O aniversário de Pessoa (um dia antes e com Sérgio Godinho)

A Casa Fernando Pessoa vai comemorar o aniversário do poeta (nascido a 13 de Junho de 1888) na véspera. Dia 12, estão previstas as seguintes iniciativas:

15h00 – Ateliês para crianças (Serviço Educativo da CFP)

19h00Audição – Com Daisy ao vivo no Odre Marítimo, pelo Teatro Estúdio Fontenova

21h00 – “Janelas de Pessoa”, por Tenda – Palhaços do Mundo

22h00 – Concerto de Sérgio Godinho

Capas da Minotauro ganham prata nos European Design Awards 2010

Da Minotauro, chancela de literatura espanhola contemporânea do Grupo Almedina, recebi há pouco este comunicado:

«A colecção de livros com a chancela Minotauro, do Grupo Almedina, foi galardoada com um prémio europeu de design (European Design Awards). A distinção foi atribuída ontem, 30 de Maio, em Roterdão (Países Baixos), aos designers portugueses Ana Boavida e João Bicker, responsáveis pela concepção gráfica do projecto. A entrega do galardão teve lugar no âmbito do Festival Europeu de Design.
A colecção das Edições 70, do Grupo Almedina, que reúne autores de referência da literatura espanhola
contemporânea, foi agraciada com o “Silver Award” da edição de 2010 daquele que é um dos mais conceituados eventos internacionais na área do design editorial.
“É uma preocupação de há muito do Grupo Almedina que os seus livros tenham um design gráfico apelativo, de qualidade, que complemente o rigor dos conteúdos dos títulos que publica. Nesse aspecto, a atribuição do prémio é o reconhecimento, pelos pares do mundo do design, de um projecto que muito acarinhamos. Confirma também algo que defendemos: que o design gráfico editorial não tem de ser todo igual e sujeito aos ditames do mercado. Pelo contrário, o público reconhece e valoriza projectos gráficos de qualidade”, avança
Pedro Bernardo, do Grupo Almedina.
Para os designers premiados, do atelier de design de comunicação FBA, a distinção do Festival Europeu de Design é sobretudo um “reconhecimento” pelo “esforço e pela exigência” investidos no projecto. Perante um júri constituído por designers estrangeiros, “foi o nosso trabalho que se defendeu a si mesmo contra muitos outros concorrentes”, frisa Ana Boavida.»

Desde a primeira hora, os livros da Minotauro distinguiram-se pela excelência gráfica e requintes de acabamento. Uma cor para cada livro, ilustrações a preto e branco, uma identidade clara e imediatamente reconhecível. O prémio é mais do que justo. Parabéns, Ana Boavida e João Bicker. Parabéns, Minotauro.

Lançamento de ‘Instrumentos de Sopro’

O livro Instrumentos de Sopro, de Ruy Ventura (Edições Sempre-em-Pé), será apresentado amanhã, a partir das 18h00, pelo artista plástico Fernando Aguiar. Verdadeiramente original, pelo menos para um livro de poesia, é o local escolhido para o lançamento: o Ginásio Body-Plaza, no Centro Comercial Picoas Plaza, em Lisboa.

Um quadro de Monet

Nas notas finais de Instrumentos de Sopro, Ruy Ventura explica que o poema pedra (o terceiro do post anterior) foi inspirado por um quadro de Claude Monet: O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro. Uma tela de 1904, exposta no Museu de Orsay, em Paris. Ei-la:

monet

Três poemas de Ruy Ventura

iluminação

que mão avança
no negrume dessa tinta
quando a carne brilha,
mesmo oculta nessa sombra?

a tinta não interrompe
a luz intensa
que do olhar
dirige esta viagem.

nem mar, nem vento
– nem essa brancura
que recorta os alicerces
e as paredes –
conseguem melhor voo
nesta tarde.

apenas essa mão,
velha (e perfeita)
segurando-nos
no ouro e na madeira,

esses olhos vigiando
a fortaleza
(pedra e sangue,
carne e tempestade) –

e o segredo de um nome
(o nosso nome)
escorando

nosso fogo
e nossa sede.

***

distância

ao longe, o vidro e a madeira escurecem.
a macieira ilumina o quintal.
apenas pedra – e o comércio da água,
entre as muralhas e o sangue
há muito desaparecido.

a língua surge estranha ao corpo e ao olhar.
a represa recolhe os passos
que desenham a escada.
a fotografia espera-nos – tão perto.
a estela marca o espírito na terra,
o sopro do vento
nas confrontações da alma.

nada resta do palácio
nem do minério.
tudo ficou da longa mansão
onde o anjo resguarda o oiro

e a memória.

***

pedra

há linhas de fogo
atravessando a tela.
serão somente brilho
ou luz que secciona
a noite e as formas –
mas a tinta arde,
mantendo nos olhos
a essência da pedra
que a névoa protege
do vento e da cegueira.

[in Instrumentos de Sopro, Edições Sempre-em-Pé, 2010]

O que aí vem (Planeta)

O Livro Inacabado de Dickens, de Matthew Pearl.

Lembrar Dinis Machado

Convite_Dinis_Machado

Logo à tarde, a partir das 18h30, na Sociedade Portuguesa de Autores.

O princípio do fim da guilhotina?

Talvez. A isenção do IVA nas transmissões de livros a título gratuito é uma ajuda para evitar o «massacre» (como lhe chamou a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas) dos milhares de volumes destruídos pelas editoras todos os anos, mas ainda fica a faltar uma melhor organização da vida pós-comercial dos livros, da armazenagem à eficácia dos esquemas de doação a entidades necessitadas.

BEA

A BookExpo America em balanço, aqui.

Os ‘meus’ meninos (Leitura Furiosa 2010)

diogo
Diogo, 11 anos

isabel
Isabel, 7 anos

erica
Érica, 9 anos

mario
Mário, 8 anos

daniela
Daniela, 10 anos

willian
Willian, 10 anos

Os seis juntos (e o Mário com o balão vermelho verdadeiro na boca):

grupo

O balão vermelho

E à tarde lá se ouviram, na Casa da Achada, as prosas vindas de quatro pontos do mundo. Realidades terríveis, as retratadas nos textos de Amiens e Kinshasa (muita violência, muitos abusos, muito negrume). Mais solares os contributos portugueses. Pela minha parte, fiquei contente por ouvir o meu texto dito (e que bem dito) pelo Diogo Dória, grande actor, além de cantado em parte (e que bem cantado) pela maravilhosa dupla Pedro e Diana.
Para quem não foi à Mouraria, deixo aqui o texto:

UM BALÃO VERMELHO, SEM FITA-COLA

Difícil é começar, já se sabe. E nós estamos sentados em semicírculo: o Diogo, tuba às fatias na t-shirt; a Isabel das tranças tão perfeitinhas; a Érica de óculos azuis na cara redonda; o Mário deitado no chão, com os pés no ar; a Daniela das pulseiras rosa shock no braço esquerdo; o Willian, com n, assim chamado porque o pai gosta dos «actores dos filmes» (a mãe preferia Felipe, depois resignou-se). E agora? Difícil é começar, ai pois é, pôr uma palavra a seguir à outra, mas entretanto já começámos, os dois mais velhos assumem que são maus leitores, não gosto, não gostamos, fartam-se depressa, o Willian e o Diogo, dez minutos, uma hora, dois capítulos, «aquilo torna-se chato», «estar atento dá-me sono», os mais pequenos encolhem os ombros, com eles não é bem assim, mas deixemos isso para trás. Deixemos isso para trás porque de repente, agora, há histórias a nascer no centro do semicírculo, do recreio cada criança prometeu trazer uma na cabeça, depois dos saltos no pátio de cimento, depois das correrias por baixo dos telhados de zinco, e elas aí estão, as histórias, atropelando-se. A do Mário cabe inteira numa frase: um menino tem medo do escuro, na casa há duas camas, é na da mãe que a escuridão menos assusta. Chegada a sua vez, a Daniela esquece-se do que ia contar, depois já se lembra, mas quando vai contar varre-se tudo de novo, o que não se varre é a memória de umas férias que passou na Alemanha com a irmã mais velha («ela tem 24 anos»), duas semanas em Hamburgo, tal como a Isabel não esquece o dia em que o pai chegou de Espanha, onde estava a trabalhar, e trazia roupas para ela, sapatos para ela, tantas coisas e ainda pastilhas elásticas com sabor a maçã. A história do Willian parece um sonho: há um menino que pega num balão e tenta enchê-lo, sopra, sopra, sopra, mas não consegue porque o balão está furado, até que ele encontra o furo e tapa-o com fita-cola, volta a soprar e o balão enche-se, é um balão vermelho, muito cheio de ar e o menino brinca com ele como se fosse uma bola de futebol. Na história do Diogo há um peixe que tem medo do mar, coisa complicada porque é no mar que ele vive, imaginem o que seria termos medo do oxigénio que respiramos, então um dia uns mergulhadores apanham-no («como no Nemo», lembra a Érica), levam-no e deitam-no ao rio, por ser demasiado pequeno, e ele fica no rio porque da água doce não tem medo (talvez o problema estivesse no grau de salinidade, penso eu), o peixe vê então um menino na margem a construir uma casa com pedras e folhas, dá um salto na água para chamar a atenção e à terceira o menino ouve, vira-se e pergunta-lhe «de onde vieste?», «do mar» responde o peixe, o menino arranja-lhe um aquário na casa feita de pedras e folhas, o peixe aceita ficar com o menino mas diz-lhe: «não expliques é aos teus pais que eu sei falar». Entretanto as cadeiras ficaram vazias, cresce o barulho lá fora, a Érica atrapalhou-se com a história de um menino que gostava de ficar sozinho, a Isabel ri-se muito, a Daniela fala da Shakira e o Mário levantou-se e tem na boca, vindo não sei de onde, um balão, um balão vermelho, um balão vermelho verdadeiro, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não está furado, um balão vermelho verdadeiro que se enche de ar e não precisa de fita-cola, um balão vermelho verdadeiro que incha como uma palavra demasiado grande para a nossa boca, uma palavra daquelas que é preciso ir ver ao dicionário e de repente o ar sai todo de uma vez, um som esquisito, um pffffffffff, o som de uma coisa que se esvazia, como as histórias quando já não conseguem ir mais longe ou os textos que se perdem no ar sem ponto final

Lembrete

Cartaz_LeituraFuriosa

Os frutos da Leitura Furiosa 2010 são partilhados esta tarde, a partir das três, na Casa da Achada. As fotos do dia de ontem podem ser vistas aqui.

Coisas boas

Sair de casa às cinco da tarde para aproveitar uma horinha de parque infantil com os miúdos, encontrar amigos, ser raptado pelos amigos, comer em casa dos amigos, deixar-se ir numa conversa que flui por mil lados, das ondas da Nazaré às de Hokusai, mais as infinitas reverberações de um talento em bruto da arte lowbrow (David Choe), caracóis e berbigão e cerveja fresca, regresso a casa para lá da meia-noite com os filhos adormecidos ao colo.

Para nostálgicos dos anos 80

Tetris: «Like ping-pong or fucking, the game demands a deep focus that must be both maintained and ignored; once you realize what you’re doing, you’re done.»

iLoucura

Previsivelmente, houve ontem uma corrida às lojas da Apple em todo o mundo para comprar o iPad, posto à venda pela primeira vez fora dos EUA. Em Londres, o primeiro comprador foi um rapaz de 17 anos, que se antecipou a uma iFila com muitas centenas de metros, que dava a volta ao quarteirão onde fica a sede da Apple na capital inglesa, em Regent Street. Entre os muitos fãs das engenhocas de Steve Jobs estava Stephen Fry, o actor que é uma das estrelas do Twitter e que obviamente twittou sobre o assunto, aqui.

A meio da Rua de S. Mamede

jacaranda1
jacaranda2
jacaranda3

O esplendor dos jacarandás.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Peregrinação de Enmanuel Jhesus, de Pedro Rosa Mendes (Dom Quixote), por Micael Pereira
As Lágrimas do Meu Pai, de John Updike (Civilização), por Ana Cristina Leonardo
A Chuva Antes de Cair, de Jonathan Coe (ASA), por Paulo Nogueira
Nudez, de Giorgio Agamben (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Correspondência, de Madame de Staël & D. Pedro de Sousa (Quetzal), por Carlos Bessa
João César Monteiro, de vários autores (Cinemateca Portuguesa), por Manuel de Freitas
Como Decidimos, de Jonah Lehrer (Lua de Papel), por Luís M. Faria
A Origem do Fado, de José Alberto Sardinha (Tradisom), por João Lisboa
Blues para uma puta velha, de Jorge Fallorca (&Etc), por José Mário Silva

‘Leitura Furiosa’

leitura_furiosa

Até domingo, vou andar pelo meio de gente «zangada com a leitura», a ouvir histórias, a escrever um texto, a visitar uma livraria, a espreitar outras histórias que outros grupos hão-de contar a outros escritores, em Lisboa, no Porto, em Amiens e em Kinshasa. Até domingo, para mim a leitura (o meu vício, o meu ofício) vai ser furiosa, a ver se contamina quem dela nada quer ou nada espera.
Este ano, couberam-me seis crianças de uma escola perto do Castelo. O Armando Silva Carvalho vai estar com os sem-abrigo da Almirante Reis, o Jaime Rocha com idosos da Mouraria e o Jacinto Lucas Pires com idosos de S. Cristóvão e S. Lourenço, o Miguel Castro Caldas com estrangeiros refugiados (algures na Bobadela), a Filomena Marona Beja e o Raul Malaquias Marques com crianças do primeiro ciclo (como eu), o Mário de Carvalho com adolescentes do antigo Liceu Gil Vicente.
No domingo, às 15h00, na Casa da Achada, os textos e os desenhos criados entre hoje e amanhã serão lidos, cantados, exibidos a quem os quiser ver e ouvir, juntamente com os que chegarão das outras cidades em que a Leitura Furiosa acontece.
Tentarei que parte desta energia também alcance, ainda não sei bem como, este blogue.

Três poemas de Luís Quintais

VIII

Houve alguém que encontrou mapas,
esquemas, modelos, a marca d’água

de uma linha na profusão da mente.
Isso, o vestígio que arruinava

a visibilidade de todas as metáforas,
não era uma cidade, antes a selva

crepuscular que, sedutora, nos envolve
quando queremos morrer.

E não quererás tu morrer
quando desapareces na ininteligível

exposição metafórica do mundo?
A carne das coisas tem

um brilho de cristal, mas esse
brilho engana, é o efeito apenas

de uma luz sem origem, a luz
do desespero. Tudo o que pode salvar,

se é ainda legítima a decisão
que está aí, no traço que, espesso,

reclama a impressiva nostalgia
daqueles que se atribuíam ao infortúnio

numa encruzilhada de gratificações,
de frutos amargos e de poesia,

tudo o que pode salvar
é um eco do que salva.

Tudo o que podemos amar
é um eco desse eco,

o drama dos espelhos outra vez.

***

XIV

Lenta passagem, evocação de uma cidade:
o que te esclarece é o movimento do braço,

o gesto que nada diz arrasta somente
a memória e o seu peso, e reúne depois

novas ciladas, e faz ecoar a morte da cidade,
a linha que percorre o exterior perímetro

e cujo tema é a destruição do sentido.
Uma descrição do que não teve lugar ocorre aí,

uma descrição dobrada pelo ilegível
que a devora.

Tudo é baldio. As vozes antigas – sim, os antepassados –
já não são esperadas, permanecem tapadas pela aflição escura.

Move o braço,
o voo começará onde não houver sentido.

***

XVI

Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,

ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras

enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):

fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.

«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.

[in Riscava a palavra dor no quadro negro, Cotovia, 2010]

Junot Díaz e o Pulitzer

Em 2008, ganhou o Pulitzer de Ficção pelo excelente romance A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (Porto Editora). Há uns dias, entrou para o Board do prémio. Ou seja, primeiro foi Díaz a ganhar com o Pulitzer; agora, é o Pulitzer a ganhar com Díaz, sem dúvida um dos autores norte-americanos mais interessantes da actualidade.

Feira do Livro do Funchal

Não tem a dimensão das maiores (Lisboa e Porto), mas quer afirmar-se para lá dos limites regionais. O Paulo Ferreira, dos Booktailors, tem acompanhado a Feira do Livro do Funchal e vai-nos dando a reportagem do que por lá se passa no Blogtailors.

A segunda vida dos livros

feira_manuseados

Começa hoje. Mais informações aqui.

The Wasp in a Wig‘ (fragmento)

Eis um excerto do «capítulo perdido» de Through the Looking Glass, um encontro entre Alice e uma vespa que Sir John Tenniel, o ilustrador do livro, convenceu Lewis Carroll a retirar da versão final do texto.

Logo à tarde

O novo livro de António Manuel Venda, que será apresentado por Luís Carmelo, já tem um blogue.

‘Uma pergunta por dia’

É o novo projecto jornalístico do Paulo Querido, uma micro-publicação com formato inédito e financiada directamente pelos leitores. De segunda a sexta, personalidades públicas respondem a uma única pergunta sobre um tema da actualidade. Será que entre as personalidades também estarão escritores e editores? A ver vamos.

Dois poemas de Joan Margarit

ESPACIO Y TIEMPO

Y de pronto la casa es demasiado grande.
Tu madre y yo vaciamos tus armarios
y seguimos por mesas y anaqueles,
de retrato en retrato, tus sonrisas.
De noche los espejos, bajo la luz eléctrica,
muestran con más relieve tu vacío.
Los muebles son ahora más oscuros.
Por la escalera bajan la cálida baranda,
que aún recuerda tu pequeña mano,
y los peldaños que aún sienten
el roce de tus pasos. Y la casa,
grande y vacía ahora,
a su propio silencio mira y mira.

UN CUENTO

No digas nada, Joana,
tan sólo escúchalo y no digas nada.
Íbamos caminando en la lluviosa
mañana por el pueblo adormecido,
entrábamos despacio
por una larga calle de adoquines
que no llevaba hacia ninguna parte.
Los niños nos llamaban con canciones
para acercarnos al canal, que viésemos
su casa reflejándose en el agua.
Te gustaba, ¿recuerdas?,
ver a los niños. Al marcharnos
quedaban sus caritas pegadas al cristal,
sus voces apagándose en el agua.
Llegamos tarde. Demasiado. Tanto,
que siempre volveremos separados:
ese es el precio por haber podido
entrar dentro de un cuento.
Y qué suerte encontrarte ahora aquí,
de madrugada, convertida en patio:
esto quiere decir que todo el tiempo
estabas junto a mí en la oscuridad

[in Joana, Hiperión, edição bilíngue (catalão e castelhano), 2008]

McEwan vence Wodehouse Prize

Ian McEwan acaba de ganhar a edição de 2010 do Bollinger Everyman Wodehouse Prize for Comic Fiction com o romance Solar, editado em Portugal pela Gradiva. O prémio distingue a narrativa que melhor capta o «espírito cómico» do escritor P.G. Wodehouse e consiste numa garrafa de três litros do champanhe Bollinger Special Cuvée, mais uma garrafa normal de Bollinger La Grande Année, uma colecção completa dos livros de Wodehouse (52 volumes) e o baptismo de um porco da raça Gloucestershire Old Spot com o título do livro vencedor. E o animal nem sequer tem razões de queixa, porque Solar é um nome relativamente discreto. Noutros anos, houve porcos chamados A Short History of Tractors in Ukrainian ou All Fun and Games until Somebody Loses an Eye.

‘Catalunha em Pó’

Fármaco para hoje (a partir das 18h30, na livraria Pó dos Livros): Casa da Misericórdia, de Joan Margarit (OVNI). Estarão presentes Rita Custódio e Àlex Tarradellas (tradutores) e Álvaro Góis (editor).

Tresli… e até nem desgostei!

«Talvez influenciado pela releitura de Austerlitz, senti-me impelido a ir ver a campa do meu irmão. Há duas semanas, o número de carros estacionados e de familiares que vi em silencioso recolhimento por entre as campas, à medida que subia para o Cabeço do Senhor do Mundo, como se me elevasse numa vertigem acima do patchwork fúnebre das campas estampadas na terra argilosa, achei melhor adiar para uma oportunidade mais íntima essa visita que fui esquecendo, à medida que me esforçava por esquecer Mortágua.
Agora, que me lembro, não sei se além das sucessivas peregrinações de Austerlitz, que Sebald ilustra com fotografias de cemitérios onde o tempo parece ausente, não sei até que ponto não terá também contribuído a oferta, quando estava sentado à porta do café, de um saco de pano cru com uma monografia do concelho de Mortágua e o catálogo de uma exposição de fotografias – não devem constar todas –, não sei, dizia, até que ponto não foram as pulsões despertadas pelas duas leituras, Austerlitz e o catálogo, que me impeliram a ir “ver o meu irmão”.
Leio que faria cinquenta e sete anos na quarta-feira, dia nove de Julho de dois mil e oito, leio junto da pedra tumular e vejo-o olhar não sei para “onde”, com uma expressão que, se quiser, posso interpretar como um rictus conformado, a olhar de mãos nos bolsos para o que ali ficou a ver no lado esquerdo da fotografia enquanto ela durar.
Assim que transpus o portão, rematado pela pequena caveira com dois fémures infantis cruzados sobre o ponto onde os dois portões de ferro se fecham, que só me lembro de ver um sempre aberto, quando não abertos de par em par, e depois de descer o degrau e entrar no cemitério onde, até à morte do meu irmão, só havia a sepultura da minha avó que morreu quatro meses antes de eu nascer, não pude deixar de reparar que a maior parte das fotografias das campas são fotos tipo passe, fotos de arquivo, como se deambulasse por uma biblioteca muda.
Exceptuando a perturbadora expressão do meu irmão, de que já não me lembrava, não vi em nenhuma campa uma foto onde palpitasse outra vida para além da identificação oficial do defunto, estática, arquivada; só notei a falta da pancada forte que lhes imprime a mordedura de um selo (em) branco.
Uma marca de água.»

[Jorge Fallorca, Blues para uma puta velha; &Etc, Lisboa, 2010]

Selecção de José Mário Silva

Uma coisa destas não se faz, sr. Fortinbras

Eis uma péssima surpresa: da noite para o dia, o Máscara&Chicote (o mais deliciosamente provocador e impertinente dos blogues literários nacionais) passou a estar «aberto apenas a leitores convidados».
Mesmo sabendo que não tenho voto na matéria, voto contra.

PS – Por e-mail, o autor de Máscara&Chicote acaba de me informar que o blogue está apenas suspenso. Ou seja, «lá para meio do Verão» Fortinbras regressará «ao trabalho». Menos mal.

Demasiadas cores

O que é que têm em comum os logótipos destes três acontecimentos em torno do livro (um lisboeta, um madeirense e um nova-iorquino)? Adaptando o que diz o imperador Joseph II a Mozart, num dos melhores diálogos do filme Amadeus, «too many colors».

Quando Eric Hobsbawm escrevia sobre jazz

Escondido atrás do pseudónimo Francis Newton (nome de um trompetista vermelho que tocava com Billie Holyday), o historiador marxista Eric Hobsbawm fez, durante uma década, crítica de jazz para o New Statesman. Agora, recorda esses belos tempos (anos 50/60) num artigo a publicar esta semana pela London Review of Books, no fim do qual admite a sua «spectacular failure to recognise the potential of the Beatles».

Elogio de Robert Laffont

Pierre Assouline evoca no seu blogue, com afecto e admiração, o grande editor francês Robert Laffont, desaparecido esta semana, aos 93 anos de idade.

‘Clube da Palavra’

Eis um programa televisivo que traz a poesia para o pequeno ecrã em horário aceitável, antes da meia-noite (é às sextas-feiras, no canal Q, infelizmente apenas para quem tem Meo). Uma causa mais do que nobre, nobilíssima.
A primeira emissão foi assim:

Por ordem de entrada em cena: os COPO (Paulo Condessa e Nuno Moura), o JP Simões e o João Pacheco, que lê alguns desversos do pai, o grande Fernando Assis Pacheco. Desenhos digitais de António Jorge Gonçalves.

Balanço provisório da Feira do Livro de Lisboa

Ainda sem números oficiais, tudo indica que as editoras que participaram na Feira só têm razões para estar satisfeitas. Segundo o Público, a APEL assinala um «aumento de afluência e de volume de vendas na edição deste ano». A LeYa terá vendido mais de cem mil livros e a Porto Editora registou um aumento de 40% no volume de negócios, em comparação com 2009 (que já foi, recorde-se, um ano de resultados bastante positivos).

No labirinto da literatura

Os livros que devoraram o meu pai
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-21-2095-1
Ano de publicação: 2010

Tal como Elias Bonfim, protagonista de Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz acredita que não somos feitos de «a-dê-enes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros», mas sim de histórias. A biologia é importante, claro, mas é a literatura que lhe dá um sentido. E se o primado do literário já regulava a ordem narrativa do livro anterior (Enciclopédia de Estória Universal, 2009), perdura de forma ainda mais explícita nesta engenhosa novela juvenil.
Quando faz 12 anos, Elias Bonfim recebe da avó não apenas a chave do sótão onde está fechada a biblioteca do pai, Vivaldo, mas também a verdade sobre o seu desaparecimento. Funcionário de uma repartição de finanças, ele não morreu de enfarte, como sempre lhe haviam dito. Leitor compulsivo, entrou foi dentro de um livro de onde nunca mais saiu. E é por esse mesmo livro-porta, A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, que o filho, nascido órfão, penetra no labirinto da literatura à procura do progenitor, qual Telémaco seguindo a trajectória paterna (com um cão chamado Argos e tudo), não de ilha em ilha, mas de livro em livro. As pistas, encontra-as Elias em obras e personagens de Stevenson, Dostoievski e Ray Bradbury. Pelo caminho, o rapaz aprende muita coisa – incluindo o significado de palavras difíceis, como «hirsutismo» e «anagnosta» –, mas sobretudo confronta-se com personagens que são paradigmas negativos do género humano, seja por incapacidade de distinguir o bem do mal (Mr. Hyde), seja por não saberem lidar com a sua consciência (Raskolnikov).
O fundo moral desta narrativa iniciática cumpre-se depois na história paralela (a da vida real), em que um colega de escola obeso (Bombo), inventor de parábolas orientais, acaba por ser vítima do «lado escuro» de Elias. A articulação entre estes dois planos do livro, porém, está longe de ser satisfatória. É mesmo o seu calcanhar de Aquiles. Demasiado brusca e simplista, a tragédia de Bombo é a mera demonstração a traço grosso do que a aventura livresca de Elias sugere em filigrana. E torna-se, à sua maneira, o equivalente da raiz descrita na página 87: a parte da árvore que «a impede de voar como os pássaros».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Afinal a Feira do Livro do Porto volta à casa de partida

Depois de andar em bolandas, de um lado para o outro, a Feira do Livro do Porto regressa ao local de onde era suposto não ter saído: a Avenida dos Aliados. Eis o comunicado emitido hoje, a pouco mais de uma semana da abertura da Feira (1 de Junho), pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio, e pelo presidente da APEL, Paulo Teixeira Pinto:

«A 80.ª Feira do Livro do Porto abre ao público no próximo dia 1 de Junho na Avenida dos Aliados, com horário alargado, e prolongando-se até 20 de Junho, o domingo que antecede o S. João.
Na sequência de contactos telefónicos entre a APEL e a Câmara do Porto, as duas instituições ultrapassaram as dificuldades existentes e clarificaram a coordenação das diversas iniciativas planeadas para a Avenida dos Aliados, de forma a permitir uma gestão harmoniosa de eventos, sem pôr em causa o protocolo celebrado o ano passado entre o Município e a APEL para a realização da Feira do Livro na Baixa da Cidade.
Encerrada à meia-noite de ontem a edição de Lisboa, os trabalhos de montagem da Feira do Livro do Porto começam hoje mesmo, e prosseguem ao longo da semana, de forma a que o evento seja inaugurado no primeiro dia do mês das Festas da Cidade, enriquecendo assim o intenso programa de animação da Baixa.
Assim, durante praticamente três semanas a Avenida dos Aliados poderá voltar a conjugar de uma forma particularmente feliz a cultura e a actividade económica, em torno da grande festa do livro que é a sua própria feira.
Recorde-se que no ano passado, estreia do regresso da Feira do Livro à Baixa, o evento foi maciçamente reconhecido como um enorme sucesso, mobilizando muitas dezenas de milhares de visitantes e compradores.»

‘cràse’

cras

É uma «revista de literatura emergente», editada por Nuno Brito, Luís Felício e Rober Diaz. O número 1 inclui trabalhos de Tiago Patrício, Catarina Nunes de Almeida, Sara F. Costa, Beatriz Hierro Lopes e Andrés Cisneros de la Cruz, entre outros. Já está à venda. Na Trama, por exemplo.

Um poema de David Teles Pereira

PARTE V
(A LEI)

we were suddenly aware of ourselves
standing there, staring at the future
blindfolded.

Deborah Eisenberg

Em criança fui um homem sozinho numa casa de mulheres.
À excepção do meu pai, à excepção do meu avô e do meu irmão,
fui um homem sozinho numa casa de mulheres
que se vestiam de vermelho e, em segredo,
usavam nomes de princesas antigas
para que o sonho coubesse todo na sua absurda forma de cristal.
Às vezes sozinho, sem nunca as entender,
falava a sua própria língua, como se fosse acreditar sempre
que a minha mãe e as minhas irmãs inventaram, só para elas,
todo o pranto e todo o silêncio que cabem no mundo.

Um dia Raquel ensinou-me a brincar com bonecos vestidos de púrpura
e a imaginar neles Hannah, em oração, quarenta anos mais nova,
na sua cama rodeada de arame farpado, a apaixonar-se pelo senhor F.
e pelos seus olhos cinzento-anjo.
Foram de longe os anos mais felizes da minha vida,
os que antecederam a clausura do Inverno no meu peito,
no dia em que o meu avô morreu.

Só então chorei, quando vi o meu pai aproximar-se do corpo
para o tapar, antes que os corvos lhe ensinassem
o que há que fazer àqueles que morrem.
Mal se suspendeu o céu fez-se negro o seu rosto.
Comprei-o, comprámo-lo caro com o trabalho doloroso das nossas mãos.

Aquietaram-se as árvores, o vento, as mudanças
e os pássaros puderam enfim repousar do seu voo de séculos.
Trinta dias de sol e secura se seguiram e, à primeira gota de chuva,
o meu pai abriu as portas de casa e houve festa.
O meu pai abriu as portas de casa e saíram as mulheres
e entraram os senhores da lei. Disseram
‘Sempre que invocarmos o teu nome virás a nós e nos abençoarás’
Nessa mesma noite ensinaram-me
que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso
e que para Ele os olhos não têm horizonte.

Anos mais tarde, quando já nenhum homem se importava
que chovesse ou não, deixei os meus antepassados sozinhos,
uns com os outros, a escrever a e a pensar a lei e o sangue,
como se isso fosse pelo menos metade da vingança que o Senhor nos merece.

Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,
no extenso bosque do meu peito negro,
com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para Leste.

[in Biografia, exemplar n.º 18 de 50, Língua Morta 001, 2010]

‘One Story’

Eis uma revista literária que se faz de um único conto novo, enviado por e-mail a cada três semanas. «Our mission is to save the short story by publishing in a friendly format that allows readers to experience each story as a stand-alone work of art and a simple form of entertainment», explicam os responsáveis pela publicação. Quem quiser subscrever a revista, pode inscrever-se aqui. A One Story tem ainda um blogue, com notícias desta verdadeira comunidade de autores.

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges