Luz sem ruído

XX_Dias

XX Dias
Autor: Rui Miguel Ribeiro
Editora: Averno
N.º de páginas: 26
Depósito Legal: 300075/09
Ano de publicação: 2009

Mesmo no fim, uma pequena nota do autor explica o contexto em que surgiu XX Dias, o terceiro livro de Rui Miguel Ribeiro: «Estes poemas foram escritos durante o meu internamento no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Francisco Gentil, na UTM, entre Março e Abril de 2009». Com a sua precisão cirúrgica, a nota explica o que os poemas apenas sugerem, materializando a ameaça mortal que os atravessa, sem que nunca os versos desfaçam o íntimo recato do sofrimento, esse pudor do doente que é a última fronteira da dignidade humana.
Previsivelmente, o centro geométrico desta sequência de poemas está no quarto – o espaço do confinamento, o «recife» onde o corpo naufragou e espera a sua sorte. Como única companhia, o sujeito poético tem o tempo. Um tempo que se expande e se sobrepõe a tudo («fundo de um poço / sem fundo que aqui invade a matéria»), lento trânsito das horas que altera a própria percepção da realidade. A cama «marca o calendário», há rotinas, uma «luz sem ruído» a pairar sobre as coisas, um vidro que separa e mantém o mundo à distância, livros que chegam «castigados e doridos», o silêncio como «mapa do futuro isento de morte», a febre e a solidão, notícias da primavera que começa lá fora e de uma nespereira «pejada», longe, no lugar onde a vida não se interrompeu.
Os dias avançam na sua lógica imperturbável, «iguais, / uniformes e sem resistência», entre monitorizações clínicas e um certo desprendimento identitário («Há dias que não vejo o meu rosto»). Resistir passa pela atenção às marcas invisíveis que ficam de cada jornada, seja uma «diagonal de luz» a dividir o espaço ou os espinhos de plástico da rosa artificial, simulando o «atrito de viver». O tom é melancólico, mas nunca trágico; mais perto da resignação do que da queixa. Alguns poemas apagam-se em excesso, outros parecem sob o efeito da anestesia. Nada disto será por acaso. A escassez estilística reflecte a difícil sobrevivência do corpo:

Enquanto eu posso insistir nisto
como se fosse uma vontade,
ou algo mais, ou menos,
uma dança misteriosa;
é bom pensarmos no fim
ou a partir dele,
como os sonhos que chegam
cada dia mais pobres.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O jet-lag é um mito

Ou então eu tenho muita sorte.

Exeter

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Foi na biblioteca da Phillips Exeter Academy (PEA) que entrevistei Dan Brown. Fundada em 1781, a PEA é uma das escolas secundárias privadas (só para alunos do 9.º ao 12.º ano) com maior prestígio nos EUA. Entre os seus antigos alunos contam-se o presidente Franklin Pierce, uma série de figuras que ocuparam lugares importantes na administração pública, desportistas, músicos e uns quantos homens de letras, como George Plimpton (fundador da The Paris Review), Gore Vidal ou John Irving.
No piso quatro da enorme biblioteca – um edifício de linhas austeras, com tijolo vermelho por fora e betão por dentro, desenhado nos anos 60 pelo arquitecto Louis Kahn (tudo sobre esta obra, aqui) – ficam as salas com os livros mais preciosos. Atrás de uma vitrina, podem ver-se primeiras edições dos romances de Virginia Woolf, editados pela Hogarth Press. E depois há as estantes com as obras dos antigos alunos, divididas conforme os anos passados na PEA: a classe de 1876, a classe de 1927, a classe de 1964, etc. Lá estão os livros de Gore Vidal, os de John Irving, os de Daniel C. Dennet, os de muitos outros escritores conhecidos. E os de Dan Brown, que não só frequentou a PEA como era filho de um dos mais distintos professores de matemática da escola (noutra sala, há uma prateleira inteira preenchida com os manuais de Álgebra que o tornaram conhecido de todos os alunos de Ciências do país). Em destaque neste sector Dan Brown da estante dos antigos alunos, também chamados «exonians», a capa dourada e escarlate do último romance: The Lost Symbol.
A conversa começou justamente por aí, pelo novo livro, mera repetição de uma fórmula narrativa literariamente nula, enquanto lá fora a tarde declinava e as folhas das árvores brilhavam com o seu amarelo muito vivo, quase sobrenatural.

arvore

Arqueologia bibliográfica

Sempre que compro livros em segunda mão, a primeira coisa que faço é procurar marcas do(s) primeiro(s) proprietário(s), essas marcas que definem uma espécie de arqueologia bibliográfica: frases sublinhadas a lápis, comentários nas margens, dedicatórias enigmáticas, cantos dobrados, manchas de café ou chocolate. No caso dos Poems in English, do Beckett, voluminho adquirido na Commonwealth Books, encontrei apontamentos e chavetas inscritos a esferográfica azul. O antigo proprietário (tento imaginar o seu rosto) resume uma estrofe inteira a três palavras – «the modern syndrome» – e ignoro se a expressão, para ele, era um elogio ou um reparo. No fim desse mesmo poema, Whoroscope, pondera se aquela não será uma resposta a The Waste Land [de T. S. Eliot]. Mais adiante, Beckett conclui Enueg I com uma quadra eloquente:

Ah the banner
the banner of meat bleeding
on the silk of the seas and the arctic flowers
that do not exist.

Comentário do antigo proprietário do livro (esforço-me outra vez por imaginar o seu rosto, mas não consigo): «Rimbaud!» E não se pode dizer que esteja mal visto.

Um poema de Samuel Beckett

ALBA

before morning you shall be here
and Dante and the Logos and all strata and mysteries
and the branded moon
beyond the white plane of music
that you shall establish here before morning

grave suave singing silk
stoop to the black firmament of areca
rain on the bamboos flower of smoke
alley of willows

who though you stoop with fingers of compassion
to endorse the dust
shall not add to your bounty
whose beauty shall be a sheet before me
a statement of itself drawn acrosse the tempest of emblems
so that there is no sun and no unveiling
an no host
only I and then the sheet
and bulk dead

[in Poems in English, Grove Press, 1963]

Commonwealth Books

Gosto de livrarias em que o balcão está ocupado por pilhas de livros, acabados de chegar, ainda à espera de serem encaminhados para o seu lugar nas estantes. E foi isso que eu vi assim que entrei na Commonwealth Books, uma espécie de alfarrabista que fica ao fundo de uma rua discreta, perto do centro (Spring Lane).
Logo à entrada, do lado esquerdo, há uma editora em destaque. E não é nenhuma das várias chancelas da Random House. É a mui alternativa Black Widow Press, que publica poesia traduzida de Paul Éluard, André Breton, Valery Larbaud ou Tristan Tzara. Com as suas 700 páginas, a biografia Revolution of the Mind: The Life of Andre Breton, de Mark Polizzotti, ficou a olhar para mim (talvez para a próxima), mas entretanto outras centenas de títulos emitiam, obstinados, o seu chamamento cruel, como sereias a atazanar os ouvidos de um Ulisses sem cera para os ouvidos.
Com a sua confusão ordenada, o seu caos gracioso, a Commonwealth Books é sítio para se ficar muitas horas, deambulando entre os vários núcleos temáticos, lendo as frases soltas e artigos de jornal colados em tudo o que seja superfície plana, aproveitando uma ou outra pechincha. Infelizmente, não tinha muitas horas para ficar ali (talvez para a próxima), mas ainda consegui apropriar-me de três pechinchas. A saber: Sudden Fiction (continued) – 60 New Short-Short Stories, uma antologia organizada por Robert Shapard e James Thomas (Norton, 1996), por três dólares; Blood, Tin, Straw, de Sharon Olds (Alfred A. Knopf, 1999), por sete dólares; e Poemas in English, de Samuel Beckett (Grove Press, 1963), por três dólares.

Melting pot

Só nas primeiras horas: um taxista da Costa do Marfim, um arrumador de bagagens porto-riquenho, uma recepcionista filipina e, a servir à mesa no restaurante italiano, um rapaz brasileiro com pinta de surfista. Este último, ao perceber que falávamos português, meteu conversa, indicou-nos os melhores pratos da ementa e abanou logo a cabeça quando alguém apontou um aperitivo que se bebia na mesa ao lado: «Escolham outra coisa. Sei que parece caipirinha mas não é. Aqui a gente não tem cachaça.»

Fragmentos de Boston

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Esquina da Arlington Street com a St. James Street

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Boston Public Library

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Newbury Street

À chegada

Em Philadelphia, a polícia escrutina tudo minuciosamente: o meu passaporte, o formulário verde em que garanto nunca ter participado num genocídio, os meus sapatos. Sucedem-se os guichets, os carimbos, as segundas inspecções. Até que um guarda repete a pergunta que outros já me tinham feito: «What is your business in America?» Explico-lhe que venho entrevistar Dan Brown. «What does he do?», quer ele saber. É um escritor, respondo. «A writer? Really? Never heard of him.»

Flying to Boston

Daqui a nada, levanto voo em direcção a Boston, com escala em Philadelphia. Objectivo: entrevistar em Exeter, na próxima segunda-feira, o rei dos best-sellers. Sim, esse mesmo. Dan Brown. Até quarta-feira, dia do regresso (e do jet lag), a actualização do blogue será uma incógnita. Espero escrever alguma coisa, mas não prometo.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Caim, de José Saramago (Caminho), por António Guerreiro
A Sombra do que Fomos, de Luis Sepúlveda (Porto Editora), por Vítor Quelhas
O Milionário de Lisboa, de José Norton (Livros d’Hoje), por Luísa Mellid-Franco
História da Primeira República Portuguesa, coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo (Tinta da China), por António Valdemar
As Extraordinárias Aventuras da Justiça Portuguesa, de Sofia Pinto Coelho (A Esfera dos Livros), por Ricardo Marques
O que não faz de ti um budista, de Dzongsar Jamyang Khyentse (Lua de Papel), por José Guardado Moreira
Viva a Malta do Liceu!, coordenação de Miguel Anacoreta Correia (Chá de Caxinde), por Nicolau Santos
XX Dias, de Rui Miguel Ribeiro (Averno), por José Mário Silva

‘Enciclopédia da Estória Universal’ (booktrailer)

Um pequeno filme precioso para um pequeno livro precioso.

Booklife Now

O escritor norte-americano Jeff VanderMeer está a lançar um novo livro, intitulado Strategies and Survival Tips for the 21st Century Writer. Em paralelo, mantém este blogue que serve de «support» e «supplement» do seu guia de sobrevivência para escritores na era da Web 2.0. A acompanhar.

Filipe Seems fechado numa caixa

Os três volumes da série “As Aventuras de Filipe Seems” (ASA), da dupla António Jorge Gonçalves (desenho) e Nuno Artur Silva (texto), vão ser postos à venda a partir de 27 de Outubro, numa edição especial em capa dura. A trilogia, composta pelos álbuns Ana, A História do Tesouro Perdido e A Tribo dos Sonhos Cruzados, vem dentro de uma caixa que inclui ainda o DVD do espectáculo Conspiração, criado por AJG e NAS a partir do imaginário da série.

O Kindle (da Amazon) já tem um rival do seu campeonato

É o Nook (da Barnes & Noble). O Nook vai custar 259 dólares e entretanto, ó surpresa, o Kindle, que custava 279 dólares, passou a custar menos 20.

Ainda não sabe como acabar a sua peça de teatro?

Calma, não se preocupe. Alguém decidiu facilitar-lhe a vida, reunindo aqui 42 desenlaces possíveis para o sempre difícil terceiro acto.

Almedina Mobile: uma livraria no telemóvel

As Livrarias Almedina apresentaram hoje duas novas funcionalidades para telemóvel, desenvolvidas pelos seus próprios serviços de informática. Segundo os responsáveis da empresa, estas funcionalidades prometem «revolucionar a pesquisa, reserva e compra de livros em Portugal». Conferir aqui.

Mais um regresso de Marx

marx

A Antígona vai trazer novamente Marx para os escaparates, num livro que reúne dois textos que estão entre os menos conhecidos do filósofo e nos quais este «censura o proteccionismo com tanto ou maior em­penho do que o que empresta à crítica do comércio livre». Tradução de José Miranda Justo. Prefácio de José Neves. A partir de 6 de Novembro.

‘As Três Vidas’ de João Tordo em francês

O romance As Três Vidas, de João Tordo (QuidNovi), que acaba de ganhar, por unanimidade, o Prémio José Saramago 2009, vai ser editado em França pela Actes Sud, com data de lançamento prevista para Fevereiro de 2010. Traduzido por Dominique Nédellec, Les Trois Vies é apresentado pela editora como a obra mais recente do «chef de file de la jeune garde des lettres portugaises».

Romance de José Rodrigues dos Santos vai ser apresentado por ex-operacional da Al Qaeda

Da editora Gradiva recebi o seguinte press-release, anunciando o surpreendente orador convidado para a apresentação de Fúria Divina:

«O novo romance de José Rodrigues dos Santos, Fúria Divina, vai ser apresentado em Lisboa por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda. Abdullah Yusuf já se encontra em Portugal, tendo chegado há alguns dias de África especificamente para apresentar esta obra.
Abdullah Yusuf reuniu-se por diversas vezes com Osama Bin Laden no Afeganistão e foi autor de um atentado reivindicado pela Al-Qaeda. Contactado por José Rodrigues dos Santos durante o processo de pesquisa para a obra Fúria Divina, tornou-se consultor deste romance protagonizado por Tomás Noronha sobre o islão radical.
Abdullah Yusuf irá falar este sábado, 24 de Outubro, na apresentação de Fúria Divina, cerimónia que está marcada para a praça central do Centro Colombo, em Lisboa, às 17h00 – um evento aberto ao público. Outro apresentador do novo romance de José Rodrigues dos Santos será o General Leonel Carvalho, antigo chefe do gabinete de segurança interna do Governo português.
A cerimónia de apresentação do livro contará ainda com a representação teatral de uma cena de Fúria Divina, a cargo do grupo de teatro Fatias de Cá, de Tomar.»

Café com Mário

Que alguém reenvie, por favor, este link a José Saramago. Os voos para Bruxelas são fáceis de conseguir e parece-me que este deputado europeu precisa mesmo de umas dicas básicas sobre o que é isso da liberdade de expressão e o que é isso das diferenças entre teologia e literatura.

Aprendiz de Sousa Lara

«O eurodeputado social-democrata Mário David exortou hoje [ontem] o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir “envergonhado” com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia. No sítio pessoal na Internet, o vice-presidente do Partido Popular Europeu (PPE), eleito pelo PSD, escreveu hoje [ontem] que José Saramago “há uns anos, fez a ameaça de renunciar à cidadania portuguesa. Na altura, pensei quão ignóbil era esta atitude. Hoje, peço-lhe que a concretize… E depressa!”»

A pérola de intolerância e tacanhez mental do vice-presidente do Partido Popular Europeu pode ser lida na íntegra aqui.

Uma volta de autocarro por Newark, com Philip Roth

Em Newark, cidade natal de Philip Roth, há um autocarro turístico que percorre muitos dos locais referidos pelo escritor nos seus romances. No passado fim-de-semana, os alunos do Weequahic High School que iam no autocarro descobriram-se lado a lado com um passageiro especial: o próprio Roth. Notícia no The Guardian e reportagem num jornal local (Newark Star Ledger).

Da escrita como obsessão

A verdade é que já não me lembro onde comprei este livro, nem porquê. Estava ali na estante, fininho, à espera, com a sua capa sombria (uma toupeira coberta de insectos, pendurada de um ramo por uma corda) e o seu título misterioso: Évocation de Matthias Stimmberg suivi de Six notes autour de l’écriture et de l’obsession (Bibliophane-Daniel Radford, 93 págs., 2003). Hoje peguei-lhe. E apercebi-me que fui traído pelo nome do autor, Alain-Paul Mallard, que julguei francês. Na verdade é mexicano, nasceu em 1970 e vive actualmente em Paris, onde trabalha como realizador de cinema. A sua bibliografia resume-se a este livro, cuja primeira parte já tinha sido publicada no México, em 1995, e a Recels, outro volume de prosas curtas, editado já este ano por L’Arbre Vengeur.
Uma rápida consulta ao Google desfaz uma dúvida: e se Mallard, como o Matthias Stimmberg evocado nestas ficções, fosse um escritor imaginário? Não é. A informação online revelou-se escassa, mas encontrei um vídeo, fotos, algumas recensões e uma nota biográfica que menciona a «lenda familiar» segundo a qual o seu nome proveio de um soldado, participante na expedição militar francesa ao México (1861-1867), que se terá perdido nas margens do rio Papaloapan, no sul do estado de Veracruz.
Comecemos pelas notas «em volta da obsessão e da escrita», preparadas para um colóquio internacional de «jovens narradores», em que Mallard se cruzou, entre outros, com o dominicano Junot Díaz, autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, excelente romance de estreia que ganhou o Pulitzer de Ficção em 2008. Na sua intervenção, Mallard começa por lembrar uma célebre frase de Freud – «a cultura engendra a neurose» – com a intenção de a inverter, mostrando que a neurose também pode engendrar a cultura; ou, mais especificamente, a literatura. Pelo simples facto de que «complicam o problema humano», os desequilíbrios (psicológicos ou de personalidade) serão sempre propícios à criatividade literária. Mallard concentra-se sobretudo no modo como o comportamento obsessivo condiciona, desbloqueia ou alimenta o trabalho de escrita de alguns autores. Francis Ponge, por exemplo. Durante quase um terço da sua vida, de 1942 a 1967, o autor de O Partido Tomado Pelas Coisas procurou fixar com palavras a natureza escorregadia e evanescente do sabão, até que reuniu em livro o somatório de todas essas tentativas e «ângulos de ataque», as «declinações sucessivas» de um mesmo tema, com «intuições, avanços, naufrágios, contra-sensos». Houve no projecto de Ponge tanto de obsessão como de perseverança, resume Mallard, mas acima de tudo houve uma «lição de escrita».
Caso distinto é o de Juan Rulfo, em que o temperamento obsessivo, mais do que conduzir à persistência num tema, é um «garante da forma». Entre a primeira e a segunda edição de A Planície em Chamas (edição portuguesa da Cavalo de Ferro), Rulfo introduziu pequenas variantes lexicais que são exemplos do mot juste flaubertiano, reflectindo uma vontade de levar até ao limite a coerência textual e de fixar «definitivamente» a prosa literária. O que Mallard pretende, em última análise, é estabelecer para si mesmo uma praxis da escrita que passa pela máxima exigência estética. Um texto só deve ser publicado quando as partes que o constituem encontraram a sua forma final. E isso implica uma «batalha contra a linguagem». Uma batalha sem tréguas. E das duas uma: ou se consegue dominá-la, ou se acaba dominado por ela. Seja como for, para Mallard escrever é sempre «servir a linguagem», porque «desde que Borges demonstrou a existência da página perfeita» temos o dever de aspirar a essa perfeição.
Costuma dizer-se que entre a teoria e a prática há sempre uma certa distância, mas isso não se aplica a Alain-Paul Mallard. Em Évocation de Matthias Stimmberg, ele cumpre à risca o que defende nas notas. Máximo rigor verbal, máximo depuramento, máximo efeito literário. A primeira versão destes contos tinha 200 páginas; a final, pouco mais de 50. A reescrita foi tão furiosa que o escritor colombiano Alvaro Mutis terá dito: «é preciso arrancar-lhe o livro antes que ele desapareça». Como o sabão de Francis Ponge.

[Texto publicado no n.º 83 da revista Ler]

Nota final (em letra muito, muito pequena)

Só na última página do livro de Rui Miguel Ribeiro é que confirmamos o que já suspeitávamos: «Estes poemas foram escritos durante o meu internamento no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Francisco Gentil, na UTM, entre Março e Abril de 2009».

Três poemas de Rui Miguel Ribeiro

ROSE, GOLD, LANDSCAPE OR ANOTHER*

Podemos sempre falar em depois.
A rosa artificial que me antecedeu
permanece indiferente com as
suas manchas de ouro, voltada
sobre a imagem da cidade.

Tantas foram as já nomeadas,
mas esta também tem a sua virtude,
espinhos de plástico que simulam
o atrito de viver que são estes dias.

Duração resistente ao tempo,
ao apetite e ao sol que a cobre
pela mesma indiferença.
Na fronteira de ser, a sua sombra
tem mais vida e quase chega até mim.

Rosa, ouro e olhar, desperta
na sua duplicidade o desejo
e a plenitude de amar,
contra o vidro que me separa.

* Verso de Stephen Spender

O FRUTO

Registam a febre e o coração.
Neste fim de março em que
não vejo árvores de fruto,
chegam-me as novas da minha
nespereira, pejada, dizem-me.
À espera, como o meu sangue,
de que a vida seja uma protecção
adocicada, carnuda e macia,
pronta a colher.


A TARDE

Nesta desaceleração
espero que os dias corram iguais,
uniformes e sem resistência.
Procuro de cada mistério
entender o mais simples.
Fico pelo que é mais rente,
mais sólido, com menos construção.

Já não chega ter os horários,
as entregas e as rotinas,
para aceitar o ritmo de furo lento
da vida. Mais próximo cresce o detalhe.
É mais precisa a dúvida.

Cai a tarde e a pausa continua
e com ela expira o natural desejo
de um prazer, um apetite pela
diagonal de luz que vai dividindo
o espaço, a marca invisível
que fica de mais um dia.

[in XX Dias, Averno, 2009]

O fim das Quasi

Acabei de saber, pelo Twitter do Carlos Vaz Marques, que as Quasi Edições declararam falência. Lamento muito. Com altos e baixos, o projecto de Jorge Reis-Sá (e de valter hugo mãe, na fase inicial) foi importantíssimo na revelação de novos poetas. Pode dizer-se que o catálogo é desequilibrado, e é, mas no meio de livros fraquinhos encontrámos sempre boas surpresas (Rui Cóias, Tiago Araújo, Paulo Tavares, António Gregório) e algumas revelações fundamentais (casos de Ana Paula Inácio, Rui Lage e, já este ano, Nuno Rocha Morais), além de uma excelente escolha de poesia brasileira (Murilo Mendes, Manoel de Barros, Carlos Nejar, Eucanaã Ferraz, etc.).
Também por ter diversificado a sua actividade, entrando no nicho das publicações para jornais e abrindo uma loja ambiciosa em Famalicão, as Quasi pareciam o exemplo perfeito de pequena editora capaz de se aguentar num mercado difícil. Pelos vistos, não era bem assim. Ou então a crise veio na pior altura e certos investimentos tornaram-se demasiado pesados. Não sei. Só sei que é pena que um projecto destes desapareça. E é um sinal preocupante do que pode vir a acontecer ao meio editorial português, cada vez mais confinado a uma lógica de grandes concentrações empresariais e cada vez com menos espaço para projectos alternativos.

Nova edição de ‘A Terra das Ameixas Verdes’

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A Difel não perdeu tempo. Semana e meia após o anúncio do Nobel de Literatura para Herta Müller, acaba de reeditar o até agora esgotado A Terra das Ameixas Verdes (1999). A tiragem, pelo que me informou fonte da editora, andará entre os três mil e os cinco mil exemplares.

Será que o cérebro gosta de e-books?

Respostas e discussão, aqui.

‘A Flor Fatal’

Eis o título do romance que Fernando Cabral Martins lança, ainda este mês, na Assírio & Alvim. E eis também o blogue em que ele escreve sobre o que o livro é e o que dele podemos esperar. O último post funciona como quase-sinopse:

«Se a cidade é apenas sugerida, as personagens ganham uma existência qualquer.
Um que trabalha como professor fica desanimado porque a sua aluna de eleição resolveu desaparecer.
Outro é um contínuo vagabundo dedicado às drogas.
A adolescente inigualável cresce e, de repente, dedica-se a uma espécie de prostituição.
Três pequenos enigmas típicos.»

Das actas do júri

Excertos de algumas das declarações de voto do júri do Prémio José Saramago, que decidiu premiar o mais recente romance de João Tordo por unanimidade:

«Este é um romance com uma boa definição no que diz respeito à efabulação romanesca, à definição de personagens, à arquitectura da intriga, à fluidez da linguagem, à precisão descritiva e, finalmente, à manutenção de um quase permanente estado de suspensão e surpresa – o qual tem, aliás, o supremo mérito de tornar o leitor literalmente prisioneiro da sua própria curiosidade enquanto descobridor de intrigas e mistérios.»
[Manuel Frias Martins]

«As Três Vidas é um relato em que realçam o talento e a primorosa linguagem do seu autor. E conquanto o jovem narrador cometa às vezes excessos narrativos no afã de não deixar perguntas sem respostas, de não permitir que a história humana seja talhada pelo silêncio, seu empenho criador emociona. Leva-nos a convicção de que estamos diante de um escritor cuja notável vocação narradora não se furta em nenhum momento de analisar a brutalidade da vida que nos habita.»
[Nelida Piñon]

«O meu voto vai para João Tordo e As Três Vidas pelo domínio da técnica narrativa, pela força das vozes e pela maneira como o autor transforma uma situação do quotidiano numa experiência de dilaceramento que se vai insinuando ao longo da obra à medida que o mistério ganha corpo e se redesenha numa arte combinatória que permite contar histórias e desvendar para o leitor parte importante da história do século XX.»
[Ana Paula Tavares]

Prémio José Saramago passa a ter uma versão para a língua castelhana

Joan Tarrida, um dos principais responsáveis editoriais da Bertelsmann em Portugal, anunciou em Penafiel que o Prémio José Saramago vai ser atribuído nos dois países da Península Ibérica, em anos alternados, já a partir de 2010. A versão espanhola em nada se diferenciará da portuguesa: é para autores com menos de 35 anos, na área geográfica da língua castelhana (ou seja, Espanha e toda a América Latina; excepto o Brasil, claro).

70%

Presente no Museu Municipal de Penafiel para a atribuição do Prémio que ostenta o seu nome, José Saramago insistiu nesta ideia: «Tal como o corpo humano é composto por 70% de água, a literatura compõe-se de 70% de linguagem.» Após um discurso improvisado e longo, cheio de derivas e referências aos clássicos (Padre António Vieira, D. Francisco Manuel de Melo), Saramago dirigiu-se por fim a João Tordo, dizendo-lhe (talvez com menos entusiasmo do que seria de esperar) que gostou de As Três Vidas, obra que revela raros dotes de efabulação: «Ele não perde nunca o pé na narrativa, nunca se afoga.» E depois deixou um conselho: «Caro João, cuide sempre da linguagem, defenda-a, proteja-a. Não se esqueça: ela é 70% da arte literária.»
Quanto a João Tordo, afirmou ser este um prémio que premeia o futuro e não o passado. «É para o que ainda se vai fazer, não para o que já se fez.»

E o vencedor do Prémio José Saramago 2009 é…

João Tordo, pelo romance As Três Vidas (QuidNovi).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Sindicato dos Polícias Iídiches, de Michael Chabon (Casa das Letras), por Rogério Casanova
Juventude Sem Deus, de Ödön von Horváth (Via Occidentalis), por Mário Santos
Os Irmãos Tanner, de Robert Walser (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Caderno Afegão, de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China), por Cristina Margato
O Mundo Perdido do Comunismo, de Peter Molloy (Bertrand), por Luís M. Faria
Marvão – À Mesa com a Tradição, de Adelaide Martins, Emília Mena e Teresa Simão (Colibri), por Alexandra Carita
Ruy d’Athouguia – A Modernidade em Aberto, de Graça Correia (Caleidoscópio), por José Manuel Fernandes

Mais uma tradução de ‘O Monte dos Vendavais’

Monte_dos_Vendavais

Depois das versões de Ana Maria Chaves (Dom Quixote) e do casal Maria Franco/Cabral do Nascimento (Relógio d’Água), chega agora a de Fernanda Pinto Rodrigues (Presença).
Nas livrarias a 20 de Outubro.

Quatro poemas de José Tolentino Mendonça

GRAFITO

«O poema é o acto espiritual
por excelência»
E. Levinas

O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias


DE PROFUNDIS

Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho

Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta uma beleza
a olhar por nós
indiscernível, entreaberta ainda

Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa
documentar

os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida


UMA TAÇA ÁTICA

Aos heróis pertenciam formas de veneração
talvez o aspecto do mundo antigo mais renegado
pelo nosso século extinto

Não seriam diferentes de nós:
temiam as estações severas
o idioma da névoa
o instante de vidro
onde a respiração se quebra

Mas a vida era para eles um sopro
que levavam sempre consigo
aurora incólume em expansão

Quando Orfeu cantou diante do Hades
as filhas de Danao interromperam a tarefa
Tântalo esqueceu fome e sede
Sísifo sentou-se sobre a pedra
e diz-se que até Caronte
por momentos abandonou
a nave onde nos leva


RELATÓRIO DE BENS

Esta é a oferta:
prata e cobre, e linho fino,
e peles de carneiro tingidas de vermelho,
e peles de texugo,
um cordão de trinta côvados
e madeira preciosa

Na dobra escondida do mar
uma campainha
de ouro

[in O Viajante Sem Sono, Assírio & Alvim, 2009]

Antígona recupera Tomás da Fonseca

Republicano racionalista, livre-pensador abjurado pela Igreja Católica e escritor subversivo, Tomás da Fonseca (1877-1968) foi ostracizado antes do 25 de Abril e esquecido depois da revolução. Aproveitando a aproximação do centenário da proclamação da República, a Antígona decidiu reeditar este autor que se colocou, nas palavras de João Macdonald, «permanentemente na linha da frente do arriscado confronto político».
Saúde-se então a Antígona, por agitar as águas e trazer de novo para a luz quem desconstruiu alguns dos mitos mais bafientos da História portuguesa, como os dois volumes agora lançados demonstram.

cova

Em na Cova dos Leões, um conjunto de devastadoras cartas ao Cardeal Cerejeira sobre a questão de Fátima, Tomás da Fonseca apresenta as aparições da Cova da Iria como sendo uma «escandalosa fraude», uma «ignóbil farsa», um «delito premeditado» e o «maior embuste do século», explicando como a coisa foi engendrada por vários «empresários» do catolicismo. Numa espécie de sinopse em cinco linhas, estampada na contracapa, a Antígona não faz a coisa por menos: para os editores refractários, este é «o livro mais anticlerical de sempre, que desmonta e denuncia a grande e espectacular mentira de Fátima, humilhando a Igreja e a padralhada em geral».

condestavel

O segundo livro é o antídoto perfeito para todas as hagiografias e ensaios panegíricos que se publicaram este ano sobre Nuno de Santa Maria Álvares Pereira, o fundador da Casa de Bragança que o Vaticano canonizou a 26 de Abril de 2009. Escrito em 1932, este O Santo Condestável – Alegações do Cardeal Diabo argumenta o absurdo de se considerar sequer santificável a figura do general de D. João I, entre outras coisas porque «o Condestável foi sempre um arrogante e um poço de vaidade, um mestre na arte de matar e de triunfar».

Mais prémios

Outubro é o mês de todos os prémios literários. Hoje ficaram a conhecer-se os resultados dos seguintes:

Prémio Literário Fernando Namora (instituído pela Estoril Sol, 25 mil euros)A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Caminho). Júri: Vasco Graça Moura (presidente), Guilherme D’Oliveira Martins, José Manuel Mendes, Maria Carlos Gil Loureiro, Manuel Frias Martins, Maria Alzira Seixo, Liberto Cruz, Lima de Carvalho e Dinis de Abreu. Por maioria.

Prémio P.E.N. Clube de Poesia (cinco mil euros) – A Terceira Mão, de Manuel Gusmão (Caminho). Júri: João David Pinto Correia (presidente), Fernando Pinto do Amaral e João Barrento. Por unanimidade.

Prémio P.E.N. Clube de Ficção (cinco mil euros) – Myra, de Maria Velho da Costa (Assírio & Alvim). Júri: Maria João Reynaud (presidente), Artur Anselmo e Isabel Pires de Lima. Por unanimidade.

Prémio P.E.N. Clube de Ensaio (cinco mil euros) – Novos ensaios helénicos e alemães, de Frederico Lourenço (Cotovia), ex-aequo com Kodakização e despolarização do real – para uma poética do grotesco na obra de Fialho de Almeida, de Isabel Cristina Pinto Mateus (Caminho). Júri: Francisco Belard (presidente), Ernesto Rodrigues e Eunice Cabral. Por unanimidade.

Escritaria

Já começou a segunda edição da Escritaria, dedicada a José Saramago (o primeiro homenageado, em 2008, foi Urbano Tavares Rodrigues). A programação do encontro, que decorre em Penafiel até domingo, pode ser consultada aqui. Há também um blogue, onde se espera que surjam relatos do que vai acontecendo.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges