Pina Bausch (1940-2009)

Morreu Pina Bausch. A grande coreógrafa, a inventora de gestos, a mulher que revolucionou a dança-teatro, tudo isso. Mas eu só me consigo recordar, agora, do seu corpo-ruína, percorrendo em cima do palco um labirinto de cadeiras, nesse Café Müller de há um ano, no São Luiz, em que foi fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso.
Desceu hoje um silêncio insuportável sobre Wuppertal. E sobre o mundo.

Dois poemas de Tiago Patrício

OS PARDAIS DA SINAGOGA DE TUNIS

Os pardais que dormem
em frente à Sinagoga de Tunis
conhecem bem a geografia
e as rotas de migração

Da meteorologia das cidades
pressentem os parapeitos
das janelas e o calor dos corpos
pela agitação das folhas

Têm o hábito de percorrer
as enseadas e cair
das ravinas nas horas
frescas da manhã
como crianças descalças

Nos jardins fechados de Tunis
onde o sotaque francês
transpira sobre a erva seca
os pardais comuns
anoitecem em bando
como sons guturais
e agitam o ar à volta
dos minaretes na chamada
para a oração

Quando regressam
ao interior das árvores
da Sinagoga de Tunis
assustam de morte
os guardas adormecidos
com as armas pesadas
apontadas ao peito


CAÇADORES

Os caçadores são feitos de prata ou de volfrâmio
de acordo com a época e as recordações
Têm a mira no olhar e o gatilho na pulsação
do braço direito recolhido a ombrear com a bandoleira
Na boca a pólvora e o sangue cinegético
Nos ouvidos o bosque inteiro e no pensamento
venatório o silêncio dos pássaros e dos seus hábitos

Os caçadores são os mais ferozes amantes das aves
têm no olfacto o fumo e a terra molhada
e na memória os tordos, as rolas e os pombos
Namoram as aves até ao último encontro
e disparam como quem despede a infância

Tombam as aves como pedras feridas
que no restolhar das asas perdem a elegância
para o chumbo e o cartucho no avesso do ar
Mas guardam ao pescoço as últimas plumas
como paixões deflagradas no peito florido

[in O Livro das Aves (Prémio Daniel Faria 2009), Quasi, 2009]

Boas novas para os fãs de Stieg Larsson

1) Na próxima terça-feira, dia 7 de Julho, chega às livrarias portuguesas A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Oceanos), último volume da trilogia Millennium, iniciada com Os Homens que Odeiam as Mulheres e A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo.

2) Ficou hoje a saber-se que a Lusomundo comprou os direitos de exibição em Portugal dos filmes que adaptam os dois primeiros livros da série. Os Homens que Odeiam as Mulheres, de Niels Arden Oplev, estreará a 17 de Setembro; A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, a 22 de Outubro; enquanto o terceiro filme chegará no próximo ano, em data ainda a definir.

3) Para acompanhar tudo o que diz respeito às obras literárias de Larsson, a LeYa criou o site Millennium-Mania.

Destinos literários

No seu site, o jornal espanhol El Mundo propõe nove destinos na Europa para quem queira fazer turismo literário: Madrid, Atenas, Sicília, Lisboa, Paris, Normandia, Berlim, São Petersburgo e Dublin. Na capital portuguesa, as referências não fogem ao que seria de esperar: Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queirós e Tabucchi.

João Tordo na Almedina

O romance As Três Vidas (QuidNovi), de João Tordo, vai ser discutido na Comunidade de Leitores da Almedina, coordenada por Filipa Melo, nos próximos dias 1 e 8 de Julho, a partir das 19h00 (na livraria Almedina do Atrium Saldanha). Como leitura paralela, está prevista uma obra magnífica de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (Teorema).

Lançamento de ‘O Caderno’ (resumo)

Palavras

«Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.»

[in O Caderno, de José Saramago, Caminho, 2009]

Infinite Summer

De 21 de Junho a 22 de Setembro, um grupo de «endurance bibliophiles» do mundo inteiro vai ler, de fio a pavio (sem esquecer uma única das suas numerosas notas de rodapé), o gigantesco e genial romance Infinite Jest, de David Foster Wallace. A experiência será relatada no blogue Infinite Summer, criado por Matthew Baldwin (not one of the Baldwin brothers, I suppose), que falou sobre este «projecto de leitura» («reading project») aqui e aqui.

‘Perto da Felicidade’ (trailer/teaser)

Depois de Revolutionary Road, mais um romance de Richard Yates em português. Em breve, na Quetzal.

30 anos, 3 perguntas

Os 30 anos são os da Antígona. As três perguntas são da Sara Figueiredo Costa, dirigidas a Luís Oliveira, o editor da Antígona, sobre (justamente) os 30 anos da Antígona.

Poetas cubanos de agora

Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas
Selecção, prefácio e notas: Pedro Marqués de Armas
Tradução: Jorge Melícias
Editora: Antígona
N.º de páginas: 237
ISBN: 978-972-608-203-3
Ano de publicação: 2009

No excelente prefácio a esta antologia, que reúne uma dezena de nomes essenciais da poesia cubana contemporânea (José Kozer, Reinaldo Arenas, Reina María Rodríguez, Ángel Escobar Varela, Rolando Sánchez Mejías, Ismael González Castañer, Antonio José Ponte, Omar Pérez, Damaris Calderón e Alessandra Molina), o responsável pela selecção, Pedro Marqués de Armas, traça um abrangente panorama da literatura feita em Cuba no último século e meio, da centralidade fundadora de José Martí ao fechamento da política cultural do Estado (durante a segunda década da revolução castrista), passando pelo negrismo de Nicolas Guillén e pela influência do estilo neobarroco de Lezama Lima.
Para Armas, na ilha houve desde sempre uma «sustentada tensão entre poesia e História» que levou, em muitos casos, à leitura da História como poesia, «ocultando a sua extrema violência», e da poesia como palco de «premonições históricas». Os dez autores escolhidos estão entre os que se esforçaram, dos anos 70 em diante, por ultrapassar estes impasses através da autonomização dos respectivos discursos poéticos. São autores já libertos do «lastro da ideologia» e marcados, quase todos, ou pelo desencanto face ao esvaziamento da utopia (os que ficaram) ou pela resoluta oposição ao regime (os que optaram pelo exílio).
Destes últimos, destaca-se Reinaldo Arenas e a sua poesia «ao mesmo tempo lúdica e trágica, colérica e sóbria, desalinhada e efectiva». Veja-se este excerto do poema «Vozes»: «Nós viemos pelo ar / Nós viemos pelo mar / Nós chegámos amarrados ao pneu de um automóvel / Nós chegámos presos à roda de um avião / Nós saímos conjurando tubarões e guarda-costas (…) Sim, sem dúvida somos os mais ditosos / – os afortunados. Os demais jazem para sempre sob o mar / ou condenam a nossa fuga / enquanto secreta e desesperadamente desejam partir.» Menos explícita, a revolta está também presente na torrencialidade lírica de Reina María Rodriguez («estávamos rodeados de horizontes e de água») ou na «suprema exaltação das palavras» de José Kozer. Alguns lamentam, como Ángel Escobar Varela, não ter dito «o adequado no tempo certo, / nem o certo no tempo adequado», mas a questão definitiva talvez seja a que coloca Damaris Calderón (n. 1966): «Há saída possível para fora / ou toda a saída é para dentro, / até ao reino da raiz?»
A tradução de Jorge Melícias, globalmente cuidada, rigorosa e fluida, peca apenas por um ou outro lapso semântico. No poema que aqui citamos de Reinaldo Arenas, por exemplo, onde se lê «guarda-costas» parecer-nos-ia mais apropriado que se lesse «guardas-costeiros».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

PS – Em resposta ao último parágrafo da recensão, o tradutor Jorge Melícias disse de sua justiça nos comentários a este post. O que eu tinha a responder, ficou também ali respondido.

Um leitor sem qualidades

Ou melhor: um leitor com qualidades imensas. Um leitor que reúne «representações, citações, histórias, imaginários, deambulações, funambulismos perseguindo “um rasto já há muito extinto no ar ou na água [mas que continua] visível, aqui, no papel”, como diria W.G. Sebald». Um leitor que já nos dera um dos melhores blogues portugueses de sempre e depois desaparecera. O leitor sem qualidades (isto é, com qualidades imensas), o leitor benjaminiano, musiliano, walseriano, sebaldiano, vila-matiano, cortazariano, o leitor-leitor, o leitor-escritor, o leitor quase total está de volta.
Se soubesse como se faz, eu próprio lançaria o fogo-de-artifício, mesmo num dia assim, de nuvens enchendo o céu.

O sucesso explica-se?

Quinta-feira, no sítio do costume, à hora do costume.

‘La visión del ámbar’

Jorge Luis Borges por Manuel Vicent, no suplemento Babelia.

Slam proscratination

A reportagem sobre o concurso de slam poetry não está esquecida; foi só adiada. Espero publicá-la mais logo.

Trilogia maynardiana

Os três romances policiais escritos por Dinis Machado, aliás Dennis McShade, são apresentados esta tarde (18h30), na FNAC do Chiado, com a participação de José Xavier Ezequiel e Teresa Sá Couto.

Lançamento de ‘Ética a Nicómaco’

O clássico Ética a Nicómaco, de Aristóteles, traduzido, prefaciado e anotado por António Castro Caeiro, numa edição da Quetzal, será apresentado esta tarde, a partir das 18h30, na livraria Bertrand do Chiado, por Marcelo Rebelo de Sousa e José Tolentino de Mendonça.

Três poemas de Roberto Juarroz

El poema continuo,
la escritura continua,
el texto que nunca se termina
y nunca se interrumpe,
el texto equivalente a ser.

La vida se convierte
en una forma de escritura
y cada cosa es una letra,
un signo de pontuación,
la inflexión de una frase.

Inaugural metabolismo
de una filología
que ha descubierto un nuevo verbo:
el verbo
siempre.

La poesía se escribe siempre,
vivir se vive siempre,
algo despierta siempre:
poema-siempre.

El ser es escritura.

Y una palabra es suficiente
para toda la acción:

siempre.
El otro verbo,

nunca,
es tan sólo su sombra.

***

Hay ángulos del mundo
o menos, sólo vértices,
una carta que inaugura una estrella,
un brote en un tronco decididamente seco,
un pájaro inverosímil
en la aguja inverosímil de un ciprés
recolectando o asociando
las tardes perdidas en la tarde,
el rostro por fin suyo de una mujer dormida,
una música que convierte todo ruido en pillaje,
la palabra que concentra en sí misma sus ecos
y demuestra que ninguna resonancia es necesaria,
que prueban que el paraíso es uno terreno repartido,
una flor o un dios diseminado
como una siembra impostergable
entre las multiformes aleaciones
del pensar y las cosas.

Y no es preciso sumar nunca esos ángulos,
ni tampoco abrirlos o cerrarlos
o armar otra figura
para adormecerse adentro,
sino aprender a leer las formas sueltas,
como quien al leer un solo párrafo
lee ya todo el libro.
Quizá todos los libros.

Basta un ángulo de cualquier paraíso,
un ángulo o un vértice,
aun de los paraísos repartidos,
perdidos, mutilados,
para aplacar los triunfos prepotentes,
los triunfos mal entrazados y viscosos,
de la muerte y los múltiples infiernos.

***

Una hoja en el árbol.
Otra hoja en el pensamiento.

Las dos hojas
penden de diferentes ramas,
pero el mismo viento del otoño
las hará caer a las dos.

[in Undécima Poesía Vertical, Pre-Textos, 2002]

A pedido da menina Alice…

…regressámos hoje à sua livraria preferida. Enquanto ela brincava e folheava livros com toupeiras e desenhava e dançava e cantava e ria muito com o Changuito, o pai deambulou entre preciosidades e não resistiu (como nunca resiste) a trazer para casa mais quatro: a Undécima Poesía Vertical, de Roberto Juarroz (Pre-Textos); Desalojos, de Miriam Reyes (Hiperión); Mi Primer Bikini, de Elena Medel (DVD); e Um Pouco da Morte, de Joaquim Manuel Magalhães (Presença, 1989).

Última hora: resultados do primeiro concurso de Slam Poetry realizado em Portugal

Esta noite, no Musicbox (Lisboa), decorreu o primeiríssimo torneio de Poetry Slam de Portugal (e também da Península Ibérica, se acreditarmos no caótico, brilhante e a partir de certa altura consideravelmente alcoolizado Mestre de Cerimónias, J. P. Simões). Os oito participantes, escolhidos entre 68 candidaturas, mostraram-se à altura do histórico momento. E os dois finalistas que se digladiaram com palavras e ritmo, já bem madrugada adentro, foram:

Brisa Ramos, a quem o júri atribuiu o 2.º lugar, com direito a um leitor de mp3 carregado de audiolivros, uma biblioteca portátil oferecida pela editora 101 Noites e um kit do Goethe Institut

Biru, o grande vencedor da noite, que, além do 1.º prémio (500 euros, em nota única entregue por J. P. Simões, enrolada dentro de um maço de cigarros), teve a surpresa de um prémio suplementar: uma viagem a Varsóvia, durante três dias, com tudo pago, para participar num concurso internacional de Slam Poetry

Reportagem completa, amanhã (isto é, hoje, sábado, quando tiver recuperado da noitada).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Cão em Fuga, de Don DeLillo (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Elegia para um Americano, de Siri Hustvedt (ASA), por Vítor Quelhas
O Fato Cinzento, de Andrea Camilleri (Bertrand), por Paulo Nogueira
O Despertar, de Kate Chopin (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
333, de Pedro Sena-Lino (Porto Editora), por José Mário Silva
O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa (Deriva), por António Guerreiro
A Pena do Diabo, de Minette Walters (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Lembrete

A partir das 22h30, começa no Musicbox (Rua Nova do Carvalho, 24, Lisboa), um torneio de Poetry Slam integrado no Festival Silêncio!. Os oito finalistas são:

– Alexandre Francisco Gomes da Silva
– Alexandre Oliveira
– Ana Reis
– Brisa Ramos
– Jorge Vaz Nande
– Luis Carvalho
– Pedro Kruss Silva
– Tiago Martins

Do júri fazem parte Ana Padrão, Fernando Alvim, José Luís Peixoto, Rui Zink, Vitor Belanciano e Tiago Bettencourt. O músico J. P. Simões será o Mestre de Cerimónias.

Sobre a edição italiana de ‘O Caderno’

Após a recusa da Einaudi em publicar O Caderno (por causa dos ataques violentos de Saramago a Berlusconi, proprietário da editora milanesa), já se sabia que o livro seria publicado por outra editora importante: a Bollati Boringhieri. Mas ontem Pilar del Río deu uma notícia, julgo que em primeira mão: em Outubro, a obra de Saramago será apresentada por três pesos-pesados da literatura italiana. Em Turim, cidade onde fica a sede da Bollati Boringhieri, será Claudio Magris a falar do livro. Em Milão, Umberto Eco. E, em Roma, o também Prémio Nobel (de 1997) Dario Fo.



Me, Isabel and Saramago (3)

Quando alguém fala com José Saramago, o mais difícil é interrompê-lo. Feita a pergunta, o escritor lança-se em longos raciocínios que se estendem sempre um pouco mais para a frente, numa cadência que raras vezes permite a intromissão da pergunta seguinte. Durante a sessão de ontem, Pilar del Río murmurou várias vezes, «faça-lhe a pergunta, faça-lhe a pergunta», mas nem sempre tive coragem de interromper as elaboradas divagações – por vezes semelhantes, em estilo e forma, aos exercícios digressivos dos seus narradores.
Na verdade, Saramago falou sempre como aquilo que é: um escritor. Não um blogger (ou bloguista, ou blogueiro, ou o que quiserem chamar-lhe), mas um escritor. O que lhe interessa é a escrita, a escolha das palavras certas, o prazer de comunicar o que pensa sobre o mundo, as pessoas, os actos, os gestos ou os livros dos outros. Fazê-lo através de um blogue não passa de uma contingência, quase um acaso, uma prova do seu amor por Pilar, que o empurrou gentilmente para um meio (a Internet) que não é o seu. Em duas das perguntas, chamei a atenção para o facto de faltar ao blogue de Saramago quase tudo o que faz com que um blogue seja um blogue: os links são raríssimos, não há blogroll, nem comentários, nem qualquer tipo de interacção com os leitores ou com a restante blogosfera. Saramago assume o solipsismo: ele escreve o que escreve, quem quiser lê, quem não quiser não lê, ponto final. «Eu estou apenas emprestado à Internet», disse, evocando o seu individualismo e a necessidade de não perder mais do que uma hora por dia, ou hora e meia, com as actividades online. Não por acaso, o seu interesse pelo Facebook, Twitter e redes afins é nulo.
Conclusão: como supúnhamos, Saramago tem uma relação problemática com a tecnologia, resolvida por Pilar del Río (que o incentiva a escrever) e pelo apoio técnico de alguns elementos da Fundação Saramago. Em sentido estrito, chamar-lhe blogger é um exagero. Os seus textos no blogue não são posts; são crónicas breves que alguém coloca online, com o imediatismo que a blogosfera permite. E isso já é muito. Que o digam os seus admiradores espalhados pelo planeta, entre os quais aquele leitor, lembrado por Pilar, que todos os dias traduz as prosas saramaguianas para lituano.
Por falar nisto, deixo-vos um episódio que se passou minutos antes do início da sessão. Na sala ao lado, Saramago mantinha uma conversa de circunstância, comigo e com a Isabel Coutinho. Entra um elemento do staff técnico, prende um microfone de lapela ao casaco de Saramago, sai e nós continuamos a inocente charla. Daí a nada, aparece Pilar, a sorrir: «É só para avisar que devem ter cuidado com o que dizem. Telefonaram-me agora, tanto de Lanzarote como da Argentina, a dizer que estão a ouvir a vossa conversa através da Internet.»

Lançamento de ‘O Caderno’ (imagens)


Da esquerda para a direita: Zeferino Coelho (editor da Caminho), Isabel Coutinho, José Saramago, eu e Pilar del Río (presidenta da Fundação José Saramago)

Fotografias: Vítor Dinis Silva

Me, Isabel and Saramago (2)

A sessão foi longa, eu não consegui acesso à net (e mesmo que tivesse conseguido, era impossível conversar e blogar ao mesmo tempo), a audiência pareceu gostar, pelo menos as cem pessoas presentes na sala (a que se deverão somar outras mil e tantas que assistiram online, segundo números provisórios do portal Sapo), mais tarde tentarei resumir aqui as minhas impressões sobre o encontro.
Entretanto, vale a pena ler o relato feito pela Sara Figueiredo Costa e a reportagem do Público (por enquanto sem link), assinada por Joana Amaral Cardoso, que curiosamente oblitera o «quem?» da checklist mental que qualquer jornalista vai riscando enquanto escreve uma notícia, fazendo passar a ideia (errada) de que Saramago falou sozinho.

Me, Isabel and Saramago

Se não houver problemas técnicos, a partir das 18h30 esta janela aqui em baixo começará a transmitir o lançamento do livro O Caderno, de José Saramago (Caminho), durante o qual o Nobel da Literatura 1998 responderá às perguntas da Isabel Coutinho, às minhas e às dos internautas espalhados pelo mundo inteiro.

codebase="http://activex.microsoft.com/activex/controls/mplayer/en/nsmp2inf.cab#version=6,0,02,902" standby="Loading Microsoft Windows Media Player components..." type="application/x-oleobject">

Espero que funcione.

Pilar del Río sobre ‘O Caderno’

«O Caderno não é um livro de crónicas jornalísticas, é um livro de vida. Aí Saramago conta cada dia o que o motiva, o que o indigna ou o que lhe apetece. Comenta o minuto, mas também recupera uma declaração de amor a Lisboa. Fala dos seus autores preferidos, com humor define as calças sempre impecavelmente vincadas de Carlos Fuentes, mas também o universo turbulento dos turcos de Jorge Amado descobrindo a América. Fala de Obama, sim, mas também de Bush, e do Papa, e de Garzón, e de Pessoa, e de Sigifredo López e Rosa Parks, de tantos lutadores pacíficos que conseguiram mudar o mundo ou o estão tentando, embora haja quem prepare receitas para matar um homem ou para condená-lo à fome, à miséria, a um estádio em que o humano acaba por desaparecer. E Saramago emociona-se com gente, com amigos, com pormenores… São seis meses de vida em que Saramago opta e conta com pinceladas que bem poderiam ser versos, reflexiona na companhia de quem o lê, propõe e não se cansa. Seis meses de cartas inteligentes para leitores inteligentes, sem artifícios e com tudo o que tem para dizer. Porque Saramago não se cala, expõe, entra, derruba montanhas ou aponta com o dedo se nesse dia não pode com a escavadora, ou são necessários mais para manejá-la, então diz que essa encosta é um impedimento, uma rémora, um obstáculo na vida de muita gente e avançamos para a deitar abaixo porque poderemos, se somos muitos.»

O texto completo da presidenta da Fundação José Saramago pode ser lido aqui.

O melhor post do mês (e talvez do ano)

Rogério Casanova sobre David Foster Wallace e os vários tipos de inteligência (A, B1, B2, C e D).

Perguntas para Saramago

Logo à tarde (18h30) vou participar, com a Isabel Coutinho, na apresentação do livro O Caderno, de José Saramago, que reúne textos publicados pelo Nobel da Literatura português no seu blogue, aberto em Setembro de 2008. A editora Caminho tem apelado aos bloggers para transformarem o lançamento num happening digital, com transmissão em directo na Internet, quer através de um streaming de vídeo (que eu colocarei aqui, no Bibliotecário de Babel, num post só para esse fim, por volta das 18h00), quer através de perguntas feitas a Saramago pelo público que não estará presente (endereço: pergunteasaramago@sapo.pt).
Quem quiser colocar questões directas ao autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis, pode também fazê-lo na caixa de comentários deste post (e do outro, o que abrirá uma janela para o vídeo), mesmo durante a sessão, uma vez que levarei o meu computador portátil para a mesa e estarei atento a todas as reacções que os leitores do Bibliotecário de Babel forem registando por aqui.

Poetry Season (A/C da RTP e RDP)

Com o início da Poetry Season da BBC (vários programas sobre poetas ingleses, transmitidos na televisão, na rádio e online), as vendas de livros de poesia subiram em flecha no Reino Unido.

Obra de José Carlos Fernandes muito bem recebida em França

Como noticiei aqui, José Carlos Fernandes viu recentemente os dois primeiros volumes da sua série “A Pior Banda do Mundo” editados em França, num único livro (tradução de Dominique Nédellec), pela Cambourakis.
Entretanto, começaram a ser publicados textos na imprensa sobre o álbum, intitulado Le plus mauvais groupe du monde, e o mínimo que se pode dizer é que a recepção crítica tem sido entusiástica. A 16 de Junho, a revista Les Inrockuptibles publicou o seguinte artigo, assinado por Anne-Claire Norot:

Como a imagem não permite ler o que está escrito em letra miúda, transcrevo aqui uma das passagens do texto:

«Au milieu du surréalisme ambiant, [José Carlos Fernandes] glisse un commentaire critique sur la société moderne, et en épingle avec ironie les travers: la solitude, le travail aliénant, l’incommunicabilité, les magazines people, la pub… Ce voyage à la fois kafkaïen et borgésien, où la musique est omniprésente, est empli de trouvailles póetiques, drôles et douces-amères (como l’hôtel où l’on fait les rêves du précédent occupant de la chambre), qui témoignent de la fabuleuse inventivité de leur auteur. Ce livre plein d’esprit et stimulant, où le trivial et le quotidien se mêlent aux réflexions métaphysiques, donne aussi à réfléchir sur le poids des mots, le pouvoir des livres et de l’écriture.»

Uns dias depois, foi a vez da Télérama lhe atribuir quatro estrelas, sublinhando que JCF «déploie, avec une très rigoureuse fantaisie, un sens de l’absurde étincelant».

Reforços da PNETLiteratura

Um luxo, poder ler agora, além de tudo o resto, as crónicas de Patrícia Melo, Eduardo Pitta, Nelson Saúte e Ondjaki.

Será que é viável uma espécie de ‘Courrier International’ para temas literários?

Há quem pense que sim. Olivier Postel-Vinay, por exemplo. O seu projecto chama-se Books e reúne, todos os meses, uma escolha dos melhores artigos sobre livros publicados na imprensa internacional. A excelente versão online da revista pode ser consultada aqui.

Borboletas nocturnas

Uma Noite na Biblioteca
Autor: Jean-Christophe Bailly
Título original: Une nuit à la bibliothèque
Tradução: Christine Zurbach e Luís Varela
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-795-288-5
Ano de publicação: 2009

O que é que fazem, a altas horas da madrugada, os livros de uma biblioteca? Sem leitores por perto, nem funcionários, nem sequer o guarda-nocturno e a sua lanterna controladora, será que eles saltam das prateleiras e conversam uns com os outros? A hipótese pode parecer estapafúrdia, mas só a quem não viu – ou não leu – esta peça teatral de Jean-Cristophe Bailly, estreada em 1999 na Biblioteca Palatina de Parma e levada à cena recentemente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pela companhia Teatro da Rainha.
Entre as estantes e as mesas de leitura, surgem quatro personagens que cedo descobrimos serem livros; ou melhor, fantasmas de livros, «borboletas nocturnas» que se agitam no abismo claustrofóbico de um tempo parado. Há Bertoli, a meio caminho entre o mestre de cerimónias e o conferencista; há Ragionello, de perfil sereno e indumentária à moda do século XIX; há Alegoria, que mora nas alturas, «ao lado dum poeta russo que não faz barulho»; e há Fantolin, o neófito que descobre, espantado, que traz dentro de si a visão de um mundo em ruínas, a desfazer-se sob as cinzas do apocalipse.
Os quatro livros dialogam, interrompem-se, jogam badmington, lêem-se uns aos outros e descobrem-se parte de «uma rede de histórias e de ilusões que se agitam num vazio em que a verdade anda errante». O real, essa abstracção, é o que se vê de uma janela precária, falso ponto de fuga. No discurso rendilhado (e às vezes aflito) dos seus habitantes, a biblioteca fecha-se mais e mais sobre si mesma, sobre a sua solidão, ela que se constrói «em torno daquilo que lhe escapa» e aspira ao impossível «silêncio em que a palavra se aboliria, aceite pela indolência dum sentido mais antigo».
Sobre tudo isto paira, inevitável, a melancolia, porque Bailly sabe que a biblioteca «nunca atingirá a imensidão que a alimenta». Uma melancolia que se desprende do texto mas não o sufoca, antes o ilumina.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

Dedicatórias

As dedicatórias nunca são inócuas, mesmo as que parecem inócuas. Às vezes, são actos de despojamento ou noção da realidade (como a do Rui Pires Cabral). Às vezes, são apenas gestos que repõem uma certa forma de justiça. Como a dedicatória de Pedro Sena-Lino, em 333, um romance de bibliófilo, sobre o impacto que os livros podem ter na vida das pessoas:

«Para o Olímpio, que tanto viveu de livros,
e tantos livros fez viver»

Primeiro parágrafo

«Chegado aos cinquenta e cinco anos, e trinta de impressor, Darius Waerminger era Jacob contra o Anjo: imprimia furiosamente, para resgatar do silêncio e da memória tantas coisas que ficariam perdidas.»

[in 333, de Pedro Sena-Lino, Porto Editora, 2009]

Prémio Príncipe das Astúrias de Letras 2009 para Ismail Kadaré

Ismail Kadaré ganhou avanço, na fase final de selecção, a Ian McEwan, Milan Kundera, Cees Noteboom e Antonio Tabucchi. O prémio – 50 mil euros e uma estatueta desenhada originalmente por Joan Miró – será entregue em Outubro, na cidade asturiana de Oviedo. Em Portugal, o escritor albanês é editado pela Dom Quixote, que tem no seu catálogo O Palácio dos Sonhos (1992), A Pirâmide (1994), Abril Despedaçado (2002), A Filha de Agamémnon e o Sucessor (2008), além do livro de ensaios Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo (2002).

Um leitor de e-books, please

Para quem faz da leitura intensiva a sua actividade principal, há nos dias que correm uma tentação tecnológica quase óbvia: o leitor de e-books. Eu até nem sou muito de gadgets. Nunca me deslumbrei com os telemóveis topo de gama, tipo BlackBerry à la Barack Obama ou iPhone com trezentas aplicações diferentes (dos programas que permitem controlar o orçamento mensal, cheios de gráficos e dicas, ao miraculoso Brushes, que nos torna Picassos instantâneos e «deu» a Jorge Colombo a sua primeira capa da New Yorker). Nunca pedi ao Pai Natal o último portátil da Apple nem um GPS para me orientar nas ruas de Lisboa ou nas rotundas da província. Contento-me com o que é básico, com o que é elementar, com o que é mais simples. Tanto assim que comprei um smartphone há cerca de um mês – com ecrã táctil, mais as milhentas funções que os smartphones hoje nos oferecem (mesmo os baratuchos) – e ainda mal o utilizei. A verdade, confesso, é que não tive tempo de ler o manual de instruções. E porquê? Porque a minha profissão é ler intensivamente, sim, mas livros, não manuais de aparelhos electrónicos.
E isto leva-me de volta à questão dos e-books. Com a quantidade de livros que as editoras me fazem chegar todos os dias, a minha casa assemelha-se cada vez mais a um labirinto de papel. Estantes ajoujadas, pilhas periclitantes no corredor, caos bibliográfico. Por muito que goste de me sentir uma ilha rodeada de livros por todos os lados, há um limite físico para esta invasão imparável (sobretudo quando não posso dispor, como alguns felizardos, de um apartamento à parte para a biblioteca pessoal). Um dia, deixará de haver espaço. Mesmo. E antes que esse dia chegue, tenho que tomar medidas. Uma é ser mais selectivo quanto ao que entra. Outra é expulsar o que nem sequer devia ter entrado. E a terceira, a mais simples, é justamente comprar um leitor de e-books. Para fazer download das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras, claro. Mas sobretudo para evitar um crime ecológico: a impressão, em resmas de folhas A4, dos ficheiros pdf com que as editoras revelam aos críticos literários os romances que só vão para a gráfica umas semanas depois.
Mais do que uma tentação, o leitor de e-books transformou-se para mim numa necessidade. Espero aliás levar um, carregadinho, já nas próximas férias (com a vantagem adicional de diminuir substancialmente o peso das bagagens).

[Texto publicado na secção “A minha tentação” do Semanário Económico]

‘Mar de Papoilas’ (booktrailer)

O épico de Amitav Ghosh, para mim o menos interessante dos dois romances indianos finalistas do Man Booker Prize 2008, chega agora às livrarias portuguesas.

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges