Martin Amis: “A vida é muito resistente à arte”

Em tempos, ele foi o enfant terrible da literatura inglesa – o filho brilhante de um grande escritor (Sir Kingsley Amis) que insistiu em suplantar o pai. Agora, aos 60 anos, Martin Amis de enfant já não tem nada, excepto talvez o gozo de virar tudo do avesso com estrondo e estilo. Ao telefone, a partir de Londres, o escritor conversou sobre o seu último romance, A Viúva Grávida, publicado em Fevereiro no Reino Unido e cuja tradução portuguesa (pela Quetzal) acabara de receber.

O seu novo romance, A Viúva Grávida, foi arrancado a ferros: mais de cinco anos de trabalho e sucessivos adiamentos. A que se deveram as dificuldades para o concluir?
Bom, a verdade é que tentei escrever um longo romance autobiográfico, projecto que se revelou um desastre. Um desastre absoluto. A certa altura, apercebi-me de que o livro estava morto. Era uma coisa interminável e não havia maneira de lhe dar um fim. Quando tive consciência do impasse, fiquei de rastos durante umas semanas, mas depois compreendi que aquilo não era um romance, mas dois. Extraí a parte italiana, a única de que gostava mesmo, por não ser excessivamente autobiográfica. Retrabalhei então aquelas cerca de cem páginas, desligando-as da minha vida. E voltei a sentir a liberdade da ficção pura. A partir daí, foi tudo muito rápido. Escrevi cerca de 300 páginas em 18 meses.

Tenciona aproveitar o restante material?
Sim. Neste momento estou a concluir o próximo livro, State of England, uma novela. Mas depois avançarei para o romance que dará forma a esse material. Um livro provavelmente longo, autobiográfico, mas sobretudo sobre outros escritores, mais do que sobre mim.

No relato da revolução sexual que nos dá em A Viúva Grávida, as raparigas começam a comportar-se como rapazes e parecem conquistar uma certa igualdade. Mas três décadas depois, a enteada de Keith, o protagonista, reconhece que no fim de contas os rapazes voltaram a ganhar, como sempre.
É verdade. Infelizmente, a revolução sexual ainda não acabou porque milénios de dominação masculina não se alteram com um simples estalar de dedos. Apesar de alguns progressos, a ascensão das mulheres vai demorar pelo menos mais um século. E parte do problema deve-se ao facto de as mulheres não terem assegurado o essencial: uma paridade absoluta em casa.

A teoria dos cinquenta-cinquenta.
Exacto. A teoria dos cinquenta-cinquenta. Todas as outras liberdades teriam que emanar dessa. Mas elas assumiram uma atitude napoleónica, no sentido em que se limitaram a acumular poder sem assegurarem as bases desse poder. Ou seja, acabaram por ter de fazer tudo: o trabalho, as crianças, as tarefas domésticas. Tudo. É uma coisa muito difícil de sustentar.

Qual é a saída?
A saída é fazerem uma revolução permanente até atingirem aquilo a que aspiram. Mas o esquema dos cinquenta-cinquenta em casa será uma miragem enquanto os empregos das mulheres não forem tão bem pagos como os dos homens.

Este livro é também sobre a geração que viveu uma «era dourada» de desenvolvimento económico e paz. Uma geração poupada ao horror da guerra, mas com a ameaça nuclear sempre a pairar sobre a cabeça.
Foi uma espécie de concurso de pesadelos. Nós só combatíamos a nossa guerra quando estávamos a dormir.

E não podiam ser corajosos, não podiam ser heróis.
Não, não podíamos ser nada disso. Eu considero-me um veterano da Guerra Fria. Eu e todos os meus contemporâneos. Foi uma época muito estranha, em que sabíamos que o mundo inteiro desapareceria se algo corresse mal.

A descrição do verão de 1970, num castelo da Campânia, ocupa quase 80% do livro. Isto não cria um certo desequílibrio na estrutura narrativa do romance?
Bem, o que eu tentei foi quebrar essa sequência com saltos regulares para o presente, ou para o passado muito recente. Há cinco intervalos em que assistimos ao futuro do protagonista, de forma a se perceber que o que aconteceu naquele verão moldou de alguma forma a sua vida e a vida de outros. Se a sequência italiana não fosse interrompida, tornar-se-ia indigesta. E creio que este esquema de tempo duplo dá uma certa perspectiva e modulação à história. A sequência italiana é quase como uma experiência controlada, num mundo à parte. Mas depois o livro também desce àquilo que é apenas o dia-a-dia, a vida, sem artifícios. A questão é que a vida é muito resistente à arte. Por isso, temos que tomar liberdades enormes para lhe darmos uma forma literária satisfatória.

O protagonista do livro partilha consigo vários traços: a idade, a baixa estatura, o trabalho como crítico literário no início da carreira. Mas o facto de Keith ser órfão de pai e mãe boicota quaisquer tentativas de ver nele um simples alter ego.
Sim. É verdade que ele tem duas ou três coisas em comum comigo. Mas o facto de ser órfão, de ambos os pais terem morrido no dia em que nasceu, fazem dele uma página em branco, uma tabula rasa. Quanto a mim, tenho antecedentes muito bem definidos: o pai famoso no mundo das letras, uma mãe muito individualista, um irmão e uma irmã. O desenvolvimento do Keith é peculiar e as suas relações com as mulheres sofrem muito por causa da experiência vivida no castelo italiano. O meu passado não tem nada a ver com isto. E embora, tal como ele, eu tenha trabalhado numa agência de publicidade durante uns meses, antes de ir para o Times Literary Supplement, nunca me passou pela cabeça ficar por ali. Eu sempre soube que ia ser um escritor, uma figura do mundo literário, enquanto Keith fica preso noutra corrente de vida. Curiosamente, a personagem mais autobiográfica deste livro não é Keith, mas a sua irmã, Violet, que é uma versão muito aproximada da minha irmã, Sally. Ela morreu há cerca de uma década, aos 46 anos. E foi, de certa forma, uma vítima da revolução sexual.

Ao longo do livro, Violet vai ganhando importância, até se tornar a figura central do drama de Keith.
Ela já está no pensamento dele durante o verão em Itália, porque é uma espécie de exemplo negativo daquelas raparigas que pretendiam comportar-se mais à rapaz do que os próprios rapazes. Quando Keith regressa a Inglaterra e a sua vida continua, o drama de Violet emerge e depois de morrer é a sua sombra que permanece. Ela incapacita-o durante vários meses, precisamente o que aconteceu comigo. Dois ou três anos depois da morte da minha irmã, tive uma espécie de colapso. Nada de muito grave. Apenas um estado de terrível exaustão. E penso, como Keith diz, que isso se deveu à violência do instinto protector para com ela. Não podes fugir a estes sentimentos. Eles moldam-te. E eu tive de perceber isso em relação a mim mesmo.

Keith, o protagonista, tem uma manifesta dificuldade em lidar com o processo de envelhecimento.
Conhece alguém que não tenha?

Eu, por exemplo, não tenho. Mas talvez seja demasiado novo (38 anos).
Nesse caso, prepare-se. Vai ter uma surpresa muito desagradável. Acredite.

Fale-me dessa surpresa que me espera.
Só posso falar do que se passou comigo. Nunca supus que fosse tão humilhante. E também tão cómico, num certo sentido. É uma daquelas experiências que você, aos 38 anos, não pode compreender completamente. Experimente reler o livro quando tiver 60. Algumas das coisas só se tornarão nítidas quando as experimentar por si mesmo. Esta é uma daquelas experiências que se tornam indescritíveis – ou melhor, incomunicáveis – a quem não seja da mesma idade.

Além de muitas referências a romances clássicos da literatura inglesa do século XIX, há um autor quase omnipresente em A Viúva Grávida. É Philip Larkin, uma espécie de epítome literário da frustração sexual.
Eu estou neste momento a preparar os seus Poemas Escolhidos, para a Faber & Faber. E ele é um dos escritores sobre os quais escreverei no tal romance autobiográfico em curso. Eu conhecia bem o seu universo. Mas só retrospectivamente, depois de ler as suas cartas, é que me apercebi do caminho que ele empreendeu. Para colocar a coisa em termos heróicos, ele escolheu a escassez sexual para poder escrever os poemas que melhor reflectem essa condição.

Uma espécie de martírio sexual para fins poéticos.
Sem dúvida. Mas tudo tem origem, parece-me, numa forma de preguiça erótica, uma falta de energia. A minha mãe, que o apreciava muitíssimo, diz que ele tinha medo das mulheres. Já era careca aos 25 anos, gaguejava, e as mulheres assustavam-no. Acho que da parte dele houve uma grande falta de coragem. Sabe, naquele tempo os poetas tinham grande saída com as mulheres.

Ao contrário do que acontece hoje.
Pois, hoje os poetas têm que se esforçar mais. Mas na altura eram considerados maravilhosamente glamorosos. Foi uma boa altura para ser poeta. Eu tinha vários amigos poetas e eles tinham montes de namoradas. E muitos deles não eram mais atraentes do que o Larkin. Alguns feiosos tinham montes de namoradas. As mulheres valorizam os poetas porque eles representam a sensibilidade masculina no seu modo mais comovente, romântico, próximo e humano. Se o Larkin se tivesse dado ao trabalho, teria seduzido mulheres maravilhosas, que se sentiriam muito honradas por serem companheiras de Larkin. Mas ele só conseguiu ter quatro ou cinco mulheres com talento para o tornar miserável.

Ele poderia ter sido mais feliz, mas não teria escrito o que escreveu.
Exacto. Essa é, repito, a leitura heróica da sua vida. Mas ainda me horroriza aquilo a que se submeteu.

As suas intervenções públicas tendem a provocar controvérsia. Isso faz parte da sua pose ou…
[Interrompendo] Não, não, não. Nada disso. O problema é que a imprensa britânica presta uma atenção ridícula a tudo o que eu diga ou faça.

Quando sugeriu a instalação de «cabinas da morte» nas esquinas, com «um martini e uma medalha» à espera de quem se oferecesse para acabar com a própria vida, sabia que a polémica vinha a caminho.
Claro, mas essa questão também é abordada no meu romance. Eu não estava a referir-me às pessoas idosas em geral. Estava a falar de mim, da minha geração. Os babyboomers.

Os babyboomers que se transformaram hoje no «tsunami prateado»?
Sim. Nós estamos a inundar as sociedades no mundo inteiro. É um facto. E a pressão social dos mais velhos sobre os mais novos pode vir a desencadear uma espécie de guerra civil. Eu penso efectivamente que a eutanásia devia estar acessível, e acessível de uma forma fácil, mas com todas as salvaguardas legais. Outro romancista, Terry Pratchet, disse mais ou menos o mesmo, mas em termos mais sóbrios, e ninguém se escandalizou. As polémicas comigo têm sempre muito mais impacto.

Outra das polémicas recentes nasceu do seu ataque a J.M. Coetzee, o escritor sul-africano que acusou de não ter talento. Sabendo-se que ele já ganhou o Nobel e dois prémios Booker, enquanto o Martin não ganhou uma coisa nem outra, houve logo quem visse inveja nas suas palavras.
Não, não. Inveja não. Eu não quero escrever os romances dele. Mas já retirei o que disse. E pedi desculpa. Não volto atrás, porque acho que o que disse é verdade. Mas os escritores não se devem atacar uns aos outros. Aliás, não ataquei nenhum outro escritor.

E continua a achar que uma das diferenças entre os bons escritores e os maus é que os primeiros têm graça.
Claro. Acho que isso é mesmo verdade. Sempre foi assim. Os bons escritores são engraçados porque a vida é engraçada. Sou contra a ideia, típica do século XX, de que os nossos tempos são tão incrivelmente sombrios que o escritor tem que se purgar do princípio do prazer. Isso está pura e simplesmente errado.

Como escritor, se um dia descobrir que perdeu a graça, o que é que fará?
Espero ter a coragem de abandonar a escrita. Há um pequeno segredo da literatura moderna que é este: todos os escritores acabam, mais tarde ou mais cedo, por perder algumas das suas qualidades. Antigamente, ninguém dava por nada porque os escritores morriam cedo. Shakespeare morreu aos 54 anos, Jane Austen aos 41, etc. Mas os progressos da medicina fizeram com que os escritores morram agora duas vezes: morrem quando morrem e, antes disso, morrem quando morre o seu talento. Já falei disto com os meus amigos escritores e é uma coisa que nos preocupa. De momento, sinto-me bastante bem. Nos últimos anos não me tem faltado energia. Mas os escritores mais velhos tendem a aperceber-se de que mesmo os nossos clássicos preferidos nunca são suficientemente breves. Tchekov disse-o. Saul Bellow disse-o. Quando envelhecemos, pensamos: vá lá, não vamos pôr aqui todas essas coisas que estão a mais, vamos só dizer o que temos a dizer. Imagino que também eu seguirei esse caminho. Acredito que o meu futuro estará muito mais nas novelas e nos contos do que nos romances muito longos.

[Versão longa de uma entrevista publicada no suplemento Actual, do Expresso]

Oficina do Cego

Esta Associação de Artes Gráficas faz objectos editoriais de um requinte como já não há. Ontem, chegou-me às mãos o primeiro número do jornal da Oficina do Cego, em offset e duas cores directas. Procurem-no. É uma coisa bela, uma coisa preciosa.

Adenda ao post anterior

Hoje passei pela Poesia Incompleta e depois pela Feira do Livro. O primeiro saco veio mais carregado do que o segundo.

Um silêncio que não foi de indiferença

O Jaime Bulhosa, da Livraria Pó dos Livros, insurge-se contra o incompreensível silêncio com que os blogues literários teriam recebido os protestos livreiros sobre a extensão da Feira do Livro (aqui, aqui e aqui).
Pela minha parte, tenho duas coisas a dizer:

1) Estou totalmente solidário com os protestos dos livreiros.

2) O meu silêncio não nasceu do desinteresse pela causa mas do desconhecimento de que ela existia, numa semana particularmente complicada (muitas obrigações profissionais) e com o tempo reservado à Internet, e à actualização do blogue, reduzido ao mínimo.

O que aí vem (&Etc)

jardinagem

Curso Intensivo de Jardinagem: o primeiro livro de poemas de Margarida Ferra. E uma magnífica estreia, digo eu. Mas neste caso sou suspeito.
Em 2008, partilhei aqui dois dos poemas agora publicados em papel. Eis outro:

AREEIRO

O sinal vermelho, o carro
travado. À esquerda, a bomba de gasolina;
à direita, a gaiola equívoca.
Duram um minuto e meio,
a minha espera
e os contos que me visitam,
rápidos monogramas em ponto cruz
dessa louca sem nome.

Morou ali no tempo
em que a cidade acabava antes.
Gritava no corredor
que era um pássaro, nascia de manhã
com asas, as penas caíam-lhe à mesa.
Ao fim do dia, abria-se a porta
da varanda. Arrancou
e comeu todas as petúnias brancas.
Depois, o bordado caído
e os olhos atirados para o céu,
por onde hão-de passar estes aviões
agora. Presos: o tecido no bastidor e o ar no peito
(ao contrário daquele que ainda circula –
a única coisa que as grades não podem segurar).

A capa é de Luís Henriques.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Livro do Desasocego, tomo I e II, volume XII da edição crítica de Fernando Pessoa (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por António Guerreiro
Álvaro Cunhal – Sete Fôlegos do Combatente, de Carlos Brito (Edições Nelson de Matos), por Luísa Meireles
Guia de Conceitos Básicos, de Nuno Júdice (Dom Quixote), por Helena Barbas
– Revista Intervalo n.º 4, por António Guerreiro
Wolf Hall, de Hilary Mantel (Civilização), por Luís M. Faria
Dentes de Leite, de Ignacio Martínez de Pisón (Teorema), por Vítor Quelhas
Todos os Homens São Mentirosos, de Alberto Manguel (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
O Grande Retrato, de Dino Buzzati (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Teatro caleidoscópico

O Terceiro Reich
Autor: Roberto Bolaño
Título original: El Tercer Reich
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 346
ISBN: 9789725648506
Ano de publicação: 2010

Estavam os leitores portugueses de Roberto Bolaño ainda às voltas com 2666, magnum opus que juntou o êxito de vendas à aclamação da crítica, quando foi anunciada a publicação pela Quetzal, quase em simultâneo com a primeira edição espanhola, de um outro livro póstumo do escritor chileno. Escrito à máquina em 1989, O Terceiro Reich é na prática o primeiro romance de Bolaño, que chegou a corrigi-lo à mão mas nunca manifestou intenções de o publicar. O risco de um flop pós-endeusamento, ainda por cima com laivos de oportunismo comercial, não podia ser maior. Ao fim de poucas páginas, porém, as dúvidas dissipam-se: este é um grande livro, uma ficção inquietante e bolañiana até aos ossos, não só no estilo como em certas obsessões temáticas (o nazismo e a II Grande Guerra, a percepção de um mal difuso que contamina tudo, a violência, o sexo, os sonhos, a loucura). Na página 219, chega mesmo a aparecer uma avioneta que desenha letras no céu, antecipando a «poesia aérea» feita aos comandos de um caça Messerschmitt pelo protagonista de Estrela Distante (1996).
Escrito em forma de diário, O Terceiro Reich é narrado por Udo Berger, campeão de wargames que aproveita umas férias na Costa Brava para escrever um artigo em que testa variantes de um complexo jogo de estratégia. Ele e a namorada encontram um outro casal de alemães e entregam-se à rotina do ócio: praia, discotecas sórdidas, bebedeiras, etc. À sua volta, personagens dúbias com nomes dúbios (o Cordeiro, o Lobo) ou figuras enigmáticas (o Queimado; Frau Else e o seu marido doente, donos do hotel Del Mar). Os dias passam e quase nada acontece, a não ser um vago desconforto («sinto algo intangível, estranho, a dar voltas em redor de mim, ameaçador»), uma sucessão de medos sem causa aparente, perigos apenas pressentidos e uma tragédia que não põe fim a essas tensões acumuladas, antes as magnifica. Desligado de uma «Europa amnésica, sem épica e sem heroísmo», Udo torna-se um «sonâmbulo», um fantasma, um homem em processo de autodestruição, para quem a realidade é menos real do que o tabuleiro onde a História e as guerras podem ter outros desfechos, «cenário onde se dão milhares de princípios e fins», maqueta da vida verdadeira, «teatro caleidoscópico» em que todos são «sombras que jogam com sombras».
Embora inferior às suas duas obras-primas (Os Detectives Selvagens e 2666), O Terceiro Reich faz todo o sentido no corpus da obra de Bolaño. Ainda bem que foi resgatado da gaveta onde o chileno, talvez inseguro quanto ao seu valor, um dia o fechou.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Horas Extraordinárias

Excelente notícia: Maria do Rosário Pedreira, uma das melhores e mais atentas leitoras deste país, começou ontem um blogue sobre as horas extraordinárias (ou seja, «as que passamos a ler», dentro ou fora do horário de trabalho). Eis uma página que tem tudo para se tornar uma referência na felizmente cada vez mais vasta blogosfera literária portuguesa.
Bem-vinda, Maria do Rosário.

‘Efeito Borboleta’ no Brasil

O meu livro Efeito Borboleta e outras histórias vai ser publicado no Brasil, em Julho, pela editora ARdoTEmpo, do escritor e artista plástico Alfredo Aquino, gaúcho de Porto Alegre (Rio Grande do Sul).
Em primeiríssima mão, revelo-vos a capa, fotografada por Mário Castello:

efeitoborboleta_Brasil

Feira do Livro do Porto afinal vai ser… em Gaia

É uma notícia de última hora, dada pelos Blogtailors:

«A feira do livro do Porto decorrerá em Vila Nova de Gaia. Segundo o Blogtailors apurou, a decisão terá sido tomada devido às dificuldades encontradas na negociação entre a APEL e Câmara Municipal do Porto e à imediata disponibilidade da Câmara de Vila Nova de Gaia para acolher o evento.»

Sou só eu a achar caricata, para não dizer ridícula, esta sucessiva mudança do lugar da Feira? Começou na Avenida dos Aliados, passou para a Rotunda da Boavista, já vai na outra margem do Douro e desconfio que ainda vai acabar nos acessos ao Estádio do Dragão ou à volta do cubo da Ribeira. Se a mudança para Gaia se confirmar, Rui Rio ficará um pouco mais próximo de conseguir o seu grande objectivo: a extinção definitiva da actividade cultural no Porto. Serralves e a Casa da Música que se cuidem.

Quatro poemas de Tasos Leivatidis

IDEOLOGIA 1

Tinha um braço maneta e para o esconder
Andava sempre com uma bandeira.

IDEOLOGIA 2

Foram tantas as cadeiras com que nos tentaram
Por isso agora fico sempre de pé como para cantar a Internacional.

ORAÇÃO

Deus, nunca te percebi e, mesmo que te percebesse, não podia com o teu peso.
Deus, com esta realidade tão reles à nossa volta corres grande perigo.
Como posso eu salvar­‑te?

DEDICATÓRIA

A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quanto todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é tarde – é tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia para entrarem no céu,
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram, aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma vida inteira…

Tradução: Manuel Resende

[via blogue da Angelus Novus]

V Encontro Oeiras a Ler

O quinto “Encontro Oeiras a Ler” decorrerá, amanhã e sexta-feira, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, reunindo conferencistas de vários países em torno de temas como a literacia na sociedade da informação e os «novos leitores» que já aprendem a ler num meio digital. O programa completo pode ser consultado aqui. Eu moderarei as duas primeiras sessões, com Sheila Webber (Universidade de Sheffield, Reino Unido) e Mette Kirkegaard Jensen (Biblioteca Pública de Aarhus, Dinamarca).

Blog da Companhia

A Companhia das Letras, uma das melhores editoras brasileiras, inaugurou esta semana o seu blogue. E começa bem, muito bem, com textos sobre Roberto Bolaño de dois dos seus melhores amigos, Alan Pauls e Rodrigo Fresán. Pretexto: o lançamento em breve, no Brasil, de 2666.

«Roberto Bolaño disse certa vez: “Há livros que inspiram medo. Medo de verdade. Mais que livros, parecem bombas-relógio ou animais falsamente empalhados dispostos a pular no seu pescoço se você se descuidar”. A categoria — livros temíveis — parece pensada à medida de 2666. Como todas as grandes ficções de Bolaño — penso em Estrela distante, por exemplo —, 2666 dá medo. Dá medo e faz rir ao mesmo tempo. Lê-lo é entrar num tremor, numa convulsão física. Não é um livro que se dirige ao leitor; não pretende falar com ele nem enfeitiçá-lo. Ele quer tocá-lo, marcá-lo, atravessá-lo com o vento gelado da morte e a brisa ardente da gargalhada.»
Alan Pauls

«A obra de Roberto Bolaño — chame-se o Santo Gral de Cesárea Tinajero em Os detetives selvagens, ou de Benno von Archimboldi em 2666, ou de Wieder/Ruiz-Tagle em Estrela distante — está sempre marcada pela busca de “seres-livros”. Pessoas que não podem parar de escrever e de ler.
E me ocorre que a leitura ou a releitura de 2666 é consequência da escrita de 2666. Explico-me: a escrita noturna e lançada ao abismo de 2666 — Bolaño apostando uma corrida contra tudo, noite após noite, para alcançar a última página de seu romance antes do último amanhecer de sua vida — age sobre o leitor causando um efeito similar. Não importa a hora que seja; quando se lê ou relê 2666 a gente não demora a se entregar a uma espécie de transe entre sonâmbulo e insone. Em 2666, a prosa de Bolaño cativa mais do que em qualquer de seus outros livros porque aqui se trata de conseguir uma espécie de summa artística, plenamente harmônica e ao mesmo tempo disfuncional onde — por meio de epifanias de longa distância suspensas no espaço ou abruptas acelerações no tempo emolduradas no formato de romance aberto, de romance exterior e interior ao mesmo tempo —, o que se persegue e se alcança não é outra coisa senão uma teoria do mundo, de todo o mundo.»
Rodrigo Fresán

Os textos completos podem ser lidos aqui.

O que aí vem (Teorema)

A 19 de Junho, chega às livrarias uma das ficções mais esperadas do ano: O Original de Laura, romance póstumo de Vladimir Nabokov, que o filho Dmitri decidiu publicar, em 2008, à revelia da vontade paterna (esperemos que a edição inclua o fac-símile das 138 fichas de cartolina originais). Antes, a 5 de Junho, dois livros prometedores: A Cidade Ausente, de Ricardo Piglia (autor de O Último Leitor); e O Escriturário Indiano, de David Leavitt, «história verdadeira da relação entre G.H. Hardy, professor inglês e um dos maiores génios da história da matemática, e S. Ramanujan, um escriturário indiano que era também um matemático genial mas de gestação espontânea».

CAM online

O precioso espólio do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian já pode ser visto na Internet. Aqui.

Depois do ‘Caderno’, os ‘Cadernos’

José Saramago deixou de escrever posts no seu blogue, mas a presença do Nobel na blogosfera não esmorece. Fechado o Caderno que já deu dois livros (este e este), abrem-se os Outros Cadernos de Saramago, onde «irão aparecendo anotações ou fragmentos já acabados das várias obras», mas «também poemas ou breves reflexões escritas no caminho» e «declarações que o nosso autor um dia proferiu e que o explicam e nos explicam».

Hotel Cervantes

Fica numa rua do centro de Montevideu e aparece em dois contos de Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Lá dentro, a misteriosa porta do quarto 205.

A ‘longlist’ do Prémio PT de Literatura

Os semifinalistas de um dos principais prémios literários atribuídos no Brasil foram anunciados no passado fim-de-semana, no Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro. Dos 54 candidatos, quatro são portugueses: José Saramago (Caim), António Lobo Antunes (por duas obras: O meu nome é legião e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?), Mário Cláudio (Boa noite, Senhor Soares) e Maria Teresa Horta (Poemas do Brasil). Do contingente lusófono não-brasileiro fazem ainda parte Ondjaki (Avó dezanove e o segredo do soviético), José Eduardo Agualusa (Barroco tropical) e Mia Couto (Antes de nascer o mundo; ou seja, Jesusalém).
Entre os brasileiros, contam-se nomes como os de Rubem Fonseca (O seminarista), João Ubaldo Ribeiro (O albatroz azul), Milton Hatoum (A cidade ilhada), Chico Buarque (Leite derramado), Luis Fernando Veríssimo (Os espiões), Bernardo Carvalho (O filho da mãe), Luiz Ruffato (Estive em Lisboa e lembrei de você), Lourenço Mutarelli (Miguel e os demônios), Carlito Azevedo (Monodrama) ou José Mindlim (No Mundo dos Livros).
A lista completa pode ser consultada aqui. Em Agosto, será divulgada a shortlist de dez finalistas. Finalmente, a 8 de Novembro, ficaremos a conhecer os três livros vencedores. O terceiro classificado receberá 15 mil reais (6.800 euros); o segundo 35 mil reais (15.900 euros); e o primeiro 100 mil reais (45.700 euros).

Site da Planeta

Novinho em folha. Elegante. Funcional. Aqui.

O que aí vem (Dom Quixote)

Em Junho, a Dom Quixote, que adquiriu os direitos de todos os livros de Herta Müller, publicará o mais recente romance da Prémio Nobel de Literatura 2009: Tudo o que Tenho Trago Comigo. Maria do Rosário Pedreira estreia-se na sua função de editora transversal da LeYa para os novos autores portugueses, apadrinhando o romance A Vida Verdadeira, de Vasco Luís Curado. Haverá ainda livros antigos de autores da Dom Quixote, só agora integrados no catálogo da editora, como Benjamim, de Chico Buarque; Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, de Richard Zimler; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; ou O Complexo de Portnoy, de Philip Roth. No campo do ensaio, estão previstos dois títulos: A Queda da Monarquia, de Maria Filomena Mónica, e Pina Bausch, de Cláudia Galhós.

Tudo o Que eu Tenho Trago Comigo

A Vida Verdadeira

O Complexo de Portnoy

Basebol, lixo e bombas nucleares

Terminada a leitura de Submundo, confirmo a minha queda por romances de grande fôlego. E sim, depois do que se passou com o Bolaño, também me apetece chamar uns quantos nomes ao sr. DeLillo.

Voltas finais

Chegar à página 800 de um romance com 840 é como sentir sob os pés o tartan do estádio no fim da maratona olímpica. Com uma diferença: os maratonistas anseiam pela meta.

Tarde no parque

A Feira do Livro parecia a Expo’98 nos dias mais concorridos. Um mar de cabeças para cima e para baixo, encontrões, gincanas humanas, cachos de gente em volta de cada stand. Lá do alto do Parque Eduardo VII, as multidões em marcha pareciam um hino à cultura, uma negação dos discursos mais catastrofistas. Até que alguém me disse baixinho: «Olha bem para as pessoas e conta quantas carregam sacos com livros.» Pois é. «Em vez de irem para os centros comerciais, as pessoas vêm para aqui. O que é bom. Mas o princípio é o mesmo: circulam, circulam, circulam, mas são poucas as que compram.»

Uma árvore de folha perene

Que nome dar à Book Tree? António Ferra sugere bibloleira. A mim parece-me bem.

Ironias da Internet

Quando o Daniel Sampaio me pede para ser seu amigo no Facebook, o adolescente que há em mim hesita.

Debates

Quinta-feira, ao princípio da noite, na ETIC:

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Da esquerda para a direita: Afonso Cruz, eu, Nuno Artur Silva, Maria João Freitas (a moderadora), Cláudia Clemente e Jaime Bulhosa. À esquerda do Afonso, estava o António Jorge Gonçalves; à direita do Jaime, o Eduardo Salavisa e o Ricardo Miranda (publicitário). As fotos dos ausentes, e outras que fazem justiça à desfocada Cláudia, podem ser vistas aqui.

Ontem à tarde, no auditório da APEL (Feira do Livro de Lisboa):

poesiaXXI

Da esquerda para a direita: Margarida Vale de Gato, eu, Tatiana Faia e Luís Filipe Cristóvão. Clicar na foto para aumentar.

Teaser

Este sábado, no suplemento Actual do Expresso, será publicada a entrevista que fiz a Martin Amis sobre A Viúva Grávida, o seu mais recente romance, lançado quase em simultâneo no Reino Unido e em Portugal. Eis uma pequena amostra:

Keith, o protagonista, tem uma manifesta dificuldade em lidar com o processo de envelhecimento.
Conhece alguém que não tenha?

Eu, por exemplo, não tenho. Mas talvez seja demasiado novo (38 anos).
Nesse caso, prepare-se. Vai ter uma surpresa muito desagradável. Acredite.

Fale-me dessa surpresa que me espera.
Só posso falar do que se passou comigo. Nunca supus que fosse tão humilhante. E também tão cómico, num certo sentido. É uma daquelas experiências que você, aos 38 anos, não pode compreender completamente. Experimente reler o livro quando tiver 60 anos. Algumas das coisas só se tornarão nítidas quando as experimentar por si mesmo.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Arte de Morrer Longe, de Mário de Carvalho (Caminho), por Luísa Mellid-Franco
As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi, de Arto Paasilinna (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Declínio e Queda, de Evelyn Waugh (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Temor e Tremor, de Soren Kierkegaard (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Alfredo da Silva e Salazar, de Miguel Figueira de Faria (Bertrand), por J. F. Palma-Ferreira
Atalhos de Portugal, de Rui Cardoso (By the Book), por Paulo Paixão

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

O Gerânio, primeira edição completa dos contos dispersos de Flannery O’Connor (traduzidos por Luís Coimbra).

Eleições literárias

Quais são as melhores descrições de processos eleitorais em livros de ficção? No The Guardian, John Mullan escolheu dez. Há Shakespeare (Coriolanus), há Dickens (The Pickwick Papers, recentemente publicado pela Tinta da China), há George Eliot (Middlemarch), há Henry James (The Tragic Muse). E há também Saramago (Seeing, tradução de Ensaio sobre a Lucidez).

Feira do Livro do Porto muda de lugar e de datas

Acabei de saber que a Feira do Livro do Porto, que tinha início marcado para 27 de Maio e fecho a 13 de Junho, na Avenida dos Aliados, acontecerá afinal de 1 a 20 de Junho, na Rotunda da Boavista.

Nota: este post foi sofrendo actualizações sucessivas.

Na penumbra da oficina

O livro do sapateiro
Autor: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-972-20-3971-0
Ano de publicação: 2010

Quatro anos após Analogia e Dedos (Oceanos), livro em que retratou – ora com paixão, ora com ironia – uma galeria de figuras históricas e personagens literárias, Pedro Tamen regressa com um ciclo de 49 poemas que funcionam como um jogo musical de tema e variações, sendo o tema a poderosa imagem de um sapateiro que se entrega ao seu mister, cosendo solas e moldando o couro no interior de uma cave escura, talvez irmã da caverna platónica. Se a comparação entre este humilde operário «quase cego» e o poeta só se estabelece de forma explícita no poema 45, quando o primeiro se diz «acocorado como estava o escriba», o certo é que o livro no seu todo se organiza como uma arte poética que busca no esforço e sacrifício do sapateiro um exemplo e uma espécie de ética da criação.
Preso ao «curto escabelo», ele exerce uma «arte calada / de entre cordeiro e leão», fazendo «do sapato / acto» e transformando «o nada que era / no tudo que será». Sempre na primeira pessoa, explica o seu trabalho, o cuidado posto em cada gesto, esse esmero que torna a ferramenta «leve sendo chumbo». E mostra-nos, em grande plano, a mão com os seus «dedos martelados» e unhas sujas, mão «mordida» onde «os pregos doem». É ela, afinal, a ponte entre o mundo de silêncio, negrume e solidão da cave e essa outra realidade que há-de receber a obra feita, a forma em que o sapateiro se revê, imaginando o «impalpável» pé que lhe dará uso e sentido (como o leitor ao ler o poema). Por vezes há sons – um violino cigano ao longe ou «o roçagar das nuvens» – que permitem adivinhar os mistérios exteriores. Outras vezes alguém traz lá de fora «a liberdade elástica do ar», despertando no sapateiro a inveja do «vento azul dos montes» e o sonho de recuperar a «giesta» ou «um gosto de cerejas» na boca. Mas é só ao tocar a pele curtida de animais que um dia viveram livres na natureza que se dá a «lírica explosão» e então «as pastagens verdes irrompem nesta cave / e tudo se ilumina num sol que não está cá».
Tal como o sapateiro se projecta nos sapatos que saem das suas mãos, Tamen projecta-se no sapateiro. E fá-lo com a destreza verbal do costume. Coeso, compacto, com sólidas costuras, este livro é um hino à dignidade dos artesãos e ao brio de fazer, na «penumbra habitada» da oficina, as coisas bem feitas:

«neste perdido reduto
em que as mãos amadurecem
a peça que fugirá
das mãos dos que não merecem
para andar ao deus-dará
num universo de espanto

em que o amor vai curtido,
calado, surdo, tingido
de uma cor que é o sentido
da salvação que acalanto

– aqui me caio e levanto.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Poesia portuguesa em debate na Feira do Livro

Mais logo, a partir das 18h30, vou moderar um debate sobre «A Poesia Portuguesa no Séc. XXI», no Auditório APEL da Feira do Livro. Participam Margarida Vale de Gato (tradutora que acaba de lançar o seu primeiro livro de poesia, Mulher ao Mar, na Mariposa Azual), Luís Filipe Cristóvão (poeta, editor, livreiro e blogger) e Tatiana Faia (poeta, blogger e responsável pela revista Ítaca). Apareçam.

Independent Foreign Fiction Prize para Philippe Claudel

O escritor francês acaba de ser distinguido por Brodeck’s Report (MacLehose Press), a tradução inglesa do romance Le Rapport de Brodeck. Philippe Claudel dividirá o prémio, no valor de dez mil libras, com o tradutor John Cullen.
A edição portuguesa, intitulada O Relatório de Brodeck, foi publicada pela ASA em 2009.

Da beleza

«Fazei coisas belas, mas, sobretudo, tornai as vossas vidas lugares de beleza.»
Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, no encontro com intelectuais portugueses no CCB, dia 12

«até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza»
Herberto Helder, poeta português que não esteve no encontro com Bento XVI, in A faca não corta o fogo – súmula & inédita (Assírio & Alvim, 2008)

Livro do dia

O melhor antídoto anti-Fátima. À venda no stand da Antígona.

Uma resposta para Fortinbras

O autor do blogue Máscara&Chicote leu a minha crónica na revista Ler, sobre o último livro de Joaquim Manuel Magalhães, e depois escreveu o seguinte:

«(…) chamaram-me a atenção para um texto de José Mário Silva publicado na Ler deste mês sobre Um Toldo Vermelho do Peter Sutcliffe da poesia portuguesa. Passo a citar um pequeno excerto:
“Tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas, como se nunca tivesse ouvido falar de Joaquim Manuel Magalhães. O resultado foi avassalador. Esta é uma poesia da rasura e da cesura, um magnífico mecanismo verbal que torce a linguagem até ao limite e nos agride, mas que não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita.”
Se a primeira frase fosse apenas “Tentei ler Um Toldo Vermelho às cegas” eu até achava normal dizer que, neste livro, Joaquim Manuel Magalhães “não abdica da beleza, antes a procura nas linhas de fractura da própria escrita”. Eu próprio li Um Toldo Vermelho com os olhos vendados, um fato de treino cor-de-laranja vestido e rodeado por dois terroristas afegãos com dois cutelos apontados ao meu pescoço e confesso que me pareceu um livro fantástico. Nas vezes que o li sem ter os olhos vendados apenas me pareceu uma tentativa mal sucedida de escrever coreano em português.
Há cerca de uma semana descobri um papel no meu quarto onde tinha rabiscado uma espécie de crítica a Um Toldo Vermelho, depois de ter ingerido quatro copos de Glenlossie. Reparei que lhe tinha dado uma nota média da minha escala. Ao lado, na mesma folha, deparei-me com outra crítica, desta vez à lista de compras da minha irmã num supermercado vegetariano, que foi classificada com uma das notas mais elevadas da minha escala. Ou seja, quero saber que espécie de whisky é que José Mário Silva anda a consumir, porque quero pedir ao meu patrão para mandar vir duas ou três garrafas disso.
A sério, eu concordo com grande parte das afirmações de José Mário Silva. O resultado é, de facto, “avassalador”. É, realmente, “uma poesia de rasura e cesura”. Também é verdade que “torce a linguagem” e que “nos agride”. Agora daí a juntar todas estas considerações num mesmo parágrafo e, ainda por cima, com um elogio estético, é que eu não consigo. E não fui só eu, o António Guerreiro e o Francisco Vale também não.»

Como o Fortinbras quer saber que espécie de whisky é que eu ando a consumir, não posso desiludi-lo. Ou melhor, vou desiludi-lo à mesma, porque a verdade é muito mais assustadora do que se confessasse que me embebedei com uma caixa de Bunnahabhain antes de ler Um Toldo Vermelho. A verdade é que ando a consumir leite meio-gordo da Mimosa. Sim, esse mesmo, o dos pacotes verdes. Ou seja, a culpa é dos dois terroristas afegãos.

As maiores bibliotecas do mundo

Da antiguidade ao presente, eis uma lista das maiores bibliotecas do mundo, muito apropriadamente sugerida por um site chamado Finding Dulcineia.

Sete contadores de histórias à volta de uma mesa

Logo à tarde, a partir das 19h00, o espaço Atmosferas da ETIC (Rua da Boavista, 67, Lisboa) acolhe uma conferência sobre story-telling, organizada pelo Clube de Criativos de Portugal. Participam Nuno Artur Silva (argumentista, escritor e director das Produções Fictícias), Afonso Cruz (escritor/músico/ilustrador), António Jorge Gonçalves (autor de BD e ilustrador), Cláudia Clemente (cineasta e escritora), Eduardo Salavisa (desenhador), Jaime Bulhosa (livreiro) e José Mário Silva (este que se assina). A moderadora será Maria João Freitas, directora da revista (agora online) Alice. Apareçam.

Maravilhas da paternidade

A pouco e pouco, o Pedro vai alargando e corrigindo o seu léxico botânico. Já diz macieira em vez de maçãzeira, nogueira em vez de nozeira. No outro dia, perguntou-me se eu sabia o nome da árvore que dá o vento. É a venteira, claro. Quanto à árvore que tem livros no lugar dos frutos, não podendo chamar-se livreira, que nome se lhe dará? Não sei. Por mero acaso, no blogue literário da revista New Yorker encontrei um exemplar de tal espécie, fotografado numa aldeia suíça:

Em inglês é fácil: chamam-lhe Book Tree e já está. Mas em português? Tenho de perguntar ao Pedro.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges