Quase (3)

Há uma interpretação possível para o epíteto escolhido por Miguel Sousa Tavares: comparado com o gigantismo de Equador (528 páginas) e Rio das Flores (627 páginas), as magras 128 páginas de No teu deserto vão parecer uma novela compridita ou um romance curtinho, um romance que não chega bem a ser romance, um romance quase, um quase romance (lá está).

Quase (2)

Dirão os detractores de António Lobo Antunes: antes «quase romance» do que «poema».

Quase

Para classificar o seu novo livro, intitulado No teu deserto, Miguel Sousa Tavares utiliza a expressão «quase romance». Chama-se a isto jogar à defesa.

Lançamento de ‘Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis’

O volume Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis (Texto), que reúne ensaios de José Barreto, Steffen Dix, Patricio Ferrari, Sara Afonso Ferreira, Ana Maria Freitas, Carla Gago, Manuela Nogueira, Rita Patrício e Jerónimo Pizarro (com organização deste último, membro da Equipa Pessoa), é apresentado esta tarde, a partir das 18h30, na Casa Fernando Pessoa, pela sua directora, Inês Pedrosa.

Ilustrarte troca Barreiro por Lisboa

A Ilustrarte, Bienal Internacional de Ilustração para a Infância, vai atravessar o Tejo e instalar-se, já a partir deste ano (quarta edição), no Museu da Electricidade, em Belém. As candidaturas podem ser enviadas até 31 de Outubro. Mais informações aqui.

Os limites do saber

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1401-2
Ano de publicação: 2009

Escrita originalmente para a companhia teatral Pé de Vento – no momento em que esta celebrava três décadas de actividade – e estreada no Teatro da Vilarinha (Porto), em Junho de 2008, a História do Sábio Fechado na sua Biblioteca é uma parábola sobre a impossibilidade de um conhecimento total, narrada com elegância, precisão milimétrica e meridiana clareza por Manuel António Pina – um dos nossos melhores poetas, além de mestre na arte de comunicar com os mais novos, sem facilidades nem infantilismos.
Num lugar nunca nomeado, vive um Sábio absoluto, um Sábio tão sábio que já leu todos os livros do mundo e conhece tudo o que há para conhecer. Uma tal omnisciência, imune à surpresa e ao espanto, deixa-o melancólico e entregue à solidão da sua Biblioteca. Até que um dia a Morte tenta apanhá-lo desprevenido, única forma de o conseguir levar para o Reino das Sombras. Sob vários disfarces (um Estrangeiro, um Palhaço, uma Rapariga), a Morte procura levar a melhor com embustes, mas não consegue. A excessiva sabedoria do Sábio é a sua maldição: mesmo quando se descobre cansado de viver, percebe que não se pode entregar à Morte, porque ela só o alcançará quando ele não a reconhecer (e ele reconhece tudo).
A libertação implica uma saída do labirinto de livros em que se emparedou. E é apenas quando por fim enfrenta a realidade – descobrindo a verdadeira fome, a verdadeira compaixão, o verdadeiro sofrimento, o verdadeiro amor – que o Sábio se apercebe dos limites do seu vasto saber. É uma lição, claro. E das subtis: tão irónica quanto poética.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

VII Feira do Livro de Verão

Até 11 de Julho, na Estação do Oriente (Lisboa), das 09h00 às 22h00.

Prémio literário galego para Henning Mankell

O escritor Henning Mankell é um dos vencedores do prémio Arcebispo Juan de San Clemente, atribuído por um júri composto por alunos de de cinco escolas secundárias galegas. Kinesen, o romance com que Mankell ganhou na categoria de livro escrito em língua estrangeira, será publicado no início de 2010 pela Presença, que já publicou oito obras do autor sueco: A Muralha Invisível; Um Passo Atrás; O Homem Que Sorria; A Leoa Branca; Os Cães de Riga; A Falsa Pista; A Quinta Mulher; e Assassino Sem Rosto.

Três poemas de Rui Pires Cabral

«He loved beauty that looked kind of destroyed.»(7)

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.


«You are a foreigner of some sort.»(13)

À míngua de uma ideia
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.


«Já é tempo de acabarmos com estas divagações.»(27)

Sete e meia: também a praça
tem as suas horas mortas.
Alguns trocam a esplanada

pelos bancos do jardim –
aí se sentam ao frio, graves
como sentinelas, não se sabe

o que vigiam. Terão chegado
mais jovens à solidão derradeira?
Ou são apenas o espelho

da tristeza de quem passa
e se interroga? Os do costume,
entretanto, até bebiam

mais uma, catam dos bolsos
moedas, pedacinhos de cotão.
Mas está na hora, senhores,

que o dia pesa no corpo
e o rapaz que serve às mesas
já pôs o lixo na rua. Meus amigos,

faz-se escuro: adeus, adeus.

(7): James Gavin, Deep in a Dream: The Long Night of Chet Baker, Vintage, Londres, 2003, p. 239.
(13): Henry James, The Europeans, Penguin, Harmondsworth, 1985, p. 54.
(27): Edgar Allan Poe, Aventuras de Arthur Gordon Pym [tradução de Eduardo Guerra Carneiro], Editorial Estampa, Lisboa, 1988, p. 83.

[in Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009]

Em Julho

Em Julho chega Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, com chancela da ASA. Esqueçam a capa (horrível), mas não o que está lá dentro. Se o romance, vencedor do Orange Prize em 2007, corresponder ao que sobre ele se escreveu (incluindo elogios de Edmund White e Joyce Carol Oates), vai entrar certamente nas listas dos melhores do ano.

Como é que se diz Poesia Incompleta em italiano?

Num artigo publicado no L’Espresso, Suketu Mehta escreve sobre o «tesouro» que encontrou em Lisboa: uma livraria onde só se vende poesia.
Chegam cada vez mais longe, os ecos da «impresa impossibile» do Changuito.

Preparem-se: vêm aí os twitterlivros (com capítulos de 140 caracteres, presumo)

Os direitos de um deles, Twitterature: The World’s Greatest Books, Now Presented in Twenty Tweets or Less (escrito por dois caloiros da Universidade de Chicago), já foram adquiridos pela Penguin.

A mais alta constelação

Pequena Enciclopédia da Noite
Autor: Carlos Nejar
Editora: Quasi
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-989-552-392-4
Ano de publicação: 2009

Ocupante da cadeira n.º 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar (n. 1939) é um dos maiores autores vivos da língua portuguesa. Há quem lhe chame «o poeta do pampa brasileiro» (o que se compreende por ter nascido e vivido no estado do Rio Grande do Sul, em cujas regiões interiores trabalhou como promotor de justiça) e há quem lhe chame, usando um epíteto de Jacinto do Prado Coelho, «o poeta da condição humana». Na verdade, ele tem sido as duas coisas, o observador incansável da paisagem agreste a que se sente preso («nenhuma morte é maior / que a terra dentro de nós») e o narrador da «história humana / que fica pelos sótãos, porões; jamais / oficializada nos compêndios».
Neste livro que reúne meia centena dos seus «melhores poemas», de Livro de Silbion (1963) a Sonetos do Paiol ao sul da Aurora (1997), Nejar oferece ao leitor uma viagem-relâmpago ao fulcro da sua obra, por muito que a «apertadíssima escolha» provoque no poeta português António Osório, autor da nota introdutória, uma não escondida perplexidade: «Mas como ousou Carlos Nejar, senhor de uma obra imensa [perto de 30 títulos], reduzi-la a… 50 poemas? E os “melhores”, porquê os melhores? Os outros, as inúmeras centenas, não contam? Serão eles menores?» Certamente que não, mas se há prerrogativa que os grandes poetas se outorgam é a de moldarem a seu bel-prazer a forma como o trabalho anterior pode, ou deve, ser entendido (basta pensar, entre nós, no caso paradigmático de Herberto Helder).
A selecção revela-se aliás bastante criteriosa, ao acolher os vários modos e cambiantes da escrita poética de Nejar. Encontramos exemplos do seu pendor aforístico («Amar é a mais alta constelação»; «os livros sobrevivem à poeira / e às traças da ignorância civil»); sonetos de impecável recorte; o uso certeiro das aliterações e da repetição obsessiva de uma mesma palavra (seja «pedra» ou «maçã»); a vénia respeitosa a outros poetas (Emily Dickinson, Dante, Camões); um domínio exemplar da prosódia; e um regresso recorrente aos grandes tópicos, como a morte, a esperança e o amor – esse «calafrio da inteligência» que dá sentido ao mundo e aproxima o homem da noção de eternidade:

Os anos, Elza, não consertam mágoas,
mas as mágoas não correm, se corremos.
Não encanece a luz, onde são remos

da limpa madrugada, os nossos corpos.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]

Queijadas & Licores

Quarta-feira, dia 24, a Bertrand do Chiado abre as portas, das 18h30 em diante, à apresentação da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Mónica (Quetzal). Além da autora, estarão presentes António Sousa Homem e Francisco José Viegas (ou seja, um três em dois).
Muito a propósito, e «em homenagem ao Maestro Cruges, personagem de Os Maias», serão servidas queijadas de Sintra e licores.

Desculpe lá, mas a sua obra-prima não nos interessa


(Clique para aumentar)

Eis uma das 40 cartas de recusa enviadas a James Joyce pelos editores a quem ofereceu, durante nove anos, a possibilidade de serem os primeiros a publicar os contos de Dubliners.

[via Senhor Palomar]

Boa nova

A mui esperada tradução do vila-matasiano Diário Volúvel, pelo Jorge Fallorca, «aproxima-se vertiginosamente do final». Pelo menos é o que ele diz, a uma semana de se instalar numa pensão de Porto Covo, terreola virada ao mar onde apanhará cravos-das-dunas e «pedras para construir paisagens inventadas, celebrar a nova década que aí vem».

Lançamento d’ ‘O Caderno’ de José Saramago

Na próxima quinta-feira, dia 25, pelas 18h30, na Sala Coimbra B do Tiara Park Atlantic Hotel (antigo Méridien), em Lisboa, vou participar na apresentação multimédia do mais recente livro de José Saramago: O Caderno, recolha de posts publicados pelo Prémio Nobel no seu blogue, durante cerca de seis meses.
À conversa com Saramago, estarei eu e Isabel Coutinho, jornalista do Público e autora do Ciberescritas. Haverá transmissão vídeo em directo, através do portal SAPO Vídeos e quem estiver interessado pode fazer perguntas directas a Saramago, enviando-as para o endereço pergunteasaramago@sapo.pt.
Os bloggers em geral, e os que acompanham a vida literária em particular, estão convidados a participar no lançamento, comunicando o que por lá for acontecendo, em tempo real, para a blogosfera (e twittosfera, e facebookosfera, etc.).

Quem matou o General Zia?

Por trás desta pergunta está um desafio lançado pela Porto Editora, a preparar terreno para a publicação de uma das suas principais apostas para o verão de 2009. Na página do General Zia no Facebook, os leitores são convidados a esboçar teorias, conspirativas ou nem por isso, que expliquem o homicídio desta alta patente militar paquistanesa (limite: 1500 caracteres). Aos autores dos melhores textos será oferecido um exemplar do livro em questão, cujo título será desvendado, juntamente com os nomes dos vencedores do concurso, a 30 de Junho. Um dia antes, a 29, termina o prazo de envio dos trabalhos.

A invenção do alfabeto

O Criador de Letras
Autor: Pedro Foyos
Editora: Hespéria
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-95458-3-0
Ano de publicação: 2009

Num recanto do Próximo Oriente (actual Líbano), vive um povo de «cunho mercantil». Dos portos de Byblos, Cidade-Estado sob domínio dos faraós do Reino das Duas Senhoras (Egipto), os fenícios não se limitam a exportar bens tangíveis – como madeira de cedro, resinas, óleos ou púrpura. Além de mestres nas artes náuticas, eles tornaram-se uma potência cultural, sede da maior e mais antiga escola de escribas. Ao iniciar o seu mandato, o novo rei, Zabarbaal, fixa dois desígnios: a exploração dos limites geográficos da Terra (o «Grande Corpo») e a criação de uma nova escrita simplificada, «que todos possam aprender e executar com rapidez». O primeiro objectivo não chega a ser alcançado, mas o segundo cumpre-se sob a forma de um revolucionário alfabeto fonético, precursor e protótipo daquele com que está a ser escrito este texto, mais de três mil anos depois.
É justamente o processo de invenção das letras associadas a sons que Pedro Foyos descreve neste livro, atribuindo-o a um homem «bom de coração» que, enquanto cria o novo alfabeto (moldado com hastes de vimeiro), incorpora nele as histórias e os factos do mundo que o rodeia. As letras tanto se inspiram nos dentes de um arado como nas mudanças de paradigma religioso (o «deus único» solar imposto por Akhenaton), na forma de um almofariz como nas conspirações políticas que agitam a cidade; ou ainda nos diálogos filosóficos entre o Criador de Letras e uma sábia oliveira milenar (Mãe Taât).
Foyos sabe criar enredos, conhece bem o período histórico em que a narrativa se desenrola e escreve com elegância – embora seja traído, aqui e ali, pela inevitável previsibilidade de uma odisseia conceptual condenada a ir de A a Z.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘O arco de Nemrod’ na Pó dos Livros

Frederico Lourenço apresenta, na próxima terça-feira, O arco de Nemrod, romance de Teresa Salema (Sextante), na Livraria Pó dos Livros, a partir das 18h30.

A fetichização dos escritores (pelos leitores)

No The Observer, o escritor Alain de Botton reflecte sobre essa estranha necessidade que tanta gente demonstra de conhecer, em carne e osso, os seus autores preferidos:

«Since 2 April, when my new book came out, I’ve hardly spent more than two days at home at a stretch. I’ve been to Australia, Singapore, Hong Kong, Canada, the US, France, Italy and the Netherlands – all in the name of promoting my book. The audiences have been terrific, so I don’t want to sound ungrateful, but it does seem bizarre how much people want to see authors in the flesh. The decline in the oral tradition stemmed from a sensible realisation that you didn’t really need a person to be singing his poem to you around the campfire. You could just read his book. But this insight, greatly facilitated by the invention of printing, is in danger of being lost.
People today want to witness authors in front of them and find their books to be far more desirable if they carry a signature on them. Only psycho-analysis and ethnography seem capable of explaining a phenomenon like the modern literary festival, behind which there seems to lie an archaic suspicion of printing and a desire to see that the words on the page were truly put there by a human, whose hand one wants to physically witness moving across paper.»

O artigo completo pode ser lido aqui.

21 aforismos de E. M. Cioran

A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

***

Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda participamos dela por esta necessidade súbita de gritar – último estado do lirismo.

***

Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do assassínio.

***

Apenas cultivam o aforismo aqueles que conheceram o medo no meio das palavras, esse medo de se desmoronarem com todas as palavras.

***

Modelos de estilo: a praga, o telegrama e o epitáfio.

***

Um livro que, depois de ter demolido tudo, não se demole a si próprio, ter-nos-á exasperado em vão.

***

É inacreditável que a perspectiva de vir a ter um biógrafo não tenha feito ninguém renunciar a ter uma vida.

***

Quase todas as obras são feitas com brilhos de imitação, calafrios aprendidos e êxtases pilhados.

***

Dever da lucidez: chegar a um desespero correcto, a uma ferocidade olímpica.

***

A minha cosmogonia acrescenta ao caos primordial uma infinidade de reticências.

***

Por cada ideia que nasce em nós, algo em nós apodrece.

***

O real dá-me asma.

***

O que estraga a alegria é a sua falta de rigor; contemplai, por outro lado, a lógica do fel…

***

Todas as águas são cor de afogamento.

***

Nada denuncia tanto o homem vulgar como a sua recusa de ser desiludido.

***

Um monge e um carniceiro andam à briga no interior de cada desejo.

***

Feliz no amor, Adão ter-nos-ia poupado à História.

***

Sem Bach, a teologia seria desprovida de objectivo, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus.

***

No tempo em que a humanidade, acabada de surgir, fazia as suas primeiras experiências com a infelicidade, ninguém teria acreditado que ela seria um dia capaz de a produzir em série.

***

O segredo da minha adaptação à vida? – Mudei de desespero como quem muda de camisa.

***

Cada dia é um Rubicão em que desejo afogar-me.

[in Silogismos da Amargura, trad. de Manuel de Freitas, Letra Livre, 2009]

Um bom antídoto para a silly season

Silogismos da Amargura, de E. M. Cioran (traduzidos por Manuel de Freitas). Uma edição da livraria Letra Livre.

Shakespeare segundo Lampedusa (segundo Vila-Matas)

No suplemento Babelia do El País. Ou aqui.

Aprender a ler um poeta

«Peut-on apprendre à lire un poète? Ce qui s’appelle lire. Doit-on même s’y laisser entraîner? J’avoue que la question ne m’avait jamais effleuré jusqu’à ce que j’ouvre un petit livre composé justement à cet effet, consacré à la personne et l’oeuvre d’un homme que je croyais connaître pour les fréquenter depuis des années.»

Assim começa um texto de Pierre Assouline, sobre um «commentaire» de Jean-Michel Maulpoix que ilumina e decifra a poesia de Paul Celan.

‘L.Ville’ (booktrailer)

É o primeiro booktrailer da Quetzal, para o último romance de Fernando Sobral. Rima e é verdade, como diria Jorge Jesus (e neste caso rima mesmo).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Roubo, de Peter Carey (Dom Quixote), por Rogério Casanova
História do Sábio Fechado na sua Biblioteca, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
O Salazar nunca mais morre, de Manuel Beça Múrias (Planeta), por José Pedro Castanheira
Sobre Teoria e Crítica Literária, de Jorge de Sena (Caixotim), por Hugo Pinto Santos
Poesia Cubana Contemporânea – Dez Poetas, selecção de Pedro Marqués de Armas (Antígona), por Helena Barbas
Contra a Felicidade, de Eric G. Wilson (Estrela Polar), por Luís M. Faria
Um certo Oriente, de António José Rodrigues (Prefácio), por Margarida Mota

Allongé sur la terre bleue

«Allongé sur la terre bleue, le lion barre toute la largueur du tableau, sa tête contre le bord gauche, gueule béant sur ler crocs, un trou derrière l’oeil ouvert, brillant (un oeil de verre, se moqueront de mauvais esprits), noir d’où goutte un peu de sang, l’extremité des pattes arrière débordant du cadre, à droite. Le tronc d’un arbre s’élève au premier plan à gauche, vertical, gris de cendre écaillé de noir, touches éparses de jaune e de vert sombre, masquant une partie de la crinière, qui retombe noire sur la pelage fauve. Le peintre a signé sur l’écorce: “Manet, 1881″ (un couple de jeunes métis, assez gros l’un et l’autre, perplexes, se demandent ce qui est écrit là: Miguel? Não, não é Miguel). En arrière-plan, des arbres grêles dispensent une ombre légère, trouée de taches de soleil jaune-rose; à gauche du tronc, le sol est bleu, à droite il tire sur le mauve lilas, en bas sur le vert mousse. Il était, paraît-il, carrément violet lorsque le tableau fut exposé au Salon de 1881, ce que Huysmans jugea “par trop facile». Le chasseur occupe la droite de la partie médiane du tableau. Il est sanglé dans une veste d’un vert presque noir, à gros boutons dorés, serrée par une ceinture à large boucle. Dessous, on aperçoit les manchettes d’une chemise blanche, le col ouvert sur un cou de catcheur. Genou droit en terre, carabine à deux canons pointée vers le sol, dont la crosse brille aux creux de son coude droit, chaussé de formidable bottes sur le cuir noir desquelles jouent des loueurs, il semble à l’affût, mais de quoi? Le lion foudroyé, derrière lui, ne l’a-t-il pas vu? En attend-il un autre? A-t-il peur qu’on lui vole sa descente de lit? “La pose de ce chasseur à favoris qui semble tuer du lapin dans les bois de Cucufa est enfantine”, écrit encore cette peau de vache de Huysmans. En fait, il a l’air d’avoir glissé sa tête dans le trou d’un décor représentant naïvement, dans une petite foire de province, une chasse au lion. Une tête de brute inexpressive, ou bien alors exprimant des sentiments asses frustes, surprise mécontente, vague défi, du genre le premier qui approche je le crève. Épais, enflé, sourcils très fournis, arqués, grosse moustache de morse masquant la bouche, larges favoris en côtelettes autour d’un double menton naissant. Il porte un chapeau à haute coiffe noire ceint d’un ruban bleu et orné d’une plume. Il a le teint d’un rose charcutier, une carnation couperosée (et encore, les couleurs ont tourné: selon Jacques-Émile Blanche, à l’origine “les chairs étaient rouges comme la tomate”). Il ressemble assez à l’idée q’on se fait d’un bistrotier auvergnat d’autrefois, un bougnat, on attend le torchon sur l’épaule plutôt que le fusil. Sa botte gauche est véritablement écrasante. On ne discute pas avec le porteur de semblables bottes. Son regard a une fixité hébétée.»

[Primeiro parágrafo do livro Un Chasseur de Lions, de Olivier Rolin, Éditions du Seuil, 2008]

Olivier Rolin lê ‘Un Chasseur de Lions’

O escritor francês Olivier Rolin vai ler excertos do seu último romance, a partir das 18h00, no Instituto Franco-Português, em Lisboa. Um acontecimento integrado no Festival Silêncio!.

‘Uma longa viagem com José Saramago’ no Brasil

O livro Uma Longa Viagem com José Saramago, de João Céu e Silva (Porto Editora), acaba de chegar ao mercado brasileiro, «com representação da Horizont e distribuição da Loyola Distribuidora de Livros». A obra, que reúne várias entrevistas feitas pelo jornalista do Diário de Notícias ao Prémio Nobel da Literatura de 1998, já estava disponível em Angola e Moçambique.

Miguel-Manso nas ‘Quintas de Leitura’

O poeta Miguel-Manso é o convidado principal da próxima sessão das ‘Quintas de Leitura’, que acontecerá a 9 de Julho, pelas 22h00, no Teatro do Campo Alegre (Porto). Além de uma conversa entre o autor de Quando Escreve Descalça-se e Helena Vieira, haverá leitura de poemas (por Isaque Ferreira, Nuno Moura, Pedro Lamares e pelo autor), uma performance de Filipa Francisco e Bruno Cochat, concluindo-se o espectáculo com um pequeno concerto de B Fachada (voz, viola e viola braguesa).

Corpo de Jorge de Sena regressa a Portugal

Ontem, na cerimónia de doação do espólio de Jorge de Sena à Biblioteca Nacional, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, garantiu que o corpo do autor de Em Creta, com o Minotauro vai ser trasladado de Santa Barbara (Califórnia) para um jazigo no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ao abrigo de um protocolo celebrado entre o Ministério da Cultura e os herdeiros do escritor.

Prémio Literário Casino da Póvoa 2010

Regulamento aqui. Prazo limite para a entrega de candidaturas: 30 de Agosto. O vencedor desta edição, que distingue livros de ficção publicados em Portugal entre Julho de 2007 e Junho de 2009, será conhecido durante o próximo encontro Correntes d’Escritas, que já tem datas fixadas: 24 a 27 de Fevereiro de 2010.

Novo administrador no Grupo LeYa

Em comunicado emitido há cerca de uma hora, o Grupo LeYa anuncia o seguinte:

«O Conselho de Administração da Leya informa que foi alargada a sua composição com a cooptação de Pedro Doutel que esta semana assumiu a função de Administrador (Chief Financial Officer – CFO) do grupo, sendo responsável pela coordenação das Direcções Financeira, Controlo de Gestão, Recursos Humanos e Sistemas de Informação.
A experiência profissional de Pedro Doutel inclui auditoria financeira (Arthur Andersen, actualmente Deloitte), cerca de 10 anos na Banca de Investimento (BNP Paribas e Banco Efisa) e, mais recentemente, foi CFO do Grupo Martifer.»

A milionésima palavra da língua inglesa

No passado dia 10, uma empresa de consultoria texana anunciou ao mundo, com pompa e circunstância, o lexema n.º 1.000.000 do idioma de Mr. William Shakespeare. E sabem qual foi? Nem mais nem menos do que Web 2.0.
How ironic, isn’t it?

O que ela andou a ler

«Este livro é uma grande ideia – e uma das coisas mais interessantes e frustrantes que alguma vez fiz», explica Ali Smith, logo no início da introdução a The Book Lover (Anchor Books, 467 páginas, 2006). Para sermos mais precisos, a «grande ideia» partiu de uma amiga, Becky Hardie, editora experiente com quem Smith trabalhou numa colecção de ficção breve da Granta Books. «E se agarrássemos nas leituras preferidas de alguns escritores, não só as leituras actuais mas de toda uma vida, e fizéssemos uma antologia com isso?»
Ali Smith ofereceu-se logo como cobaia. A princípio com o entusiasmo infantil de quem abre a porta do sótão, há muito fechado à chave. Depois com o pânico da escolha e da necessidade de preterir textos, autores, épocas inteiras. Porquê este e não aquele? O clássico dilema do antologiador. «Veja-se o caso de [Virgínia] Woolf, por exemplo, e todos os seus livros ali na estante, à minha frente. Como poderia eu escolher entre a sua ficção e os seus textos críticos, entre os seus diários e as suas cartas?» Mesmo imaginando que optava pela ficção, a dúvida permaneceria: qual dos romances? Ou qual dos contos? «Nunca deixaria de ser um compromisso.»
Para dificultar ainda mais as coisas, Smith decidiu seleccionar, com uma ou duas excepções, apenas textos editados pela primeira vez no século XX, o que levantou o sempre delicado problema dos direitos autorais. A negociação com os detentores destes direitos equivale muitas vezes a um labirinto burocrático, demorado e dispendioso, razão pela qual não encontramos nesta antologia uma só palavra de James Joyce, Raymond Carver, Alice Munro, Susan Sontag ou Flannery O’Connor. «Este livro acaba por ser uma liturgia de ausências», assume a autora de Hotel Mundo, mas isso deve servir apenas como um desafio para o leitor «pôr mãos à obra e reler os escritores que não estão aqui».
Dito isto, os autores presentes chegam e sobram para as encomendas. Durante dois dias, Smith fechou-se em casa e espalhou livros no chão da sala da frente, recriando o puzzle dos momentos essenciais da sua vida de leitora, um percurso que começou precocemente (aos três anos) e conheceu vários momentos de autêntico frenesi bibliófilo. Depois, encaixou os 89 textos seleccionados em seis categorias: “Raparigas” (de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por Angela Carter, Marina Tsvetayeva, Marilynne Robinson e Margaret Atwood), “Diálogos” (que inclui poemas de John Keats, Czeslaw Milosz, Margaret Tait, W. G. Sebald), “Viagens” (secção tão heterogénea que junta John Donne, Katherine Mansfield, Joseph Roth, Kate Atkinson, W. B. Yeats e Louise Brooks; sim, a actriz), “O Mundo” (Wallace Stevens, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Philip Larkin, Gertrude Stein, Jeanette Winterson), “Histórias” (William Blake, Joyce Carol Oates, Anne Frank) e “Crenças” (Shakespeare, Simone de Beauvoir, e. e. cummings, Italo Calvino, Rainer Maria Rilke).
O principal mérito desta antologia é a sua imprevisibilidade. Ou seja, mesmo quando os escritores escolhidos são canónicos, os textos citados geralmente não o são. De Katherine Mansfield, por exemplo, podemos ler uma entrada do seu diário (15 de Dezembro de 1919), de Shakespeare uma passagem do quarto acto de Cymbeline e de Sebald uns versos sobre o rosto desconhecido do pintor Grünewald, que dialogam com um texto de John Berger sobre a Crucificação de Cristo, feita pelo artista germânico num retábulo em Colmar.

Como se vê pela amostra, a escocesa Ali Smith é capaz de misturar tudo e mais alguma coisa. Lado a lado, perfilam-se clássicos absolutos e compatriotas obscuros, um excerto biográfico da cantora Billie Holiday e uma crónica de Clarice Lispector (Estado de Graça), nomes quase esquecidos (J.M. Synge) e autores de outras latitudes (Dubravka Ugresic, Amos Tutuola). O resultado não podia ser mais idiossincrático. Se cada escritor é também o somatório das leituras que foi fazendo ao longo da vida, então este The Book Lover oferece-nos um mapa possível para aceder ao território literário de Smith. Um mapa estranho, cheio de curvas inesperadas e acidentes na paisagem, mas por isso mesmo desafiador e fascinante.

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

O exacto oposto de um best-seller

No livro de poemas que acaba de publicar na Averno (Oráculos de Cabeceira), Rui Pires Cabral escolheu uma dedicatória muito significativa. Diz apenas: «para os meus trezentos leitores».

Festival Silêncio!

Começa hoje e promete transformar Lisboa na «Capital da Palavra». Quem quiser inscrever-se no torneio de Poetry Slam, que acontecerá no dia 26 (no Music Box, às 22h30), ainda o pode fazer até amanhã.
Consultar a programação completa do festival aqui.

Que ninguém diga mal dos livros “oferecidos” com jornais e revistas

Hoje apanhei a dona da mercearia que fica no rés-do-chão do meu prédio a ler, junto à máquina registadora, um romance de Yasunari Kawabata.

Marx no Saldanha

Amanhã, a comunidade de leitura “Nós e os Clássicos”, moderada por Filipa Melo, aborda um livro cada vez mais actual. É na Livraria Almedina do Saldanha, a partir das 19h00, com a presença do filósofo José Barata-Moura.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges