Um esclarecimento da Biblioteca Nacional

Na sequência de notícias publicadas no dia 28, «em que se sublinha ter sido a Biblioteca Nacional de Espanha a disponibilizar na Biblioteca Digital Europeia – Europeana – a primeira edição de Os Lusíadas (Lisboa, António Gonçalves, 1572)», a Biblioteca Nacional de Portugal emitiu o seguinte comunicado:

«1 – O fac-símile digital da primeira edição da obra épica de Luís de Camões foi disponibilizado pela BNP na Europeana desde o seu lançamento, em 2008.
Mas a sua divulgação na Internet, pela BNP, é muito anterior. Com efeito, foi essa mesma obra e edição que inaugurou, seis anos antes, a Biblioteca Nacional Digital (BND), lançada em Fevereiro de 2002. Assim, Os Lusíadas, na sua primeira edição, foram a primeira obra digitalizada que a BNP colocou na Internet, cinco anos antes de disponibilização semelhante, feita pela Biblioteca Nacional de Espanha, em 2007.

2 – A referida edição de Os Lusíadas passou também a estar acessível desde 2005, através do serviço The European Library, o portal das bibliotecas nacionais da Europa que congrega os respectivos catálogos e, bem assim, o acesso às obras já disponíveis em modo digital.

3 – A Biblioteca Nacional de Portugal é membro da Biblioteca Digital Europeia – Europeana – desde a sua fundação. Para além de manter, desde a fase de projecto, uma participação efectiva no desenvolvimento técnico e organizacional da Europeana, a BNP disponibiliza, automaticamente, para aquele portal, desde o seu lançamento, todos os conteúdos da Biblioteca Nacional Digital. No entanto, a recolha, publicação e indexação dos dados da BND é da responsabilidade da administração dos sistemas que suportam a Europeana, não podendo a BNP interferir na frequência da sua actualização.

4 – A Biblioteca Nacional Digital é um serviço em constante evolução e crescimento, que disponibiliza actualmente cerca de 11.000 obras digitalizadas, num total de mais de 620.000 imagens. O serviço registou, no primeiro semestre de 2009, um crescimento de conteúdos de 24% relativamente a 31 de Dezembro de 2008 e uma média de acessos às obras digitalizadas superior a 600.000/mês.

Dos projectos em curso na Biblioteca Nacional Digital destacam-se, pela sua dimensão e relevância para a difusão internacional da cultura e língua portuguesas, a digitalização sistemática dos incunábulos (tipografia do século XV) e dos impressos portugueses dos séculos XVI e XVII, em adiantada fase de execução, a digitalização integral de todo o espólio documental de Fernando Pessoa à guarda da BNP, do qual já se encontram disponíveis em linha a totalidade dos Cadernos do Poeta (29 espécies), o original de Mensagem e as obras de Alberto Caeiro, bem como a disponibilização integral, no próximo mês, do espólio de Camilo Pessanha.
À medida que são publicados na BND, todos estes conteúdos são automaticamente colocados à disposição da Europeana.»

Exit Saramago

José Saramago despediu-se hoje da blogosfera, embora não coloque de parte um regresso pontual ao seu Caderno, caso as circunstâncias o justifiquem. É uma pena. Embora não fosse um blogger no sentido que normalmente lhe atribuímos (pelos motivos que enumerei aqui), era uma voz singular e muitas vezes desarmante, a voz de um Nobel que não precisa, objectivamente, disto para nada mas que teve a generosidade e a humildade de se expor diariamente (a si, à sua escrita, às suas ideias) diante do mundo infinitamente aberto, mas por isso também devorador e implacável, da Internet.
Por tudo o que nos ofereceu no Caderno, mas sobretudo pelo gesto de partilha, insisto em dizer: obrigado, José Saramago. Saber que a ausência online reverte a favor da escrita de um novo livro não deixa de ser um consolo.

O blogue do Bruce

Nas suas próprias palavras, o escritor Bruce Holland Rogers é perito em criar blogues que se revelam, mais tarde ou mais cedo, «falsas partidas». Esperemos que este seja mais duradouro e pelo menos tão fecundo como o seu site de micronarrativa (www.shortshortshort.com).

Arte poética

Descobri, ontem à noite, a que sabe a arte poética do Henrique. Carapaus assados nas brasas, salada de tomates e pimentos da horta, vinho fresco (que o garrafão com «pomada do Rogil» foi substituído por «outros néctares mais em conta para o fígado») e uma conversa do lado de fora da «mansão», sob as estrelas. A Alice e o Pedro, mesmo podres de sono, não se cansaram de brincar com a Matilde e a Beatriz (a menina que me trouxe, na palma da mão, um bolinho coroado por uma flor de açúcar; a mesma palma da mão que tinha festinhas para dar ao Basquiat, cão da família, quer ele quisesse ou não).
Obrigado, Henrique e Ana, pelo jantar, pela hospitalidade e pelo resto. Não consigo imaginar um melhor remate para umas férias curtas (duas semanas) mas perfeitas.

Sete poemas em prosa de Vergílio Alberto Vieira

1
Antes da predição do áugure acender o fogo sobre a terra, e da ágil consaguinidade os tornar rosto de mulher, já eles, nostálgicos dos nove círculos do céu, tinham deixado o grande sono dos mortos para voltar a ser sinal do dia.

2
Quebrado o vínculo, que os unia à inquietude das manhãs, iniciam o canto, que a luz dará à noite; e a natureza, às coisas irreais.

3
Reféns do espelho de água, pelo rumor do sangue escalam o espaço com que a flor do algodoeiro coroou de neve os cúmulos do meio-dia.

4
Para que outra fosse a origem, e outro o ardor da febre, que a alma adiantou à lei da gravidade, sobre o umbral fixam o número que, há muito, apagou a idade numa campa de criança.

5
Agasalhados da altura, descem em círculo ao centro da memória, que o vaso de cinza tornou oferenda, no auge da cegueira.

6
Na clareira, que o verão cercou de bruma, e o sol, de vidros, pelos muros dos quintais, caem as sombras, que a sal cozeu, e a raiz esventrou.

7
Junto à casa, que a ruína do sangue precipitou sobre o caminho, esperam, então, que a floração da romãzeira com eles celebre o que ficou do assombro – última oitava da primavera.

[da sequência “Cinzas de Pássaros Mortos”, in Melancholia Perennis, Livros de Horas, 2009]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Os Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn (Dom Quixote), por José Mário Silva
Massa Crítica, de Philip Ball (Gradiva), por Luís M. Faria
Viagens pela Europa, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Uma Longa Viagem com José Saramago, de João Céu e Silva (Porto Editora), por Vítor Quelhas
Senhora Oráculo, de Margaret Atwood (Bertrand), por Rogério Casanova
Palestina, de Hubert Haddad (Quetzal), por Luísa Meireles
Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote), por António Loja Neves

É favor não incomodar

2666_na_piscina

Leitor ausente algures no deserto de Sonora, pela mão de Roberto Bolaño.

Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos (3)

Ontem, o Nacional da Madeira conseguiu um dos resultados mais extraordinários de sempre do futebol português, ao eliminar do acesso à Liga Europa o Zenit de São Petersburgo, uma das mais poderosas (e caras) equipas do endinheirado campeonato russo. Seria de esperar que os jornais desportivos cantassem esse feito, em vez de concederem o espaço nobre das suas capas à pálida e embaraçosa (para não dizer vergonhosa) derrota do Benfica diante de uma equipa ucraniana completamente desconhecida e sem qualquer experiência europeia, não era? Era, era. Claro que era. Na realidade, a primeira página do Record é esta. E, por uma vez, é A Bola que salva a honra do convento (embora suspeite que neste caso o destaque ao feito do Nacional apenas serve para minimizar a derrota do Benfica na Ucrânia; se a equipa de Jorge Jesus tivesse ganho, outro galo cantaria).
E assim acaba esta série de posts. Como bem sabem os frequentadores de quiosques, estas tendências repetir-se-ão durante o resto do ano, ad nauseam.

‘Caim’ (o teaser)

A banda sonora do vídeo é uma passagem de As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haydn. A passagem intitula-se Il Terremoto. Será isso que Caim vai provocar nas algo amodorradas letras portuguesas de 2009? Um terramoto?

José Saramago regressa aos temas bíblicos

Em Outubro, exactamente um ano após o aparecimento do seu último livro de ficção (A Viagem do Elefante), o Nobel de 1998 volta a publicar um romance, como sempre na Caminho. E já há título: Caim. Quase duas décadas volvidas sobre a polémica em torno de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), que acabou por ditar o seu afastamento físico de Portugal e o exílio em Lanzarote, Saramago volta a encontrar na Bíblia inspiração literária.
Em carta aos amigos do escritor, partilhada no blogue da Fundação José Saramago, Pilar del Río coloca bastante alta a fasquia das expectativas:

«Saramago escreveu outro livro. O seu título é Caim, e Caim é um dos protagonistas principais. Outro é Deus, outro ainda é a humanidade nas suas diferentes expressões. Neste livro, tal como nos anteriores, O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo, o autor não recua diante de nada nem procura subterfúgios no momento de abordar o que, durante milénios, em todas as culturas e civilizações foi considerado intocável e não nomeável: a divindade e o conjunto de normas e preceitos que os homens estabelecem em torno a essa figura para exigir a si mesmos – ou talvez seria melhor dizer para exigir a outros – uma fé inquebrantável e absoluta, em que tudo se justifica, desde negar-se a si mesmo até à extenuação, ou morrer oferecido em sacrifício, ou matar em nome de Deus.
(…) Com a cabeça alta, que é como há que enfrentar o poder, sem medos nem respeitos excessivos, José Saramago escreveu um livro que não nos vai deixar indiferentes, que provocará nos leitores desconcerto e talvez alguma angústia, porém, amigos, a grande literatura está aí para cravar-se em nós como um punhal na barriga, não para nos adormecer como se estivéssemos num opiário e o mundo fosse pura fantasia. Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar.
(…) Este último romance de José Saramago, que não é muito extenso, nem poderia sê-lo porque necessitaríamos mais fôlego que o que temos para enfrentar-nos a ele, é literatura em estado puro. Dentro de pouco tempo podereis lê-lo em português, castelhano e catalão, e então vereis que não exagero, que não me move nenhum desordenado desejo ao recomendá-lo: faço-o com a mais absoluta subjectividade, porque com subjectividade lemos e vivemos.
(…) A idade, amigos, aguça a inteligência e agiliza a capacidade de trabalho. Que sorte a nossa, leitores, de ter quem nos escreva.»

Cá os esperamos. Ao livro e à eventual polémica, não deixando de saudar, desde já, a energia e a coragem do escritor, que nunca se entregou ao sereno remanso da glória adquirida e continua a agitar as águas com as ganas e a alegria de um rapazinho.

Revista ‘Ler’, n.º 83

Já nas bancas de todo o país, mas ainda ausente – helás – das bancas de Aljezur.

Senhor Palomar avistado na Costa Vicentina?

Para além dos 20 livros que trouxe na bagagem (entre papel e ficheiros digitais), a ampla bagageira do Skoda trouxe ainda outra mochila com mais uma dúzia de volumes (amor, amor, leituras à parte). Nessa outra mochila, junto com Marguerite Duras, Clarice Lispector e Emily Brontë, veio o Palomar, de Italo Calvino. Como quem não quer a coisa, reabri as páginas magníficas do italiano. E encontrei, logo a abrir, a “Leitura de uma onda”, da sequência “Palomar na praia”, primeira parte do capítulo “As férias de Palomar”. Começa assim:

«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas vêm bater na costa arenosa. O senhor Palomar encontra-se na praia, de pé, observa uma onda. Não se pode dizer que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe muito bem aquilo que faz: pretende observar uma onda e observa-a. Não está contemplando, porque para a contemplação é necessário um temperamento adequado, um estado de espírito adequado e um conjunto de circunstâncias externas adequadas: e apesar do senhor Palomar não ter qualquer questão de princípio contra a contemplação, nenhuma destas três condições se verifica no seu caso. Finalmente, não são as “ondas” que ele pretende observar, mas uma única onda e basta: querendo evitar as sensações vagas, estabelece para cada um dos seus actos um objectivo limitado e bem definido.»

Ontem de manhã, na Praia da Amoreira, um senhor de certa idade contemplava uma onda, e uma só, de cada vez. Estava do lado direito, junto às rochas que vistas em contraluz parecem uma fortificação miniatura. Tinha os pés (que imaginei muito brancos) enterrados na areia e as calças minuciosamente arregaçadas até ao joelho. Punha a mão direita em pala sobre os olhos, rodopiava ligeiramente, rabiscava qualquer coisa no seu moleskine, voltava a guardá-lo no bolso do sobretudo (sim, no bolso do sobretudo) e recomeçava as suas observações.
Às tantas, o nadador-salvador começou a apitar e a gesticular, avisando-o que tinha de sair rapidamente dali. O senhor de certa idade, perplexo, apontou interrogativamente para o sobretudo. O nadador-salvador fez que não com a cabeça, como quem diz que se está nas tintas para a indumentária dos veraneantes. Depois, apontou para a bandeira vermelha e voltou a apitar, um apito demasiado agudo, tão agudo que deve ter trazido ao areal toda a canzoada das redondezas.
O senhor de certa idade encolheu os ombros e saiu da água (os pés eram efectivamente muito brancos, brilhavam sobre a areia como peixes albinos). Tirou novamente o moleskine do bolso e escreveu muito depressa, movido por uma energia mais resignada do que furiosa. Desta vez, era o nadador-salvador (sempre a apitar, com os seus calções vermelhos e t-shirt amarela) que ele observava obsessivamente e já não a nova onda que se formava ao largo.
Suspeito que aquele senhor de certa idade era o Senhor Palomar, não o blogger mas o original, o de Italo Calvino, mas não tenho a certeza.

Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos (2)

Afinal o jogo Fiorentina-Sporting trocou-me as voltas (em todos os sentidos). Não houve naufrágio nem milagre caído do céu nos últimos segundos. Apenas uma partida disputada taco-a-taco com uma das melhores equipas italianas, que caiu para o lado deles como podia ter caído para o nosso. Eliminado ao fim de dois empates (o primeiro dos quais no seguimento de uma das arbitragens mais vergonhosas de que me recordo, a fazer lembrar um certo Alemanha-Portugal dirigido por Marc Batta), o Sporting não sai da Champions pela porta dos fundos, como no ano passado, após as goleadas infligidas pelo Bayern Munique. Além disso, a equipa voltou a mostrar que pode ser uma equipa. É uma questão de tempo. Tempo que eu ainda estou disposto a dar a Paulo Bento, mas a maior parte dos adeptos nem por isso.
Ora, com uma eliminação assim, agridoce, os fazedores de títulos tiveram que guardar a grandiloquência na gaveta. E o resultado foi este:


No Record, ainda há um resquício do título preparado para a eventualidade do naufrágio, mas com um toque de esperança (o massacre de Paulo Bento fica guardado para uma próxima oportunidade)


De A Bola nem vale a pena falar. O órgão não-oficial do Sport Lisboa e Benfica comporta-se como aquilo que toda a gente sabe que é: justamente o órgão não-oficial do Sport Lisboa e Benfica. Onde é que está a ERC quando precisamos dela?


O Jogo é que tem uma manchete construtiva: apesar da eliminação, há de facto bons sinais (a aposta nos jogadores formados no clube).

Hermenêutica das primeiras páginas dos jornais desportivos

Um dos meus maiores prazeres, sempre que me abeiro todas as manhãs do quiosque mais próximo, para ler as gordas dos jornais, é contemplar as capas dos diários desportivos. Que manchete abstrusa nos reservará hoje o Record? Que benfiquismo é que A Bola nos atirará hoje para os olhos? E a verdade é que nunca me desiludem. Ainda há dias, o Record sugeria em letras garrafais que o jogador Ramires, por ter marcado um golo salvador ao minuto 90, era «um bom petisco». Trocadilhos com atum em lata, quem é que lhes resiste? [Faço aqui um parêntesis para confessar um sonho que tive há uns tempos: estando o Benfica hesitante na escolha de um novo treinador ou ponta-de-lança, a capa d’ A Bola traria, entre as fotos recortadas dos ditos treinadores ou pontas-de-lança, a manchete: LUZ INDECISA].
Vem isto a propósito do jogo de hoje, entre o meu Sporting e a Fiorentina (que já foi de Rui Costa), um daqueles momentos em que os sportinguistas podem exercer a fundo o seu sportinguismo; isto é, ficarem em catatónico estado de sofrimento e incerteza, sempre na iminência do mais que anunciado desastre, sempre na iminência da mais que inesperada glória. Enfim, sensações extremas e inebriantes que não estão ao alcance dos adeptos do F. C. Porto (condenados à pobreza emocional e ao tédio das vitórias sucessivas) nem aos adeptos do Benfica (que perdem ainda mais vezes do que nós, mas vivem intoxicados com as suas ilusões de grandeza).
Ao que consta, Paulo Bento quis entusiasmar o plantel sportinguista com um discurso sobre o Titanic, embora não me pareça que entre os jogadores da Fiorentina esteja algum sueco chamado Iceberg. À falta de conhecimento dos clássicos gregos, Bento recorreu ao filme choramingas (talvez com a voz da Celine Dion ao fundo, como sereia estridente a avisar para o perigo do naufrágio), mas isso é o menos, desde que Liedson se volte a lembrar como é que se faz aquela coisa com quatro letras que começa por «g», o Pereirinha entre de início e o Polga faça um reboot qualquer que lhe apague os fantasmas das últimas exibições europeias.
Como bom sportinguista, aguardo o jogo com aquela fé inusitada numa vitória sem espinhas (3-0, com hat trick de Liedson e meia-dúzia de defesas impossíveis de Rui Patrício), fé que o mais certo é esboroar-se logo ao fim de dez minutos, mas enfim. Logo se verá. Na verdade, o propósito deste post despropositado era fazer um prognóstico, antes do jogo, sobre os títulos que a imprensa desportiva exibirá amanhã em grandes parangonas. Em caso de derrota, arrisco “O Titanic foi mesmo ao fundo” ou “Gilardino de gelo afunda Sporting”. Em caso de vitória, talvez “Liedson salva-vidas” ou “Príncipe da Renascença” (sobre foto de Paulo Bento). Aqui ao lado, dizem-me que “Príncipe da Renascença” é capaz de ser muito rebuscado. Lembro-me do Ramires bom petisco e concordo. Mas tenho pena, porque o que eu gostava mesmo era de ver, digamos que na primeira página de O Jogo, um sorrisinho vitorioso do treinador do Sporting sob uma única palavra: “Maquiavélico”.

As ficções partilhadas

Traços de viagem
Autor: Manuel João Ramos
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 136
ISBN: 978-972-25-1942-7
Ano de publicação: 2009

Manuel João Ramos tornou-se conhecido do grande público pelo seu activismo cívico. É há muitos anos presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa (durante apenas dez meses, que chegaram para se desiludir com a política autárquica) e dá neste momento a cara por um movimento que apela ao voto nulo nas próximas eleições. Infelizmente, toda esta exposição mediática deixa um pouco na sombra o seu trabalho de investigador (na área da Antropologia, disciplina que lecciona no ISCTE) e a sua actividade de viajante – já documentada no volume Histórias Etíopes (Assírio & Alvim, 2000) e agora retomada, com maior abrangência geográfica, neste novo livro que recolhe «experiências remotas» em «locais invulgares» (Tunísia, Zimbabué, Etiópia) ou nem por isso (Espanha, Reino Unido, Portugal).
Mais do que o relato circunstancial ou literário dos seus périplos, MJR procura fazer reportagens etnográficas; isto é, súbitas imersões na realidade complexa de outros países, centradas em histórias concretas de pessoas concretas. As paisagens estão lá – o vento, a poeira, as ruas tumultuosas, o horizonte – mas o que lhe interessa são os rostos e as vozes que lhe permitem aproximar-se da verdade daqueles lugares. Aproximar-se apenas, porque MJR sabe bem demais que não podemos compreender totalmente outro povo, mesmo que nos embrenhemos pelos caminhos e marcas da sua História, passada ou presente. O registo da viagem, qualquer viagem, é sempre uma «ficção partilhada».
Sem surpresa, MJR mostra uma aversão ao exotismo de pacotilha (as «tristes farsas do chá verde com hortelã sob tendas beduínas») mas também à procura dos sinais deixados por Portugal no mundo. Quando se cruza com compatriotas no estrangeiro, aliás, começa logo a sentir suores frios. O que lhe interessa são as entrelinhas da cerimónia do café em Gondar (Etiópia), os bluffs via rádio entre traineiras de Sesimbra no alto mar, uma conversa sob o efeito do kif (haxixe) na medina de Fez. Ou então as figuras humanas mais inesperadas, do rapazito que trepa às palmeiras de um oásis tunisino (e as «estrangula» para lhes retirar a seiva) à young british artist londrina que cria candeeiros reciclados caríssimos e é doida por pastéis de nata, consumidos num café luso-eritreu manhoso. Em suma, histórias de sobrevivência e expectativa, de amor e ilusão («cada um de nós é os sonhos a que se amarra»), sempre acompanhadas por belíssimos desenhos – feitos umas vezes in loco, outras «de memória» – a que a qualidade do papel não presta justiça.
Quanto ao resto, tem poucas certezas e muitas desconfianças. Desconfia, por exemplo, do «sonho nacionalista galego», incapaz de fazer frente aos «prazeres consumistas» (sejam eles «a compra de um novo Seat» ou a celebração carnavalesca do dia de Reis em Madrid). Desconfia do futuro do Zimbabué, preso num labirinto político que a retórica pós-colonial não consegue sequer explicar, quanto mais resolver («em Harare, a África e a Europa casaram-se em regime de separação de bens e de apropriação de adquiridos»). Desconfia ainda da «hermenêutica dos arqueólogos», que no seu entender pretende criar à força um passado islâmico para o «casario incaracterístico» de Cacela-a-Velha, com o objectivo de que o «lugarejo minúsculo» assuma o papel de excepção à catástrofe urbanística do Algarve, para que seja, enfim, «a pérola preservada no âmago da carne demasiado perecível da ostra».
A cada momento, MJR pergunta-se, como Bruce Chatwin: «Que faço aqui?» Uma dúvida legítima, mas que já traz em si a resposta: «o mundo gasta-se, erode-se, destrói-se e altera-se, mas, nos traços que nele deixamos, ficam preservados – como num molde invisível – os múltiplos sulcos que foram feitos antes dos nossos.»

Avaliação: 7/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O futuro de Borges

Jorge Luis Borges faria hoje, se fosse vivo, 110 anos. Um detalhe sem grande importância, parece-me, se se acreditar, como acredito, que Borges é dos poucos que ascendou a uma espécie de eternidade literária. A propósito da efeméride, o Senhor Palomar pede que me pronuncie sobre este texto de Alejandro Vaccaro, no qual se defende que no «futuro se hablará de Borges como de Shakespeare o Dante». Sim, claro que sim, claro que se falará. Alguém duvida? E concordo com Vaccaro noutra afirmação: Borges pode não ter sido o melhor escritor de todos os tempos (nem ele aspiraria a tanto) mas foi certamente o melhor leitor de todos os tempos. Aliás, invejo ainda mais as suas leituras do que os seus maravilhosos poemas, contos e ensaios.

Ler na praia

«Todo o verdadeiro leitor sabe que na praia não se consegue ler», diz Paulo Moura, no início de mais uma das suas magníficas crónicas. Permito-me discordar. Na praia consegue-se ler tão bem (e às vezes melhor, se houver uma brisa suave vinda do oceano) do que em qualquer outro lugar. E não é preciso reunir a parafernália caríssima do protagonista da crónica. No meu caso, basta-me isto:

cadeiras

Cada uma custou 12 euros, num «bazár económico» [sic] de Aljezur. Servem às mil maravilhas.

Ninguém escapa

Francisco José Viegas sobre a dependência provocada pelos romances de Stieg Larsson:

«O vício que eles proporcionam não tem apenas a ver com o facto de serem histórias bem contadas; elas falam da sobrevivência e do perigo da morte iminente, da corrupção e do desejo de vingar a injustiça. Há bem e mal. Há amor e indiferença. Coisas humaníssimas. Vive-se muito nos seus livros, e de uma forma apaixonada. Ninguém escapa.»

Eu, que já atravessei em leitura-relâmpago os três calhamaços, confirmo: ninguém escapa.

Bibliomanias

As pessoas obcecadas por livros tendem a gostar de livros sobre outras pessoas obcecadas por livros. A bibliofilia não é apenas uma doença crónica; é também contagiosa. Ao lermos sobre as grandes bibliotecas pessoais – com dezenas ou centenas de milhares de volumes – aspiramos a uma igual desmesura, subitamente embaraçados com a pequenez, a desordem e as lacunas da dúzia e meia de estantes lá de casa. Melhor dito: as pessoas obcecadas por livros tendem a gostar de livros sobre outras pessoas ainda mais obcecadas por livros do que elas. E foi por isso que devorei de uma assentada o ensaio breve de Jacques Bonnet intitulado Des bibliothèques pleines de fantômes (Denoël, 2008, 138 páginas).
Editor, tradutor e autor de livros sobre pintura, Bonnet é um bibliómano que nos escancara a sua bibliomania, não escondendo um certo exibicionismo e uma certa ostentação (nalguns casos até uma certa vaidade), próprios de qualquer bibliómano que se preze. Por muito que mencione as bibliotecas dos outros, ele regressa sempre à sua, minuciosamente descrita em dezenas de páginas que chegam assemelhar-se a um catálogo bibliográfico. Através dos seus livros, é a sua vida, é a sua biografia que se desenha. Nada de muito espantoso, diga-se. Faz parte da natureza das bibliotecas tornarem-se um espelho do seu proprietário. E quem as saiba «descodificar com subtileza» encontrará nelas, mais ou menos escondida, «a natureza profunda do seu bibliotecário».
Ao recordar a forma como chegou a certos livros, Bonnet revela, de facto, alguns aspectos da sua personalidade, como a perseverança e a extrema atenção aos detalhes. Por exemplo, a abrir o ensaio, aborda o célebre episódio em que Fernando Pessoa se candidatou ao lugar de conservador-bibliotecário do museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, corria o ano de 1932. Como se sabe, o poeta dos heterónimos acabaria por ser recusado, em favor de um «pintor obscuro». Ao citar a carta de candidatura de Pessoa, com a sua «retórica insólita», Bonnet explica que a encontrou reproduzida na Fotobiografia de Maria José de Lencastre (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por si comprada em 1983, por 500 escudos, numa livraria de Coimbra, cidade em que se lembra de ter visto uma mulher a andar na rua com uma máquina de costura equilibrada sobre a cabeça.
Na linha do que sugeriram Borges e Bachelard, para Bonnet a biblioteca é o que mais se aproxima da ideia de paraíso terrestre. Ela é um «concentrado de tempo e de espaço», protege da «hostilidade exterior», como se fosse um útero, e confere «um sentimento de poder absoluto». Rodeado pelos seus livros, o bibliómano nunca se sente desamparado. Sabe que tem, sempre ao seu alcance, os instrumentos necessários para interpretar a realidade. E não lhe falem da Internet e suas infinitas reservas de informação. Por muito que se encontre por lá tudo o que se queira saber, quase instantaneamente, ela é «desprovida de fantasmas», diz Bonnet, falta-lhe a dimensão «divina».
A maior parte do ensaio centra-se nas alegrias e tormentos de quem possui uma biblioteca «monstruosa», com dezenas de milhares de livros. E não faltam histórias incríveis. Como a de Antoine-Marie-Henri Boulard (1754-1825), que encheu nove prédios, adquiridos expressamente para receberem os seus 600 mil livros – após a sua morte, ao venderem a colecção, os filhos inundaram o mercado, baixando durante muitos anos os preços nos alfarrabistas. Ou a de Charles-Valentin Alkan, pianista virtuoso que morreu esmagado por uma estante, em 1888, o que o habilita ao estatuto de «santo mártir» dos bibliófilos. Ou a daquele condenado à guilhotina que continuou a ler enquanto o conduziam ao cadafalso e, chegada a hora, marcou a página onde estava, antes de entregar o pescoço à lâmina.
Além de analisar as complexas questões logísticas e imobiliárias associadas às bibliotecas proliferantes, Bonnet dedica muito espaço ao bicudo problema da classificação e arrumação, multiplicando hipóteses, sistemas e estratégias. Eu, à minha reduzida escala, também conheço o dilema. Não sei, por exemplo, onde colocar, agora que acabei de o ler, este livrinho a abarrotar de livros (e de fantasmas) lá dentro.

[Texto publicado no n.º 82 da revista Ler]

Máquinas de escrever

Simenon, diz-se, era um escritor capaz de escrever em qualquer lugar a uma velocidade vertiginosa. Lembro-me de ter lido algures que ele chegou a subir a um palco onde, para espanto do público que se ia revezando na plateia, dactilografou um romance inteiro da primeira à última página (mas isto é capaz de ser lenda). Na mesma linha, embora com menor fúria criativa, parece estar Alain de Botton, que se instalou no novo Terminal 5 do aeroporto de Heathrow para redigir, in loco, um livro numa semana.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Perto da Felicidade, de Richard Yates (Quetzal), por Luís M. Faria
A Rainha do Cine Roma, de Alejandro Reyes (Oficina do Livro), por Vítor Quelhas
Hadji-Murat, de Lev Tolstói (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
O Coração dos Ponders, de Eudora Welty (Relógio d’Água), por Carlos Bessa
Traços de Viagem, de Manuel João Ramos (Bertrand), por José Mário Silva
Outras Cores, de Orhan Pamuk (Presença), por José Guardado Moreira
Geografia Sentimental, de Aquilino Ribeiro (Bertrand), por António Valdemar
Pornografia e Obscenidade, de D. H. Lawrence (Frenesi), por Mário Santos

Figura de estilo

Estreia hoje, em Portugal, o filme Sinédoque, Nova Iorque, de Charlie Kaufman (o mais esperado do ano, pelo menos por mim).

Esclarecimento

Não, caro Senhor Palomar, desta vez os sete volumes do Proust não vieram na bagagem (além disso, na minha edição francesa a Recherche cabe toda num só volume, gordíssimo).

[Caso ainda não saibam, assinalem: a partir de 1 de Setembro, o Senhor Palomar vai mudar-se para nova morada.]

Mais um sítio para ler (magnífico e razoavelmente longe de Lisboa)

vale_dos_homens

Praia do Vale dos Homens (costa ocidental do Algarve). Muitas rochas, muitas algas, formações geológicas, luz rasante do crepúsculo. E areia fina. Enquanto os miúdos chapinhavam na água, eu avancei no Kawabata (Mil Grous, Dom Quixote). Duro mesmo, só a subida da arriba, no regresso.

Sítios para ler (em Lisboa e arredores)

Quando se trata de ler, não sou esquisito. Leio no metro em hora de ponta, em esquinas ventosas, em salas de cinema enquanto as luzes não se apagam, nas repartições de finanças, no supermercado, na fila para o Multibanco, ao volante quando o semáforo está vermelho, etc. Até a andar na rua leio, valendo-me da visão periférica, de uma passada cautelosa e da condescendência dos outros peões. Com isto quero dizer que a leitura não exige condições ideais nem paisagens propícias. É óbvio que prefiro fazê-lo numa esplanada (por exemplo, a do Atira-te ao Rio, no Ginjal; ou a do recém-baptizado Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, na Graça) do que numa cave em Massamá, mas a leitura, quando os livros valem mesmo a pena, empurra-nos para dentro do texto, para o rectângulo da página, e a realidade que nos cerca (seja belíssima ou banal) torna-se difusa, deixa de ter grande importância. Ainda assim, há de facto alguns lugares onde fui um leitor feliz: os relvados da Gulbenkian, à sombra, com uma brisa suave a agitar as folhas das árvores; uma mesa junto ao lago dos patos no Jardim da Estrela; o Kaffeehaus do Chiado, com muita cafeína e apfelstrudel; um certo degrau nas escadinhas da Rua Cidade de Manchester, ali tão perto de casa.

[Texto publicado na edição de hoje da revista Time Out Lisboa]

Contra o silêncio do mundo

A Música da Fome
Autor: J.M.G. Le Clézio
Título original: Ritournelle de la Faim
Tradutor: Isabel St. Aubyn
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 188
ISBN: 978-972-20-3825-6
Ano de publicação: 2009

Publicado pela Gallimard em Outubro de 2008, poucos dias antes da atribuição do Prémio Nobel de Literatura ao seu autor, este romance de J.M.G. Le Clézio vem de certa forma validar, se necessário fosse, a escolha da Academia Sueca. É um livro sólido, de escrita impecável, sem empertigamentos, sem pirotecnias, uma obra serena, com a textura e o ritmo certo dos clássicos. Um exemplo perfeito do que esperamos de um grande escritor no auge da sua carreira, quando já não precisa de provar nada a ninguém.
Para a personagem central, Ethel Brun, Le Clézio inspirou-se na sua própria mãe – «uma jovem que, involuntariamente, foi uma heroína aos vinte anos» – mas os traços autobiográficos da narrativa são ténues. Mais do que a história da sua família, originária da Ilha Maurícia como os Brun, o que o autor pretende recuperar são as marcas (palavras soltas, atmosferas, angústias difusas) de um tempo a cujo estertor ainda assistiu em criança. A ruína familiar é aqui metáfora da ruína da História, das feridas da guerra e de uma fome que foi literal, antes de ser simbólica: «Esta fome está dentro de mim. (…) Contém uma luz intensa que me impede de esquecer a infância. Sem ela, não teria com certeza conservado a memória desses tempos, desses anos tão longos, em que nos faltava tudo.»
A penúria absoluta é o que Ethel e os pais encontram, quase no fim do romance, em Nice (a «cidade de opereta» em que Le Clézio nasceu, em Abril de 1940). Mas antes disso há o relato minucioso da «queda» dos Brun, uma derrocada lenta que começa ainda nos tempos áureos da «amnésia tranquila e sem consequências», ao som das colheres minúsculas a tinir nas chávenas de porcelana, em tertúlias de domingo nas quais o nome de Hitler começava a ser soletrado, espalhando «uma espécie de veneno», capaz de corroer «tudo em volta, os rostos, os corações, e mesmo o papel pintado do apartamento» burguês da rue du Contentin.
Ethel cresceu numa redoma, algo distante dos progenitores (consumidos por atritos conjugais) mas pertíssimo dos seus focos afectivos: o tio-avô Soliman, antigo médico militar em África, que sonhava reconstruir para si o pavilhão que a Índia Francesa levou à Exposição Colonial de 1931; a amiga Xénia Chavirov, exilada após a revolução bolchevique, rapariga extrovertida que no cinzento de Paris «era uma mancha loura, um clarão»; e Laurent Feld, um inglês ruivo, honesto, que virá a ser o seu primeiro amor, a principal esperança, o futuro marido.
A morte de Soliman desencadeia a «engrenagem» da desgraça, que a inépcia do pai para os negócios apenas acentua e acelera. Enquanto o anti-semitismo cresce nas ruas, a família afunda-se. E será Ethel, obrigada a sair, à força, da infância que não chegou a viver para a dureza da idade adulta, quem levará a bom porto a «jangada de náufragos» familiar, que o «vento da realidade» empurrou para o «vazio vertiginoso da derrota».
Embora não seja discernível uma estrutura musical evidente, há linhas melódicas que se propagam através do livro, com uma certa cadência, uma certa entoação, repetindo-se aqui e ali como um retornelo (não por acaso, o título original é Ritournelle de la Faim). Também não por acaso, o único momento histórico em que Ethel e a verdadeira mãe do autor coincidem é a estreia do Bolero de Ravel. Essa peça que parece «uma profecia» e leva os instrumentos até aos seus limites, «até à estrangulação, até quebrarem as cordas e as vozes, até quebrarem o egoísta silêncio do mundo». O mesmo efeito que Le Clézio, com menos violência e menos estrépito, acaba por conseguir neste romance belíssimo, melancólico mas nunca resignado.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma alternativa ao Booker Prize

É o Not the Booker Prize Prize, organizado pelo blogue de livros do The Guardian. O prémio, esse, será um pouco mais modesto do que o recebido pelo vencedor da real thing: em vez de 50 mil libras, uma caneca com o logótipo do jornal.

Coming soon

Pickwick

Uma escolha de Ricardo Araújo Pereira. Uma tradução de Margarida Vale de Gato. Uma capa de Vera Tavares. Uma edição da Tinta da China.

[via twitter de Carlos Vaz Marques, um insider]

Usain Bolt: 100 metros em 9,58 segundos!!!!!!!!!

Há momentos em que os pontos de exclamação se justificam.

De partida

– Felizmente, já tens o Sony Reader.
– Pois.
– É da maneira que não vais tão carregado de livros, certo?
– Certo. Ou melhor, quer dizer…
– Quer dizer o quê?
– Estás a ver a mochila preta?
– Sim. O que é que tem a mochila preta?
– Bom, na verdade tem 1, 2, 3, 4, hmmm, quer dizer, 18 livros.
– 18 livros?!
– Sim.
– Em papel?
– Sim.
– Em papel!?
– Sim.
– Em papel!?!?
– Sim, em papel. Não transformes isto num sketch dos Gato Fedorento. E já agora não abuses dos pontos de exclamação. Olha o Senhor Palomar.
– O Senhor Palomar não é para aqui chamado. Que eu saiba, não vai ser o Senhor Palomar, seja ele quem for, a carregar com essa livralhada toda.
– Lá isso.
– E o Sony Reader, afinal?
– Também vai. Na mochila preta. Sempre são mais dois livros. E dos grossos. Quer dizer, para o caso é indiferente.
– Mas a ideia não era justamente evitar os grandes volumes, os carregos, o peso extra na bagagem?
– Era, a ideia era essa.
– E então?
– Então, sabes como é.
– Não acreditas na tecnologia?
– Acredito, acredito. Não lhe dou é demasiada confiança.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Música da Fome, de J.M.G. Le Clézio (Dom Quixote), por José Mário Silva
O cão das ilhas, de Maria do Conceição Caleiro (Sextante), por Carlos Bessa
Norte, de Céline (Ulisseia), por Paulo Nogueira
A Noiva Indiana, de Karin Fossum (Oceanos), por Luís M. Faria
Narrativa, de Paulo da Costa Domingos (Frenesi), por Manuel de Freitas
O Livro de Horas, de Rainer Maria Rilke (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
Problemas da Filosofia, de James Rachels (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo

Danton por Hilary Mantel

Hilary Mantel, a principal favorita à vitória no Booker (segundo as agências de apostas), analisa em detalhe uma biografia de Danton (escrita por David Lawday), no último número da London Review of Books.

Notícias que subitamente me interessam

«Sony has announced that it’ll make all the titles in its ebook store available in the open source ePub format.»

Lembrar David Foster Wallace

Eis um escritor que a posteridade (whatever that is) tornará ainda maior do que já é.

Mais uma história pynchonesca sobre Thomas Pynchon

Passou-se há 13 anos, foi publicada pela New Yorker e agora desmentida, mas não pelo próprio.
Mr. Pynchon: o terror dos fact checkers.

O paralelista

Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder e Zambrano)
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-6410-49-0
Ano de publicação: 2009

Sempre houve, na escrita de Gonçalo M. Tavares, mesmo nos romances da tetralogia “O Reino”, um impulso reflexivo muito forte e uma atracção pelos territórios da filosofia. Neste novo título (o 26.º de uma obra proliferante), essa atracção é a própria força motriz do livro, criado sob o signo de três pensadoras: a espanhola María Zambrano, Maria Gabriela Llansol e Maria Filomena Molder, «escritoras cuja leitura exige de nós uma resposta, um movimento paralelo, uma deslocação».
As Breves Notas sobre as Ligações, terceiro volume da série Enciclopédia (sucedendo às Breves Notas sobre Ciência, de 2006, e às Breves Notas sobre o Medo, de 2007), funcionam então literalmente como a «resposta» que a escrita alheia exige. Isto é, no interior de uma estrutura aberta e fluida, o corpo da escrita de Gonçalo M. Tavares – com as suas habituais idiossincrasias, ritmos, silogismos e fixações temáticas – reage quase por instinto a frases escolhidas das três Marias (salvo seja), transformando-as em mote para as suas próprias investigações filosóficas.
Não estamos aqui no domínio da exegese; e muito menos da paráfrase. Tavares não explica, não diz de outra maneira; antes impõe novos sentidos, testa hipóteses, abre caminhos. As ideias dos outros (das outras, neste caso) são apenas combustível para o seu elaborado processo mental, pontos de partida desligados entre si e arrancados aos respectivos contextos, materiais observados a partir de um ponto exterior – suficientemente distante para permitir a perspectiva e a paralaxe, a aproximação e o erro. É este olhar a dois tempos que leva à descoberta de insuspeitos fios soltos e nexos improváveis. Tavares acaba por fazer seu o papel do «paralelista» de Giorgio Manganelli (citado na epígrafe), cujos comentários são tão ilimitados «como ilimitado é o texto» original, esse «labirinto de todos os itinerários possíveis» e «lugar dos ecos».
Dito isto, Breves Notas sobre as Ligações, apesar da sua considerável densidade, lê-se de fio a pavio com uma sensação de leveza (que até resiste às «tabelas literárias», já utilizadas em A Perna Esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil, de 2004). Talvez porque Tavares, não deixando de explorar com visível gozo paradoxos e oxímoros, nunca perde a precisão cirúrgica que faz dele, a par de Agustina, talvez o melhor aforista português vivo. Exemplo: «Um verso avança como se fosse uma coisa com electrões e desassossego.» Ou: «O pensamento é um acontecimento. Como um desastre ou a aparição estranha de alguém que não te quer deixar regressar ao sítio de onde vieste.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 82 da revista Ler]

Francisco José Viegas sobre 2666

Não há nada mais reconfortante do que ver um editor verdadeiramente entusiasmado com as obras que edita. Veja-se o que diz Francisco José Viegas sobre a obra-prima de Roberto Bolaño que a sua editora, a Quetzal, vai lançar a 26 de Setembro:

«[2666] é um romance grandioso, maior do que o Ulysses [de James Joyce], uma espécie de narrativa de Borges em ponto grande, que junta literatura e violência de uma forma inédita, ininterrupta, ultrapassando o puro fantástico da literatura latino-americana»

Pode parecer exagero, mas quem tenha lido Os Detectives Selvagens sabe que provavelmente não é. Viegas revela ainda que a Quetzal vai continuar a publicar Bolaño. Em Fevereiro de 2010 surgirá, em simultâneo com a edição espanhola, o inédito O Terceiro Reich, seguindo-se A Literatura Nazi na América, Amuleto, A Pista de Gelo e Putas Assassinas.

A Alêtheia tem um blogue

Aqui.

E agora é tempo de revelar, em primeiríssima mão, a capa daquele que vai ser o Livro do Ano

2666

O assombroso 2666, de Roberto Bolaño (Quetzal). Nas livrarias a partir de 26 de Setembro.

Updike Junior sobre Updike Senior

Eis um belo texto do escritor David Updike sobre o seu pai, o escritor John Updike. Excerto:

«As it grew, he wore his fame lightly as his due, like one of his own well-worn sweaters, thin at the elbows. He loved public institutions — libraries, schools, the post office — letters arriving and departing, the simple act of completion — dropping it in the slot. I did this for him, this past January, when he couldn’t make it downtown himself — a small typed letter, a final correction for an English publisher who was reprinting the Maple stories: he had reread them in proof, he told me, “Not without some pleasure.”
(…) Through it all, his unkind illness, he remained, in his wife’s words, “dignified and noble” — continued to be what his own father called a gen’leman. And he continued to shave — each day, my sisters noted, even when it was perilous to do so.»

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges