
a um cirurgião que se aposenta. O tabuleiro cintilante dos canapés,
a profusão obscena de colegas,
os discursos untuosos de veemente hipocrisia.
Penso que todos concordamos:
não estamos em época de se falar claramente.

Antonia, não deves preocupar-te,
vai correr tudo bem.

Antonia Tens de ir.

Quando se voltam, reparam em Maria. Simon cumprimenta-a com um aceno e sai.

Antonia Maria. Há quanto tempo estavas aí?

Maria Tinha acabado de entrar
com bebidas para a sua visita.

Antonia Não te ouvi.

Maria A porta estava aberta, o senhor doutor ia mesmo a sair.

Pousa o tabuleiro.

Ponho dois lugares para o jantar?

Antonia Não como, esta noite. Estarei no meu quarto,
e não quero ser incomodada.

Antonia sai.

‘A Economia para além da Economia’

Além deste seminário em Coimbra, a UNIPOP vai co-organizar, com o CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia), um outro seminário sobre o pensamento crítico contemporâneo, em Lisboa, no ISCTE (Auditório B203, Edifício II), entre 7 de Maio e 11 de Junho. Título: “A Economia para além da Economia”. O programa é o seguinte:

7/5A produção em Deleuze e Guattari [sessão de abertura, entrada excepcionalmente livre], por Maurizio Lazzarato

11/5A dádiva em Marcel Mauss, por Filipe Reis

14/5A grande transformação de Karl Polanyi, por Francisco Louçã

18/5Ben Fine e os mundos do consumo, por Emília Margarida Marques

21/5Foucault, governamentalidade e liberalismo, por José Luís Câmara Leme

25/5A economia política alemã em Georg Simmel e Max Weber, por José Luís Garcia

28/5A moeda viva de Pierre Klossowski, por José Bragança de Miranda

1/6Harold Innis e a economia política dos media, por Filipa Subtil

4/6Operários e capital de Mario Tronti, por Ricardo Noronha

8/6David Harvey, economia e espaço, Hugo Dias

11/6Karl Marx crítico de Friedrich List, por José Neves

É necessário fazer inscrição (15 euros) porque os lugares são limitados. Os pedidos devem ser enviados para o e-mail unipopeconomia@gmail.com. A possibilidade de inscrição em sessão avulsa está limitada ao número de lugares disponíveis em cada sessão e não é susceptível de reserva prévia (custo: 4 euros).

Alunos de Arquitectura desenham casas para ‘O Bairro’ de Gonçalo M. Tavares

Da Editorial Caminho, recebi o seguinte comunicado:

«Cerca de 400 alunos da cadeira de projecto do curso de Arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa estão a projectar casas para os oito senhores do Bairro já editados. No final deste ano lectivo surgirão, assim, 40 casas para o senhor Valéry, 40 para o senhor Breton, etc. São dez turmas que estão envolvidas. De seguida farão uma biblioteca para o bairro.
O projecto é elaborado num sítio real, na rua de S. Mamede/Rua da Saudade, na zona do Castelo, em Lisboa. O tema é: “uma casa para um livro” e, mais especificamente, para uma personagem. E os alunos entregarão projecto, maquete, etc.
Este projecto envolve 14 docentes de Arquitectura, da cadeira de projecto, da Universidade Lusíada, coordenados pelo Professor Fernando Hipólito.
Prevê-se uma exposição dos trabalhos no final e, eventualmente, a entrada de alguns projectos, de uma forma ou de outra, no bairro dos Senhores de Gonçalo M. Tavares.
Por outro lado, os alunos do 5.º e último ano do curso de Arquitectura da Lusíada estão a projectar, de uma forma integrada, o bairro no seu conjunto.
No programa “uma casa para um livro” estão previstos espaços sociais, lavabo de apoio; espaços privados em suite; biblioteca; espaço para preparação de alimentos; arrumos de alimentos; arrumos de limpeza; lavandaria; espaço privado dedicado a cada senhor, etc. Veremos como os senhores Calvino ou Valéry se adaptam a cada um destes projectos.»

Entretanto, já se sabe que o próximo volume da colecção “O Bairro” será O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas, nas livrarias a partir de 14 de Maio.

Dois poemas de Bénédicte Houart

falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

***

pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe

[in Aluimentos, Cotovia, 2009]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Memórias do meu cativeiro: refém das FARC, de Clara Rojas (Caleidoscópio), por Luísa Meireles
História dos Açores, obra colectiva (Instituto Açoriano de Cultura), por António Valdemar
A Praça em Portugal/Inventário do Espaço Público, coord. de José Lamas e Carlos Dias Coelho (Direcção Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano/Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa), por José Manuel Fernandes
Arado, de A. M. Pires Cabral (Cotovia), por António Guerreiro
Obra Poética Completa, de Edgar Allan Poe (Tinta da China), por Helena Barbas
Fragmentos do Mediterrâneo: vol. 2 – A Cortina Central, de Henrique Garcia Pereira (Teorema), por Ana Cristina Leonardo

O novo livro de Rui Tavares

Eis uma compilação das crónicas que o Rui Tavares publicou mensalmente na revista Blitz, escritas com uma «liberdade total», tanto temática quanto estilística. A edição é da Tinta da China.
Dia 24 nas livrarias.

Junot Díaz (um vislumbre)

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz, um dos livros mais esperados do ano (ganhou o Pulitzer de Ficção em 2008), chega na próxima semana às livrarias, com chancela da Porto Editora. O jornal Público pré-publica hoje o primeiro capítulo do romance, disponível também online.

‘Regime de 1/2 Pensão’

Grande ideia: assistir ao que fazem os criadores no momento em que criam. As residências de Isabel Carvalho, João Gesta, Jorge Andrade, Pedro Eiras e valter hugo mãe (em vários cafés do Porto) começaram ontem e acabam amanhã. Programação completa aqui.

A invenção do alfabeto

«Na Fenícia, há mais de três mil anos, dão-se quase em simultâneo três acontecimentos épicos: primeiro, o Rei de Byblos confia ao seu melhor escriba a tarefa de simplificar a complexa escrita de então. A seguir, rodeando-se do maior segredo, prepara-se para lançar uma expedição destinada a explorar os limites geográficos do mundo conhecido. Depois, o acontecimento mais extraordinário: o Egipto, que naquele tempo detinha a tutela política da região, decreta o fim do politeísmo e impõe a adoração de um deus único, solar, naquela que terá sido a primeira emergência do monoteísmo na História humana.
O Criador de Letras, romance de Pedro Foyos, decorre nesta época de acontecimentos revolucionários, onde se cruzam a mitologia, o mistério, as lutas de poder e a ânsia do Homem em tomar as rédeas do próprio destino, tendo como pano de fundo esse momento crucial para a transmissão e consolidação do pensamento que foi a criação do alfabeto fonético, protótipo daquele que continuamos a usar.»

Já nas livrarias.

A banana de Scliar

No início do século XX, um rapazinho russo foge, com a família, da revolução bolchevique e chega a Porto Alegre (Rio Grande do Sul), no porão de um navio de carga. Durante a viagem de cinco semanas através do Atlântico, o futuro imigrante passou fome. Está muito frágil, esquelético, subnutrido. No cais, ao ver o seu estado, um gaúcho hospitaleiro oferece-lhe uma banana. O miúdo compreende que se trata de uma coisa de comer, embora não saiba como. Português não fala, por isso mexe no fruto esquisito, experimenta-o. «Até descobrir que a banana se descasca. Ele sabia que a laranja se descascava, porque na Rússia, nos dias de festa, costumava haver uma laranja para distribuir pela família inteira (um gomo para cada um). E ele sabia que a laranja tinha casca e caroços. Ao descascar a banana, apareceu uma coisa que ele julgou ser o caroço da banana. Deitou fora esse caroço e, para surpresa do gaúcho, comeu a casca de banana até ao fim.» Muitos anos mais tarde, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, seu filho, que é quem fala dentro destas aspas, haveria de pegar na história e contá-la «mais de mil vezes». A última foi no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, e o desenlace voltou a despertar gargalhadas e aplausos na plateia: «Meu pai morreu com mais de 80 anos e nunca deixou de me dizer: “sabe, filho, casca de banana não é tão ruim assim como a gente pensa.”»
É disto, sobretudo, que se fazem as Correntes. Das histórias contadas por autores sentados à mesa, diante de um auditório sempre cheio, mesmo nas sessões que começam às dez e meia da manhã. Ninguém sabe como explicar isto, mas a verdade é que o fenómeno se repete anualmente, sem atrasos nem sobressaltos, e todos os escritores se rendem à organização quase invisível, mas extraordinariamente eficaz, de Manuela Ribeiro e Francisco Guedes, os coordenadores que gerem com cordelinhos mágicos uma equipa e um encontro exemplares.
Este ano, na muito concorrida 10.ª edição, além da história do autor de Os leopardos de Kafka, houve outras que maravilharam os espectadores. Por exemplo, a de Joaquim Arena, um autor cabo-verdiano que cresceu numa casa onde havia apenas quatro livros: Lady L., de Romain Gary; O Barão Trepador, de Italo Calvino; um outro de que não se recorda e a Bíblia. Quando escrevia cartas aos familiares, a avó fechava-se com a biblioteca mínima numa sala e Arena sempre supôs que ela precisasse dos livros como caução literária. A verdade era mais prosaica: «Um dia descobri que a minha avó usava os livros, sim, mas para guardar selos: os para a Europa dentro do Barão Trepador, os para a América dentro de Lady L. e os para Cabo Verde dentro da Bíblia, claro.»
Se o espaço desta crónica fosse elástico, caberiam aqui ainda outras belas histórias (as de Juan José Millás, Héctor Abad Faciolince, Paulina Chiziane, Andrea Blanqué, António Orlando Rodriguez, Luandino Vieira, etc.). Como não é elástico, o «caroço» comestível tem que ser deitado fora. Fica uma ideia ténue do que por lá se passou. A casca. Talvez não tão ruim assim.

[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

‘Madame Bovary’ online

Tudo sobre um dos principais romances de Gustave Flaubert, da análise dos manuscritos aos vários planos da obra (quadros genéticos, rascunhos, etc.), aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges