Paulo Moreiras na Ledig House

A convite da DGLB – Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, o escritor Paulo Moreiras vai passar um mês (de meados de Setembro a meados de Outubro) na Ledig House, uma residência internacional de escritores em Nova Iorque, por onde já passaram vários escritores portugueses desde 2002.

Ficar na história

fique_na_historia

Um projecto conjunto da Bookstorm, da Booktailors e da Finepaper.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Ágape, Agonia, de William Gaddis (Ahab), por Rogério Casanova
O Desfile da Primavera, de Richard Yates (Quetzal), por Luís M. Faria
Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes (Deriva), por José Mário Silva
Terezín, de Daniel Blaufuks (Tinta da China/Steidl), por Ana Cristina Leonardo
Riscava a palavra dor no quadro negro, de Luís Quintais (Cotovia), por António Guerreiro
Polifonias Insulares, de Inocência Mata (Colibri), por António Loja Neves

Um poema de Miguel Martins

IGNIS FATUUS

Vem a lume uma ideia luminosa
um chá de lúcia-lima fumegante
inalação de folhagem capitosa
num bule de feldspato crepitante

Disfarçada de paz fortificante
de miasma benigno, inspirativo
é a estultícia que naquele instante
rebrilha num fogacho transitivo

É o Futuro que pede, apreensivo
um cisma com as crenças abaladas
uma balada ao coração cativo
dos sismos e dos contos-de-fadas

que são suas madrastas desveladas
numa fumigação protelatória
da descoberta das portas encerradas
em chaleiras sem mago, sem memória

do aprisionamento nessa história
em que um afago acendia um fogo
que num segundo alcandorava à glória
uma vitória assegurada ao jogo

Mas na derrogatória a nosso rogo
restolha uma seara, seca a fonte
por se encontrar, apenas, muro e mogo
onde tanto aguardou o horizonte.

[in O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010]

Versos animais

versos_cacaraca

Versos de Cacaracá
Autor: António Manuel Couto Viana
Editora: Texto
N.º de páginas: 43
ISBN: 978-972-47-4161-1
Ano de publicação: 2010

Desaparecido em Junho, aos 87 anos, António Manuel Couto Viana ainda viu a maquete deste livro, reedição de um volume publicado em 1984 (então com ilustrações de Juan Soutullo, filho do escritor). Ao contrário do que o título sugere, estes Versos de Cacaracá são tudo menos insignificantes. Recuperando a alegria da infância em poemas desenvoltos e com boas rimas, Couto Viana explora temas clássicos da literatura infantil: as estações do ano, as cores, a vida secreta dos animais. Há peixes macambúzios, borboletas parecidas com elefantes, marinheiros e vendedores, ameaças e fulgores, uma motorizada renitente que segue a trote como um burro e um mocho que compra ao leitão o seu «rabinho torcido» para com ele fazer um anel de casamento.
A alguns dos poemas falta golpe de asa (Os dias da semana; Impertinências), outros parecem ficar a meio caminho entre a historinha engraçada e o mero exercício verbal (Originalidades; Quem sou eu). Mas quando o poeta afina pelo seu melhor diapasão, surgem pequenas jóias como esta:

Vi um dia no mar alto
uma nau maravilhosa:
todo d’oiro era o costado
e as velas verde e rosa.

Desde o porão ao convés
abarrotava de caixas
com caramelos, confeitos,
biscoitos, bombons, bolachas.

Levava, por equipagem,
vinte e quatro marinheiros:
duas dúzias de ratinhos
diligentes e ligeiros.

Um pato almirante, à popa,
de galões e barretina,
comandava a nau doirada
pelo mar de prata fina.
Não deixando de cumprir o seu papel, as ilustrações de Vasco Gargalo ganhavam em serem menos literais.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A longlist do Man Booker Prize 2010

Foram anunciados, ontem, os treze livros escolhidos para a longlist do Man Booker Prize deste ano:

Parrot and Olivier in America, de Peter Carey (Faber and Faber)
Room, de Emma Donoghue (Pan MacMillan – Picador)
The Betrayal, de Helen Dunmore (Penguin – Fig Tree)
In a Strange Room, de Damon Galgut (Grove Atlantic – Atlantic Books)
The Finkler Question, de Howard Jacobson (Bloomsbury)
The Long Song, de Andrea Levy (Headline Publishing Group – Headline Review)
C, de Tom McCarthy (Random House – Jonathan Cape)
The Thousand Autumns of Jacob de Zoet, de David Mitchell (Hodder & Stoughton – Sceptre)
February, de Lisa Moore (Random House – Chatto & Windus)
Skippy Dies, de Paul Murray (Penguin – Hamish Hamilton)
Trespass, de Rose Tremain (Random House – Chatto & Windus)
The Slap, de Christos Tsiolkas (Grove Atlantic – Tuskar Rock)
The Stars in the Bright Sky, de Alan Warner (Random House – Jonathan Cape)

Nas palavras de Andrew Motion, presidente do júri:

«Here are thirteen exceptional novels – books we have chosen for their intrinsic quality, without reference to the past work of their authors. Wide-ranging in their geography and their concern, they tell powerful stories which make the familiar strange and cover an enormous range of history and feeling. We feel confident that they will provoke and entertain.»

O único destes livros ja traduzido para português é o romance de Carey, Parrot e Olivier na América (Gradiva), lançado esta semana e que estou neste momento a ler, no remanso das férias, com um gozo que se vai dilatando à medida que a narrativa avança.

Repetição da minha vida

«Sempre me senti deslocado face ao tempo, como se lhe tivesse ganho um avanço substancial, irrecuperável. As coisas acontecem em mim antes ainda de terem uma expressão objectiva e materializada. A realidade surge invariavelmente depois. Não sou um visionário, não vivo antes do meu tempo. Digo isto sem qualquer falsa modéstia. A dissonância existe entre o meu agora e o próprio fluir do tempo. A ausência de provas tem-me levado a acreditar que se trata apenas de uma sensação, de intensa subjectividade, embora doa objectivamente. No plano da realidade os factos revelam-se simultâneos: desloco-me à mesma hora que os demais para o emprego e se bebo de pé, pelo caminho, um café na gare, quando levo a chávena quente à boca executo esse gesto ao mesmo tempo que o meu companheiro de ocasião leva igualmente a sua chávena à boca, no caso, naturalmente, de levar a chávena à boca ao mesmo tempo que eu, não antes nem depois. Sucede que a chávena, quando com ela toco nos lábios, e o café, quando finalmente o bebo, já me tocou (a chávena) e já foi bebido (o café). Não é fácil explicar isto. Poderia prosseguir com os exemplos durante o resto da noite. Apresentar a regra, porém, sem incoerências nem lapsos, exige um poder de síntese e uma fulguração para os quais a linguagem não tem a necessária aptidão. Sou mais lento do que a maioria, a falar ou a mover-me, mas apreendo com uma velocidade de relâmpago – eis outra formulação possível. Antecipo. Mais um exemplo: aquela mulher, como assistimos, acabou de cair, empurrada por um ciclista, esfolou o joelho e rompeu as meias e teve por apropriado dirigir-lhe insultos menos dignos. Contudo, esse não foi para mim um facto novo. Ela já tinha caído quando caiu e eu adivinhara a sua reacção intempestiva antes mesmo de dirigir os insultos ao rapaz que já pedala lá longe e nada ouviu. Adivinho, talvez, e talvez porque duvido quanto à adequação do verbo ao meu caso. Diria que não controlo a minha velocidade, que acelero e que vou um pouco à frente da realidade (isto para retomar, embora com um sentido ligeiramente diferente, as minhas primeiras frases), como se premisse o botão da fotografia e dispusesse ainda de tempo para abraçar os meus familiares, vindos de longe, e com eles ficar guardado na posteridade. Os factos são como aconteceram por dentro de mim antes do seu tempo. Tudo é sempre como qualquer outra coisa antes. Quando me sinto mais desalentado torna-se evidente – embora a comparação não me sirva de todo e apresente fragilidades e fique aquém do que inicialmente pretendera – que é como se tivesse morrido há muito, mas tivesse garantido, no momento do último suspiro, o dom de me sobreviver e assistisse agora unicamente à monótona e esgotante repetição da minha vida.»

[in Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, Deriva, 2010]

Justiça poética

No Zoo de Lagos, como no de Lisboa, muitos animais são apadrinhados por empresas. Há pássaros coloridos com patrocínio da Robbialac, pelicanos a merecerem apoio do Montepio Geral, etc. A lógica é simples, previsível até. Mas há quem a subverta. Por exemplo, num gesto de provocação (ou será apenas honestidade?) uma sociedade de advogados decidiu patrocinar o Bufo Real.

Lição de taxidermia

Beatriz e Virgílio
Autor: Yann Martel
Tradução: Fátima Andrade
Editora: Presença
N.º de páginas: 176
ISBN: 978-972-23-4385-5
Ano de publicação: 2010

Quase uma década após o êxito planetário de A Vida de Pi (2001), o livro que o projectou para a ribalta (Prémio Booker, milhões de leitores em mais de 40 países, contratos astronómicos), Yann Martel acaba de quebrar o longo silêncio que se seguiu à fama súbita – e respectivos bloqueios – com a publicação do terceiro romance: Beatriz e Virgílio, editado em Abril nos EUA e rapidamente traduzido para português. O protagonista é Henry, um escritor que parece um decalque perfeito de Martel, já que também alcançou um êxito inesperado com o segundo romance, em que entravam animais selvagens (A Vida de Pi, recorde-se, narrava a história da deriva oceânica de um rapaz indiano que dividia o bote salva-vidas com um tigre de Bengala e outros bichos).
Após algumas reflexões dispensáveis sobre a vida de um escritor de sucesso e o modo como interage com os leitores, Martel abre o jogo, ao explicar o projecto de escrita em que o seu alter ego consumiu cinco anos de trabalho: uma abordagem das formas de representação artística do Holocausto. Segundo Henry, as «liberdades poéticas» concedidas a outros temas difíceis ou traumáticos (como a guerra, em sentido lato) nunca se estenderam às narrativas sobre a morte organizada de milhões de judeus pelos nazis: «Esse evento terrível foi representado quase exclusivamente segundo uma única escola: o realismo histórico. A história, sempre a mesma história, sempre enquadrada pelas mesmas datas, localizadas nos mesmos sítios, com as mesmas personagens.» Contra esta «factualidade» estrita e a «resistência à metáfora artificiosa», Henry advoga outras formas de narrar a experiência do mal absoluto, na linha do que Art Spiegelman fez em Maus. Passando da teoria à prática, escreve então um «duplo livro» – metade ensaio, metade romance (ou seja, um flip book com duas capas) – em que defende e exemplifica as suas ideias. Mas os editores arrasam o manuscrito, num almoço que se assemelha a um fuzilamento, e recusam publicá-lo.
Destroçado, Henry decide mudar de vida. Instala-se com a mulher grávida numa grande cidade estrangeira, tem aulas de clarinete, faz teatro, passeia o cão, deixa-se estar. O único contacto que mantém é com os leitores, a cujas cartas responde sempre. E é justamente um dos leitores que lhe envia certo dia o excerto de uma peça teatral inédita, espécie de variação beckettiana em que uma personagem (Virgílio) explica a outra (Beatriz), junto a uma árvore num caminho deserto, o que é uma pêra. Junto ao texto, um seco pedido de ajuda. Perplexo, Henry decide investigar e descobre o autor da peça, ainda inacabada: um taxidermista homónimo, áspero e nada sociável, que mantém a sua loja aberta por mera casmurrice.
A ajuda solicitada é literária e Henry empenha-se, percebendo rapidamente que as personagens correspondem a dois animais empalhados na oficina do taxidermista: uma burra (Beatriz) e um macaco-uivador (Virgílio). Mais lenta é a sua compreensão da verdadeira natureza do texto dramático. À medida que Beatriz e Virgílio falam «do que nos aconteceu, um dia», uma história de violência e extermínio, torna-se evidente que os «Horrores» perpetrados sobre os animais representam apenas outra forma de descrever o inominável, como o próprio Henry em tempos defendera.
O problema deste livro não está numa eventual trivialização do Holocausto (os animais a representarem os judeus) mas na trivialidade dos seus processos narrativos. Sob a capa de uma alegoria provocadora, ele limita-se no fundo a contar a «mesma história» de que supostamente queria fugir, só que mal. Embora se pretenda sofisticada (com os seus vários planos narrativos), a escrita é apenas confusa, sem rasgo nem brilho, e muitas vezes insuportavelmente pretensiosa (as referências a Dante ou Diderot, por exemplo, são logo muito bem explicadinhas, não se dê o caso de o leitor não as compreender).
Vendo bem, Martel assemelha-se mais ao Henry-taxidermista do que ao Henry-escritor. O seu livro é como os animais expostos na loja: num relance, parecem vivos e perigosos; mas por dentro são feitos de matéria inerte, cuja única função é encher um espaço vazio.

Avaliação: 3,5/10

[Versão revista e ligeiramente aumentada do texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Out of the world

No cimo de um monte, a casa. À volta, árvores, estradas de cascalho, céu azul, brisa ligeira, um cão chamado Tommy que à noite uiva escondido nos canteiros, sob a lua cheia. Os telemóveis não funcionam, a internet é um país distante e inacessível, sobram os livros e a azáfama das crianças (felizes com a disponibilidade dos pais, libertos de correrias e horários). «Vamos ficar aqui até ao inverno?», pergunta a Alice. Era bom, era.

As minhas coordenadas GPS (durante os próximos 15 dias)

N – Longe
W – De tudo

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

White Jazz – Noites Brancas, de James Ellroy (Presença), por Paulo Nogueira
O Porco de Erimanto, de A. M. Pires Cabral (Cotovia), por António Guerreiro
Inverness, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
Versos de Cacaracá, de António Manuel Couto Viana (Texto), por José Mário Silva
Zeitoun, de Dave Eggers (Quetzal), por Luís M. Faria
Halley – O Cometa da República, de Joaquim Fernandes (Temas e Debates/Círculo de Leitores), por Rui Cardoso
Imagens Proibidas, de Pedro Paixão (Prime Books), por Ana Cristina Leonardo

Adivinha

Como é evidente, as certidões de óbito passadas aos livros na forma impressa não são de hoje. Veja-se o texto do post anterior: alguém quer arriscar a data em que Uzanne publicou a sua antecipação (La Fin des Livres, no original)?

O destino dos livros

«O que penso eu sobre o destino dos livros, meus caros amigos? A questão é interessante e apaixona-me tanto mais quanto nunca a tinha posto a mim mesmo até este momento preciso da nossa reunião.
Se por livros pretendem referir-se aos nossos inumeráveis cadernos de papel impresso, dobrado, cosido, brochado sob uma capa anunciando o título da obra, confessar-vos-ei francamente que não acredito – e que os progressos da electricidade e da mecânica moderna me proíbem de acreditar – que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso como intérprete das nossas produções intelectuais.
A tipografia, a que Rivarol chamou tão judiciosamente artilharia do pensamento, e da qual Lutero dizia que era o último e supremo dom pelo qual Deus difunde as coisas do Evangelho; a tipografia, que mudou o destino da Europa e que, sobretudo desde há dois séculos, governa a opinião, através do livro, da brochura e do jornal; a tipografia, que, a partir de 1436, reinou tão despoticamente sobre os nossos espíritos, parece-me ameaçada de morte, na minha opinião, pelos diversos gravadores de som que foram recentemente descobertos e que pouco a pouco se irão aperfeiçoar largamente.»

[in O Fim dos Livros, de Octave Uzanne, tradução de Jacinta Gomes, Palimpsesto, 2010]

Maria do Rosário Pedreira sobre ‘Curso Intensivo de Jardinagem’, de Margarida Ferra

Aqui.

Guerra & Paz edita livro vencedor do World Fantasy Award 2009

raparigas_urso

As Raparigas Que Sonhavam Ursos, da australiana Margo Lanagan, estará nas livrarias a partir de 28 de Julho. A escritora tem um blogue chamado Among Amid While, onde podemos encontrar o link para uma entrevista interessante que Lanagan deu à revista Meanjin.

Entre os leitores e os editores, uma ponte chamada Twitter

«Publishers have praised the merits of using Twitter to canvass readers opinions quickly, after the social networking site saw a flurry of consumers addressing publishers.
Last week readers used the hashtag (a phrase inserted into a tweet and used to link tweets on one subject) #dearpublisher to speak directly to publishers. The conversations began in America but were picked up by readers, authors, bloggers and publishers in the UK. It was among Twitter’s most popular trends at the time.»

Ler o resto do artigo de Victoria Gallagher, da revista The Bookseller, aqui.

Na terra dos khazares

cavalheiros_chabon

Cavalheiros da Estrada
Autor: Michael Chabon
Tradução: Fernando Villas-Boas
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-46-1979-8
Ano de publicação: 2010

Michael Chabon (n. 1963) é um autor norte-americano invulgarmente talentoso e ostensivamente camaleónico, capaz de escrever no registo naturalista típico dos textos de ficção da revista The New Yorker (com os seus casais desavindos, as frustrações quotidianas, o tédio da classe média à espera de uma epifania redentora) mas também de regressar a géneros literários considerados menores, reinventando-os à sua maneira. Foi o que fez em A Liga da Chave Dourada (Gradiva, 2003), que junta o escapismo houdiniano ao universo dos super-heróis dos comics, ou em O Sindicato dos Polícias Iídiche (Casa das Letras, 2009), que cruza uma história de detectives com um exercício de História alternativa, no qual o Alasca substitui Israel como Terra Prometida dos judeus sobreviventes do Holocausto.
Precisamente no mesmo ano em que O Sindicato… foi publicado nos EUA (2007), ganhando uma mão cheia de prémios literários no campo da Ficção Científica, Chabon ampliou ainda mais o seu espectro de géneros literários, atirando-se de cabeça a um romance de aventuras puro e duro. Dividido em 15 capítulos, publicados semanalmente pela revista do The New York Times (à boa maneira dos folhetins oitocentistas), Os Cavalheiros da Estrada é um soberbo pastiche dos clássicos de capa e espada, centrado em dois personagens inesquecíveis: Amram, gigante africano que maneja um machado viquingue com runas no cabo de freixo; e Zelikman, um franco judeu, magricela e loiro, iniciado nas artes da medicina, que só veste de negro e é atreito à melancolia.
Soldados da fortuna e ladrões de cavalos, zaragateiros de primeira apanha que fingem duelos para espoliar viajantes nos entrepostos mais manhosos da rota da Seda, eles atravessam o mítico reino dos Khazares (junto ao Mar Cáspio) e a turbulência militar do século X no Cáucaso, para repor uma certa ordem entre as ruínas e depois seguir caminho.
O estilo de Chabon é deliciosamente anacrónico, com frases longas, barrocas, multiplicando detalhes e metáforas. Há muita acção a galope, muita luta, muito sangue, muita intriga, muitos golpes de teatro. Imaginem Alexandre Dumas em modo irónico, consciente dos seus truques e excessos. Literatura de entretenimento, claro, mas gourmet. Tão boa que até os intelectuais mais preconceituosos a podem devorar sem sentimentos de culpa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Quetzal)

Para Setembro: As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow (tradução de Salvato Teles de Menezes); Alma Conservadora, de Andrew Sullivan (trad. de Miguel de Castro Henriques); Os Papéis de Rachel, de Martin Amis (trad. de Jorge Pereirinha Pires); Para Interromper o Amor, de Mónica Marques; e Livro, de José Luís Peixoto.

Black out

Esta manhã, durante umas horas, um servidor algures foi-se abaixo e o BdB ficou offline. Pela período de ausência, as minhas desculpas.

Bethânia na CFP

bethani

Quarta-feira, Maria Bethânia lerá Fernando Pessoa na casa do poeta.

Três poemas de Luís Pedroso

LÁ EM CIMA: VIDRINHOS, O ARRUMADOR SUPERSÓNICO

Conto as moedas todas nem mais uma
Um pacote de Bolacha Maria um de leite gordo
e três ou quatro bananas

Passo metade do meu precioso tempo
a glorificar deus
e a louvá-lo

A outra metade passo-a
a arranjar dinheiro suficiente
para o cavalo

***

NÃO ME PARECE QUE O AL GORE VISTA RÁFIA

O acelerador de partículas que instalaram na Suíça
não resolve o problema de aquecer água de manhã
nem estruma o quintal invadido por serralha e urtigas

Porque está bem de ver que a Suíça é muito longe
e o acelerador serve, imagino, para bombear
a água do mar que eles não possuem

As minhas mãos recusam-se, a partir deste momento
a fazer qualquer coisa que não seja retirar frutos
gordos e encarnados dos ramos

Os miúdos estão assustados com um indivíduo estrangeiro
Diz que é húngaro ou coisa assim
parece que se chama Euribor

Antigamente, quando era novo
conseguia ver muitos grupos de estrelas no céu
Hoje não vejo nada, as luzes não deixam ninguém ver

***

PRINCESAS DIANAS E ANTI-HERÓIS

Imaginámos santos, infantes e condestáveis
Capitães de Maio e de Abril
Meninos da lágrima e virgens de gesso
Ditadores de botas e pastorinhos de arremesso
Rainhas santas e ínclitas gerações
E o que temos são grades de minis e travessas de caracóis

Desejámos um país que não se resumisse
a travessias diárias do oceano
Bolas de berlim e guarda-sóis
Relíquias do Rio Jordão ou alegria do garrafão
e o urbanista apenas a distribuir centros comerciais
Portanto desejámos talvez demais

Recortámos o horizonte de um país de poetas
Rainhas depois de mortas e grutas para o Camões
Saudosismos de grandeza e hinos contra
os britões, sonhando com saldos e promoções
A invenção de fátimas, fados e futebóis
E temos o subsídio para uma alcatifa de girassóis

O corvo vai debicando os miolos de São Vicente,
aspirando a migrações
Crocitando os segredos da carbonária,
o corvo é o anti-herói,
farto de medalhinhas e superstições

E de vez em quando desaparecia pólvora dos armazéns
Querias um amor imune ao logro, à missão animal do isco
A perfuração dos anzóis
Mas a verdade é que vives num maravilhoso reino
de Princesas Dianas e anti-heróis
e o que me vale é que elas gostam de ir com eles para a cama
Princesas Dianas e anti-heróis

[in Princesas Dianas e Anti-heróis, edição do autor, 2009]

Casos

O livrinho chegou-me às mãos já nem sei bem como: Princesas Dianas & Anti-heróis, de Luís Pedroso (edição de autor, 2009). Quem acha que a poesia portuguesa não presta suficiente atenção à actualidade social e política do país, que ponha os olhos nas duas partes em que se divide esta obra. Título da primeira: ‘O caso BPN’. Título da segunda: ‘O caso Freeport’.

Mathias Énard: “Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele”

Durante quase duas décadas, Mathias Énard (n. 1972), um escritor francês com estudos de árabe e persa, atravessou a bacia mediterrânica em todos os sentidos, do Médio Oriente aos Balcãs, de Itália ao Magrebe. Antes de se instalar em Barcelona, onde vive actualmente, passou por Teerão, Cairo, Veneza, Damasco, Zagreb, Istambul, Argel, Beirute, e encontrou dezenas de pessoas que partilharam com ele memórias dos conflitos militares que desde sempre foram moldando, com fogo, sangue e cinzas, as fronteiras deste espaço geográfico. Ou desta Zona, como Énard lhe chama no seu quarto livro, um romance monumental, de fôlego épico, grande revelação da rentrée literária francesa de 2008, em boa hora editado pela Dom Quixote (e magistralmente traduzido por Pedro Tamen).
Num bar de hotel, em Lisboa, quase a regressar a casa após a participação no Festival Silêncio!, o escritor explicou-nos, com uma voz que parecia gravilha pisada, a génese de Zona: «Nas minhas muitas viagens, recolhi imensas histórias de pessoas que viveram na pele a violência da guerra. Fiz entrevistas, enchi cadernos de notas, mas não sabia muito bem o que fazer com aquele material todo.» Primeiro, pensou escrever um ensaio. «Seria uma análise da forma como os antigos combatentes contam as suas guerras, as palavras que utilizam e as narrativas que criam.» Mas as montanhas de informação recolhida não ganhavam forma e o projecto foi sendo adiado. Em 2005, Énard vivia na capital italiana e um dia, ao apanhar o comboio na gare de Milão, intuiu o que viria a ser a estrutura de Zona: um homem dentro de uma carruagem, numa viagem ao fim da noite e ao fim do mundo, com uma maleta cheia de segredos e a cabeça a abarrotar de histórias cruzadas, sobrepostas, enredadas umas nas outras. «Nesse momento, tive a certeza de que encontrara a ideia certa – o monólogo interior de Francis, o protagonista – e o modo de encaixar no romance todos os testemunhos soltos que tinha juntado. O resto foi uma questão de trabalho.»
Embora Zona deva ser lido como um livro de ficção, as histórias em que se inspira são quase todas verdadeiras. Ao recolhê-las, Énard sentiu-se mais um etnólogo do que um jornalista. «Há certamente pontos comuns entre as guerras, que no fundo são todas parecidas, mas cada um dos homens que inspiraram as personagens do livro é único.» Um dos aspectos que mais impressionaram o escritor foi o facto destas pessoas terem quase todas a sua idade: «Mas enquanto eles viviam a guerra, sentiam de perto as suas consequências e se arrastavam nos campos de batalha, eu gozava a minha juventude dourada e quase inútil. De certa maneira, quis embrenhar-me nessas vidas que não tive mas que poderia ter tido, caso fosse outro o meu lugar de nascimento.» E se há no livro uma grandeza e uma desmesura que remetem para a noção de epopeia (neste caso uma epopeia negra, sem heróis, consciente de que não há canto que redima o horror absoluto), Énard nunca deixa de centrar a sua atenção na experiência individual, muito nítida e recortada contra o fundo dos grandes movimentos colectivos da História. «O que me interessa são as intersecções entre trajectórias humanas autónomas, esses encontros tantas vezes fortuitos, casuais, surgidos do acaso.»

Num livro em que abundam as referências literárias, explícitas ou implícitas, é impossível ignorar o diálogo com a Ilíada. Tal como o poema de Homero, dividido em 24 cantos, Zona é composto por 24 secções. E há personagens do cerco de Tróia que invadem a longa frase contínua que Francis vai desdobrando na sua mente, durante a travessia nocturna de Itália. Não se procure, porém, analogias directas como as que Joyce estabeleceu com a Odisseia no seu Ulisses. Aqui, a intenção era outra: «Quis mostrar que existe de facto uma certa continuidade, pelo menos no plano literário, entre a forma como Homero mostrou a guerra na Ilíada e a guerra tal como ela é vivida pelos combatentes actuais. Claro que em Homero já encontramos tudo: a coragem, a cobardia, a dor, as feridas, a grande excitação que o combate provoca. Os códigos sociológicos é que não são os mesmos. Deixámos de viver num mundo governado pelos deuses, mas muitas coisas permanecem.» Mais do que paradigmas narrativos, Énard procurou um elo com o passado mais remoto da nossa civilização: «Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele.»
O título do livro, defendido com unhas e dentes no processo de edição, remete para um poema de Apollinaire, «talvez o primeiro poema da modernidade em França», cujos temas e ritmos vão permeando o texto do romance. Além disso, a palavra «zona» interessava a Énard pelo seu «lado de incerteza». Em termos geográficos, designa «um lugar que existe, porque ocupa espaço num mapa, mas ao mesmo tempo não tem fronteiras bem definidas». Na etimologia grega, zona é o mesmo que cintura, «aquilo que cerca as coisas». E no fundo é isso que este romance faz: cercar todo o tipo de coisas. Dos factos históricos (batalhas, atentados, etc.) às misérias incógnitas, das memórias perecíveis às imagens que nunca mais nos abandonam (as cabeças decapitadas dos quadros de Caravaggio, por exemplo, repetindo-se no obscuro rol das muitas vítimas do século XX).
Para não se perder nas dobras de uma frase interminável, que se estende por mais de 400 páginas, Énard cobriu uma parede com post-its de várias cores (uma para cada tempo histórico), onde resumia os vários episódios que se vão intercalando na narrativa. «A dificuldade estava nas transições, mas como tinha o conjunto do livro ali à minha frente, na parede, podia transferir facilmente segmentos inteiros de um lado para o outro, sem perder o fio à meada.» E pode dizer-se que na construção do livro há uma espécie de impulso wagneriano? «Sim. Como na ópera total, aqui não há recitativos, só música contínua, com leitmotivs, ressonâncias de umas partes para outras e mudanças súbitas de ritmo.»
O sucessor de Zona, entretanto, já existe. Tem publicação prevista para Setembro, em França, narra um episódio da vida do escultor Miguel Ângelo e é uma espécie de reverso da medalha, tanto na escala como no estilo: «Será breve, umas 150 páginas. E terá muitas frases, quase todas curtinhas.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O meu primeiro tiro

«Tenho a impressão de que ando aos tiros desde sempre, mas na verdade faço-o há pouco mais de três anos e, quando volto a pensar nos meus começos, sinto vergonha. Tudo se aprende. O alvo do meu primeiro tiro foi um homem ao volante de um táxi, no princípio da guerra. Acreditei que o tinha atingido porque o automóvel chocou a direito contra uma parede. Fiquei à espera, para o caso de o condutor sair. Todo eu tremia, apontando a minha espingarda para um lado e para o outro, a tentar perceber se alguém chegava para o socorrer. Disparei duas balas ao acaso, na direcção da porta da frente do lado esquerdo, mas era evidente que ele não saía e ninguém se aproximava. Eu tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que fazer, não via sequer o homem a sangrar por causa do tecto do automóvel, que me obstruía a visão, e comecei a entrar em pânico, no meu prédio a quinhentos metros. É o efeito da mira. Tinha a impressão de estar lá em baixo e já não me reconhecia. Já não sabia se eu era aquele que dispara ou aquele sobre o qual se dispara. Tinha medo, estava tão agarrado à minha espingarda que era como se estivesse fundido com ela. Para dificultar ainda mais as coisas, havia uma casa relativamente alta, do lado direito do automóvel, que me tapava a porta do passageiro. Alguém se aproximou de repente, a correr, no meu ângulo morto, disparei por reflexo na direcção do movimento e evidentemente falhei e atingi o automóvel, porque ainda não tinha compreendido que no visor avaliamos mal as distâncias entre os objectos. Fui obrigado a recarregar a arma, perdendo momentaneamente de vista o que se passava à minha frente; e, como antes não prestara a devida atenção ao lugar que tinha debaixo de olho, perdi algum tempo a reencontrar o automóvel no meio dos prédios, por causa do pânico. Transpirava, fazia muito calor, era verão, o início da guerra, e o suor que me escorria da cara impedia-me de olhar pela mira. Quando reencontrei o lugar, esperei um quarto de hora mas ninguém saiu do pior lado do automóvel. Estava frustrado, não sabia se o homem estava morto, e se tinha sido eu a matá-lo ou o acidente. Foi nesse momento que disse a mim mesmo que era um cobarde, porque escolhera o tiro mais difícil, um homem protegido em três quartos do seu corpo, dentro de um automóvel em movimento. No fundo, acho que queria dar-lhe uma hipótese, o que é uma cobardia. Ou se dispara, ou não se dispara. É preciso escolher, ou então somos cobardes. Mas isso só o compreendi mais tarde.»

[in La Perfection du tir, de Mathias Énard, Actes Sud, 2003; inédito em português, tradução de José Mário Silva]

Um palimpsesto prodigioso

Zona
Autor: Mathias Énard
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 469
ISBN: 978-972-20-4035-8
Ano de publicação: 2010

Francis Servain Mirković, espião de origem croata, sobe para o comboio Milão-Roma como quem prepara um apocalipse pessoal (revelação e fim do mundo). Na sua maleta transporta documentos com milhares de nomes: os nomes de carrascos e vítimas das muitas guerras a que a orla mediterrânica assistiu nas últimas décadas. São segredos acumulados durante anos de trabalho nos serviços secretos franceses, informação de que pretende desfazer-se, vendendo-a ao Vaticano para depois iniciar uma vida nova.
Ele define-se como um «historiador da sombra», um «arqueólogo da loucura» que sondou «coisas desaparecidas, enterradas, para delas fazer brotar cadáveres, esqueletos, fragmentos, restos de histórias». E é tudo isso, a densa rede de experiências pessoais e alheias, sobrepostas como «uma teia de aranha em redor do vazio», é tudo isso que converge para a sua cabeça insone, na travessia da noite e da memória. No longo monólogo interior de Francis (só interrompido pela leitura de um livro dentro do livro, também ele sobre a guerra e suas devastações), cabe um inventário bastante completo do horror no século XX, mas também no passado mais remoto, de Tróia a Lepanto, de Homero a Cervantes.
Ao longo da viagem, a maleta esvazia-se como a caixa de Pandora, um catálogo de males sem direito à esperança. E a imensa frase única, que atravessa as quase 500 páginas deste prodigioso palimpsesto, cerca-nos e morde-nos e esmaga-nos, até à rendição incondicional.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Livros de Areia)

Fome, de Elise Blackwell, com tradução de Safaa Dib.

Maravilhas da paternidade

Pedro: Sabias que há meninos lá na escola que pensam que a bandeira portuguesa só tem duas cores?
Eu: Vermelha e verde, não é?
Pedro: Sim.
Eu: Mas tu sabes que são três cores.
Pedro: Três cores?
Eu: Sim. Vermelho, verde e amarelo.
Pedro: Ó pai, mas não são três cores!
Eu: Então?
Pedro: São cinco. Não sabes? [Expressão facial de incredulidade absoluta.] Vermelho, verde, amarelo, branco e azul. Nunca viste que há coisas azuis [quinas] no meio da parte amarela [esfera armilar]?

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Beatriz e Virgílio, de Yann Martel (Presença), por José Mário Silva
À Porta Fechada, de Laurence Rees (Dom Quixote), por Luís M. Faria
Porque é que o seu mundo vai ficar muito mais pequeno, de Jeff Rubin (Lua de Papel), por Virgílio Azevedo
Einstein & Oppenheimer – O significado do génio, de Silvan S. Schweber (Bizâncio), por Paulo Nogueira
O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Morfologia Social, de Maurice Halbwachs (Edições 70), por António Guerreiro

Sob o signo da beleza extrema

necrophilia

Necrophilia
Autor: Jaime Rocha
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-162-6
Ano de publicação: 2010

Jaime Rocha encerra, em Necrophilia, um ciclo poético iniciado com Os Que Vão Morrer (2000), Zona de Caça (2002) e Lacrimatória (2005). Inspirada no universo pictórico dos pré-rafaelitas, em particular na relação obsessiva entre Dante Gabriel Rossetti e Elizabeth Siddal (sua musa e modelo), a Tetralogia da Assombração fecha com o livro «da Culpa e do Lamento». Estamos no domínio do amor para além da morte, do amor na morte, o que significa que Jaime Rocha prossegue a partir do ponto em que o romance Adoecer, de Hélia Correia (também publicado pela Relógio d’Água, quase em simultâneo), se suspende. Fixando visões paralelas e complementares sobre a mesma matéria literária, os livros são como que o reverso um do outro, nascendo de uma fascinação comum e partilhada pelo mistério do «desejo negro» que uniu Rossetti e Siddal.
No seu iluminador prefácio, João Barrento sugere que esta poesia instaura um «tempo suspenso», uma «temporalidade sem tempo». E é nessa espécie de hiato que se recortam as figuras que atravessam todos os livros da tetralogia, como projecções do imaginário medieval dos pré-rafaelitas: o pedreiro («construtor de túmulos»), o cavaleiro, o guerreiro, o homem da montanha. Todos eles subjugados, aqui, pela «sombra mágica» que emana do peito da mulher que deixou de viver mas cujo corpo ainda parece dar sentido a todas as coisas. Edgar Allan Poe, em epígrafe, afirma que não há tópico mais poético do que a morte de uma mulher bela. Morte que se transforma, neste caso, numa «presença devoradora», capaz de obliterar as paisagens e de nos aproximar da loucura, de um paroxismo em que o olhar se despedaça, como «uma palavra cortada por um fio / de nylon».
Se há neste longo poema em cinquenta estrofes uma narratividade, trata-se de uma narratividade estática. O texto avança por golpes e fulgurações, uma vertigem de imagens poderosas sucedendo-se umas às outras, deixando atrás de si um rasto de desolação, sofrimento e desamparo. Absolutamente singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea, a escrita de Jaime Rocha surge-nos neste livro em todo o seu esplendor, sob o signo de uma «beleza extrema», torturada e herbertiana:

O homem vê uma mancha ao fundo a
mexer-se na sua direcção. É a barca de
Caronte que regressa. A terra engrossa
quando a água é empurrada e o homem
devorado pelo lixo. Os seus pulmões
enchem-se de vazio e morrem, como dois
milhafres deitados num campo de sal. A sua
dor tornou-se mais forte do que as raízes que
rompem o alcatrão. Uma coisa não pássaro
o que ele vê, um vidro a nascer dos socalcos,
um crepúsculo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

A raça da corrida

Há uns dias, a Maria do Rosário Pedreira referia-se no seu blogue às traições dos tradutores, dando exemplos de erros básicos, cometidos tanto por maus como por bons profissionais. Nem de propósito, saltou-me aos olhos precisamente um desses erros no livro que estava a ler naquele momento. Aparece a páginas 57 do romance Beatriz e Virgílio, de Yann Martel (Presença, tradução de Fátima Andrade):

«Fornecemos lebres mecânicas para raças de galgos»

Evidentemente, onde está «raças de galgos» devia estar «corridas de galgos» («greyhound races»).

Outra Babel

O site do Jornal de Notícias tem um blogue sobre livros chamado Babel. Sem bibliotecários, mas com dois profissionais diligentes à frente do projecto: Elmano Madail e Sérgio Almeida.

Logo à noite, apresentação do primeiro livro de um poeta brasileiro (com o autor ausente)

Convite_Daniel_Francoy

Quatro poemas de Daniel Francoy

A CHUVA

A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga os rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.

Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.

***

MENINOS EM FÉRIAS

As pipas que plainam livres e serenas.
Montá-las exige a perícia de Dédalo
e mantê-las no ar a audácia de Ícaro.
Mas os meninos ignoram os deuses
e pouco importa que as ruas da cidade
sejam o labirinto onde vive o minotauro.
O que os meninos desejam é o céu
e se uma pipa adeja sem dono
uma multidão de crianças a persegue
ainda que ela se misture ao sol:
pouco importa a queda de Ícaro
se a infância é o mais duradouro mito.

***

AGOSTO OU A CHEGADA DO CALOR

Julho se esfarela e agosto
ergue-se sobre as nossas cabeças –
esbrasear limpo e antigo que desperta
a paixão pelas línguas latinas
e na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vaga-lumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Esbrasear limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.

***

WALESKA

Todos desprezam e debocham de Waleska,
Waleska julga serem gente
os seus animais de estimação,
é virgem aos vinte e dois anos,
é magra, tem a pele seca, os seios murchos
e a voz aguda não anuncia uma mulher
apetecida pelos homens.
Mas creio que Waleska se fecha no quarto
e lá, livre dos deboches e dos olhares,
as pernas se entreabrem úmidas
e o êxtase que turva os olhos desamparados
a deixa inesperadamente bela.

[in Em Cidade Estranha, seguido de Retratos de Mulheres, Artefacto, 2010]

Marketing moluscular

Era uma questão de tempo.
Depois do Mundial e do sainete divinatório do polvo Paul, alguém acabaria por pegar na deixa para efeitos promocionais.

paul

‘Dublinesca’

Enquanto vai traduzindo para a Teorema o último romance de Enrique Vila-Matas, o Jorge Fallorca partilha connosco alguns magníficos excertos do seu trabalho. Um privilégio, é o que vos digo.

O que aí vem (Gradiva)

Parrot e Olivier na América, de Peter Carey; Tudo é Relativo e outras lendas da ciência e da tecnologia, de Tony Rothman; Voar Sem Medo – Guia prático para voar confiante e descontraído, de Cristina Albuquerque (coordenação).

Notícia do intercâmbio

O Estêvão Haeser, um dos organizadores do I Fórum de Intercâmbio Cultural Lisboa-Porto Alegre, que decorreu segunda-feira na Ler Devagar, fez um relato das várias sessões no seu blogue.

A caligrafia de Matilde

Este é um dos muitos poemas que Matilde Rosa Araújo copiava à mão («numa altura em que não havia fotocópias, muito menos scanners e impressoras») para dar a ler às suas alunas do Magistério.

[via blogue da Planeta Tangerina]

Maravilhas da paternidade

Diz o Pedro: «Sabes, no fim a história [Alice no País das Maravilhas] é só um sonho, mas eu acho que aquilo não é um sonho, é uma inventação.»

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges