Eu sei o que isto é

Não me estendi no chão nem uivei de infelicidade, como este crítico literário histriónico, mas também já fiquei fechado três dias em casa a ler um livro detestável. E concordo: ninguém dá o devido valor às misérias da profissão.

[Via Pó dos Livros]

O novo trunfo da Quetzal: José Luís Peixoto

Em Junho, a editora de Francisco José Viegas vai reeditar Morreste-me, o primeiro livro de JLP. Depois, no Outono, chegará o muito aguardado quarto romance, sucessor de Cemitério de Pianos. Antes de tudo isto, haverá mais um périplo internacional, desta vez pelo Luxemburgo, Croácia, República Checa e EUA. Mais pormenores aqui.

Lançamento de ‘O Segredo de Leonardo Volpi’

O primeiro romance de Fernando Pinto do Amaral será apresentado daqui a nada (19h30), na FNAC do Chiado, pelo escritor Mário de Carvalho. Infelizmente, não poderei estar presente.

Três poemas de Luís Carlos Patraquim

SEBASTIÃO ALBA

O que restava do odre
Tu o bebeste

Dos veios mesmo da terra

Só um rio te contempla
zambeziando

E o mar se perde
Onde navegas

O que restava do odre

E deus
Apascentando a sua
sede

Onde te ris
Torre
E chama


COLAGEM

Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos

Rilham

E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha


AL-GHARB

Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras

Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres

Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo

E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.

[in Pneuma, Caminho, 2009]

Lançamento de ‘Luz Indecisa’

Já há data: 29 de Abril, 19h00, na livraria Pó dos Livros. Apresentação de Jorge Silva Melo (ou melhor: uma conversa a propósito do livro, no registo de quem interpela o autor à mesa do café). Haverá ainda leitura de poemas por Miguel-Manso.
Se puderem, caros leitores, apareçam. Como é evidente, estão todos convidados.

Um blogue sobre estantes


Aqui.

[Thanks, Ju.]

Feira do Livro no Centro Galego

De 17 a 23 de Abril, o Centro Galego de Lisboa vai acolher, no seu Salão Nobre, uma Feira do Livro em que estarão presentes, entre outras, as editoras 90º, Fenda, Livros de Areia e Instituto das Artes.
O Centro Galego fica na Rua Júlio de Andrade, n.º 3 (perto do Campo Mártires da Pátria). Mais informações aqui.

Regresso à ‘Montanha’

Depois de nos ter oferecido, em 2008, O Homem Sem Qualidades, de Musil, numa nova tradução de João Barrento, a Dom Quixote reincide nos grandes clássicos alemães do século XX com o romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann, traduzido pela primeira vez em Portugal directamente da língua original (por Gilda Lopes Encarnação).
O livro estará disponível nas livrarias a 30 de Maio.

Aproximações ao pensamento crítico contemporâneo

Organizado pela UNIPOP, vai decorrer em Coimbra, na sede da associação Arte à Parte, entre 28 de Abril e 28 de Maio, um curso em dez sessões (seminário) que pretende «mapear algumas das principais problemáticas que hoje desafiam um pensamento crítico».
O programa é o seguinte:

28 de Abril
– Stuart Hall por António Sousa Ribeiro
– Néstor García Canclini por Paulo Raposo

30 de Abril
– Noam Chomsky/Paul Feyerabend por Rui Tavares
– James Scott por José Manuel Sobral

5 de Maio
– David Harvey por Hugo Dias
– Slavoj Žižek por Nuno Ramos de Almeida

7 de Maio
– Pierre Bourdieu por Nuno Domingos
– Luc Boltanski por Arriscado Nunes

12 de Maio
– Michel Foucault por Jorge Ramos do Ó
– György Lukács por Frederico Ágoas

14 de Maio
– André Gorz por José Nuno Matos
– Guy Debord por Ricardo Noronha

19 de Maio
– Gayatri Spivak por Adriana Bebiano
– Rosi Braidotti por Maria Irene Ramalho

21 de Maio
– Antonio Negri por José Neves
– Alain Badiou por Bruno Peixe

26 de Maio
– Louis Althusser por António Pedro Pita
– Gilles Deleuze por Nuno Nabais

28 de Maio
– Ernst Bloch por Miguel Cardina
– Theodor Adorno por João Pedro Cachopo

A inscrição custa 15 euros, faz-se por e-mail (cursopcccoimbra@gmail.com) e dá acesso a todas as sessões, bem como aos materiais de leitura. Quem pretenda assistir apenas a uma ou outra sessão, pagará três euros de cada vez (regime sujeito à disponibilidade de lugares em cada sessão, não havendo reserva prévia).
Para mais informações, consultar o blogue do curso.

Assírio & Alvim no Twitter

Acompanhar aqui.

Está a chegar um dos mais fortes candidatos às listas dos “melhores do ano”

O romance póstumo de Cabrera Infante vai ser publicado pela Quetzal, em primeira tradução mundial (assinada por Salvato Telles de Menezes).

Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura

O vencedor do 6.º Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura será anunciado na sessão solene de abertura da 13ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (Rio Grande do Sul), a 24 de Agosto. O prémio, com um valor de cem mil reais, recompensa «o autor do melhor romance escrito em língua portuguesa» que tenha sido publicado no Brasil entre Junho de 2007 e Maio de 2009. Há dois anos, o vencedor foi Mia Couto, com o romance O outro pé da sereia; em 2005, Chico Buarque, com Budapeste.
As condições de inscrição, as moradas para o envio de livros concorrentes (data limite: 12 de Junho) e outros pormenores podem ser consultados aqui.

Um poema de Reina María Rodríguez

AS BRUTAS

Quatro mulheres enforcaram-se no planalto.
Degolaram com paciência os seus animais
as suas vinte cabras
os seus dois cães de raça,
e os corpos
penderam no vazio.
Mas o vazio tinha nesse dia uma luz roxa
e havia pássaros presenciando o sangramento
daquele sangue jovem.
Eram irmãs
e os cães eram amantes
e as cabras pastavam sobre a mesma colina
cruzavam e descruzavam as suas patas dianteiras
com um lento movimento de felicidade.
Ao levantar-se, ninguém estava com ânimo para assistir à paisagem.
Ninguém ouviu o canto das cabras
ao concluir o seu caminho.
Ninguém ouviu ladrar os cães
(o seu silêncio é a morte)
e não há que virar os olhos
para os cumes nevados
com as quatro mulheres penduradas
(podem ser de argila a esta distância)
figuras de palha seca ao sol,
(espantalhos)
alguma ilusão de cinza no alto.
Atrás, segue passando o rio.
Cada vez mais claro, mais manso.
O vento balança-as a cada momento.
Ninguém se atreve contudo a descê-las.
Ninguém quer conceber o uivo sem eco
de planalto.
Mulheres sem homens (bestas) com os joelhos fracos
– não foram elas as do grito, as da queixa –
foi mais dos animais a lamentação.

Soa um corno de caça medieval.
O homem numa névoa de paixão, recordações
e amargura
(baixa)
mas chegou tarde para as resgatar.
Luciana casava-se na próxima semana.
Não pôde adiar a decisão colectiva,
o rito de morrer das suas irmãs.
Justa cerzia para um orfanato
e Quisque dava de comer aos animais.
Umas vidas simples…
Quisque, Justa, Lucía e Luciana
rebentaram o cordel que juntas as atou.
As brutas, diziam-lhes.
As sábias, murmuravam.
Contradição da representação.
Formalidades.
Quatro figuras, vinte cabras
e dois cães de raça caem como sementes no orvalho.
Uma mão, o dorso de um cão, a falange,
um pescoço cortado em cruz
o meu focinho, o teu.
O cordel que as une é o limite?
O limite esse grito que ninguém escutou?
Como tirar os olhos de uma paisagem
sem cães nem cabras?

[in Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas, selecção de Pedro Marqués de Armas, tradução de Jorge Melícias, Antígona, 2009]

Serviços muito mínimos

Esta semana, o Bibliotecário de Babel andou a menos de meio gás. Um abandono que nem as habituais actualizações retroactivas (façam scroll s.f.f.) compensam. Como diz o outro, isto a gente esforça-se mas não dá para tudo.

‘Lido e Relido’ (2)

O programa radiofónico do João Paulo Baltazar em que participei, na quinta à noite, já está acessível online. Aqui.

Esqueçam o cão

O melhor amigo do homem é o livro (sobretudo o que ladra e morde, o que não abana a cauda, o que recusa a trela).

[via blogue da Bruaá]

‘Lido e Relido’

Daqui a nada, depois do noticiário das 20h00, estarei na TSF à conversa com João Paulo Baltazar no programa Lido e relido, em que é suposto os convidados partilharem algumas das suas leituras. As minhas, aviso já, hoje só têm um género: poesia.

Agora em castelhano

Dois poemas de Luz Indecisa, preciosamente traduzidos pela poeta colombiana Lauren Mendinueta, a quem muito agradeço:

vivienda lucinda

Junto a la casa más pequeña había una
escalera de cemento (en su vano mi abuela
guardaba bidones de gas y trapos viejos).
Encima de la escalera, mirando al frente, se veía
el pino que mis padres plantaron hace muchos
años, las cañas agitadas por la brisa, el tanque lleno
de algas y renacuajos, la cerca de alambre escondiendo
conejos asustados, el pozo con una perpetua
oscuridad adentro. A la derecha el cobertizo
donde nos abrigábamos de la lluvia, durante las
largas fiestas de cumpleaños (la mesa: mantel
de lino, pastel con pocas velas, panes
de leche abiertos, dibujos geométricos
en el arroz de leche). También había, más allá,
una higuera – mas eso está en otro poema.


torneo de ajedrez

Al pulsar en el reloj
mi tiempo paraba.
Nunca volví a sentir
semejante poder.

No blogue de Lauren há mais.

Uma síntese difícil

Adolescente Agrilhoado
Autor: José Marmelo e Silva
Editora: Campo das Letras
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-989-625-346-2
Ano de publicação: 2009

Mais do que um escritor, José Marmelo e Silva (1911-1991) foi um «reescritor», no sentido que lhe dá a ensaísta Rosa Maria Martelo (RMM): alguém que produz «uma obra pouco extensa, mas sempre revisitada num desejo contínuo de rigor e apuramento», atribuindo «aos textos já conhecidos dos leitores um estatuto sempre precário, semelhante ao de um manuscrito que o autor hesitasse em abandonar». No caso de Marmelo e Silva, RMM aponta como exemplo desta «condição instável» da obra literária a novela Adolescente Agrilhoado, que sofreu significativas metamorfoses sobretudo entre a primeira edição (1948) e a segunda (1958).
No momento em que chega às livrarias uma sexta edição do livro, com chancela da moribunda Campo das Letras (em cujo catálogo encontramos a Obra Completa de Marmelo e Silva, publicada em 2002), vale a pena prestar atenção a este ficcionista que sofreu, ao longo da vida, as consequências de não se encaixar em nenhuma das várias correntes que marcaram a literatura portuguesa do século XX. Entre a herança presencista e a rigidez do neo-realismo, ele tentou uma síntese que o deixou numa terra de ninguém, uma espécie de limbo que o reconhecimento tardio apenas mitigou.
Na estrutura de Adolescente Agrilhoado encontramos marcas óbvias dessa síntese difícil. Se por um lado o protagonista, Luís Miguel, ganha uma consciência aguda das injustiças sociais (ao defrontar-se com a vida de miséria dos mineiros do volfrâmio, com o abismo entre as classes e a hipocrisia eclesiástica), verdadeiro húmus da revolta que acabará por o libertar do seu torpor existencial, por outro lado a narrativa nunca abdica de explorar a fundo a psique atormentada e confusa daquele jovem de 17 anos, à deriva num mundo que já não reconhece, depois de seis anos de internato que o aproximaram mais do inferno do que de Deus.
Na década de 50, a ortodoxia neo-realista não perdoou o peso de tanto lastro psicológico e mesmo João Camilo, num estudo recente (incluído no volume O personagem na obra de José Marmelo e Silva, Campo das Letras, 2008), fala de neo-realismo «imperfeito» a propósito desta novela. Mas é justamente a impureza literária – espelho da adolescência retratada (enquanto caótica charneira para a vida adulta) – que lhe confere a sua singularidade e um apelo lírico cujo vigor, seis décadas depois, longe de se perder, recrudesceu.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Crítica americana pouco benevolente com ‘As Benevolentes’

Escrito por Jonathan Littell, um americano francófono, o romance ‘As Benevolentes’ (Dom Quixote) conheceu a glória em França, tanto no campo da crítica como no dos prémios literários (ganhou o Goncourt e o Prix du Roman de l’Académie Française em 2006). Nos EUA, porém, a recepção foi muito menos calorosa e nalguns até francamente hostil.

Poéticas do Rock em Portugal

Finalmente, os riffs de guitarra e as palavras gritadas ao microfone chegam à Academia. O colóquio que trata os textos das canções rock e pop como literatura (mesmo se “menor”) começa hoje e dura até quarta-feira. Oportunidade única para ouvir conferências com títulos como “Sétima Legião e a mitopoética da cultura portuguesa”, “O nonsense que faz sentido(s): neologismos e jogos de palavras em Rui Reininho”, “Ficções de três estrofes: as canções teatrais de Carlos Tê”, “‘Na pandra bomba ainda jinga a hidra samba’ – A revolução sintáctica dos Mler Ife Dada” ou “As Transversalidades do Rock na Obra de José Cid (1966-1979)”.
Programação completa aqui.

Importa-se que o leve?

Do Luís M. Faria, jornalista do Expresso e companheiro de estrada (no famoso eixo Lisboa-Laveiras), recebi este texto itálico, à boa maneira do antigo BdE, sobre o fenómeno dos «livros humanos» (já referido aqui):

IMPORTA-SE QUE O LEVE?
Em tempos remotos, um escritor chamado Graham Greene (ou Graham Green, na versão canónica do Diário de Notícias) publicou um livro intitulado May I Borrow Your Husband? A ideia de emprestar gente tem precedentes ilustres e aplicações bastante diversas. Uma das versões mais recentes, criada nos países nórdicos e actualmente a espalhar-se com apoio oficial, visa combater fenómenos de discriminação. A ideia é que pessoas representativas de categorias mal aceites ou compreendidas na sociedade – muçulmanos, homossexuais, toxicodependentes, etc – se disponibilizem para contar as suas experiências a quem os quiser requisitar. Aceite o pedido, o requisitante tem direito a meia-hora de conversa, podendo fazer as perguntas relevantes que entender. Meia-hora dá para esclarecer muitas dúvidas e alterar o nível da compreensão humana. Imagina-se que as obrigações habituais – devolver em bom estado, não utilizar o objecto para fins que não os autorizados, não fazer cópias, etc – se apliquem plenamente. Utilizações do tipo que Greene teria em mente não constam do regulamento. Mas falando a sério, parece uma forma ideal de permitir a qualquer pessoa acesso fácil ao maior capital sub-utilizado das sociedades modernas: a experiência alheia. Outro dia, num programa da BBC, o homem que organizou um grupo desses na Grã-Bretanha contava o sucesso que tem sido. Como antigo jovem delinquente, ele próprio já foi requisitado umas quantas vezes por pais preocupados, e não só.
Luís Faria

Hoje nas livrarias

A memória,
luz indecisa,
ignora ainda
o que deve
iluminar.

PS – Quero agradecer as pré-publicações de Luz Indecisa feitas pela Inês Ramos (aqui), pela PNET Literatura (aqui) e pela Isabel Nogueira, da livraria Pó dos Livros (aqui).

Da arte de fazer citações incompletas (ou de como extirpar as citações de qualquer sombra de crítica)

Na recensão sobre a novela Desisto (ver post anterior), escrevi esta frase: «Philippe Claudel faz do naufrágio do seu protagonista um pretexto para furiosas diatribes contra a desumanidade contemporânea – nem sempre imunes, diga-se, à mais superficial das demagogias.» Agora reparem como fica a mesma frase nesta ficha sobre o livro, no site da Bertrand.

O círculo das hienas

Desisto
Autor: Philippe Claudel
Título original: J’abandonne
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: ASA
N.º de páginas: 93
ISBN: 978-989-23-0372-7
Ano de publicação: 2009

Dois homens e uma mulher estão fechados numa sala. Ela acabou de saber que a filha adolescente morreu atropelada. Eles – um psicólogo e um terapeuta – esperam o momento certo para lhe desferirem o segundo golpe. Frente a frente, a presa e os predadores, a mãe destroçada e os homens que querem obter, a todo o custo, a «autorização necessária para extrair do corpo [da rapariga] diversos órgãos». Na gíria hospitalar, a alcunha destes técnicos treinados para a persuasão diz tudo: eles são «hienas», os animais cínicos que rondam um cadáver e nunca desistem.
O narrador da novela de Philippe Claudel é uma das hienas, mas uma hiena em estado de negação. Viúvo recente, deprimido, confuso, incapaz de reagir, esmagado pela «fealdade deste mundo», ele adora a filha de 21 meses (a quem dirige o pungente monólogo), o que não o impede de querer levar até às últimas consequências o seu desespero. Na balança existencial, o equilíbrio – muito precário e difícil – oscila entre o amor puro pela sua bebé e o asco com que olha para uma sociedade agreste, grosseira e estupidamente violenta. Uma sociedade que cospe nas mãos estendidas das pedintes jugoslavas e obriga um homem a disfarçar-se de hambúrguer, transportando o anúncio «como uma grilheta ou um rochedo numa encosta a pique».
A história alterna entre dois planos: a descrição do cerco à mãe da rapariga morta (em linguagem de relatório, seca, factual); e a revolta do narrador contra o papel que lhe atribuíram, no qual já não se reconhece. Philippe Claudel faz do naufrágio do seu protagonista um pretexto para furiosas diatribes contra a desumanidade contemporânea – nem sempre imunes, diga-se, à mais superficial das demagogias. É literariamente, porém, que o livro fracassa, ao transformar quase todas as situações e personagens em caricaturas. Tanto o colega-hiena (um brutamontes adepto fanático de futebol, xenófobo e misógino) como a babysitter (viciada em música techno, raves e passeios nocturnos, de patins, pelas ruas de Paris) são colecções ambulantes de clichés. Para piorar tudo, a Claudel sobra sempre em sentimentalismo e pathos o que lhe falta em subtileza e capacidade de sugestão.

Avaliação: 3/10

[Texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

Blogues em livro e o futuro da leitura

Lauren Mendinueta esteve no debate de quinta-feira à tarde, na Bertrand do Chiado, e fez um resumo opinativo de alguns dos temas discutidos.

‘Nada de Melancolia’ vai ter segunda edição

Editado em Novembro, o livro de crónicas do Pedro Mexia está quase a esgotar. Um sucesso mais do que merecido.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Fidel & Che – Uma amizade revolucionária, de Simon Reid-Henry (Casa das Letras) e Os Últimos Dias de Che, de Juan Ignacio S. Valle (Ambar), por Nair Alexandra
A Filha do Destino, de Benazir Bhutto (Dom Quixote), por Cristina Peres
Conversas Íntimas com Ariel Sharon, de Uri Dan (Pedra da Lua), por Luísa Meireles
O Casamento Sempre foi Gay e Nunca Triste, de José António Almeida (&Etc), por António Guerreiro
Escritos Secretos, de Sebastian Barry (Bertrand), por José Guardado Moreira
Honra o teu Pai, de Gay Talese (Presença), por Paulo Nogueira
Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva (Campo das Letras), por José Mário Silva

A maior biblioteca pública do Reino Unido vai ficar em Birmingham

Ver notícia do The Guardian, aqui.

Revista ‘Ler’, n.º 79

Hoje nas bancas.
Entretanto, o blogue da revista fez um upgrade ao grafismo e às funcionalidades. A mudança parece-me bastante positiva, se descontarmos a aparição, no fim da lista de cronistas (à esquerda), deste tipo com cara de perigoso cadastrado que não dorme desde 1999:

Literatura em Viagem – programa final

Já está definida a composição das oito mesas do próximo Literatura em Viagem, o encontro organizado por Francisco Guedes que decorrerá em Matosinhos, de 18 a 21 deste mês:

Dia 18
16h30 – Galeria Municipal
1ª Mesa: Escrever a Guerra, com António Brito, Carlos Vaz Ferraz, Henrique Levy e
Luís Castro; moderação de Manuel Alberto Valente

18h30 – Galeria Municipal
2ª Mesa: Poética da Viagem, com Filomena Marona Beja, José Jorge Letria, Miguel Real e Romana Petri

Dia 19
15h30 – Galeria Municipal
3ª Mesa: Viajar para Contrariar a Monotonia, com Ricardo Menendez Salmón, Julieta Monginho, Francisco José Viegas e Cristina Carvalho; moderação de José Carlos de Vasconcelos

17h30 – Galeria Municipal
4ª Mesa: Ler o mundo, viajando, com Paul Theroux, Renzo Sicco, Isabel da Nóbrega e Isabel d’Ávila Winter; moderação de José Mário Silva

Dia 20
15,30h- Galeria Municipal
5ª Mesa: A Viagem é a Minha Memória, com Alice Vieira, Leila Guerriero, Gonzalo Celorio e Miguel Miranda; moderação de Carlos Daniel

17h30 – Galeria Municipal
6ª Mesa: Viajar é um acto sensual em todos os sentidos, com João Tordo, Joaquim Teixeira de Sampaio, Santiago Roncagliolo, Christiane Tassis; moderação de Jacinto Rego de Almeida

Dia 21

15h30 – Galeria Municipal
7ª Mesa: Existe um Limite para o que a Viagem pode exprimir, com César Magarreiro,
Eduardo Belgrano Rawson, João Luís Barreto Guimarães e Júlio Moreira; moderação de Álvaro Costa

17h30h – Galeria Municipal
8ª Mesa: Viajar é preciso, com Marçal Aquino, Richard Zimmler, Luís Sepúlveda, Helene Cooper e José Luís Peixoto; moderação de José Medeiros Ferreira

Haverá ainda ateliês, concertos e várias sessões com lançamento de livros.

‘O Tigre Branco’ (booktrailer)

A estreia do indiano Aravind Adiga no romance, premiada com o Man Booker Prize 2008, já anda por aí (edição Presença). A sua leitura é mais do que recomendável, sobretudo na semana em que o G20 se reuniu em Londres para discutir o estado comatoso da economia mundial.

Uma pré-publicação no Facebook e no Twitter

Uma das vantagens de escrever poemas curtos (ou curtíssimos) é eles caberem nas minúsculas caixas de texto do Twitter e do Facebook. Resultado: na última meia hora, pré-publiquei um total de seis poemas do Luz Indecisa (nas livrarias dia 6, segunda-feira), três em cada uma das plataformas. Os poeminhas no Twitter podem ser lidos aqui.

Soluços (2)

Voltaram as intermitências no acesso a este blogue. Pelo facto, mais uma vez, as minhas desculpas.

Cinco poemas de Fernando Eduardo Carita

Fernando Eduardo Carita (n. 1961) é um poeta português praticamente desconhecido em Portugal, o que se explica pelo facto de ter publicado por cá apenas um livro em edição de autor e há muito fora de circulação (A obscura espiritualidade da matéria, 1988). Os dois livros seguintes, que correspondem na verdade à emergência da sua voz poética, surgiram na Bélgica, em edição bilingue da Le Taillis Pré (poemas traduzidos para francês por Marie Claire Vromans).
Do primeiro destes livros, A salvação pelo vazio (2005), retirei três poemas:

Só de deus em diante é possível
ouvir o eco dos seus passos dirigindo-se para ti,
só de ti em diante é possível
ouvir o eco dos teus passos dirigindo-se para ele;
mas de deus para trás é já possível
ouvir os teus passos,
tal como de ti para trás é já possível
ouvir os seus passos.
E dos passos em diante
estão também os passos para trás
e vice-versa,
exactamente os mesmos passos.
De quem, não se sabe agora ao certo,
nem qual a sua direcção.
Subsiste, contudo, a hipótese:
que exista uma direcção que tome a iniciativa
de acertar todos os passos uns pelos outros;
daqueles que já aqui caminharam,
daqueles que caminham ainda aqui
e ate mesmo daqueles que um dia hão-de aqui caminhar.
Não me perguntes como,
sei apenas que uma mesa está posta
e aguarda a chegada de todos para um brinde final
ao nada e
a ninguém.

A Roberto Juarroz, celebrando o nosso encontro no Convento da Arrábida

*****

Espreita agora para dentro dos olhos dos mortos
Que os tenham deixado abertos,
Neles teus olhos reflectidos
Vêem-te primeiro que tu a eles.

*****

Meio-dia:
A sombra do fruto tem agora
O mesmo sabor do fruto.


De A Casa, o Caminho (2008), mais estes dois poemas:

Metade de uma vida para pronunciar mera sílaba de silêncio,
A outra metade só para a desnomear,
E ter depois uma morte inteira
Para rebaptizar por uma vez todas as coisas do mundo.

*****

Há no amor uma qualquer força mortífera
Que põe os amantes um contra o outro,
Bastará que a libertem;

Há no amor uma qualquer força vital
Que põe os amantes a favor um do outro,
Bastará que a mantenham em cativeiro;

Há no amor uma qualquer força inumana
Que há-de preservar os amantes
De sucumbirem nas margens um do outro,
Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.

Lembrete


(clicar para aumentar)

É hoje.

Juarroz no Príncipe Real (cinco da tarde)

Na epígrafe vertical,
relâmpago da coincidência,
fulgura algo maior.

Para o Fernando Eduardo Carita

1 de Abril

Isto é evidentemente uma mentira. Espero que isto também seja.

Lançamento de ‘Uma Noite com o Fogo’

Uma Noite com o Fogo (Quetzal), o mais recente romance de António Manuel Venda, é apresentado esta tarde (18h30) na livraria Bertrand da Avenida de Roma, por Carlos Pinto Coelho.

Dr. Casanova responde

Tem dores na metonímia? Anda com dificuldade em digerir o último romance de António Lobo Antunes? Sofre de flaubertite aguda? Não desespere, porque agora já pode escrever para o consultório literário de Rogério Casanova (consultorioliterario@gmail.com). Aberto todos os meses nas páginas da revista Ler.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges