Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Spínola, de Luís Nuno Rodrigues (A Esfera dos Livros), por José Pedro Castanheira
Escarpas, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
Terra, de Richard Hamblyn (Bertrand), por Luís M. Faria
Nova Iorque, de Brendan Behan (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
O Apogeu de Miss Brodie, de Muriel Spark (Ahab), por José Mário Silva
Morrem Mais de Mágoa, de Saul Bellow (Quetzal), por Rogério Casanova
Pocket Notebook, de Mike Thomas (William Heinemann), por José Vegar

Poesia na Praça LeYa

Esta noite (21h30), na Praça LeYa da Feira do Livro de Lisboa, haverá leitura de poemas pelos seguintes autores: Ana Marques Gastão, Fernando Pinto do Amaral, João Rui de Sousa, Nuno Júdice e aquele tipo que escreveu um livrinho de capa preta com letras cor-de-laranja.

O que aí vem (Oficina do Livro)

toscana

Santa Maria do Circo, romance do escritor mexicano David Toscana, autor de O Último Leitor. Na colecção Ovelha Negra.

Porto Editora na Feira do Livro

A Porto Editora está a fazer uma aposta fortíssima na Feira do Livro. Além de uma campanha de martketing agressiva, que encheu as caixas de correio do meu bairro com desdobráveis a anunciar as actividades e escritores que a PE trará a Lisboa, criou ainda um site específico para a sua participação na Feira e promete actualizações permanentes no Twitter e Facebook.

A ideia de escritor

«HENRY
Ele está no comboio.
“És um rapaz estranho, Billy. Que idade tens?”
“Vinte. Mas já vivi mais do que alguma vez viverás.”
Queres que leia alto?

ANNIE
Se quiseres.

HENRY
Vou voltar um bocado atrás. À cena em que eles se encontram, está bem?
[ANNIE diz que sim com a cabeça. HENRY imita um comboio. Ela fica na defensiva, sem ter a certeza se ele está a ser sarcástico.
Ele lê.
]
“Este lugar está vago?”
“Sim.”
“Dá-me licença?”
“É um país livre.”
“[Ele senta-se em frente dela, Mary continua a ler o livro.]”
“Vai para longe?”
“Para Londres.”
“Então, estava a dizer, acha que somos um país livre?”
“Você não acha?”
“É assim, somos livres para fazermos o que nos mandam. O meu nome é Bill, já agora. E o seu?”
“Mary.”
“Prazer em conhecê-la, Mary.”
“Prazer, Bill.”
“Sabe a que horas é que o comboio chega a Londres?”
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. Sim, é muito parecida com ele. Tem os mesmos olhos verdes.”

ANNIE
Se não vais ler a sério não te incomodes.

HENRY
Desculpa.
“Por volta da uma e meia, acho, se chegar a horas.”
“Mary, você faz-me lembrar o Mussolini. As pessoas diziam do Mussolini: ele pode ser fascista mas ao menos os comboios chegam a horas. Faz-nos pensar porque é que os comboios ingleses não chegam a horas, não é?”
“Como assim?”
“Quer dizer, tem graça, os fascistas estão no poder mas os comboios continuam atrasados.”
“Mas isto não é um país fascista.”
“Tem a certeza, Mary? Olhe o exército.”
Tu não vais fazer isto, pois não?

ANNIE
Porque não?

HENRY
Porque não presta.

ANNIE
Queres dizer que não é literatura.

HENRY
Não é literatura e não presta. Ele não sabe escrever.

ANNIE
És um snob.

HENRY
Eu sou um snob e ele não sabe escrever.

ANNIE
Eu sei que é cru, mas ele tem coisas a dizer.

HENRY
Ele tem coisas a dizer. Acontece que são coisas extremamente patetas e preconceituosas. Mas tirando isso há ainda um problema: ele não sabe escrever. Sabe incendiar coisas, mas não sabe escrever.

ANNIE
Dá cá. Não te devia ter pedido.

HENRY
Por amor de Deus, Annie. Se não fosse pelo Brook nunca farias isto.

ANNIE
Mas é pelo Brook, aí é que está. Há dois anos e meio ele nem conseguia juntar seis palavras.

HENRY
Ainda não consegue.

ANNIE
Idiota.

HENRY
Eu sou um idiota e ele não sabe…

ANNIE
Olha que levas. Tu é que és preconceituoso. És preconceituoso quanto ao que é literatura. Julgas tudo como se toda a gente partisse da mesma posição e tivesse os mesmos objectivos. Shakespeare vai à frente por mais de uma milha e o resto do pelotão tenta com todas as forças alcançá-lo. Vocês escrevem todos para pessoas que gostavam de escrever como vocês, se soubessem escrever. Bem, que se fodam. E que se foda o Shakespeare.

HENRY
Ok.

ANNIE
O Brook não escreve para competir contigo. Escreve para ser ouvido.

HENRY
Ok.

ANNIE
E fez tudo sozinho.

HENRY
Sim, sim. Vê-se que leu muito.

ANNIE
Não podes esperar que seja Shakespeare.

HENRY
Não.

ANNIE
Ele é um prisioneiro que grita através das grades.

HENRY
Pois, sim. Estou a ver.

ANNIE
Cala-te. Não suporto que concordes comigo só para me agradares. Prefiro o sarcasmo.

HENRY
Porquê uma peça? Foste tu que o sugeriste?

ANNIE
Não exactamente.

HENRY
Porque é que fizeste isso?

ANNIE
O comité, o que resta do comité pensou… Quer dizer, as pessoas cansaram-se do Brook. As pessoas cansam-se de tudo, depois de dois ou três anos. A campanha precisa…

HENRY
De uma injecção?

ANNIE
Não, precisa de…

HENRY
De um pontapé?

ANNIE
[Explode.] Que raio. Pára com isso de acabar as minhas frases.

HENRY
Desculpa.

ANNIE
Já não sei o que ia a dizer.

HENRY
A campanha precisa…

ANNIE
É difícil ignorar um escritor. E pensei, as peças de televisão são discutidas, têm algum impacto. Talvez reabra o processo. Achas que é possível? A sério, Henry, o que é que achas?

HENRY
Acho que faz todo o sentido.

ANNIE
Não. O que é que achas mesmo?

HENRY
Ah, o que acho mesmo? Bem, o que acho mesmo é que escrever peças péssimas não é, em si mesmo, uma prova de reabilitação. E, ainda menos, prova de uma condenação injusta. Mas mesmo que fosse, acho que quem se cansou do Brook se vai entediar de morte com esta defesa. Se é que alguém vai aguentar, porque tem metade do tamanho do Das Kapital e o dobro da graça. Acho que devias saber isto.

ANNIE
És um arrogante de merda.

HENRY
Dizes demasiadas asneiras.

ANNIE
O Roger quer fazer o filme, em princípio.

HENRY
Qual Roger? Ah, o Roger. Porque é que o Roger quer fazer isso?

ANNIE
Ele está no comité. Isto só precisa de um pouco de trabalho.

HENRY
Vocês são uns vigaristas.

ANNIE
Estás com ciúmes?

HENRY
Do Brook?

ANNIE
Estás com ciúmes da ideia de escritor. Queres que continue sagrada, especial, e não uma coisa que toda a gente pode fazer. Alguns de nós têm esse dom, outros não têm. Nós escrevemos, vocês são o nosso tema. O que te irrita no Brook é que ele não conhece o seu lugar. Tu dizes que ele não sabe escrever como um porteiro de um restaurante que diz que não se pode entrar sem gravata. Porque ele não sabe juntar palavras. O que é que tem de especial saber juntar palavras?

HENRY
É tradicionalmente considerada uma vantagem para um escritor.

ANNIE
Ele não é um escritor, é um prisioneiro. Tu és um escritor. Escreves porque és um escritor. Quando escreves acerca de uma coisa tens de inventar alguma coisa sobre aquilo que escreves porque tens de continuar a escrever. Mais palavras escolhidas que ficam bem juntas. E depois? Porque é que tem de ser isso? Quem é que disse que é assim?

HENRY
Ninguém disse, mas funciona melhor.

[in Agora a Sério, de Tom Stoppard, versão de Pedro Mexia, Tinta da China, 2010]

Fred Halliday (1946-2010)

Especialista em relações internacionais, Fred Halliday morreu esta semana, aos 64 anos, vítima de cancro. Obituários no The Guardian (aqui) e no site openDemocracy (aqui). De Halliday, a Tinta da China publicou em 2008 o livro 100 Mitos sobre o Médio Oriente, sobre o qual escrevi aqui.

Livros no Parque

A partir de dia 29 [hoje], e até 16 de Maio, o Parque Eduardo VII volta a ser um local de peregrinação para quem gosta de livros e os procura, ali, todos os anos, não apenas porque os pode comprar mais baratos mas também porque a Feira do Livro de Lisboa, com as muitas dezenas de milhar de títulos diferentes que disponibiliza, é durante duas semanas a maior livraria do país. Ainca por cima ao ar livre, com o Tejo ao fundo e o esplendor roxo dos jacarandás em flor.
Eduardo Boavida, director da Feira, explica as novidades desta edição (a 80.ª), primeira realizada após a reunificação do sector do livro, sob a égide da APEL, «o que nos permite concentrar energias no que interessa, os livros e quem os faz e lê», em vez de as dissipar no tipo de quezílias e controvérsias que há uns anos quase puseram em causa a realização da Feira.
Depois de muitas queixas ouvidas nas últimas edições, o horário voltou a ser prolongado (encerramento às 23h30; abertura às 12h30 nos dias de semana e às 11h00 ao sábado e domingo). Horário semelhante, diga-se, ao da Feira do Livro do Porto, que estará na Avenida dos Aliados entre 27 de Maio e 13 de Junho.
Voltando a Lisboa, uma das maiores apostas vai ser a captação do público infantil, que terá um programa específico (feito em colaboração com a rede de Bibliotecas Públicas e Municipais), além de um novo espaço que inclui um local com vigilância, onde os visitantes poderão deixar os seus filhos.
Haverá ainda um Auditório para o programa cultural e quatro praças com nomes de cores – Azul, Verde, Amarela e Lilás – que serão um ponto de encontro e um palco para lançamentos, leituras ao vivo, etc. Nas duas alas da Feira foram instalados 220 pavilhões standard (todos iguais e com as mesmas funcionalidades) e 17 pavilhões diferenciados, para uso das 120 editoras inscritas.
Por confirmar está outra possível novidade: a instituição de uma happy hour. Ou seja, um período de tempo curto, durante o qual alguns pavilhões praticariam descontos especiais, superiores ao do livro do dia (40%) – promoções só possíveis para títulos que não estejam abrangidos pela lei do preço fixo (ou seja, que tenham sido publicados há mais de 18 meses).
Outra diferença em relação aos últimos anos: desta vez não foi escolhido um país-tema (em 2009 tinha sido o Brasil). «A literatura não é dos países, é universal», justificou Paulo Teixeira Pinto, presidente da APEL. «Além disso, esta é uma Feira virada para o comércio directo, mais do que para a promoção, pelo que o conceito de país-tema nos pareceu pouco ajustado à nossa realidade», acrescenta Eduardo Boavida. O que não muda é a homenagem da Feira a uma figura do meio editorial, «como forma de celebrar pessoas cuja actividade marcou este sector ao longo dos anos». Em 2010, o homenageado será Fernando Guedes, fundador da Editorial Verbo e presidente da APEL entre 1982 e 1986.
Última novidade: para controlo do cumprimento efectivo das regras estabelecidas pela direcção da Feira, serão realizadas auditorias diárias aos pavilhões.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

No café

As quatro velhinhas da mesa ao lado não pregaram olho toda a noite, «por causa das notícias». Ao balcão, um reformado suspira, desanimado: «E agora, quem nos tira da bancarrota? Meu deus, meu deus, nunca pensei que chegássemos a este ponto.» Mais para o canto, o grupo de homens que costuma discutir Benfica e transferências e notícias do Record, inclina-se hoje sobre um jornal económico, cor salmão, abanando a cabeça como se a sua equipa tivesse perdido na véspera com um golo em fora-de-jogo, no último minuto dos descontos. Um casalinho de estudantes universitários maldiz as agências de rating, enquanto conta os trocos para o galão + torrada + queque + abatanado.
Ferido no orgulho, o país encolhe-se e lambe as feridas, tanto as reais como as imaginárias. Por muito má que seja a situação, antecipamos sempre o pior no que ainda está para vir. Portugal, Portugal, sempre igual a ti próprio, apoteose do derrotismo.

Lembrete

Agora a Sério, uma peça de Tom Stoppard, estreia hoje no Teatro Aberto (21h30), com encenação de Pedro Mexia. Do elenco fazem parte Afonso Lagarto, Ana Brandão, Diana Costa e Silva, João Reis, Nuno Casanovas, Pedro Lima e São José Correia.

Uma versão morta-viva de Jane Austen

Orgulho preconceito e zombies

Este livro, um dos mais falados no mercado anglo-saxónico em 2009, vai ser editado pela 1001 Mundos (chancela da Gailivro). Chega às livrarias a 11 de Maio.
Eis o booktrailer (e vejam lá para o que haveria de estar guardado o pobre do Mr. Darcy):

Poetas sobre poetas

É uma excelente ideia do blogue Poesia & Lda.: desafiar poetas portugueses a escrever acerca de um poema concreto de outro poeta, português ou não. Já tivemos Rui Almeida sobre José Blanc de Portugal; Francisco Duarte Mangas sobre Cesare Pavese; Luís Filipe Parrado sobre Andrew Hudgin; Rui Lage sobre Thomas Hardy; Vasco Graça Moura sobre Federico García Lorca; Ana Luísa Amaral sobre Emily Dickinson; Fortinbras sobre Zbigniew Herbert; entre outros. Uma série para acompanhar.

When Iris met Raymond


Uma correspondência inédita de Iris Murdoch (146 cartas, escritas entre 1946 e 1975) parece revelar não só a tremenda influência literária exercida sobre ela por Raymond Queneau, como a paixão amorosa intensa votada pela romancista irlandesa ao escritor francês. No seu blogue, Pierre Assouline detém-se sobre o inesperado affaire (nos dois sentidos da palavra).

O estranho caso do historiador que caiu em desgraça no site da Amazon

Ele é Orlando Figes, um dos nomes mais destacados da nova historiografia inglesa e aparentemente um académico acima de qualquer suspeita, mas que na verdade escreveu resenhas críticas no site da Amazon, escondido atrás de pseudónimos, a elogiar os seus próprios livros e a denegrir as obras dos seus rivais. Só lido, contado ninguém acredita.

Um jardim para Sophia

Evocação de Sophia
Autor: Alberto Vaz da Silva
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1453-1
Ano de publicação: 2009

Das muitas formas possíveis de evocar Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Alberto Vaz da Silva (AVS) escolheu uma das menos ortodoxas, ao acrescentar às previsíveis recordações pessoais uma abordagem astrológica e grafológica da homenageada. Discreto por natureza, o autor mantém uma distância de segurança face ao objecto do discurso, como que para respeitar a essência do mistério de Sophia. Amigo próximo da escritora, AVS nunza faz alarde dessa amizade, nem do facto de a ter acompanhado em alguns dos melhores e piores momentos da sua vida.
Se menciona, por exemplo, uma viagem que os dois fizeram à Sicília, em 1990, com a mulher de Alberto (Helena Vaz da Silva) e João Bénard da Costa, é para recuperar a felicidade desse mergulho nas raízes da nossa civilização e sublinhar a certeza de que «ela pertencia às colunas gregas que se erguem como hieróglifos secretos na luz mediterrânica». E se relembra os interrogatórios da PIDE, a que ambos foram sujeitos por terem subscrito o «Documento dos 101», é apenas para revelar a têmpera e coragem de quem nunca se resignou com o estado das coisas: «Esta Sophia dos tempos duros da resistência ao salazarismo, da luta pela liberdade e pela justiça, constitui o núcleo da minha memória.» Uma memória singular e à sua maneira poética, porque sempre amparada, na sua trajectória, pelas palavras de Sophia: versos escolhidos, excertos de cartas a Jorge de Sena, dedicatórias em livros, prosas da escritora sobre as casas onde viveu. No posfácio, José Tolentino Mendonça aponta em AVS uma «sabedoria de jardineiro» e esta Evocação pode realmente ser vista como um jardim, a que os canteiros dedicados ao perfil astrológico e à análise da caligrafia, actividades caras ao autor, em minha opinião nada acrescentam de relevante.
Essencial é o prefácio de Maria Velho da Costa, Sophia: Vozes, 17 páginas belíssimas com «cenas vivas» da intimidade das duas escritoras, que diziam os respectivos nomes em francês e se deixavam ficar à noite a falar no alpendre, depois da praia, brilhando «na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo». Dezassete páginas magníficas que de certa forma eclipsam, mesmo se involuntariamente, o resto do livro.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

5 anos

No dia 23, o Bicho dos Livros cumpriu o seu primeiro lustro. Agora, que venham mais cinco anos. E outros cinco. E outros cinco. Etc.

Concurso BiblioFilmes

Os vencedores da edição deste ano do concurso BiblioFilmes já foram anunciados. Na categoria ‘Trailer de Livros’, por exemplo, venceu o pequeno filme promocional para a «novela pulp» Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos, da brasileira Ana Paula Maia:

Os restantes premiados podem ser vistos aqui.

Primeiro parágrafo

Há quem tenha o fetichismo das primeiras frases. Eu alinho mais no fetichismo dos primeiros parágrafos. Quando tropeço num que seja particularmente bom, fico parado numa espécie de pasmo, saboreio aquilo frase a frase, volto atrás uma, duas, três vezes, releio uma quarta e só depois prossigo com a leitura.
Querem um exemplo? O início do romance Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson, que a Cavalo de Ferro acaba de editar, com tradução de Maria João Freire de Andrade:

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»

60 euros

Enquanto o funcionário da EMEL preenche os papéis, com uma lentidão de predador sádico, penso nos livros que poderia comprar (ou mandar vir da Amazon) com o dinheiro estupidamente gasto assim, na multa mais taxa de desbloqueio. Reparo então nas tatuagens que o funcionário tem no braço: uma rosa de pétalas muito abertas e um textinho em caligrafia arrebicada. Parecem um castigo irónico para os automobilistas em falta, aquela frases dignas de um powerpoint com gatinhos, palmeiras e pôr-do-sol: «A vida não é uma pergunta para ser respondida. É um mistério para ser vivido.»
Olho de novo para o funcionário, corpulento, biceps trabalhados, perfil de quem faz biscates nocturnos à porta de uma discoteca. Releio a máxima pirosa gravada a tinta verde na sua pele. E penso que ainda sou capaz de fazer um post com isto. Talvez não um dos melhores posts, mas certamente um dos mais caros.

‘O Triunfo dos Porcos’ revisitado

Christopher Hitchens releu Animal Farm, de George Orwell, e confirmou que a parábola política não ganhou uma ruga: «There is a timeless, even transcendent, quality to this little story.»

Crocodilomania

Eis um blogue (o da Bruaá Editora) que anda deliciosamente monotemático.

Quatro poemas de Margarida Vale de Gato

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem em diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

***

ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

***

A IMAGEM ROMÂNTICA

Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.

Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.

***

COM PAIXÃO E HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

[in Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010]

‘Não Quero Usar Óculos’ no Brasil

O livro Não Quero Usar Óculos, de Carla Maia de Almeida (texto) e André Letria (ilustração), publicado pela Caminho em 2008, vai ter em breve uma edição brasileira, com chancela da Peirópolis, de São Paulo.

Maravilhas da paternidade

pedro_cravo

– Ó pai, o que é o 25 de Abril?
– É o dia em que celebramos a revolução que acabou com a ditadura em Portugal.
– E o que é a ditadura?
– Olha, era uma coisa muito má que…
– (interrompendo) Uma coisa muito má como uma planta carnívora?
– Não, Pedro. Era pior do que uma planta carnívora.
– Pior do que uma planta carnívora? Ui, que medo.

Lembrete

Logo à noite, no Espaço Sou (21h00), a tradutora Margarida Vale de Gato lança o seu primeiro livro de poesia: Mulher ao Mar (Mariposa Azual). Hélia Correia apresenta a obra, haverá leitura de poemas e um Baile da Revolução, para acabar o dia em beleza.

Outros futebóis

Eu hoje vou para o Marquês com algo vermelho na mão. Mas vou ao princípio da tarde, para descer a Avenida e celebrar um dia histórico essencial, como faço todos os anos; não ao fim do dia, para comemorar um possível feito do Sport Lisboa e Benfica (vitória na I Liga) que acontece muito de vez em quando.

Dave Eggers ganhou dois dos L. A. Times Book Prizes

Além do prémio na categoria ‘Current Interest’ (temas actuais), pelo livro Zeitoun (sobre um sobrevivente do Katrina, a publicar em breve pela Quetzal), recebeu ainda o Innovator’s Award, que já fora anunciado anteriormente. Ver notícia completa sobre a cerimónia de entrega dos prémios no Jacket Copy, o blogue literário do L. A. Times.

Cinco poemas de Joaquim Manuel Magalhães

Uma pá, a equipa de alumínio.
Cravelha e picareta.

Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.

A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.

A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.

Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.

Colmeia, taça, maçã.

***

Apenas o real.

Diferendo. Árduo impacto.
Drenagem vidente.
Atípico e controverso
zarcão.

Superfície e miragem,
passaporte.

***

O balneário,
toalha revolta.
Tensa na súplica.

Eco, fivela, gume.

***

Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.

Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.

O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.

E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.

Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.

***

Sirene, bigorna deficiente,
o cansaço do poente tritura.
Um neutro fulminante.

O ramal do comboio.
Um acorde agita-se.
Modela uma caldeira
o agulheiro, no sapal.

A manivela desafia
a planície.
Flutua na semelhança
o apuro do semeador.

Equimose de demolição.
Alguém, nu.

[in Um Toldo Vermelho, Relógio d’Água, 2010]

Maravilhas da paternidade

Diz o Pedro: «Ontem foi o dia ideal do livro, não foi?»

‘Catalunha em Pó’

Perdi ontem a primeira saqueta, sr. Doutor. Mas prometo tomar as próximas, a ver se me curo nem sei bem do quê (do mal de Montano não é, certamente).

Para evitar a guilhotina

Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura, espera ter pronto na próxima semana o documento legislativo que isenta as editoras livreiras de pagarem IVA por doações de livros em excesso no mercado.

A nova livraria Babel

Passei por lá ontem ao fim da tarde, durante a inauguração (infelizmente sem máquina fotográfica). O burburinho da abertura solene, com os discursos da praxe e a enchente da praxe, não é o contexto ideal para formar uma opinião, mas o primeiro contacto, devo dizê-lo, ficou bastante aquém das expectativas.
A área total é menor do que eu imaginava. O espaço dedicado aos livros, menor ainda.
Numa primeira vista de olhos, chocaram-me duas coisas: as estantes muito feias (uma espécie de andaimes, com ferro bruto e tábuas de madeira que parecem ter sobrado das obras de remodelação) e o facto de só encontrar livros das editoras do grupo Babel (um mau prenúncio). Há ainda um espaço tecnológico para acesso às novas apostas digitais – incluindo um leitor de e-books da Samsung, marca com quem a Babel assinou uma parceria –, mas que não pude explorar devidamente, devido ao excesso de gravatas curiosas na sala.
Por fim, o terceiro módulo da livraria é um café-restaurante gourmet, que ontem servia aperitivos preparados pela equipa do chef Vítor Sobral, um lugar simpático, de decoração clean e vista para o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, mas algo desproporcionado em relação ao espaço efectivamente previsto para os livros.
Terei que lá voltar, claro. Mas o meu instinto diz-me que é mais provável que este projecto pseudo-modernaço acabe por ser um flop do que uma livraria de culto.

Booksmile desmente Presença

Depois de a Presença ter garantido que a sua garantia, passe o pleonasmo, era uma iniciativa inédita em Portugal, a Booksmile vem dizer que não, não senhor, nada disso. Pelos vistos, a garantia da Booksmile remonta a Abril de 2009 e garantem-nos, passe outra vez o pleonasmo, que será mais proveitosa para o cliente do que a da Presença, estando as vantagens e desvantagens ilustradas por um quadro comparativo que faz lembrar os testes da DECO.
Enfim, os leitores que decidam.

Uma das palavras mais curtas

Derrocada
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Título original: Derrumbe
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04511-9
Ano de publicação: 2010

Em Promenadia, cidade costeira imaginária (mas muito parecida com a Gijón onde nasceu e vive Menéndez Salmón), há um serial killer à solta. Um assassino metódico que lê Montaigne e Kafka, mata com frieza clínica e deixa sempre um sapato desemparelhado da vítima anterior como marca autoral. Manila, um dos cinco detectives que perseguem o criminoso, não ignora o alcance do que tem entre mãos: «Estamos a tratar do Mal, com maiúscula. Uma das palavras mais curtas; uma das viagens mais longas». Não muito depois, relembrará aos colegas uma citação de Thomas Hobbes: «No dia em que vim ao mundo, a minha mãe pariu gémeos: eu e o meu medo.»
É justamente desse Mal com maiúscula e do medo que ele espalha à sua volta, como veneno, que se alimenta este romance perturbador, segundo volume de uma trilogia que impôs Menéndez Salmón como um dos mais interessantes escritores espanhóis da actualidade. O primeiro volume, A Ofensa, sobre um soldado dos exércitos de Hitler que suspende os «vínculos com a realidade» depois de assistir a um massacre de inocentes, foi publicado pela Porto Editora em 2009, quase em simultâneo com a edição em Espanha, pela Seix Barral, do livro que fecha a trilogia, El Corrector (O Revisor), uma derradeira reflexão sobre o mal enquanto entidade omnipresente no nosso tempo, com os atentados de 11 de Março na estação de Atocha em fundo.
Se Derrocada começa num registo de thriller hiper-violento, elíptico, de frases curtas e imagens brutais, «usando a linguagem como se fosse um machado», depressa percebemos que a Salmón não interessa o horror circunscrito a uma pessoa (o assassino e o rasto das suas abominações) mas o modo como a ameaça da violência pode destruir, a partir de dentro, uma comunidade. Surge então uma história paralela que ecoa e amplifica a do serial killer. É a saga dos Arrancadores, três rapazes que se entregam a um niilismo nascido do tédio, sem objecto concreto nem ideologia, mera revolta pela revolta, cheia de raiva contra a sociedade da abundância e do espectáculo. Depois de colocarem agulhas em garrafas de leite e de misturarem estricnina na água das fontes públicas, levam a cabo o atentado total, a destruição do Corporama, parque temático gigantesco com a forma do corpo humano, símbolo da «feira de simulacros» em que o mundo se transformou.
No final, não há saída para o negrume, não há redenção pessoal ou colectiva. O detective Manila transforma-se naquilo que era suposto combater e a verdade mais dura, mas também mais lúcida, surge num dos cadernos escritos pelo assassino: «O mal não precisa de prova ontológica, nem de redução ao absurdo, nem de fé ou de profetas. (…) É o bem que precisa de um porquê, de uma causa, de um motivo. É o bem que, na realidade, constitui o mais profundo dos enigmas.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Adoecer, de Hélia Correia (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Cadáver Precisa-se, de Milton Fornaro (Quetzal), por José Guardado Moreira
Bom dia, Meia-Noite, de Jean Rhys (Bertrand), por Paulo Nogueira
Necrophilia, de Jaime Rocha (Relógio d’Água), por Helena Barbas
Livros & Cigarros, de George Orwell (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
Rosebud, de Pierre Assouline (Bertrand), por José Guardado Moreira
Você Está Aqui, de Christopher Potter (Casa das Letras), por Luís M. Faria

É hoje

dia-mundial-do-livro-2010

Iniciativas há muitas, às dezenas, por todo o lado. Um conselho: não ir a nenhuma. Aproveitar para ficar a ler.

O que aí vem (Tinta da China)

Se Não Estudas, Estás Tramado, de Eduardo Marçal Grilo; Histórias Etíopes, de Manuel João Ramos; Os Cartazes na Primeira República, de Alice Samara e Tiago Baptista; Os Filósofos e o Amor. Amar, de Sócrates a Simone de Beauvoir, de Aude Lancelin e Marie Lemonnier, com prefácio de Eduardo Lourenço; WIT – ensaios humorísticos, de Robert Benchley (prefácio de Ricardo Araújo Pereira); À Procura da Grande Estratégia. De Roosevelt a Obama, coordenação de Mário Mesquita; Comunismo e Nacionalismo em Portugal, de José Neves (edição de bolso).

O LeV, visto por José Rentes de Carvalho

Visto mesmo.
Com olhos de ver.
Em imagens que reuniu em dois posts (aqui e aqui).
Diga-se: muito boas, as fotos.
Mas, caro Rentes, era preciso atribuir-me, logo a mim, ares de toureiro?

‘Inventar a Liberdade’ amanhã à noite

poesia 23 abril

No Dia Mundial do Livro, e a dois dias do 25 de Abril, Luís Filipe Cristóvão vai “Inventar a Liberdade” através de poemas de diversos autores da poesia portuguesa dos séculos XX e XXI. A partir das 21h00, na Capela do Morgado, «bem no centro da Arruda dos Vinhos».
Quem disse que a cultura está limitada a Lisboa e Porto?

O LeV, visto por Alexandra Lucas Coelho

Da reportagem sobre os quatro dias que a jornalista passou no encontro Literatura em Viagem (texto publicado na edição de hoje do suplemento P2, do Público; ver aqui), destaco as suas «notas do meu caderno»:

«Carlos Vale Ferraz a dizer que a amargura faz má literatura e o que há na guerra é a vida. Cândida Pinto a contar como viu um par de noivos atravessar três barreiras de segurança para umas núpcias no Hotel Palestina em Bagdad. João Pedro Marques a distinguir a História fria (que explica mas não mostra) e a História quente (que mostra mas não explica). Lourenço Mutarelli, esse lacónico paulistano que entre Beja e Nova Iorque prefere Beja, a explicar como o avião é demasiado rápido para a alma. Nuno Silveira Ramos, crescido em Angola, a contar como se sentiu português e orgulhoso em Malaca, onde os ranchos folclóricos cantavam Ó Malhão Malhão em português arcaico. Júlio Moreira a dizer que escrever é eficaz para a memória, como sabem todos os cábulas. Arthur Dapieve a falar do garoto preto rico raptado pelo garoto branco do morro no Rio. José Fanha a recitar o poema de António Lobo Antunes sobre os homens maricas quando estão com gripe. Filomena Marona Beja a mostrar como a partir da palavra zimbro se viaja à serra da Estrela no século XIX. Joaquim Magalhães de Castro a falar dos pioneiros portugueses nesse tecto do mundo que são os Himalaias. Cristina Carvalho a descrever os bosques da Lapónia onde os adultos ficam crianças. Helder Macedo a inventar a realidade do homem que atravessa o deserto num blindado sem uma única janela. valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. Mempo Giardinelli a dizer que a escrita é uma luta contra a realidade, exactamente o contrário do que acredito.
Eu acredito que a realidade, como o mundo, não acaba. A escrita será real ou não será. E nenhum momento em todo o LeV me comoveu como a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, que trouxe quatro viagens em texto e imagem, para dizer aquilo que no passado continua a ser agora. Uma delas foi a que fez aos bairros de lata em que viviam os emigrantes portugueses em Paris, em 1965. Eu nunca tinha visto aquela lama, aquele frio. E não me vou esquecer.»

A este excelente resumo do LeV falta só, por razões que se compreendem, uma nota sobre a magnífica intervenção da própria Alexandra Lucas Coelho, que, numa mesa dominada pelo bom humor e desassombro de José Rentes de Carvalho, lembrou um dia quase infinito que passou em Cabul, cheio de encontros luminosos com pessoas luminosas, prova de que a viagem pode dilatar o tempo; isto é, fazer com o que o nosso tempo seja invadido, aumentado, iluminado pelo tempo do lugar onde se chega, desde que se tenha, é claro, disponibilidade para esse contágio.

‘Livros com Garantia’

É uma iniciativa inédita em Portugal: a Presença vai dar, aos leitores que comprem livros através do seu site, a possibilidade de devolução (recebendo de volta o dinheiro, ou acumulando créditos na conta-cliente) caso não gostem do livro que adquiriram. Está tudo muito bem explicadinho aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges