‘Homens Que Matam Cabras Só Com o Olhar’ (booktrailer)

Na semana em que chega aos cinemas portugueses Homens Que Matam Cabras Só Com o Olhar, de Grant Heslov (com George Clooney, Ewan McGregor, Kevin Spacey e Jeff Bridges), a Civilização lança o livro de Jon Ronson em que o filme se inspirou.

Dois poemas de António Ferra

GÓTICA DE CORPETE NEGRO

Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!

Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,

é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.

De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.

Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.

E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.


TATUAGEM

Ele tem um tigre gravado no braço
ela uma fada colada para sempre
ele uma árvore crescendo nas costas
ela uma ave voando no ventre

ele traz um gato pregado no braço
ela uma rosa bordada no seio
ele um lagarto atrelado à perna
ela uma estrela mesmo no meio

ele mostra a caveira rodeada de rosas
ela ramagens correndo-lhe o corpo
ele uma cobra subindo ao pescoço
ela mensagens de um pássaro morto

Eles pertencem àqueles que posam
entre cardumes azuis e vermelhos
ele com sorte, silêncio e futuro
ela com música a sair dos joelhos

Aqueles que adornam o seu próprio corpo
trazem imagens que alimentam a crença
de serem marcados por quem lhes pintar
um sinal na alma que lhes diga a pertença

[in Livro de Reclamações, Fabula Urbis, 2010]

O que aí vem (Edições Cosmos)

casamento-homossexual

Um tema actualíssimo e, como sói dizer-se, fracturante.

Prémio Literário Fundação Inês de Castro para José Tolentino Mendonça

O Prémio Literário Fundação Inês de Castro, cujo objectivo é distinguir obras inspiradas em motivos «inesianos», distingue este ano José Tolentino Mendonça, pelo livro O Viajante Sem Sono (Assírio & Alvim), publicado no final de 2009. O poeta, tradutor e professor de Estudos Bíblicos na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa receberá um troféu de prata e pedra, concebido pelo escultor João Cutileiro, num cerimónia oficial marcada para o próximo sábado, dia 6 de Fevereiro, pelas 17h00, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, na presença da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.
O júri do prémio – composto por Aníbal Pinto de Castro (presidente), José Carlos Seabra Pereira, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Mário Cláudio – decidiu ainda atribuir um “Tributo de Consagração” à obra poética completa de Manuel Alegre (Dom Quixote). Esta é a terceira edição deste prémio anual. Nas duas primeiras, foram distinguidos Pedro Tamen, pelos poemas de Analogia e Dedos (Oceanos, 2006), e Teolinda Gersão, pelo volume de contos A Mulher que Prendeu a Chuva e Outras Histórias (Sextante, 2007).

Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov

Faz hoje 150 anos que Anton Tchékhov nasceu. Filipe Guerra, seu tradutor (como é tradutor de outros clássicos russos), não esqueceu a data. No blogue O Vermelho e o Negro, por entre enlevos de avô babado, dedica-lhe este parágrafo:

«Faz 150 anos que nasceu Anton Tchékhov, um homem bom, e não um bom homem, senhora Revisora, de quem alguém me disse “gostaria que fosse meu pai”, mas não vou dizer quem, por suspeita de que haja nesse alguém eventual pudor, e na Rússia hoje é tudo Tchékhov, Tchékhov, Tchékhov. E depois? Depois, 150 anos depois, ainda se continua a descrever Tchékhov como o mestre da nostalgia, quando se trata de melancolia, doutores, que no tempo dele era uma doença (e no nosso tempo, se fores ao psicas e pagares bem), a melancolia dos escritores russos tal como a dos escritores de Istambul tão bem descrita pelo tchekhoviano Orhan Pamuk em Istambul (Presença), e, 150 anos depois, ainda se continua a dizer Cerejal ou, ainda mais poeticamente, Jardim de Cerejas, quando se trata de Ginjal, doutores, um grande pomar de ginjas para comercialização e industrialização (a cereja na época era demasiado frágil para isso), pomar que foi derrubado pelo pragmatismo económico da época e cujas machadadas melancólicas no abate arborífero deram azo ao mais belo momento de teatro que jamais vistes na vida, doutores.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Hannah Arendt e Martin Heidegger (Relógio d’Água), de Elzbieta Ettinger, por Ana Cristina Leonardo
Finisterra – O Trabalho do Fim: Recitar a Origem, de Manuel Gusmão (Angelus Novus), por António Guerreiro
Fumo Sagrado, de Guillermo Cabrera Infante (Quetzal), por Vítor Quelhas
Os Espiões, de Luis Fernando Verissimo (Dom Quixote), por José Mário Silva
O Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro (Edições Nelson de Matos), por Paulo Nogueira
Corpos Vis, de Evelyn Waugh (Relógio d’Água), por Rogério Casanova
Lavínia, de Ursula K. Le Guin (Presença), por José Guardado Moreira

Vem aí outro Roberto Bolaño (também póstumo, mas mais pequeno)

A primeira tradução mundial é portuguesa e vai ser editada pela Quetzal no final de Fevereiro.

Carrossel

«She ran and bought her ticket and got back on the goddam carrousel just in time. Then she walked all the way around it till she got her own horse back. Then she got on it. She waved to me and I waved back.
Boy, it began to rain like a bastard. In buckets, I swear to God. All the parents and mothers and everybody went over and stood right under the roof of the carrousel, so they wouldn’t get soaked to the skin or anything, but I stuck around on the bench for quite a while. I got pretty soaking wet, especially my neck and my pants. My hunting hat really gave me quite a lot of protection, in a way, but I got soaked anyway. I didn’t care, though. I felt so damn happy all of a sudden, the way old Phoebe kept going around and around. I was damn near bawling. I felt so damn happy, if you want to know the truth. I don’t know why. It was just that she looked so damn nice, the way she kept going around and around, in her blue coat and all. God, I wish you could’ve been there.»

[Parágrafos finais do penúltimo capítulo de The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger; a minha edição é a da Penguin, 1994]

PS – As duas últimas frases do livro têm qualquer coisa de epitáfio: «Don’t ever tell anybody anything. If you do, you start missing everybody.»

J. D. Salinger (1919-2010)

Morreu Jerome David Salinger, o mais recluso dos artistas reclusos, criador de Holden Caulfield, personagem bigger than life que foi uma espécie de matriz literária para sucessivas gerações de adolescentes norte-americanos. A primeira frase do romance mais célebre de Salinger, The Catcher in the Rye (1951), começa assim: «If you really want to hear about it (…)» Milhões de leitores em todo o mundo, e em muitas línguas, quiseram (e continuam a querer) «hear about it».
Obituários: The Guardian (escrito por Mark Krupnick, que morreu em 2003), The New York Times, The Washington Times, The L.A. Times, Slate, Salon. O New York Times fez ainda uma infografia com um mapa que permite acompanhar as deambulações de Holden Caulfield por Manhattan.

Mais vhm em discurso directo

Na Visão (excelente entrevista de Sílvia Souto Cunha), no Jornal de Letras (perfil do escritor, por Maria Leonor Nunes) e no suplemento ípsilon (aproximação ao novo romance, por Raquel Ribeiro).

valter hugo mãe: “Na cabeça dos velhos pode haver turbilhões”

Em a máquina de fazer espanhóis, romance que marca a passagem da editora QuidNovi para a Objectiva (chancela Alfaguara), valter hugo mãe criou um grupo de idosos para compreender, enquanto escritor, que «violência é essa de pensar a morte mesmo ao pé dela», ali no extremo da vida, quando o corpo se torna um inimigo e um traidor. Paradoxalmente, embora esteja muito distante de uma tal realidade crepuscular (tem 38 anos), o autor de o remorso de baltazar serapião considera ser este o seu livro mais autobiográfico: «É o mais pessoal, o que mais me magoou, aquele em que chorei mais; e é também o que mais se aproxima da minha intimidade, ou do meu medo de estar vivo.»
Ao moldar o protagonista, valter teve presente a figura do pai, desaparecido há precisamente dez anos, sobre quem até hoje nunca conseguira escrever. «A última palavra do livro [e da personagem principal] coincide com a última palavra que o meu pai disse: “angústia”. Em três anos e meio de cancro, foi a única vez que verbalizou o seu estado de doença, como se antes não nos quisesse passar o ónus de um qualquer sofrimento.» Na nota final do romance, o escritor abre o jogo: «lamento muito que o meu pai não esteja a viver a terceira idade, por isso decidi inventar[-lhe] uma».
A terceira idade inventada por valter, porém, não é a mera réplica do cenário triste dos lares reais, onde os idosos vegetam em frente à televisão, esperando comida e medicamentos a horas certas. Ao visitar uma dessas casas, não aguentou mais do que vinte minutos de tamanha claustrofobia. «Foi muito intenso, não quis repetir.» Depois, no processo de escrita, se por um lado tentou «prender o leitor dentro daquelas paredes, obrigá-lo a viver um pouco aquela clausura», por outro foi libertando os idosos do seu torpor existencial. «Quis atribuir-lhes uma perigosidade que já não lhes reconhecemos, mostrar que nas suas cabeças ainda pode haver turbilhões, por mais que os seus corpos se tenham transformado nuns sacos imprestáveis, à beira da ruína final.»
O primeiro capítulo de a máquina de fazer espanhóis foi escrito no próprio dia em que valter terminou o apocalipse dos trabalhadores. Talvez por isso, existem vários pontos de contacto entre os dois romances: «São ambos sobre morrer de amor. E os dois abordam a questão da portugalidade, embora de modo muito diferente.» No primeiro, Portugal era nome de cão, um «ridículo rectângulo castanho» cheio de pulgas, melancólico e metafórico. Agora a reflexão identitária é mais concreta, há vários capítulos sobre o Estado Novo e sobre esse fascismo (o escritor não tem medo da palavra) que perdura dentro de muitas cabeças, imune aos já muitos anos de democracia.
No dia 25 de Abril de 1974, valter não tinha ainda sequer três anos. Lembra-se de estar em Lisboa, vindo de Paços de Ferreira, onde vivia. Brincava num parque, «com um menino muito louro, de olhos azuis, demasiado branco para quem, como eu, chegara recentemente de Angola», quando ouviu o pai, sem saber ao certo o que se passava, gritar para a mãe: «Foge, Antónia, é a guerra, é a guerra». Entre as pessoas da sua geração, habituou-se a ser o único que se lembrava desse dia, o único cuja primeira memória coincide com a data em que a ditadura caiu. Talvez assim se explique que seja dos poucos autores com menos de quarenta anos a olhar de frente o período salazarista. «Sempre me interessou perceber do que é que fugiram as pessoas, ao conquistarem aquela liberdade toda.»
Quanto à transformação do Esteves sem metafísica, do poema A Tabacaria, em personagem do livro, correspondeu a uma vontade de convocar Pessoa, de o homenagear. «Fascina-me a capacidade da literatura transformar o quotidiano em mitologia. É aquele toque de Midas dos escritores, capazes de passar tão rente e tão pequeninamente ao pé de alguma coisa e mesmo assim elevarem-na a algo de fundamental para o nosso imaginário.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Série Lydia Davis (5)

DEPRESSÃO PRIMAVERIL

Ainda bem que as folhas estão a crescer tão depressa.
Em breve, elas esconderão a vizinha e a sua filha aos berros.

[in Samuel Johnson is indignant, de Lydia Davis, Picador, 2001; tradução de JMS]

Versão original:

SPRING SPLEEN

I am happy the leaves are growing large so quickly.
Soon they will hide the neighbor and her screaming child.

‘A noite em que Fernando Pessoa se encontrou com Konstantinos Kavafis’

Dentro de meia hora (17h00), no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, é apresentado o filme The night Fernando Pessoa met Konstantinos Kavafis, do realizador grego Stelios Charalambopoulos. O filme foi galardoado com o prémio para Melhor Documentário grego no 49.º Festival Internacional de Tessalónica (2008), com o Prémio da Associação dos Críticos (2008), e ainda com o Prémio Odysseus Awards 2009 Best Documentary no London Greek Film Festival.

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Após a projecção do filme, haverá um debate a presença do realizador e a participação do poeta Nuno Júdice, de José António Costa Ideias (tradutor do grego) e dos investigadores pessoanos Patrício Ferrari e Jerónimo Pizarro (este último um dos consultores do filme).

O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula

«O professor Fortuna tinha sempre a barba por fazer e vestia um sobretudo cor de rato molhado, fosse qual fosse a estação do ano. Não é um homem feio, mas era tão difícil acreditar nas peripécias sexuais que contava (“aprendi na Índia”) quanto acreditar que lia grego no original, como também afirmava. Dizia que qualquer dia me entregaria para publicação o livro que estava escrevendo, uma resposta à Crítica da Razão Pura com o título provisório de Anti Kant. Sabíamos quase nada da sua vida, mas tínhamos certeza de que o livro não existia e que ele nunca lera Kant. Ou Nietzsche. Dubin e eu frequentemente o envolvíamos em nossas discussões, mesmo quando a sua mesa estava longe da nossa e tínhamos que gritar para que nos ouvisse.
– Qual é a sua posição sobre a vírgula, professor?
E ele:
– Sou contra!
Tese do professor: vírgula qualquer um põe onde quiser. O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula, que, segundo ele, até hoje ninguém soube como usar. Salvo, talvez, o Henry James, que ele obviamente também nunca leu. Um debate reincidente entre nós era se livros policiais e de espionagem podem ser boa literatura. Eu dizia que sim, o Dubin não tinha certeza e o professor não tinha dúvida: era lixo. Ele reagia às minhas evidências em contrário com sons de desprezo. Graham Greene? Bó! Rubem Fonseca? Blech! Raymond Chandler? Acht! Uma vez perguntei se ele tinha comprado um certo livro do John Le Carré.
– Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa.
Só não me levantei para bater nele porque não conseguiria. Era sábado e eu já estava a meio caminho do fundo.»

[in Os Espiões, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2009]

Seis flores

Ou a natureza vegetal, com raízes e pétalas, de um livro magnífico.

APE não atribui Prémios de Revelação 2008

A Associação Portuguesa de Escritores emitiu hoje o seguinte comunicado:

«O júri dos Prémios de Revelação APE/Guimarães Editores – 2008, constituído por Ana Marques Gastão, Miguel Real e Serafina Martins, deliberou, por unanimidade, não premiar nenhum dos trabalhos inéditos concorrentes, nas modalidades de Poesia e de Ensaio Literário.
A abertura do concurso 2009, nas modalidades de Ficção Narrativa e de Literatura para a Infância e a Juventude, será anunciada brevemente pela Associação Portuguesa de Escritores.»

Fim de tarde com os clássicos


(clique para aumentar a imagem)

Uma dedicatória entre surrealistas

Aparece transcrita no «livro-homenagem-recordação» De Mário Cesariny para Artur Manuel do Cruzeiro Seixas (edição de Perfecto E. Cuadrado, Assírio & Alvim, 2009) e estava na folha de rosto de um volume enviado justamente por Mario Cesariny a Artur Manuel do Cruzeiro Seixas, em Julho de 1956:

Para o Artur Manuel
Para o Artur Manuel do Cruzeiro Seixas
o que anda a sorrir aos leões
a Ave Acrobática
do Último Continente Surrealista
Com um abraço
um abraço
Um abraço

do seu

Mário Cesariny de Vasconcelos
Julho de 56

Gosto sobretudo daquele duplo adjectivo, «Ave Acrobática», imponente nas suas maiúsculas.

O que aí vem (90º)

Duas peças teatrais, levadas à cena neste momento pela Companhia de Teatro de Almada: A Mãe, de Bertolt Brecht (tradução de Yvette K. Centeno e Teresa Balté); e Uma Visita Inoportuna, de Copi (trad. de Jorge Pereirinha Pires).

Costa Book of the Year para Christopher Reid

O poeta Christopher Reid, com o livro A Scattering, venceu a edição relativa a 2009 de um dos principais prémios literários britânicos, anteriormente conhecido como Whitbread, no valor de 30 mil libras (34,5 mil euros). Tributo à sua mulher, Lucinda Gane, falecida em 2005, A Scattering é o sexto volume de poemas a merecer esta distinção (o último fora a tradução de Beowulf, publicada por Seamus Heaney em 1999) e até agora vendera menos de mil exemplares. A presidente do júri, Josephine Hart, justificou assim a escolha:

«Out of a personal tragedy, Christopher Reid has written a masterwork which has universal power. Austere, beautiful and moving – we all felt this was a book we would want everyone to read. Packed full of unforgettable lines – A Scattering is a remarkable piece.»

Reid foi editor de poesia da Faber & Faber entre 1991 e 1999.
A crítica ao livro no The Guardian, assinada pelo crítico Adam Newey, pode ser lida aqui.

Um nome inconveniente

Para além dos comentários dos nerds da tecnologia, as redes sociais foram invadidas por outro tipo de reacções ao novo aparelho da Apple. Muitas mulheres reagiram rapidamente à falta de tacto da equipa de Steve Jobs, sugerindo até que deve ser exclusivamente masculina, caso contrário não ignoraria o facto de que «pad», nos EUA, é um dos nomes dados aos pensos higiénicos. Nas primeiras horas após a revelação do iPad, o Twitter foi invadido por centenas de piadas de cariz menstrual, as melhores das quais foram seleccionadas pelo site Jezebel. Eis algumas:

– «The iPad: protecting your data from embarrassing incidents.»
– «64 gig iPad will forever be known as the heavy flow model.»
– «If I order this, will my boyfriend and I have to worry if it comes late?»
– «If you and your friends all buy one, will they sync up?»
– «Somebody give the iPad a Red Bull, because it ain’t no good without wings.»
– «Hopefully it will help people deal with the 24-hour news cycle.»

Do contra

Se a Internet fervilha com notícias e comentários ao iPad, era fatal que começassem a aparecer os primeiros descrentes, os primeiros cépticos, os primeiros desiludidos. No site Gizmodo Brasil, por exemplo, Adam Frucci escreve sobre «8 coisas idiotas que estragam o iPad» e o texto começa assim:

«Meu Deus, eu estou bem desapontado com o iPad. Ele é a tradução de um produto não-essencial e além disso ele tem algumas falhas críticas, absolutamente terríveis, que me farão olhar torto qualquer pessoa que resolva comprar um.»

A ilustração do post diz tudo:

no_ipad

iPad vs. Kindle

Por incrível que pareça, poucos minutos após a conferência de imprensa da Apple, já havia, num blogue especializado, uma minuciosa análise comparativa entre o novíssimo iPad e o Kindle 2 da Amazon. Conclusão: para a leitura de jornais e textos de consulta, o iPad ganha nas calmas; para os livros que se lêem de fio a pavio (romances, ensaios, etc.), parece haver um empate técnico.

Primeiras reacções à nova aposta da Apple

Por exemplo: aqui, aqui e aqui. Mas isto são geeks a falar. Para uma abordagem menos técnica, consulte-se a BBC. Ou leia-se a crítica que o Telegraph já fez ao iPad, há cerca de hora e meia, atribuindo-lhe quatro estrelas. Neste texto encontrei mais informações sobre o que verdadeiramente me interessa: os atributos do iPad enquanto leitor de e-books. Eis a opinião da editora de tecnologia do Telegraph, Claudine Beaumont:

«(…) But the best feature is iBooks, the e-book reading software that knocks Amazon’s Kindle and Sony’s Reader into a cocked hat. Novels are beautifully presented, lined up on a virtual bookshelf, complete with sleeve art. The pages of the books resemble proper printed pages, with a sense of texture and authenticity to them. Turning pages is achieved with a swiping gesture, or a single tap in the right-hand margins. Downloading books is incredibly easy too, with the iBookstore built straight in to iTunes, and a wide selection of books from five major publishers already available at launch.»

As cinco grandes editoras a que Beaumont se refere são, como se explica aqui, a Penguin, a MacMillan, a Simon & Shuster, a HarperCollins e a Hachette Book Group.

Afinal chama-se iPad

Eis o gadget mais esperado do ano (ou da década?), apresentado há umas horas por Steve Jobs, CEO da Apple, em São Francisco:

É o que se esperava: uma espécie de iPhone gigante, a meio caminho entre um smartphone e um computador portátil. O modelo mais baratinho (16 gigas) custará 499 dólares; o mais caro (64 gigas), 699 dólares. Estará disponível em Abril.
Entre muitas outras coisas, o iPad vai ser um leitor de livros electrónicos. Ou seja, um sério rival para o Kindle, para o Sony Reader e restante concorrência. Para já, Jobs aponta duas vantagens sobre o Kindle: o ecrã a cores e uma loja (iBook Store) com muitos milhares de títulos disponíveis, seguindo a lógica do iTunes.
Eis um vídeo com um excerto da conferência de imprensa (a qualidade da imagem é má):

E o vídeo oficial da Apple sobre o seu novo brinquedo:

Dois poemas de Carlos Alberto Machado

São três horas da madrugada
o comboio galga quilómetros
diz-se
as metáforas são o que são
e isso
sente-se
sobretudo nas curvas
mais apertadas
metaforicamente
chiando e chispando
de cada vez que a metáfora
galopante galopando cada quilómetro
entra numa dessas curvas de forma
friccionantemente indelicada
(violenta?) felizmente
tudo isto não passa
de uma ilusão é uma metáfora
demasiado arriscada para tão pouco
e velho comboio
ele que só gosta de deslizar
como um cisne
em largo e calmo
verde lago
metonímico.

***

O meu corpo enrosca-se na noite do teu corpo
adormecidas as minhas palavras ondulam na tua boca
da tua respiração soltam-se borboletas azuis
acordado sigo ainda os seus invisíveis trajectos
é neles que leio as palavras esquecidas na noite
uso cautelosamente o antigo saber divinatório
enquanto danças sobre a terra vestida de lavanda.

[in Registo Civil – poesia reunida, Assírio & Alvim, 2009]

O novo logótipo da Porto Editora

É assim:

Uma imagem clean, neutra e moderninha, mas a que falta garra. Entre as aspas estilizadas e os livros sobrepostos que desenhavam um P e um E (tão, mas tão eigthies), continuo a preferir os livros sobrepostos.

Além disso, se O Independente ainda existisse, mais a sua rubrica “Separados à Nascença”, talvez alguém se lembrasse desta tripla associação:



A pergunta que todos fazem

Será que o anunciadíssimo e aguardadíssimo iTablet (ou lá como é que aquilo se vai chamar) revolucionará mesmo o mundo dos gadgets electrónicos em geral e dos leitores de e-books em particular? Há muita gente a dizer que sim, mas também há quem tenha dúvidas. Seja como for, o maior segredo do ano é desvendado esta tarde. Conferir o lançamento da Apple, com Steve Jobs na função de mestre de cerimónias, aqui, aqui ou aqui. A partir das 18h00 (hora de Lisboa), dez da manhã em São Francisco.

Mais do que boas intenções, diz o Nobel

Sobre a campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti”, explicada no post anterior, José Saramago escreveu o seguinte:

«As minhas palavras serão de agradecimento. A Fundação José Saramago teve uma ideia, louvável por definição, mas que poderia ter entrado na história como uma simples boa intenção, mais uma das muitas com que dizem estar calcetado o caminho para o inferno. Era a ideia editar um livro. Como se vê, nada de original, pelo menos em princípio, livros é o que não falta. A diferença estaria em que o produto da venda deste se destinaria a ajudar as vítimas sobreviventes do sismo do Haiti. Quantificar tal ajuda, por exemplo, na renúncia do autor aos seus direitos e numa redução do lucro normal da editora, teria o grave inconveniente de converter em mero gesto simbólico o que deveria ser, tanto quanto fosse possível, proveitoso e substancial. Foi possível. Graças à imediata e generosa colaboração das entidades que participam na feitura e difusão de um livro, desde a fábrica de papel à tipografia, desde o distribuidor ao comércio livreiro, os 15 euros que o comprador gastará serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para que os faça seguir ao seu destino. Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda. Para a calamidade que caiu sobre o Haiti 15 milhões de euros não passam de uma gota de água, mas A Jangada de Pedra (foi este o livro escolhido) será também publicada em Espanha e no mundo hispânico da América Latina. Quem sabe então o que poderá suceder? A todos os que nos acompanharam na concretização da ideia primeira, tornando-a mais rica e efectiva, a nossa gratidão, o nosso reconhecimento para sempre.
José Saramago»

Uma ‘Jangada’ inteira para apoiar as vítimas do sismo no Haiti

CapaJangada

Na próxima sexta-feira, chega às livrarias uma nova edição do romance A Jangada de Pedra, de José Saramago, destinada a contribuir para a ajuda humanitária às vítimas do sismo no Haiti. A iniciativa é explicada no seguinte comunicado da LeYa, emitido ontem ao fim da tarde:

«O Grupo Leya, a Editorial Caminho e a Fundação José Saramago lançam hoje, junto com vários parceiros, a campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti”, acção de solidariedade para com as vítimas do sismo no Haiti. A ajuda será dada através da venda de uma edição especial do livro “A Jangada de Pedra”, disponível nas livrarias portuguesas a partir da próxima sexta-feira. Os 15 euros do valor do livro serão directamente doados, na sua totalidade, para o Fundo de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa.
No seguimento de uma ideia da Fundação José Saramago, a Leya mobilizou a sua estrutura, bem como todo um conjunto de entidades, de modo a tornar possível esta campanha, inédita em Portugal e operacionalizada em tempo recorde. A grande disponibilidade demonstrada pelos parceiros permitiu colocar em marcha esta acção. Estão envolvidos na campanha as seguintes empresas: Agfa, Eigal, Plásticos Pando, JDC, Ibero Fibra, Torras Papel, Inapa, Gráfica 99 e Ideias com Peso. Das entidades que aceitaram prontamente colaborar fazem também parte as livrarias e grandes superfícies que ofereceram os seus espaços para a venda do livro: Almedina, Bertrand, Sonae, Fnac, Auchan e Press Linha, bem como muitas outras das principais livrarias um pouco por todo o país serão os locais onde o livro poderá ser encontrado. Todos se disponibilizaram para trabalhar gratuitamente em prol do sucesso desta iniciativa.
As editoras de José Saramago em Espanha e na América Latina vão avançar com campanhas semelhantes nos respectivos países.
Ao empenho de todos os parceiros envolvidos, junta-se agora o desejo de que a comunidade corresponda, dirigindo-se às livrarias e adquirindo esta edição especial, sabendo que ao fazê-lo estará a realizar um donativo directo, no valor de 15 euros, para a Cruz Vermelha que, por sua vez, o aplicará no seu esforço de apoio às vítimas do sismo no Haiti.
Trata-se da primeira campanha na qual o valor total de um livro reverte na íntegra para uma causa humanitária. É também a primeira vez que editoras, papeleiras, gráficas, transportadoras e o retalho se unem neste tipo de acção.
A campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti” prolongar-se-á até 28 de Fevereiro de 2010.»

Contos de pólvora seca

Micronarrativas de João Ferreira Oliveira.

A vulnerável metafísica da terceira idade

maquina

a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

De volta

Com textos sobre Rohmer, Stendhal e Hemingway, Luís Carmelo ressuscitou o seu miniscente, pondo termo, em boa hora, a uma hibernação que durava há quase sete meses.

Livros que não acabamos de ler

No Babelia, o escritor colombiano Santiago Gamboa evoca os seus livros interrompidos. Mas refere-se apenas aos bons. Aos maus, reserva o pertinente parágrafo final:

«Releo y noto que no me he referido a los libros malos. En mi experiencia de lector hay dos tipos de libros malos: los que son, por decirlo así, intrínsecamente malos e insuficientes, y los que lo son de un modo correcto, con una estructura bien apuntalada. Hay libros malos que están muy bien escritos y éstos a la larga son los peores, pues suelen tener muchos lectores que creen que la lectura fácil es la verdadera literatura. Los editores los llaman “literatura comercial de calidad”. Estos libros, más que no acabarlos, lo que se debe hacer es jamás empezarlos.»

João Tordo no hexágono

A edição francesa de As Três Vidas, romance que deu a João Tordo o Prémio Saramago 2009, sai em Fevereiro com título adaptado (Le Domaine du Temps), chancela da Actes Sud e tradução de Dominique Nédellec. Eis a capa, revelada hoje pelo escritor no seu blogue:

O que aí vem (Edições 70)

Novidades: A Cultura Mundo. Resposta a uma sociedade desorientada, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy; e Fundamentação Linguística da Sociologia, de Jürgen Habermas (primeiro volume das suas ‘Obras Escolhidas’). Haverá ainda reedições e reimpressões de obras de Kant, Platão, Giorgio Colli, Gaston Bachelard, Gabriel Bauret, Jean Baudrillard e Pierre-Jean Amar.

O Haiti é…

aqui.

‘Subway Life’ em livro

Segundo uma informação colocada hoje no seu site, António Jorge Gonçalves já entregou a um editor as artes-finais do livro Subway Life, súmula de vários anos a desenhar passageiros nos metropolitanos de todo o mundo.

[Uma dica do Rui Almeida]

Coração Duplo

É o primeiro (e recém-nascido) blogue da jornalista e escritora Filipa Melo.

Blackout

Entre a manhã de ontem e o fim da manhã de hoje (onze e picos), este blogue esteve inacessível, presumo que devido a problemas no servidor. Pelo facto, o meu pedido de desculpas.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges