Chapéus & Cadeiras

Hats & Chairs, o novo e excelente disco dos The Soaked Lamb (banda de blues de que faz parte Afonso Cruz, autor de Enciclopédia da Estória Universal), é hoje oficialmente lançado em Lisboa, com um concerto gratuito, a partir das 22h00, no Jardim 9 de Abril, às Janelas Verdes, junto ao Museu Nacional de Arte Antiga.
Aproveitem.

José Rodrigues dos Santos lidera top búlgaro

O romance A Fórmula de Deus (Gradiva), o mais vendido no nosso país em 2006, está neste momento no primeiro lugar do top da principal cadeia de livrarias da Bulgária: a Helikon. Já traduzido em sete línguas, o livro vai ser publicado este ano na Rússia, Hungria e EUA.
A edição búlgara, com chancela da principal editora do país (a Hermes, de Plovdiv), tem como título Borjiata Formula. Ou, como se escreve em cirílico, Божията формула. Como é óbvio, exultante com a notícia deve estar José Rodrigues dos Santos. Ou, como se escreve em cirílico, Жозе Родригеш душ Сантуш.

SILVA, José Mário – 155, 156

Confirmado aquilo de que cheguei a duvidar, permitam-me a singela vaidade de fazer parte do índice onomástico d’ O Caderno 2, de José Saramago (Caminho). Ou melhor, do índice onomástico que o livro com textos publicados pelo Nobel na blogosfera, hélas, não tem (mas devia ter).

Poesia visual

LHC
(clique para aumentar a imagem)

Representação gráfica de algumas das cerca de meio milhão de colisões de partículas sub-atómicas registadas ontem pelo acelerador (LHC) do CERN.
Mais poemas, aqui.

Quatro poemas de Carlito Azevedo

MOTORES

I.

A. e B. necessitam ouvir música para escrever, já M. e W. requerem nessa hora todo o silêncio possível, para obedecer, talvez, a algum ritmo interno. Durante os quatro últimos anos eu escrevi ouvindo, pelas manhãs, no quarto contíguo ao meu, o motor da máquina de hemodiálise e seu estrondo de lava-roupas antigo, por vezes interrompido por agudos sinais cuja função seria advertir a enfermeira responsável por você, ocupada em tomar café com bolinhos na cozinha, de que algo não ia bem com a máquina ou em seu corpo.

II.

Nos primeiros meses eu tentava abafar o barulho colocando música alta nos fones de ouvido, mas isso atrapalhava ainda mais a escrita, e, por acréscimo, transformou o meu medo (de ouvir o sinal de alarme disparar dizendo que algo ia mal no delicado processo) em meu pânico (de não ouvi-lo disparar dizendo que algo ia mal no delicado processo, e de que tampouco o ouvisse a enfermeira responsável).

III.

Acabei aprendendo a me virar com o rugir dessa turbina, com seu apito estridente sempre (in)esperado, nas manhãs de segunda, quarta e sexta. Como o Alzheimer não lhe permitia gravar na mente a importância de permanecer quieta durante as sessões de hemodiálise, você logo passou a ser atada à cama.

IV.

Com sua morte, também esse som não participa mais do sistema de rumores desta casa, sistema que agora praticamente só inclui descarga, fechar e abrir de portas e janelas, toque de telefone, teclado de computador dentro da madrugada, jato de torneira, ducha contra piso vermelhão, bater de cabides entre si e no cimo do armário quando puxo a roupa com força e pressa demasiadas, fervilhar de água dentro da chaleira para o chá, batida de aparelho de barbear descartável contra pia, minha chave dando voltas na fechadura. Às vezes, num ônibus antigo, rumo ao centro, me volta o motor que te adiava esse buraco na terra.

[Estes quatro poemas correspondem a uma das quatro secções de H., última parte do livro Monodrama, editado pela Cotovia, em Fevereiro de 2010]

Gallimard vai processar a Google

Motivo: a digitalização de livros sem autorização prévia. Antoine Gallimard, administrador da editora francesa, anunciou o recurso à via judicial no muito concorrido Salon du Livre de Paris.

Ciclo Imagem e Pensamento

A segunda edição é dedicada a Pierre Klossowski. Programa completo aqui.

O ladrão involuntário

solar

Solar
Autor: Ian McEwan
Título original: Solar
Tradução: Ana Falcão Bastos
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 338
ISBN: 978-989-616-359-4
Ano de publicação: 2010

Quando se soube que o novo romance de Ian McEwan, Solar (lançado esta semana em Portugal, quase em simultâneo com a edição inglesa), abordaria uma das maiores preocupações civilizacionais do nosso tempo, muitos admiradores do autor de Expiação torceram o nariz. Fazer boa literatura a partir de tópicos como o aquecimento global e as energias renováveis parecia, à partida, não só uma impossibilidade teórica como uma receita para o desastre. Felizmente, os receios de que McEwan desperdiçasse os seus recursos estilísticos num panfleto ambientalista, ou de que se transformasse no Al Gore das secções de ficção das livrarias, desfizeram-se mais depressa do que leva a dizer «olha, lá se foi mais um glaciar».
E porquê? Porque antes de ser um cidadão preocupado com os desastres ecológicos que podem hipotecar o futuro do planeta, McEwan é um escritor, um grande escritor que sempre mostrou conhecer os meandros mais inacessíveis ou inconfessáveis da natureza humana. O segredo de Solar está no facto de nunca perder de vista que a tragédia global do mundo moderno tem como causa primeira a nossa radical imperfeição. E McEwan expõe-na, a essa imperfeição, da forma literariamente mais eficaz: através do humor e da sátira. A única surpresa talvez resida no facto de se mostrar tão desenvolto e certeiro num registo de comédia que não costuma ser o seu (a descrição de uma viagem ao Círculo Polar Árctico, em que um grupo de artistas empenhadíssimos e cheios de vontade de salvar o mundo se mostram incapazes de manter minimamente arrumada a «sala das botas», é, a esse título, antológica).
O grande trunfo do romance, porém, assume a forma do seu protagonista: Michael Beard, concentrado ambulante de todos os defeitos da espécie. Prémio Nobel da Física aos trinta e poucos anos, viveu a vida toda à sombra desses louros alcançados muito cedo. Depois da Conflação Beard-Einstein (uma descoberta no campo da interacção entre a luz e a matéria que o hifenizou com um génio), o seu trabalho criativo foi nulo e ele limita-se a dar conferências bem pagas, a emprestar o brilho do seu nome a cabeçalhos de cartas e a chefiar centros de investigação com fins mais políticos do que científicos. Na esfera pessoal, contabiliza um corpo a dar as últimas (gordo, baixo, doente), cinco casamentos falhados, um longo rol de infidelidades e conflitos pessoais, além de uma tendência para a hipocrisia e para o egoísmo. Não será um «patife completo» mas anda lá perto, embora ele não se considere «nem mais cruel, nem melhor, nem pior do que a maioria».
Certa vez, numa viagem de comboio, enerva-se com um passageiro que começa a servir-se do seu pacote de batatas fritas. Ele amaldiçoa aquele larápio desavergonhado até se aperceber, tarde demais, que o seu pacote continua no bolso e que foi ele o «ladrão involuntário». De certa maneira, ele é sempre o «ladrão involuntário» de alguém: do estudante de doutoramento que lhe entrega, antes de morrer, a investigação básica para o projecto de «fotossíntese artificial» que mais tarde assumirá como seu; das amantes que esperam dele o que não está disposto a dar-lhes; dos seus amigos, sócios, inimigos; etc.
Beard está no centro de vários círculos narrativos que McEwan alterna ou sobrepõe com a habitual mestria técnica, apoiada numa escrita de extraordinária precisão (uns «sapatos deitados de lado sobre a mesa de café», por exemplo, dizem tudo sobre o estado psicológico de uma personagem). Mais do que o aquecimento global, o tema do romance acaba por ser o aquecimento particular deste homem que atrai para si todas as catástrofes profissionais e afectivas imagináveis. O planeta pode estar em risco, mas Beard não o está menos. E é de Beard, ao acabar o livro, que nos lembraremos. Talvez porque, ao contrário do planeta, ele não pode – ou melhor, não quer – ser salvo.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

As respostas de Bolaño

Eis um blogue precioso sobre Roberto Bolaño: Estrela Selvagem. Mantido pelos brasileiros Lucas de Sena Lima e Daniel Fernandes Vilela, o seu objectivo é «reunir as entrevistas e outros materiais referentes ao escritor chileno e traduzi-las para o leitor de língua portuguesa, a exemplo do que acontece em outros países, onde vários blogs são criados para divulgar a obra do escritor».
Eis um excerto de uma entrevista dada ao jornal colombiano El Tiempo, em 2003, poucos meses antes da sua morte:

«Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?
Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?
Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

(…)

Que pensa do autobiográfico na literatura?
Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?
Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?
O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?
César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.
Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.
Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.
Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.
Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.
Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.
Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.
Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.»

Muito bolañianas são também as respostas ao Questionário de Proust. Eis algumas delas:

«Qual seu defeito mais deplorável?
Sou uma pessoa cheia de defeitos, e todos são deploráveis.

(…)

Se depois de morto tivesse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?
Um colibri, que é o menor dos pássaros e cujo peso, em algumas ocasiões, não chega a dois gramas. A mesa de um escritor suíço. Um réptil do deserto de sonora.

(…)

Qual a sua maior extravagância?
Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames de computador.

Em que ocasiões você mente?
Quando falo de pintura abstrata. Quando falo de poesia metafísica.

Que pessoa viva te inspira mais desprezo?
São muitos, e já sou demasiado velho para estabelecer um ranking.

Que pessoa viva admira?
Admiro as mães e avós da Praça de Maio. Pessoas como elas.

Que palavras ou frases usa mais?
“Foder” e “boceta”.

Qual sua idéia de felicidade perfeita?
Minha felicidade imperfeita: estar com meu filho e que ele esteja bem. A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade ou campos de concentração.

(…)

Qual seu maior remorso?
São muitos, e se deitam, e levantam comigo, e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.

Qual a virtude mais valorizada socialmente?
O êxito, mas o êxito não é nenhuma virtude, é só um acidente.

O que te desagrada mais em sua aparência?
Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação.

(…)

Qual sua posse mais valiosa?
Meus livros.

(…)

Onde desejaria viver?
Se tivesse muito dinheiro, na Andaluzia, sem escrever nem fazer nada, passar o dia nos bares, conversando.

Qual seu passatempo favorito?
Ver vídeos até às cinco da manhã.
(…)»

‘Wolf Hall’ (booktrailer)

A Civilização acaba de lançar Wolf Hall, de Hilary Mantel, um extraordinário romance histórico que ganhou o Man Booker Prize 2009, como expliquei aqui.

Anacronismo

Subject do último e-mail que recebi: William Shakespeare is now following you on Twitter!

Uma outra Comala

Na crítica ao romance O Perdão dos Pecados, de Antonio Fontana, sugeri a existência nesta escrita de uma «ressonância unamuniana». O crítico Rui Lagartinho, da Time Out Lisboa, mais do que em Unamuno, pensou em Juan Rulfo. Eis o texto dele:

«É legítimo e natural que um autor se aproveite da ficção que vai escrevendo para expor o seu imaginário. Em O perdão dos pecados, Antonio Fontana fá-lo com as citações de Rebbeca, de Daphne Maurier. Mas quanto a nós, fantasma por fantasma, preferimos os de Pedro Paramo e daquela Comala imaginada por Juan Rulfo, onde não sabemos se quem nos fala ainda está vivo.
Vinte anos depois de ter trocado Barranca por Madrid, Ângela volta à terra que a viu nascer para assistir aos funerais da mãe e da irmã. Quem regressa ao passado acaba a brincar com o fogo: “Sinais de que o passado não desaparece. Porque ainda que pensemos que sim, embora tenhamos a ideia que podemos esquecer tudo ou enganar a memória, ainda que confiemos que deixámos tudo completamente para trás, o passado espera-nos à volta da esquina, disposto a ajustar contas connosco.”
Em pano de fundo, passam por O perdão dos pecados arquétipos explicitamente cinematográficos de tom neo-realista que atravessaram grande parte da história da Espanha pós-guerra civil do século XX e que são mais difíceis de desaparecer no mundo rural do que numa grande cidade, disfarçados pelos cheiros: “E o pão. Há muitos invernos Madrid cheirava a pão fumegante. E a churros acabadinhos de fazer. E ar cortante pelo frio.”
Segura e eficaz, a prosa de Antonio Fontana consegue prender-nos a uma história que sendo singular deixa um lastro de problemas com que todos nos confrontamos mais tarde ou mais cedo. Mesmo quem consegue driblar as armadilhas da educação judaico-cristã continua a ter de respirar o tal ar do tempo.»
Rui Lagartinho

Vergonha, usurpação, abuso, etc.

Já tinha acontecido com a editora Tribuna da História. Aconteceu de novo com o jornal As Beiras, de Coimbra. Alguém encontra ilustrações de Pedro Vieira na internet e decide usá-las sem pedir autorização ao autor. Uma vergonha, uma usurpação, um abuso, etc.

The Second Pass

Eis uma magnífica «online publication devoted to reviews, essays, and blog posts about books new and old». Completou agora um ano. Leiam-na, leiam-na comigo, que só nos faz é bem.

Gó, Gog, Golo

Uma mui irónica crónica futebolístico-literária, por Jaime Bulhosa.

Se me permitem

Quero apenas dizer que o último dos poemas de Miguel-Manso transcritos no post anterior (intitulado Na morte da avó) é um dos melhores que me foi dado ler nos últimos 365 dias. Ou mais ainda.

Quatro poemas de Miguel-Manso

TÚMULO

para uma compreensão
mineral do poema
permanecer sempre
no mesmo sítio

***

A BASÍLICA DE NOTRE-DAME DU SAINT-CORDON

Na cidade de Valenciennes, no norte de França, há uma pequena basílica do século XIX que mais parece uma peça de barro lambujada, ou um desses montinhos de areia molhada que erguemos à beira-mar. Tem o aspecto de um sólido que liquesce devagar, as arestas boleadas, os elementos esboroados, tudo ameaça desfazer-se a um breve tocar e não resta outra solução que não seja impedir as pessoas de entrar, esperar que de uma vez por todas o monumento se esfarele. A razão de tudo isto é evidente: o uso, na construção, de uma pedra imprópria para templos que se querem pelos tempos.
Olho a fotografia de dois amantes, abraçados, sorrindo-se, com a Notre-Dame de Valenciennes em pano de fundo. É o começo do Outono, a julgar pelas roupas, o chão molhado, a cor do céu. A basílica, creio, ainda lá está, nessa cidade desengraçada e triste que nenhum turista, com o juízo inteiro, se lembrará de visitar duas vezes. Demoliram primeiro que tudo os amantes.
À fotografia guardo-a de novo, mas agora mais fundo dentro da caixa.

***

A QUEDA

para a Catarina Barros

resta, de Agosto, esta fotografia
iluminada

onde tudo permanece ainda no lugar:
a boca no artifício dos sabores
a lentidão dos açúcares
mãos suadas dissipando pântanos
interiores
pernas brancas, vestido colado ao clima
dessas pernas
o cio vibrante do Astro, por cima
por baixo, umas sandálias

às primeiras evidências outonais
levantaram as esplanadas

***

NA MORTE DA AVÓ

não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
– é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida –

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

[in Santo Subito, edição do autor, 2010]

Maravilhas da paternidade

Diz a Alice: «Estou muito zangada com a minha sombra porque ela faz tudo o que eu faço, pai, parece que só sabe imitar-me.»

When Patti met Roberto


A cantora Patti Smith vai apresentar hoje, no encerramento do festival Palabra y Musica, em Gijón, o poema-canção que escreveu para Roberto Bolaño.

Dia de saldos

Hoje, entre as 10h00 e as 18h00, na Livraria Escriba (Cova da Piedade).

O cheiro dos livros estranhos

Uma investigação literário-olfactiva, por Jeff VanderMeer.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Solar, de Ian McEwan (Gradiva), por José Mário Silva
Acerca de Roderer, de Guillermo Martínez (Sextante), por Ana Cristina Leonardo
O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua, de Manuel Alegre (Dom Quixote), por José Mário Silva
Mãe-do-fogo, de João Miguel Fernandes Jorge, com desenhos de João Cruz Rosa (Relógio d’Água), por António Guerreiro
O Futuro da América, de Simon Schama (Civilização), por Luís M. Faria
História da Morte, de Douglas J. Davis (Teorema), por Vítor Quelhas
História Literária do Porto através das suas Publicações Periódicas, de Alfredo Ribeiro dos Santos (Afrontamento), por Carlos Bessa

António Lobo Antunes no Salon du Livre de Paris

A trigésima edição do Salon du Livre de Paris começa hoje. Entre os cabeças-de-cartaz estão Paul Auster, Umberto Eco, Salman Rushdie, Doris Lessing, Enrique Vila-Matas, Bernardo Carvalho e António Lobo Antunes, o único escritor português convidado (lista completa dos 90 participantes, aqui). As conferências e debates decorrerão no Pavilhão 1 da Porte de Versailles, até dia 31, quarta-feira.

‘O Meu Vizinho é um Cão’ (en français)

voisin

A edição original é da Planeta Tangerina. A edição francesa é da Thierry Magnier.

Dois versos de Miguel-Manso

insisto no escusado, mal pago, fantasioso
exercício da beleza

Estão no novo livro, Santo Subito (edição de autor), do qual amanhã partilharei aqui três ou quatro poemas completos.

Escada Magirus

Incêndios, ficção pós-moderna e Costinha. Uma memorável «fotoreportagem doméstica», por Rogério Casanova.

O novo ‘JL’

jl

Mais arrumado, mais elegante (só não gosto da forma como aparecem as capas dos livros), mais dinâmico, mais legível. E mais lido, espera-se. O JL fez 30 anos em grande estilo e está aí para as curvas. Parabéns a quem o redesenhou e à equipa que o faz, quinzenalmente, contra muitos ventos e algumas marés.

SMS para mim próprio

Eu sei que a semana está a ser infernal e que nem tens tempo para respirar, mas vê lá se actualizas o blogue, pá.

Maravilhas da paternidade

Ouvir o filho de três anos a dizer, com a convicção de quem já sabe usar as palavras certas, «olha, pai, ela não consegue subir porque a superfície é escorregadia».

Making Books

Em 1947, era assim que se faziam. Agora é um bocadinho diferente.

[via blogue da Bruaá]

Pré-publicação: ‘O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua’

«24.
É possível que alguns leitores se interroguem sobre o que é, ao fim e ao cabo, este livro, e qual a sua relação, se alguma existe, com a literatura. Para dizer a verdade, não sei. Mas o miúdo que pregava pregos numa tábua, ou talvez o autor, quem sabe se eu próprio, já uma vez escreveu que, para ele, a poesia está aquém e além da literatura. E até confessou que de literatura pouco ou nada sabe. Mas sabe de um rio e de uma ria ou, se preferirem, sabe dos rios e dos mares e da influência da lua nas correntes e nas marés e, ao que parece, no fluxo do sangue, sabe do voo e do grito da narceja, que é um alerta e, ao mesmo tempo, um viva à liberdade. E sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e a respiração da escrita. Num certo sentido já fez essa respiração boca a boca quando, na Nicarágua, acompanhado pelo poeta Fernando Silva, que se dizia descendente de portugueses, se sentou no rebordo da cratera do vulcão Santiago e sentiu o bafo que ritmadamente saía das entranhas da terra.
– Parece um boi a respirar – disse o poeta nicaraguense.
O miúdo que tocava música nos dentes achou que o vulcão respirava a um ritmo que era o da sua própria respiração. Dentro da cratera, no meio do fumo, das chamas e das cinzas, voavam centenas de pássaros que ali faziam ninho. A terra respirava pela boca do vulcão Santiago e o miúdo que dedilhava guitarras invisíveis sentiu que estava ali a respirar boca a boca com a própria terra e que assim era o fluxo do seu sangue e só assim poderia ser a cadência das palavras.
A mesma cadência e a mesma respiração que descobriu quando, num daqueles quartos antigos de Coimbra que, em certas noites, parecem directamente poisados sobre a lua, um poeta, ainda jovem, leu, com o seu sotaque da ilha, o poema de Camilo Pessanha “Ao longe os barcos de flores”.
Só, incessante, um som de flauta chora – lia ele como se cada uma daquelas sílabas batesse ao ritmo do seu próprio coração. Era, de certo modo, uma outra forma de respiração da terra e dos rios e dos mares. Então o miúdo percebeu que podia dedilhar nos seus dentes o ritmo com que o poeta lia e que era o da música que estava dentro dos versos de Camilo Pessanha. Uma flauta cantava na voz do poeta da ilha, a flauta de Camilo Pessanha, uma flauta que trazia no bater das sílabas a batida do coração do mundo.
Mais tarde, já no quarto do miúdo que gostava de contar as sílabas pelos dedos, o poeta com ligeiro sotaque da ilha escrevia pela noite fora uns contos que andava então a terminar. O miúdo ouvia o roçagar da caneta no papel e pressentia que naquela grafia havia uma flauta a cantar dentro das sílabas. Era uma liturgia quase mágica, uma escrita nova e dentro dela um mundo novo que nascia. Algo que só muito mais tarde sentiria, mas em sentido inverso, como se um mundo se estivesse a extinguir, quando, pela última vez, visitou Sophia no quarto do hospital. Estava recostada numas almofadas muito brancas, ela própria também de branco, estranhamente esplendorosa e bonita, a princípio abriu muito os olhos, parecia que nos reconhecia e não reconhecia, uma das filhas disse-me: Fala-lhe. Eu falei e então ela murmurou o meu nome e o de minha mulher. Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: Ia e vinha / E a cada coisa perguntava, e então ela terminou: Que nome tinha. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só o ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração.

[O novo livro de Manuel Alegre, editado pela Dom Quixote, chega às livrarias na próxima sexta-feira]

Dia Mundial da Poesia

Iniciativas para assinalar o Dia Mundial da Poesia é o que não falta. Só no CCB são mais do que muitas. Pela minha parte, vou estar por aqui.

Lançamento da revista ‘Ítaca’

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Eis uma nova revista literária, Ítaca, fundada por três investigadores do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: André Simões, J.P. Moreira e Tatiana Faia. «Cadernos de Ideias, Textos & Imagens» é como o trio define a coisa. O primeiro número vai ser lançado esta tarde na Livraria Trama, a partir das 19h00, com apresentação de Fernando Pinto do Amaral.
Mais informações no blogue da revista.

Delibes, à distância

Antonio Muñoz Molina escreve, no Babelia, sobre Miguel Delibes (1920-2010). Um excerto:

«Miguel Delibes vivía retirado escribiendo y dando largos paseos por el campo. Era escritor porque escribía libros, no porque interpretara el personaje público de escritor a la manera española, a la manera francesa o latinoamericana. España es un país perezoso en el que siempre tienen éxito las coartadas para no leer a alguien. Delibes, se decía, era costumbrista y escribía sobre el campo, y el campo era una antigualla bochornosa para quienes aspirábamos a ambientar nuestras novelas en las grandes metrópolis internacionales: nosotros, que en la mayor parte de los casos no habíamos hecho más viajes al extranjero que los que nos pagaba el Ministerio de Cultura. Si Delibes hubiera sido propenso a los exabruptos de soberbia quizás le habríamos hecho más caso. Pero por no tener ni siquiera tenía una leyenda: no podía decirse que hubiera pertenecido a la cultura antifranquista, no se había exiliado; no circulaban sobre él esas historias de malditismo etílico que tanto contribuyen entre nosotros a cimentar una fama literaria. Miguel Delibes vivía en Valladolid como un funcionario y era padre de familia numerosa. La vejez y la enfermedad lo fueron volviendo discretamente invisible.
Una mañana de sábado, en la quietud algo tibetana de una gran biblioteca universitaria, he repasado alguno de los libros suyos que más me gustaron. El silencio y la lejanía, la rara conciencia de que Miguel Delibes acaba de morir, afilan el recogimiento de la lectura, su cualidad de regreso a un lugar muy querido que uno dejó de frecuentar hace demasiado tiempo. Me gusta ver en la estantería, en el edificio donde hay tantos millones de volúmenes a los que esta mañana casi nadie se acerca, los lomos alineados y familiares, la tipografía y la encuadernación de los viejos libros de Destino, en ediciones que en algunos casos son las mismas que yo leía de muy joven en otra biblioteca mucho más humilde al otro lado del océano. En las cosas que se han escrito sobre Miguel Delibes estos días no ha sido infrecuente un cierto tono de condescendencia: el novelista de la vieja Castilla, el cronista de un mundo rural extinguido, el hombre bondadoso y sencillo. Pero las mejores novelas de Miguel Delibes desprenden un fulgor casi doloroso, en el que la belleza del mundo natural y el desamparo de los inocentes son profanados con mucha frecuencia por la fatalidad que persigue a los que no tienen nada, por la brutalidad de los fuertes, por el cambio de los tiempos, que arrastra por igual lo mejor y lo peor, y que en un país como la España de los años sesenta trajo oleadas simultáneas de prosperidad y devastación. El costumbrismo es una falsificación azucarada de lo singular, de lo aparentemente primitivo. Lo que hay en las grandes novelas de Miguel Delibes no es costumbrismo sino observación meticulosa de las vidas humanas y de los trabajos y las ensoñaciones de la gente común; un oído tan exacto para los nombres de las cosas, de los animales y las plantas, como para los matices del habla. Pero el resultando, siendo tan verídico, tiene el poderío y la originalidad de una completa invención literaria.»

Texto completo aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Cardeal Cerejeira – O Príncipe da Igreja, de Irene Flunser Pimentel (A Esfera dos Livros), por José Pedro Castanheira
Registo Civil, de Carlos Alberto Machado (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
Eça de Queiroz – Uma Biografia, de A. Campos Matos (Afrontamento), por Álvaro Manuel Machado
A Maçonaria e a Implantação da República, coordenação de Alfredo Caldeira e António Lopes (Fundação Mário Soares/Grémio Lusitano), por António Valdemar
Crónica de Wapshot, de John Cheever (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Junia ou a Justiça de Trajano, de Theresa Schedel (Presença), por Luísa Mellid-Franco
A Leitora Real, de Alan Bennett (ASA), por José Guardado Moreira
Ilusão (ou o que quiserem), de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), por Hugo Pinto Santos
O Homem que era Quinta-Feira, de G. K. Chesterton (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Dois poemas de Tatiana Faia

ficas onde outrora caminhaste mar dentro
guardaste uma impressão clara de areia
movendo-se sobre os pés
por vezes a água como pequenas esquinas
ferindo o ponto onde
te descalças e moves

contagiam-te depressa cores escuras
as noites ancoradas de portos em corinto
o preto e o cinzento azulado
que fica do hábito de endoidecer
por entre traves passa a madrugada

encho de passos lugares onde já estiveste
torno a caminhar para fora dos limites da cidade
nas primeiras madrugadas de Outono
vou endoidecendo à espera de um fio de voz
que venda o regresso à hora do labirinto

***

escrevo o teu lugar nas palmas das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amas e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse

[in revista Ítaca, n.º 1, Fevereiro de 2010]

Uma amendoeira desfocada

«Floriu, subitamente. Levantei os olhos do teclado e ali está ela, esquissada e leve como uma pintura japonesa, desamparada entre a velocidade do rail e o apetite imobiliário. Não a via há muitos anos, usei os olhos cheios de campos ladeados de amendoeiras floridas; paleta inesquecível. Deve ter sido pintada pela morrinha que se pôs; não a vi enquanto apanhava a roupa.»

O texto é de Jorge Fallorca (apanhei-o aqui).

Lançamento de ‘Três Vidas ao Espelho’

Logo à tarde, a partir das 18h30, Manuel da Silva Ramos lança o seu mais recente romance: Três Vidas ao Espelho (Dom Quixote). A apresentação da obra, na Livraria Leya na Barata (Av. de Roma, Lisboa), estará a cargo de Miguel Real.

Ouro fosco, cereja amarga

Foi quase. Sempre o quase. Com uma defesa remendada e sem ritmo (face a um Agüero em grande forma), mais o Izmailov de fora (logo ele, o motor da equipa), a passagem aos quartos-de-final pareceu-me desde logo dependente de um milagre. E ia quase acontecendo, o milagre. Quase, sempre o quase.
Vale-me o McEwan, que é muito bom e vou continuar a ler, não sem antes dar os parabéns, merecidos, aos meus amigos benfiquistas.

Um milhão de page views

Mais do que meta ou desígnio, é um número redondo. O BdB ultrapassou-o esta madrugada. A todos os leitores do blogue – aos fiéis, aos ocasionais e até aos acidentais – o meu agradecimento. Para comemorar, vou pôr-me a ler o novíssimo romance de Ian McEwan, ainda em pdf (bendito Sony Reader). E logo à noite espero assistir – ouro sobre azul, cereja no topo do bolo – à vitória por 5-0 do Sporting sobre o Atlético de Madrid. Nada de outro mundo: basta repetir o resultado do jogo contra o Manchester United, há precisamente 46 anos.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges