Convite para uma aniquilação

O Original de Laura
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Telma Costa
Editora: Teorema
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-972-695-907-6
Ano de publicação: 2010

Há muito tempo que um livro não era tão comentado e questionado como este O Original de Laura, manuscrito inédito de Vladimir Nabokov que o filho, Dmitri, decidiu publicar no final de 2009, contrariando ostensivamente a vontade do autor de Fogo Pálido. Antes de morrer em Montreux, aos 78 anos, Nabokov exigiu a destruição do livro em que estava a trabalhar, caso este ficasse incompleto. Há mesmo uma folha, deixada junto às 138 fichas escritas a lápis que compõem o texto (felizmente também fac-similadas na edição portuguesa), com uma lista de sete verbos bastante explícitos: «apagar, erradicar, suprimir, anular, delir, limpar, obliterar». Em inglês, soa ainda mais forte: «efface, expurge, erase, delete, rub out, wipe out, obliterate».
Acontece que os testamentos dos escritores, como assinalou Milan Kundera, estão condenados a ser traídos. A viúva de Nabokov, Vera, que já salvara Lolita do incinerador umas décadas antes, recusou-se a queimar o trabalho do marido. Em vez disso, fechou-o no cofre de um banco suíço e deixou a decisão para o filho. Alguns anos após a morte da mãe, Dmitri parecia inclinar-se para o cumprimento da vontade paterna, mas acabou por autorizar a publicação do texto tal e qual, mesmo sabendo que este se encontrava num estado muitíssimo embrionário. A verdade é esta: se Nabokov e Kafka quisessem mesmo destruir as suas obras, tê-lo-iam feito por si mesmos. Ao delegar em Vera e Max Brod, a traição de que fala Kundera estava como que implícita.
Curiosamente, no esboço de narrativa que podemos encontrar em O Original de Laura, o tema central é a aniquilação. Não do próprio livro inacabado, como Nabokov desejava, mas do protagonista: Philip Wild, um professor de Psicologia Experimental, gordíssimo, incapaz de lidar com a promiscuidade sexual da mulher e atraído pela ideia do «suicídio feito prazer». Numa longa sequência de transes hipnóticos auto-induzidos, ele vai apagando partes do corpo (a começar pelos dedos dos seus pés «ridiculamente pequenos»; depois por aí acima, até ao umbigo) e descobrindo o maior dos êxtases nessa dissolução virtual, um êxtase que aos poucos vai sendo contaminado pela «ansiedade» e pelo «pânico». Segundo o narrador, esta forma de «cortejar» a morte pode ser «atípica», mas impunha-se ser contada «em honra da sua estranha lógica».
Como se depreende da introdução escrita por Dmitri, as tribulações físicas imaginárias de Wild reflectem o sofrimento real de Nabokov nos últimos anos de vida, o que confere a estas passagens uma carga quase metafísica, na desesperada tentativa de dar um sentido à consciência do fim próximo. Quanto a Flora, mulher de Wild e seu «objecto de terror e ternura», é uma beldade que aos 12 anos já despertava os instintos carnais do amante da mãe (chamado Hubert H. Hubert, piscadela de olho ao Humbert Humbert de Lolita). Aparentemente, o seu desígnio é humilhar Wild, que a vê transformada em Laura, a heroína adúltera do romance escrito por um dos muitos namorados ocasionais, «homem de letras neurótico e hesitante».
Pulsão de morte, ninfetas, sexo, livros dentro do livro, eis um território tipicamente nabokoviano. O problema é a escrita: sem brilho, quase sinóptica, muito em bruto. Há alguns bons fragmentos (por exemplo, a descrição da anatomia de Flora, com os seus «mamilos pálidos e estrábicos»), ocasionais rasgos de génio e pelo menos uma cena memorável (em que Philip dificulta o trabalho ao criado que o veste todas as manhãs), mas o tom geral é cinzento e a escrita desconjuntada, amorfa, quase banal. Nabokov era um perfeccionista que burilava estilisticamente os seus textos até à perfeição. Lê-lo assim, num estádio tão precoce do seu elaborado processo criativo e tão distante do que seria a obra final, não deixa de constituir uma violência.

PS – O fac-símile das 138 fichas manuscritas é o que salva esta edição e a torna algo mais do que uma curiosidade para fãs absolutos do escritor russo. À Teorema, agradece-se a qualidade do papel e das reproduções, que permitem apreciar a caligrafia cuidadosa e muito legível de Nabokov, bem como os seus erros ortográficos, as suas emendas e rasuras, os acrescentos e rectificações, enfim, o texto enquanto work in progress. Por outro lado, o facto de ser tão fácil cotejar o original com a versão portuguesa deixa Telma Costa em maus lençóis, porque rapidamente percebemos que a tradutora compromete (se não sempre, quase sempre) a musicalidade e elegância das poucas frases deste livro que são dignas do seu autor.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Ortografias

Há cerca de uma semana, o Expresso passou a adoptar o Acordo Ortográfico e tenho a dizer que ainda não me refiz do choque. Incapaz de escrever «objectivo» sem ‘c’ ou «excepções» sem ‘p’, deixei os ajustes ortográficos ao FLIP, que varre com esmero as prosas impuras antes de elas entrarem em página. Ainda assim, é muito estranho passar os textos a pente fino, durante o fecho do jornal, e ser forçado a reprimir o impulso de corrigir a grafia abstrusa de certas palavras, porque de súbito essa grafia é a norma (e abstrusos, ao que parece, somos nós, os que mostramos relutância em aceitar o Acordo).
Depois do esforço (falhado) de assimilação das novas regras, cheguei a casa e pus-me a ler o romance Flores Azuis, da brasileira Carola Saavedra (Livros de Seda). E que vejo? Nem mais nem menos do que uma rectificação ortográfica completa do Português do Brasil para o Português de Portugal. Quer isto dizer que no jornal me obrigam a escrever «objectivo» sem ‘c’, mas depois esse ‘c’ desaparecido em combate reaparece onde não devia: ou seja, no livro de Carola, que dispensa bem o dito ‘c’, antes ou depois do Acordo.
Alguém me diz se isto faz algum sentido? Não faz, pois não?

Grande Prémio do Conto APE para Afonso Cruz

O escritor Afonso Cruz (também conhecido pelas suas facetas de músico e ilustrador) acaba de ganhar, com toda justiça, a edição deste ano do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, promovido pela Associação Portuguesa de Escritores com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. O prémio de 7.500 euros foi atribuído por unanimidade ao livro Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal). Do júri fizeram parte Clara Rocha, José António Gomes, José Ribeiro Ferreira e Fernando Miguel Bernardes (coordenador).
Sobre a obra vencedora, destacada no meu balanço de 2009, escrevi o seguinte: «Com a sua inabalável lógica interna e os seus requintes estilísticos, esta Enciclopédia da Estória Universal é para mim o mais divertido, surpreendente e estimulante dos livros de ficção publicados este ano por autores portugueses.» Pelos vistos, não exagerei.

Apresentação de ‘A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa’

Amanhã, a partir das 18h00, será apresentado na Casa Fernando Pessoa «um livro especial que traz todos os livros da biblioteca privada de Pessoa – e os manuscritos que esses livros contêm». É o volume A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa (Dom Quixote), de Jerónimo Pizarro, Patricio Ferrari e Antonio Cardiello.

Maravilhas da paternidade

O Pedro, triste, depois da derrota de Portugal: «Há um dia que o Sporting vai ganhar, não é?»

Desafios do dia

15h00: Guido Rodríguez Alcalá – Junichiro Tanizaki
19h30: Ramón Gómez de la Serna – Mário Cesariny

‘Principezinho’ no cabeçalho do Google

Para comemorar o 110.º aniversário do nascimento de Antoine de Saint-Exupéry, o mais utilizado dos motores de busca criou um banner que estará na página de entrada do site durante o dia de hoje:

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Deuses e Heróis, de Matthew Reinhart e Robert Sabuda; Cid, de João Paulo Cotrim e Augusto Cid; O Hipopótamo de Deus e outros textos, de José Tolentino Mendonça; O Pajem Formidável dos Indícios, de Alberto de Lacerda; Às Sete no Sa Tortuga – um retrato de Alberto de Lacerda, de Luís Amorim de Sousa; Verso e Prosa, de Mário de Sá-Carneiro; As Novas Mil e Uma Noites, de Robert Louis Stevenson; Os Melhores Contos do Padre Brown, de G. K. Chesterton.

Coisas do Facebook

X ou Y ou Z «sugeriu que gostes de José Saramago». É caso para dizer: obrigadinho, mas não era preciso. É que eu já gostava de José Saramago quando a World Wide Web ainda não tinha sido criada.

Desafios do dia

15h00: Willem Frederik Hermans – Jozef Cíger-Hronský
19h30: Nelson Rodrigues – Francisco Coloane

Três poemas de Maria Andresen

SOBRE UM FILME DE JOÃO CÉSAR

Mais tarde naquela praia estaria, vindo do mar
um pária

por agora – contra o mar, a ânfora,
a tua ânsia
a recusa dela
Senhora, ofereça-me o seu frágil passo
em falso
o pé da rosa
o pé de salsa
porque eu sei dos peixes
do fio de sangue no mármore da banca
eu sei dos pássaros e do voo que levantam
junto ao cais
eu sei do amanhado anho – Eu sou

e persistia ela: como Eu sou, Eu sou, e estou
outro modo não sei: vestal do sol

e Eu: que lugar frágil, vulnerável foi o seu, assim se vê agora
«Les rois ne touchent pas aux portes», escreveu Ponge
desconhecem o prazer de as tomar nos braços

***

PAISAGEM SIBERIANA COM COMBOIO E BÉTULAS AO FUNDO

Agora o comboio arfa
porque ele cambaleia e tropeça
de obstinação e pressa

bate em meu ouvido à razão do passo
da batida

há uma planície de bruma debruada
por uma branca
floresta de bétulas, ao fundo

imaginamo-las cogitando: o comboio é
uma obstinação que passa
uma febre cobrada por olhos parasitas

um homem passa a cavalo como um ogro
a sua estatura é do tamanho

do que não encontra
se bem que não o diga

***

NUMA NOITE DE AGOSTO SOBRE A RIA DO ALVOR
(à Elizabeth Enders e à Lena Abreu)

Gritam grilos na noite serrilhada, cosidos a ela
como lantejoulas

gritam grilos como as estrelas
no infinito imaginado:

a invisibilidade dos números
faz os brilhos

um gato passa no seu passo lento e fino
um gato temerário que me fita

um comboio corta a noite correndo
pelo som que faz
o romper do ar que há na sua voz
na sua voz

Velocidade é tempo e o comboio é a sua
mais perfeita imagem

– tudo o que corre ocorre no sentido inverso
à marcha do comboio

no sentido inverso à terra, ao seu relógio,
pois que a velocidade é tempo e o comboio

é dela a mais perfeita imagem
Os comboios que eu amo não sabem de onde vêm

perdem-se na noite e refocilam como portentosos sonhos
e pelos campos espalham uma quimérica limalha

dispersam-na e refocilam, portentosos bisontes
pois que algo no comboio livremente o toma

como as obstinações, a febre
e porque é febre a pressa que o acirra

[in Lugares, 3, Relógio d’Água, 2010]

Maravilhas da paternidade

«Ó pai, tu és directamente lindíssimo», diz o Pedro. E eu derreto-me com o advérbio, até porque nem peço tanto: um «indirectamente bonito» já me satisfaria. Não se pense, contudo, que tenho o monopólio dos superlativos do Pedro. Logo a seguir, acrescentou: «A mãe também é directamente lindíssima, a mana também é directamente lindíssima e eu também sou directamente lindíssimo. Somos todos directamente lindíssimos.»

Desafios do dia

15h00: Johann Wolfgang von Goethe – William Shakespeare
19h30: Ernesto Sabato – José Emilio Pacheco

Carlos Fuentes sobre Carlos Monsivais

«En 1970, estrené una obra mía, El tuerto es rey, en el teatro An-der-Wien de la capital austriaca. Monsiváis, hilarante, me dijo en el intermedio que había en la sala dos o tres espías del presidente Gustavo Díaz Ordaz porque el mandatario imaginaba que el título se refería a él. Típico error de la presunción política, que causó una risa incontenible cuando se lo conté a la actriz María Casares y al director Jorge Lavelli. Con mi amiga Caroline Pfeiffer, que era representante de gente de teatro y cine, viajamos a Italia y presenciamos la filmación de La muerte en Venecia de Thomas Mann. Dirigía Luchino Visconti y, después de saludarlo, Monsiváis miró al Adriático y prometió no lavarse más la mano. Seguimos a Milán, donde una confusión enredó a Carlos con una manifestación de comunistas, y a París, donde lo invité a vivir en el apartamento que yo ocupaba en la Isla St. Luis. Juntos fuimos, guiados siempre por Caroline, a la casa de campo de Alain Delon, quien nos sentó dos días a ver el Mundial de fútbol en la tele y, de regreso a París, fuimos juntos también a visitar a Pablo Neruda en el hotel del Quai Voltaire.
Neruda estaba en cama, empijamado, fatigado tras asistir al entierro de Elsa Triolet, la mujer de Louis Aragon. La conversación Neruda-Monsiváis fue muy singular.
-¿Cómo se encuentra? -le preguntó Neruda a Monsiváis.
-Sucede que me canso de ser hombre -contestó Carlos.
Al principio, Neruda no registró la cita.
-¿Y qué hace en París? -continuó Pablo.
-Juego todos los días con la mar del universo. -Citó Monsiváis, y Neruda, cayendo en el juego, se rió y decidió continuarlo, hasta la pregunta a Carlos:
-¿Y que escribe ahora?
-Los versos más tristes.
-¿Cuándo?
-Esta noche.
Ingenio rápido, cultura profunda, mirada penetrante, referencia oportuna, melancolía escondida, regocijo siempre.
¡Qué falta nos harán todas estas características del grande y único Carlos Monsiváis!»

O artigo completo, publicado no suplemento Babelia do El País, pode ser lido aqui.

Desafios do dia

15h00: Horacio Quiroga – Yun Hu-myong
19h30: Thomas Pynchon – Pak Abogaye

Registo

Ontem, li seis páginas de O Ano da Morte de Ricardo Reis (da 85 à 90, na minha edição: a 8.ª, de 1986) na maratona saramaguiana que começou ao meio-dia na Casa Fernando Pessoa. Às três da tarde, com Portugal a jogar contra o Brasil na África do Sul, estavam na sala 35 pessoas (33 eram mulheres).
A última frase da minha leitura, logo após um momento de embaraço entre Ricardo Reis e Lídia (a empregada que lhe leva o pequeno-almoço ao quarto), foi esta: «São assim os labirintos, têm ruas, travessas e becos sem saída, há quem diga que a mais segura maneira de sair deles é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana.»

Saul Williams

Ontem à noite, um furacão humano passou pelo Music Box. Felizmente, ao invés do que aconteceu com o Katrina, os relatos dos sobreviventes (entre os quais me incluo) são de júbilo. Um homem, um microfone, dezenas de pessoas a ouvir – não foi preciso mais nada. Às tantas, Williams, que já tinha falado dos gregos e de Homero e da tradição oral, resumiu: «No tempo dos iPhones e dos iPads, e da Internet e do Facebook, é bom estarmos aqui, cara a cara, a fazer uma coisa tão antiga

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Cidade Ausente, de Ricardo Piglia (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Diálogos para o Fim do Mundo, de Joana Bértholo (Caminho), por José Mário Silva
O Escriturário Indiano, de David Leavitt (Teorema), por Luís M. Faria
Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida (Sextante), por António Loja Neves
Um Cientista Português no Coração da Alemanha, de José Pedro Castanheira (Tenacitas), por Ricardo Marques
O Desenho das Termas – História da Arquitectura Termal Portuguesa, de Helena Gonçalves Pinto e Jorge Mangorrinha (Ministério da Economia e da Inovação), por José Manuel Fernandes
O Essencial Sobre a Esquerda Radical, de Miguel Cardina (Angelus Novus), por Rui Cardoso

Desafios do dia

15h00: Herberto Helder – Ferreira Gullar
15h00: Hong Myong-Hui – Isaïe Biton Koulibaly
19h30: Pablo Neruda – Federico García Lorca
19h30: Hermann Hesse – Eduardo Bähr

Conversas do silêncio: François Vallejo

Logo à noite, a partir das 21h00, estarei à conversa com o escritor François Vallejo, autor do romance Incêndio no Chiado (Quetzal), no auditório do Instituto Franco-Português. Uma iniciativa do Festival Silêncio!.

Leitura de ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ na Casa Fernando Pessoa

É hoje, a partir do meio-dia. A abrir a maratona, Pilar del Río, viúva de José Saramago. Entre outros leitores anónimos, está prevista a presença dos seguintes escritores: Leonor Xavier (12h30), José Luís Peixoto (14h00), António Mega Ferreira (14h30), eu (15h00, mas provavelmente estarei lá mais cedo), Guilherme d’Oliveira Martins (15h15), Ana Maria Martinho (15h30), Patrícia Reis (15h45), Hélia Correia (18h00), Jaime Rocha (18h30), Nuno Júdice (19h00), Luísa Costa Gomes (19h30), António Carlos Cortez (20h30), Gonçalo M. Tavares (21h30) e ainda Fernando Pinto do Amaral, Clara Pinto Correia e Maria do Céu Guerra.

Acordo Ortográfico nas escolas

No ano lectivo 2011-2012, as escolas já irão dispor de manuais redigidos segundo as normas do novo acordo ortográfico, assegura o Ministério da Educação (ME).

Desafios do dia

15h00: Helio Vera – Lloyd Jones
15h00: Ivan Krasko – Cesare Pavese
19h30: Jean Ikellé-Matiba – Gerrit Komrij
19h30: Jens Christian Grøndahl – Haruki Murakami

O que aí vem (Teorema)

Geração A, de Douglas Coupland; Unha com Carne, de Elmore Leonard; Os Pavões de Gori, de Filomena Cabral; e Animais Tristes, de Jordí Ponti. Em Julho.

Desafios do dia

15h00: William Faulkner – Kateb Yacine
15h00: Jože Javoršek – Charles Dickens
19h30: David Malouf – Zoran Živković
19h30: Ayi Kwei Armah – Herta Müller

Conversas do silêncio: Viegas e Manguel

Logo à noite (21h00), Francisco José Viegas conversará com Alberto Manguel no Instituto Franco-Português. Mais uma conversa entre escritores no Festival Silêncio!. Antes, às 18h30, Viegas lança um livro infantil que é «uma conversa sobre “geografia do mundo”»: Se eu fosse nacionalidades (Booksmile), com ilustrações de Rui Penedo. É na Fábrica dos Pastéis de Belém, com apresentação de Carla Maia de Almeida.

Lançamento do documentário ‘&Etc’

etc

O interessantíssimo (mas muito breve) filme de Cláudia Clemente, agora editado em DVD pela Midas, será apresentado logo à tarde (19h00) na Fnac do Chiado, com a presença da autora e de Paulo da Costa Domingos.
Eis um excerto:

& etc from claudia clemente on Vimeo.

Eis o tipo de previsão que geralmente falha

Segundo Umberto Eco, «os livros electrónicos não vão durar 10 anos».

Desafios do dia

15h00: Carlos Monsivais – Eduardo Galeano
15h00: Jacques Lacan – André Brink
19h30: Chimamanda Ngozi Adichie – Lee Cheong-jun
19h30: Yiannis Ritsos – Adolfo Bioy Casares

Carlos Monsivais (1938-2010)

José Saramago não foi o único grande escritor de esquerda a desaparecer nesta semana aziaga. Um dia depois (sábado), morria também Carlos Monsivais, um dos mais talentosos cronistas do México contemporâneo. Obituário de Miguel Angel Gutiérrez, aqui.

Afonso Cruz no Brasil

A LeYa Brasil vai editar em breve a novela juvenil Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, sobre a qual escrevi aqui.

Tiago Guillul, o verdadeiro profeta

Onde se ouve «São Sete Voltas P’rá Muralha Cair» oiça-se «São Sete Golos P’rá Coreia Ruir».

A guerra dos e-readers

Vai ser uma longa guerra, com muitas batalhas entre gadgets cada vez mais sofisticados e baratos. Lutas corpo-a-corpo, preço-a-preço. Para já, como forma de combater o poderio comercial e mediático do iPad, a Barnes & Noble e a Amazon decidiram baixar drasticamente o custo dos seus e-readers: Nook e Kindle, respectivamente.

‘Curso Intensivo de Jardinagem’ num minuto

É uma reportagem de Filipa Leal, incluída no programa Câmara Clara (versão diária), exibido fora de horas na sexta-feira passada, por causa da morte de Saramago. Começa aos 03’28”.

Colm Tóibín: “A página não é um espelho”

Lá fora já escureceu. A noite esconde a lezíria. As janelas tornaram-se espelhos. Ao fundo da carruagem, o mostrador electrónico do Alfa Pendular informa que nos dirigimos para Lisboa a 193 quilómetros por hora. Apesar da longa jornada, Colm Tóibín não parece minimamente cansado. O porco preto servido ao jantar por um diligente e bem-humurado funcionário da CP não o entusiasmou, ao contrário do vinho tinto alentejano. Seria de esperar pelo menos uma certa languidez pós-prandial, mas o autor de O Mestre parece imune a quaisquer quebrantos. «Quando viajo estou sempre atento a tudo e o contacto com outras pessoas enche-me de energia», diz, antes de se ajeitar na cadeira para uma conversa que tanto pode durar 20 minutos como 50 (durou 50).
Cinco horas antes, Tóibín, considerado um dos melhores escritores irlandeses da actualidade (juntamente com Seamus Heaney, John Banville ou Roddy Doyle), tinha falado para uma sala cheia de alunos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Com um ar tímido, rugas fundas a atravessarem-lhe a testa de lado a lado, olhos postos num lugar para lá da última parede, dissertou sobre uma genealogia de romances com mulheres como protagonistas, de Jane Austen ao seu último livro, Brooklyn, uma história de emigração que o levou a uma outra linhagem ficcional, a dos autores irlandeses que escreveram sobre a diáspora, o exílio e o sempre difícil regresso a casa, muitos anos após a partida. Com tarimba de professor, Tóibín nunca perdeu o fio ao raciocínio, mesmo quando evocou Cézanne para explicar a forma como Hemingway criava texturas narrativas nos seus textos. Além de uma defesa do ritmo e da atenção aos detalhes, como instrumentos essenciais do romancista, deixou no ar uma ideia curiosa: «A mim não me interessam as figuras que estão no centro da fotografia, os rostos reconhecíveis, a história oficial. Interessa-me o que está na margem, quase a sair de campo, o cotovelo meio desfocado de alguém que já está fora do enquadramento. É sobre o cotovelo meio desfocado que eu quero escrever.»
À saída da Faculdade, embarcámos numa visita-relâmpago ao centro do Porto. Tóibín já conhecia a antiquíssima livraria Lello, considerada há tempos pelo jornal The Guardian a terceira mais bonita do mundo, mas quis voltar. Faltavam cinco minutos para o fecho. Indiferentes aos avisos dos empregados, ainda subimos pela célebre escada ornamental, para logo a descermos, gabando-lhe as curvas, o brilho da madeira, as simetrias. Na secção de arquitectura, alguém lhe chama a atenção para uns álbuns com projectos de Álvaro Siza. Mas o que ele queria mesmo era uma fotobiografia de Fernando Pessoa, o poeta que comparou com Jorge Luis Borges e Flann O’Brien num ensaio recente. «Esgotado», foi a resposta ao pedido.
O desânimo, porém, não durou muito. Antes de nos dirigirmos a Campanhã, ainda parámos na Feira do Livro e lá estava, num dos stands montados na Avenida dos Aliados, o volume com imagens de Pessoa em várias idades, incluindo a do copinho goela abaixo em flagrante delitro. «Great», exclamou Tóibín, que ainda fez questão de dar uma volta quase completa à Feira. Já na estação, fumaram-se cigarros, improvisou-se uma sessão fotográfica e depois avançámos para a linha 8, onde o Alfa Pendular vindo de Braga não demoraria a passar. Uma hora e meia depois, a noite esconde a lezíria, as janelas tornaram-se espelhos e a luz vermelha do meu gravador acendeu-se.

Tóibín gosta tanto de comboios como odeia aviões. «Das primeiras vezes que deixei a minha aldeia, em direcção a Dublin, ia sempre de comboio, junto ao mar. Ainda hoje adoro viajar assim, por exemplo no percurso de uma hora entre Nova Iorque e Princeton, onde dou aulas.» Aliás, nem de propósito, a ideia para o seu primeiro romance (The South, 1990) ocorreu-lhe num comboio: «Um dia, vi subir para a minha carruagem uma mulher fora do vulgar, bem vestida, de uma certa idade e com um ar preocupado. Olhei para ela e imaginei que voltava a casa depois de um longo afastamento, estando o filho que não via há 20 anos à espera na estação. A cena está no livro, tal e qual.» Mas as coincidências não se ficam por aqui: este romance foi parcialmente escrito em Lisboa, num hotel do Rossio, onde Tóibín se fechou um mês a martelar a sua máquina de escrever, quase sem sair à rua. Quando saía, cruzava-se com «senhores de chapéu» que tinham uma tertúlia «num café ali perto» – o Nicola, quase de certeza. Passava-se isto nos anos 80, quando Tóibín trabalhava como repórter para várias publicações, muito na linha do new journalism americano. Desses tempos, o romancista guardou uma lição: «Ao trabalhar para jornais e revistas, aprendi que deves ter sempre presente que escreves para um leitor concreto.» Além disso, a escrita jornalística aguçou-lhe o estilo.
Sobre Brooklyn, explicou que a história andava com ele desde que a ouviu, aos 12 anos, contada pela mãe da protagonista. Mas só depois de começar a dar aulas nos EUA, e de sentir na pele as saudades da Irlanda, é que a pôde escrever como quem desenha a lápis, «traçando linhas simples, precisas, e fazendo sombreados». Mais do que o retrato de um lugar ou de um tempo, ele quis fazer «o retrato de uma psicologia». E sabe que a ficção não pode limitar-se a reflectir experiências, próprias ou alheias: «A página não é um espelho.» Ao contrário das janelas do comboio, penso eu, enquanto uma voz anuncia que o Alfa Pendular está prestes a chegar à Gare do Oriente.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Desafios do dia

12h30: José Saramago – Baek Sok
15h00: Gabriela Mistral – Blaise Cendrars
19h30: Javier Marías – Javier Abril Espinoza

Cinco poemas de José Saramago

PAISAGEM COM FIGURAS

Não há muito que ver nesta paisagem:
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.

***

PROTOPOEMA

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continua a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumurosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

***

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.

***

Aqui a pedra cai com outro som
Porque a água é mais densa, porque o fundo
Tem assento e firmeza sobre os arcos
Da fornalha da terra.
Aqui reflecte o sol, e tange à superfície
Uma ruiva canção que o vento espalha.
Nus, na margem, acendemos convulsos
A fogueira mais alta.
Nascem aves no céu, os peixes brilham,
Toda a sombra se foi, que mais nos falta?

***

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

[in Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970]

Da dignidade institucional (ou sua falta)

No jogo de hoje contra a Coreia do Norte, os jogadores da selecção portuguesa vão usar um fumo negro no braço, em memória de José Saramago. Quer isto dizer que até a Federação de Futebol, a nossa tão parola Federação de Futebol, revela maior consciência dos seus deveres institucionais (isto é, dos deveres associados a quem representa o país) do que o Presidente da República. Felizmente, não sou só eu que me escandalizo com a indiferença de Cavaco Silva, entretido a mostrar aos netinhos as belezas naturais dos Açores e incapaz de interromper as férias, como era sua obrigação. Dois comentadores políticos à direita (aliás, muito à direita) também consideram que este é um erro grave. Carlos Abreu Amorim vai mesmo ao ponto de dizer: «Concorde-se ou não com a figura humana, com o passado ideológico de Saramago, a atitude do Presidente é a de um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional.»
Homem minúsculo, sim, menos que minúsculo. Homem politicamente liliputiano.

Uma maratona de leitura em homenagem a Saramago

Na próxima sexta-feira, dia 25, a Casa Fernando Pessoa organiza uma leitura integral, em voz alta, do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Segundo Inês Pedrosa, directora da CFP, esta iniciativa surge «porque acreditamos que a voz dos grandes escritores só morre quando a nossa voz os deixa morrer». A maratona começa às 12h00 e está aberta a todos os que se quiserem associar à homenagem.

Muitas presenças para uma ausência

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Estive no cemitério do Alto de São João, na despedida a José Saramago. Vi escritores, vi compagnons de route, vi políticos, vi muitos leitores com livros de Saramago erguidos no ar (como flores, como punhos), vi milhares de rostos anónimos, o povo de Lisboa agradecido ao grande escritor. Só não vi o Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, incapaz de interromper as férias familiares nos Açores para honrar a memória do único Prémio Nobel da Literatura no universo da língua portuguesa. No fundo, é uma questão de coerência, já que foi uma decisão absurda de um governo liderado por Cavaco Silva (alguém que nunca se importou de exibir as suas limitações culturais) a empurrar Saramago para Espanha. Mas não deixa de ser uma vergonha.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges