Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Verão, de J.M. Coetzee (Dom Quixote), por José Mário Silva
Derrocada, de Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora), por Vítor Quelhas
Um Instante de Abandono, de Philippe Besson (Teorema), por Luísa Mellid-Franco
Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz (Caminho), por Luís M. Faria
Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Fragmentos de Píndaro, de Friedrich Hölderlin (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
Obsessão, de José António Almeida (&Etc), por Manuel de Freitas

3-0

Paulo Ferreira: a resposta é sim, sim, sim, três vezes sim.

Postar ou não postar

É uma dúvida shakespeariana, sim. Se actualizas o blogue, não assistes às sessões. Se assistes às sessões, e às conversas nas escadas do auditório ou no lobby do hotel, não tens tempo para actualizar o blogue. Ao contrário de Hamlet, eu não hesito (nem ando, já agora, de um lado para o outro com uma caveira na mão): entre as mesas de debate e os posts em cima da hora, dou prioridade às mesas de debate. As actualizações serão, portanto, ou tardias ou retroactivas. Perdoem-me os mais impacientes.

Mesa 3: ‘Passo e fico, como o Universo’

Chegado a meio da sessão (vindo directamente de Campanhã), ainda consegui ouvir as intervenções do espanhol Isaac Rosa, do brasileiro Bernardo Carvalho e do cabo-verdiano Germano Almeida.
Isaac Rosa reflectiu muito sobre o mote da mesa, um verso de Pessoa que podia ter sido escrito por Antonio Machado, ao ponto de assumir que pode muito bem vir a ser o título do seu próximo romance. Ao mostrar o poema completo de Pessoa a um amigo, para que o ajudasse a discernir o verdadeiro tema da sessão, ele sugeriu-lhe que devia ser sobre a Internet, e-books, blogues, etc., por causa dos primeiros versos: «Da mais alta janela da minha casa / Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a Humanidade». A «janela» da casa remeteria para o Windows e os versos partindo em direcção à Humanidade seriam como os versos que toda a gente pode colocar online, fazendo de Pessoa o precursor de uma tecnologia que só surgiria meio século após a sua morte. Quanto à questão que o poema levanta, a de saber para quem escrevemos, Isaac Rosa considera-a uma questão de poeta, não de romancista. Enquanto romancista, Rosa diz que nunca pensa nos seus leitores. O que o preocupa é a responsabilidade, artística e ética, de quem utiliza a ficção, essa forma privilegiada de «nos relacionarmos com o mundo, de estarmos no mundo».
Já Bernardo Carvalho assumiu a sua raiva contra o verso de Pessoa. «Esse verso irritou-me muito», admitiu. «Dá a entender que a poesia, ou a arte, é uma coisa natural, como uma paisagem, quando para mim é o contrário disso, é dificuldade, resistência, combate, singularidade.» A fúria levou-o a escrever um texto, «meio académico», que deixou no bolso, ao contrário da indignação anti-pessoana: «Não concordo nada com isso de passar e ficar. Você faz arte justamente porque você passa e não fica.»
Habitualmente, Germano Almeida costuma improvisar nas sessões das Correntes d’Escritas. Desta vez, porém, trouxe um pequeno texto que não ficou no bolso, em que defende a necessidade do humor e do prazer na escrita, glosa o tema de vários ângulos e lembra o comentário de uma amiga («a minha guru») sobre o verso de Pessoa: «Isso é uma maluquice de poetas e tu não és poeta.» Germano provocou ainda Tânia Ganho, companheira de mesa a quem terá sugerido, em vão, que fizessem um texto a meias. Embora a distância fosse grande, pareceu-me que ela corou com a inconfidência.

Alfa Pendular

Santa Apolónia, meio-dia, comboio 125, carruagem 1. Eu serei o passageiro que vai a ler O País do Medo, de Isaac Rosa (Planeta), ou A Origem da Tristeza, de Pablo Ramos (Quetzal). Ou então a experimentar o netbook novinho em folha.

Quase a caminho

As Correntes d’Escritas começaram esta manhã e já há vários bloggers a cobrir intensamente o que vai acontecendo na Póvoa de Varzim: o Paulo Ferreira, a Sara Figueiredo Costa, o Pedro Vieira, o Luís Ricardo Duarte, entre outros. Eu chego amanhã à tarde, espero que ainda a tempo de assistir ao fim da mesa 3, intitulada “Passo e fico como o universo”, com Bernardo Carvalho, Germano Almeida, Isaac Rosa, João Tordo, Tânia Ganho e moderação de Carlos Vaz Marques.

Prémio Casino da Póvoa para ‘Myra’, de Maria Velho da Costa

O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). A decisão do júri, composto por Patrícia Reis, Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho e Vergílio Alberto Vieira, foi anunciada durante a Sessão Oficial de Abertura das Correntes d’Escritas, no Casino da Póvoa de Varzim, esta manhã.
Os restantes nove finalistas eram: A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa (Dom Quixote); A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira (Dom Quixote); A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Caminho); o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi); O Cónego, de A. M. Pires Cabral (Cotovia); O Mundo, de Juan José Millás (Planeta); O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água); Rakushisha, de Adriana Lisboa (Quetzal) e Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio (Quetzal).
Em 2009, ganhou Gastão Cruz, com A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim).

Pré-publicação: ‘O Terceiro Reich’ (Roberto Bolaño)

«Tomámos o pequeno-almoço no Bar La Sirena. Ingeborg comeu um english breakfast que consistia numa chávena de chá com leite, um prato com um ovo estrelado, duas fatias de bacon, uma dose de feijão-verde e um tomate grelhado, tudo por 350 pesetas, bastante mais barato do que no hotel. Na parede, por detrás do balcão, há uma sereia de madeira com o cabelo ruivo e a pele dourada. No tecto ainda estão penduradas umas velhas redes de pescar. Quanto ao resto, é tudo diferente. O empregado de mesa e a mulher que atende ao balcão são jovens. Há dez anos trabalhavam aqui um velho e uma velha, morenos e enrugados, que costumavam conversar com os meus pais. Não me atrevi a perguntar por eles. Para quê? Os de agora falam catalão.
Encontrámos Charly e Hanna no sítio combinado, perto das “gaivotas”. Estavam a dormir. Depois de estendermos as nossas esteiras junto deles, acordámo-los. Hanna abriu logo os olhos, mas Charly grunhiu qualquer coisa ininteligível e continuou a dormir. Hanna explicou que ele tinha passado muito mal a noite. Quando Charly bebia, segundo Hanna, não conhecia limites e abusava da sua resistência física e da sua saúde. Contou-nos que às oito da manhã, quase sem ter dormido, saiu para fazer windsurf. Com efeito, a prancha estava ali, ao pé das costas de Charly. Depois Hanna comparou o seu creme bronzeador com o de Ingeborg e ao fim de um bocado, ambas estendidas de costas para o Sol, mudaram a conversa para um tipo de Oberhausen, um administrativo que, segundo parecia, tinha intenções sérias relativamente a Hanna, embora esta só “o apreciasse como amigo”. Desinteressei-me do que diziam e dediquei os minutos seguintes a observar as “gaivotas”, que tanta inquietação me haviam causado na noite anterior.
Não eram muitas as que se encontravam na praia; na sua maioria já estavam alugadas e deslizavam lentas e vacilantes por um mar calmo e de um azul intenso. É claro que nas “gaivotas” que ainda não tinham sido alugadas não se notava nada de inquietante; velhas, de um modelo superado até pelas “gaivotas” de outros postos, o sol parecia reverberar sobre as suas superfícies gretadas onde a tinta se descascava inexoravelmente. Uma corda, presa por uns quantos paus enterrados na areia, separava os banhistas da zona reservada às “gaivotas”; a corda erguia-se apenas a uns trinta centímetros do chão e nalguns sítios os paus tinham-se inclinado e estavam prestes a tombar de vez. À beira-mar distingui o encarregado: ajudava um grupo de clientes a fazer-se ao mar, atento a que a “gaivota” não batesse na cabeça de algumas das inúmeras crianças que chapinhavam em volta; os clientes, seriam uns seis, todos em cima da “gaivota”, com sacos de plástico onde possivelmente levavam sandes e latas de cerveja, faziam gestos de despedida para a praia ou batiam palmas de regozijo. Depois de a “gaivota” ter atravessado a zona das crianças, o encarregado saiu da água e começou a avançar na nossa direcção.
– Coitadinho – ouvi Hanna dizer.
Perguntei a quem é que se referia; Ingeborg e Hanna fizeram sinal para observar disfarçadamente. O encarregado era moreno, tinha o cabelo comprido e uma aparência musculosa, mas o mais notável da sua pessoa, acima de tudo, eram as queimaduras – quero dizer, queimaduras de fogo, não de sol – que lhe cobriam a maior parte da cara, do pescoço e do peito, e que eram visíveis sem rebuço, escuras e rugosas, como carne grelhada ou chapas de um avião sinistrado.
Por instantes, devo admitir, senti-me como que hipnotizado, até que me apercebi de que ele também olhava para nós e que no seu gesto abundava a indiferença, uma espécie de frieza que imediatamente achei repulsiva.
A partir de então evitei olhar para ele.
Hanna disse que se suicidaria se ficasse assim, desfigurada pelo fogo. Hanna é uma rapariga bonita, tem os olhos azuis e o cabelo castanho-claro e os seus seios – nem Hanna nem Ingeborg usam a parte superior do biquíni – são grandes e bem-feitos, mas sem muito esforço imaginei-a queimada, a dar gritos e a andar de trás para a frente no seu quarto do hotel. (Porquê, precisamente, no quarto do hotel?)
– Talvez seja uma marca de nascença – disse Ingeborg.
– É possível, vêem-se coisas muito estranhas – concordou Hanna. – Charly conheceu em Itália uma mulher que nasceu sem mãos.
– A sério?
– Juro-te. Pergunta-lhe. Foram para a cama os dois.
Hanna e Ingeborg riram-se. Às vezes não compreendo como é que Ingeborg consegue achar graça a afirmações dessas.
– Talvez a mãe tenha tomado algum produto químico quando estava grávida.
Não soube se Ingeborg falava da mulher sem mãos ou do encarregado das “gaivotas”. De qualquer modo tentei corrigir o seu erro. Ninguém nasce assim, com a pele tão martirizada. Ora bem, não havia dúvida de que as queimaduras não eram recentes. Provavelmente datavam de há uns cinco anos, julgando mais até pela atitude do pobre tipo (eu não olhava para ele) acostumado a despertar a curiosidade e o interesse próprio dos monstros e dos mutilados, os olhares de repulsa involuntária, a piedade pela grande desgraça. Perder um braço ou uma perna é perder uma parte de si mesmo, mas sofrer tais queimaduras é transformar-se, converter-se noutro.
Quando Charly, por fim, acordou, Hanna disse que achava o encarregado atraente. Musculoso! Charly riu-se e fomos todos para a água.»

[Início do terceiro capítulo do romance póstumo de Bolaño (Quetzal), nas livrarias a partir de sexta-feira]

O que aí vem (Boca)

Mais dois audiolivros para o catálogo da Boca: Estória do Ovo e da Galinha, de José Luandino Vieira, um «hilariante fresco da vida no musseque», na interpretação «polifónica» de Myriam Xafrêdo dos Reis; e Memórias de um Craque, as crónicas sobre futebol de Fernando Assis Pacheco, ditas pelo poeta e performer Nuno Moura.
Outras informações aqui.

Poemas sobre escrever poesia

No blogue cultural da revista online Slate, Chris Wilson coloca uma pergunta bicuda: «Can New Yorker Poets Write About Anything Besides Poetry?» Aparentemente, os exercícios de meta-poesia são uma especialidade dos poetas que publicam na mais nova-iorquina das revistas nova-iorquinas. Wilson deu-se mesmo ao trabalho de analisar em detalhe a produção de dois anos (2008-2009) e concluiu que 84 dos 316 poemas seleccionados, ou seja 27%, mencionavam a actividade poética. A análise fecha com uma enumeração dos tópicos favoritos dos «bardos».

Fantástico quotidiano

Os Objectos Chamam-nos
Autor: Juan José Millás
Título original: Los objetos nos llaman
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 235
ISBN: 978-989-657-056-9
Ano de publicação: 2010

Nestas 75 brevíssimas narrativas de Juan José Millás, encontra-se de tudo: memórias de infância, terríveis equívocos, improváveis metamorfoses, identidades usurpadas, manequins de montra que transpiram, pessoas invisíveis, personagens trágicas que vivem um dia (ou dois) adiantadas em relação aos restantes mortais, almas sem corpo, corpos sem alma, negócios com o diabo, encarnações irónicas de Deus, chamadas do Além, amigos imaginários, taxistas peculiares, mulheres obcecadas por homens liliputianos, mortos que ignoram o seu estado e circulam entre os vivos, relações familiares problemáticas (mães sufocantes ou cruéis, mas também pais arredios), uma visita completa a Madrid seguindo um guia turístico de Buenos Aires e sonhos, muitos sonhos bizarros, pesadelos capazes de baralhar o mais sofisticado dos psicanalistas.
Com a sua escrita elegante, burilada e concisa, em que reconhecemos tanto a «textura onírica» como algumas obsessões do livro anterior (O Mundo, belíssimo romance de matriz autobiográfica), Millás surge aqui como um cronista da estranheza, dos paradoxos lógicos e morais, dos minúsculos desvios à ordem natural das coisas que engendram o absurdo.
A sua matéria-prima é a vida quotidiana, banal e prosaica, mas uma vida quotidiana em que se abrem, de repente e sem aviso, portas secretas que dão acesso ao mistério do que não existe mas podia existir (ou do que não aconteceu mas podia ter acontecido), ao «avesso da realidade», elaborando uma espécie de metafísica que a acidez do humor quase sempre dissolve, tornando-a patética – excepto nos casos em que se ensaia uma aproximação ao sublime, como no pungente conto intitulado O cheiro da gasolina.
Millás é essencialmente um escritor muito atento à claustrofobia do nosso tempo e alguém que descobre em tudo o que observa, do café de bairro à grande cidade, o potencial de uma história para contar. Desígnio resumido de forma perfeita nesta frase de um dos seus atormentados narradores: «Entre a literatura e a vida, escolhi sempre a literatura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Será que 2010 é um mau ano para se ser escritor?

Robert McCrum, jornalista que escreve sobre livros no The Guardian, acha que não. As mudanças em curso no mundo editorial são muitas e, nalguns casos, radicais. Mas ele acredita que a missão essencial do escritor continuará a ser a mesma:

«No one – literally no one – knows precisely how this will play out. The ongoing process of change is sponsoring all kinds of apocalyptic visions. Optimistically, however, I’d speculate that no amount of structural change and/or professional streamlining will alter the writer’s essential task: to sit alone from day to day, in a room, putting words down, one after the other, on the page.»

‘O Terceiro Reich’ (booktrailer)

Está a chegar o novo Bolaño, segundo romance póstumo do escritor chileno editado pela Quetzal, depois de 2666. Amanhã farei aqui a pré-publicação do início do terceiro capítulo.

Recusa perante o tempo

«”Acreditas mesmo nisso?”, perguntou ele. “Que os livros dão sentido à nossa vida?”
“Acredito”, respondi. “Um livro deve ser um machado para abrir o mar gelado que temos dentro. Que mais havia de ser?”
“Um gesto de recusa perante o tempo. Uma tentativa de conseguir a imortalidade.”
“Ninguém é imortal. Os livros não são imortais. Todo o globo em que estamos há-de ser sugado pelo sol e desfeito em cinzas. Após o que o próprio universo implodirá e desaparecerá por um buraco negro abaixo. Nada sobreviverá, nem eu, tu, nem certamente os livros de interesse minoritário sobre imaginários colonos fronteiriços da África do Sul do século XVIII.”
“Não quis dizer imortal no sentido de existir fora do tempo. Quero dizer sobreviver para além do nosso desaparecimento físico.”
“Queres que as pessoas te leiam depois de morto?”
“Dá-me um certo consolo ater-me a essa perspectiva.”
“Mesmo que cá não estejas para ver?”
“Mesmo que cá não esteja para ver.”
“Mas porque é que as pessoas do futuro se hão-de dar ao trabalho de ler o livro que tu escreves se ele não lhes diz nada, se não as ajuda a encontrarem sentido para as suas vidas?”
“Talvez ainda gostem de ler livros bem escritos.”
“Isso é uma tolice. É como dizer que, se eu fizer um rádio com gira-discos suficientemente bom, as pessoas continuarão a usá-lo no século XXV. Mas não continuam. Porque os rádios com gira-discos, por mais bem feitos que sejam, já hão-de ser obsoletos. Não dirão nada às pessoas do século XXV.”
“Talvez no século XXV ainda haja uma minoria com curiosidade de ouvir como era o som de um aparelho de telefonia.”
“Coleccionadores. Gente com passatempos. É assim que tencionas passar o resto da vida? Sentado à secretária a manufacturar um objecto que pode ser ou não conservado como curiosidade?
Ele encolheu os ombros. “Tens alguma ideia melhor?”»

[in Verão, de J.M. Coetzee, trad. de J. Teixeira de Aguilar, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 26]

Pé de Mosca

Pé de Mosca: eis o nome de uma nova «plataforma cultural» que «se propõe criar projectos singulares e revestidos de uma forte dimensão social e pública». Um dos primeiros passos da Pé de Mosca é a colecção Rato da Europa, com apresentação marcada para as Correntes d’Escritas (dia 25, a partir das 23h00, no Hotel Vermar).

O primeiro livro, do ensaísta Pedro Eiras, tem grafismo sóbrio e um título quilométrico: Boomerang – 27 postais sobre representações da Europa na literatura portuguesa dos séculos XIX a XXI, ou ecos e sombras devolvidos ao remetente, para escrever, enviar e perder.

Um guia para a ficção on-line

Mais do que um guia, é um mapa. Mais do que um mapa, é uma constatação dos recursos intermináveis da internet (aqui abrindo janelas e mais janelas para a melhor ficção contemporânea em língua inglesa). Thanks, David Backer, pelas muitas pistas.

Babel vs. LeYa

Um cartoon de Alexandre Esgaio, sacado daqui. O único problema com o desenho está na escala dos rivais. A Babel, por enquanto, teria que ser muito mais pequena do que a outra máquina de lançar livros sobre os sufocados leitores.

Lavar a loiça

De todas as tarefas domésticas, lavar a loiça sempre foi a minha preferida. Gosto daqueles minutos passados com as mãos enfiadas na água quente e na espuma, da mecânica de gestos que não me obrigam a pensar e por isso me deixam a cabeça livre para devaneios, pontos da situação e ímpetos criativos. Em festas de amigos e nas férias colectivas, sempre me ofereci para a função de que toda a gente foge e muitas vezes fui olhado de lado, como se lavar a loiça fosse um prazer perverso que não é suposto ser exibido, despudoradamente, no final de um belo jantar.
Imaginem pois a minha alegria, e o meu alívio, ao deparar com esta passagem do conto É grave, doutor?, de Juan José Millás, incluído no volume Os Objectos Chamam-nos (Planeta):

«Quando eu era jovem, partilhei um apartamento com uma rapariga que a primeira coisa que me disse foi que odiava lavar loiça, de maneira que teria de ser eu a fazê-lo. Ao princípio parecia-me uma chatice, porque me empenhava em acabar quanto antes, creio, mas depois fui começando a gostar e lavava numa hora o mesmo número de pratos que qualquer pessoa normal teria lavado em meia hora. Aquilo de que eu gostava naquela actividade era que me punha intelectualmente activo. Dez minutos depois de estar a puxar o brilho a um tacho de alumínio, os neurónios travavam amizade entre si e resolvia problemas que na mesa de trabalho me teriam levado dias. Lavar a loiça ajudava-me a entrar num estranho estado de concentração do qual obtinha benefícios incríveis. No entanto, caía mal à minha companheira ver-me desfrutar dessa maneira e começou a pensar que partilhava a casa com um depravado.
– Mas por que razão não protestas quando tens de lavar a loiça?
– Porque gosto.
– Deixa-te de brincadeiras. Como é que podes gostar?
– É verdade. A água a correr e ver como desaparece pelo ralo a sujidade das frigideiras mergulha-me numa espécie de êxtase que me ajuda a reflectir sobre a existência.
Ao princípio ela pensou que eu estava a troçar dela, e depois que era um pervertido. Quando tínhamos convidados e me via a levantar depois de comer, para arrumar a cozinha, ouvia-a murmurar coisas sobre mim. Uma vez trouxe a mãe, a qual, depois de me observar de cima a baixo, me perguntou se eu era o tal que gostava de lavar a loiça.
– Sou um deles – respondi, sentindo-me membro de uma seita secreta de lavadores espalhados pelo mundo.»

Uma seita a que pelos vistos eu também pertenço, agora com uma pontinha de orgulho.

O que aí vem (Ahab)

W,OHIO_CAPA

Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, uma obra-prima que abriu caminho a outras obras-primas da literatura norte-americana do século XX. Com tradução de José Lima e posfácio de John Updike.
Chega às livrarias no dia 25 de Março.

A tragédia madeirense (por Paulo Moura)

O que faz de Paulo Moura o melhor repórter português no activo não é apenas a sua destreza em situações de catástrofe, o seu olhar cirúrgico, a atenção aos mínimos detalhes. Tudo isso ajuda muito, mas não chega. O que faz dele o melhor repórter português no activo é o facto de escrever como um escritor, nunca deixando de ser jornalista. Mais um exemplo da sua mestria pode ser lido na edição de hoje do Público, numa peça sobre as enxurradas que destruíram tudo à sua passagem, sábado, na ilha da Madeira. Atentem bem na forma como ele conclui o texto:

«Na cidade, a chuva parou e as pessoas vieram ao centro ver os estragos, como se fosse um espectáculo que um dia descreverão aos netos. Há muita gente, mas um estranho silêncio. Há zonas alagadas e outras em que a lama solidificou, deixando automóveis incrustados até ao tejadilho à maneira dos fósseis, em posições desgovernadas de quem tivesse participado numa dança louca. Dir-se-ia que andou tudo a voar.
Nas ribeiras ainda corre uma água castanha, rápida e rumorejante. Um som estridente, semelhante a uma gargalhada. Ao fundo, o mar espera, cúmplice. De certos sítios, agora calmos, ninguém se aproxima, com medo, como se ali tivesse rugido uma fera.
O Largo do Pelourinho ainda está alagado e da esplanada de um café apenas emergem os tampos das mesas, onde foi servido um sinistro repasto de pedras e lama. A um nível mais elevado fica a Praça da Autonomia, obra de regime, cercada de água por todos os lados.»

Finda a leitura, aquele som estridente da ribeira em fúria, «semelhante a uma gargalhada», perseguiu-me durante uns minutos. Para dizer a verdade, ainda o oiço.

O fogo por vários dias

mae-do-fogo

Mãe-do-fogo
Autores: João Miguel Fernandes Jorge (texto) e João Cruz Rosa (desenhos)
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-989-641-134-3
Ano de publicação: 2009

Nestes 25 novos poemas, completados por uma série de desenhos de João Cruz Rosa (a tinta-da-china sobre papel feito à mão), João Miguel Fernandes Jorge prossegue a sua linha estética de grande rigor e austeridade, pontualmente iluminada por efusões de um lirismo que nunca abandona um recorte clássico. Como sempre, há poemas que se inspiram nas artes visuais (a pintura de Rembrandt; uma fotografia de Ed van der Elsken) e outros que captam a natureza epifânica das coisas mais simples: o melro que bebe de um prato de barro com «água a rasar», uma capela, a «ondulada lâmina // do desejo» que «desarma o corpo», o licor de leite filtrado gota a gota, os «cambiantes» cromáticos dos medronhos maduros.
Se o título do livro faz alusão ao «toro de madeira branca que sustenta o fogo por vários dias», arrisco dizer que a «mãe-do-fogo» deste conjunto de poemas é a memória («talvez / não se possa fazer mais nada na vida senão / recordar»), uma memória onde cabe tanto a evocação da pedra de mármore onde o pai, farmacêutico, pousava a espátula, como a experiência de visitar, aos nove anos, um doente moribundo e ouvir o «estranho rumor» da sua agonia. Também há pequenos vínculos simbólicos entre os poemas (num, a maçã vermelha do ramo mais baixo comida por uma ovelha; noutro, a maçã do ramo mais alto à mercê do bico preto do corvo) e densas meditações sobre a paisagem, ou as ruínas da ausência.
O tom da escrita, esse, nunca esconde a amargura, nem a nostalgia de um mundo aldeão em vias de desaparecimento, como o descrito no início do poema XIII (pág. 24):

Tenho para mim neste derrotado começo de século
neste farrapo de país em que a própria língua virá em
breve a ser idioma secreto
e a quem ninguém chamará pátria nem tão-pouco
nação, apesar da vigilância sobre a nossa existência
ser matéria autocrática e clerical,

tenho para mim que nesta geografia
a casa rural é a expressão mais pura que sobrevive

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 87 da revista Ler]

Curso de poesia portuguesa contemporânea na Casa Fernando Pessoa

Dirigido a «professores e alunos, investigadores e amantes da poesia portuguesa», o curso orientado pelo crítico e poeta António Carlos Cortez pretende ser «uma viagem aos textos mais representativos da poesia nacional, problematizando a influência de Fernando Pessoa (1888-1935) em autores que, cada um à sua maneira, contribuíram para a revolução contínua da linguagem poética nessa segunda metade do século passado». O período abrangido vai dos anos 30 («1935 é a data da 1.ª edição do livro de maturidade de Nemésio») aos anos 80 («década em que a obra de Luís Miguel Nava ganha notoriedade e se fixa como uma das últimas poéticas verdadeiramente “modernas” no contexto da nossa Modernidade»). As aulas decorrerão à segunda-feira, entre as 18h00 e as 19h30, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
Eis os autores a abordar nas nove sessões:

5 de Abril – Vitorino Nemésio e Camilo Pessanha
12 de Abril – Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner
19 de Abril – Eugénio de Andrade e Carlos de Oliveira
26 de Abril – Mário Cesariny e Alexandre O’Neill
3 de Maio – Herberto Helder e Ruy Belo
10 de Maio – Fiama Hasse Pais Brandão e Luiza Neto Jorge
17 de Maio – Gastão Cruz e Armando Silva Carvalho
24 de Maio – Nuno Júdice e António Osório
31 de Maio – Luís Miguel Nava e Ana Luísa Amaral

As inscrições (num mínimo de 30 pessoas e máximo de 80), estão abertas até 31 de Março, na CFP. Custo: 40 euros.

‘Ghost Writer’

 

Uma crítica ao novo filme de Roman Polanski, estreado no Festival de Cinema de Berlim (a 12 de Fevereiro), por Kenneth Turan. Ghost Writer adapta um romance de Robert Harris: The Ghost.

Cinco poemas de Pedro Tamen

Meia sola é meia sola.
Será por isso que a cola
me cheira tanto a vinagre?

Mas meia sola é milagre.
E eis o que ninguém sabe:
que neste cantinho cabe,
na penumbra da oficina,
na casca do caracol,
esta pequena aspirina
que é a largueza do sol.

***

Esta perna invertida
de ferro já vivido
que me serve de forma,
onde o sapato assenta,
exala sons de mar,
ventos, canaviais,
um aceno amarelo,
dentes que mordem livres
da mordaça da cave
onde tenaz martelo.

***

Amo o sapato que faço
na própria mão que o percorre,
no calo e nas unhas sujas,
na velhice do inchaço
de uma artrose de quem morre
mas não antes que me fujas;
ó meu sapato de milho,
de juventude virada
para um pé ao pé da mão,
sapato que és mãe e filho
da minha arte calada
de entre cordeiro e leão.

***

Essa nudez de carne que vislumbro
nesta reviva pele que a mão trabalha
vem como luz na escuridão da cave
e qual espuma do mar desce na praia,
e a ferramenta é leve sendo chumbo
já sem força vetusta que se acabe.

***

Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.

Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.

[in O livro do sapateiro, Dom Quixote, 2010]

O único representante

Segundo o maradona, eu sou o «único representante do clube das pessoas que estão curiosas com a identidade do Senhor Palomar». Pode ser que sim. Pode ser que não.

Um anúncio estúpido

Os senhores da Budweiser nunca se sentaram numa esplanada a ler um bom livro e a beber uma imperial. Coitados. Não sabem o que perdem.

[via BiblioFilmes]

Carlos Fuentes sobre Albert Camus

«Hay una tensión permanente, nos advierte Camus, entre lo inevitable y lo injustificable. Es posible que el fin justifique los medios, ¿pero quién justifica el fin mismo? Esta gran cuestión política no la resuelve Camus. La plantea. Lo hace, claro, a partir de su condición de escritor-periodista, ensayista, novelista, autor dramático. Capturado —como todos— entre la voluntad de ser moral y todo lo que le impide serlo. Entre las ganas de ser dichoso y la imposibilidad de acceder a una dicha plena. Camus recibió el Premio Nobel de Literatura en 1957, a los 44 años, como si Estocolmo previese, apresurada, la breve vida del escritor. Porque su distancia de lo que entonces pasaba por ortodoxia (de derecha o de izquierda) le valió toda suerte de epítetos. Boy scout, moral de la Cruz Roja, escritor edificante, santo sin Dios, experto en coartadas, traficante de amigo, ahora enemigo, Sartre: “Camus escribe demasiado bien”. Camus respondería que no se gana la justicia condenando a varias generaciones a la injusticia. Que existen la belleza y los humillados: ¿cómo serle fiel a ambos? Que más vale no agradar que doblegarse para quedar bien. Que la fama es un entierro prematuro porque niega el futuro y el derecho que todos tenemos de cambiar. Que no importa el tiempo que nos conceda la vida, sino cómo empleamos el tiempo. Y que no nos podemos separar de la historia, pero la podemos enfrentar críticamente. Muy discutida fue la posición de Camus respecto a su patria natal, Argelia. El autor se ganó severos ataques por recordar que Argelia no era sólo musulmana, que no debía ceder ante los fanáticos y que al cabo era necesario vivir juntos y en paz o morir juntos y en guerra, acentuando la soledad de argelinos y franceses, así como la desgracia de ambos.
Superada por la historia tal disyuntiva, cabría hoy hacer la misma pregunta a israelíes y palestinos, pues la oportunidad de convivir, entender y abandonar el odio y la violencia son opciones constantes de la historia y la historia, nos recordó Albert Camus, es la tensión entre lo inevitable y lo insustituible.»

Hoje, em artigo de opinião no Babelia, do El País.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Prisioneiro do Estado – O Diário Secreto de Zhao Ziyang, de Zhao Ziyang (Casa das Letras), por Luísa Meireles
Lúcio Lara – Imagens de um Percurso (Associação Tchiweka de Documentação), por Nicolau Santos
Os Objectos Chamam-nos, de Juan José Millás (Planeta), por José Mário Silva
Antes de Ser Feliz, de Patrícia Reis (Dom Quixote), por António Guerreiro
As Sete Mulheres de Barba Azul, de Anatole France (Estrofes&Versos), por Ana Cristina Leonardo
Assim se Esvai a Vida – Três Livros num Só, de Urbano Tavares Rodrigues (Dom Quixote), por Helena Barbas
O Fim do Alfabeto, de C. S. Richardson (Presença), por José Guardado Moreira

‘Open Book’

Uma canção dos The Rakes.

[via blogue da Quetzal]

Packs temáticos

Grandes ideias, oferecidas de borla por livreiros-mártires.

Livros e manuscritos antigos

Para bibliófilos abonados, aqui.

‘O Caderno – 2′ (booktrailer)

Eis o segundo volume da edição em livro do blogue de José Saramago, com textos escritos entre Setembro de 2008 e Novembro de 2009. O prefácio é de Umberto Eco. Pela minha parte, estou curioso: será que este texto foi incluído?

Alteração na mesa que vou moderar nas Correntes

Por motivos de força maior, Pedro Pinto será substituído por Sérgio Luís de Carvalho. Ou seja, o oitavo debate das Correntes d’Escritas, com o pessoano mote “Duvido, portanto penso” (marcado para as 10h30 de dia 27, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim), passa a ter a seguinte composição: João Paulo Sousa, Lourenço Pereira Coutinho, Paulo Moreiras, Sérgio Luís de Carvalho, Vítor Burity da Silva e José Mário Silva (moderador).

Barómetro

Este blogue é uma espécie de instrumento científico que serve para medir a intensidade das minhas semanas de trabalho. Em semanas calmas, a média diária de posts pode chegar a dez. Em semanas moderadamente ocupadas, a média desce para cinco, ou três. Em semanas ocupadíssimas, com deadlines diárias, um post por dia já é um milagre (escusado será dizer que esta foi uma dessas semanas).

Literatura e formatos digitais

A propósito do debate que se gerou neste post do BdB, em torno de um texto de José Vegar, jaa diz de sua justiça sobre as possíveis consequências da progressiva passagem dos livros a suporte digital. Tal como Vegar, não está lá muito optimista. Eis um excerto (mas vale mesmo a pena ler o post completo):

«As consequências ficam para os cineastas, escritores e músicos que gostariam de construir uma obra sólida num meio-termo de exposição mediática, que não conseguirão apoio porque as probabilidades de que alguém repare neles é demasiado baixa (as franjas são excessivamente radicais para o fazerem, o grande público demasiado distraído). Alguns terão a sorte de se tornarem fenómenos da net como, de resto, já existem vários exemplos no universo musical. Mas serão poucos e, no caso da literatura, é dúbio que consigam gerar rendimentos para poderem viver da escrita. Ainda por cima, a internet também acelerou o processo de obsolescência: é-se um génio num determinado momento, está-se gasto no seguinte. (Ou, como diria Heidi Klum, «One day you’re in, the next day you’re out.»).
É por tudo isto que não estou optimista e que vejo com algum cepticismo o argumento de que a internet e os formatos digitais permitem uma maior disseminação da cultura. O potencial existe mas poucas pessoas excepto as que já hoje compram livros ou no passado compravam discos usam ou usarão esses meios para expandir horizontes, sendo que mesmo estas podem acabar por concluir que a oferta se reduziu e – neste caso não tenho sequer dúvidas, porque sucedeu com a música – o esforço necessário para descobrir as obras de qualidade é muito maior do que antes (umas quantas das tais maléficas editoras dão algumas garantias de qualidade). Quanto à esmagadora maioria, apenas os utiliza e utilizará para obter aquilo de que se fala. Num ponto quase todos convergirão: a pouca vontade de pagar um cêntimo pelo que quer que seja.»

Menos arquitectura que balística

macau

Macau
Autor: Paulo Henriques Britto
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 55
ISBN: 978-972-568-626-3
Ano de publicação: 2010

O brasileiro Paulo Henriques Britto (n. 1951) pertence à categoria dos poetas bissextos. Após o livro de estreia (Liturgia da Matéria, de 1982), publicou apenas mais quatro livros de poemas: Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007). Conhecido sobretudo pelas suas traduções do inglês (Henry James, Elizabeth Bishop, William Faulkner, Don DeLillo, Thomas Pynchon, entre outros), Britto apanhou de surpresa o meio literário lusófono ao vencer em 2004 o Prémio PT de Literatura, no valor de cem mil reais (cerca de 49 mil euros), batendo na final pesos-pesados como Chico Buarque (Budapeste), Bernardo Carvalho (Mongólia), Sérgio Sant’Anna e Manoel de Barros.
A inesperada vitória foi conseguida com Macau, o voluminho que inaugura a nova colecção de poesia da Ulisseia e revela algumas das linhas principais do trabalho deste autor, nomeadamente aquela que passa pela desconstrução sistemática da artificialidade dos códigos poéticos. Britto utiliza quase sempre formas clássicas, com metrificação canónica e rimas, mas apenas para as fazer implodir através do recurso a uma linguagem ostensivamente coloquial, pouco elevada. O poeta domina a técnica, conhece as regras, chega a ser virtuoso na composição verbal, no equilíbrio das estrofes, mas depois insiste em colocar-se de fora, retirando com visível gozo a máscara da solenidade e dinamitando, com recurso à ironia, toda a sorte de visões estabelecidas e lugares-comuns. Veja-se este poema que ridiculariza uma das mais gastas categorias românticas (a inspiração):

Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.

Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta

esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras

que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida

o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.

Não quer isto dizer que o sujeito poético não busque um sentido para as coisas e para os sonhos, um sentido pressentido («só que não está ao nosso alcance»), uma verdade aparentemente inatingível mas que até pode estar mais próxima do que imaginamos: «É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai». O poeta é então alguém que não se conforma com a inabalável «opacidade das coisas», procurando dar sentido a um impulso que «vem de dentro, e incomoda», uma «fala esquisita» e «aparentemente anárquica» em que as palavras estrebucham, «inúteis» como «cágados com as quatro patas viradas pro ar». Entre a realidade, essa «coisa delicada,/ de se pegar com as pontas dos dedos», e o «cais úmido e ínfimo» do eu, «mínimo/ império sem território» (como a ilha do Oriente onde se fala português), nasce a tensão que atravessa estes poemas, sempre à beira da banalidade (esse «acorde / gemido por um destoadíssimo realejo») e de uma assumida insuficiência, expressa em certos títulos (Dez sonetoides mancos; Três epifanias triviais, etc.) e também, infelizmente, na qualidade literária inferior de algumas sequências (as Três tercinas, por exemplo; ou os vários poemas em inglês).
Se o que permanece é «a alvenaria do mundo, o que pesa», Britto parece só acreditar nas coisas sólidas que sejam tocadas pela leveza do voo, ou pelo rasto dessa possibilidade, erguendo por isso uma poética instável, aérea, mais perto da «balística» do que da arquitectura. Como explica, de forma exemplar, neste poema:

É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda

na mão, igual a um fogo de artifício
que deu chabu. Não. Tem que ser na altura
de um morro, no mínimo, ou de um míssil

terra-a-ar. Sim. Menos arquitetura
que balística. É claro que é difícil.

Avaliação: 7/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Contagem decrescente

Os prémios do The National Book Critics Circle serão anunciados a 11 de Março. Até lá, todos os dias o blogue do NBCC publica uma micro-recensão a um dos 30 finalistas. Para acompanhar aqui.

O Coehlo está solo (porque só existe em Espanha)

Nunca me passou pela cabeça ler O Vencedor Está Só, de Paulo Coelho (li a imensa biografia do Fernando Morais e chega). Mas era capaz de dar uma hipótese a El Vencedor Está Solo, de Paulo Coehlo.

Três poemas de Paulo Henriques Britto

Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.

***

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa –
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância).

***

ACALANTO

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

[in Macau, Ulisseia, 2010]

‘The Use of Poetry’

Um conto de Ian McEwan, publicado no início de Dezembro pela New Yorker.

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges