Desafios do dia

12h30: José Saramago – José Saramago
15h00: José Saramago – José Saramago
19h30: José Saramago – José Saramago

Carta de José Saramago para José Rodrigues Miguéis

«Parede, 20 de Março de 1966

Querido Miguéis,

Tanta amizade, tanta compreensão, tanta bondade – como lhe hei-de agradecer tudo isso? Um homem que tem mil razões para estar magoado, e escreve assim! Valente amigo!…
Um dia lhe contarei talvez o que têm sido, para mim, estes últimos meses. O menor dos meus males, afinal, ainda é a editora. O maior será provavelmente a imaginação… Mas que posso eu fazer contra esta doida? Discipliná-la? Quem dera. Mas ela pode mais do que eu. Um nada me deita a terra, um nada me levanta, e levo a vida neste cai-não-cai, à espera não sei de quê, de um sentido, de um norte – e nada, a não ser confusão, tenho diante de mim. E o tempo passa, foge, e tudo é miserável, mesquinho e anti-humano. Sou sibilino, bem vejo, mas um dia serei mais claro, se tiver paciência para me ouvir. A não ser que a consciência da insignificância essencial de tudo isto (dos meus problemas) acabe por se impor e tornar mínimo o que hoje assume proporções de catástrofe…
(…) Gostei (o verbo é pobre) de saber que vem. Mas antes não viesse, se pensar nas razões que o fazem vir. Deixe lá os nossos Intelectuais: tirante morder, o mais que fazem, o futuro julgará, e esta porca sociedade de elogio mútuo ou este permanente ajuste de contas de gangs rivais, não merecem mais que desprezo. Neste triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar de entrega do Prémio Camilo à Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e de inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l’église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário que mais sólido parece, mas sempre com o olho no campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável, logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates – e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.
Mas venha, já que tem de vir. Tem aqui um amigo que o receberá com os braços e o coração aberto, um amigo que lhe fará companhia mas que não imporá a sua presença. Conversaremos, falar-me-á de si, eu falar-lhe-ei de mim, das suas e das minhas coisas. A mim sei eu que me fará bem a sua vinda.
(…) Um grande e apertado abraço do seu

José Saramago»

[in Correspondência 1959-1971, de José Rodrigues Miguéis e José Saramago, organização e notas de José Albino Pereira, Caminho, 2010]

Imprensa cor-de-asco

Há a imprensa cor-de-rosa e há a imprensa cor-de-asco. Exemplo: a edição de hoje do Correio da Manhã. Na capa, a morte de José Saramago foi remetida para um espacinho mínimo, perdido no caos dos 15-destaques-15 de primeira página. Mas mais triste do que ver Saramago posto quase ao mesmo nível do professor que «mostra pénis e dá aulas», é a chamada em si mesma. Para o Correio da Manhã, o desaparecimento de um grande escritor português (Nobel, etc.) não tem a mínima importância; o que importa é que o Estado paga a viagem de avião que trouxe o corpo do escritor de regresso ao seu país. Lamentável, lamentável, lamentável, mil vezes lamentável. Já disse que isto é digno de uma imprensa cor-de-asco, mas chamar-lhe cor-de-asco parece-me agora um eufemismo.

Uma lenda grega

Das várias dezenas de depoimentos publicados hoje na imprensa portuguesa sobre a morte de José Saramago, parece-me que o melhor foi o da escritora Hélia Correia, no modo como escapa ao inevitável esquematismo (e consequente banalidade) dos elogios fúnebres:

«Diz a lenda o que a história não confirma: que, no tempo em que Sófocles morreu, a Atenas que tanto o venerou e que tão venerada foi por ele se encontrava cercada pelos espartanos. A aldeia natal do dramaturgo encontrava-se então fora de portas, inacessível aos atenienses. O deus do teatro apareceu então nos sonhos de Lisandro, o general das tropas sitiantes. Ordenava que abrissem alas para dar passagem ao cortejo funerário. Lisandro obedeceu sem hesitar. Todos, atenienses e espartanos, se inclinaram com vénia e com lamento, ante o corpo do grande criador. Não consigo fazer elogios fúnebres. Digo “não” ao louvor de circunstância. Palavras e palavras vão cair com um grande barulho neste dia e todas elas ficarão aquém da grandeza deste homem. Que houve entre nós um luminoso afecto é coisa que me diz respeito a mim e sobre a qual não tenho que escrever. Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um “poeta”, daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso. É o homem na sua existência absoluta. O homem que, sabendo-se mortal e não acreditando num Além, se empenha soberbamente em viver e criar com um fulgor e com uma coragem que os crentes desconhecem ou receiam.
Para além do meu preito pessoal, que não se há-de resumir a depoimento, eu imagino aqui uma cidade que o leva em ombros – e os inimigos a abrirem caminho e a curvarem-se. Se os gregos inventaram esta lenda, é para que a memória a active quando um homem como Saramago nos deixa.»

Desafios do dia

12h30: Blimunda – mulher do médico
15h00: Faustina Mau-Tempo – Maria de Magdala
19h30: cão Ardent – elefante Salomão

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Mulher ao Mar, de Margarida Vale de Gato (Mariposa Azual), por António Guerreiro
Que se Diga que Vi Como a Faca Corta, de Miguel Cardoso (Mariposa Azual), por António Guerreiro
O Original de Laura, de Vladimir Nabokov (Teorema), por José Mário Silva
E Então Vai Entender, de Claudio Magris (Quetzal), por Paulo Nogueira
Os Íntimos, de Inês Pedrosa (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
Os Dias e os Anos – Diário 1970-1993, de Marcello Duarte Mathias (Dom Quixote), por José Pedro Castanheira
O Homem que Não Tira o Palito da Boca, de João Melo (Caminho), por António Loja Neves
Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso, de Thomas Cathcart e Daniel Klein (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Donde Viemos – História de Portugal, Volume I, de António Borges Coelho (Caminho), por Hugo Pinto Santos
Os Milhões da Pobreza, de Paul Collier (Casa das Letras), por Luís M. Faria
Bios – Biopolítica e Filosofia, de Roberto Esposito (Edições 70), por António Guerreiro

Luto

Em reunião extraordinária do Conselho de Ministros, o Governo decretou dois dias de luto nacional (sábado e domingo) pela morte de José Saramago. Na ilha de Lanzarote, onde o escritor passou a viver, nos anos 90, depois do célebre veto de Sousa Lara à candidatura de O Evangelho segundo Jesus Cristo a um prémio literário europeu, o luto será de três dias.

Cerimónias fúnebres

Da Fundação José Saramago, recebi este comunicado:

«A Fundação José Saramago comunica que o corpo do Escritor se encontra hoje na Biblioteca José Saramago, em Lanzarote. Na sala José Saramago da Fundação César Manrique, em Arrecife (Lanzarote), leitores da sua obra procederão a leituras espontâneas. Amanhã, dia 19 de Junho, um avião do Estado português transportará o corpo para Lisboa, estando prevista a sua chegada ao Aeroporto de Figo Maduro pelas 12h30, de onde seguirá em cortejo para o Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa. Aí permanecerá em câmara ardente até às 12h00 de Domingo, dia 20 de Junho, de onde sairá para o Cemitério do Alto de São João, onde será cremado.»

Morreu José Saramago

Acabei de saber que José Saramago morreu hoje, na sua casa de Lanzarote, aos 87 anos. Como não vou poder actualizar o blogue nas próximas horas, justamente por causa desta infeliz notícia, assinalo para já o meu desgosto e a minha tristeza pela perda de um grande, de um imenso escritor.

Desafios do dia

12h30: Günter Grass – Milorad Pavić
15h00: Tomaž Šalamun – Don DeLillo
19h30: Martin Amis – Mohammed Dib

Uma bela carapaça vazia

A Arte de Morrer Longe
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Caminho
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-972-21-2109-5
Ano de publicação: 2010

O arranque de A Arte de Morrer Longe é um exemplo típico da arte narrativa de Mário de Carvalho. Começa com uma frase de efeito – «Na bela e nunca por demais celebrada cidade de Lisboa, urbe das urbes, afamado remanso de brandura, nimbado de zimbórios e palmeiras, a moda das tartarugas exóticas começou um dia a fatigar» – e prossegue com a descrição de um abandono sistemático desses «répteis bojudos» pelos tanques e lagos da cidade, o que logo provoca uma cascata de desequilíbrios ecológicos que culmina, duas páginas mais tarde, num sanguinolento massacre perpetrado por falcões do aeroporto sobre uma população de patos marrecos. A testemunhar esta «cadeia de acontecimentos» não estão os causadores directos (as famílias que se privaram das tartarugas), mas um narrador omnisciente e algo solene, que remata: «É a sina dos homens serem sistematicamente traídos pelos caprichos da realidade. Ainda que advertidos por qualquer Cassandra da marcha das coisas, não deixariam de proceder às cegas, como é próprio da sua natureza, servil a um destino escrito não sei onde.»
Pois neste «cronovelema» deparamos justamente com uma sucessão de «caprichos da realidade» e seus efeitos sobre a vida de um «jovem casal desavindo»: Arnaldo e Bárbara, empregados de escritório que suspeitam de uma infidelidade mútua (inexistente) e também tentam livrar-se (sem grande sucesso) de uma tartaruga, último nó por desatar nas partilhas pré-divórcio. O «pacato quelónio» talvez simbolize a incapacidade de as pessoas assumirem o peso dos seus compromissos, preferindo acabar com os problemas em vez de os resolverem. Mas não se espere uma defesa do casamento em pleno século XXI. Sob a aparência de um conto moral, A Arte de Morrer Longe revela-se, do princípio ao fim, um puro exercício de ironia, com o sarcasmo a esconder o desencanto de um pessimista.
Herdeiro de Laurence Sterne, citado numa das epígrafes, Mário de Carvalho diverte-se – e diverte-nos – ao manipular a seu bel-prazer as convenções romanescas, ora atardando a narrativa em circunlóquios e derivas, ora acelerando-a de repente, ora impondo-lhe um súbito salto, uma suspensão, um tropeço, para logo retomar o rumo original da história, frágil fio que mais adiante de novo se parte, ou enovela, ou desaparece no caos de peripécias que o próprio narrador, embora cheio de manhas e artifícios meta-literários, só com dificuldade controla.
O problema do livro não está na forma, está no conteúdo: a crítica social do consumismo, da chico-espertice, da mediocridade generalizada, da falta de civismo ou da Internet (enquanto escape para ódios e rancores) é certeira mas previsível, já muito vista. Além disso, as personagens principais revelam pouca espessura e as secundárias ainda menos, quando não ficam reduzidas a meros estereótipos (veja-se o polícia Gervásio Escarrapacha, amante da mãe de Arnaldo).
Dito de outro modo, e recuperando a metáfora que atravessa todo o livro, A Arte de Morrer Longe apresenta-nos uma bela carapaça (escrita irrepreensível e a espaços brilhante) mas falta-lhe, lá dentro, uma tartaruga que se veja.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]

‘Conversas do Silêncio!’ com Mathias Énard

Logo à noite, a partir das 21h30, o escritor francês Mathias Énard, autor do fabuloso romance Zona (Dom Quixote), estará à conversa com o tradutor do livro para português, Pedro Tamen, no auditório do Instituto Franco-Português. A moderar a sessão, incluída no programa do Festival Silêncio!, estará o jornalista Rui Lagartinho.

A magia dos explosivos

«(…) o Ghassan belo guerreiro, óculos de sol, farda nova, M16 na mão, campeava numa barricada ou vagueava pela praia em Jounieh com os camaradas, os confrontos eram violentos e rápidos, a guerra durava há dez anos e já estava bem rodada, como ele dizia, a única batalha verdadeira em que ele participou foi contra o exército libanês em Fevereiro de 1990 no Metn e em Nahr el-Kalb, sangrenta carnificina final, de colina para colina a artilharia massacrava os civis em fuga, os combatentes lançavam-se uns contra os outros numa mistura furiosa: o Ghassan contou-me como matara o seu próprio primo, cabo no exército, com uma granada atirada para o seu jipe que transportava munições, os três ocupantes tinham voado num feixe de carne, metal e fogo, por lá ninguém sabe que fui eu que lancei aquela granada, dizia o Ghassan, como queres tu que eu fale com a minha tia normalmente depois daquilo, recordava-se de ter calcorreado colinas aos berros para ganhar coragem, de ter mijado sobre o cano de uma metralhadora para a esfriar, sem o conseguir, de ter posto fora de combate um blindado com um LAW a duzentos metros e de ter visto o comandante do carro conseguir extrair-se da carcaça para se consumir como uma velha sola enegrecida dobrada em dois sobre o cano, de ter chorado horas sem remissão (contava isto a rir) depois da morte de um cavalo, ceifado acidentalmente por uma rajada, e sobretudo, sobretudo contava como fora ferido, como se julgara morto, de repente retalhado por dezenas de estilhaços após a explosão de uma granada de obus, vira o casaco do seu fato de combate abrir-se, inchar de impactos de metralha, estava de repente coberto de sangue perfurado do tornozelo até ao ombro por inúmeras mordeduras, uma matéria infecta e viscosa cobria-lhe todo o lado direito, o Ghassan ruíra em espasmos de dor e de pânico, persuadido de que era o fim, a granada caíra apenas a alguns metros, os médicos retiraram-lhe do corpo oito dentes alheios e dezassete fragmentos de ossos incrustados na carne, destroços do pobre tipo que estava à sua frente volatilizado pela explosão e transformado em granada humana, pedaços de crânio fumegantes atirados num penacho de sangue, cujo único estilhaço metálico era um pré-molar de ouro, o Ghassan livrara-se de boa, ainda sentia arrepios nas costas e náuseas de nojo, dizia ele, só de pensar naquilo fico com pele de galinha, eu não sabia se era de rir se de lamentar aquela história, o Ghassan transformado em sepultura viva recebendo as relíquias do mártir directamente encastoadas na pele, a união dos guerreiros realizada pela magia dos explosivos.»

[in Zona, de Mathias Énard, tradução de Pedro Tamen, Dom Quixote, 2010]

Em voz alta

voz_alta

Mais informações aqui.

Jardins e literatura

«Os jardins e as correntes artísticas andaram sempre de mãos dadas. Sobretudo nas épocas em que eram confortáveis os maniqueísmos. Velhas “Artes Poéticas” associavam o poeta artífice – apolíneo – ao jardim francês, e o poeta inspirado – dionisíaco – ao jardim inglês.
Hoje as coisas são muito diferentes, devido às novas catalogações, e acatalogações, modernas e pós-modernas, onde o nature e o nurture se posiciona de outra maneira.
Talvez se possa dizer que o poeta transpirado é um jardineiro incansável na procura do verso, articulando várias formas de funcionar, articulando o que nasce de dentro com a cerca que delimita muitos jardins.»
António Ferra

Ler o post completo aqui.

Desafios do dia

12h30: Julio Cortázar – Bang Young-ung
15h00: Konstantinos Kavafis – Wole Soyinka
19h30: Georges Perec – Carlos Fuentes

Catarina Nunes de Almeida no ‘Poesia em Vinyl’


(foto retirada daqui)

Logo à noite, antes do espectáculo de Ursula Rucker, há mais uma edição de ‘Poesia em Vinyl’, com Catarina Nunes de Almeida, cujos poemas serão lidos pela actriz Margarida Cardeal. Depois, haverá música dos Dead Combo. É a partir das 21h30, no restaurante Vinyl (Travessa da Galé, 36, Lisboa). Entrada livre.

Hoje foi Bloomsday em Dublin

E o dia, para alguns dos admiradores de Joyce, começou com um lauto pequeno-almoço no Caviston’s. Na ementa, rins fritos. What else?
Reportagem completa no Irish Times.

Um pedido de desculpas aos espanhóis

Não foi de propósito, mas ao transformar o Espanha/Suíça desta tarde num Enrique Vila-Matas/Robert Walser acho que contribui para a primeira grande surpresa do Mundial da África do Sul. Quem tenha lido os livros de Vila-Matas, sobretudo os mais recentes, sabe que o romancista catalão inclinar-se-ia sempre diante do fugidio autor de Jakob von Gunten.

Apresentação de ‘Diálogos para o Fim do Mundo’, de Joana Bértholo

Amanhã, quinta-feira, vou moderar uma sessão sobre o romance Diálogos para o Fim do Mundo, de Joana Bértholo (Caminho), na Biblioteca Municipal de Loures, a partir das 18h30. O livro, que para mim constitui uma verdadeira revelação literária, venceu em 2009 o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, que teve como jurados Luísa Costa Gomes, Manuel Frias Martins e Paula Cristina Costa.

O que aí vem (Gradiva)

Parrot e Olivier na América, o mais recente romance de Peter Carey, lançado nos países de língua inglesa no final de Abril. Chega às livrarias a 26 de Julho.

SMS para Carlos Queiroz

Caro seleccionador: peça o vídeo da vitória do Chile sobre as Honduras. Veja e reveja. Aprenda o que é velocidade, dinâmica colectiva, futebol bonito. Obrigado.

Desafios do dia

12h30: Roberto Quesada – Roberto Bolaño
15h00: Enrique Vila-Matas – Robert Walser
19h30: Nadine Gordimer – Juan Carlos Onetti

Eu vou

Espectáculo de Ursula Rucker: amanhã à noite, a partir das 24h00, no MusicBox (Lisboa). Uma hora antes, JP Simões, o músico «obliterador do Atlântico» e «poeta das canções com cigarros», abre caminho entrando também ele, sem medos, nisso a que se chama spoken word.

O coelhinho do Jorge Listopad é que sabe

«O coelhinho, com expressão vitoriosa e sem saber bater à porta, invadiu a minha privacidade. Quis censurar a sua entrada de rompante, mas não me deu tempo e gritou: – Hip! Hip! Hurra! O Mundial acabou! Consegui preencher a caderneta toda! Colei 638 cromos de jogadores. Até troquei 3 Ronaldos sem caspa por 1 Cho Young-Hyung da Coreia do Sul e 2 Yacine Bezzac pelo raro Branko Ilic. Acabou! Vitória! E deixou-se cair sobre o sofá. Digo-lhe: Mas o Mundial só agora começou… De olhos semi-cerrados, respondeu: – Não sou nenhum palerma, não é o futebol que interessa, mas sim os cromos.»
(in Jornal de Letras n.º 1036, hoje nas bancas)

Quanto a mim, faltam-me 22. A saber (caso haja alguém por aí com cromos para a troca): 5 – 13 – 31 – 98 – 131 – 154 – 200 – 203 – 257 – 271 – 344 – 370 – 376 – 390 – 393 – 443 – 448 – 457 – 489 – 499 – 585 – 594.

Um antídoto para as vuvuzelas

Começa hoje: Festival Silêncio!

O retrato de uma rapariga

Brooklyn
Autor: Colm Tóibín
Tradução: C. Santos
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 254
ISBN: 978-989-96340-4-6
Ano de publicação: 2010

Num encontro com estudantes da Faculdade de Letras do Porto, a que tive a sorte de assistir, Colm Tóibín lembrou que o romance, entre outras coisas, consegue dar sentido ao silêncio. Nenhum realizador ou dramaturgo se atreve a mostrar uma personagem sentada, sem falar com ninguém, por mais de cinco ou dez minutos, mas Henry James, no famoso capítulo 42 de O Retrato de uma Senhora, faz precisamente isso: cercada pela escuridão da noite, junto a uma lareira, a protagonista permanece imóvel durante horas, sem dizer palavra, totalmente imersa nos seus pensamentos. Tóibín, que observou de perto uma certa fase da vida de James no seu romance anterior (O Mestre, Dom Quixote, 2007), vê no relato minucioso da introspecção de Isabel Archer um exemplo maior do poder da literatura: o de iluminar as regiões mais recônditas da psicologia humana.
Em Brooklyn, sexto romance de Tóibín (vencedor do Costa Award), também há muitos silêncios, introspecções e um ponto de vista feminino. Mas a protagonista, Eilis Lacey, embora viaje para outro continente, busque a sua identidade e tenha que lidar com as consequências das suas escolhas, está nos antípodas de Isabel Archer. Enquanto esta é uma americana sofisticada e rica (depois de receber uma herança), atravessando o livro em deambulações ociosas pela Europa, onde acaba gradualmente por perder a independência e o controlo sobre o seu destino, Eilis é uma pobre rapariga de Enniscorthy, limitada e provinciana, que segue o caminho inverso, procurando em Nova Iorque algo que escasseava na Irlanda do pós-guerra: trabalho e a perspectiva de uma vida melhor.
Tóibín começa por nos mergulhar no quotidiano de Enniscorthy, no início dos anos 50 do século XX. Bem integrada na comunidade, Eilis vive com a mãe e a irmã mais velha, Rose, depois da morte recente do pai e da debandada dos três irmãos rapazes, todos a trabalhar em Inglaterra. Apesar da aptidão para a contabilidade, ela não consegue encontrar um emprego digno desse nome. Por isso, quando Rose, com a cumplicidade de um padre amigo da família, lhe sugere a hipótese de emigrar para Brooklyn, ela aceita o desafio sem pensar muito no que a espera. E o que a espera é a dureza extrema do desenraizamento, vivido até numa dimensão física: primeiro no enjoo de vários dias a bordo do navio em que viaja, sob uma feroz tempestade atlântica; depois ao experimentar a violência das saudades de casa numa terra estranha, ampliadas pela leitura das cartas de familiares, com o seu lastro de melancolia e tristeza paralisantes.
Em Brooklyn, ela acaba por adaptar-se depressa. Habita numa casa de hóspedes irlandesa, frequenta os bailes da paróquia, trabalha numa loja de roupas, tira um curso nocturno que lhe permitirá ser guarda-livros num escritório, e acaba por se envolver com Tony, um canalizador italiano, decente e atencioso, que vai sempre um passo adiante no que toca a fazer planos para um futuro a dois. A vida corre-lhe bem, aliás cada vez melhor, até que uma má notícia vinda da Irlanda a obriga a regressar. E é quando volta a Enniscorthy, transformada pela experiência americana, mais segura e atraente (como nota até quem, dois anos antes, a ignorava), que o dilema emerge. Eilis percebe que tem duas vidas diante de si – uma com Tony; outra junto à mãe, na terra natal, onde agora a olham com outros olhos – e hesita na hora de escolher. A decisão difícil, de certa forma o nó do romance, acaba depois por depender mais da pequenez do mundo – digamos assim – do que da sua vontade.
Partindo de uma história linear e simples, Tóibín fez de Brooklyn o extraordinário retrato de uma rapariga muito mais complexa do que parece à primeira vista. Através da acumulação de pequenos detalhes, conseguimos ver o mundo pelos olhos de Eilis e deparamos com as suas emoções mais íntimas, sem que seja preciso verbalizá-las. Em termos de subtileza psicológica, este assumido discípulo de James tornou-se ele mesmo, por direito próprio, um mestre.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Esqueçam o Paulo Ferreira, o Miguel (e até o lesionado Bosingwa)

O verdadeiro lateral direito sou eu.

Desafios do dia

12h30: Katherine Mansfield – Andrej Brázda-Jankovský
15h00: Ahmadou Kourouma – Fernando Pessoa
19h30: Machado de Assis – Hong Seok-jung

O que aí vem (Dom Quixote)

1910 – Uma Antologia Literária (seis contos inéditos de Luísa Costa Gomes, Mário Cláudio, Mário de Carvalho, Miguel Real, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues); O Bazar Alemão, novo romance de Helena Marques; a reedição dos dois primeiros volumes do Diário, de Miguel Torga; Amberville, de Tim Davis; Ásperos Tempos, de Jorge Amado (primeiro volume de Os Subterrâneos da Liberdade); O Que o Cão Viu, de Malcolm Gladwell.

1910 - Uma Antologia Literária

O Bazar Alemão

Os Subterrâneos da Liberdade I - Os Ásperos Tempos

Desafios do dia

12h30: Cees Nooteboom – Karen Blixen
15h00: Yasunari Kawabata – René Philombe
19h30: Italo Calvino – Augusto Roa Bastos

Prémio Manuel António Pina

Instituído pela Câmara Municipal da Guarda, premiará livros de poesia (em anos pares) e literatura infanto-juvenil (em anos ímpares), sendo as obras vencedoras editadas pela Assírio & Alvim. À primeira edição podem candidatar-se trabalhos inéditos de poesia de autores portugueses, enviados até 30 de Julho. O regulamento está disponível aqui.

A África do Sul é um lugar mental (e catódico)

Não estando fisicamente na África do Sul, o homem que queria ser luís filipe cristóvão estará na África do Sul, esse país feito de relva e linhas de cal, até 11 de Julho. Ou de como o futebol é sempre mais do que uma bola pontapeada por 22 homens dentro de um rectângulo (é um íman de memórias, por exemplo).

Lançamento de ‘Que se diga que vi como a faca corta’

É mais uma revelação de 2010, na poesia portuguesa contemporânea: Que se diga que vi como a faca corta, de Miguel Cardoso (edição Mariposa Azual). O lançamento do livro acontecerá hoje, ao fim da tarde (19h00), na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa. Alguns dos poemas serão lidos pelo autor e por Nuno Moura. Num mundo como deve de ser, a presença não seria facultativa. Como este não é um mundo como deve de ser, há quem deixe o aviso: «Aqueles que estiverem de papo para o ar na praia, estejam atentos aos aviõezinhos de propaganda com frases admoestadoras.»
O convite electrónico saiu assim:

que_se_diga

Um bocadinho confuso (demasiado texto) mas com uma imagem que capta, vim a descobrir, a biblioteca de poesia de Miguel Cardoso. Um consolo, isto de saber que não sou o único feliz proprietário de Billys brancas, ajoujadas e caóticas.

Quatro poemas de Frederico Lourenço

1.

Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores da laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.

2.

Rua do Século, 79

Os gradeamentos das janelas
negam a quem as contempla da rua
qualquer sugestão de vida
a ser vivida por trás das grades.
Os caixilhos em ferro forjado
sugerem locutórios de um convento
da mais ascética austeridade,
como se o espaço (cujo acesso
as grades peremptoriamente vedam)
fosse votado por inteiro a extremos
exacerbados de misticismo e de penitência.
Mas também se pressentem salões escuros,
onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,
ou o perfume de rosas e noz moscada;
paredes revestidas de damasco,
cobertas de grandes telas,
paisagens campestres e naturezas mortas.
Medalhões de talha dourada, segurados
por fitas de seda listrada a duas cores;
silhuetas de damas coroadas de peruca,
fantasmas da corte da
Rainha Louca,
imóveis nas suas molduras de tartaruga e charão.

3.

Para lá dos campos e vales
que descem em violento declive
na direcção do mar e do horizonte
a que chamo bainha de Deus
(ou somente linha azul e violeta
a separar o mar do céu)
sigo o sentido que o teu braço indica
e fito as nuvens flamejantes,
rasgadas por relâmpagos.
Começas de novo a falar.
O estrondo da cascata
a trovejar aqui ao lado
torna as tuas palavras inaudíveis.
No entanto consigo compreender-te.

4.

Dois cometas atravessam o firmamento,
cruzam-se e juntam-se sem colidirem,
seguem caminho, lado a lado,
duplicando o brilho, duplicando o fulgor,
rasando o éter ao dobro da velocidade,
astros gémeos, parelhas de estrelas,
de cujo rasto no céu
se falará durante séculos na terra.

[in Santo Asinha e outros poemas, Caminho, 2010]

Desafios do dia

12h30: Yasmina Khadra – Slavoj Žižek
15h00: Danilo Kiš – Ama Ata Aidoo
20h30: W.G. Sebald – Peter Carey

Novo local de trabalho (um entre outros)

torel

Jardim do Torel (Lisboa).

Ele há coisas inexplicáveis

Toda a gente sabe que é muito difícil um autor português ser editado nos EUA. Para além de Saramago e Lobo Antunes, são poucos o que vencem o bloqueio (Lídia Jorge, José Luís Peixoto, os nomes contam-se pelos dedos). Devíamos por isso ficar contentes com a notícia de que outra compatriota terá um livro à venda, em inglês, nas terras do Tio Sam. Pois devíamos. Mas depois vamos a ver e essa compatriota é Alexandra Solnado (sim, Alexandra Solnado, a interlocutora mística), que acada de assinar contrato com a Simon&Schuster (sim, a Simon&Schuster) para a edição em 2011 do inenarrável O Livro da Luz. Como diriam os americanos: Jesus Christ! What the fuck is this?

O frágil abismo da linguagem

Escarpas
Autor: Gastão Cruz
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 86
ISBN: 978-972-37-1482-1
Ano de publicação: 2010

Quatro anos após o último volume de inéditos (A Moeda do Tempo, 2006), Gastão Cruz regressa com um livro em que a passagem dos anos, o confronto com esse território por vezes ambíguo que é o passado, volta a estar no centro das suas preocupações. Mais do que reminiscências biográficas (aliás bastante cifradas), há aqui a procura dos «restos de sentido / que num instante incerto alguma coisa fez». O poeta sabe que a memória «deforma» tudo, até a percepção de um Agosto axial, quase mítico, atravessado por uma luz que acendia a pele e desfocava os corpos, vulneráveis à «súbita / angústia do desejo». Esse «verão desmoronado / cedo» em que «todos estávamos vivos» e «o ar / era ouro» pode ser entrevisto ou intuído, mas apenas isso. O que foi claro é hoje vago, a própria consistência da realidade parece discutível, o «oculto fio / do passado» perde-se entre sombras. E desocultá-lo, a esse fio, pode ser tão desesperante «como procurar / no mar os afogados».
Se há nestes versos uma função de resgate («para evitar que tudo a morte recolhesse»), Gastão Cruz nunca deixa de associar à poesia um «conceito árduo», a necessidade de um trabalho verbal rigoroso que dê sentido à forma: «Não é usando o adjectivo escuro / ou obscuro / que o poema se escurece // ele possui a sua escuridão». O poeta procura, ainda, adequar as palavras às coisas. Vê na matéria do tempo a sua própria substância, evoca o omnipresente (embora «duvidoso» e «porventura inútil») desígnio do amor, dialoga com outros poetas (Drummond, Luís Miguel Nava, Sandro Penna, Manuel Gusmão), faz da Lituânia uma litania, estabelece um olimpo de pianistas (Gould, Gilels, Richter, Michelangeli, Horowitz), mas nunca deixa de se questionar quanto à possibilidade, ou talvez até a legitimidade, de uma representação do mundo: «o que é / o mundo para que eu o represente?» E conclui: «Mesmo se conseguíssemos transpor / as nossas incertezas para o frágil / abismo da linguagem // como num vão espectáculo em que actores / mantivessem a arte de falar / persistiria a dúvida traçando // a fronteira entre as luzes / dos prédios que ocultavam o passado / e a casa onde só restam as palavras».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 91 da revista Ler]

Arquivo de J.G. Ballard foi comprado pela British Library

A Biblioteca Nacional do Reino Unido adquiriu manuscritos, cartas, cadernos de notas e até os boletins escolares do autor de Crash, ao abrigo de um esquema que permite às famílias de um artista falecido entregar objectos exepcionais à nação, em troca do perdão de dívidas que o familiar tinha no momento da morte. Neste caso, dívidas fiscais no valor de 350 mil libras.

« Página anteriorPágina seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges