Diário do Booker 2009 (3)

Embora tenha acabado de ler ontem The Glass Room, de Simon Mawer (já na tradução portuguesa: A Sala de Vidro, a editar pela Civilização em Novembro), ainda não consegui sentar-me a escrever um texto com pés e cabeça sobre o que li. Talvez amanhã. Entretanto, posso dizer que o livro é bastante bom (certamente não tão extraordinário como sugerem algumas críticas publicadas no Reino Unido, mas ainda assim bastante bom). E porque o tempo aperta, já me lancei na leitura do vastíssimo Wolf Hall, de Hilary Mantel, apontado como o grande favorito à vitória. Durante o fim-de-semana prolongado, no intervalo das longas jornadas de leitura que ainda tenho pela frente, espero dedicar a este Diário o tempo e o espaço que merece e não tem tido.

O que se perde na tradução

«Poesia é o que se perde na tradução», escreveu Robert Frost. E perde-se sempre muito, mesmo nos casos em que o tradutor domina bem as duas línguas (a de partida e a de chegada), mesmo nos casos em que o tradutor é, ele próprio, um poeta. Impunha-se, por isso, instituir uma lei: todos os livros de poesia traduzidos devem ser bilingues. Isto para que o leitor possa em qualquer momento recorrer ao original e reencontrar a tal matéria perdida de que falava Frost.
Vem isto a propósito do livro de John Updike que a Civilização acaba de publicar, Ponto Último e outros poemas, bem traduzido por Ana Luísa Amaral (especialista em literatura norte-americana e autora de poesia), mas que tem a pecha de não ser bilingue e por isso não permitir o confronto com os textos originais. Embora o trabalho de Ana Luísa Amaral seja meritório, é evidente que há particularidades e subtilezas da escrita de Updike que desaparecem completamente na versão portuguesa. Era o acesso imediato a essas particularidades e subtilezas que não devia ser negado ao leitor.
Veja-se, por exemplo, como traduziu Amaral os dois primeiros versos do poema A Lightened Life:

Uma vida mais leve: as últimas provas do romance
expedidas – a revisão final, para trás, para a frente,

No original, os mesmos versos são assim:

A lightened life: last novel proofs FedExed—
the final go-through, back and forthing,

Para começar, parece-me que «last novel proofs» não são «as últimas provas do romance», mas sim as provas do último romance, do romance final, daquele a que não se seguirá nenhum outro (este poema, como quase todos os outros, é marcado pelo sentido do fim, da morte que se aproxima). E depois, como traduzir «FedExed»? Difícil. As provas foram expedidas, de facto, mas não apenas expedidas. Foram expedidas pela FedEx, uma empresa americana que os leitores americanos conhecem bem. «Expedidas» faz pensar em estação dos correios; «FedExed» faz pensar num funcionário a bater à porta de casa do Sr. Updike e a levar o pacote das provas numa carrinha branca com letras roxas e cor-de-laranja. Talvez não houvesse forma de passar decentemente aquele «FedExed» para português, mas se o livro fosse bilingue podíamos pelo menos intuir a urgência do verbo usado por Updike (a FedEx é uma empresa de entregas rápidas) e que o verbo português escolhido claramente não evoca.

‘Ler no Chiado’ sobre política (entre duas eleições)

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Amanhã, a partir das 18h30, na livraria Bertrand do Chiado, André Freire (politólogo), Luís Pedro Nunes (director do Inimigo Público) e Pedro S. Guerreiro (director do Jornal de Negócios) vão trocar umas ideias sobre política – o que por estes dias implica análise aos resultados de domingo, cenários governamentais e exegese da mensagem do Presidente da República. Anabela Mota Ribeiro modera. Talvez valha a pena passar por lá, ou pelo menos deixá-los sob escuta.

Nove esferas

Depois de ler Ponto Último e outros poemas, de John Updike (Civilização), há uma sequência de versos breves, quase haikus, que não me sai da cabeça. É esta:

NÍVEIS DE AR

I

mosquitos de Primavera junto
aos meus olhos, ao meu ouvido


II

num nível acima, um pisco descansa
num ramo baixo de faia,
e andorinhas inclinadas
juntam ninhos de lama


III

os corvos lá em cima, nos carvalhos,
deixam cair merda branca, crocitos negros


IV

gaivotas: vindas do mar,
as suas asas cinzentas remando
como almas de fantasmas pairando
no Purgatório


V

um falcão de asas largas pendurado
no vento lateral


VI

um Learjet (ruidoso) zumbe
como se, o trem baixado, regressasse
do seu voo local
depois de uma viagem (lucrativa?)


VII

mais lá no alto, um 737
vira para leste, saindo de Logan


VIII

mais perto ainda do céu,
um 747
ou uma supermosca semelhante
sai do JFK, dirigindo-se como seta
para uma capital europeia,
o seu rasto de jacto silencioso
rasgão branco de neve
com crista cruciforme


IX

já fora da visão, e sobre tudo:
as nossas naves orbitando
este planeta flutuante
e aprumados os anjos

Notável, a forma como progredimos, em ascenção lenta mas com súbitos saltos, repentinas mudanças de escala, desde a superfície terrestre ao horizonte cósmico (com anjos aprumados e tudo, à maneira das gravuras medievais). Em 32 versos, uma viagem imensa.
Gosto de pensar que há uma razão para que os mosquitos da estrofe inicial estejam simultaneamente junto aos olhos e ao ouvido. De certa forma, ele indica-nos os dois sentidos necessários para compreender o poema. Em primeiro lugar, a visão. É com ela que o poeta se apercebe dos próprios mosquitos, do pisco e das andorinhas, dos corvos, das gaivotas, do falcão, do Learjet, dos Boeing 737 e 747, das invisíveis naves em órbita e das ainda mais invisíveis revoadas de anjos. Mas, menos óbvio, o ouvido também desempenha um papel essencial. O de ouvir a melodia que atravessa os vários «níveis de ar», essa música do universo que os antigos diziam ser a música das esferas.

Dez elevado a cem

São ideias, ideias, ideias. Vale a pena votar nas melhores, até 8 de Outubro.

A melhor ficção do milénio (até agora)

O blogue The Millions resolveu pedir ajuda a mais de 50 críticos literários e escritores norte-americanos para escolher os 20 melhores livros de ficção da primeira década do século XXI, de entre os que foram publicados nos EUA (método explicado aqui). Mais tarde, o The Millions também consultou os seus leitores, através do Facebook, elaborando uma segunda lista. Eis os resultados:

Lista dos peritos:

1. The Corrections, de Jonathan Franzen
2. The Known World, de Edward P. Jones
3. Cloud Atlas, de David Mitchell
4. 2666, de Roberto Bolaño
5. Pastoralia, de George Saunders
6. The Road, de Cormac McCarthy
7. Austerlitz, de W.G. Sebald
8. Out Stealing Horses, de Per Petterson
9. Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage, de Alice Munro
10. Never Let Me Go, Kazuo Ishiguro
11. The Brief, Wondrous Life of Oscar Wao, de Junot Díaz
12. Twilight of the Superheroes, de Deborah Eisenberg
13. Mortals, de Norman Rush
14. Atonement, de Ian McEwan
15. Varieties of Disturbance, de Lydia Davis
16. Middlesex, de Jeffrey Eugenides
17. The Fortress of Solitude, de Jonathan Lethem
18. Stranger Things Happen, de Kelly Link
19. American Genius, A Comedy, de Lynne Tillman
20. Gilead, de Marilynne Robinson

Lista dos leitores:

1. The Brief, Wondrous Life of Oscar Wao, de Junot Díaz
2. 2666, de Roberto Bolaño
3. Middlesex, de Jeffrey Eugenides
4. Cloud Atlas, de David Mitchell
5. The Road, de Cormac McCarthy
6. Atonement, de Ian McEwan
7. The Amazing Adventures of Kavalier and Clay, de Michael Chabon
8. The Corrections, de Jonathan Franzen
9. Gilead, de Marilynne Robinson
10. White Teeth, de Zadie Smith
11. Kafka on the Shore, de Haruki Murakami
12. The Kite Runner, de Khaled Hosseini
13. Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro
14. Austerlitz, de W.G. Sebald
15. Empire Falls, de Richard Russo
16. Runaway, de Alice Munro
17. The Master, de Colm Tóibín
18. Half of a Yellow Sun, de Chimamanda Ngozi Adichie
19. Unaccustomed Earth, de Jhumpa Lahiri
20. Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke

Dez dos 20 livros escolhidos pelo painel de peritos já estão editados em Portugal: Correcções, de Jonathan Frazer (Dom Quixote); Atlas das Nuvens, de David Mitchell (Dom Quixote); 2666, de Roberto Bolaño (Quetzal); A Estrada, de Cormac McCarthy (Relógio d’Água); Austerlitz, de W. G. Sebald (Teorema); Cavalos Roubados, de Per Peterson (Casa das Letras); Nunca Me Deixes, de Kazuo Ishiguro (Gradiva); A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de Junot Díaz (Porto Editora); Expiação, de Ian McEwan (Gradiva); Middlesex, de Jeffrey Eugenides (Dom Quixote).
Na lista dos leitores, a proporção ainda é maior: 17 livros dos 20 foram traduzidos por editoras portuguesas. Além dos nove títulos que constam da outra lista, há ainda As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay, de Michael Chabon (Gradiva); Dentes Brancos, de Zadie Smith (Dom Quixote); Kafka à Beira-mar, de Haruki Murakami (Casa das Letras); O Menino de Cabul, de Khaled Hosseini (Relógio d’Água); Fugas, de Alice Munro (Relógio d’Água); O Mestre, de Colm Tóibin (Dom Quixote); Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie (ASA); Jonathan Strange & o Sr. Norrell, de Susanna Clarke (Casa das Letras).

Revista ‘Os Meus Livros’ chega à blogosfera

Conferir aqui.

Pequeno tratado de ornitologia lírica

O Livro das Aves
Autor: Tiago Patrício
Editora: Quasi
N.º de páginas: 51
ISBN: 978-989-552-404-4
Ano de publicação: 2009

Vencedor da edição deste ano do Prémio Daniel Faria, com O Livro das Aves, Tiago Patrício (n. 1979) revelou-se como poeta nas antologias literárias de 2007 e 2008 do concurso “Jovens Criadores”, organizado pelo Clube Português de Artes e Ideias, em trabalhos que já revelavam uma consistência invulgar num autor estreante.
A consistência, tanto estilística quanto temática, volta a ser o ponto forte do seu primeiro livro, que funciona como uma espécie de ciclo, declinação exaustiva de um mesmo tópico: o das aves (reais, metafóricas, míticas, fantásticas) e do seu voo, enquanto matéria volátil que engendra o próprio poema. Nalguns casos, Patrício deixa-se contaminar pela ilusão de leveza que a sua escrita depurada transmite aos versos e acaba por perder-se num labirinto de imagens fortes mas vazias, imagens que confundem profundidade com grandiloquência. Um exemplo:

O olhar obscuro e o ventre secreto
tem o princípio de uma serpente
atravessada no pensamento
e um véu cauterizado por uma oração
anterior à gravidade de Deus

Vocalizam certezas e feridas por sarar
na chamada para os comboios de Alcântara
Induzem uma influência mestiça nas casas
e formulam ligações directas aos lugares
por entre a emigração secreta do ser inicial
(…)

[excerto do poema As rolas turcas na estação de Alcântara Terra]

Quanto menos simbólica é a aproximação ornitológica, melhores são os poemas – como se pode comprovar lendo Os pardais da sinagoga de Tunis, Os pombos domésticos sobre as estátuas e Caçadores. Ou, ainda, o belíssimo Os pintassilgos de Mirandela, com as suas «gaiolas brancas / espalhadas pelo Verão», perto de um rio «com pomares e o cheiro de figos fáceis», a memória dos pássaros confundindo-se com a memória da infância perdida:

OS PINTASSILGOS DE MIRANDELA

Nasci numa casa com gaiolas brancas
espalhadas pelo Verão
Era o meu pai vivo e o meu avô estival
entrava pela hora mais terna
enquanto encarregado das gaiolas
e a minha infância inteira decrescia
no canto da casa dos pássaros

O alpendre era de uma inclinação natural
com avô e pássaros encostados à sombra dos álamos
e as gaiolas casas que os abrigavam
do frio, da fome e dos gatos bravos
A minha alegria era quente como a terra
e contava ensinar ao meu filho bisneto
a atracção pelos grilos, caracóis
e pintassilgos na doçura das borboletas

Em Mirandela havia um vale junto a um rio
com pomares e o cheiro de figos fáceis
Os pintassilgos divididos na abundância
eram como crianças atrás de amoras
que inspiram as flores de uma música sucessiva

O Pintassilgo é a mais bela ave silvestre
e se não pudesse manter as gaiolas em casa
era como se não houvesse onde permanecer
Eles amotinam-se nas minhas barbas
desalojam corvos e os dragões dos poemas
fazem a tarde parecer tão antiga e adormecer
como a infanta primavera em que o meu avô
era o estio e os bisnetos existiam mesmo
e os nossos olhos acariciavam os pássaros,
que é tão tarde agora para dizer aqueles que morriam
exaustos a contar os meses atrás das grades

Avaliação: 5,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Desconfiança

«Desconfio sempre dos entusiasmos bovinos em redor de certos autores. Como o recente e orgástico alarde à volta do escritor Roberto Bolaño. Está na boca de toda a gente. Fizeram-lhe até uma festa de lançamento com direito a leitura de excertos pela Soraia Chaves e shots de margueritas. Um horror. A literatura já não é o que era. A literatura, mesmo a que se quer decente, a tal do cânone, está na moda. E tudo o que está na moda perde o encanto. Torna-se ordinário. Quero os livros que leio para mim. É uma coisa um bocado parva e elitista mas que assumo. Não faço questão de os partilhar, aos meus livros, com ninguém. Muitos menos de os escalpelizar, analisar, comentar, comparar enquanto bebo martinis e estilhaço, com uma boca ultra shiny, um croquete de porco preto.»

A opinião de Ana Cássia Rebelo, também conhecida como Ana de Amsterdam.

A máscara

Em 2009, provavelmente devido à crise económica, muitas editoras têm apostado na recapagem; isto é, na reintrodução de livros antigos (que estavam a ocupar espaço nos armazéns) com capas novas e mais chamativas. Às vezes o pretexto é a estreia de um filme que adapta a história do livro, outras vezes não há pretexto nenhum. A não ser a oportunidade de rentabilizar, a baixíssimo custo, obras paradas, criando nalguns casos a ilusão de que se está a lançar novidades.
Exemplo curioso desta prática é o que a Dom Quixote acaba de fazer com um romance de 2007: Epidemia, de Reina James, uma narrativa que descreve a mortandade provocada pela gripe espanhola em 1918. Há dois anos, a capa foi esta:

epidemia1

É uma capa infeliz. Mortiça, com lettering mal escolhido e quase ilegível, só se salvando a frase que resume a tragédia: «Se todos os que morreram de gripe espanhola segurassem uma vela, a terra inteira, vista do ar, seria uma bola de fogo.»
Dois anos e meio mais tarde, com a Gripe A a pairar sobre todos nós como uma ameaça terrível, a Dom Quixote volta a enviar o romance para as livrarias, com esta sobrecapa:

epidemia2

Muito mais eficaz, não concordam? A fotografia continua a ser de 1918, mas o seu impacto é reforçado por imagens semelhantes que vimos há pouco tempo na capa das newsmagazines. A frase também mudou: «Um retrato do quotidiano durante uma pandemia, uma gripe para a qual a ciência não tinha respostas.» Em vez da referência explícita à gripe espanhola, temos a «gripe para a qual a ciência não tinha respostas», fazendo a ponte com os medos que a Gripe A suscita.
Falta só a cereja em cima do bolo. Na nova versão, Epidemia vem dentro de uma embalagem de plástico, juntamente com uma «máscara anti-epidémica» de oferta:

epidemia3

Trajectória de uma leitura

2666, lido passo a passo por Paulo Alves.

Junto à escola

Uma miúda de uns nove anos, para uma miúda de uns oito anos: «A X é mesmo infantil, devias ouvir as coisas que ela diz, parece que tem sete anos.»

Aulas sobre o Novo Acordo Ortográfico no Museu do Oriente

O Museu do Oriente vai organizar um curso de formação centrado na nova ortografia da língua portuguesa, tendo como formadores Pedro Dinis Correia e o Prof. João Malaca Casteleiro, coordenador da equipa responsável pelo Dicionário da Academia das Ciências. O curso será composto por duas sessões e decorrerá nos dias 10 e 17 de Outubro, entre as 10h00 e as 13h00; repetindo-se nos dias 7 e 14 de Novembro, no mesmo horário. «Durante seis horas lectivas, os formandos têm a oportunidade de desenvolver competências linguísticas, de modo a exercitar a prática da nova ortografia, e explorar a nova grafia das palavras conforme o Acordo Ortográfico, através de exercícios diversificados e análise de documentos e textos», prometem os organizadores. Número mínimo de participantes: 20. Preço: 40 euros. E-mail: info@museudooriente.pt.

Os romancistas do Equador (não confundir com o romancista do ‘Equador’)

A verdade é esta: nunca li romancistas equatorianos (como nunca li romancistas do Botswana, do Laos ou da Papua Nova Guiné), mas se calhar já devia ter lido romancistas equatorianos. Este artigo de Leonardo Valencia, na última edição do suplemento Babelia (El País), explica muito bem porquê.

Até 4 de Outubro

Feira do Livro Infantil, na Fundação de Serralves.

A bolha

«Provavelmente há já quem organize visitas de estudo aos bastidores das bibliotecas. Porque há salas memoráveis, daquelas que podem espantar tanto um leitor como certas páginas dos livros: salas com estantes apinhadas, altas como arranha-céus, salas com arquivos deslizantes que mostram camadas sucessivas de prateleiras, salas com livros tão despedaçados que tememos tocar-lhes (diz-se, nas bibliotecas, que os romances com mais tiras de fita-cola são os melhores).
Os bastidores da biblioteca de Serpa ainda são novos, arrumadíssimos, com uma limpeza de hospital, mas nem por isso menos dignos de uma visita. Sobretudo desde que lá existe uma certa bolha…»

Para ver esta bolha e descobrir para que serve, é favor continuar a ler o post da Isabel Minhós Martins, no blogue da Planeta Tangerina.

Nelson de Matos publica novo romance de João Ubaldo Ribeiro

CAPA - OAlbatroz Azul

Depois de ter reeditado Viva o Povo Brasileiro, A Casa dos Budas Ditosos e Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Nelson de Matos vai publicar, em simultâneo com a edição original, o novo romance do Prémio Camões 2008. Título: O Albatroz Azul (248 páginas, 16 euros). Para Nelson de Matos, esta é «uma obra de génio» e «a verdadeira surpresa deste final de ano».
Chega às livrarias a 10 de Outubro.

Dia de eleição

Ontem, domingo, o BdB teve 1415 visitas únicas (2610 pageviews), culminando a melhor semana de sempre, com uma média diária de 1219 visitas únicas (2180 pageviews). Após uma noite eleitoral em que todos ganharam (a oposição, deputados; o governo, as eleições), esta manhã também o BdB tem motivos para celebrar.

Diário do Booker 2009 (2)

«Rainer von Abt no local de construção: é o final de um dia de Abril com uma chuva fina e irritante a cair. A lama é ainda a característica principal do lugar, lama a colar-se às pernas e a tentar arrastar as pessoas para o buraco. Von Abt, de sapatos de couro grosso enlameados, encontra-se sobre uma passagem de pranchas. Vestido como está, de fato cinzento-escuro, sobretudo preto e chapéu mole de feltro, seria facilmente confundido com o proprietário. A seu lado, de botas de borracha, está o capataz da obra, enlameado, desgrenhado e incomodado. De momento não existe forma concreta na construção para que estão a olhar. Não é mais do que um esboço de traços vigorosos, registado na mente de Von Abt, transferido para folhas de papel, depois revisto, reconsiderado, discutido ao mínimo detalhe, e agora prolongado nas horizontais e verticais vigorosas de aço avermelhado, um labirinto em três dimensões erguido no meio da atmosfera enevoada. No passado, as casas cresceram naturalmente, como plantas, do solo para cima. Mas esta casa é diferente: ela cresce da estrutura para fora, como uma ideia a transformar-se numa obra de arte a partir do âmago central de inspiração para o facto material da realização. As betoneiras agitam-se e vomitam. Os homens andam para a frente e para trás com cochos de pedreiro sobre os ombros. Escadas erguem-se como diagonais pronunciadas face ao esqueleto rectilíneo da estrutura.
O capataz da obra desdobra uma cópia heliográfica e faz um gesto para cima em direcção ao andar do topo onde um trabalhador se equilibra ao longo de uma viga como uma criança pelo rebordo de um passeio.
– O senhor pretende que paredes bem resistentes dêem à obra alguma estabilidade – afirma ele.
– Eu não pretendo nada disso – responde Von Abt com notável bom humor. – A estabilidade é a última coisa que eu quero. Esta casa deve pairar em luz. Deve cintilar e brilhar. Não deve ser estável!
O homem funga.
– Parece mais uma máquina do que uma casa.
– É o que ela é, uma máquina para se viver lá dentro.
O capataz abana a cabeça perante a ideia de uma tal máquina. Ele quer quatro paredes à sua volta, feitas de pedra. Nada deste disparate de estrutura de vigas de aço. Se aquilo serve para alguma coisa é para edifícios de escritórios – estão a construir um edifício semelhante em Jánská, neste mesmo momento, mas vai ser um grande armazém, graças a Deus, não uma casa particular.
– Le Corbusier – diz Von Abt.
– O quê?
– O que eu disse não é original. Não posso colher os louros. Le Corbusier chegou lá primeiro. La machine à habiter.
– O que é isso?
– É francês.
– Quem precisa do francês? Já é suficientemente mau ter de lidar com o alemão e o checo.»

[in A Sala de Vidro, de Simon Mawer, trad. de Helena Lopes, Civilização, Outubro de 2009]

O homem dos livros

Na esfera portuguesa do Twitter, toda a gente está a comentar em tempo real os resultados das legislativas. Toda a gente, não. O José Afonso Furtado continua a reenviar-nos para artigos sobre livros e acordos do Google, notícias sobre e-books e hyperlivres – a torrente informativa do costume sobre o mundo editorial.

À saída das urnas

Uma vitória socrática, infelizmente com escassa maiêutica. Uma derrota laranja, felizmente sem mabalarismos que a salvem. Cresce o Bloco, cresce o CDS-PP, esboroa-se o centrão. Parecer-me-ia perfeito, se o principal crescimento não fosse o do CDS-PP.

O leitor entomólogo

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Primeira página do exemplar de A Metamorfose que Vladimir Nabokov usava nas suas aulas sobre Franz Kafka, com um desenho pormenorizado de Gregor Samsa em versão insecto.

A livraria preferida do poeta Luís Quintais

É a Buchholz. A antiga Buchholz, a livraria de três pisos que fechou as portas este ano. Lembra Quintais, nostálgico: «Tinha vidros extensos, montras temáticas, sofás, cantos (onde se podia ler poesia pela tarde fora), amizades revisitadas, lugar de encontro. E era perto da Cinemateca.»

Feira do Livro Manuseado

Durante um mês, a Assírio & Alvim vai disponibilizar «óptimos livros, maculados apenas por uma ou outra pequena mancha ou ligeira imperfeição e por isso, por isso apenas, vendidos a preços tão baixos que nem a crise será uma desculpa para não os ler». Haverá também livros esgotados e fora do mercado, cartazes da editora, postais e «outras surpresas». Na livraria da Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67-B, Lisboa), de segunda-feira a sábado, das 10h00 às 19h00, até 31 de Outubro.

Leitura do dia

boletim

Coisa para um minuto. Ou melhor, para quatro anos.

Última menção àquele livro de mil e tal páginas

E pronto. Já chega. Acabou-se o 2666 por aqui. Não quero que os leitores comecem a odiar o que é suposto amarem. O ciclo fecha-se. Quem quiser saber mais coisas de 2666, que o leia. Ele já está por aí, numa livraria, à espera.
Acabei de dizer que um ciclo se fecha (o da expectativa gerada em quem não leu, por quem leu), mas na verdade há um outro que começa (a fase do desprezo altivo em relação ao livro e a quem o leu, por parte de quem não leu). É um fenómeno típico e dos mais previsíveis: se há um movimento de entusiasmo próximo do unanimismo, então seguir-se-á um contra-movimento cujo único objectivo é furar esse suposto unanimismo; ou seja, demonstrar orgulho por ficar de fora e fazer disso um statement. Não por acaso, é justamente no dia em que 2666 chega às livrarias que este contra-movimento começa a pôr a cabeça de fora. Começou com este texto irónico, mas decente, do Eurico de Barros. Prosseguiu com este disparate ressabiado do João Gonçalves. E há-de continuar nos próximos dias, em vários registos e matizes. Sei-o bem. Tão bem como sei isto: por muito que o elogiem ou desvalorizem, 2666 continuará a ser um livro extraordinário, um livro genial, um livro capaz de sobreviver a tudo.
Ainda assim, depois do célebre «Tanto Pessoa já enjoa» de 1988, ficaria triste se uma das frases de 2009 fosse «Já desdenho de tanto Bolaño». Nem o livro nem o escritor merecem tal sorte.

Sinopse de 2666

«– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo…»

[in Os Passos em Volta, de Herberto Helder, sexta edição, Assírio & Alvim, 1994]

Ontem à noite

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Francisco José Viegas deu as boas-vindas e fez os agradecimentos a todas as pessoas envolvidas na operação 2666

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António-Pedro Vasconcelos leu uma das histórias da «Parte dos Críticos»

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Carla Bolito leu três fragmentos da «Parte de Amalfitano»

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José Eduardo Agualusa leu um fragmento sobre a célula comunista de Brooklyn, extraído da «Parte de Fate»

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Eu falei, em traços gerais, da escrita de Bolaño e daqueles que me parecem ser os três temas centrais de 2666: a Literatura, a violência (ou o Mal) e a loucura

l26669
Soraia Chaves leu, da «Parte dos Crimes», uma passagem que descreve, de forma particularmente gráfica, um dos homicídios cometidos em Santa Teresa

l266610
Carlos Vaz Marques escolheu um excerto da «Parte de Archimboldi», prova provada de que Bolaño foi um dos romancistas que mais desassombradamente escreveu sobre sexo

[Fotografias de Manuel Deniz Silva; excepto a última, que é de João Pereira]

Os alçapões de uma realidade inapreensível

«As cinco partes do livro e as personagens principais confluem no deserto de Sonora, na fronteira com os EUA, atraídas por um íman de morte e de loucura. Chegadas a Santa Teresa mergulham num mar de irrealidade, uma névoa onírica que nunca se dissipa ao longo do romance. Seja no cenário desolador de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, seja no deserto de Sonora, cujo tempo é assinalado pelo “gotejar incessante” de cadáveres, as personagens movimentam-se como fantasmas perdidos num limbo de sonhos e de aparências, que evocam o conto de Borges “As Ruínas Circulares”, cujo protagonista compreende “que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo”. Há a criança que quer viver no fundo do mar, os presos que parecem seres de outro planeta, os soldados que caminham como zombis, os loucos internados em manicómios e as crianças bêbedas que jogam à bola: presenças voláteis que flutuam num meio ambiente hostil, como peixes no deserto.
“2666″ é um território do medo, da loucura e da incerteza. “No México uma pessoa pode estar mais ou menos morta”, mas os mortos aparecem e os suspeitos evaporam-se. A vida é sonho e só a morte é real. Os investigadores são incapazes de resolver o mistério dos crimes, de desfazer o novelo da realidade. Também eles caminham em círculos, como os académicos que, na primeira parte do livro, procuram sem sucesso o escritor alemão Benno von Archimboldi, a personagem central do romance. Frustrados por não chegarem a conhecer o homem a cuja obra dedicaram as suas vidas, entregam-se à indolência mexicana e passam os dias como sonâmbulos ou detectives drogados. A identidade do autor dos crimes e do perpetrador dos livros permanece oculta sob os alçapões de uma realidade inapreensível.»

[Excerto do texto crítico sobre 2666, publicado hoje, no jornal i, por Bruno Vieira Amaral.]

Exemplares “especiais” de 2666

A partir da meia-noite, quem for ao lançamento de 2666 (Ler Devagar/Lx Factory, Alcântara) poderá comprar os primeiros exemplares da obra-prima de Roberto Bolaño, entre os quais cerca de 150 com características únicas: uma sobrecapa muito elegante e sóbria (à francesa, como eu gosto) e cadernos em papel de cor diferente. O aspecto é este:

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Preço: 35 euros.

Lalo Cura, La Locura

«Por aqueles dias Pedro Negrete viajou até Villaviciosa para arranjar um homem de confiança para o seu compadre Pedro Rengifo. Viu vários jovens. Estudou-os, fez-lhes algumas perguntas. Perguntou-lhes se sabiam disparar. Perguntou-lhes se poderia depositar a sua confiança neles. Perguntou-lhes se queriam ganhar dinheiro. Há muito tempo que não ia a Villaviciosa e a povoação pareceu-lhe igual à última vez. Casas baixas, de adobe, com pequenos quintais à frente. Só dois bares e uma mercearia. Para leste as ramificações de uma serra que parecia afastar-se e aproximar-se, conforme a deslocação do Sol e das sombras. Quando já tinha escolhido um jovem, mandou chamar Epifanio e perguntou-lhe à parte o que é que lhe parecia. Qual deles é, chefe? O mais novinho, disse Negrete. Epifanio olhou para ele de passagem e depois olhou para os outros, e antes de voltar para o carro disse que não estava mal, mas quem sabe.
(…) Negrete chamou o rapaz e disse-lhe que o tinha escolhido a ele. O rapaz olhou para Negrete e depois para o chão, como se estivesse a pensar no que lhe ia responder, mas de repente mudou de ideia, nada disse e partiu.
Quando Negrete saiu do bar encontrou o rapaz e Epifanio a conversarem apoiados no guarda-lamas do carro.
O rapaz sentou-se ao seu lado, na parte de trás. Epifanio sentou-se ao volante. Quando deixaram as ruas de terra batida de Villaviciosa e o carro rodava pelo deserto, o chefe da polícia perguntou-lhe como se chamava ele. Olegario Cura Expósito, respondeu o rapaz. Olegario Cura Expósito, repetiu Negrete, olhando para as estrelas, curioso nome. Durante algum tempo ficaram em silêncio. Epifanio tentou sintonizar uma emissora de Santa Teresa mas não conseguiu e desligou o rádio. Através da janela o chefe da polícia avistou, a muitos quilómetros de distância, o brilho de um raio. Naquele momento o carro deu um solavanco e Epifanio travou e saiu para ver o que é que ele tinha atropelado. O chefe da polícia viu-o desaparecer na estrada e depois viu a luz da lanterna de Epifanio. Abriu a janela e perguntou-lhe o que é que se passava. Ouviram um tiro. O chefe abriu a porta e baixou-se. Deu uns quantos passos para desentorpecer as pernas, até que a figura de Epifanio apareceu sem pressas. Matei um lobo, disse ele. Vamos vê-lo, disse o chefe da polícia, e os dois voltaram a penetrar na escuridão. Na estrada não havia sinal de faróis de qualquer carro. O ar era seco embora às vezes viessem rajadas de vento salgado, como se antes de se estender no deserto esse ar tivesse limpado a superfície de uma salina. O rapaz olhou para o tabliê iluminado do carro e levou as mãos à cara. A alguns metros dali o chefe da polícia ordenou a Epifanio que lhe passasse a lanterna e focou o corpo do animal estendido na estrada. Não é um lobo, pá, disse o chefe da polícia. Ah, não? Olha para o pêlo dele, o do lobo é mais luzidio, mais brilhante, além de que não são tão parvos que se deixem atropelar por um carro no meio de uma estrada deserta. Vamos lá ver, vamos medi-lo, segura na lanterna. Epifanio focou a luz no animal enquanto o chefe da polícia o esticava e procedia à medição a olho. O coiote, disse, mede de setenta a noventa centímetros, contando com a cabeça, quantos dirás tu que este mede? Uns oitenta?, disse Epifanio. Correcto, disse o chefe da polícia. E acrescentou: o coiote pesa entre os dez e os dezasseis quilos. Passa-me a lanterna e levanta-o, não te vai morder. Epifanio pegou no animal morto ao colo. Quanto achas tu que pesa? Pois entre doze e quinze quilos, respondeu Epifanio, como um coiote. É mesmo um coiote, meu parvo, disse o chefe da polícia.
(…) Quando, em El Altillo, apareceram as primeiras luzes de Santa Teresa, o chefe da polícia quebrou o silêncio em que tinham mergulhado os três. Olegario Cura Expósito, chamou. Sim, senhor, respondeu o rapaz. E os teus amigos como te chamam? Lalo, disse o rapaz. Lalo? Sim, senhor. Ouviste, Epifanio? Ouvi, disse Epifanio, que não conseguia deixar de pensar no coiote. Lalo Cura?, perguntou o chefe da polícia. Sim, senhor, confirmou o rapaz. É uma brincadeira, não é? Não, senhor, é assim que me chamam os meus amigos, disse o rapaz. Ouviste Epifanio?, perguntou o chefe da polícia. Claro que sim, ouvi, disse Epifanio. Chama-se Lalo Cura, disse o chefe da polícia, e desatou a rir. Lalo Cura, La Locura, topas? Sim, sim, é claro, disse Epifanio, e também desatou a rir. Pouco depois os três puseram-se rir.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Diário do Booker 2009 (1)

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Aos poucos, lá foram chegando os seis finalistas do Man Booker Prize deste ano (só falta The Children’s Book, de A.S. Byatt). Com algum atraso, começo agora a aventura, atacando um dos outsiders: Simon Mawer, cujo romance The Glass Room vou ler já na tradução portuguesa (a publicar em Novembro, mas que a Civilização me cedeu em pdf).

Mário Sena Lopes deixa Guerra & Paz

No final deste mês, o Director Editorial da Guerra & Paz, Mário Sena Lopes, cessa funções na empresa. Nas suas palavras:

«Foram dois anos de trabalho entusiasmante, com uma equipa dedicada e uma Administração empenhada, em que se transformaram processos de trabalho, se desenvolveram colecções e linhas gráficas, e se juntaram novos autores aos autores da casa. Como em toda a actividade editorial, partilhámos êxitos e fracassos, mas vimos muitos livros receberem os favores da crítica e do público – o último e grande avaliador – e aumentarem significativamente os títulos da editora reeditados.
(…) 2009 continuou a ser um ano de crise económica, com reflexos na capacidade de consumo dos portugueses, atingindo severamente a classe média – sustentáculo da compra de livros – e impactando negativamente o consumo livreiro. Naturalmente, esse impacto foi recebido de forma diferente conforme a maior ou menor estrutura dos grupos editoriais e editoras, mas para uma jovem e pequena editora independente, como a que é a Guerra & Paz Editores, não só esse impacto foi mais forte como lidar com a presente crise implica medidas de reequilíbrio e ajuste drásticos para assegurar a continuidade de um projecto editorial apresentando já uma marca distintiva no mercado português do livro, consubstanciada na publicação de livros com ideias e para debater ideias, dos quais não estão ausentes o sal da polémica ou o humor irreverente.
Ao apresentar a minha demissão como Director Editorial da Guerra & Paz Editores, faço-o com o objectivo de facilitar as ulteriores medidas de adaptação e ajuste à situação decorrente da crise do mercado, medidas com as quais estou em completa sintonia (…).
A todos, no momento da minha saída, recomendo que continuem a confiar na Guerra & Paz Editores e na sua Administração, na pessoa do Manuel Fonseca e do José Santos, cuja continuidade como fundadores e administradores é o garante seguro da manutenção do perfil editorial, da competência editorial e administrativa, da seriedade de processos que sempre caracterizou e continuará a caracterizar a editora.»

Quando se lê 2666, o tempo fica assim

Jazz

«Conduziu durante duas horas por estradas escuras com a rádio ligada, a ouvir uma emissora de Phoenix que transmitia jazz. Passou por lugares onde havia casas, restaurantes e jardins com flores brancas e carros mal estacionados, mas nos quais não se via luz nenhuma, como se os habitantes tivessem morrido nessa mesma noite e no ar ainda restasse um hálito de sangue. Distinguiu silhuetas de cerros recortadas pelo luar e silhuetas de nuvens baixas que não se moviam ou que, em determinado momento, corriam para oeste como que impelidas por um vento repentino, que levantava poeirada a que os faróis do carro, ou as sombras que os faróis produziam, emprestavam roupagens fabulosas, humanas, como se as poeiradas fossem mendigos ou fantasmas que saltavam junto ao caminho.
Perdeu-se duas vezes. Numa, esteve tentado a voltar para trás, para o restaurante ou para Tucson. Na outra, chegou a uma terra chamada Patagonia onde o rapaz que atendia na bomba de gasolina lhe indicou a maneira mais fácil de chegar a Santa Teresa. Quando saiu de Patagonia viu um cavalo. Quando os faróis do carro o iluminaram o cavalo levantou a cabeça e olhou para ele. Fate parou o carro e esperou. O cavalo era preto e ao fim de pouco tempo mexeu-se e perdeu-se na escuridão. Passou junto a uma meseta, ou pelo menos assim julgou. A meseta era enorme, totalmente plana na parte superior e de uma ponta à outra da base devia medir pelo menos cinco quilómetros. Junto à estrada apareceu um barranco. Saiu, deixou as luzes do carro acesas e urinou longamente respirando o ar fresco da noite. Depois o caminho desceu até uma espécie de vale que lhe pareceu, à primeira vista, gigantesco. Na ponta mais afastada do vale julgou discernir uma luminosidade. Mas podia ser qualquer coisa. Uma caravana de camiões a mover-se com grande lentidão, as primeiras luzes de uma localidade. Ou talvez só o seu desejo de sair daquela escuridão que de alguma maneira lhe fazia lembrar a sua infância e a sua adolescência. Pensou que houve uma altura, entre uma e outra, que chegou a sonhar com aquela paisagem, não tão escura, não tão desértica, mas certamente semelhante.
Ia num autocarro, com a mãe e uma irmã da mãe e faziam uma viagem curta, entre Nova Iorque e uma localidade próxima de Nova Iorque. Ia junto à janela e a paisagem invariavelmente era a mesma, edifícios e auto-estradas, até que de repente apareceu o campo. Nesse momento, ou talvez antes, tinha começado a entardecer e ele olhava para as árvores, um bosque pequeno, mas que aos seus olhos aumentava. E então julgou ver um homem a caminhar à beira do pequeno bosque. Com grandes passadas, como se não quisesse que a noite lhe caísse em cima. Perguntou a si mesmo quem seria aquele homem. Só soube que era um homem e não uma sombra, porque ele tinha uma camisa e mexia os braços ao caminhar. A solidão do homem era tão grande que Fate se lembrava que desejou não continuar a olhar e abraçar a sua mãe, mas em vez disso manteve os olhos abertos até o autocarro deixar o bosque para trás e aparecerem de novo os edifícios, as fábricas, os armazéns que balizavam a estrada.
A solidão do vale que atravessava agora, a sua escuridão, eram maiores. Imaginou-se a si mesmo a caminhar a bom passo pela berma. Sentiu um calafrio. Recordou então o jarrão onde jaziam as cinzas da mãe e a chávena de café da vizinha que não devolvera e que agora estaria infinitamente fria e os vídeos da mãe que já ninguém iria ver nunca mais. Pensou em parar o carro e esperar que amanhecesse. O instinto indicou-lhe que um local com um preto a dormir num carro alugado junto a uma berma não era o mais prudente no Arizona. Mudou de emissora. Uma voz em espanhol começou a contar a história de uma cantora de Gómez Palacio que havia voltado à sua cidade, no estado de Durango, só para se suicidar. Depois ouviu-se a voz de uma mulher que cantava rancheras. Durante um bocado, enquanto conduzia para o vale, esteve a ouvi-la. Depois tentou voltar a sintonizar a emissora de jazz de Phoenix e já não conseguiu encontrá-la.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

O homem que escreveu 2666

Quando morreu em Julho de 2003, aos 50 anos, vítima de insuficiência hepática, Roberto Bolaño ainda era um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana. Conhecido apenas por um círculo de happy few, que viam nele um herdeiro legítimo de Borges e Cortázar, lidava bem com o seu relativo anonimato. Para ele, fama e literatura eram «inimigas irreconciliáveis», como escreveu em 2666 (a sua obra-prima, em que trabalhou durante os últimos cinco anos de vida), ignorando que seria precisamente esse monumental romance, um tour de force narrativo com mais de mil páginas, a escancarar-lhe as portas de uma glória póstuma que nunca desejou.
Bolaño já recebera, em vida, alguns elogios importantes (Susan Sontag viu nele «o escritor mais influente e admirado da sua geração no mundo de língua castelhana»), mas foi o surgimento de 2666 nos EUA, no final do ano passado, com uma recepção crítica apoteótica (uma «Bolañomania», como lhe chamou o El País), que o trouxe para a primeira fila do cânone da literatura contemporânea, mesmo ao lado de Philip Roth ou W. G. Sebald. Houve até quem afirmasse que o abalo provocado por Bolaño nas fundações da literatura latino-americana se assemelha, em intensidade, ao que Gabriel García Márquez provocou, há quatro décadas, com Cem Anos de Solidão. Em intensidade, sim, assemelham-se. Mas a natureza dos sismos é muito diferente. Como bem notou Enrique Vila-Matas, a escrita de Bolaño distingue-se por ter sabido romper «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam».
Em vez do realismo mágico, transformado em fórmula exótica e de efeito fácil, o escritor chileno optou por um «realismo visceral», atento ao lado mais negro da realidade, ao apocalipse económico e social do continente, com as suas injustiças e um horror que por vezes ultrapassa a imaginação mais sórdida. Em 2666, por exemplo, Bolaño inspira-se nas centenas de homicídios de mulheres que ocorreram em Ciudad Juárez (cidade mexicana que serve de molde à ficcional Santa Teresa) e faz do minucioso inventário dos crimes – com os corpos atirados para lixeiras ou para baldios atrás das maquiladoras, fábricas que recebem e montam componentes para exportação, pagando salários de miséria a trabalhadores que nem sequer se podem sindicalizar – um dos mais terríveis retratos da lógica devoradora da globalização.
Não há nesta denúncia, porém, a mínima demagogia. À sua maneira, os livros de Bolaño são políticos, porque mostram o estado caótico do mundo e os seus abismos. Nunca são é panfletários. Bolaño não esconde a sua filiação esquerdista, nem a sua simpatia pelos utópicos derrotados pela História, mas recusa-se a encaixar a complexidade do mundo no espartilho da retórica ideológica. O seu único compromisso, radical e excessivo, foi com a literatura. E o modo de vida que escolheu, errático, feito de vagabundagens, de experimentações e de uma espécie de humildade fora do tempo, só faz sentido à luz desse compromisso.


Roberto Bolaño fotografado por Daniel Mordzinski

Nascido em Santiago do Chile, a 28 de Abril de 1953, filho de um camionista (que também praticava boxe) e de uma professora, Bolaño passou a infância enterrado em livros, em parte porque era fininho, disléxico e não se dava bem com as outras crianças. Aos 15 anos, mudou-se com a família para a Cidade do México, onde viveu uma adolescência turbulenta, com muito activismo político e a fundação de um movimento poético, o «infrarrealismo», que evocará mais tarde no romance Os Detectives Selvagens. Em 1973 regressa ao Chile, entusiasmado com o ímpeto revolucionário de Salvador Allende. Quando se dá o golpe de Pinochet, Bolaño é preso por suspeita de «terrorismo», passa uma semana na prisão e só não conhece pior sorte porque dois guardas prisionais, seus antigos colegas de escola, o conseguem tirar de lá. Após nova passagem pelo México, onde cimentou a sua reputação de boémio desbocado e provocador nato, emigra para a Europa em 1977, acabando por se fixar em Espanha, onde ganhava a vida com trabalhos de ocasião. Entre outras coisas, andou nas vindimas, foi vigilante nocturno num parque de campismo e recepcionista, lavou pratos, recolheu lixo. Ofícios que lhe serviram, mais tarde, como preciosa fonte de material para as suas ficções.
Em meados dos anos 80, instalou-se em Blanes, na Costa Brava (Catalunha), onde continuou a ter empregos precários e mal pagos, mas que lhe permitiam escrever à noite. O ponto de viragem neste quotidiano hippie, pobre mas absolutamente livre, dá-se com o nascimento do primeiro filho, em 1990. Consciente das suas obrigações familiares, põe a poesia (até aí o seu principal meio de expressão literária) em segundo plano e dedica-se à ficção como forma de ganhar dinheiro, nomeadamente através do envio de trabalhos para concursos literários regionais.
Embora tenha publicado, em 1984, um pequeno romance (escrito a meias com Antoní Garcia Porta), a verdadeira estreia editorial de Bolaño dá-se apenas em 1993, aos 40 anos, com A Pista de Gelo. Na última década de vida, talvez assombrado pelo declinante estado de saúde, compensa o tempo perdido ao publicar a um ritmo febril. Até 2003, quando o fígado soçobrou antes de o seu nome chegar ao topo da lista de transplantes, surgiram 11 títulos, entre os quais Estrela Distante (de 1996, recentemente reeditado pela Teorema), Os Detectives Selvagens (1998, Teorema), Amuleto (1999), Nocturno Chileno (2000, Gótica) e Putas Asesinas (2001). Esta produção acelerada deveu-se em parte à vontade de deixar uma fonte de sustento para a família (mulher e dois filhos). Também por isso, ao organizar os materiais de 2666, sugeriu ao editor, Jorge Herralde, a publicação de cada uma das suas cinco partes como um livro autónomo. Contudo, quando Ignacio Echevarría, amigo e conselheiro literário, analisou e reviu os textos de Bolaño, após a sua morte, defendeu que «o valor literário da obra» só ficaria defendido com a publicação num único volume. Os herdeiros, mais sensatos e preocupados com a literatura do que os herdeiros de escritores costumam ser, concordaram. E o certo é que os direitos de autor, que entretanto começaram a chegar de todo o mundo, os livraram de vez da perspectiva de apertos económicos que tanto angustiava Bolaño.

Mais impressionante ainda do que a extensão da obra publicada pelo escritor chileno na última década de vida, é a extensão da obra que ficou por publicar. Além dos livros póstumos que já foram dados à estampa (2666; El secreto del mal; La Universidad desconocida; Entre paréntesis e Bolaño por el mismo), há muitos outros em lista de espera, desenterrados de uma espécie de arca pessoana, onde se acumulam dezenas de cadernos com ficções inéditas e diários. Há uns meses, o La Vanguardia noticiou a descoberta, no vasto arquivo que só agora começa a ser devidamente estudado, de dois romances: Diorama e Los sinsabores del verdadero policia o Asesinos de Sonora. Entretanto, o primeiro destes frutos escondidos vai ser publicado no próximo mês de Fevereiro. Trata-se de O Terceiro Reich, que sairá simultaneamente em Espanha, pela Anagrama, e no nosso país, pela Quetzal, editora que antes disso fará chegar às livrarias, no fim da próxima semana [amanhã], a tradução portuguesa de 2666.
Francisco José Viegas, responsável pela Quetzal, tem esperança de que a Bolañomania se estenda até cá e se prolongue com outras obras que tenciona publicar em breve: A Literatura Nazi na América e A Pista de Gelo. «O sonho de qualquer editor é poder juntar as duas coisas: grande literatura, como é Bolaño, e sucesso comercial.» Determinante mesmo foi a paixão pelos livros. 2666, por exemplo, despertou-lhe um «fascínio imediato»: «Quando se começa a ler, damo-nos conta de que é qualquer coisa de novo que está ali, uma espécie de “livro sobre todos os livros”, muito à maneira de Borges, mas rompendo com aquele tom do “mágico latino-americano”. De alguma maneira, se Macondo é o lugar fundador de uma parte dessa literatura, Santa Teresa [a cidade do romance de Bolaño] é o fim de toda a inocência, é a cidade onde o fantástico passa a ser épico.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dia B

O Dia Bolaño é só amanhã (26/9), mas os primeiros exemplares de 2666 começam a ser vendidos logo à noite, a partir das 23h00, na livraria Ler Devagar (Lx Factory, Alcântara), durante o mais badalado lançamento do ano.

Uma voz

«Não há amizade, disse a voz, não há amor, não há épica, não há poesia lírica que não seja um gorgolejo, ou um gorjeio de egoístas, trinado de batoteiros, borbulhão de traidores, efervescência de arrivistas, garganteio de maricas. Mas tu o que é que tens, sussurrou Amalfitano, contra os homossexuais? Nada, disse a voz. Falo em sentido figurado, explicou a voz. Estamos em Santa Teresa?, perguntou a voz. É esta cidade parte, e não pouco destacável, do estado de Sonora? Sim, respondeu Amalfitano. Então é isso, disse a voz. Uma coisa é ser arrivista, digo eu, para dar um exemplo, disse Amalfitano alisando o cabelo como que em câmara lenta, e outra muito diferente é ser maricas. Falo em sentido figurado, repetiu a voz. Falo para que tu me entendas. Falo como se eu estivesse, e tu estivesses atrás de mim, no ateliê de um pintor ho-mos-se-xu-al. Falo de um ateliê onde o caos é só uma máscara ou uma ligeira fetidez de anestesia. Falo de um ateliê com as luzes apagadas onde o nervo da vontade se desprende do resto do corpo como a língua da serpente se desprende do corpo e repta, automutilada, entre o lixo. Falo das coisas simples da vida. Tu ensinas filosofia?, perguntou a voz. Tu ensinas Wittgenstein?, perguntou a voz. E já te perguntaste se a tua mão é uma mão?, prosseguiu a voz. Já me perguntei, disse Amalfitano. Mas agora tens coisas mais importantes para te interrogares, ou estou enganado?, perguntou a voz. Não, respondeu Amalfitano. Por exemplo: por que não ires a um viveiro e comprar sementes e plantas até talvez uma pequena árvore para plantar no meio do teu jardim das traseiras?, perguntou a voz. Sim, disse Amalfitano. Pensei no meu possível e exequível jardim e nas plantas que preciso de comprar e nas ferramentas para o executar. E também pensaste na tua filha, disse a voz, e nos assassínios que se cometem diariamente nesta cidade, e nas nuvens maricas de Baudelaire (perdão), mas não pensaste seriamente se a tua mão é realmente uma mão. Não é verdade, disse Amalfitano, claro que pensei, claro que pensei. Se tivesses pensado, disse a voz, outro galo cantaria. E Amalfitano ficou em silêncio e sentiu que o silêncio era uma espécie de eugenismo. Viu as horas no relógio. Eram quatro da manhã. Ouviu alguém a ligar o motor de um carro. O carro demorava a pegar. Levantou-se e espreitou à janela. Os carros estacionados em frente da sua casa estavam vazios. Olhou para trás e a seguir pôs a mão no manípulo da porta. A voz disse: cuidado, mas disse isto como se estivesse muito longe, no fundo dum barranco onde espreitavam pedaços de pedras vulcânicas, riolites, andesites, veios de prata e veios de ouro, charcos petrificados cobertos de ovinhos minúsculos, enquanto no céu arroxeado como a pele de uma índia morta à paulada sobrevoavam águias-de-cauda-vermelha. Amalfitano saiu para o alpendre. À esquerda, a uns dez metros de casa, um carro preto acendeu os faróis e arrancou. Ao passar diante do jardim, o motorista inclinou-se e observou Amalfitano sem parar o carro. Era um tipo gordo e de cabelo muito preto, vestido com um fato barato e sem gravata. Quando desapareceu, Amalfitano voltou para casa. Mau aspecto, disse a voz, mal ele passou a porta de entrada. E depois: tens de ter cuidado, camarada, parece-me que aqui há coisas que estão no vermelho vivo.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Microgramas (Robert Walser e o Douro)


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Colagem de caligrafias dedicada ao João Ventura.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Quem Ama, Odeia, de Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares (Oficina do Livro), por Ana Cristina Leonardo
- Alguns Preferem Urtigas, de Junichiro Tanizaki (Teorema), por José Guardado Moreira
- Seis Campas até Munique, de Mario Puzo (Bertrand), por Rogério Casanova
- Uma Desordem Americana, de Ken Kalfus (ASA), por Vítor Quelhas
- Gabriel García Márquez – Uma Vida, de Gerald Martin (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
- Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?, de Eduardo Lourenço (Gradiva), por António Guerreiro
- Casas de Brasileiro, de Júlio de Matos e Jorge F. Sampaio (Ministério da Cultura), por António Loja Neves
- O Livro das Aves, de Tiago Patrício (Quasi), por José Mário Silva

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges