Entre fulgor e lepra

Poema Sujo
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-568-633-1
Ano de publicação: 2010

Na obra do brasileiro Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, o livro Poema Sujo ocupa um lugar central. E mesmo não sendo «o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas», como Vinicius de Moraes chegou exageradamente a sugerir, está decerto entre os mais importantes poemas da língua portuguesa no século XX. Não é pouco.
Escrito em 1975, aos 45 anos, no exílio a que o forçou a ditadura militar (instaurada em 1964), este texto começa por ser o grito de revolta de um desterrado. Em Buenos Aires, longe da «pátria de mato e ferrugem», Gullar empreende um canto de si mesmo digno de Walt Whitman, na amplitude expressiva e no confessionalismo visceral (o corpo como agente do conhecimento do mundo), mas também um canto sobre as contingências históricas do Brasil e sobre a sua infância em São Luís do Maranhão, «minha úmida cidade / constantemente batida de muitos ventos».
Deixados para trás os experimentalismos concretistas e neoconcretistas, o poeta mergulha de cabeça na «profusão das coisas acontecidas», capta «a vida a explodir por todas as fendas da cidade» e entrega-se ao enigma da existência com o seu «corpo-galáxia aberto a tudo».
A escrita é torrencial, há súbitas mudanças de ritmo, disrupções, amálgamas de imagens, alternância de registos (a linguagem tanto pode ascender às altas esferas líricas como descer ao prosaísmo mais literal), mas Gullar nunca se afasta da «muda carne das coisas». Isto é, da sua natureza impura: «E também rastejais comigo / pelos túneis das noites clandestinas / sob o céu constelado do país / entre fulgor e lepra / debaixo de lençóis de lama e de terror».
Aqui, as palavras impregnam-se de «graves cheiros indecifráveis» (o cheiro da miséria e do amor, «de umbigo e de vagina»), compondo o retrato em movimento de um «corpo feito de água / e cinza» (o do poeta, «1,70m que é meu tamanho no mundo»), de rios que apodrecem, de um comboio transformado em onomatopeias ferroviárias, de histórias de uma época — a II Guerra Mundial — em que «a poesia não existia ainda», de um bairro pobre construído em palafitas sobre o lodo (assombrando um coração «aliado da classe operária»), de dias que se desdobram uns nos outros, enlaçando-se «como anéis de fumaça».
Na verdade, este livro tão belo quanto cru faz-se essencialmente de «matéria-tempo». Tempo que jorra, se amontoa e propaga a diferentes velocidades, sem um centro fixo: «E do mesmo modo / que há muitas velocidades num / só dia / e nesse mesmo dia muitos dias / assim / não se pode também dizer que o dia / tem um único centro / (feito um caroço / ou um sol) / porque na verdade um dia / tem inumeráveis centros».

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Até ao final do ano, surgirão os seguintes livros de poesia: Anthero, areia & água, de Armando Silva Carvalho; Se as coisas não fossem o que são, de Helder Moura Pereira; Apanhar ar, de Adília Lopes (com desenhos juvenis); Uma antologia de poesia chinesa, organizada por Gil de Carvalho (edição bilingue, 440 páginas); Corpo mortal e outros poemas inéditos, de Fiama Hasse Pais Brandão; As magias – Alguns exemplos – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); O bebedor nocturno – poemas mudados para português, de Herberto Helder (colecção Gato Maltês); Papéis Surrealistas – Surrealist Papers, de Mário Cesariny; Um arco singular – Livro de horas – II volume, de Maria Gabriela Llansol; Poesia – uma antologia de Il Canzoniere, de Umberto Saba (selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos).

A mobília de Lisbeth Salander

Alguém se deu ao trabalho de conferir e materializar em imagens a lista das compras feitas, no IKEA, por Lisbeth Salander durante o segundo volume da trilogia Millennium, de Stieg Larsson. Ei-la:

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[via BiblioFilmes]

Sobre a perda de influência do intelectual francês

Um velho tema, retomado aqui e aqui.

O editor que nunca virou a página de um livro

Chamava-se Allen Lane e foi o fundador dos livros de bolso da Penguin.

Bombardeamento de poemas

Ou de como os berlinenses viram milhares de versos a cair dos céus.

Capa do novo romance de José Luís Peixoto

Em primeira mão, eis a capa de Livro (Quetzal), o quarto romance de José Luís Peixoto, com data de chegada às livrarias prevista para 24 de Setembro:

livro

Sermões

«Un sermoneador sólo tiene tres posibilidades taxonómicas: ser consecuente con sus sermones, ser un cínico o ser imbécil. ¿En cuál de las tres categorías debemos colocar al aspirante a un gran premio comercial que rechaza la mercantilización de la cultura, al apóstol de la pureza que exige un hotel de cinco estrellas pagado con dinero público y al fustigador de la frivolidad del mundo literario que busca cada noche su nombre en Google? En la primera de ellas no, por supuesto.»

Retirado de um texto (um sermão?) de Luisgé Martín, na última edição do suplemento Babelia.

O que aí vem (ASA)

O Fim de Semana, de Bernhard Schlink; O Rapaz de Olhos Azuis, de Joanne Harris; Sono Crepuscular, de Edith Warton; Clara – A Menina que Sobreviveu ao Holocausto, de Clara Kramer.

No Brasil, em Setembro

Um livro de capa azul.

Lá longe

A 1, 2 e 3 de Outubro, a revista The New Yorker organiza o seu Festival. Entre os muitos participantes, conta-se o ensaísta Malcolm Gladwell, uma espécie de Cristiano Ronaldo da revista, autor do livro O Que o Cão Viu, editado há cerca de um mês pela Dom Quixote.
Eis um resumo dos principais momentos da edição de 2009:

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Renascer – Apontamentos e Diários 1947-1963, de Susan Sontag (Quetzal), por António Guerreiro
A Inquisição – O Reino do Medo, de Toby Green (Presença), por Luís M. Faria
O Hipnotista, de Lars Kepler (Porto Editora), por Paulo Nogueira
Incêndio no Chiado, de François Vallejo (Quetzal), por José Guardado Moreira
Poema Sujo, de Ferreira Gullar (Ulisseia), por José Mário Silva
Breve História da Humanidade, de Cyril Aydon (Gradiva), por Vergílio Azevedo
Obras de Bernardim Ribeiro, com organização, introdução e notas de Helder Macedo e Maurício Matos (Presença), por Álvaro Manuel Machado

Primeiros parágrafos

«Pusemos o homem dentro do cesto do balão e deixámo-lo desaparecer no céu pálido do Lácio. Foi um momento dramático e, se não houvéssemos caído naquele torpor pesado e ruminante que de nós se apoderou, alguém teria erguido um braço para, por entre lágrimas ou sorrisos, acenar um último adeus a Don Metzger. Foram precisos oito braços para transportar o corpo do carro até à gôndola de verga, junto da qual o sinistro Bosco havia, com a ajuda do fiel Alipio, insuflado de ar frio o envelope de nylon preto, a grande ventoinha ensurdecendo aquele dia tão fúnebre. Acomodámos Don dentro da gôndola o melhor que pudemos – tanto quanto era possível acomodar um gigante – e depois, com um gesto de amor que chegou a parecer cruel, Bosco abriu a válvula de propano e acendeu o maçarico, as chamas incendiaram o ar e ergueram a gôndola do chão como se o carregassem na palma de uma mão invisível. Era ainda cedo naquela manhã e Don já partia em direcção ao infinito, onde conjuntos de nuvens em vários tons de cinzento, banhadas por um sol melancólico, avançavam lentamente em direcção à montanha, sobrevoando-a como anjos coléricos que trouxessem o prenúncio de tempos terríveis.»

[in O Bom Inverno, de João Tordo, Dom Quixote, 2010; chega às livrarias amanhã]

Book Lovers Day

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Vai ser a 2 de Setembro, às 20h30, na Livraria Bertrand do LeiriaShopping.

A sinceridade de Bret Easton Ellis

«Tem uma bela voz…
Toda a gente me diz o mesmo, mas eu não sou capaz de me ouvir nem de me ver e não leio as críticas aos meus livros. Na semana passada, aqui nos Estados Unidos, fui ao “Charlie Rose Show” – muito popular entre os escritores – e só ontem à noite, depois de beber uns copos, é que consegui ver o programa. Estava a passar-me completamente, mas as pessoas dizem-me que eu estava óptimo e até a minha mãe me telefonou para dizer “Querido, estavas fantástico, tão bonito e maravilhoso na televisão”. Eu acho que estava horrível.
Diz isso para que, tal como a sua mãe, lhe digamos que tem uma imagem excelente…
Talvez. A verdade é que a minha autoconfiança é mínima, o que me faz sofrer muito.
Não pense mais nisso, isto é uma entrevista pelo telefone.
Mas eu estou muito preocupado com a entrevista. Sou um escritor que já não quer ser entrevistado, que já não quer fingir que sabe o que deve dizer em relação ao seu trabalho, que já não sabe as respostas. É este o ponto da situação.»

Início da entrevista de Bret Easton Ellis a Helena Vasconcelos, a propósito da edição portuguesa de Quartos Imperiais (Teorema), publicada hoje no suplemento ípsilon, do Público.

Fábula

O LEÃO E O POÇO

Era uma vez um leão que caiu num poço com dois metros de profundidade. Todos os animais das redondezas, a começar nas águias (essas rapinas que gostam de abrir as asas com espalhafato, mesmo quando voam baixinho) e a acabar nos dragões (esses bichos imaginários com menos fogo nas goelas do que pensam), toda a fauna se debruçou na beira do poço e fez pouco do leão ferido, lá em baixo, aparentemente conformado com a sua má sorte e morte certa.
Foi então, quando as águias regressaram ao ninho (descobrindo que alguém lhe roubara os ovos) e os dragões preparavam o espeto para uns bichinhos setentrionais muito tenrinhos, que se ouviu um rugido tão poderoso que fez estremecer os alicerces do Palácio da Má Vontade, erguido no topo do Monte da Comunicação Social. Agarrando-se ao balde do poço e fincando as patas nas paredes, o leão ergueu-se num salto de três metros e saiu cá para fora, como que renascido.
Nos espaços em volta, fez-se silêncio. O silêncio do respeito e do medo.

O que aí vem (Ahab)

O Filho de Jesus, de Denis Johnson (tradução de João Tordo); O quinto em discórdia, de Robertson Davies (trad. de Maria João Freire de Andrade); A Primavera há-de chegar, Bandini, de John Fante (trad. de Rui Pires Cabral). Os três livros sairão na segunda quinzena de Outubro.

‘It’s a Book’

Um livro de Lane Smith. A editora (MacMillan) chama-lhe «a delightful manifesto on behalf of print in the digital age» e criou mesmo o primeiro Unplug Day. Será na próxima terça-feira, 31 de Agosto:

UnplugDay
Clique na imagem para aumentar

[via Cadeirão Voltaire e Book Patrol]

São Luís do Maranhão

«(…) Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas

Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas (…)»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

Notícias do Sitemeter

Eu sei que este post vai irritar muito o maradona, mas paciência. Não podia deixar de assinalar o facto de a última semana ter sido aquela em que o Bibliotecário de Babel foi mais visitado desde a sua criação, em Dezembro de 2007. No total, mais de 10 mil visitas únicas (quase 1500 por dia) e mais de 20 mil pageviews (cerca de 3000 por dia). A todos, obrigado.

Maravilhas da paternidade

Alice: «As lagartas são as crianças das borboletas, não é? (Pausa) Então as borboletas são os adultos das lagartas, não é?»

A sobrancelha judaico-cristã

Pedro Mexia no seu melhor:

«Ele discorre sobre Bataille e o “caos do desejo” que afronta os nossos inaceitáveis “tabus e preconceitos” incutidos pela arcaica cultura “judaico-cristã”. Está embalado nisto, quando entra no escritório a filha dele, tem talvez catorze anos, e umas pernas altíssimas e moreníssimas. Não consigo evitar uma olhadela. O fã de Bataille franze logo a sobrancelha judaico-cristã.»

Banda sonora desta semana

Arcade-Fire-The-Suburbs

O terceiro álbum destes tipos magníficos.

Hype, modo de usar

O novo romance de Jonathan Franzen (Freedom) está cada vez mais transformado na grande notícia da rentrée literária global. Depois da capa da Time (onde o apelidam de «great american novelist»), houve a notícia de que Obama teria escolhido o livro para as suas leituras de férias em Martha’s Vineyard e começaram a sair críticas ditirâmbicas dos dois lados do Atlântico (o The New York Times diz que estamos perante uma «obra-prima da ficção americana»; um crítico do The Guardian garante que é «o romance do século»).
Se isto não é hype, o que é hype?

Sementes em risco

A partir deste post de Safaa Dib, tradutora de Fome, cheguei a uma notícia terrível sobre a ameaça que paira sobre o Instituto descrito na novela de Elise Blackwell:

«Outside of St. Petersburg, Russia, the Pavlovsk Station houses a huge collection of unique and diverse apples, strawberries, cherries, raspberries, currants and many more — more than 5,000 varieties in all. First assembled in 1926 by Nikolai Vavilov, the inventor of the modern seed bank, this collection will be vital as scientists race to breed new varieties to adapt to climate change and that resist the rising tide of disease, pests and drought. 90 percent of the fruit and berry varieties at Pavlovsk can be found nowhere else.
During the Siege of Leningrad in World War II, scientists starved to death while protecting this diversity. They chose to protect seeds over feeding themselves precisely because they understood the importance of this priceless resource to the future of agriculture.
Today, the Pavlovsk station is facing bulldozers. Over the protests of scientists at the Pavlovsk Station, the government is poised to convert the land to a housing development. This is nothing short of an environmental disaster – and one that is easily avoidable.»

Felizmente, a campanha contra este desastre está a dar os seus frutos e o presidente russo, Dmitri Medvedev, alertado através do Twitter, terá prometido investigar o assunto.

Quem é Tao Lin?

Há quem lhe chame a «next big thing» da literatura urbana que nasce, cresce e é divulgada via Internet. Outros falam em «realismo GMail». Uma coisa é certa: Tao Lin sabe levar a água ao seu moinho (mesmo que seja tudo digital: a água e o moinho). O seu segundo romance, que tem como título o nome de um grande escritor norte-americano do séc. XX (Richard Yates), será lançado no início de Setembro.

A solidão do poder como um levantamento


Carlos V na Batalha de Mühlenberg, de Tiziano (1548)

Um chicote de férias

Confesso: já tenho uma certa saudade das vergastadas irónicas, da maldadezinha inteligente e da lascívia literária do senhor Fortinbras.

Todos os websites de escritores são iguais

Ou não.

[via Paper Cuts]

O poder solar que há na beleza

Lugares, 3
Autora: Maria Andresen
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-989-641-163-3
Ano de publicação: 2010

Neste terceiro volume de poemas, à semelhança do que acontecia nos anteriores – Lugares (2001) e Livro das Passagens (2006), publicados na mesma editora –, Maria Andresen assume o diálogo com outras artes e a memória desses encontros como pontos de partida da sua poesia. Um dos aspectos mais curiosos do livro é que a écfrase não se restringe desta vez à alta cultura (os quadros de Velázquez e Picasso; os filmes de Dreyer, Max Ophuls ou Straub/Huillet), mas abarca igualmente a música rock (Rolling Stones, Jimi Hendrix).
Mais do que uma descrição, a autora procura o detalhe significativo que dá sentido ao que observa, sem o explicar: «assim a minha prosa clara / – tão rente a quero ao mudo acontecer – / abarque o pormenor e não lhe toque». O pormenor pode ser a boca alegre de Edith Schiele («mas os olhos não») num retrato do seu marido, Egon. Ou «a solidão do poder como um levantamento», entrevista no retrato marcial de Carlos V por Tiziano.
O problema destes poemas está, a meu ver, numa certa margem de opacidade excessiva que existe em todos eles, como se a autora fizesse questão de dinamitar, logo à partida, a mera hipótese de uma partilha total da sua experiência estética com o leitor.
No resto do livro, menos saturado de referências eruditas (embora nos deparemos ainda com duas glosas de Wallace Stevens), a escrita de Maria Andresen como que floresce, aberta ao ímpeto apolíneo de quem acredita no «poder solar que há na beleza». Surgem então comboios obstinados, cães nocturnos, o mar, as dunas, paisagens algarvias, casas violentas, jardins, estrelas e intuições felizes. Como esta: «saberemos do intemporal aquilo que sabe / um cultivador de rosas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

António Lobo Antunes e os ex-combatentes

Sobre a absurda presunção de que o escritor António Lobo Antunes seria cobarde, por não ter comparecido a um encontro público no dia em que o Expresso publicou uma notícia sobre uns certos senhores que lhe querem «ir ao focinho» [sic], eu tinha esboçado um post que deixei em draft. Quando li a coluna de Ferreira Fernandes, na edição de hoje do DN, apaguei-o porque FF diz exactamente o que eu queria dizer (e com mais elementos factuais).
Eis a crónica, na íntegra:

«BARDAMERDA PARA A COBARDIA

Em Setembro de 2009, foi lançado um livro de entrevistas a António Lobo Antunes, onde ele falou da guerra em Angola de forma que não agradou a antigos combatentes. Desde aí, apareceram ameaças na Internet. Vou enumerar datas e locais onde teria sido possível partir a cara a Lobo Antunes, de 67 anos. Em 22 de Outubro, no São Luiz, Lisboa, ele lançou o seu novo romance. Em 26 de Novembro, esteve em Caldas da Rainha a apresentá-lo. E, a 6 de Dezembro, na Biblioteca de Nelas. Em 5 de Março esteve com Fátima Campos Ferreira no Casino da Figueira. Em Maio casou, em cerimónia que a revista Caras avisou. A 20 desse mês apresentou o livro de Pedro Rosa Mendes, na livraria Buchholz, em Lisboa. A 7 de Julho deu uma conferência de imprensa, em Lisboa, com artistas franceses. Em 24 de Julho debateu com Eduardo Lourenço na Faculdade de Letras de Lisboa… São sítios públicos onde ele foi quando já circulavam ameaças de agressão. Destas não sei nada. De Lobo Antunes vejo que não fugiu delas. No sábado, o Expresso contou as ameaças que já circulavam há meses na Internet e que o escritor conhecia. Nesse dia, ele ia a um encontro em Tomar. Por razões que ele já explicou, não foi. Mas juntaram a não ida ao medo de ser agredido! Lobo Antunes disse, ontem, ao DN: “Querem fazer–me passar por aquilo que não sou: um cobarde.” É o que diz o rol que aqui deixo. Não é.»

Boca de alegria

edith
Edith Schiele sentada, de Egon Schiele (1915)

O VESTIDO DE EDITH

Um vestido de riscas usa Edith Schiele
as riscas vestem Edith Schiele de uma alegria
de que parece ausente o corpo – dos pés

ao pescoço –
mas estão pintalgados de encarnado a boca
(nela aflora um sorriso paciente,
ligeiramente vítreo) e o rosto

o cabelo, puxado para o alto, alonga-lhe a figura,
mas são inquietas as irrequietas curvas das riscas encarnadas
que se espalham em fusiforme flor

de pétala. A boca de Edith Schiele é de alegria
mas os olhos não

[in Lugares, 3, de Maria Andresen, Relógio d’Água, 2010]

O ‘Chacal’ às vezes também perde

«The Wylie Agency is to remove from sale 13 of the 20 titles included in its Odyssey Editions e-book offshoot after coming to an agreement with the publisher of those books: Random House.
In a surprise joint statement issued by Markus Dohle, chairman & c.e.o of Random House, and Andrew Wylie, president of The Wylie Agency, the two companies said they had “resolved” their differences over the disputed Random House titles included in the Odyssey Editions e-book publishing program.»

A notícia completa, divulgada pela The Bookseller, pode ser lida aqui.

Uma Sagres para o maradona

Em Setembro, lá estarei no Botequim, caro maradona. Como leitor do teu blogue e visitante diário do teu blogue (sem ser pelo Google ou pelo Facebook, essas vias abomináveis), tenho direito a pagar-te uma cerveja.
Ou não?

Processo de amanhecer e fabricação de uma noite

«(…) Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa
(mesmo dentro
do guarda-roupa,
o tempo,
pendurado nos cabides)
E essa sensação
é ainda mais viva
quando a gente acorda tarde
e depara com tudo claro
e já funcionando: pássaros
árvores vendedores de legumes

Mas também
quando a gente acorda cedo e fica
deitado assuntando
o processo de amanhecer:
os primeiros passos na rua
os primeiros
ruídos na cozinha
até que de galo em galo
um galo
rente a nós
explode
(no quintal)
e a torneira do tanque de lavar roupas
desanda a jorrar manhã

A noite nos faz crer
(dada a pouca luz)
que o tempo é um troço
auditivo.
Concluídos os afazeres noturnos
(que encheram a casa de rumores,
inclusive as últimas conversas no quarto)
quando enfim a família inteira dorme –
o tempo se torna um fenômeno
meramente químico
que não perturba
(antes
propicia)
o sono.
Não obstante,
alguém que venha da rua
– tendo caminhado sob a fantástica imobilidade
da Via-Láctea –
pode ter a impressão,
diante daqueles corpos adormecidos,
de que o universo morreu
(quando de fato
em todas as torneiras da cidade
a manhã está prestes a jorrar)

Menos, claro,
nas palafitas da Baixinha, à margem
da estrada de ferro,
onde não há água encanada:
ali
o clarão contido sob a noite
não é
como na cidade
o punho fechado da água dentro dos canos:
é o punho
da vida
fechada dentro da lama

Já por aí se vê
que a noite não é a mesma
em todos os pontos da cidade;
a noite
não tem na Baixinha
a mesma imobilidade
porque a luz da lamparina
não hipnotiza as coisas
como a electricidade
hipnotiza:
embora o tempo ali também não escorra,
não flua: bruxuleia
se debate
numa gaiola de sombras.
Mas o que mais distancia
essa noite da Baixinha
das outras
é o cheiro: melhor dizendo
o mau cheiro
que ela tem como certos animais
na sua carne de lodo
e daí poder dizer-se
que a noite da Baixinha
não passa, não
transcorre:
apodrece

Numa coisa que apodrece
– tomemos um exemplo velho:
uma pêra –
o tempo
não escorre nem grita,
antes
se afunda em seu próprio abismo,
se perde
em sua própria vertigem,
mas tão sem velocidade
que em lugar de virar luz vira
escuridão:
o apodrecer de uma coisa
de fato é a fabricação
de uma noite:
seja essa coisa
uma pêra num prato seja
um rio num bairro operário»

[in Poema Sujo, de Ferreira Gullar, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica do poema.

O que aí vem (Planeta)

Em Setembro: Marina, de Carlos Ruiz Zafón (o livro que precedeu A Sombra do Vento); Múltipla Escolha, de Lya Luft (ensaio); Aurora Boreal, de Asa Larsson (mais um policial sueco a beneficiar da loucura mundial por outro Larsson, o Stieg, embora o sucesso da autora tenha começado em casa, na Suécia, onde este romance de estreia vendeu mais de um milhão de exemplares); Anjo Caído, de Lauren Kate (fantasia tipo Crepúsculo); Julieta, de Anne Fortier.

Palavras

Não há nada mais poderoso (e ambíguo) do que a linguagem.

[via Very Short List, que explica neste post o conceito por trás do filme de Daniel Mercadante e Will Hoffman]

Capas da ‘Ler’

Não as capas da revista propriamente dita, mas as capas de livros que o blogue da Ler está a publicar durante o mês de Agosto. Algumas são belíssimas. E demonstram que ainda há muito trabalho a fazer neste domínio por parte da maioria das editoras portuguesas.

Agora as editoras também podem ter os seus miradouros

«As doações gratuitas de livros por editoras e livrarias a instituições de solidariedade social ou de carácter cultural, como as ONG, passa a estar isenta de pagamento do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA).
De acordo com o decreto publicado esta segunda-feira em Diário da República, a lei estende “o âmbito da não tributação em sede de IVA das transmissões de livros a título gratuito.”»

Os mais bem pagos

A revista Forbes publicou esta semana a lista dos dez escritores mais bem pagos da actualidade. Em primeiro lugar, com 70 milhões de dólares anuais, está James Patterson, logo seguido por Stephenie Meyer (40 milhões) e Stephen King (34 milhões). Fora do pódio, mas com exorbitantes contas bancárias, ficam Danielle Steel (32 milhões), Ken Follet (20 milhões), Dean Koontz (18 milhões), Janet Evanovich (16 milhões), John Grisham (15 milhões), Nicholas Sparks (14 milhões) e J.K. Rowling (10 milhões). Ou seja, escritores razoáveis: dois ou três. Grandes escritores: nenhum. C’est la vie.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges