Demain, je serai là

paris
Fotografia de Henri Cartier-Bresson

E por lá ficarei, com chuva e frio (parece), nos cafés, nos museus, nas livrarias, namorando, passeando e lendo, até terça-feira. O computador vai, dentro da mochila, mas não é certo que lhe dê uso.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Um caçador de leões, de Olivier Rolin (Sextante), por José Mário Silva
Invisível, de Paul Auster (ASA), por Vítor Quelhas
Um Bando de Corvos, de Ruth Rendell (Relógio d’Água), por Paulo Nogueira
O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos, de José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim), por Helena Barbas
Ruído Branco, de Don DeLillo (Sextante), por Ana Cristina Leonardo
Pergunta ao Pó, de John Fante (Ahab), por José Guardado Moreira
Uma Data em Cada Mão – Livro de Horas I, de Maria Gabriela Llansol (Assírio & Alvim), por António Guerreiro

Breve e triste na muita escuridão

Últimos Poemas
Autor: Nuno Rocha Morais
Editora: Quasi
N.º de páginas: 142
ISBN: 978-989-552-409-9
Ano de publicação: 2009

Em A Morte de Kavafis, Nuno Rocha Morais (NRM) imagina os últimos momentos do poeta de Alexandria:

«(…) Mas não estava ainda tudo dito,
Faltava o I know not what tomorrow will bring.
Kavafis desenhou então,
No mundo implícito de uma folha de papel,
Um círculo e no centro do círculo apôs,
Meticuloso, um ponto final,
A vida completando-se imperceptivelmente
No interior da arte.
»

Estes versos fazem parte do único livro de NRM, único porque póstumo (o poeta morreu em 2008, aos 34 anos). A consciência do ponto final kavafiano, transposto para a vida daquele que o evocou, acaba por assombrar uma obra fulgurante, cujo título irónico (há muito definido) perdeu toda a ironia, tornando-se literal.
O que mais impressiona, em Últimos Poemas, é o facto de eles abrangerem uma tão ampla e consistente variedade de registos. Em certo sentido, esta parece ser a antologia pessoal de um poeta com muitos livros (mas livros que nunca chegaram a ser publicados), a súmula de uma bibliografia inexistente. NRM tem uma noção muito precisa da orgânica do poema, das suas tensões internas, das suas quebras, das suas zonas de sombra e cintilações. Há uma espécie de sabedoria clássica, mas aberta à convulsão e complexidade do mundo: tanto se evocam duas mulheres pintadas por Leonardo como a experiência da dor numa cadeira de dentista.
À semelhança de Elizabeth Bishop, a quem faz uma espécie de invocação, o poeta «preda o seu verso / Num filão de minérios sensíveis». Minérios sensíveis que incluem «o gosto dos dias» quotidianos, a memória «desmantelada», a melancolia das «coisas / Que nunca mais voltarão a acontecer», os mitos gregos ou a grande arte do século XX (Renoir, Gaudí, Francis Bacon, Zbigniew Herbert, Francis Ponge, entre outros). É uma poesia subtil e culta, em que a influência deixou de ser angústia para se tornar o «mais íntimo e indispensável lugar de convívio», como escreve Joana Matos Frias no prefácio.
Esta é também uma escrita com belíssimos achados verbais. Kleist, por exemplo, aparece-nos «cheio de lava e guelras»; a romã revela-se um «fruto ofegante» de «doçura impassível»; as corolas de certas flores «adquirem as cores do alarme»; os gatos podem ser «ferozes até na ternura»; e uma rapariga romena «era como um fósforo – / Breve e triste na muita escuridão».
Ainda mais meteórica do que a de Daniel Faria, a magnífica (embora escassa) obra de NRM passa a ocupar um lugar importante, e singularíssimo, na poesia portuguesa contemporânea.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no número 84 da revista Ler]

O regresso da ‘Lisboa Desaparecida’

Em 2010, Marina Tavares Dias comemora 25 anos de escrita sobre Lisboa, primeiro em jornais e depois em dezenas de álbuns que se converteram no maior êxito editorial de sempre no campo da olissipografia. Para assinalar a data redonda, a autora decidiu fazer uma espécie de best of do seu trabalho, reunindo imagens dos nove volumes de Lisboa Desaparecida já editados, cobrindo um arco temporal que vai desde meados do século XIX até ao último quartel do século XX.
Este livro, a lançar em breve, primeiro de MTD desde que deixou a Quimera, terá a chancela de uma nova editora: a Lisboa Desaparecida Editores.

Biblioteca Nacional adquiriu parte do espólio de Luiz Pacheco

Eis o comunicado da BNP:

«A Biblioteca Nacional de Portugal informa que adquiriu, através do exercício do direito de preferência, um significativo conjunto de 158 documentos autógrafos do escritor Luiz Pacheco (1925-2008), num leilão realizado ontem, 25 de Novembro, em Lisboa, com financiamento assegurado pelo Fundo de Fomento Cultural.
Na véspera da abertura ao público da exposição promovida pela BNP, intitulada “Luiz Pacheco: 1 Homem dividido vale por 2“, coordenada por Luís Gomes, evocativa deste escritor caprichosamente marginal, foi também possível obter, nesse mesmo leilão, o raríssimo folheto Azabel ou o Bode que está entre nós, texto designado pelo próprio autor como “tragédia-bufa”, assinando como Delfim da Costa.
Luiz Pacheco notabilizou-se não só como escritor, mas também enquanto corajoso editor, responsabilizando-se por dar à estampa criteriosas edições de reduzidas tiragens, o que é devidamente assinalado no duplo catálogo homónimo, também organizado por Luís Gomes, e editado conjuntamente pelas Publicações D. Quixote (grupo editorial Leya) e pela BNP.
Em breve, as 92 cartas enviadas a vários dos seus amigos, como Mário Cesariny (36), António José Forte (17), Artur Ramos (3), Fernando Ribeiro de Mello (2), Máximo Lisboa (3), Edite Soeiro (2), Cunha Gonçalves Zetho (12) ou Irene Rodrigues (12), assim como o conjunto de 28 textos originais, manuscritos e dactilografados, alguns deles inéditos, deste autor que se classificava como “neo-abjeccionista”, bem como 11 provas tipográficas abundantemente anotadas e emendadas, a que acresce ainda alguns documentos relativos a entrevistas e artigos de crítica literária, integrarão o acervo da BNP.
O poeta, prosador, crítico e editor da Contraponto, agora homenageado pela BNP, viveu afastado dos autores da época considerados consagrados, enveredando pela boémia e libertinagem que lhe valeu ser apelidado de escritor maldito. Amigo de surrealistas e posteriormente inimigo de alguns, deixou inúmeros amigos e admiradores.»

Pertuiset

«Estendido sobre um chão azulado, o leão ocupa o quadro a toda a largura, a cabeça contra o lado esquerdo, a bocarra aberta a mostrar as presas, um buraco por trás do olho aberto, brilhante (um olho de vidro, dirão, escarninhos, os mal-intencionados), negro e donde cai um pouco de sangue, as patas de trás quase a sair da moldura, à direita. O tronco duma árvore ergue-se em primeiro plano à esquerda, vertical, num tom cinzento escamado de negro, com uns toques de amarelo e de verde-escuro a disfarçar uma parte da juba, que descai negra sobre a pele amarelada. O pintor assinou na casca da árvore: «Manet, 1881» (um casal de mulatos ainda novos, ambos encorpados, perplexos, imaginam o que pode lá estar escrito: Miguel? Não, não é Miguel. No plano de fundo, algumas árvores esguias distribuem uma sombra leve, esburacada por manchas dum sol amarelo-rosado; à esquerda do tronco, o chão é azul, à direita a puxar para o malva-lilás, em baixo a cor é um verde-musgo. Ao que parece, era francamente violeta quando quadro foi exposto no Salon de 1881, o que levou Huysmans a dizer “que era demasiado fácil”. O caçador ocupa a direita da zona média do quadro. Está espartilhado, metido num casacão verde-escuro, com enormes botões dourados, apertado por um cinto de fivela larga. Por baixo conseguimos ver as mangas duma camisa branca, e o colarinho aberto à volta dum pescoço de lutador. Joelho direito por terra, carabina de dois canos apontada para o chão e cuja coronha brilha sobre o cotovelo direito, metido numas botas formidáveis de cabedal preto, das quais ressaltam uns vagos brilhos, o homem parece manter-se à espreita. Mas de quê? Não terá ele visto o leão que jaz, abatido, atrás de si? Estará à espera de outro? Ou tem medo que lhe roubem o tapete de cama? “A pose deste caçador de suíças, que parece andar aos coelhos nos bosques de Cucufá, é infantil”, escreve ainda esse sacana do Huysmans. De facto, o homem tem mais o ar de quem enfiou a cabeça no buraco que existe nesses cenários artificiais e ingénuos de feira de província a fingir uma caça aos leões. Uma cabeça de rústico inexpressiva, ou de alguém que exprime sentimentos ridículos, apanhada de surpresa numa posição de desagrado, vagamente desconfiada, do género o primeiro que aparecer leva com um tiro. Espesso, entumecido, sobrancelhas grossas, arqueadas, farto bigode de morsa que lhe tapa a boca, enormes suíças tipo costeleta em volta dum duplo queixo que desponta. Exibe um chapéu de copa alta e preta com uma fita azul e nela uma pena de enfeite. O tom da pele é dum rosa salsicha, duma carnação barrenta (as cores, também se alteraram: segundo Jacques-Émile Blanche, no início “as carnes eram vermelhas como um tomate”). A criatura assemelha-se bastante à ideia que fazemos dum antigo taberneiro vindo das berças, um carvoeiro, a quem ficariam melhor o esfregão ao ombro do que propriamente a espingarda. A bota do pé esquerdo é realmente terrível. Ninguém vai discutir com uma pessoa que usa umas botas daquelas. O olhar tem uma fixidez idiota.»

[in Um caçador de leões, de Olivier Rolin, trad. de Tiago França, Sextante, 2009]

George Steiner vem a Lisboa receber doutoramento honoris causa

Em cerimónia solene que se realiza a partir das 15h00, na Reitoria da Universidade de Lisboa, o grande crítico literário George Steiner, um dos gigantes do pensamento cultural contemporâneo, receberá «as insígnias do grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, através de proposta do Centro de Estudos Comparatistas (CEC) da Faculdade de Letras». Apadrinha-o, no acto, José Pedro Serra, Professor Associado com Agregação do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
A entrada é livre.

Viagem ao centro da Biblioteca Nacional

Comboios de Livros
Autores: Duarte Belo e Maria Inês Cordeiro
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-37-1445-6
Ano de publicação: 2009

Na gíria dos bibliotecários, uma estante é um «comboio de livros». Nas prateleiras-carruagens, os volumes juntam-se, acumulam-se, ordenam-se e esperam o momento em que alguém os convoque para a viagem extraordinária que é a leitura. Levando a metáfora ao limite, as bibliotecas seriam estações ferroviárias com múltiplas linhas e a Biblioteca Nacional (BN) corresponderia à maior de todas elas, uma utópica estação central para onde convergem todos os carris e comboios possíveis.
É ao interior desse monstro de organização e papel, esse imenso depósito de tudo o que se imprime no país desde há séculos, que este livro nos transporta. O olhar do fotógrafo Duarte Belo demorou-se nos muitos tesouros que a BN partilha (com os investigadores dos mais variados temas), preserva e resguarda: mapas, pergaminhos, incunábulos, partituras, manuscritos, correspondência de escritores, jornais antigos, volumes em Braille, microfilmes, acervos de bibliófilos, livros muito raros. A acompanhar as imagens, bloco a bloco, o texto de Maria Inês Cordeiro vai explicando a estrutura, o funcionamento e as particularidades técnicas da BN, da Sala de Leitura aos sistemas de catalogação, da Torre do Fundo Geral às áreas onde os volumes são expurgados dos insectos que os devoram, dos cofres onde se guardam os exemplares mais preciosos aos longos corredores que cruzam um edifício sempre em expansão.
A abordagem é bastante completa e não falta sequer um enquadramento histórico (menciona-se o alvará que criou a Real Biblioteca Pública da Corte, em 1796, e os vários espaços por onde a maior biblioteca do país foi passando: Torreão Ocidental do Terreiro do Paço, Convento de S. Francisco, Campo Grande), mas lamenta-se que a prosa assuma um registo tão institucional, por vezes a raiar o pomposo e quase sempre excessivamente didáctico.
A paginação das fotografias é inteligente, criando o seu próprio discurso, embora a falta de legendas lhe retire, nalguns casos, a necessária legibilidade.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Sítio do Livro

A ideia é «publicar e comercializar, exclusivamente pela Internet, obras que não se encontrem à venda no circuito livreiro». Está tudo explicado aqui.

Como comer um poema

Os dois primeiros versos de Eve Merriam dizem logo o principal: «Don’t be polite. / Bite in.»

Morreu o ‘pai’ dos livros pop-up modernos

waldo

Chamava-se Waldo Hunt. Tinha 88 anos. Obituário aqui.

Lançamento de ‘O homem que não tira o palito da boca’

O novo livro de contos do escritor angolano João Melo (uma edição Caminho) será apresentado por Ana Paula Arnauth (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), a partir das 18h30, na livraria Pó dos Livros.

Manhattan

Li com interesse esta micro-entrevista a Kevin Brockmeier, no blogue de livros do New York Times. Gostei particularmente da descrição que Brockmeier faz do seu método de escrita:

«I can’t remember who said that writing a story is like cleaning a kitchen floor: you begin with one small square of tile, which you sweep to its borders, making sure you’ve removed every speck of dirt. After that, you scrub the square with a wet cloth, treating the deeper stains. Then you buff it dry. Then you move on to the next square and repeat the process. When you’ve finished with the second square, you return to the first to see if it needs any additional attention. And so you continue, square by square, until you’ve cleaned the entire kitchen floor.
The idea here is that people will object, “But that’s not how you clean a kitchen floor at all — first you sweep the whole thing, then you mop the whole thing, and then, finally, if you have to, you return to the spots that need additional work,” and you can say: “Which is how writing a story works, too. You’ll never achieve anything unless you attack the whole of it in one go and address the small problems later.”
Except that I really do treat a story square by square, sentence by sentence, attempting to remove each minute speck of dirt, so that when I finally reach the end I can look back and see a shining white floor behind me. On a good day, I can finish a single manuscript page of writing this way — sometimes more, often less.
What else? I can tell you that I never begin working on a story until I have a title centered at the top of the first page. I think of the title as the target toward which I shoot the arrow of the story. Then, title in place, I broach my sentences one tiny piece at a time, termiting away at them until I’m satisfied that they present the right effect. Often I become attached to certain simple words — city, song, half, pocket, dead, ceiling, house, silence, wound, light — words that call little attention to themselves, that have nothing antique about them, but that seem to trail a thousand centuries of stories behind them, arriving in a great dust cloud of possibilities.»

Mas o que me impressionou mais, confesso, foi a fotografia do escritor (assinada por Ben Kraln):

Eu também costumo empilhar livros em colunas periclitantes, ou em espessas muralhas no topo das estantes, mas nada que se compare com isto. Cá em casa há uns quantos arranha-céus de papel em certas esquinas, enquanto Brockmeier, mais corajoso, não tem medo de sorrir à sombra de uma ameaçadora Manhattan de hardcovers e paperbacks, em vias de lhe desabar em cima, como o céu sobre as cabeças dos irredutíveis gauleses.

A literatura nas trincheiras

Entre dois combates, presos no interior de labirintos escavados na lama, os militares da I Guerra Mundial não se limitavam a fumar, a escrever cartas à família e a lidar com o desespero da fome, do frio e da morte iminente. Também liam.

Três poemas de António Osório

MORGUE

Um rosto quase de criança,
robustas mãos de operário.

Calmo sobre a pedra.
Náufrago dormindo.

Esses abutres que rasgam,
medem, pesam
e escrevinham,
não registam
o sangue
já enegrecido,
nem a mortal,
a fétida exalação.


CAMÕES

Lia-me Camões meu Pai.
A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.


O CANTO DO CISNE

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.

[in A Luz Fraterna – Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009]

A cerimónia do chá

mil_grous

Mil Grous
Autor: Yasunari Kawabata
Título original: Sembazuru
Tradução (do inglês): Mário Dias Correia
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 149
ISBN: 978-972-20-3609-2
Ano de publicação: 2009

Primeiro nipónico a ganhar o Nobel de Literatura, em 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972) é o epítome do escritor japonês do século XX, capaz de fazer a ponte entre tradições literárias seculares e uma modernidade por vezes traumática. A sua prosa – concisa, elegante, contida, poética, subtil, despojada – tende a gerar nos leitores ocidentais uma avalanche de lugares-comuns e comparações redutoras ou disparatadas. Não falta quem associe o seu estilo delicadíssimo aos requintes estéticos do origami, do netsuke (pequenas esculturas em madeira ou marfim), do ikebana (arranjos florais) ou do ukiyo-e (estampas do período Edo). Os livros de Kawabata, porém, são apenas e só literatura. Da melhor que se fez nos últimos cem anos, no Japão ou noutro lugar qualquer. E isso devia bastar.
Publicado como folhetim na imprensa, entre 1949 e 1951, Mil Grous começa com uma cerimónia do chá, minuciosamente descrita. Kikuji Mitani, um rapaz solteiro, bom partido, que perdeu recentemente a mãe e o pai, é convidado para a cerimónia, um acontecimento social com rituais muitíssimo codificados, por Chikako Kurimoto, antiga amante do seu progenitor. Ao melhor estilo das alcoviteiras, esta pretende empurrá-lo para Yukiko, boa aluna na refinada arte de preparar o chá e uma potencial noiva prendada. Embora se sinta atraído pela graciosa rapariga, Kikuji acaba por fugir ao esquema montado por Kurimoto, envolvendo-se antes com uma sua antiga rival, a senhora Ota, também ela amante do Mitani mais velho.
Eis então uma história sobre as maldições do amor, que aparece, desaparece e reaparece como um fantasma cruel, uma assombração que paira sobre as personagens e as sufoca, empurrando-as para os tormentos da culpa, do desgosto e de um intangível «grau de escuridão». Por baixo das visitas de cortesia e dos diálogos elípticos, há emoções reprimidas, em carne viva. Kawabata só nos deixa espreitar esses abismos pelos interstícios de uma escrita sóbria, aparentemente à superfície das coisas, mas que nessa superfície descobre minúsculas fissuras, os sinais da irremediável ruína em curso. Exemplo: a «leve sugestão de vermelho» na borda de uma chávena antiga, mancha talvez «feita por lábios», há séculos ou há décadas, marca de presenças humanas que se repercutem através dos tempos e que nem a morte consegue apagar.
Ao atribuir o Nobel a Kawabata, a Academia Sueca destacou a sua mestria narrativa – «que com grande sensibilidade expressa a essência da mente japonesa» –, exemplificada em três dos seus romances. Um deles era Mil Grous. Percebe-se porquê.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no número 84 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Mar Largo, de Vítor Nogueira (&Etc), por António Guerreiro
Uma História da Felicidade, de Darrin McMahon (Edições 70), por Luís M. Faria
Comboios de Livros, de Duarte Belo e Maria Inês Cordeiro (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
O Santo Condestável – Alegações do Cardeal Diabo, de Tomás da Fonseca (Antígona), por Hugo Pinto Santos
Sou o Último Judeu – Treblinka (1942-1943), de Chil Rajchman (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Dicionário do Judaísmo Português, de Vários Autores (Presença), por António Valdemar
No Bosque do Espelho, de Alberto Manguel (Dom Quixote), por Álvaro Manuel Machado

Queimar Tróia

«JOANA
Sonhaste com o cavalo dentro das muralhas de Tróia.

VASCO
No sonho não sabia que era Tróia. Era um grande cavalo de madeira.

JOANA
Podia ser uma memória de infância.

VASCO
Não, era gigantesco.

JOANA
E então?

VASCO
Então ficou noite. Quer dizer, foi à noite, alta noite, mas foi à noite no sonho, abriu-se um alçapão e saíram de lá vários homens. E os homens que saíram eram os teus amantes.

[silêncio]

JOANA
Vou sair.

VASCO
À Rua Augusta?

JOANA
Vai-te foder.

VASCO
Fica.

JOANA
Não, desculpa, não estou para isso. No meio de tanta ironia e erudição és um homem como os outros, como o meu pai, uma mulher não se pode dar com outros homens, ter uma vida, um passado, não ter vergonha nisso, o mundo começa quando vocês nos encontram, estamos reduzidas a virgens, virgens ou putas, já se sabe, nenhum homem nos amou, todos os homens nos foderam, e vocês são os primeiros homens, os primeiros na lua, um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade; mas eu não te peço desculpa pelo cavalo de Tróia, não te explico, não me arrependo, não minto nem fujo. Houve outros homens e haverá outros, se isto não funcionar, mas sou tão fiel como tu. Monogâmica em “série” como tu dizes. Se estou contigo, não é com os teus truques que escapas a isso, que inventas o que não existe, que não sofres fingindo que te chocas. Eu não sou assim, e se pensas que sou estás enganado. Não preciso para nada dos teus cavalos de Tróia.

VASCO
Eu gostava que não existisse mais nada no mundo.

JOANA
Senão tu e eu?

VASCO
Sem ex, sem Y, sem Augustos e ruas augustas.

JOANA
Não somos náufragos numa ilha. Nem escravos. Nem somos a mesma pessoa. Somos duas pessoas diferentes que vivem no mundo e que gostam uma da outra.

VASCO
Que gostam.

JOANA
Que gostam. Eu sou mais cautelosa que tu com as palavras.

VASCO
Foi um sonho que tive porque tive esta preocupação, eu não disse que tens amantes, antigos ou novos, a sair de dentro de um cavalo, que trouxeste um cavalo armadilhado para as nossas vidas e de lá saem homens que são teus amantes. No sonho eram amantes, porque eu tenho medo, e tenho medo porque sou cauteloso com as palavras. Tenho medo não do teu passado, porque toda a gente tem um passado, mas medo do futuro, de repente temos uma coisa boa do lado de fora da muralha, um presente, uma trégua, um sinal de retirada, e quando está dentro da muralha, dentro de nossa casa, dentro da nossa cama, é um desastre, uma traição. A traição não é tua, é nossa, que fomos ingénuos e confiantes. Que achámos que não há inimigos, que cada desconhecido não é um inimigo, que isto que temos não sofre ameaças, até que somos inimigos um do outro.

JOANA
Eu nunca serei tua inimiga.

VASCO
Eu nunca serei teu inimigo.

JOANA
Queima o cavalo de Tróia, meu querido. Esquece os sonhos quando acordares do sono, esquece o medo quando estiveres com medo, nós estamos nisto juntos e, como tu dizes do teu Deus, se não há liberdade não há mérito. Vamos viver a liberdade sem cavalos nem medos nem códigos.

VASCO
Não são ciúmes, percebes? O ciúme é um medo.

JOANA
Não tenhas medo.

VASCO
E o cavalo de Tróia não é uma teoria minha, foi uma imagem, uma imagem que apareceu, uma imagem triste e perversa e livresca, mas eu queimo o cavalo se o queimares comigo, queimo até Tróia, se tu a queimares comigo.

JOANA
Queimas Tróia? Mas nós não vivemos em Tróia?

VASCO
Não, minha querida, nós vivemos no mundo.»

[in Nada de Dois, de Pedro Mexia, Tinta da China, 2009]

A vida imita a arte (etc.)

Eis a capa do último romance de Ricardo Adolfo, publicado recentemente pela Alfaguara/Planeta. É uma história sobre um «imigrante ilegal numa cidade que não conhece e cuja língua não fala».

Fotografia publicada no Correio da Manhã, a acompanhar a notícia sobre uma embaraçosa tentativa de assalto a um supermercado em Almancil, perpetrada há dias por um imigrante romeno de 22 anos.

Lembrete

Lançamento do novo livro de Pedro Mexia, Nada de Dois (Tinta da China), às 19h00, no foyer do Teatro Aberto. Apresentação de Blackpot, um policial inédito de Dennis McShade (Assírio & Alvim), a partir das 21h00, no Bar Maria Caxuxa (Bairro Alto).

Pós-Twilight

Primeiro, houve a escola de feiticeiros de Harry Potter. Depois, os vampiros castos de Stephenie Meyer. Qual será a próxima temática a subjugar globalmente os leitores da categoria «young adults»? Há apostas para todos os gostos: desde mais variações vampirescas a zombies e anjos caídos.

Um tempo sem bainha

O cão das ilhas
Autora: Maria da Conceição Caleiro
Editora: Sextante
N.º de páginas: 269
ISBN: 978-989-8093-86-8
Ano de publicação: 2009

No princípio, é a fuga. Perseguido por amar quem não devia, num arquipélago atlântico nunca nomeado (mas que só pode ser os Açores), Rafael escapa à «insânia» insular e aos seus atavismos sociais. A bordo de um cargueiro, viaja clandestino até ao porto francês do Havre, ferido depois de se lançar no «buraco negro» do porão, cheio «de lâminas que pareciam aguçadas» e «de espadas na boca do breu». Onde se lê porão, leia-se passado. Porque embora a sua vida pareça endireitar-se, sobretudo a partir do momento em que chega a Paris e seduz uma compatriota (Pilar), Rafael nunca cura a ferida original, a negação do amor por Zarina (Cesarina) que há-de envenenar tudo e provocar nele uma espécie de deriva sonâmbula por «um tempo sem bainha». Outras personagens consertam o passado, enganando-o, como Melina: «Trato-o como se fosse uma festa de carnaval, encho-o de máscaras e de plumas.» Mas para Rafael o que vem de trás é um «cortejo fúnebre», uma enxurrada, torvelinho de fantasmas que não se pode conter e que desemboca, fatalmente, numa tragédia.
Romance polifónico, feito de vozes que se cruzam, completam e contradizem, O cão das ilhas é um livro canibal; ou melhor, um livro autofágico, que se alimenta tanto da tradição literária de que emerge como da sua própria matéria textual – essas «imagens ao assalto de muitas outras imagens». Mais do que a história que narra (simples e arquetípica de um certo machismo lusitano), o que interessa a Maria da Conceição Caleiro parece ser o exercício da linguagem e as oscilações do estilo: da nebulosa lírica inicial à crueza fotográfica dos capítulos intermédios, culminando na vertigem da última parte (em que restam apenas vozes; vozes perdidas no escuro e entregues a um strindberguiano «teatro das almas»).
Por arriscar muito no romance de estreia, Conceição Caleiro nem sempre consegue controlar o ímpeto da prosa. Há dezenas de páginas sem mácula, exemplares, mas também algumas passagens menos conseguidas, hesitações, excrescências. Nada que afecte a certeza de estarmos perante uma verdadeira escritora, ainda por cima capaz de escrever cenas de sexo com uma intensidade erótica e uma verosimilhança raríssimas na literatura portuguesa.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 84 da revista Ler]

Feira do Livro de Belgrado

Eu sei que hoje é dia de Bósnia, mas não resisto a dirigir a vossa atenção para outras paragens balcânicas, onde o João Sousa André deambulou por entre stands de editoras e livrarias sérvias. Ver aqui e aqui.

A televisão que me interessa

[via blogue da Bruaá]

Apanhar cogumelos

Última pergunta, e última resposta, da entrevista que Manuel Halpern fez a Peter Handke (publicada na edição de hoje do Jornal de Letras):

Então, agora sim, esta é a última pergunta: o que anda a escrever? No que está a trabalhar?
Eu vivo numa grande floresta em França, e esta é a altura dos cogumelos. Por isso, o meu trabalho de momento é andar pela floresta a apanhar cogumelos. Claro que também escrevo. Eu gostava de morrer a escrever. A escrita é o meu país. Mas não o quero estar para aqui a aborrecer com os meus projectos.

Eu não apanho cogumelos. Nem nesta altura do ano, nem em nenhuma outra. Hélas. Também não vivo em França. Hélas. Mas percebo aquilo de «morrer a escrever». Eu não me importava de morrer a escrever, embora preferisse morrer a ler. A leitura é o meu país.

Presente envenenado

O Aniversário de Astérix & Obélix – O Livro de Ouro
Autor: Albert Uderzo
Título original: L’Anniversaire d’Astérix et Obélix – Le Livre d’Or
Tradução: Maria José Magalhães Pereira e Ana Paula Duarte Caetano
Editora: ASA
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-23-0653-7
Ano de publicação: 2009

Há precisamente meio século, nas páginas do número inaugural da revista Pilote, nascia uma das mais originais e inteligentes séries de BD de sempre. Aliando a imaginação transbordante de René Goscinny ao traço perfeccionista de Albert Uderzo, as aventuras de Astérix e Obélix deslumbraram gerações sucessivas de leitores, transportando-os para a Gália do ano 50 A. C., quase toda conquistada pelas legiões romanas, à excepção da célebre aldeia de irredutíveis gauleses que resiste «ainda e sempre ao invasor», esse microcosmos narrativo em que Goscinny projectava, através de engenhosos anacronismos, retratos ácidos da nossa contemporaneidade. O problema é que Goscinny morreu (em 1977) e desde então Uderzo, que passou a acumular as funções de argumentista e desenhador, nunca soube preencher esse vazio, nunca foi capaz de superar uma orfandade criativa maior do que o seu talento. A deturpação progressiva do espírito da série – mantida por razões essencialmente comerciais (a «marca» Astérix continua a vender milhões de exemplares, fora o merchandising e os parques temáticos) – atinge um novo limite com a publicação deste «livro de ouro», no qual Uderzo vai buscar as personagens de sempre (o chefe da aldeia, o ferreiro, o peixeiro, o bardo, romanos avulsos, Júlio César) e algumas figuras de álbuns antigos (Lucius Infectadus, Númerobis, os piratas) para com eles fazer uma cascata de homenagens a Astérix e Obélix, tendo como mote o seu 50.º aniversário.
O resultado é uma coisa invertebrada, descosida, um amontoado de cenas desconexas e pouco inventivas, uma espécie de medley de temas recorrentes (os javalis, a poção), ideias falhadas e puros disparates (a passagem de modelos, as insistentes referências a grandes pintores, o cameo de Marsupilami). O único momento verdadeiramente conseguido do livro acontece na página 8, quando Uderzo aparece na aldeia, todo engravatado, e Obélix lhe aplica o correctivo que costuma aplicar aos romanos. Ao aterrar, sem dentes, Uderzo diz isto: «Reconhefo que a ideia voi inveliz! Defculpem! Vuro que não volta a acontefer!» Mas será que o autor deste desastre vai dar, como devia, ouvidos a si mesmo?

Avaliação: 1,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A 16.ª FNAC

É inagurada hoje e abre amanhã, no GuimarãeShopping. O investimento da multinacional francesa é de 3,5 milhões de euros, com a criação de 80 postos de trabalho. A loja tem 1800 metros quadrados e 20 mil referências relativas a livros.

Festa dos Livros Gulbenkian

De 26 de Novembro a 23 de Dezembro, todos os dias, das 10h00 às 20h00.

‘Nada de Dois’

O Pedro Mexia tem novo livro: Nada de Dois, edição Tinta da China. Vai ser lançado dia 19, às 19h00, no foyer do Teatro Aberto (Lisboa), com apresentação de Nuno Artur Silva e leitura de excertos por Joana Seixas e Albano Jerónimo.

Seres linguísticos e heróis mudos

«Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logaritmo da sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz fosforescente de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa – e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento; todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.
A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma – um terremoto, um meteoro ou um incêndio – tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que tinham perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.
Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o maucheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado do seu mundo moribundo. Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços. Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte, mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.»

[in Ó, de Nuno Ramos, Iluminuras, São Paulo, 2008]

Três vidas

marie_ndiaye

Abençoada Internet. Há uns anos, encomendar um livro francês recente nas livrarias portuguesas era coisa para semanas. Hoje, é questão de dias. Assim que foi anunciado o Prémio Goncourt 2009, a 2 de Novembro, fiz a encomenda numa das maiores livrarias online do mundo. Menos de 48 horas depois, entregavam-me em casa um exemplar de Trois Femmes Puissantes (Gallimard, 317 págs.), o romance de Marie NDiaye que começou por conquistar a crítica literária, sendo mesmo apontado como o «acontecimento» da rentrée editorial deste ano, para depois convencer à primeira volta – por maioria dos votos (cinco em oito) – o júri da Academia Goncourt, de que fazem parte Michel Tournier, Jorge Semprun, Tahar Ben Jelloun e Bernard Pivot, entre outros.
Nascida em Pithiviers, no departamento de Loiret, em 1967, de mãe francesa e pai senegalês, NDiaye foi uma autora precoce. O seu primeiro romance (Quant au riche avenir), escrito aos 17 anos, foi descoberto e publicado por Jérôme Lindon, responsável pelas Éditions de Minuit. Aos 42 anos, esta mulher que estudou Linguística na Sorbonne e vive em Berlim desde 2007 (saiu logo após a eleição do Presidente Sarkozy), mulher inteligente e «poderosa», para usar o adjectivo que caracteriza as suas mais recentes personagens femininas, conta na sua bibliografia com dez romances, um livro de contos e quatro peças de teatro – uma das quais, Papa doit manger, integra o repertório da Comédie Française.
O facto de NDiaye ser a primeira mulher negra a vencer o Goncourt poderia sugerir uma decisão politicamente correcta por parte do júri, mas a leitura de Trois Femmes Puissantes afasta de imediato essa suspeita. Se venceu o Goncourt, é porque se trata de um belíssimo romance, estruturalmente sólido, com uma extraordinária caracterização psicológica das personagens e um trabalho sobre a linguagem de um requinte raro na literatura francesa contemporânea. Esqueçam os dramas urbanos de burgueses entediados e prisioneiros de uma certa aridez formal pós-Nouveau Roman. Aqui é a realidade que pulsa e magoa, enquanto somos forçados a tocar as arestas do quotidiano e entramos na cabeça das personagens como no anfiteatro do mundo. Composto por relatos autónomos, subtilmente interligados, o livro assenta em três pilares: Norah (advogada que regressa ao Senegal a pedido do pai, para defender o irmão preso e aprender a lutar contra o caos que invade a sua vida); Fanta (uma emigrante desenraízada, cujo perfil emerge do labirinto mental do marido); e Khady Demba (símbolo trágico e melancólico dos muitos africanos que morrem todos os anos na tentativa de chegar à mirífica Europa).
Muito antes do frenesim mediático que o Goncourt está a gerar em torno de Trois Femmes Puissantes, Carlos da Veiga Ferreira, editor da Teorema, já tinha comprado o livro para Portugal. «Eu passo, todos os anos, três semanas de férias na ilha Graciosa e uma em Paris, no final de Agosto, em contactos com editoras. Desta vez, estive na Gallimard, onde me sugeriram o romance da Marie NDiaye. Li-o logo e fiquei fascinado.» Veiga Ferreira, que já em 2008 acertara em cheio, ao adquirir os direitos de Syngué Sabour: Pierre de Patience, do escritor franco-afegão Atiq Rahimi, antes de ele vencer o Goncourt, destaca em NDiaye a mestria narrativa e, sobretudo, «a escrita fortíssima».
Entregue o texto a um tradutor da sua máxima confiança (Carlos Correia Monteiro de Oliveira), o editor da Teorema conta lançar o livro em Abril de 2010, dois meses antes de uma ainda não confirmada vinda a Lisboa de Marie NDiaye, a convite da Fundação Gulbenkian.

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Magníficas raposas

Eis Vulpes Libris, um blogue feito por book foxes. Isto é, «small bibliovorous mammals of overactive imagination and uncommonly large bookshop expenses».

Lançamento de ‘Blackpot’ (policial inédito de Dennis McShade)

Convite Blackpot

Quinta-feira, no Bar Maria Caxuxa (Bairro Alto), a partir das 21h00. Apresentação de Anabela Mota Ribeiro, com João Lima à guitarra electrónica portuguesa.

As leituras de Marcelo

«Rebelo de Sousa apresentou, no seu “As escolhas de Marcelo”, a reedição do livro “Elegia para um caixão vazio”, de Baptista-Bastos, como o mais recente livro do autor. E dá opinião – um livro interessante como todos os de B-B. Vamos levar Marcelo a sério? Para quê?»

[Comentário, no Facebook, de José Teófilo Duarte]

Bolaño à beira-mar

Conheço muitos leitores que têm horror da praia. O vento, a areia, as famílias que falam muito alto, o barulho irritante das raquetas, poc-poc, poc-poc, os vendedores de bolas de Berlim e línguas-da-sogra não autorizadas pela ASAE, os rapazes loiros que projectam sombras nas páginas com as suas pranchas, as criancinhas que se perderam dos pais ou querem fazer chichi, os homens barrigudos que se põem a discutir o Benfica, Record debaixo do braço, a menos de um metro de distância. Eu, por mim, não me queixo. Quem se habituou a ler nos cafés da Graça, alheio ao tilintar da loiça, às canções foleiras da RFM e aos lamentos das velhinhas a caminho (ou no regresso) do centro de saúde, aguenta tudo. Com os anos, e após a passagem por várias redacções de jornal em open space, aprendi a criar uma espécie de capacete imaginário à volta da cabeça, uma redoma que me isola do mundo e me permite ler, ou escrever, como se estivesse na cela mais silenciosa de um mosteiro.

Na praia não é diferente. Chego, escolho um lugar que me parece mais abrigado (o sopé de uma duna, por exemplo), monto a cadeira de lona comprada num bazar de Aljezur, seguro no livro de forma a poder espreitar, por cima dele, a pequena lagoa onde os meus filhos chapinham, e entrego-me ao prazer da leitura sem hora marcada, ignorando olimpicamente o que os meus vizinhos fazem ou deixam de fazer. Depois, quando acabo um capítulo e não me apetece logo começar outro, pouso o livro, levanto-me, reparo enfim numa família que devora talhadas de melancia à minha esquerda, no casal estrangeiro com bonés de pala que se imagina em Roland Garros, poc-poc, poc-poc, poc-puf, na menina que perdeu o balde de plástico, na avioneta que arrasta uma faixa com publicidade a um clube nocturno, e estico os braços, flicto as pernas, aproximo-me da água, afiro a temperatura das ondinhas, desafio os miúdos para um passeio até às rochas lá ao fundo, ou deixo-me estar, pés afundados na areia molhada, a olhar para o horizonte. Sei que os tais leitores com horror da praia farão uma careta, mas isto, para mim, se não é o paraíso, anda lá perto.
Há um outro aspecto que me leva a gostar muito das leituras na praia. Se na cidade interrompemos o romance que estávamos a ler, é geralmente porque alguém nos telefonou e precisa da nossa atenção, ou porque chegámos à paragem de metro onde alguém nos espera, ou porque a assistente do dentista nos chamou para a cadeira da tortura. O telefonema, a conversa com o amigo ou o ruído da broca ocupam então o palco da nossa consciência e o que estávamos a ler fica remetido para um difuso segundo plano, como que atrás de cortinas pesadas, até termos de novo disponibilidade para pegarmos no livro, voltarmos atrás umas quantas páginas e retomarmos o fio da história. Na praia, pelo contrário, com os pés enterrados na areia molhada e a contemplar o horizonte, continuamos imersos na narrativa e recapitulamos diálogos, relembramos detalhes, estabelecemos nexos entre as cenas e, no limite, até projectamos certas personagens em certos banhistas que avançam mar adentro, com as costas vermelhas do escaldão da véspera e água pelo joelho. Aquele ali, por exemplo, podia perfeitamente ser o Senhor Palomar (o de Italo Calvino, entenda-se; não confundir com o blogger homónimo que anda a baralhar o meio literário português com o seu misterioso anonimato). E aqueloutro, muito alto e com pinta de alemão, talvez seja o fugidio Benno von Archimboldi, o escritor que se torna a obsessão de quatro académicos, na primeira parte do romance 2666, de Roberto Bolaño. E por falar nos quatro académicos, ainda agora, ao olhar por cima do ombro, vi um grupinho a olhar para o homem alto com pinta de alemão e era capaz de jurar que o grupinho, agora a fingir que contempla um castelo de areia, é composto por Jean-Claude Pelletier, Piero Morini (em cadeira de rodas e tudo, não faço ideia de como a transportaram até ali), Manuel Espinoza e Liz Norton, que transporta na mão direita um volume cujo título, se a vista não me atraiçoa, é Bifurcaria bifurcata.
O sol vai alto, propício a miragens de calor e alucinações literárias. Regresso à toalha, onde o Sony Reader me aguarda, espalmadinho, com as mil páginas de 2666 lá dentro. Num dos cantos do ecrã de e-ink, um grão de areia. Depois do regresso a Lisboa, verifico: ainda lá está. É a testemunha melancólica das férias que chegaram ao fim.

[Texto publicado no n.º 84 da revista Ler]

Um grande título

Edison’s Concrete Piano: Flying Tanks, Six-Nippled Sheep, Walk-on-Water Shoes and 12 Other Flops from Great Inventors.

Enrique Vila-Matas face a ‘Finnegans Wake’

«Como tengo insomnio, pasaré la noche con mi lenguaje nocturno. Me entretengo imaginando que soy un crítico, un especialista en ficción crítica. Y también imagino que me he pasado media vida leyendo Finnegans Wake en una edición de Faber and Faber de 1939, siempre acercándome a ella con cautelosos sorbos, porque esta última novela de James Joyce no es para leerla de un tirón, sino para abrirla en cualquier parte y sumergirse en su fascinante pluralidad, ambigüedad y lúdica riqueza. Siempre que me acerco al Finnegans lo hago sabiendo que estoy ante el más denso de los tapices y con el temor de que una vez más, como lector, me llegue una sensación, primero, de estar al borde del colapso y, después, el colapso mismo.»

É uma crónica do autor de O Mal de Montano, no suplemento Babelia, do El País. Continuar a ler aqui.

Os livros de Cortázar

Volumes assinados. Ou com dedicatórias. Ou anotados. Ou com marcadores (bilhetes, recortes de jornal, flores). Em suma, os livros e o que neles Julio Cortázar foi deixando. Para descobrir com calma.

Um poema (em três partes) de Zbigniew Herbert

PORQUÊ OS CLÁSSICOS

1.
no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colónia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

2.
os generais das guerras mais recentes
se algo semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

3.
se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

[in Escolhido pelas Estrelas, apresentação e versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 2009]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Espelho do Mundo – Uma Nova História da Arte, de Julian Bell (Orfeu Negro), por Celso Martins
Entrevistas da ‘Paris Review’, selecção e tradução de Carlos Vaz Marques (Tinta da China), por Luís M. Faria
Caroço de Azeitona, de Erri De Luca (Assírio & Alvim), por José Guardado Moreira
Mágoas da Escola, de Daniel Pennac (Porto Editora), por Vítor Quelhas
Os Anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler (Oceanos), por Ana Cristina Leonardo
A Consciência de Zeno, de Italo Svevo (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras (QuidNovi), por Luísa Mellid-Franco
O Aniversário de Astérix e Obélix – O Livro de Ouro, de Albert Uderzo (ASA), por José Mário Silva

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges