Um poema de Luis Maffei

MARACANÃ, 11,04,2007

Se há,
Fernando,
uma metafísica do pênalti
ignoro.
Sei apenas que a vida é adepta de imitar
em noites assim
este jogo que é perfeito mas por
hediondo gesto: vida, morte,
vida e
a metafísica do pênalti.
E um histérico vazio à roda nossa, a velha
premissa de que tudo está errado salvo
nós, salvo este empuxe teu a me
arrancar do chão na hora do segundo gol
da gente,
salvo isso tudo que nos livra de um país tão
triste quanto um Maracanã de quarta à
noite que não sabe o que é noite ou
equinócio, tampouco a dimensão do
desbarato e somos nós
Fernando
cada vez mais sós.

Mas pouco importe. Este jogo
de novo
(e desta vez com teus braços de outras cores a
tomar em afeição meu Almirante
ou
a mim próprio)
nos fala como somos, súcubos do
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de
abraçar a vida, a morte, a morte e
aquilo a que eu, por gana,
sei que posso dar o nome de amizade.

[in Telefunken, Deriva, 2009]

Lisbeth Salander no grande ecrã

A adaptação cinematográfica do romance Os Homens que Odeiam as Mulheres, de Stieg Larsson, realizada por Niels Arden Oplev, com Noomi Rapace no papel de Lisbeth Salander, estreou esta semana em Espanha. Para quando a estreia em Portugal, senhores distribuidores?

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz (Porto Editora), por José Mário Silva
Contos Completos I, de John Cheever (Sextante), por Rogério Casanova
A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, de Haruki Murakami (Casa das Letras), por José Guardado Moreira
Love, de Toni Morrison (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho (Cotovia), por António Guerreiro
As Meninas da Numídia, de Mohamed Leftah (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
A Hora do Lobo, de Jiang Rong (Casa das Letras), por Luís M. Faria

Mais logo

Celebrar os três aninhos do irmaolucia é uma obrigação (moral ou imoral, isso já não sei).

Em quem se terá inspirado ‘A Ministra’ de Miguel Real?

Eis a pergunta do momento. Maria de Lurdes Rodrigues é a candidata mais óbvia, mas o modelo também pode ter sido, por exemplo, uma ex-ministra que sonha com o cargo de primeira-ministra.

Book Expo America

A nossa* enviada especial a Nova Iorque, Isabel Coutinho, vai dar-nos as notícias todas em primeira mão.

* Por nossa entenda-se «da blogosfera portuguesa», claro

‘Menina Else’ na Cornucópia

A estreia da versão teatral de Menina Else, um romance curto de Arthur Schnitzler transformado em monólogo dramático (interpretado pela actriz Rita Durão), acontecerá esta noite (21h30) no Teatro do Bairro Alto. Christine Laurent é a responsável pela adaptação e encenação, enquanto Cristina Reis assegurou (como sempre) o cenário e os figurinos. O desenho de luz coube a José Álvaro Correia.
A tradução do texto de Schnitzler, feita por José Maria Vieira Mendes, é a do livro publicado pela Cotovia em 2008 e recenseado por mim aqui. Um excerto:

O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente em 1924, não é tanto a história (drama psicológico de uma burguesa romântica) mas o modo como a narrativa se desenvolve, através de um tumultuoso monólogo interior que regista tudo o que vai cruzando a consciência de Else: imagens, fragmentos de conversas, frases repetidas, inquietações, sonhos, ideias fixas, perguntas sem resposta. A cabeça de Else, prisma que capta (ou distorce) a realidade circundante, é o único local da acção. E Schnitzler, ao mostra-nos de dentro a forma como essa acção implode, transporta-nos, maravilhados, aos limites mais íntimos da experiência humana.

Man Booker International para Alice Munro

A escritora canadiana Alice Munro venceu a edição deste ano do prémio Man Booker International (que é atribuído de dois em dois anos, pelo conjunto da sua obra, a escritores de qualquer nacionalidade, desde que os seus trabalhos estejam disponíveis em inglês), e não do prémio Man Booker (que distingue anualmente um livro concreto, «o melhor romance publicado [nesse ano] por um cidadão da Commonwealth ou da República da Irlanda»), como anunciou o Público na sua edição de hoje, em papel.

Daqui a uma semana

É marcar na agenda. Faltas por motivo de viagem serão, naturalmente, perdoadas.

Encontro de Poesia em Vila do Conde

Começa hoje, na Biblioteca Municipal José Régio, o 5.º Encontro de Poesia de Vila do Conde. Até sábado, haverá debates, encontros entre poetas e alunos do ensino secundário, leituras encenadas, visitas guiadas a lugares literários da cidade e recitais. Entre outros, participam valter hugo mãe, Luandino Vieira, Rosa Alice Branco, Pedro Gil Pedro, Jorge Melícias e Ana Luísa Amaral.
Programação completa aqui.

Quatro derrotas

Os Girassóis Cegos
Autor: Alberto Méndez
Título original: Los Girasoles Ciegos
Tradução: Armando Silva Carvalho
Editora: Sextante
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-8093-20-2
Ano de publicação: 2009

Ao publicar o primeiro livro em 2004, aos 63 anos, Alberto Méndez, que durante décadas trabalhara em muitas das principais editoras espanholas, como que saiu de um certo limbo auto-imposto. Exigente com a escrita alheia, era ainda mais exigente com os seus próprios textos e por isso tardiamente se aventurou na ficção com Os Girassóis Cegos, um conjunto de quatro relatos sobre a Guerra Civil de Espanha e as suas consequências. Méndez morreria nesse mesmo ano e já não assistiu à consagração da sua obra pela crítica literária e pelos prémios (o da Crítica e o Nacional de Narrativa, ambos atribuídos em 2005).
Em cada um dos contos, de prosa muitíssimo cuidada mas por vezes algo rígida, Méndez mostra como no pós-guerra (1939-42) ainda só se ouvia falar «a língua da espada ou o idioma da ferida». É a essa lógica maniqueísta que as personagens tentam fugir, agarrando-se a ilusões que apenas acentuam o escândalo das suas tragédias. Na primeira história, o capitão Alegría, fascista por convicção e por natureza, entrega-se aos defensores republicanos de Madrid, na véspera da entrada das tropas de Franco na capital, por não querer ser cúmplice de uma «Vitória» (com V maiúsculo) que aspirava sobretudo à aniquilação do inimigo. Incompreendido pelas duas partes, que só vêem uma rendição estúpida ou uma traição cobarde no seu gesto pleno «de subtilezas e matizes morais», Alegría acaba esmagado pela «linguagem dos mortos», como os protagonistas dos outros três contos: o rapaz em fuga pelas montanhas das Astúrias, cuja namorada morre durante o parto e o deixa só, na luta vã para salvar o filho recém-nascido do frio, da fome e dos lobos; o professor de violoncelo Juan Senra, republicano que adia uma condenação à morte, ao transformar em heróica a memória do odioso e assassinado filho do seu juiz; e Ricardo, o homem que vive escondido num armário, até dar em louco com o cerco libidinoso que um diácono começa a fazer à sua mulher, suposta viúva.
Por existirem subtis imbricações entre as quatro histórias, não é exagerado dizer que Alberto Méndez escreveu um romance sobre o lastro mais negro da Guerra Civil: esse sentimento de uma brutal derrota colectiva de que a Espanha, sete décadas depois, ainda não se libertou totalmente.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

Dois poemas de Alice Vieira

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

***

Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade

mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo quem parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

[in O que Dói às Aves, Caminho, 2009]

Lançamento de ‘O que Dói às Aves’

Mais logo, a partir das 19h00, farei a apresentação do novo (e segundo) livro de poesia de Alice Vieira: O que Dói às Aves (Caminho). Será na nova (e segunda) livraria Ler Devagar, integrada no complexo cultural LX-Factory, em Alcântara (Rua Rodrigo Faria, 103).
Rosa Lobato Faria lerá alguns poemas.

A Variação Elegante

Uma felicidade, ter descoberto este magnífico blogue literário, de Mark Sarvas.

O lado negro do senhor cem milhões

O Mago
Autor: Fernando Morais
Editora: Planeta
N.º de páginas: 630
ISBN: 978-989-657-010-1
Ano de publicação: 2009

Em traços gerais, pode dizer-se que há dois tipos de biografias sobre pessoas vivas: as autorizadas e as não autorizadas. As primeiras estão sujeitas ao crivo da «vítima», pelo que tendem a ser neutras (nos melhores casos) ou ostensivamente hagiográficas (nos piores). As segundas não obedecem a nenhum acordo entre o biógrafo e o biografado, o que compromete quase sempre a sua credibilidade e até a sua legitimidade. Não faltam nas livrarias exemplos de vinganças pessoais, apoiadas em «revelações» especulativas e assinadas por antigos mordomos, amantes traídas ou amigos desavindos, ávidos de um ajuste de contas que humilhe o «ex-» na praça pública. Em O Mago, Fernando Morais inaugura uma terceira categoria: a biografia autorizada que revela tudo o que se espera de uma não autorizada. Ou ainda mais.
Bombardeado por dezenas de propostas de biógrafos do mundo inteiro, Paulo Coelho escolheu Morais por reconhecer isenção e rigor ao repórter de São Paulo, um marxista que não deixou de apontar o dedo às atrocidades cometidas pelo Partido Comunista Brasileiro, no livro que escreveu sobre Olga Benário (a companheira mártir de Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB). Coelho não ignorava, por isso, os riscos que corria ao dar acesso total aos seus diários, até aí fechados à chave num baú. Logo que abriu a enorme arca, com 170 cadernos e quase uma centena de cassetes lá dentro (cobrindo exaustivamente quatro décadas), Morais soube de imediato que lhe tinha caído no colo a sorte grande, sob a forma de uma caixa de Pandora. Depois, foi só tirar lá de dentro – e organizar cronologicamente, um a um – os muitos segredos inconfessáveis do biografado.
Antes de chegar ao estrelato actual (muitíssimo bem descrito no primeiro capítulo, que regista com minúcia o dia-a-dia da popstar, durante o périplo de lançamento de O Zahir, em 2005), antes de cumprir o seu sonho obsessivo («ser um escritor lido em todo o mundo»), a existência de Paulo Coelho foi uma sucessão de tragédias, desilusões e falhanços. Ao menino que nasceu clinicamente morto, aconteceu de tudo: experiências com drogas, indefinições sexuais, internamento num manicómio (onde foi tratado com electrochoques), uma fase hippie, uma fase satânica, profissões precárias, estudos de vampirismo, pactos com o diabo, passagens pelos cárceres da ditadura, depressões profundas, inseguranças épicas, derrotas humilhantes, epifanias em Dachau e uma lista infindável de sacanices perpetradas a torto e a direito. Sem entrar em detalhes, Paulo Coelho foi, durante anos a fio, um aldrabão, um mentiroso, um cobarde, um plagiador, um ganancioso sem escrúpulos, um mitómano e um absoluto irresponsável. Em suma, um escroque. Ou, na visão dos seus fãs, um ser que estava condenado às chamas do inferno, mas que um dia viu a luz e se salvou.
Com as suas contradições e zonas de sombra, a vida atribulada de Paulo Coelho tem potencial para dar um bom romance – decerto muito melhor do que os livros medíocres e edulcorados que fizeram dele um best-seller. Sem nunca abandonar o reduto da objectividade jornalística, O Mago é uma muito conseguida aproximação a esse romance ainda por escrever, sobre um homem que aparentemente venceu os seus fantasmas e recalcou as suas ignomínias, de olhos postos numa glória material (os 100 milhões de livros vendidos, a fama, a fortuna) e espiritual (os lugares-comuns místicos, a pose beatífica) que o redima dos abismos onde esteve quase a perder-se.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Memória de Hay-on-Wye

«Foi o lugar onde vi mais livros por metro quadrado», lembra António Ferra. E as fotografias não o deixam mentir.

Deslumbrem-se

Este é o trailer para o novo livro de Kazuo Ishiguro: Nocturnes – Five Stories of Music and Nightfall (Faber & Faber). Uma pequena obra-prima de animação, realizada por George Wu.

PS – Como a Helena Rafael explica num comentário a este post, o livro de Ishiguro vai ser editado pela Gradiva, já em Julho, numa tradução «belíssima» de Rui Pires Cabral.

Cinco poemas de Tiago Gomes

DIRTY REALISM

Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
Todos os dias
O último de todos os dias.
Luta livre.
Arrumar o dia.
As mochilas dos miúdos
o jantar e a Tv.
Todos arrumados
com socos na barriga.

***

Rasurar a razão.
Jogá-la ao ar
Atirá-la contra a parede
Bater-lhe. Perdoar-lhe
Reflectir sobre ela
Aplicá-la

***

APRENDERÁS COM A MORTE

Daqui de cima consigo ver
que o quintal das traseiras
está cheio de gatos pretos
à noite a morte também é parda.

Que o dissessem aqueles dois
o da faca e o da pistola
e o peito rasgado do insubmisso
(como anda cruel o mundo).

Afinal o outro, o da pistola
quis pôr fim a um tormento
por viver só. E mais não disse
começou a chorar sem perceber

o amigo morto.

***

PUB

Mãos vazias
fogo cruzado
remoinho urbano
suor frio
dor e destroço
parte-se a coluna cervical
ao tentar passar a meta
pub. Teleflash. Perfume da flor decadente do hash.
Acordo e oiço o boletim metafísico
que anuncia para hoje
zona de altas depressões.

***

SAÍDA DAS FÁBRICAS

Lá vamos os dois
com a multidão
ao cair da tarde
saindo das fábricas
a caminho de casa
até ao fim do nosso pedaço de terra
onde começa o abismo
que nos corrói a pele.

[in Auto-ajuda, Mariposa Azual, 2009]

A pulga e o elefante


À esquerda, Bruce Holland Rogers (elefante); à direita, o autor deste blogue (pulga); ao centro, Pedro Marques (editor da Livros de Areia) – Foto: Mariana Tavares

O título da sessão de ontem na Pó dos Livros era simpático – Birds & Butterflies – mas, se quisermos ser zoologicamente correctos, aquilo foi mais o encontro de uma pulga (eu) com um elefante (o Bruce). Aliás, fiz questão de o dizer logo de início, mais para sinalizar a diferença de escala literária do que outra coisa. Se tiverem dúvidas, procurem o paquidérmico currículo do meu companheiro de mesa e compreenderão o que quero dizer.
Com leituras cruzadas, em português e inglês, intervaladas por reflexões sobre a nobre arte da micronarrativa, a conversa fluiu e os espectadores, que foram chegando e ficando, não terão dado por mal empregue, creio, aquele fim de tarde numa das melhores livrarias de Lisboa, minuciosamente descrito neste post do excelente blogue de Maria João Freitas.
No fim, aproveitei para me tornar subscritor do Bruce: por dez dólares anuais, receberei as suas histórias em primeira mão, via e-mail. E como paguei em euros, moeda que continua mais forte do que o dólar, o Bruce fez questão de me dar troco. Um generoso troco de cinco mil milhões de dólares:

Cinco mil milhões de dólares do Zimbabué, entenda-se. Ou seja, pouco mais do que nada. Mas a nota é extraordinária em si mesma (na forma como simboliza o descontrolo económico e a inflação galopante, em contraste com o grafismo sóbrio e a aparente solidez das rochas empilhadas na paisagem). Talvez inspire uma micronarrativa, um dia destes.
Ideias: entre escritores, não há melhor forma de pagamento.

An eye on Hay-on-Wye

O festival de Hay-on-Wye, um dos mais interessantes e concorridos encontros literários do Reino Unido, começou na quinta-feira e dura até ao fim do mês. Vale a pena acompanhar tudo o que por lá se passa (ou quase tudo) na respectiva e completíssima página do The Guardian.

Um Homem: Kurt Crüwell

A Ofensa
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Título original: La Ofensa
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-0-04502-7
Ano de publicação: 2009

A 1 de Setembro de 1939, quando completa 24 anos, o alfaiate Kurt Crüwell tem o destino traçado: herdará um dia a loja do pai, casará com a namorada (uma dactilógrafa judia) e circulará no mundo pequeno-burguês de Bielefeld. Acontece que Adolf Hitler, nesse mesmo dia 1 de Setembro, ordena a invasão da Polónia, o que muda tanto o curso da História como o futuro pacato de Crüwell.
Destacado para o 19.º Corpo Blindado do 6.º Exército, Kurt deixa-se apanhar pela euforia militar nazi em Saarbrücken, onde «tudo eram grinaldas, bandeiras ao vento, veículos velozes em cujas carroçarias se espelhavam os lombos dos corcéis e o cetim das braçadeiras». A «besta loura» prepara-se para conquistar o mundo e o poder das suas tropas parece invencível. Sem ter que disparar um tiro, limitando-se a conduzir num sidecar o seu superior hierárquico (Hauptmann Löwitsch), Kurt deambula pela França ocupada e encanta-se com o ambiente artístico de Montmartre. Quando a sua divisão chega a Nantes, porém, a realidade da guerra mostra-lhe por fim o seu rosto brutal.
Na manhã de 2 de Janeiro de 1941, numa pequena aldeia da Bretanha, aparecem mortos quatro cavaleiros alemães. Para vingar estas mortes, Löwitsch fecha todos os habitantes da aldeia na igreja (91 pessoas) e manda incendiar o templo. «Como reage o corpo de um homem face à presença do horror? (…) Pode um corpo dizer: “Basta, não quero ir mais longe, isto é demasiado para mim”? Pode um corpo esquecer-se de si próprio?» Diante do massacre, Kurt colapsa, recusa o mundo, esquece-se efectivamente de si próprio. Ou seja, torna-se insensível.
No sanatório onde recupera, há um médico (de cuja identidade se apropriará mais tarde) que vê, neste paciente único, «A Metáfora». Porquê? Porque no gesto radical de «suspender os seus vínculos com a realidade», Crüwell está a ser apenas o «molde de uma Europa cobarde» que se vergou ao fascismo e optou pela «paralisia, pela abnegada e fatídica paralisia». Uma paralisia a que ironicamente Lasalle, o médico, também sucumbirá, talvez porque «o pavor e a ferocidade não têm pátria e nidificam por igual em todos os corações».
Romance de pendor filosófico, A Ofensa é uma exploração dos caminhos mais negros e absurdos da experiência humana. Com o seu estilo cuidado (de longas frases, à maneira de Marcel Proust), com o seu notável sentido da economia narrativa e as suas subtis transições entre as várias escalas da História (dos movimentos colectivos às angústias individuais), Menéndez Salmón escreveu um livro certeiro, em que a brevidade é apenas sinónimo de rigor e depuração.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Mago, de Fernando Morais (Planeta), por José Mário Silva
Corvo, de Rui Lage (Quasi), por António Guerreiro
Negreiros-Dantas. Coimbra Manifesto 1925, de Rita Marnoto (Fenda), por Carlos Bessa
Diário de Viagem, de Eduardo Salavisa (Quimera), por Sara Figueiredo Costa
Eu sou a Charlotte Simmons, de Tom Wolfe (Dom Quixote), por Rogério Casanova
Somos o Esquecimento que Seremos, de Héctor Abad Faciolince (Quetzal), por Vítor Quelhas
O Caderno do Algoz, de Sandro William Junqueira (Caminho), por Ana Cristina Leonardo

Sábado à tarde

Prémio PT de Literatura (Brasil) com seis finalistas portugueses

São eles: Inês Pedrosa (A eternidade e o desejo), José Saramago (A viagem do elefante), Gonçalo M. Tavares (Aprender a rezar na era da técnica), José Luís Peixoto (Cemitério de pianos), António Lobo Antunes (Ontem não te vi em Babilónia) e Miguel Sousa Tavares (Rio das Flores). Na lista de 50 finalistas, há ainda um cabo-verdiano (o poeta José Luís Tavares, por Lisbon Blues), um angolano (Pepetela, com Predadores) e dois moçambicanos (Mia Couto, com Venenos de Deus, remédios do Diabo; e Luís Carlos Patraquim, com O osso côncavo e outros poemas). Entre os 40 escritores brasileiros candidatos ao prémio de 100 mil reais estão Fabrício Carpinejar, Eucanaã Ferraz, Daniel Galera, Moacyr Scliar, Manoel de Barros, Luiz Ruffato, Dalton Trevisan e Milton Hatoum.
A shortlist de apenas dez finalistas será revelada em Setembro.

Fragmentária Ciência

Pneuma
Autor: Luís Carlos Patraquim
Editora: Caminho
N.º de páginas: 76
ISBN: 978-972-21-2026-5
Ano de publicação: 2009

O título da mais recente recolha de poemas de Luís Carlos Patraquim – Pneuma – remete para uma palavra do Grego antigo cujo significado literal é «respiração», ou «ar em movimento», mas que no contexto religioso cristão também pode designar o «espírito» ou a «alma». É entre estes dois extremos (de um lado, o sopro da natureza; do outro, a essência do humano) que se organiza esta escrita sempre a tender para a «genesíaca louvação / dos nomes». A começar pelos nomes de vários poetas moçambicanos desaparecidos (entre os quais José Craveirinha, Alberto de Lacerda, Rui Knopfli e Sebastião Alba), evocados num tom simultaneamente celebratório e melancólico. Atente-se na última estrofe do belíssimo poema dedicado a Knopfli:

E se houve cão e a angústia e o sarcasmo da rosa,
A de plástico,
Invoco-te os jacarandás no túnel da avenida alta
atapetando-nos as sensações,
Para que te visitem onde escreves, acocorado,
Na erma savana com os rios ao longe,
Inhambane ou Pasárgada, Vila Viçosa, a Londres mítica,
Joeburg e a terra desolada.

Há nesta poesia, a par de referências míticas e literárias facilmente reconhecíveis, uma fina rede de significantes que nalguns casos serão opacos para a maioria dos leitores, mas sem que boicotem o efeito dos poemas, antes lhes conferindo um suplemento de estranheza e mistério. Ou não fosse esta uma «fragmentária Ciência, / resvalando em sua própria declinação». As imagens irrompem de todos os lados, sobrepõem-se («desencordoando o escuro») e convocam tanto paisagens sob «a lua prismática / do Índico» como os brilhos e sombras da pátria moçambicana, «rendilhada cortina / que a usura pui». Na página 57, Patraquim resume o seu programa em quatro versos:

Cair do chão
ao alto

elipse
ascendente.

É essa queda para cima que este livro não cessa de cantar.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Roubar o pai

«Muitos rapazes sonham ser invisíveis. Eu era de certo modo invisível. Jamais fui surpreendido enquanto roubava dinheiro do bolso do meu pai nem enquanto dormia num ou noutro dos meus esconderijos. Também parecia invisível no meio dos irmãos, talvez porque, ao estar no meio, os mais velhos me consideravam pequeno e os mais novos, velho. A fronteira, a terra-de-ninguém, a não pertença, o território da escrita. Só a minha mãe me via e olhava para mim com uma expressão preocupada de que eu gostava. E que me magoava. Talvez gostasse porque me magoava. Talvez ela soubesse. Um dia, ao almoço, referiu-se a uma pessoa que afirmou ser cleptomaníaca. Quando um dos meus irmãos lhe perguntou o significado daquela estranha palavra, respondeu dirigindo-se a mim, que fiquei sem pingo de sangue na cara durante uns segundos, até que, talvez por piedade, desviou o olhar. A minha mãe tinha capacidades de adivinhação.
Mais adiante, animado pela impunidade dos meus furtos, e já numa carreira desenfreada para a delinquência, levei a cabo uma incursão na carteira do meu pai, da qual retirei uma nota de cinco pesetas (uma fortuna). Com essa nota, transformada em moedas, poderia ver a rua da cave do Vitaminas durante o resto da minha vida (durante o resto da vida dele, para falar com exactidão). Tinha as pernas a tremer quando saí com a nota para a realidade, a arfar como um asmático. Realizei o furto à hora da sesta e tive a nota no meu bolso até às sete da tarde. A essa hora compreendi que nem a minha consciência suportaria o peso de um delito daquela natureza nem a polícia seria tão desajeitada que não desse com o ladrão quando o meu pai denunciasse o desaparecimento.»

[in O Mundo, de Juan José Millás, trad. de Luísa Diogo e Carlos Torres, Planeta, 2009]

UMA (DE MIL)

Entrava sempre calado e pendurava o casaco
na maçaneta de vidro do lado de fora do
quarto. O sudário do cansaço. Via-o
a passar para a sala
(do lado de dentro do medo) e
sabia ter um minuto (máximo: minuto
e meio) para
arrancar para o casaco
enfiar a mão nos bolsos
desfolhar a carteira e roubar
uma de mil. Era sempre uma de mil. Um
desses bilhetes longos
(que doía destrocar)
devo-o ter engodado para cima de
muitas vezes. Era sempre uma de mil. A
dada altura decidi que ele sabia de tudo:
já ali deixava o seu hábito
(como redil para o meu vício)
com
mais orgulho que zelo
(menos despudor
que escrúpulo). Eu só queria uma (de mil).
Usava pressagiar que no seu leito enfermo
haveria de remir a usura de
cada escudo. Mas perdi-o num minuto (máximo:
minuto e meio). Há
dias em que só
penso nisto.

[in A Parte pelo Todo, de João Luís Barreto Guimarães, Quasi, 2009]

Os arquivos de Cormac

Os arquivos de Cormac McCarthy estão expostos na Universidade do Texas, desde ontem. O acesso dos investigadores interessados, porém, carece de marcação prévia.
Será que o tradutor português de McCarthy, o meticuloso Paulo Faria, vai preencher este formulário? Não me admirava nada.

Mais logo, às dez

A partir das 22h00, no Bar A Barraca (Teatro Cinearte, Largo de Santos, 2), o Changuito lê Mário Cesariny, o mestre que paira sobre a sua secretária lá na «livraria dos poemas» (como diz a minha filha).
A entrada é livre.
A 26 de Maio, será a vez de Herberto Helder. A 2 de Junho, Alexandre O’Neill.

O Clube dos Leitores Gulosos

A ideia, apetitosa, é do Luís Filipe Cristóvão:

«A LivrodoDia está a promover um clube restrito, um pouco snob, até. Simplesmente não é para qualquer um. É para leitores ávidos, insaciáveis, exigentes, gulosos. Saboreiam a Literatura, têm as suas preferências e receitas favoritas, veneram um ou outro mestre. Mas se há aqueles a quem, num texto, não escapa uma gralha, a estes não escapa a sugestão de um aroma, a referência a um prato da infância, a inebriante alusão a um ingrediente exótico de que se desconhece o sabor. Leu todos os livros de Asterix? Se salivou ao pensar em javali assado no espeto, é um dos nossos. Se Os Maias lhe dá vontade de ir a Sintra comer queijadas, é um dos nossos. Se interrompeu a leitura de Dona Flor e seus Dois Maridos para copiar, religiosamente, a receita do vatapá, saiba que não está sózinho. Aprendeu com Luís Sepúlveda onde se come a melhor sopa de peixe do mundo? O nome Manuel Vásquez Montalbán deixa-lhe água na boca? Junte-se a nós. O convite está feito. O Clube de Leitores Gulosos reune-se na LivrodoDia para falar de boca cheia. A mesa estará posta com livros e comida. Traga só o apetite.»

A primeira sessão já tem data marcada: 29 de Maio, 21h30. E tema: «trincar a madalena». O preço é quase simbólico: cinco euros. Inscrições na Loja Livrododia (Torres Vedras), por email (luis.cristovao@livrododia.com.pt) ou pelo telefone 261 314 286.

Mais 15 títulos para a colecção BIS

A terceira leva da colecção de bolso da LeYa estará disponível a partir da próxima sexta-feira (dia 22), com um preço de 5,95 euros por exemplar. Além do circuito de distribuição habitual (livrarias, supermercados, aeroportos e estações de caminho de ferro), os livros poderão igualmente ser encontrados em máquinas de venda automática, semelhantes à que foi testada na Feira do Livro de Lisboa.
Eis a lista dos 15 novos títulos da BIS:

Contos Populares Portugueses, de Adolfo Coelho
Gaibéus, de Alves Redol
O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires
A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós
O Último Cais, de Helena Marques
Nas Tuas Mãos, de Inês Pedrosa
A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, de Mário de Carvalho (incluída no PNL, Plano Nacional de Leitura)
A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, de Raul Brandão
Daqui a Nada, de Rodrigo Guedes de Carvalho
Aventuras de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle
As Aventuras de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (incluída no PNL)
O Processo, de Franz Kafka
Frankenstein, de Mary Shelley
Travessia de Verão, de Truman Capote
O Operário em Construção, de Vinicius de Moraes

Mais informações no blogue da BIS.

Prémio Bocage

A LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) promove este ano a 11.ª edição do Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage, para «autores de Língua Portuguesa, do Continente e das Regiões autónomas dos arquipélagos dos Açores e da Madeira e ainda dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, Palop’s, e outros Países de Língua Oficial Portuguesa». Podem concorrer ainda residentes das comunidades portuguesas e quaisquer autores portugueses residentes em qualquer ponto do mundo.
Na modalidade de Poesia, o prémio é de 2500 euros; na de Revelação, 1500 euros. Cada autor seleccionado receberá 50 exemplares de um livro com os textos vencedores, a publicar pela LASA. Os trabalhos podem ser entregues até 10 de Julho. A entrega dos prémios acontecerá a 15 de Setembro, Dia de Bocage e da Cidade de Setúbal, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
O regulamento está disponível no site da LASA.

Um poema de Mario Benedetti

DEFENSA DE LA ALEGRÍA

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

[in Antología poética, Alianza Editorial, 1999]

Primeiro dia, último dia

«Segunda-feira 11 de Fevereiro
Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me poder reformar. Devo fazer esta conta diária do meu saldo de trabalho há cinco anos. Preciso mesmo tanto de ócio? Digo a mim próprio que não, que não é do ócio que eu preciso, mas sim do direito a trabalhar naquilo que quero. Por exemplo? O jardim, talvez. É bom como descanso activo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra a minha futura e garantida artrite. Mas temo que não poderia suportá-lo diariamente. A guitarra, talvez. Julgo que gostaria disso. Mas deve ser um pouco desolador começar a estudar solfejo aos quarenta e nove anos. Escrever? Talvez não o fizesse mal, pelo menos as pessoas costumam apreciar as minhas cartas. E com isso? Imagino uma notinha bibliográfica sobre os «plausíveis valores deste novo autor que raia os cinquenta» e essa mera possibilidade repugna-me. Que eu me sinta, ainda hoje, ingénuo e imaturo (quero dizer, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito a exibir essa ingenuidade e essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que quando fazia uma sobremesa a mostrava a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe tinha ficado preso nos lábios desde a época em que fazia efeito junto do seu namorado motociclista, que depois se matou numa das nossas tantas Curvas da Morte. Ela vestia-se correctamente, completamente de acordo com os seus cinquenta e três anos; nisso, e no resto, era discreta e equilibrada, mas aquele sorriso reclamava em troca um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de vinte anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que nunca chegava a parecer ridículo porque, além disso, naquele rosto havia bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.

Sexta-feira 28 de Fevereiro
Último dia de trabalho. Nada de trabalho, claro. Passei-o a dar apertos de mão, a receber abraços. Acho que o gerente transbordava de satisfação e que o Muñoz estava realmente comovido. A minha mesa ficou lá. Nunca pensei que me importasse tão pouco desprender-me da rotina. As gavetas ficaram vazias. Numa delas encontrei um cartão de Avellaneda. Ela deixara-o para que registássemos o número na sua ficha pessoal. Pu-lo no bolso e aqui está. A fotografia deve ter uns cinco anos mas ela era mais bonita há quatro meses. Outra coisa ficou clara e é que a mãe está enganada: eu não me sinto feliz por me sentir infeliz. Sinto-me simplesmente infeliz. O escritório acabou. A partir de amanhã e até ao dia da minha morte, o tempo estará às minhas ordens. Depois de tanta espera, é isto o ócio. O que farei com ele?

[Primeiro e último capítulo de A Trégua, de Mario Benedetti, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007]

Mario Benedetti (1920-2009)

Morreu o escritor uruguaio Mario Benedetti, «poeta do compromisso, do amor e da alegria», como é definido por Juan Cruz, no obituário do El País. Noutro texto, muito breve, José Saramago considera-o «um amigo, um irmão».
Em Portugal, a Cavalo de Ferro publicou dois dos seus romances: A Trégua e Obrigada pelo Lume.
Neste vídeo, excertos de uma entrevista ao canal Telesur:

Cinco criaturas de Paulo Rodrigues Ferreira

BALDUIN

Balduin passava os dias escondido debaixo da cama. Se alguém lhe pedia explicações pelo seu estranho comportamento, a criança limitava-se a esboçar um fraco sorriso. Balduin dormia debaixo da cama. Balduin lia debaixo da cama. Balduin vivia debaixo da cama.
Um dia, quando a cama caiu, Balduin morreu, como se fosse um gafanhoto debaixo de um sapato.

EVA

Uma senhora velha queria voltar a ser bela e jovem. Arrancou os dentes ao seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.

FERDINAND

Empoleirada numa varanda de sétimo andar, uma rapariga sorri para Ferdinand, o seu namorado. Este, despreocupado, pensa: «Se ela cair, eu vou junto.»

FRIEDER

Em certas manhãs de nevoeiro, Frieder entretinha-se a contar as pessoas que passavam por debaixo da sua varanda.
«Uma pessoa. Uma pessoa. Uma pessoa.»
As pessoas passavam mas Frieder não as via.
«Só vejo a mulher que me deixou.»

BLOCH

Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.

[in A Prisão do Ético, Livrododia, 2009]

618 quilómetros

A poética dos escaparates

«Compro por Internet libros que de otro modo no encontraría y curioseo con gusto páginas a veces remotas que me dan pistas para descubrirlos, y supongo que con el tiempo alguna forma de lectura electrónica se volverá mucho más común. Pero el encuentro con la literatura, su mezcla de azar y de búsqueda, su lenta paciencia, sus caminos sinuosos, se empobrecerán irreparablemente si desaparecen los libreros con vocación y las librerías, que ahora están más en peligro que los libros en sí. Para reconocerme de verdad como lector necesito el espejo ambiguo de sus escaparates.»
Antonio Muñoz Molina, num artigo publicado no suplemento Babelia, do El País.

Um link que vale a pena explorar

O da IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions).

Quatro poemas de José Ricardo Nunes

K8 COM TIMONEIRO

Depois atiram-me à água:
o justo prémio da vitória.
As minhas indicações, a cadência
que doseia o esforço e assegura a velocidade
e faz dos meus companheiros comigo
um só músculo contraído,
espalham-se na água
logo que a prova termina e é conhecido
o vencedor. Eu
apenas trabalho para essa equipa:
ocupo os espaços vazios,
os intervalos,
as pequenas falhas
entre corpos e músculos,
moldáveis, eu, a minha voz,
até que tudo acaba
e me atiram para a água,
para dentro desta página.


O TESTEMUNHO

Os aplausos e os gritos da turba descontrolada
sobrepõem-se às palavras que faziam corpo
comigo na solidão dos caminhos. As coisas
já não exigem as suas palavras.

Desculpem-me o desabafo.
E é tão deselegante, bem sei, chamar poetas
para aqui, ainda para mais os que ficaram
fechados em livros, no desamor do esquecimento.

De resto, revelei-me incapaz de passar despercebido –
eu que apenas sou mencionado
quando o atleta se descuida e falha a transmissão
ou me deixa cair a meio da corrida.
Mais forte do que eu, simples
tubo metálico de fabrico em série.

Já fui invólucro de ordens, notícias,
mensagens que se transformavam
em acontecimentos assim que eram destruídas.
Relegado de vez para o desporto,
passo agora vazio de mão em mão
pelas pistas dos estádios.


TRAMPOLIM DE 20 METROS

Todos aplaudem os movimentos
que executo ao voar da prancha
para a água. E creio que são merecidos.
Procurei a perfeição em longas horas
de frio e solidão. Treinei
vezes sem conta o triplo mortal,
os mortais à retaguarda, os empranchados.
Decido como quero o meu caminho
até à água e entrego um exemplo
aos que assistem e sonham ao contrário,
lamentando o tempo perdido e a obesidade.
Rasgo o pano líquido – navalha
afiada, inteiriça, mas com medo do sangue.
Depois subo à superfície
para receber os aplausos e ouvir os elogios,
embora me mantenha atrás duma cortina.
Ninguém sabe o que se passa dentro
de água, como simulo
aí reter-me, tocar no fundo, permanecer
no fundo o máximo de tempo possível.


100 METROS MARIPOSA

Deito os braços à água
e a água escapa-se e o corpo
segue em frente, imunizado
contra o sonho instável da água.

Braçadas difíceis, confesso:
a imagem dissolve-se
e depois é só água
e na água não posso escrever.

[in Versos Olímpicos, Deriva, 2009]

Um dia também gostava que o Prof. Joaquim Furtwangler apresentasse um livro meu

Ontem à tarde, junto ao stand da Tinta da China, o sempre imprevisível Prof. Furtwangler dissecou, com humor, desembaraço e algumas tiradas de génio, o último opus de Pedro Mexia: Estado Civil. Anunciado como um dos oradores, Ricardo Araújo Pereira faltou à chamada mas ninguém deu pela sua falta, tal o grau de hilaridade provocado na assistência pelos comentários e chistes do Prof. Furtwangler (na foto, em cadeira de rodas, entre a editora Inês Hugon e Pedro Mexia). Samuel Úria (à direita), cantautor de culto da seita FlorCaveira, também não esteve nada mal, interpretando dois temas que se encaixam perfeitamente no espírito do livro.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges