Stieg Larsson e a cafeína

Um debate.

O poster que todos os escritores aspirantes deviam colar na parede do escritório (e alguns dos escritores consagrados também)


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[via Blogtailors, que o foi buscar a este post do Paper Cuts]

‘Livros das nossas vidas’

O editor da Sextante, João Rodrigues, falará sobre Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway (1940), em mais uma sessão do ciclo ‘Livros das nossas vidas’, organizado pela Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. É já amanhã, quinta-feira, a partir das 18h00. À noite (21h30), será exibida a adaptação cinematográfica do romance: Por quem os sinos dobram, de Sam Wood (1943).

Bookshelf Porn

«A collection of all the best bookshelf photos for people who *heart* bookshelves.»

Temer pelos teatros da memória

«What concerns me about the literary apocalypse that everybody now expects—the at least partial elimination of paper books in favor of digital alternatives—is not chiefly the books themselves, but the bookshelf. My fear is for the eclectic, personal collections that we bookish people assemble over the course of our lives, as well as for their grander, public step-siblings. I fear for our memory theaters.»

O artigo completo de Nathan Schneider, publicado no Open Letters Monthly, pode ser lido aqui.

O Verão de Alice

É um Verão a pedir chá gelado. O Verão da Alice, a melhor revista online portuguesa. Para ler devagar e com vagar. Aos poucos. Sombra a sombra, texto a texto, imagem a imagem.

Um veneno sem antídoto

Pequeno divertimento sobre literatura em cem lições também conhecido sob o título Substâncias Perigosas em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados e mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais
Autor: Pedro Eiras
Editora: Livrododia
N.º de páginas: 211
ISBN: 978-972-8979-35-5
Ano de publicação: 2010

Ensaísta, dramaturgo, poeta e ficcionista, além de professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Pedro Eiras assenta o seu mais recente livro, Substâncias Perigosas (versão resumida de um título quilométrico), numa ideia forte, proclamada com estrépito logo na frase inicial: «Não consigo abrir um livro sem terror: acredito que a literatura mata.»
As cem lições que se seguem, em forma de «pequeno divertimento», mostram que o terror de Eiras está longe de ser apenas metafórico. Ou seja, em tempos de brandura pós-moderna, com as fórmulas de entretenimento fácil a servirem de anestesiante para as massas leitoras, o que ele reivindica é nada menos do que o poder mortal da literatura: «Alguns livros convidam a matar. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais subtis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual.»
Definido o veneno, para o qual não existe antídoto, o «sujeito pensante» enceta uma reflexão em deriva contínua, abarcando quase todas as declinações possíveis do seu tema: não apenas a morte pela escrita (dos suicídios reais provocados pelo Werther, de Goethe, ao castigo para quem lê um livro proibido, ficcionado por Umberto Eco em O Nome da Rosa), mas também a escrita sobre a morte, em Czeslaw Milosz, Bataille, Camus, Sarah Kane, Arthur Conan Doyle, Freud, Séneca, Saramago, Sade, De Quincey, entre outros. Mas o que torna este périplo estimulante é o facto de Eiras assumir o ensaio como género literário infinitamente elástico e absolutamente livre, feito de avanços e recuos, exageros e contradições, erros e surpresas, ironia e jogo, experimentação e risco.
Referindo-se aos textos fragmentários no próprio acto de os escrever, o autor afirma não saber «se são ensaios, ou crónicas, ou monólogos de personagens sem romance». E importará assim tanto classificá-los? Na sua desordem lúdica, um caos que imita a complexidade ramificada do pensamento à solta, eles alinham-se como frutos impuros de uma inteligência desencaminhada e desencaminhante. O livro, este livro, talvez não aspire a matar-nos, talvez ainda não, talvez nunca, mas enquanto leitores «devemos tornar-nos dignos da ameaça».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]

Livrododia (5 anos)

A livraria Livrododia, de Torres Vedras, completou ontem cinco anos de vida. Um lustro. Que viva muitos mais: anos e lustros.

LeYa vai apostar nos e-books

Num momento em que o mercado dos leitores de e-book continua a crescer (e o preço dos aparelhos a baixar), a LeYa assume, já a partir da próxima rentrée, a aposta numa plataforma de livros em formato digital, centrada na sua livraria online (a Mediabooks) e com um catálogo de «grandes autores lusófonos». Entre os primeiros títulos disponibilizados, estarão livros de José Saramago, Mia Couto, José Eduardo Agualusa e António Lobo Antunes.

Três poemas de Alberto de Lacerda

VERMEER

To John McEwen

A arquitectura das mangas
Brancas
De quem vai respondendo
A uma carta
(No chão de mármore
O lacre
Saltou
Da carta amarrotada)

Delft
Labirinto
Exteriorizado
Em meditação frontal
Sereníssima

A claridade
(Vinda das janelas)
As sombras
As transições
O deleite
Nos espaços confinados
E inteiramente abertos
À imaginação

Chão
Geométrico
Limpo de tudo
Menos do passado e do presente

O presente
Içado das profundas imemoriais
Sem resquício algum
De nostalgia

Tudo é
O que ali está
E o que ali está
Nunca mais acaba

É o concreto absoluto
E quase insuportável
De quem viu claramente visto
Como um danado

Cada detalhe vive
Inteiro
Íntegro –
Sua importância é igual
Ao inteiro mundo

O mistério dos mistérios
Ali está
Visível
Manifesto
Mas ninguém sabe o que é
Só quem pintou o real
Em toda a sua nudez

Washington, 23 de Janeiro de 1996

***

LONDRES REENCONTRADA

O passeio do outro lado da rua

Gente
Que não conhecerei nunca

Ninguém mais nesta mesa
De um café milenário –
Raras vezes
Terei estado menos só

A nave espacial chamada terra
Singra comigo tarde adiante

Tudo volve milenário
As pedras da rua
O cimento gasto do passeio
As recordações

Londres, 3 de Novembro de 1996

***

REGRESSO

Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos

A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência

Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço

Vem
[irreconhecível
Ao meu encontro

Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente

O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver

Londres, 25 de Novembro de 1996

[in O Pajem Formidável dos Indícios, Assírio & Alvim, 2010]

O que aí vem (Dom Quixote)

O Bom Inverno

O Bom Inverno, estreia de João Tordo na Dom Quixote e o seu primeiro romance pós-Prémio José Saramago; Crimes, de Ferdinand von Schirach; O Oficial Polaco, de Alan Furst; O ABC da Crítica, de Nuno Júdice. Nas livrarias a 28 de Agosto.

Intercâmbio Lisboa-Porto Alegre

Hoje, na Livraria Ler Devagar (Lx Factory), decorre o I Fórum de Intercâmbio Cultural Lisboa-Porto Alegre, cuja programação pode ser consultada aqui. As actividades começam pelas 16h00 (um workshop intitulado ‘Escrever para não ser apagado’) e terminam com um sarau, marcado para as 20h00, em que haverá leitura de poemas e música (pelo brasileiro Estêvão da Fontoura, seguido pelo português João Coração). A partir das 18h00, participarei na mesa 1 (em que se discutirá ‘A Literatura e a Cidade’).

Tudo está bem quando acaba bem

Os espanhóis festejam que nem loucos porque ganharam merecidamente o Mundial: são a melhor equipa, com os melhores jogadores e o melhor estilo de jogo (e também, há que dizê-lo, os mais protegidos ou beneficiados pelas arbitragens). Os portugueses não festejaram que nem loucos porque têm Carlos Queirós e aquela incapacidade de levar os sonhos até às últimas consequências, uma espécie de inibição diante da grandeza.
De qualquer modo, as coisas até podiam ter corrido muito pior. Perdemos nos oitavos, sim, mas com os futuros campeões, que ainda por cima só nos vergaram com um golo em fora-de-jogo. Ou seja, vitória real, a deles; vitória moral, a nossa. O costume.
Fora isto, parabéns ao uruguaio Forlán (melhor jogador do campeonato), a Casillas (o guarda-redes que salvou a Espanha na final e ainda beijou a namorada/jornalista como se estivesse no epílogo de uma comédia romântica) e ao polvo Paul, claro, que percebe mais de futebol do que a maioria dos comentadores encartados (há mesmo quem diga que substituirá, em breve, Rui Santos na SIC).

O objecto letal da sua estima

«Durante anos sem conta um mainá espantou os viajantes juntos no caravansarai com a sua capacidade de despejar indecências em dez línguas diferentes e, antes de a rixa ter rebentado, toda a gente tinha tomado por certo que fora o demónio de língua azul no seu poleiro ao pé da lareira quem tinha caluniado o gigante africano com a sua verve tão suja. Embrenhado no estudo de um pequeno tabuleiro de shatranj em marfim, com peças de ébano e chifre, para além do guisado de grão-de-bico, cenouras, limões secos e borrego que fazia a fama daquele pouso de caravanas, o africano defendia o lugar mais próximo da lareira, com as costas largas viradas para o pássaro, com vista para as portas e para a janela de gelosias escancaradas para o crepúsculo azul. Naquele anoitecer temperado de Outono no reino de Arran, nas faldas orientais do Cáucaso, somente os dois nativos das selvas ardentes, o africano e o mainá, procuravam aquecer os ossos. No seu gibão cinzento acolchoado, com um capuz gasto, vestido por cima de uma túnica branca desfiada, restava a marca do antigo serviço nos exércitos de Bizâncio, tanto quanto nas ilhoses de latão das correias dos seus borzeguins havia a sugestão de uma estada no Ocidente. Ninguém se arrojou a descobrir se o discurso sobre impérios conhecidos, domínios de Khans, emiratos, hordas e reinos era intelígivel para ele. Com a pele lustrosa como o desgaste duma chaleira de cobre, os olhos femininos como os de um camelo e o crânio brilhante com o seu rufo de lã, cujo tom prateado inferia uma posição alcançada apenas pelos homens mais calejados, e, acima de tudo, com a postura imóvel que proclamava a todos ali uma natureza capaz de matar, menos talvez aos mais verdes no trânsito daquele desvio menor da Rota da Seda, o africano não tinha o ar de convidar, nem sequer prometer, ou tolerar, quaisquer perguntas. Por isso, entre os viajantes reunidos no caravansarai, houve um momento de espanto pela temeridade do pássaro, quando pareceu querer dizer, no seu excelente grego, que o africano consumia a sua comida com a mesma técnica de rapinar cadáveres que seria de esperar dos filhos bastardos de um abutre careca e de um macaco da Berbéria.
Por um momento, depois de o insulto ter sido berrado, o africano continuou a comer, sem desviar os olhos do tabuleiro de shatranj e sem parecer sequer que tinha chegado a ouvir o aparte. E então, antes de alguém ter percebido que tão elaborada calúnia estava para além dos poderes do mainá, e que o pássaro estava inocente, por uma vez, da difamação, o africano lançou a mão esquerda ao borzeguim do pé direito e, num gesto contínuo, fluido e sem quebra como o do falcoeiro quando solta ao céu o objecto letal da sua estima, ergueu uma fagulha reluzente de aço árabe, com o cabo rude entrapado em fitas de couro, e atirou-a, à caça, por cima das mesas toscas.
O mancebo imberbe que estava sentado à direita da vítima, mais o cornaca zarolho que era o companheiro do mancebo, jamais esquecerão o gemido da lâmina a cortar o ar. Com o ruído de um envelope a ser aberto por uma mão impaciente, a lâmina entrou pela copa do chapéu preto de abas largas da vítima, um espantalho de cabelo claro de alguma terra cercada de nevoeiro, que tinha chegado a cavalo nessa tarde pela estrada de Tiflis. Era um tipo franzino, de pernis magros e aspecto sombrio, branco que nem uma vela de sebo, o cabelo caído em duas cortinas douradas de cada lado da face alongada. Ouviu-se um ressoo estremecido como o de uma seta a espetar-se numa árvore. O chapéu voou da cabeça do espantalho, como se a marcar tanta surpresa, e cravou-se numa trave da parede grosseira, ao mesmo tempo que ele soltava um som do outro mundo, na algaraviada cheia de reuma do seu país.
Na lareira, um castelo brilhante de brasas desfez-se em cinza. O cornaca ouviu o sacudir do ferro de uma chaleira a ferver na cozinha. A mobília rangeu e os viajantes cuspiram, antecipando uma rixa.»

[in Cavalheiros da Estrada, de Michael Chabon, tradução de Fernando Villas-Boas, Casa das Letras, 2010]

Maravilhas da paternidade

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Como a Alice me vê, aos cinco anos e meio.

Desafio do dia

19h30: Gerard Reve – Max Aub

Novalis à flor da relva

Andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo, seguindo com os olhos, através das páginas e das décadas, a trajectória de uma bola de basebol, esfera de couro com coração de cortiça, pré-Sputnik que ao invés de entrar em órbita caiu na bancada de um estádio nova-iorquino numa tarde de Outubro de 1951, invertendo a lógica desportiva, protagonizando um home run mítico, perdendo-se no meio do público até que um escritor, quase meio século mais tarde, fez dela o MacGuffin de um romance que tenta agarrar por vários lados a América desse quase meio século, andava eu mergulhado na leitura do Submundo de Don DeLillo quando dei por mim a pensar que não existe nenhuma obra de ficção que cruze desta forma a História de Portugal com o desporto mais importante do país (o futebol, claro), ainda para mais um desporto que exclui praticamente todos os outros, o que não acontece nos EUA, onde DeLillo podia ter escolhido tranquilamente outra modalidade, basquetebol, futebol americano, até hóquei no gelo.
Assim de repente, lembro-me de El-Rei no Porto, de Fernando Venâncio (ASA, 2001), ficção que imagina Portugal dividido ao meio, reino a Norte, república a Sul, e termina com um jogo entre as respectivas selecções, equipada de azul e branco a primeira, de verde e vermelho a segunda, partida que tem como palco o Estádio Nacional, na Cruz Quebrada, e acaba em 3-3, empate sumariamente descrito num parágrafo de dez linhas, mera antecâmara do desenlace narrativo que desemboca numa última palavra – bizarra coincidência – que é também a última palavra do Submundo de DeLillo («paz»). Há ainda O Suplente, de Rui Zink (Publicações Europa-América, 2000), com descrições bastante realistas do jogo e um uso intensivo do futebolês, sempre desconstruído pela ironia (por exemplo, um avançado que às tantas sai por lesão, especialista em bolas paradas, chama-se Hipérbato). Mas o romance que melhor se apropria do futebol como matéria narrativa, de entre os que por cá se foram publicando, continua para mim a ser Alma, de Manuel Alegre (Dom Quixote, 1995). Logo no primeiro capítulo, o narrador, ainda criança, depara-se com um dilema. «Republicano e revolucionário» por influência da avó, ele é esperado no comício da oposição. Só que à mesma hora o Beira-Rio joga com o Vista Alegre no campo de S. Cristóvão. Cidadania ou futebol? O coração de adepto fala mais alto e ele acaba por ir ao jogo, mas antes do fim lá o arrastam para o Cine-Teatro onde o comício decorre, prestes a ser perturbado pelas provocações dos situacionistas, pequena multidão que à pergunta «Quem manda?» responde «Salazar, Salazar, Salazar». Tanto de um lado como do outro, acaba tudo em pancadaria. E a descrição dos golos, dos penalties defendidos e da invasão de campo, em paralelo com os discursos inflamados, a surra nos salazaristas e os gritos de «Viva a República!», ocupa umas quinze páginas que estão entre as melhores da literatura portuguesa dos últimos anos.
Por muito vibrantes que sejam, estes episódios de Alma são remotos (fim da II Guerra Mundial). Falta quem escreva sobre factos mais próximos. A final da Taça de Portugal de 1969, por exemplo, perdida pela Académica diante do Benfica (1-2), mas aproveitada para um prolongamento da luta dos estudantes contra o regime. Ou a final do Euro 2004, espécie de castigo grego pelo desperdício de dinheiros públicos em estádios que depois ficaram vazios. Eu diria que um romancista à altura da tarefa é Rui Cardoso Martins, autor de uma peça teatral que já se aproxima bastante do anti-clímax de há seis anos. Intitula-se Apanha-Bolas (edição Culturgest, 2010), resultou de uma encomenda do projecto Panos (que associa a nova dramaturgia ao teatro escolar/juvenil) e parte de um conflito moral: será que devemos fazer o que está certo quando o que está certo (não atrasar a entrega da bola ao adversário) pode ser entendido como uma traição à pátria? Mais do que da História, o futebol aproxima-se aqui da Filosofia, por entre referências ao YouTube e os palavrões das claques. Reconfortante é ouvir um apanha-bolas citar Novalis logo na primeira fala: «A virtude deve desaparecer de novo e tornar-se inocência.»

[Texto publicado no n.º 92 da revista Ler]

A poesia das incertezas

Enrique Vila-Matas sobre A Tarde do Sr. Andesmas, de Marguerite Duras, hoje no suplemento Babelia.

Desafio do dia

19h30: Cristina Peri Rossi – Thomas Mann

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Zona, de Mathias Énard (Dom Quixote), por José Mário Silva
Os Pés do Cordeiro, de Leonel Brim (Bizâncio), por António Guerreiro
Filhas Sábias, de Angela Carter (Bertrand), por Luís M. Faria
Caramulo – Ascensão e Queda de uma Estância de Tuberculosos, de António José de Barros Veloso (By the Book), por Rui Cardoso
O Homem que Queria Salvar o Mundo, de Samantha Power (Casa das Letras), por Micael Pereira
Nacionalistas de Moçambique – Da Luta Armada à Independência, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (Texto), por Luísa Meireles
No Funchal, o Maquinista, de António Fournier e Marco Avoletta (Scritturapura Editore), por António Loja Neves

Revista ‘Ler’, n.º 93

Já nas bancas, tarde mas a boas horas.

Porto e Tejo e Tudo

A bordo de um barco que levou depois os jornalistas numa volta pelo Tejo (Alcântara-mar da Palha-Algés-Alcântara), a Porto Editora apresentou as suas novidades para os próximos meses, explicadas por Manuel Alberto Valente (Divisão Literária de Lisboa da Porto Editora), João Rodrigues (Sextante) e Cláudia Gomes (Divisão Literária do Porto da Porto Editora). Na ausência por doença de Paulo Gonçalves, responsável pela comunicação da PE, a sessão foi moderada por Rui Couceiro.
Das dezenas de propostas apresentadas, destaco apenas as que mais me interessaram e sobre as quais virei eventualmente a escrever. Para Setembro está prevista a saída de O seminarista, de Rubem Fonseca (Sextante), A Cidade do Homem, de Amadeu Lopes Sabino (Sextante) e Adeus, Até Amanhã, de William Maxwell (Sextante). Em Outubro, Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora), Mercado de Ilusões, de Felipe Benítez Reyes (Sextante) e A Assombrosa Viagem de Pompónio Flato, de Eduardo Mendoza (Sextante). Em Novembro, Gente do Sul, de Pat Conroy (Porto Editora), A Filha do Coveiro, de Joyce Carol Oates (Sextante) e Roma, de António Mega Ferreira (Sextante).
Manuel Alberto Valente deu ainda aos presentes uma notícia (julgo que em primeira mão): o escritor brasileiro Rubem Fonseca virá em Fevereiro às Correntes d’Escritas, como convidado de honra a quem caberá proferir o discurso de abertura. Por essa altura, a Sextante deverá publicar um segundo livro de RF, também inédito em Portugal: Bufo & Spallanzani.

O que aí vem (Babel)

Aproveitando o impacto mediático da recente atribuição a Ferreira Gullar do Prémio Camões, a Babel vai iniciar a publicação integral da obra do escritor brasileiro. Já no prelo, com lançamento previsto ainda para este mês de Julho, está uma das obras essenciais de Gullar: o livro Poema Sujo, escrito em 1975, durante o exílio na Argentina (onde se refugiou durante a ditadura militar). Vinicius de Moraes referia-se a Poema Sujo como «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últi­mas décadas». Em Setembro, surgirá o muito esperado novo livro de poemas de Gullar, Em Alguma Parte Alguma, coincidindo com a edição brasileira (José Olympio), já apontada como um dos acontecimentos editoriais do ano no Brasil (é o primeiro de poesia que Gullar publica desde Muitas Vozes, de 1999). Seguir-se-ão mais dois volumes: Cidades Inventadas (ficção) e Rabo de Foguete – Os Anos do Exílio (memórias).

Rentrée da Porto Editora

Poucos dias após a confirmação do negócio do ano (compra dos activos do Direct Group), a Porto Editora apresentará esta manhã, em Lisboa (numa conferência de imprensa que incluirá um passeio de barco no Tejo), as suas novidades para os quatro últimos meses de 2010. À tarde, tentarei resumir aqui as principais apostas da PE e da Sextante, indicando os livros que no meu entender suscitam maior expectativa.

O polvo é quem mais ordena

Horizontalidade e Verticalidade

«O homem da posição vertical aproximou-se do homem da posição horizontal, afivelando no rosto crispado uma expressão de indizível náusea.
Por fim, numa decisão irreprimível, optou por insultá-lo:

– Pulha! Escroque! Canalha! Criatura ignóbil! Monte de esterco!… Dejecto social!
Parou aí, também para respirar e ganhar algum fôlego, mas pareceu vagamente satisfeito com a imagem visual e olfactiva dessa última injúria, permitiu-se até repeti-la:
– Dejecto social, é isso! Não passas de um cagalhoto!
O homem da posição horizontal não respondeu nem reagiu. Tinha os olhos semicerrados e uma expressão de soberana indiferença que se tornava profundamente irritante.
Essa atitude acicatou ainda mais o furor do homem da posição vertical. Cerrava os punhos, cravando as unhas na palma das próprias mãos, e a voz tornara-se rouca de tanto ódio acumulado:
– Sabes o que é um miserável? Não sabes… Pois eu explico: és tu!… E sabes o que é um crápula? Pressuponho que também não saibas… Mas eu volto a explicar: és tu!… E terei porventura de te explicar o que é um ser abjecto, destituído de qualquer réstia de vergonha, um castrado da dignidade?!… Pois bem: és tu!
O homem da posição horizontal mantinha o hermetismo silencioso da sua horizontalidade.
E essa postura impávida revelava-se ainda mais provocatória do que as injúrias lançadas pelo homem da posição vertical, obrigava-o mesmo a tornar-se prolixo na expressão dos impropérios:
– A tua vida, essa coisa repelente que tem sido a tua presença junto de nós, não passa de um lamaçal de águas pútridas! És uma fonte de escarros ranhosos!… Serves-te cobardemente da tua actual posição e dos privilégios que ela te concede para alcançares uma imunidade tão sórdida como ilegítima! És filho da infâmia e abrigas-te atrás de uma barreira de repelência!
O homem da posição horizontal continuava estático e sereno. Na sua imutável frieza, dir-se-ia uma estátua jazente, com algo de tenebroso nessa absoluta insensibilidade.
Desesperado com a ineficácia do seu discurso, o homem da posição vertical dava mostras de descontrolo emocional, temia-se a cada instante que passasse das palavras aos actos, que recorresse à violência. Recorreu apenas ao cuspo, mas acabou lamentavelmente babado, sem conseguir acertar no alvo, e sentiu que seria talvez melhor e mais digno retirar-se, afastar-se para sempre do homem da posição horizontal, não sem antes lhe apontar o dedo acusatório e proferir com acentos dramáticos:
– O que te vale neste momento é que eu recuso rebaixar-me ao nível a que chegaste!
Afastou-se em passada lenta mas decidida.
E, nesse momento, surgiram dois homens de aspecto soturno que retiraram umas flores do caminho e comunicaram a uma senhora vestida de negro que se amparava a amigos e familiares:
– Se Vossa Excelência permite, será talvez altura de fecharmos o caixãozinho…»

[in Os Devoradores de Livros, Oficina do Livro, 2010]

Amanhã, lanche para devoradores de livros (na antiga Buchholz)

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Apareçam.

2011: o ano de António Lobo Antunes em França

A MC93, uma das principais instituições teatrais francesas, vai dedicar a primeira metade da sua temporada de 2011 a António Lobo Antunes. Entre Janeiro e Junho, os 25 livros do escritor português editados em França (pelas Éditions Christian Bourgois) serão o mote para uma homenagem inédita – nunca a MC93 dedicara uma parte tão significativa da sua programação a um só escritor. Para as três salas deste teatro de Bobigny, estão previstas, sucessivamente ou em simultâneo, leituras, conferências, ateliers, instalações e espectáculos inspirados nas obras de Lobo Antunes.
Entre os participantes na homenagem estão os encenadores Georges Lavaudant, Patrick Sommier, Toni Servillo e Jean-Michel Rabeux, os actores Patrick Pineau, Maria de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Gilles Arbona, Hervé Briaux e Claude Degliame, entre outros. Está também prevista a participação do escritor Olivier Rolin e do dramaturgo David Lescot. O programa definitivo será anunciado no próximo mês de Outubro.

Saramago na ‘Lire’ (número de Julho/Agosto)

saramago_lire

[Agradeço a dica e a digitalização do texto à leitora Joana Valente]

Primeiros parágrafos

«Seis norte-africanos estavam a jogar boule sob a estátua de Flaubert. As pancadas secas ouviam-se sobre o ruído do trânsito congestionado. Com uma última carícia irónica, uma mão escura lançou uma bola cor de prata. Esta tocou o chão, saltou pesadamente e curvou devagar espalhando a poeira endurecida. O jogador ficou como uma estilizada estátua temporária: os joelhos um pouco dobrados e a mão direita erguida e estática. Reparei na camisa branca arregaçada, no antebraço nu e em algo redondo na parte de trás do pulso. Não um relógio, como primeiro pensei, nem uma tatuagem, mas uma decalcomania colorida: o rosto de um chefe político muito admirado no deserto.»

[in O Papagaio de Flaubert, tradução de Ana Maria Amador, Quetzal, 2010]

Desafio do dia

19h30: Alfred Döblin – Miguel de Unamuno

A separação interminável

Flores Azuis
Autora: Carola Saavedra
Editora: Livros de Seda
N.º de páginas: 136
ISBN: 978-972-770-754-6
Ano de publicação: 2010

Segundo romance de Carola Saavedra (n. 1973), Flores Azuis confirmou esta autora como uma das maiores revelações da ficção em língua portuguesa recente. Além de ter sido finalista do Prémio Jabuti 2009, a obra ganhou a edição do ano passado da Copa Brasileira de Literatura – um curioso torneio na Internet em que vários críticos literários decidem o resultado de duelos directos entre 16 livros. Ao triunfar na finalíssima contra Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, após três eliminatórias, Flores Azuis ofereceu à quase estreante uma inesperada vitória sobre autores consagrados ou em vias de consagração, como Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Patrícia Melo, João Gilberto Noll ou Lourenço Mutarelli.
O protagonista do romance é Marcos, um arquitecto falhado e em crise (separou-se da mulher e da filha de três anos), incapaz de resistir à tentação de violar correspondência alheia. Todos os dias aparece na caixa de correio do seu novo apartamento um envelope azul, dirigido ao inquilino anterior. E todos os dias ele lê o que está lá dentro: cartas de amor desesperado de uma mulher anónima (assina «A.») que tenta compreender as razões de uma «separação interminável», para a reverter. A narrativa intercala as nove cartas de A. (primeira pessoa, registo torrencial, lírico e cru) com igual número de capítulos sobre o quotidiano de Marcos e o impacto crescente das estranhas missivas na sua vida (terceira pessoa, frases curtas, estilo descritivo).
A estrutura é simples – como que uma revisitação pós-moderna do género epistolar – mas Carola Saavedra consegue transformá-la num mecanismo inquietante, à medida que nos arrasta para o cerne das obsessões de A., contadas de forma cada vez mais visceral e perversa, uma escrita do corpo devorado pela ausência, mas também pela memória do prazer, da dor, da entrega e da violência mais extremas. De uma carta para a seguinte, a realidade desmonta-se, repete-se, anula-se, desfaz-se, recapitula-se (voltamos à mesma discussão, contada de vários ângulos; ou à última noite que os amantes passam juntos, descrita em versões antagónicas). As peças soltas não voltam a encaixar nos mesmos sítios e a contradição assumida parece ser a única regra: «Mas agora penso, talvez esteja justamente nessa contradição, nesse espaço que surge entre o que afirmo e o que nego, entre o teu sofrimento e a tua crueldade, entre o meu sofrimento e a minha crueldade, entre o meu corpo e o teu, justamente nessa incoerência a única forma de comunicação.»
Em princípio, A. escreve apenas para o homem que a deixou e só para ele. A dada altura, porém, refere-se à possibilidade de um outro «leitor para estas cartas», um «personagem que recebesse estas cartas em teu lugar». E assim se anuncia o nó essencial do romance. Porque aquele leitor/personagem imaginário só pode ser Marcos, progressivamente reduzido ao «reflexo» e «avesso» de uma figura cuja intensidade o fascina, porque o transcende. Ou então é o próprio leitor de Flores Azuis, oscilando entre as dúvidas que lhe inspira a misteriosa A. e as certezas quanto ao talento da escritora que a criou.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

APEL debaixo de fogo por causa do IVA

«A agitação voltou ao mercado editorial português», escreve Sérgio Almeida num artigo da edição online do Jornal de Notícias. E explica porquê:

«Insatisfeitas com o silêncio da associação representativa do sector no processo que determinou o aumento do IVA sobre os livros, várias editoras e distribuidoras acusam a APEL de estar rendida aos grandes grupos.
A recente subida em 20% do IVA aplicado sobre os livros (de 5% para 6%) voltou a deixar a descoberto as profundas divisões que rodeiam os membros do sector, disfarçadas nos últimos tempos após a fusão associativa.
Na origem das críticas à gestão de Paulo Teixeira Pinto está a ausência de uma posição oficial face ao agravamento do imposto. Os contestatários apontam mesmo o caso espanhol – onde os livros, tal como os medicamentos, ficaram à margem da subida – como paradigmático do exemplo que deveria ter sido seguido.
(…) Ouvido pelo JN, o secretário-geral da APEL justificou a ausência de directiva oficial pelo “aumento quase imperceptível”, mas também por “ser mais prático dar liberdade aos editores para que escolhessem a posição que mais lhes conviesse”.»

A literatura vende

Toda a gente que trabalha na imprensa sabe que as newsmagazines (tipo Visão ou Sábado) fazem ciclicamente capas com a palavra sexo ou corpos despidos porque esses números vendem sempre mais do que os números com outros temas quaisquer. É por isso interessante constatar como uma revista erótica soft, não deixando de exibir uma mulher nua na capa (como lhe compete), soube homenagear um grande escritor recentemente desaparecido.
A Sara Figueiredo Costa deu-se mesmo ao trabalho de comprar este último número da Playboy portuguesa e não lhe poupa elogios: «(…) o facto é que a homenagem é séria e justa, e não perde seriedade nem justeza pela exposição de partes habitualmente resguardadas do corpo feminino. Além disso, à produção fotográfica de encenação bíblica segue-se uma longa entrevista feita a Saramago por Humberto Werneck, antigo editor-chefe da Playboy Brasil, em 1995. Saber enquadrar uma homenagem merecida na linha editorial de uma publicação, eis o rasgo certeiro da Playboy portuguesa.»

BiblioHistória

«A biblioHistória constitui uma tentativa de compilação do romance histórico publicado por escritores portugueses desde o século XIX, incluindo aqueles que, embora de outra nacionalidade, nasceram em antigas colónias portuguesas antes da independência desses países, bem como os que adoptaram dupla nacionalidade. Actualmente estão inventariados cerca de 320 autores e mais de 750 obras.»

Eis uma preciosa base de dados in progress, feita por Pedro Almeida Vieira, um escritor que se tem dedicado precisamente ao romance histórico (vide O Profeta do Castigo Divino, A Mão Esquerda de Deus ou o mais recente Corja Maldita).

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

Morreu hoje, aos 89 anos, Matilde Rosa Araújo, autora de O Palhaço Verde e dezenas de outros livros infantis. Quando recordo os meus primeiros anos de bibliófago, as palavras de Matilde estão lá, a iluminar essas memórias de um prodígio maior (a leitura). Hão-de estar sempre.

Podcast

Da Gailivro recebi o seguinte comunicado:

«Reafirmando a sua aposta na proximidade com os seus leitores, a Gailivro acaba de lançar o primeiro podcast de uma editora nacional. A marca associou a sua colecção 1001 Mundos – uma referência do Fantástico e da Ficção Científica no nosso país – a um aliciante podcast, com a ambição de promover um contacto permanente, fácil e móvel com o seu público leitor. Incidindo sobretudo sobre as grandes novidades do momento, este será também um espaço de crítica e comentários, onde não faltará uma entrevista alargada a um autor 1001 Mundos. Adoptando o lema “Dá ouvidos à 1001 Mundos: sempre contigo, onde e quando quiseres”, a Gailivro põe assim à disposição dos seus leitores um canal de comunicação periódico e sempre actual, dando continuidade à sua ideia de estabelecer pontes de relacionamento constantes com o seu público.»

O Podcast 1001 Mundos pode ser ouvido e partilhado aqui.

Desafio do dia

19h30: José Enrique Rodó – Harry Mulisch

Quatro poemas de Paulo Tavares

COMPASSO DE ESPERA

Ainda as marcas da pilhagem
e a destruição da noite anterior,
o disparo das sirenes ecoando contra
os edifícios devorados pelo impacto
– e o dia que nasce lento e hostil.

Ainda o som hipnótico
das ambulâncias, a repetição aguda
dos alarmes de incêndio e a antiaérea
num infernal compasso de espera.

***

[MERCÚRIO.VÉNUS.TERRA.MARTE.JUPÍTER.SATURNO.URANO.NEPTUNO]

Recolhi toda a radiação cósmica
de fundo, mas depois fui repetindo
«o universo é um eco de vozes gastas»,
como alguém que envelhece
sem sabedoria.

A morte é estranha
e existe.

***

ÓRGÃOS VITAIS

Podes despir
esse vestido de serapilheira,
mostrar os restos podres da vindima
e dizer-me: «vês, morri».

Também eu fui
adormecendo, também eu tentei
reconstruir os órgãos vitais,
desenhar um a um os contornos do corpo,
embora me faltassem as ferramentas
para materializar o complexo circuito
da memória.

Agora, olhas-me
com os mesmos gestos estáticos,
enquanto o coração palpita noutro lugar
e a boca vai soltando larvas e morcegos.

Podes dizer-me que morreste.
Os mortos entendem-se bem.

***

SE DEPOIS NADA RESTAR

Se depois nada restar
desta breve história das revelações,
se nada ficar intacto ou imune à lâmina
magnética da actividade global,
lembra-te de que os pássaros são livres
e mesmo para eles, deslumbrados pela
liberdade, os homens criaram gaiolas.

[in Minimal Existencial, Artefacto, 2010]

O que aí vem (Angelus Novus)

O novo livro de Rui Manuel Amaral (sucessor de Caravana) só chega em Outubro, mas já vai dando que falar. Doutor Avalanche já tem site e teaser no YouTube:

Pelos vistos, vai ser uma coisa de perder a cabeça.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges