Um bom 2010


A Secret Heliotropism, de Nicola Dale (2006)

Os livros procuram a luz. Nós procuramos os livros.

Listas 2009

FICÇÃO ESTRANGEIRA

FICÇÃO PORTUGUESA

NÃO FICÇÃO

LITERATURA LUSÓFONA (BRASIL E PALOP)

  • Leite Derramado, de Chico Buarque, Dom Quixote
  • Cinemateca, de Eucanaã Ferraz, Quasi
  • O Mago, de Fernando Morais, Planeta
  • Pequena Enciclopédia da Noite, de Carlos Nejar, Quasi
  • Os limites do impossível, de Aldyr Garcia Schlee, ardotempo
  • O Poema, a Viagem, o Sonho, de Arménio Vieira, Caminho
  • O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, Caminho
  • Jonas, o Copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras
  • Pneuma, de Luís Carlos Patraquim, Caminho
  • Telefunken, de Luis Maffei, Deriva

POESIA PORTUGUESA

  • Últimos Poemas, de Nuno Rocha Morais, Quasi
  • Ofício Cantante, de Herberto Helder, Assírio & Alvim
  • Mar Largo, de Vítor Nogueira, &Etc
  • Mãe-do-fogo, de João Miguel Fernandes Jorge, Relógio d’Água
  • O Anel do Poço, de Paulo Teixeira, Caminho
  • Os Poemas, de Gastão Cruz, Assírio & Alvim
  • O Viajante Sem Sono, de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim
  • Os Selos da Lituânia, de Amadeu Baptista, &Etc
  • Um Circo no Nevoeiro, de Renata Correia Botelho, Averno
  • A Parte pelo Todo, de João Luís Barreto Guimarães, Quasi

Alain Badiou vs. Alain Finkielkraut

Eis um tête-à-tête entre dois dos mais influentes pensadores franceses contemporâneos, texto integral de um diálogo intenso e marcadamente ideológico, promovido pela revista Le Nouvel Observatoire. Sem surpresa, fico claramente do lado de Badiou.

O som inesquecível da linguagem

Os Poemas
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 372
ISBN: 978-972-37-1432-6
Ano de publicação: 2009

Um dos aspectos essenciais do trabalho de Gastão Cruz radica num certo culto da exigência que se manifesta tanto na análise dos livros alheios (cf. A Vida da Poesia, deste ano) como no escrutínio a que submete os seus próprios poemas. Talvez por isso, o corpus da sua obra poética tem sido sujeito a sucessivas depurações, de cada vez que GC volta a reunir todos os seus livros num único volume.
Os Poemas é a quinta recolha deste tipo e inclui os quatro livros publicados desde 1999 (data da anterior colectânea): Crateras, Rua de Portugal, Repercussão e A Moeda do Tempo. Como Luis Maffei realça no seu deambulante prefácio, não faz muito sentido distinguir o actual Gastão do antigo, porque esse antigo Gastão também «é novo». Nas palavras do próprio, «muito mudou, mas nada essencial mudou».
Entre as linhas de força que atravessam os 17 livros, e o seu arco temporal de quase meio século (1960-2006), está a preocupação obsessiva com a linguagem. Não por acaso, Maffei inicia o seu périplo pelos vários núcleos temáticos «gastonianos» precisamente pela análise do poema inicial do livro Câmpanula (1978):

SOM DA LINGUAGEM

Por vezes reaprendo
o som inesquecível da linguagem
Há muito desligadas
formam frases instáveis as

palavras
Aos excessos do céu cede o silêncio
as constelações caem vitimadas
pelo eco da fala

Quanto a uma maior «inteligibilidade» das últimas obras, apontada por alguns críticos, Gastão responde muito ao seu jeito: «A poesia nunca é inteligível, ou é-o sempre. Inclino-me para a segunda hipótese.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Crescimento dos e-books

Já tinha acontecido com o último romance de Dan Brown. Na Amazon, The Lost Symbol em versão digital vendeu mais do que a versão hardcover. Há dias, soube-se que no dia de Natal a maior livraria online do mundo comercializou mais e-books do que livros em papel. Será esta uma das tendências para 2010? Desconfio que sim.

Balanço de 2009

Como em 2008, amanhã deixarei aqui as listas dos melhores livros que li este ano, em cinco categorias (ficção estrangeira traduzida, ficção portuguesa, não ficção, literatura lusófona (Brasil e PALOP) e poesia portuguesa).

A segunda Suite

SUITE

Levantou-se cedo e está sentado
na sala de estar. Ainda está escuro.
Recorda-se quando aqui o Lluís Claret
tocou para os três, ele e elas as duas,
que o escutavam sentados no sofá
onde agora espera que comece a alba.
Como se num porto soasse uma sirene,
o
cello despedia-se da menina
com a segunda
Suite de Bach.

A tua mãe e eu tornamo-nos velhos,
mas isso nunca precisarás de ver,
diz o homem enquanto olha para o pátio.
Já canta algum pássaro quando pôs
aquela peça, tocada pelo Lluís,
e voltou a sentir sobre o seu peito
o suave peso da cabeça de Joana.
Agora, quando começa a clarear,
generosa, regressou
na segunda
Suite para Violoncelo,
que é por onde entra, desde que morreu, em casa.

[in Casa da Misericórdia, de Joan Margarit, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, 2009]

Um microsite para Margarit

A OVNI é uma microeditora que faz microsites para os seus autores. O de Joan Margarit merece uma visita. Entre informações úteis sobre a sua vida e obra, há um ficheiro áudio em que Margarit lê o poema Tres Dones (do livro Càlcul d’estructures). Vale também a pena visitar a página oficial do poeta, com textos em catalão, castelhano e inglês.

O javali e a orquídea

Casa da Misericórdia
Autor: Joan Margarit
Título original: Casa de Misericòrdia
Tradução: Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Editora: OVNI
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-8026-07-1
Ano de publicação: 2009

Num poema intitulado O Procurador de Orquídeas, o catalão Joan Margarit explica que começou «pelo lugar mais sujo da literatura»: nem mais nem menos do que o Mein Kampf, com as «palavras de Hitler, tão vulgares», a revelarem «um poço negro». Seguiu-se um acaso feliz:

Por sorte, choquei com a realidade.
Foi aí que começou a poesia,
nada fácil, sem esperanças.
Eu sempre fiz como o javali,
que busca e, delicado, escolhe e come
o bulbo, chamado
orquis, da orquídea.

Estamos, pois, diante de um autor que assume uma visão pouco lírica da poesia, mais preocupado com as raízes, cheias de terra, do real do que com as flores perfeitas da retórica. «Nada é poético na poesia», diz-se algures neste belo e magoado livro, mas a verdade não é tão simples, porque mesmo nos textos mais duros e desolados, mesmo nos versos com arestas cortantes, o lirismo irrompe, às vezes apenas no contorno de uma imagem surpreendente («dentro de nós, como dentro da música, / rugia o temporal de neve e ferro / que se desata quando a história passa a página») ou na justeza de versos como estes: «Ser velho é a guerra já ter acabado. / Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.»
Além das marcas da História, do frio e fome da infância em contraponto com a miséria de hoje («que nem sabe que é miséria»), os poemas lidam sobretudo com a solidão da idade e com a certeza amarga das ausências: a do pai («Não sei se agora nos entenderíamos, / dois homens velhos, cansados e desiludidos»), mas sobretudo a da filha morta, Joana, fantasma que assombra muitos dos poemas com um rasto de tristeza lancinante — cf. as páginas 19, 29, 37, 47, 65, 81, 83, 89, 93, 103, 109, 113, 123, 129. Eis um deles (o da página 123):

BAGAGEM

Quando vamos de viagem, eu e a tua mãe
fazemos as malas em cima da tua cama.
A roupa bem dobrada, os
necéssaires,
os livros, bilhetes e medicamentos,
espalhados mas em ordem.
Todas as viagens começam aqui,
neste espaçoso quarto íntimo
que pintámos de um fúcsia suave
ao saber que tu nunca mais voltarias.
O quarto ganhou raízes que, pouco a pouco,
se tornam profundas dentro da tua ausência.
Fazemos as malas para um comboio nocturno.

A memória «vai-se desfiando / como as cordas laceradas das barcas / que o temporal levou». É precária, sim, mas é também um esconderijo — como essas Casas da Misericórdia que acolhiam os órfãos da Guerra Civil Espanhola, os filhos dos fuzilados, lugares agrestes mas ainda assim menos agrestes do que a «intempérie». Lugares que Margarit compara à poesia, isso a que nos agarramos quando «não há mais nada», sabendo que «um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

LeYa na livraria Barata

O grupo LeYa estabeleceu uma parceria com a Livraria Barata (Avenida de Roma, Lisboa), tendo «como objectivo a revitalização e dinamização» de «um dos ícones do universo livreiro da capital». Do acordo faz parte a instalação, no piso -1 (onde costumava funcionar uma galeria de arte), de um espaço «dedicado aos Professores» e às editoras escolares integradas na Leya: ASA, Gailivro, Novagaia, Texto e Sebenta.

Dicionário sebaldiano

Através deste post de Pierre Assouline, descobri este excelente blogue de Sébastien Chevalier, onde, entre outras abordagens interessantes à obra de W. G. Sebald, se vai construindo um dicionário dos «lugares sebaldianos». A acompanhar com a máxima atenção.

E o livro do ano em Espanha, para os críticos do suplemento ‘Babelia’, foi…

Anatomía de un instante, de Javier Cercas (Mondadori), uma obra híbrida sobre a falhada tentativa de golpe de Estado, a 23 de Fevereiro de 1981, ensaio sobre o heroísmo dos três únicos deputados (Adolfo Suárez, Gutiérrez Mellado e Santiago Carrillo) que continuaram sentados nos seus lugares, impassíveis, quando os golpistas entraram no Parlamento e varreram as bancadas com rajadas de metralhadora. Esperemos que a ASA (ou a Porto Editora) já estejam a tratar da tradução para português deste livro.

Dois poemas de João Miguel Fernandes Jorge

Chamava-se Tito. Deu-lhe colar
de ouro, pele de raposa, boina de veludo vermelho.
Não te preocupes com o castanho olhar
única seta, único golpe, ferida

sobre a terra. É um dos vivos.
A prece lançou sobre ardente pedra

suspensa de um fio –
a luz, a casa entre muros.
Vã esperança aproxima o perigo a
cruel extremidade a claridade do dia
abre o holocausto da manhã.

Humilde, esvaído
as mãos, os trespassados pés, estirados os membros
rubro coração
rio de esperma dolente e desolado.

***

titus
Titus, o filho do artista, de Rembrandt van Rijn (1655)

***

«Tito, o filho de Rembrandt», disse o velho padre e
fazia o sinal-da-cruz e dobrava o joelho
quer em dias de paz e calor e vida quer
de tempestade ou de morte –
rondava em círculo e ceifava rente

onde passava a estrada real, a ponte, pedra a cair
ondulavam as ervas ao menor vento.
Pelo fim da aldeia
ia ao encontro do semeador – labaça negra
no maior mês do verão –
guerrilha táctil, os dedos
não para gostar como todos os outros
chegava para o amor, perfilado archeiro, soldado
da batalha que regressa e reconhece o único soberano, a

prece as oferendas que lhe são devidas
devotado, pérfido mortal.
Vê os lábios do barbeiro a cada passagem da navalha
e vai pelo sono da noite
a par do selvagem licorne recolhe o injusto lucro do dinheiro

Eros cunhou a sua própria moeda, livrou-o do engano –
mancha rósea, pétala de rosa flutua – começa a descer
desliza sobre o gelo de janeiro, aproxima-se agora a
passo de ferro
o fumo lá em baixo
cidade com as suas casas, estrada, palácio, profunda praça

ilegível. Nome escrito ao avesso
indiferente voz desse nome no ar gelado
sem qualquer som a voz nem os olhos
olhar. Sentiu as lágrimas, mas não devia chorar; a chuva
pelo estreito vidro da janela

[in Mãe-do-fogo, Relógio d’Água, 2009]

‘Os Três Reis do Oriente’

Um conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, incluído na antologia As Mais Belas Histórias Portuguesas de Natal (Quetzal, selecção de Vasco Graça Moura) e publicado online, ontem, pelo Diário Digital.

B.N.

Não é Biblioteca Nacional. É Bom Natal.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Volta ao Dia em 80 Mundos, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Ana Cristina Leonardo
Darwinia, de Robert Charles Wilson(Saída de Emergência), por José Guardado Moreira
Contos ao Vento com Demónios Dentro, de Alexandre Parafita (Plátano), por Vítor Quelhas
A Pedra da Lua, de Wilkie Collins (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI, coord. de Jorge Reis-Sá e Rui Lage (Porto Editora), por António Guerreiro
– Revista Criatura n.º 4, por Manuel de Freitas.
O Viajante Sem Sono, de José Tolentino Mendonça (Assírio & Alvim), por Hugo Pinto Santos
Casa da Misericórdia, de Joan Margarit (Ovni), por José Mário Silva
Os Poemas, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por José Mário Silva

Críquete & melancolia

Netherland – Terra de Sombras
Autor: Joseph O’Neill
Título original: Netherland
Tradução: Patrícia Xavier
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 252
ISBN: 978-972-25-2004-1
Ano de publicação: 2009

Não há nada pior, quando se começa a ler um livro, do que o excesso de expectativa. Sobretudo quando a obra em causa ainda não passou pelo crivo do tempo, o mais implacável dos juízes literários, nem se instalou confortavelmente no cânone (como, por exemplo, Dom Quixote ou Moby Dick). Para mim, o problema voltou a colocar-se em relação a Netherland, de Joseph O’Neill, romance de 2008 que teve uma recepção apoteótica por parte da crítica nos EUA (com entrada em quase todas as listas de melhores livros do ano), ganhou o Prémio Pen/Faulkner e ainda conseguiu o feito de se imiscuir nas restritas leituras ficcionais do Presidente Obama. Quando a fasquia é colocada lá muito em cima, tendemos a desconfiar. Mas felizmente o espectro da desilusão dissolveu-se em menos de nada.
Há duas linhas narrativas principais que atravessam Netherland. A primeira é a história de como Hans van den Broek, analista financeiro holandês a viver em Nova Iorque desde 1998, lida com a crise que ameaça o seu casamento. Logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, muda-se com a mulher (Rachel) de um loft em Tribeca para um apartamento no Chelsea Hotel, solução temporária que se eterniza, enquanto a insegurança que paira no ar vai minando os alicerces da família. Incapaz de suportar a lógica militarista da Administração Bush, sobretudo após a invasão do Iraque (2003), Rachel decide regressar a casa com o filho de ambos; isto é, a Londres, a cidade onde iniciaram a sua vida em comum. Hans fica então a morar sozinho em Nova Iorque, apanhado desprevenido por uma «infelicidade» que nunca antes sentira e aparentemente incapaz de escapar à paralisia emocional.
É então que emerge a segunda grande linha narrativa do livro, protagonizada por Chuck Ramkissoon, um imigrante caribenho que é o típico chico-esperto bem falante, com vários negócios duvidosos (uma agência imobiliária, um restaurante sushikosher, uma rede de jogo ilegal) e um grande sonho, digno da ideia de american dream: construir um gigantesco estádio de críquete em Nova Iorque. Para ele, este desporto inglês que só é jogado pelas comunidades imigrantes tem uma nobreza, um «ângulo moral», que o tornam a metáfora perfeita do que deveria ser uma nova América, pós-imperialista, aberta ao mundo e mais civilizada.
Antes do colapso das ilusões, provocado por uma certa «incompletude da fantasia», Chuck consegue introduzir Hans no fascinante submundo das equipas de críquete nova-iorquinas e dá-lhe a descobrir uma outra cidade, dos bairros mais pobres à miscelânea étnica de Coney Island Avenue, «aquela avenida imunda de comércio barato que cria um contraste quase surreal com os quarteirões residenciais que atravessa», uma «faixa de balbúrdia» que é uma amostra da «verdadeira Brooklyn». Mesmo se Chuck acaba mal (assassinado), são as transformações por ele induzidas em Hans que o ajudam a resolver os seus nós e dilemas existenciais, abrindo as portas à reconciliação familiar e a um belíssimo capítulo final, tão comovente quanto subtil.
Além de articular com espantosa eficácia os vários tempos desta história, Joseph O’Neill eleva-se muito acima da mediania devido ao requinte da sua prosa, sempre precisa, muitas vezes exaltante, e pródiga em pequenos achados poéticos (exemplo: as ruas que «cintilavam como se em cada uma delas houvesse uma madrugada»).

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cinco poemas de Joan Margarit

CASA DA MISERICÓRDIA

O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz,
executado.
A mãe, a miséria e a fome,
a instância que alguém lhe escreve à máquina:

Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.

O frio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.

***

SATURNO

Rasgaste os meus livros de poemas
e deitaste-os para a rua pela janela.
As folhas, como estranhas borboletas,
iam pairando por cima das pessoas.
Não sei se agora nos entenderíamos,
dois homens velhos, cansados e desiludidos.
De certeza que não. Deixemo-lo assim.
Tu querias devorar-me. Eu, matar-te.
Eu, o filho que tiveste durante a guerra.

***

VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.

***

SHOSTAKOVICH. SINFONIA “LENINGRADO”

Lembras-te? A Joana tinha morrido.
Tu e eu íamos de carro para o norte,
até ao apartamento em frente ao mar,
e ouvíamos esta sinfonia.
Começámos a viagem
numa manhã luminosa. No interior da música,
o dia era de muros cobertos de gelo,
sombras de transeuntes com sacas meio vazias
e trenós com cadáveres sobre o lago.
Como uma pista de aterragem ao sol,
a auto-estrada fugia e, através dos sons,
estendia-se a névoa dos obuses
e as impressões dos tanques na neve.
Era uma manhã de Julho de ouro azul
a lampejar no vidro do mar.
Nos metais e cordas ressoava
a glória, que está sempre no passado,
recusando, sempre recusando, a vida.

De noite ficava apenas o rumor
das ondas debaixo do terraço.
Por outro lado, dentro de nós, como dentro da música,
rugia o temporal de neve e ferro
que se desata quando a história passa a página.

***

O SAPATEIRO

Costumávamos jogar ali à bola.
A praça da igreja erguia-se
uns dois metros acima de umas pequenas hortas
que estavam ao lado de um sapateiro.
Quando a bola caía, algum dos nossos
tinha de ir rápido dependurando-se.
Se o sapateiro chegava lá antes,
cortava-a com o seu cutelo.
Não sei que pescoço cortava na bola
de borracha daquelas crianças. Dava-me medo.
Um medo que já não era o mesmo
que o dos contos ou do quarto escuro.
Era um medo mais duro. Mais real.
Como quando tu estavas com outro,
ou quando morreu a nossa filha.

[in Casa da Misericórdia, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, Ovni, 2009]

Prémio Luís Miguel Nava para A. M. Pires Cabral

O júri do Prémio Luís Miguel Nava acaba de me enviar o seguinte comunicado:

«O Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2009, agora bienal e referente aos livros de poesia publicados em 2007 e 2008, foi atribuído ao livro As Têmporas da Cinza, de A. M. Pires Cabral, publicado pelas Edições Cotovia.
No valor de cinco mil euros, o prémio, que, nas anteriores atribuições, foi concedido aos poetas Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães, Manuel António Pina, Luís Quintais, António Ramos Rosa e Pedro Tamen, correspondeu à decisão unânime de um júri constituído, como habitualmente, por quatro membros da direcção da Fundação Luís Miguel Nava, Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Luís Quintais, e um elemento convidado, desta vez o poeta e crítico António Carlos Cortez.
A limpidez e a precisão da escrita de A. M. Pires Cabral, a sua penetrante e austera visão dum mundo cuja expressão encontra numa espécie de imitação da terra o modelo para uma linguagem poética de invulgar intensidade, fazem deste autor um dos casos mais representativos da nossa melhor poesia contemporânea.»

‘I have just read a poem’

Não tendo meios para concretizar a «modesta proposta» feita pelo leitor V.Melo nesta caixa de comentários, fico à espera de que alguém a concretize. Prometo contribuir.

Mais um erro de impressão

Retirado daqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Netherland – Terra de Sombras, de Joseph O’Neill (Bertrand), por José Mário Silva
O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë (Presença), por Paulo Nogueira
A Lebre de Vatanen, de Arto Paasilinna (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
No Coração de África, de William Boyd (Casa das Letras), por Luís M. Faria
A Porta dos Infernos, de Laurent Gaudé (Porto Editora), por Ana Cristina Leonardo
O Chão dos Pardais, de Dulce Maria Cardoso (ASA), por António Guerreiro
Nocturno, de Cristina Carvalho (Sextante), por Vítor Quelhas

José Rodrigues dos Santos já vendeu um milhão de livros

Com a 11.ª edição de Fúria Divina (Gradiva), enviada para as livrarias esta semana, José Rodrigues do Santos ultrapassou a barreira do milhão de livros vendidos em Portugal, entre obras de ficção e não-ficção. Goste-se muito ou pouco (ou nada) dos livros do escritor-jornalista, é um feito.

O azar de Vasco Pulido Valente

Vasco Pulido Valente, é sabido, tem há muito tempo um problema com Portugal e com todos os portugueses que não se chamem Vasco Pulido Valente. À excepção dele próprio, tudo neste país é mau ou péssimo, trágico ou apocalíptico, um desastre que ele nos anuncia três vezes por semana, em crónicas infalivelmente pessimistas e biliares. Acontece que a realidade às vezes troca as voltas ao informadíssimo Vasco Pulido Valente, provando que ele talvez não seja tão informado quanto julga.
Vejamos a prosa que assina hoje na última página do Público. A ideia da crónica é enumerar aqueles que foram os seus «livros do ano» em 2009. Até aqui nada de mal. Qualquer leitor gosta de descobrir que livros mereceram fazer companhia aos romances de Clara Pinto Correia na mesa de cabeceira de VPV. E foram três: Wolf Hall, de Hilary Mantel, Prémio Booker (primeira escolha); A History of Christianity: The First Three Thousand Years, de Darmaid MacCulloch; e Alone in Berlin, de Hans Fallada.
O parágrafo final é Vasco Pulido Valente em estado puro: «Claro que Portugal não se interessará por Fallada, MacCulloch ou Mantel. A nossa crise não é só política, económica e financeira.» O destaque, que ignoro se é da sua responsabilidade ou do Público, vai ainda mais longe: «Claro que Portugal não se interessará pelos livros que recomendo aqui. Pior para ele».
Acontece que nem só Vasco Pulido Valente lê livros estrangeiros neste nosso rectângulo. Alguns editores também o fazem. Quanto a Fallada e MacCulloch, não sei se alguém está a pensar publicá-los por cá. Mas o livro de Mantel vai ser editado na próxima Primavera (Março ou Abril) pela Civilização, como noticiei no Expresso em Outubro, na semana em que Wolf Hall ganhou o Booker. E nem se trata de uma publicação a reboque do prémio. Como Simona Catabiani, directora editorial da Civilização, explicava nesse artigo, os direitos do livro foram comprados ainda antes do anúncio da longlist.

Uma questão de bom senso

Introduzir à pressa o acordo ortográfico nos programas escolares seria um daqueles erros estúpidos e precipitações graves em que os governos da República costumam incorrer, seja por ambição excessiva, seja por falta de planeamento estratégico, seja por incompetência. Ao desmentir a Ministra da Cultura, a Ministra da Educação fez o que tinha a fazer. E fez muito bem.

Lançamento de ‘Cerco Voluntário’, de Vasco Gato

As “Quintas de Leitura” acolhem esta noite, a partir das 22h00, no Café-Teatro do Teatro Carlos Alberto, o poeta Vasco Gato, que lançará o livro Cerco Voluntário, 13.º título da colecção “Cadernos do Campo Alegre”. Catarina Nunes de Almeida falará sobre a obra e lerá, com o actor Pedro Lamares e o autor, alguns poemas. Haverá ainda performance (Rouge, de Sónia Baptista) e música, primeiro com Marta Bernardes, Henrique Fernandes e as Balla Prop, depois com Tó Trips, membro da banda Dead Combo, que dará a conhecer temas do novo disco (Guitarra 66).
A entrada é livre, sujeita a levantamento de bilhete até ao limite da lotação da sala.
Alguns poemas do livro podem ser lidos aqui.

Quem quer saber o significado da palavra ‘avatar’?

Pelos vistos, muita gente.
Há uns meses, a média diária de pesquisas por esta palavra no Dicionário Priberam oscilava entre as 200 e as 500. Esta semana, em vésperas da estreia do muito publicitado e promovido filme Avatar, de James Cameron, o número de pesquisas subiu para 3500 por dia.

Maria do Rosário Pedreira transfere-se para a LeYa

O «comunicado» chegou há pouco e é bastante explícito:

«Na sequência de uma proposta de trabalho (Leya-se: irrecusável) para continuar a sempre fascinante descoberta de autores portugueses (mas não só), informo que cessarei as minhas funções como Editora da QuidNovi no próximo dia 31 de Dezembro. Foi um projecto que acarinhei praticamente desde a raiz e no qual trabalhei com uma equipa excepcional de que lamento, obviamente, separar-me; mas, a partir de certa idade, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos e, como tal, senti que não podia deixar de aceitar mais este desafio.
(…) Mais informo que a Ana Maria Pereirinha, que quase todos já conhecem, assumirá neste momento a responsabilidade por todos os projectos em curso.»

À Maria do Rosário Pedreira, que tem feito um trabalho excepcional enquanto editor (no sentido anglo-saxónico do termo), cujos frutos estão à vista na quantidade de novos autores de ficção portugueses que descobriu e trabalhou (entre os quais três Prémios Saramago: José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo), à incansável leitora quero daqui enviar um grande abraço e o desejo de que os seus novos projectos, como os anteriores, sejam coroados de êxito.
Quanto à QuidNovi, creio que fica, com a Ana Maria Pereirinha, em excelentes mãos.

PS – Mais informação nesta notícia do Público online.

Coetzee aos trinta e tal anos

A cada um a sua loucura. Há quem se atire de uma ponte com um elástico preso aos pés. Há quem durma várias noites ao relento para ficar junto ao palco nos concertos da Madonna. Há quem se feche com os amigos um fim-de-semana inteiro, disputando campeonatos de futebol virtuais na PlayStation. E há quem decida ler de uma assentada, em duas ou três semanas (no intervalo entre o anúncio da shortlist e o anúncio do vencedor), os seis finalistas do Man Booker Prize. Foi o meu caso em 2008. Foi o meu caso este ano. Em menos de 20 dias, mais de 2600 páginas. Uma espécie de suplício de Sísifo auto-infligido. Um desporto radical em versão literária. Uma maratona de leitura que começa por invadir todos os espacinhos livres da vida diária e depois também invade os espacinhos que não estavam livres. Um interregno de pura imersão narrativa, impossível de levar a bom termo sem uma disciplina draconiana e alvoradas às cinco da manhã.
Quando o último envelope da Amazon chegou, a pilha em cima da mesa metia respeito. Não só devido à espessura dos volumes; também pelo que os nomes dos autores prometiam. Toda a gente falava de uma colheita vintage, de um dos melhores Bookers dos últimos anos, e a expectativa não foi defraudada. Comecei por atacar The Glass Room, de Simon Mawer, um sólido romance sobre arquitectura, sexo, famílias, traições e o que acontece a uma casa perfeita quando os tempos não acompanham essa perfeição. Do autor mais jovem, Adam Foulds (também poeta), apreciei a elegância da escrita e o modo como explora, em The Quickening Maze, o tema da loucura (sem cair nas armadilhas que lhe estão associadas). A longa saga cheia de ramificações narrativas de A.S. Byatt (The Children’s Book) e o relato literalmente fantasmagórico de Sarah Waters (The Little Stranger) cumpriram o que deles esperava: perfeição estilística e domínio da forma romanesca. Mas não me empolgaram.
O primeiro sobressalto de entusiasmo aconteceu com Wolf Hall, a magnífica reconstituição que Hilary Mantel fez da corte de Henrique VIII, e da trajectória ascendente de um homem maquiavélico e ardiloso (Thomas Cromwell), saído da miséria em Putney para os bons ofícios do cardeal Wolsey, e mais tarde para o círculo mais íntimo do rei. Mantel escreve tão bem que chega quase a ser ofensiva e reconciliou-me com um género que há muito deixara de me interessar (o romance histórico). Por isso, o prémio final assenta-lhe que nem uma luva, além de fazer justiça a uma das mais subavaliadas escritoras inglesas. Se dependesse de mim, porém, teria escolhido J.M. Coetzee, fazendo dele o primeiro autor a ganhar três vezes o Booker.
Summertime (Harvill Secker, 266 páginas) é o livro com que Coetzee fecha a sua trilogia de memórias ficcionadas, iniciada com Boyhood (1997) – sobre a infância na Cidade do Cabo, no final dos anos 40 e início dos 50 – e Youth (2002), que descreve a sua vida em Londres, no início da década de 60, e as suas primeiras tentativas poéticas. Nessas duas obras, Coetzee fala de si mesmo na terceira pessoa e esse distanciamento reflecte o extremo cuidado com que o escritor sul-africano, conhecido pelo zelo posto na protecção da sua privacidade, aborda os materiais biográficos no processo de os transformar em literatura. Mesmo quando os factos são reais, o protagonista nunca é o verdadeiro Coetzee mas uma personagem em tudo semelhante, o seu reflexo no espelho da ficção.

coetzee
Ilustração de Pedro Vieira

Em Summertime, esta ambiguidade é levada ao extremo, pelo recurso a uma estrutura narrativa fragmentada e potenciadora das incertezas meta-literárias que Coetzee tanto aprecia. Em vez de uma história linear, o que o livro nos oferece é um conjunto de materiais que o biógrafo de Coetzee, um tal Mr. Vincent, reúne após a sua morte, tentando fixar uma certa época (os anos de 1972 a 1977), quando o escritor, então com trinta e poucos anos, ainda não era o escritor que veio a ser mas para lá caminhava. Vincent transcreve entrevistas com várias pessoas que terão conhecido Coetzee na altura (uma amante, uma prima, a mãe brasileira de uma das suas alunas, colegas do meio académico), além de excertos dos seus cadernos de notas. O retrato que emerge destes depoimentos em bruto – cheios de incongruências, animosidades, contradições – é de uma crueza devastadora. Coetzee surge-nos como um homem emocionalmente opaco, incapaz de se relacionar com os outros, um corpo estranho fechado sobre si mesmo (a amante acusa-o de autismo sexual), um feixe de ideias confusas à deriva numa África do Sul em pleno apogeu do apartheid. O Coetzee de hoje não doura a pílula ao Coetzee trintão, nunca contemporiza com as suas fragilidades e falhanços. Mas, paradoxalmente, isso só o torna mais humano.
O resto é a arte da linguagem. Ou seja, o esplendor da língua inglesa, elevada aos céus por um dos seus melhores cultores.

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 85 da revista Ler]

A 21 de Abril de 1976, escrevia Maria Gabriela Llansol:

«Abandono este dia, mas estou nele. Levo-o comigo. Tudo são associações, entradas por outras portas para outras salas, na porta seguinte está marcado um detalhe da porta anterior, e assim sucessivamente sem fim.»

[in Uma Data em Cada Mão – Livro de Horas I, Assírio & Alvim, 2009]

Erros de impressão

Ao descobrir estas deliciosas capas (inventadas pelo Irmão Karamazov), ocorreu-me logo a imagem do Cavalo de Tróia.

O best-seller inesperado

História do livro de Mark Haddon (O Estranho Caso do Cão Morto) que vendeu, improvavelmente, mais de dois milhões de exemplares. No i online.

Lançamento de ‘Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI’

É um dos grandes acontecimentos editoriais do ano (talvez mesmo o maior): a antologia de oito séculos de poesia nacional, com 267 autores, mais de dois mil textos (escolhidos por Rui Lage e Jorge Reis-Sá) e verbetes assinados por críticos como Eduardo Pitta, Arnaldo Saraiva, Giuseppe Tavani, Nuno Júdice, Fernando J. B. Martinho ou Fernando Guimarães.
A apresentação desta obra monumental, por Vasco Graça Moura, acontecerá logo à tarde, a partir das 19h00, na Fundação Medeiros e Almeida, em Lisboa. Os dois coordenadores do projecto estarão presentes e os actores Luís Lucas, Pedro Lamares e Carmen Dolores declamarão, no final, alguns dos poemas incluídos na antologia.
O livro tem 2150 páginas e custará 60 euros (54 na Wook). O índice alfabético dos autores pode ser consultado aqui.

Desmoronamento interior

Pudor e Dignidade
Autor: Dag Solstad
Título original: Genanse og verdighet
Tradução: Liliete Martins
Editora: Ahab
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-989-96340-1-5
Ano de publicação: 2009

Professor num liceu de Oslo há duas décadas e meia, Elias Rukla é um cinquentão em plena crise de meia-idade, «ligeiramente alcoólico» (gosta de misturar cerveja com aguardente) e casado com Eva Linde, uma mulher que foi em tempos de uma «beleza infinda» mas agora perdeu o encanto, engordou e transformou-se na enigmática figura feminina com quem toma o pequeno-almoço todas as manhãs, trocando um «bom dia» que é já só uma cristalização cordial do hábito.
Pudor e Dignidade narra o momento em que a existência de Elias Rukla implode. Numa segunda-feira de Outubro, diante dos seus alunos alheados, sob a habitual e densa nuvem do tédio adolescente, ele analisa pela enésima vez a peça teatral O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen, um dos «quatro grandes» da literatura norueguesa. Ao aperceber-se de como treme, segundo a didascália, a voz de uma personagem secundária do drama (o Dr. Relling), Rukla intui uma possível nova leitura da obra. E entusiasma-se. Pouco a pouco, tacteia uma verdade alternativa para o texto de Ibsen, mas os estudantes ignoram a iminência de uma epifania e saem mal toca a campainha, deixando-o a meio de um raciocínio.
A indiferença dos estudantes é a gota que faz transbordar o copo e acciona uma espécie de gatilho. Consciente da natureza inútil do seu trabalho, do desperdício que representa a suposta formação intelectual daqueles jovens imaturos, Rukla explode de fúria e canaliza-a para o guarda-chuva que não abre quando devia. Em pleno pátio da escola, o professor destrói à bruta o objecto (com as varetas partidas a encherem-lhe de sangue a mão) e insulta uma aluna. Ele sabe que chegou o tempo da «catástrofe», da «queda», do caminho sem volta para quem já não encontra lugar numa sociedade que mudou depressa demais e na qual não se reconhece (nem é por ela reconhecido).
A explicação para a tragédia íntima, para o atormentado «desmoronamento interior», surge depois, à medida que a prosa lenta e circular de Solstad encena um labiríntico regresso ao passado, mergulhando-nos na memória de Rukla e recapitulando de forma não linear a história da sua vida, da amizade com Johan Corneliussen, o tipo brilhante de quem ele foi a «sombra carrancuda», à relação complexa com Eva, a tal mulher belíssima que Johan em tempos trocou pela liberdade em Nova Iorque. É todo um trajecto feito de acomodamentos, ilusões perdidas, melancolia e uma radical solidão: «Havia desaparecido uma época, e ele limitava-se a ficar sentado, a falar consigo mesmo.» Eis o triste fim dos desistentes, fixado por Solstad à falta de Thomas Mann, «o único escritor que podia ter escrito um romance sobre ele, Elias Rukla, e que podia tê-lo escrito sem comiseração, sem lamentações, e com uma rara ironia».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Ao cuidado do Senhor Palomar:

«Abri um vinho, nos sentamos à mesa, contei a ela sobre meus projectos futuros, como o de reescrever Morte a crédito, de Céline. Expliquei-lhe que manteria a história intocada, personagens, enredo, não alteraria nada, exceto a pontuação.
Não entendo como um escritor como Céline, expliquei, pode usar reticências e pontos de exclamação de forma tão abusiva. Há páginas de Morte a crédito, continuei, que parecem a técnica didática preencha-as-lacunas, tamanha é a quantidade de reticências. Reticência é recurso de indeciso. E exclamação, de escritor deslumbrado. Céline não me parece nem uma coisa nem outra.»

[in Jonas, o copromanta, de Patrícia Melo, Campo das Letras, 2009]

Dois quadros de Winslow Homer

Girl Reading on a Stone Porch (1872)

The New Novel (1877)

[via Book Patrol]

Bibliofagus inveteratus

O Hugo Xavier, ex-editor da Cavalo de Ferro e um dos mais empenhados devoradores de livros com que alguma vez me cruzei, abriu um blogue. Nome: O Novo Ecléctico. Há muitas e boas razões para o ir lendo; a lista de «livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros» é só uma delas.

Quatro poemas de Vasco Gato

Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.

***

Entre veneno e cura,
eis-nos vassalos do tamborim
para o imemorial castigo da treva.
Os nossos corpos, dois vocábulos
que se estudam. Dancemos, pois,
para que entre nós se acerte a pronúncia,
que o terreiro sempre foi dialecto
do suor, pano estendido que por vezes
nos cinge e reserva, para logo
uma pata descurada
nos apartar com um esgar.
A tarântula rói já a um canto
a sua noite de esperanças,
seu alimento de pó.
Há braços que sobejam e regressam.
Enquanto esta aflição durar, estaremos
a salvo da guilhotina do sol.

***

A rapariga da muleta deixou cair a muleta.
O fogo espalhou-se, abriram-se
as borboletas
num susto evidente,
fizeram fila os táxis.
Os prédios mais altos, tão francos,
tão estruturalmente com varandas,
tão soprados
pelo soluço dos que nascem.
As borboletas cada vez mais altas,
as borboletas sem táxi, a varanda que caiu
com as flores intactas
da tua febre. Tenho agora o desastre
da tua roupa no meu chão,
o sangue feliz.

***

Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.

[in Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre/13, 2009]

Regresso da cicatriz

Publicado pela Black Sun em 2001, o livro já anda por aí, em nova edição (de autor), só à venda em «tabancas da especialidade». Aproveitai.

Uma leitura brasileira de ‘Caim’

Por Mariana Ianelli, aqui. Especialmente interessante é a referência ao diálogo que Saramago estabelece com A Odisseia:

«Entre idas e vindas no tempo, já cansado das “costumadas destruições e dos costumadíssimos incêndios”, Caim retorna à terra de Enoch e tem-se aí o capítulo mais belo do livro. Permutando os mitos pela Bíblia, o autor encena, no reencontro dos amantes Lilith e Caim, o reencontro de Penélope e Ulisses. Os movimentos sucedem-se como num jogo de espelhos. Vale a pena citá-los aqui, lado a lado: “(…) depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo/ de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro. / (…) / Ele começou por contar como primeiro venceu os Cícones / e chegou depois à terra fértil dos Lotófagos. / Também tudo o que fez o Ciclope (…)” (Odisseia, Canto XXIII). Em Caim: “Tranquilizados os espíritos, compensados da longa separação dos corpos com juros altíssimos, chegou o momento de pôr o passado em ordem. (…) Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu (…)”.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges