Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Sensacionismo e outros ismos – edição crítica, Vol. X, de Fernando Pessoa, edição de Jerónimo Pizarro (Imprensa Nacional/Casa da Moeda), e Poetas do Atlântico – Fernando Pessoa e o Modernismo Anglo-Americano, de Maria Irene Ramalho (Afrontamento), por António Guerreiro
- Ideias Optimistas, coordenação de John Brockman (Tinta da China), por Rogério Casanova
- A Caixa, de Marc Levinson (Actual), por Luís M. Faria
- Bullet Park, de John Cheever (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- 30 Gramas, de Leonel Moura (LxXL), por José Mário Silva
- A Japonesa Nua, de Jaime Freire (edição de autor), por Mário Santos
- Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio (Quetzal), por Vítor Quelhas

Civilização edita em Novembro um dos finalistas do Man Booker Prize

O romance A Sala de Vidro (The Glass Room), de Simon Mawer, um dos 13 títulos escolhidos para a longlist do Man Booker Prize, vai ser publicado pela Civilização ainda este ano (Novembro).
Eis a sinopse do livro:

«Situada na Checoslováquia, no cimo de uma colina, a Casa
Landauer é uma maravilha de aço, vidro e ónix, construída
especialmente para os recém-casados Viktor e Liesel
Landauer, um judeu e uma gentia. Mas a rectidão
resplandecente dos anos 30 que a casa, com a sua invulgar
Sala de Vidro, parece emanar, rapidamente perde o brilho à
medida que se congregam as nuvens de tempestade da II
Guerra Mundial, e a família acaba por ter de partir,
acompanhada pela amante de Viktor e a filha desta.
Porém, a história da casa está longe de chegar ao fim e, à
medida que esta vai passando de mão em mão, dos Checos
para os Russos, o melhor e o pior da história da Europa
Central é de certa forma encarnado e talvez encorajado
pelas belas e austeras superfícies e pelos planos tão
cuidadosamente concebidos, até que os eventos completam
o círculo da narrativa.»

13 finalistas do Man Booker Prize, 13 capas

Eis a longlist do Man Booker Prize, em versão escaparate:

The Children’s Book, de A.S. Byatt (Chatto & Windus)

Summertime, de J.M. Coetzee (Harvill Secker)

The Quickening Maze, de Adam Foulds (Jonathan Cape)

How to paint a dead man, de Sarah Hall (Faber and Faber)

The Wilderness, de Samantha Harvey (Jonathan Cape)

Me Cheeta, de James Lever (Fourth Estate)

Wolf Hall, de Hilary Mantel (Fourth Estate)

The Glass Room, de Simon Mawer (Little, Brown)

Not Untrue & Not Unkind, de Ed O’Loughlin (Penguin)

Heliopolis, de James Scudamore (Harvill Secker)

Brooklyn, de Colm Tóibín (Viking)

Love and Summer, de William Trevor (Viking)

The Little Stranger, de Sarah Waters (Virago)

Roubo à mão (des)armada

A editora Tribuna da História pilhou, não há outra forma de o dizer, uma ilustração do Pedro Vieira, sacando-a da Internet e reproduzindo-a num dos seus livros, sem assinalar a autoria e sem pagar os respectivos direitos. A história está contada pelo Pedro aqui, com a habitual ironia e sarcasmo, forma oblíqua de expressar a indignação e a tristeza. Mas eu diria que isto não vai lá com ironias. O que a Tribuna da História fez tem um nome: roubo. Roubo descarado. Roubo sem vergonha. Roubo escandaloso. E tem que pagar por ele. Repito: o caso não se resolve apenas com o repúdio (espero que generalizado) da blogosfera e o eventual boicote dos leitores. Até pelos precedentes que abre, a infracção deve ser punida exemplarmente. E por isso sugiro que o Pedro, ou alguém por ele, leve – passe o quase pleonasmo – a Tribuna a Tribunal.

Adenda ao ‘post’ anterior

Mais uma vantagem: posso descarregar da loja de livros electrónicos da Sony, gratuitamente, mais de um milhão de obras que caíram no domínio público, digitalizadas pela Google.

Sony Reader: primeiras impressões

Vantagens:

1) Muito simples de usar. A navegação é intuitiva e não requer a leitura de um manual de instruções mais espesso do que o Guerra e Paz, daqueles que explicam como e quando usar as dezenas de funções e pastas e programas que depois, na prática, nunca utilizaremos. Ao fim de cinco minutos, já avançava ou retrocedia no texto, e dobrava os cantos para marcar certas páginas, como se nunca tivesse lido de outra maneira na minha vida. [Que os mais puristas não se assustem: continuo a preferir o toque do papel, a materialidade do livro, etc., etc.]

2) O ecrã permite uma leitura agradável. Ainda não o utilizei durante horas seguidas, mas duvido que o Sony Reader canse mais a vista do que os livros tradicionais.

3) Muito boa, a sensação de ter várias obras à distância de um clique ou dois, acessíveis sem ter que me levantar do sofá e procurá-las nas estantes desarrumadas (correndo o risco de não as encontrar).

4) Além de portátil, este leitor de e-books é discreto. Se o levarmos na mão, com a capa castanha a imitar couro, o mais certo é que as pessoas pensem que levamos ali um caderno escolar ou um bloco de apontamentos.

Desvantagens:

1) Ao passar de uma página para a seguinte, há uma espécie de piscar de olhos do ecrã que é um bocadinho irritante. Tem a ver com o tipo de iluminação, diferente da que existe nos computadores. Pode ser que me habitue.

2) A função de aumentar o tamanho do texto é útil, sobretudo em certos ficheiros pdf, mas ao aumentarmos a letra os parágrafos muitas vezes desconfiguram-se (o que é fatal no caso dos poemas, que perdem a partição dos versos), além de que perdemos a noção de unidade da página. A isto já duvido que me habitue.

3) Ausência de cor e qualidade sofrível das imagens. Ver as capas e as ilustrações a preto-e-branco é estranho. Parece a televisão dos anos 70. Para quem leia apenas literatura, isto está longe de ser um problema grave. O mesmo não dirá quem gosta de BD.

Conclusão provisória: Para leitores profissionais (editores, críticos literários), este é um excelente instrumento de trabalho. Ainda tosco, ainda imperfeito, mas eficaz. Para leitores normais, que apenas lêem por prazer, diria que é um desperdício de dinheiro (sobretudo tendo em conta os preços elevados dos e-books).

Continuidade dos parques

São cinco da tarde e eu releio, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. É sobre dois mundos que de repente se tocam e quebram, não sabemos bem como, uma barreira. No início, o protagonista retoma a leitura de um romance que encetara uns dias antes. No regresso à sua quinta, de comboio, após resolver assuntos urgentes, começa a «interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho das personagens». Logo que pode, fecha-se no escritório. Não está para ninguém. Afundado na sua poltrona preferida, enquanto a mão esquerda acaricia «uma e outra vez o veludo verde» do cadeirão, mergulha nos últimos capítulos do livro. Mergulhar é o verbo certo para descrever o que se passa. Embora ainda esteja consciente da suavidade do veludo e dos cigarros ali por perto, ele experimenta um «prazer quase perverso»: o de sentir que a realidade à sua volta se afasta (ou dissolve) gradualmente. Linha a linha, palavra a palavra, ele está cada vez menos no escritório e cada vez mais dentro da história, «deixando-se ir de encontro às imagens que se concertavam e adquiriam cor e movimento». Dentro da história, há uma mulher e o seu amante, determinados a viverem até às últimas consequências uma paixão que as circunstâncias mantiveram em segredo. As circunstâncias resumem-se a um obstáculo: o marido dela. Escondidos numa cabana, os amantes discutem. A mulher tenta evitar o crime (há um punhal escondido que espera a sua hora), procura enredar o amante com os gestos do amor, mas essas carícias apenas desenham «abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir». O destino está traçado; tanto o deles como o da vítima. Ajustam-se os pormenores, planeia-se cada acto, previnem-se os acasos. À porta da cabana, despedem-se e separam-se. Ela segue por um caminho, ele pelo caminho oposto, correndo através dos bosques até distinguir, na bruma do crepúsculo, a alameda que leva à casa. Tudo acontece como previsto: os cães não ladram, o mordomo está ausente. Ele entra em casa e segue as instruções. Atravessa a sala azul, a galeria. Sobe uma escada. Lá em cima, no primeiro andar, uma porta aberta. Punhal na mão, ele apercebe-se da luz que entra pelas janelas, vê um cadeirão de veludo verde e sentado, de costas, infinitamente vulnerável, o homem que lê, absorto, um romance. O marido. O leitor. A dupla vítima.
São cinco e picos da tarde. Acabei de reler, num livro de bolso da Alianza Editorial (Los Relatos, 2: Juegos), um conto brevíssimo de Julio Cortázar: Continuidad de los parques. Estou sentado numa cadeira de plástico cor-de-laranja, diante de uma mesa de plástico cor-de-laranja, num dos topos da Feira do Livro de Lisboa. Na mesa, duas pilhas de livros de capa preta. Tenho a esferográfica a postos, à espera dos meus leitores (essa vaga categoria). Será que aquela rapariga de óculos? Não. O rapaz com o suplemento cultural debaixo do braço? Não. Aquela senhora com cara de quem vai à Gulbenkian todas as semanas? Também não. As pessoas passam, espreitam, seguem. Os adolescentes, carregando grossos volumes de Stephenie Meyer que devem fazer mal à coluna (fora o resto), nem olham. A poucos metros, António Lobo Antunes e uma fila gigantesca dos seus fiéis leitores (uma categoria nada vaga). O céu ameaça chuva, mas não cumpre. De mesa para mesa, os autores que não se chamam Lobo Antunes trocam piadas. Sempre se passa o tempo. Nos seus campeonatos particulares de autógrafos, o resultado final é sempre 1-0, 1-1 ou 0-0. Antes do meu golo de honra, antes do meu prémio de consolação, penso no conto de Cortázar. A continuidade dos parques. A ficção que entra na realidade porque a realidade está já dentro da ficção. No Parque Eduardo VII, ponho-me a escrever mentalmente um texto: é sobre alguém que está numa sessão de autógrafos, sem dar uso à caneta, e esboça uma crónica em que um leitor, como o assassino de Cortázar, atravessa Lisboa e vai ter com ele, ao exacto local onde os Parques (o verdadeiro e o imaginado) se tocam. Contra todas as evidências, o leitor aparece mesmo. E o texto, a crónica real sobre a crónica inventada, também.

[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]

Biblioteca dos horrores

Há quem faça colecções de livros bonitos. E há quem coleccione os muito feios, os monos monstruosos, os que têm capas de fugir. É o caso deste blogue. Eis algumas das suas aquisições mais recentes:

O que a Dom Quixote nos vai trazer em Setembro

Poesia, de Manuel Alegre (obra poética completa em dois volumes). E se fosse um intervalo, de Ana Luísa Amaral (primeiro livro da poeta na sua nova editora). Quinta das Virtudes, de Mário Cláudio (reedição de um romance de 1990). Eu, Peter Porfírio, o Maioral, de Alaor Barbosa (finalista do Prémio LeYa). A Consciência de Zeno, de Italo Svevo (quarto título da Biblioteca António Lobo Antunes). Indignação, de Philip Roth. A Ignorância do Sangue, de Robert Wilson. O Tambor de Lata, de Günter Grass (reedição comemorativa dos 50 anos deste livro). A Minha Primeira Sophia, com texto de Fernando Pinto do Amaral e ilustrações de Fernanda Fragateiro («a vida e a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen contada aos mais novos»). E mais alguns ensaios sobre a crise financeira, a II Guerra Mundial e o Ambiente.

Retrato íntimo de um Nobel

Segundo Isabel Coutinho, o filme que Miguel Gonçalves Mendes (autor de Autografia) está a fazer sobre a relação de José Saramago com Pilar del Río, tendo como título provisório União Ibérica, deve estar pronto antes do final deste ano.
Confesso que estou muito curioso. Os dois trailers disponíveis prometem uma abordagem muito na linha do que me interessa quando vejo um documentário. Gosto particularmente das imagens captadas em Super 8, na ilha de Lanzarote, cheias de desolação, mistério e vento.

Uma proposta mais do que razoável para os programas eleitorais autárquicos (em Lisboa e não só)

«Nas próximas eleições para a CML, voto em quem instituir lugares reservados a leitores nos transportes públicos», diz o Ricardo da livraria Trama. E eu concordo.

Um eclipse longo demais

O da Cavalo de Ferro. Houve a aventura falhada com a Fundação Agostinho Fernandes e outros imbróglios legais a exigirem uma paragem, mas a verdade é que tenho saudades de ver, nos escaparates, os livros escolhidos com esmero, paixão e risco pela dupla Diogo Madredeus/Hugo Xavier. Como o anunciado, publicitado (e cancelado?) A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, de Julio Cortázar.

Cuidado, Kindle e Sony Reader: vem aí a Apple

Consta que a Apple está a preparar o lançamento, lá mais para o fim do ano, de um computador ultra-portátil com um touchscreen de dez polegadas. O gadget está pensado sobretudo para reproduzir música e vídeos, mas também pode vir a funcionar como leitor de e-books, entrando em competição directa com o Kindle da Amazon e o Sony Reader.
Como é que a Apple tenciona ganhar pontos ao restante hardware, por enquanto pouco sofisticado, deste segmento de aparelhos electrónicos? Não se sabe, mas a hipotética introdução da cor representaria um significativo passo em frente. Seja como for, avizinham-se tempos interessantes nesta área e temo que o meu Sony Reader se converta, mais depressa do que eu pensava, numa espécie de ZX Spectrum.

Onde nos leva o pelotão da Internet

Ele há coisas bizarras. Ou pelo menos inesperadas. Exemplo: a equipa de ciclismo Liberty Seguros acaba de me adicionar como amigo no Facebook.

Arménio Vieira vai publicar o seu mais recente livro de poemas na Nova Vega

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O escritor cabo-verdiano Arménio Vieira, Prémio Camões 2009, que esteve em Lisboa esta semana (para ser homenageado na Casa Fernando Pessoa), terá o seu último livro de poesia, Mitografias, editado pela Nova Vega «já para a próxima rentrée». Ou seja, em Setembro ou Outubro. Vieira mantém assim a ligação ao editor Assírio Bacelar, que publicou em Portugal o seu primeiro livro de ficção: O Eleito do Sol (na então Vega).

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Uma boa mentira (2)

A novela 30 Gramas, de Leonel Moura (LxXL), é uma ficção em que a importância da verdade na arte é relativizada. Por isso mesmo, enquanto lia, apercebi-me de alguns pormenores curiosos. Na pág. 48, duas das personagens jantam no Vírgula, «com vista para o Tejo», um restaurante que entretanto já não existe, porque faliu. E na pág. 68 são citados dois versos de Borges que Borges nunca escreveu («Si pudiera vivir nuevamente mi vida, / en la próxima trataría de cometer más errores», início de um conhecido poema apócrifo que circula na Internet). Será que estas pequenas dissonâncias e lapsos são apenas dissonâncias e lapsos, ou foram pensados por Leonel Moura e fazem parte do jogo literário, da «boa mentira» a que os artistas, segundo o narrador, devem aspirar?

Uma boa mentira

«Existem muitos casos de animais artistas. O mais antigo que se conhece data de 1806 quando Hokusai, criador da famosa xilogravura “Grande Onda de Kanagawa”, mergulhou as patas de um galo em tinta vermelha e fê-lo andar por uma folha de papel, depois acrescentou uns traços a azul e chamou-lhe “Folhas à deriva no rio Tatsuta”. Nos anos 20 Nadezhda Ladygina-Kohts fez várias experiências com chimpanzés pintores. Nos anos 40 os laboratórios de Yerkes testaram as capacidades de composição. Quando se dava uma folha de papel com marcas em três dos cantos eles punham uma marca no quarto canto. Segundo Morris, a pintura é uma actividade calmante para estes símios. Salvador Dali dizia que a mão do chimpanzé é quase humana e a mão de Pollock é quase animal.
– “Também há quem pinte com larvas mergulhadas em pigmento.”
– Com elefantes, gatos, ramos de árvore que abanam ao vento. O pintor francês Roland Dorgelès fez umas pinturas mergulhando a cauda de um burro em tinta que depois assinava com o nome de Boronali. Uma desla, “Pôr-do-sol sobre o Adriático” exposta no Salão dos Independentes em 1910, é famosa. Uma pintura pode ser feita de qualquer maneira, pouco importa. Como provocação, como ruptura, como inovação.
André Masson passava fome e drogava-se para perder a consciência do que fazia.
– “E o Pollock apanhava grandes bebedeiras para ser mais espontâneo.”
Há também o caso dos artistas inventados. O Centro Reina Sofia dedicou recentemente uma exposição ao pintor cubista Josep Torres Campalans, companheiro de Braque e Picasso que nutria uma peculiar antipatia para com Juan Gris. Afinal este artista nunca existiu, foi uma criação do escritor Max Aub que, de modo a dar maior veracidade à farsa, pintou ele mesmo, com a ajuda de um sobrinho menor, mais de uma centena de obras assinadas por Campalans. Aub escreveu uma biografia do inexistente pintor, onde para além de uma rigorosa cronologia e relatos de vida, não faltaram algumas fotografias. Uma delas mostra Jusep ao lado de Picasso.
Qualquer idiota consegue dizer a verdade, mas é preciso talento para saber contar uma boa mentira, dizia o escritor Samuel Butler.»

[in 30 Gramas, de Leonel Moura, LxXL, 2009]

Primeiras reacções à ‘longlist’ do Booker

Num artigo do The Guardian, Mark Brown chama a atenção tanto para a presença de dois pesos-pesados (Coetzee, Byatt) e de três romancistas estreantes (um deles, James Lever, autor de uma biografia de Cheeta, a chimpanzé dos filmes do Tarzan) como para a ausência de escritores asiáticos (invertendo a tendência de 2008, com dois indianos na shortlist, incluindo o vencedor, Aravind Adiga).
Ainda no universo digital do The Guardian, a escolha do júri está a ser comentada neste post do Books Blog.

‘Os Anagramas de Varsóvia’

Os Anagramas de Varsóvia

É o novo romance de Richard Zimler, um «policial arrepiante (…) passado no gueto judaico de Varsóvia», segundo informações da editora Oceanos. Chega às livrarias em Setembro.

Basicamente, a literatura é um ofício perigoso (diz Bolaño)

Não deixa de ser bizarro, isto de receber um e-mail enviado por um escritor morto. Ao clicar na mensagem de Roberto Bolaño (2666bolano@gmail.com), deparei com uma lúcida declaração de intenções do autor de 2666, esse magnum opus com edição portuguesa prevista para breve:

«¿Entonces qué es una escritura de calidad? Pues lo que siempre ha sido: saber meter la cabeza en lo oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un oficio peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidencia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos. La literatura, como diría una folclórica andaluza, es un peligro.»

O excerto faz parte do Discurso de Caracas, lido por Bolaño no momento da atribuição do prémio Rómulo Gallegos, em 1999. A versão integral está disponível aqui.

Causa fracturante

O projecto do Sr. Palomar, cujo fim último é banir o sinal de pontuação «que nos faz passar por histéricos», já tem uma imagem, um símbolo, uma bandeira (made by Pedro Vieira). Reiterando o que afirmei aqui, só posso associar-me, militantemente, a esta luta.

Transferência

A partir do próximo sábado, o crítico literário Mário Santos, que durante muitos anos escreveu nos suplementos de cultura do Público, passará a colaborar com a secção de Livros do Expresso.

No deserto dele

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No teu deserto
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Oficina do Livro
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-989-555-464-5
Ano de publicação: 2009

Depois de um romance histórico de recorte clássico (Equador) e de uma saga familiar falhada (Rio das Flores), Miguel Sousa Tavares decidiu, ao terceiro livro de ficção, mudar de azimute. Em vez de meio milhar de páginas, um texto breve. Em vez de personagens às dezenas, apenas duas. Em vez de amplos painéis narrativos, uma história simples.
Há um par de décadas, o autor percorreu as dunas do Sahara num jipe UMM, ao lado de Cláudia, uma rapariga 15 anos mais nova, que só conhecera pouco antes da partida. Durante as cinco semanas de viagem (mas sobretudo nos quatro primeiros dias, até Ghardaia), partilham a solidão e o silêncio, aproximam-se, atraem-se (sem nunca se envolverem) e no fim separam-se, regressando cada um à sua vida: demasiado intensa, a do jornalista-narrador; demasiado vazia, a de Cláudia. Mais tarde, ela morre, ele reencontra uma velha foto, é mordido pela serpente venenosa «a que chamamos nostalgia» e sente-se na obrigação de contar o seu breve encontro, num registo linear e intimista.
As expectativas criadas no leitor são, porém, rapidamente desfeitas. Que Miguel Sousa Tavares não é Graham Greene, já suspeitávamos. Mas era de esperar que a falta de profundidade literária fosse compensada, no mínimo, com a arte de narrar aventuras exóticas, dessas que em tempos contribuíram para a sua fama de repórter. Infelizmente, a acção do livro é tão despojada e seca quanto o Sahara. MST gasta muito mais páginas a descrever os expedientes para entrar no ferry rumo a Oran (ou para conseguir uma licença de filmagem no Ministério da Informação, em Argel), sempre com recurso a subornos e zurzindo a burocracia árabe, do que a descrever as tempestades de areia ou a beleza inóspita da pista para Tamanrasset. Sobra pouco: algumas frases dignas da melhor filosofia de cordel, sentimentalismo fácil e uma tensão erótica que nunca se resolve.
No teu deserto lembra As Pontes de Madison County sem as cenas de sexo, mas com a mesma lamechice de fazer chorar as pedras da calçada.

Avaliação: 3/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Números redondos da Porto Editora na Web 2.0

Depois de na semana passada ter ultrapassado a barreira dos 500 “amigos” no Facebook, a Porto Editora chegou hoje aos 1000 “seguidores” no Twitter. Para comemorar o feito, o “amigo” 500 e o “seguidor” 1000 vão receber um livro do catálogo da Porto Editora, à sua escolha.
Para a aposta da PE na Web 2.0 ficar completa, falta só mesmo um blogue.

Na estrada com Mia Couto

O Blogue de Letras antecipa, num curto mas muito eficaz vídeo, a reportagem que Luís Ricardo Duarte publica na edição de amanhã do Jornal de Letras, resultado do acompanhamento, durante três dias, da tournée que Mia Couto fez por todo o país, promovendo o seu último romance (Jesusalém, Caminho).
Depois dos booktrailers, será que vêm aí os presstrailers? Não sei. Mas este primeiro ensaio é muito promissor.

O ‘caso João Bonifácio’ segundo Pedro Mexia

O meu amigo Pedro Mexia pediu espaço, aqui no Bibliotecário de Babel, para dizer o que pensa da recente polémica que envolveu o crítico musical João Bonifácio e, sobretudo, para explicar como se posiciona perante a resposta que a essa polémica foi dada pela direcção do jornal Público. Vindo o pedido de quem vem, nem hesitei na resposta. Aproveito para dizer que subscrevo, palavra por palavra, o texto que se segue:

João Bonifácio escreveu no Público uma crítica sobre o concerto dos Killers no Restelo. O texto online suscitou grande número de comentários (mais de duzentos, da última vez que abri a página), quase todos escandalizados, muitos deles insultuosos. Os fãs dos Killers não admitiam a opinião negativa. E o Belenenses protestou oficialmente por causa de uma suposta ofensa ao clube.
Toda a gente é livre de se sentir ofendida e de protestar. Mas qualquer pessoa não excessivamente fanatizada percebe que João Bonifácio fez uma piada sobre os adeptos de um clube e escreveu uma crítica a um concerto de uma banda. Um texto discutível, felizmente, mas um texto normal.
Infelizmente, o
Público (que é o jornal onde eu escrevo), em editorial, pediu desculpa ao Belenenses. Pela mesma lógica, podia também ter pedido desculpa aos fãs dos Killers. E aqui é que se começa a desenhar um precedente preocupante.
A crítica implica liberdade em matéria opinativa. Um jornal não tem que concordar com as opiniões dos seus críticos, mas quando as publica tem que as proteger, excepto quando ultrapassam determinados limites legais ou éticos. Não foi o caso, pelo que não se percebe o excesso de zelo.
Seria muito mau sinal se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos protestos. Seria péssimo se as direcções dos jornais orientassem a sua política editorial pelos insultos.

Pedro Mexia

Finalistas do Man Booker 2009 editados em Portugal

Dos 13 finalistas do maior prémio literário britânico, cinco estão já editados em Portugal. Dois na Dom Quixote: J.M. Coetzee, Prémio Nobel em 2003 e duplo vencedor do Booker, em 1983 e 1999 (o outro escritor que conseguiu tamanha proeza foi Peter Carey, em 1988 e 2001); e Colm Tóibín. Uma na Sextante: A.S. Byatt. Outra na Bizâncio: Sarah Waters. E ainda um na Difel: James Scudamore.

Já temos ‘longlist’ para o Man Booker Prize 2009

Anunciados há poucos minutos, eis os 13 títulos:

- The Children’s Book, de A.S. Byatt (Chatto and Windus)
- Summertime, de J.M. Coetzee (Harvill Secker)
- The Quickening Maze, de Adam Foulds (Jonathan Cape)
- How to paint a dead man, de Sarah Hall (Faber and Faber)
- The Wilderness, de Samantha Harvey (Jonathan Cape)
- Me Cheeta, de James Lever (Fourth Estate)
- Wolf Hall, de Hilary Mantel (Fourth Estate)
- The Glass Room, de Simon Mawer (Little, Brown)
- Not Untrue & Not Unkind, de Ed O’Loughlin (Penguin)
- Heliopolis, de James Scudamore (Harvill Secker)
- Brooklyn, de Colm Tóibín (Viking)
- Love and Summer, de William Trevor (Viking)
- The Little Stranger, de Sarah Waters (Virago)

James Naughtie, presidente do júri, colocou nos píncaros as expectativas quanto à qualidade média da edição deste ano:

«The five Man Booker judges have settled on thirteen novels as the longlist for this year’s prize. We believe it to be one of the strongest lists in recent memory, with two former winners, four past-shortlisted writers, three first-time novelists and a span of styles and themes that make this an outstandingly rich fictional mix.
We considered more than 130 novels (including the work of nine former winners) and found ourselves travelling in a fertile landscape. We kept discovering new talent as well as reacquainting ourselves with familiar writers, and emerged with a feeling that we were part of an exceptional year.
Our fiction is in the hands of original and dedicated writers with fresh and appealing voices. This is an eclectic list, taking us from the court of Henry VIII to the Hollywood jungle, with stops along the way in a nineteenth century Essex asylum, an African warzone and a futuristic Brazilian city among other places.
These are books that readers will want to get their hands on.»
»

O press-release da organização do Man Booker Prize pode ser lido aqui.

Centenário

Faz hoje precisamente cem anos que nasceu, em Wallasey (Reino Unido), Malcolm Lowry, o autor de um dos mais extraordinários e desesperados romances do século XX: Debaixo do Vulcão.
Um dia, escreveu o seguinte epitáfio, resumo perfeito de uma vida de brilhos, raivas, desconcertos, ironias, tragédias e muito álcool:

Malcolm Lowry
Late of the Bowery
His prose was flowery
And often glowery
He lived, nightly, and drank daily,
And died playing the ukulele.

Uma ideia oferecida

A/C da rapaziada da loja Cão Azul:

Que tal fazerem uma T-shirt toda branca, com um dos desenhos estilizados do Charles de Foucauld (Esquisses Sahariennes) no peito, mesmo por baixo da frase: No teu deserto ou no meu?

Ia vender como pãezinhos, garanto-vos.

PS – Só para que saibam, ofereço esta ideia enquanto visto uma T-shirt vossa (não digo qual). Se em troca me quiserem oferecer outra, ficarei muito agradecido.

BlogConf com José Sócrates, às 17h30

O Bibliotecário de Babel vai participar daqui a nada, na Cantina da LX Factory, em Lisboa, na primeira conferência de imprensa que um primeiro-ministro português dá apenas a bloggers e utilizadores de redes sociais (essencialmente o Twitter). Há 21 participantes inscritos. O funcionamento da coisa está explicado aqui.
Eu já tenho a minha pergunta formulada (é sobre o investimento na Cultura), mas quem quiser deixar eventuais questões para José Sócrates na caixa de comentários deste post, saiba que serão consideradas. Eu tentarei twittar o que se passar na minha conta, mas para uma cobertura mais ampla vale a pena espreitar na hashtag #blogconf.
Se tudo correr bem, a transmissão vídeo da BlogConf surgirá em tempo real neste ecrã:

Mais um regresso que se saúda

Voltou aos poucos, como quem sai de uma ressaca, mas já está em vias de atingir o seu habitual nível de vertigem bloguística. Falo do Henrique Manuel Bento Fialho, claro.

Novas do Fórum Fantástico

Não vai haver FF este ano (o que é uma pena), mas volta em 2010 (do mal o menos).

O tio húngaro

Vidas Entrelaçadas
Autor: Linda Grant
Título original: The Clothes on Their Backs
Tradução: Isabel Alves
Editora: Civilização
N.º de páginas: 302
ISBN: 978-972-26-2828-0
Ano de publicação: 2009

Vivien Kovaks é uma rapariga introvertida e com ambições literárias que vive num típico prédio de tijolos vermelhos, em Benson Court, com os pais – húngaros emigrados para Inglaterra em 1938 (mesmo a tempo de escaparem aos horrores da II Guerra Mundial). Reservados e paranóicos, com pavor de qualquer mudança que os obrigue a regressar à pátria, os progenitores vivem numa espécie de reclusão voluntária, fazendo do passado familiar um território opaco, cujas fronteiras a filha nunca conseguiu discernir. O processo de libertação – pessoal, política, sexual e identitária – de Vivien, numa altura (a segunda metade dos anos 70) em que Londres assistia a um surto de intolerância racista, alimentada por grupúsculos de extrema-direita, está no cerne deste sólido romance de Linda Grant, que em 2008 chegou à shortlist (isto é, ao lote de seis finalistas) do Man Booker Prize, ganho por Aravind Adiga, autor indiano de O Tigre Branco (editado pela Presença).
O factor que desencadeia a mudança em Vivien, regressada à casa paterna depois de enviuvar precocemente, é o reencontro com o tio Sándor, irmão do pai, figura fascinante e perigosa, um sedutor bem vestido que passou alguns anos na cadeia, depois de descobertos os abusos a que sujeitava os seus inquilinos, maioritariamente negros oriundos das Caraíbas. Embora reconheça o homem que vira apenas uma vez, e de relance (aos dez anos, quando ele lhe tentou oferecer uma barra de Toblerone, à porta de casa, durante uma discussão com o seu pai), Vivien, sob um falso nome, aceita trabalhar como secretária, gravando e transcrevendo as memórias que o tio proscrito quer fixar num livro biográfico. Por portas travessas, ela recupera assim as histórias de família que os pais desde sempre lhe esconderam e aprende que «os sobreviventes resistem graças à sua força, astúcia ou sorte e não à sua bondade e muito menos à sua inocência».
A estrutura do livro é simples, clássica, nada de muito arriscado ou inventivo. Por vezes o romance hesita, patina um pouco em linhas narrativas estéreis, mas nunca chega a perder completamente o fôlego ou o foco. Grant sabe o que faz, define bem o recorte psicológico das personagens e escreve num estilo ameno, com um toque de nostalgia. Na verdade, só falha mesmo na tentativa de criar uma metáfora abrangente, segundo a qual as roupas, e o modo como são usadas, reflectem aquilo que somos (o título inglês é The Clothes on Their Backs). Talvez isso aconteça, admitamos que sim, mas esta ideia nunca chega a ser desenvolvida de forma consistente.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]

Sobre os pontos de exclamação

Também eu, como o Senhor Palomar (e o Pedro Mexia), me inclino para a suave erradicação dos pontos de exclamação. Com raríssimas excepções, eles são o sintoma da absoluta falta de requinte estilístico, uma coisa demodée, meio rançosa, ideal para adolescentes idealistas e sonetos de amor foleiros, mas pouco própria para quem pretende levar a escrita a sério.
Tiveram o seu tempo, os pontos de exclamação. Aquela pose vertical de sentinela, aquela explosão na página, aquele estremecimento no fim da frase, que a põe em bicos de pés e é prenúncio de estridências capazes de furar o silêncio da leitura. Se no final do século XIX eram uma necessidade (tivesse Zola proclamado o seu «J’accuse!» sem ponto de exclamação e desconfio que Dreyfus morreria na cadeia), no início do século XXI são um disparate, uma inutilidade, um sinal de fraqueza, um arcaísmo que trai a mão pesada e pouco subtil de quem a eles recorre.
O Senhor Palomar toca no cerne da questão quando afirma que o abuso deste sinal de pontuação «esconde uma profunda incapacidade de alguém se fazer explicar». Sim, o ponto de exclamação é o recurso de quem precisa de «gritar aos nossos ouvidos» para se fazer entender. É o desgraçado que gesticula muito, com medo que não reparem nele. É a alça do vestido que descai despudoradamente, como se ainda não tivéssemos reparado que existe, ali ao lado, um decote generoso. É a muleta dos maus escritores que querem impressionar, a todo o custo, os seus leitores pouco exigentes.
Ao esboço de manifesto do Senhor Palomar faltou só, parece-me, um exemplo. Um qualquer exemplo da terrível maleita, de preferência retirado das novidades editoriais. E como ele não se chegou à frente, chego-me eu. Sabem onde é que o ponto de exclamação anda à solta, como se não houvesse amanhã, tornando ainda mais frágil um texto que já era de si fragílimo? Pois bem, é no «quase romance» que lidera neste momento todos os tops de vendas: No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares. Só entre a página 81 e a página 83, temos 14 ocorrências do dito cujo, mas a praga estende-se ao livro inteiro. A maioria das malditas sinalefas surge, há que dizê-lo, nos capítulos correspondentes à voz feminina, toda ela entusiasmos e arroubos (ao ponto de referir-se ao narrador principal, sem ironia, como «O meu Fellini!» e «O meu Pulitzer!»). Mas o narrador principal, que é o próprio autor, também guarda para si uma boa dose de exclamações, quase todas desnecessárias e estilisticamente desastrosas.
Já agora, se dúvidas houvesse sobre a absoluta sobreposição entre o autor Miguel Sousa Tavares e o narrador principal da história (de resto assumida em entrevistas), bastaria um ou dois excertos para as desfazer. Julgo que ninguém, a não ser o célebre portista fanático e orgulhoso tecnófobo, escreveria isto assim:

«Distribuímos T-shirts, frascos de compotas e cubos de marmelada, latas de conserva e fotografias do Madjer a marcar o seu imortal golo de calcanhar em Viena, com a camisola do F. C. Porto. Mas nada, nada podia apaziguar aquele indefinível mal-estar que sentíamos na presença deles. A seus olhos, tínhamos vindo de outro planeta, carregados de coisas novas e estranhas que eles nunca tinham visto – até mulheres loiras de jeans – mas logo partiríamos, de encontro ao deserto onde estava a nossa “aventura” e a sua desventura.» [pág. 116, negrito meu]

E isto assim:

«As coisas mudaram muito, Cláudia! [Lá está ele.] Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.» [pág. 117/118, negrito meu]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
- No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro), por José Mário Silva
- Grimus, de Salman Rushdie (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
- Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie (ASA), por Rogério Casanova
- Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos, de Heinrich von Kleist (Antígona), por António Guerreiro
- Antologia da Poesia Grega Clássica, selecção e tradução de Albano Martins (Portugália), por Hugo Pinto Santos
- O Fim pode Esperar, de Diana Athill (Pedra da Lua), por Luísa Mellid-Franco

A ‘Phala’ encadernada

phala

No início do mês, a Assírio & Alvim recuperou A Phala, agora em versão digital. Para os nostálgicos das velhas edições em papel (com o seu formato invulgar), há no entanto uma alternativa: esta versão encadernada dos números 61 a 100 (mais respectivos suplementos), numa tiragem de apenas 60 exemplares. São 600 páginas que encerram a «encadernação de todos os exemplares publicados de A Phala». O volume custa 140 euros e pode ser comprado na Livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67-B, 1150-258 Lisboa).

A aposta brasileira da LeYa

Após algumas tentativas de aquisição de editoras brasileiras, que falharam todas (mesmo quando estiveram pertinho de se concretizarem, como no caso da Nova Fronteira), a LeYa decidiu lançar-se com a sua própria chancela no gigantesco mercado editorial do Brasil. A aposta é forte e aponta para a publicação de uma centena de títulos por ano.
Eis, na íntegra, o comunicado que anuncia a nova estratégia:

«A LeYa vai iniciar uma nova fase estratégica na construção do grupo editorial de referência em língua portuguesa. A partir de Setembro, a LeYa passará a editar directamente no mercado brasileiro.
Para isso, constituiu uma equipa de vinte prestigiados profissionais no meio editorial com o objectivo de desenvolver um plano editorial com mais de 100 livros por ano. A nova editora publicará sobre a chancela LeYa e iniciará a sua actividade com o livro O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho, vencedor da primeira edição do Prémio LeYa. A direcção editorial será assegurada por Pascoal Soto, que desempenhava as mesmas funções na operação do Grupo Planeta no Brasil.
Com esta iniciativa, a LeYa espera estar a dar o primeiro e decisivo passo em direcção à realização de mais um dos seus objectivos estratégicos. A LeYa pretende ser um player relevante no mercado brasileiro e, por isso, continua a analisar o mercado latino-americano no sentido de reforçar a sua presença através da aquisição de editoras locais.
A partir de agora, a LeYa está em condições de cumprir mais um dos seus compromissos iniciais, que era o de assegurar a publicação dos seus autores em todo o mercado de língua portuguesa, um objectivo importante não apenas para a empresa e autores, mas também para o reforço da cultura portuguesa no mundo.»

Círculos concêntricos

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A Ministra
Autor: Miguel Real
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-628-145-8
Ano de publicação: 2009

A dois dias do Natal, uma obstinada professora catedrática de Sociologia das Estatísticas, autora de uma tese de doutoramento que é todo um programa («Como manipular dados estatísticos de modo a evidenciar resultados não existentes na realidade»), recebe por telefone um convite do primeiro-ministro para ocupar a pasta da Educação.
Nesta novela, Miguel Real quis mostrar como funciona a cabeça de alguém à beira de cumprir o seu sonho de grandeza e poder, alguém que toda a vida esperou o momento de exorcizar o «buraco de infortúnio» que foi o seu passado. Mas, sejamos claros, este engenhoso reductio ad absurdum é sobretudo o veículo para uma crítica feroz às políticas educativas do actual governo.
Embora existam semelhanças com Maria de Lurdes Rodrigues (certos traços de carácter, percurso académico, presidência de um Observatório, etc.), a protagonista desta novela representa apenas um «tipo literário», desenhado «ficcionalmente» – como Real avisa logo de início. Ainda assim, os leitores projectarão na maquiavélica quase Ministra a Ministra verdadeira, porque é a acção da segunda que o autor pretende atingir, ao caricaturar as motivações da primeira (empenhada em reduzir as reprovações a todo o custo para criar uma geração pragmática e técnica, uma «elite popular» ao arrepio das visões humanistas dos «professorzecos», agarrados ainda a «um mundo antigo, soixante-huitard e vinteecincodeabrilesco»).
Transformar esta ficção num mero manifesto político seria, porém, tão redutor quanto injusto. Real explora magistralmente a memória da sua personagem, em círculos concêntricos que partem do ponto focal da narrativa (o telefonema), através de monólogos interiores vertiginosos, escritos com ironia e raro cuidado estilístico. A Ministra vai dar que falar por muitas razões. Era bom que a sua qualidade literária fosse uma delas.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Unputdownable

Uma pessoa afasta-se do mundo: não vê mails, não bloga, não liga sequer o computador, quase não fala, quase não come, quase não dorme. Acho que o adjectivo unputdownable foi inventado para descrever os livros deste senhor.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges