Do que eu precisava mesmo era disto

estante

Uma estante-torre com dois andares de altura. Ou, já agora, três, que eu vivo num 3.º Direito sem elevador.

Proposta

Eis uma ideia para as pessoas que vieram à oferta de livros e conseguiram levar para casa alguns volumes (nem toda a gente teve essa sorte, bem sei): e que tal se escrevessem alguma coisa sobre as obras resgatadas no Monte Agudo? Não tem de ser uma crítica ou um relatório de leitura, pode ser só a história de como o livro viajou do parapeito da pérgula até vossas casas, de como o receberam nas vossas bibliotecas, de como o leram, e onde, e quando, e com que grau de satisfação. As melhores histórias, ou portefólios (podem enviar imagens), seriam depois transformadas em posts, aqui no BdB.
Pensem nisso.

Sacos

Houve quem trouxesse sacos de supermercado:

pingo_doce

Houve quem trouxesse sacos de museu:

paula_rego

Felizmente, ninguém trouxe o carrinho de mão.

[Fotografias de Isabel Ribeiro, uma leitora do BdB que desceu de Aveiro a Lisboa para participar na Grande Oferta de Livros]

Uma apresentação em Praga

Amanhã, na livraria Globe (em Praga, República Checa), vai ser apresentado um livro de Tiago Patrício: Cartas de Praga, com edição bilingue (português e inglês). A sessão está marcada para as 20h15 (hora local) e contará com um DJ israelita. Mesmo à distância, deixo a informação (na esperança de que algum estudante Erasmus que leia o BdB ande ali por perto).
Em Setembro do ano passado, publiquei neste blogue uma recensão ao opus anterior de Tiago Patrício: O Livro das Aves.

Coimbra Editores assimila Sodilivros e cria um novo grupo

Acabo de receber o seguinte comunicado:

«As sólidas relações entre os actuais principais accionistas da COIMBRA EDITORA S.A. (fundada em 1920) e da SODILIVROS, SOCIEDADE DISTRIBUIDORA DE LIVROS E PUBLICAÇÕES S.A. (fundada em 1985), assentes numa base de confiança pessoal e numa visão partilhada sobre a potencialidade de ambas as empresas no sector do livro, por um lado;
– Uma análise convergente sobre a conjuntura do mercado e sobre as consequências dos fortes movimentos de concentração que nele se têm verificado, por outro;
– Determinaram a nossa vontade na criação de um futuro conjunto: a C.E. – GRUPO COIMBRA EDITORA.

Neste momento, ao anunciarmos a sua constituição, oferecemos ao mercado um modelo de negócio que concentra as principais actividades de suporte e apoio ao sector da edição, de forma integrada, num único grupo empresarial:

CE GRÁFICA – produção gráfica centrada essencialmente em obra de livro, agregando a anterior tipografia da COIMBRA EDITORA com uma reconhecida e conceituada gráfica da zona centro do país.

CE SODILIVROS – distribuidora de edição generalista e de edição técnica, com três unidades de negócio diferenciadas (armazéns, logística e equipa comercial) situadas em Lisboa, Coimbra e Luanda, respectivamente.

CE LIVRARIAS – nova rede de retalho livreiro, construída em parceria comercial com o GRUPO LEYA a partir da pré-existente rede de lojas da COIMBRA EDITORA, agora ampliada com a aquisição de novos espaços comerciais, representando hoje, num conjunto em crescimento, um total de 17 livrarias de características generalistas, técnicas/universitárias e especializadas na área do Direito e do livro escolar.

Assentes na reconhecida experiência e credibilidade das empresas agrupadas, dos seus accionistas e dos seus profissionais, empregando mais de 200 trabalhadores, servindo mais de 50 editoras, temos um objectivo de facturação consolidada de 20 milhões de euros em 2011, dando assim corpo à nossa principal missão: “Contribuir para a diversidade, a igualdade de oportunidades e para o fortalecimento dos mais importantes agentes da indústria cultural do livro em Portugal e nos países da lusofonia – os Editores.”
João Salgado / Jorge Azevedo
GRUPO COIMBRA EDITORA»

Mais imagens

O leitor José Cipriano Catarino fotografou o happening de sábado no miradouro e partilha as imagens num álbum Picasa de acesso livre. «Os interessados podem descarregar as fotos que lhes interessarem», diz JCC.

A cidade dos contos

É Beja, entre 16 e 18 de Setembro.

A programação de mais um festival ‘Palavras Andarilhas’ pode ser consultado aqui.

Inês Queiroz sai da Oficina do Livro

Responsável pela comunicação da Oficina do Livro, onde trabalhou durante três anos e meio «muito bem passados», Inês Queiroz anunciou esta manhã a sua saída da editora fundada por António Lobato Faria e Gonçalo Bulhosa. Quanto ao seu futuro profissional imediato, nada quis adiantar por enquanto.

Outras corridas

A partir de hoje, vou dar uma perninha noutro blogue. Uma perninha, não. Duas perninhas.

‘Geração A’ (de Abelhas ausentes)

Eis a sinopse do último romance de Douglas Coupland, publicado há poucas semanas pela Teorema:

«Geração A passa-se no futuro próximo, num mundo em que as abelhas estão extintas, até que cinco pessoas, sem qualquer relação entre elas e de vários países do mundo – Estados Unidos, Canadá, França, Nova Zelândia e Sri Lanka – são todas picadas por abelhas. A sua experiência compartilhada vai uni-las de formas que elas nunca teriam podido imaginar.»

Pelos vistos, o futuro próximo sem abelhas pode deixar de ser um cenário de ficção. O que não deixa de ser muito triste e um bocado assustador.

Cronologia

09h50 À entrada do miradouro, as pessoas vão-se juntando, com sacos debaixo do braço. Algumas apresentam-se. Primeiras trocas de impressões.

10h01 Chega o proprietário do quiosque, com a chave que abre o portão e permitirá a entrada do Skoda Fabia azul carregado de livros.

10h05 Uns quinhentos livros (mais coisa menos coisa) espalham-se pelo parapeito da pérgula, em pilhas de altura variável. Beneficiadas pela pontualidade, cerca de 40 pessoas aproveitam a primeira escolha. A festa decorre sem problemas, sem discussões, sem balbúrdia. Cada pessoa serve-se à vontade (uns levam cinco livros, outros dez, outros quinze) mas ninguém abusa. Nas palavras de uma leitora, «até parecemos nórdicos».

10h20 Já não há livros (nem um só, para amostra). Há pessoas sentadas nos bancos, a ler. O Bibliotecário de Babel não tem mãos a medir, falando com os seus leitores de carne e osso, leitores que deixaram agora de ser apenas nomes em caixas de comentário. Quem conseguiu livros não se vai logo embora. Há quem aprecie a vista sobre Lisboa, a sombra, o serviço do quiosque. Há quem meta conversa com os outros participantes na festa. O ambiente no miradouro não podia ser melhor.

10h30 Continuam a chegar pessoas. Muitas pessoas. Desânimo nos rostos: «Já não há nada?» Oiço histórias de taxistas ignorantes ou maldosos, que deixaram os seus clientes noutros miradouros. Miradouros sem livros. A quem chegou mais tarde, prometo para as 11h00 a consolação de uma segunda leva, mais pequena, deixada em casa para o caso de haver uma ruptura de stock demasiado rápida. Que foi precisamente o que aconteceu. Aliás, quinze minutos nem sequer entra na categoria do «demasiado rápida». Diria antes que foi uma ruptura de stock instantânea.

11h00 Saio para ir buscar mais livros.

11h10 Regresso com a segunda leva (cento e tal volumes). Os livros desaparecem mal saem dos sacos. Os retardatários não dão a manhã por mal empregue.

11h40 Continuam a chegar pessoas. No parapeito da pérgula, nada de nada. «Paciência», dizem-me, «mas não foi só pelos livros que cá viemos». Ainda bem. Também não foi só pelos livros que eu e o resto dos leitores (mais pontuais) ali fomos.

12h00 Alguém sugere uma ideia: «Da próxima vez, as pessoas podiam trazer de casa os livros que já não querem ou de que já não precisam, juntávamos tudo e depois cada um levava o que lhe apetecesse.» Em vez de uma Grande Oferta de Livros, seria uma Grande Troca de Livros. Porque não?

12h30 Começo a arrumar os sacos e caixas de plástico.

12h40 A Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel chega ao fim. Daqui a uns meses há mais. Quando chegar a altura, avisarei.

Geografia

No miradouro, esta manhã, houve quem viesse do Porto, houve quem viesse de Aveiro, houve quem viesse de Leiria, houve quem viesse do Carregado. E houve muitos lisboetas, claro.

Primeiras imagens

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Agradecimento

Aos amigos, pela ajuda no transporte dos livros. À Margarida, pela paciência. Às muitas dezenas de leitores que apareceram no miradouro, pela participação e pelo civismo.

Efeitos colaterais do altruísmo

Dores nos braços, espirros, uma satisfação danada.

‘O último a chegar é um ovo podre’

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A Grande Oferta de Livros do BdB chegou ao jornal i.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Papéis Inesperados, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Ana Cristina Leonardo
Cem Poemas, de Emily Dickinson (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
Lugares, 3, de Maria Andresen (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Verdadeiro Dr. Fausto, de Michael Swanwick (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira
George Steiner em ‘The New Yorker’, de George Steiner (Gradiva), por Paulo Nogueira
Histórias de Amor e Obsessão, de António Afonso (Edição de Autor), por António Guerreiro
Pensageiro Frequente, de Mia Couto (Caminho), por António Loja Neves
Caminho Português de Santiago, de Carlos Carneiro e Jorge Vassallo (Livros d’Hoje), por Rui Cardoso
Diário de um Homem Supérfluo, de Ivan Turgéniev (Estrofe & Versos), por Luís M. Faria

Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel (road book)

Para os candidatos à Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel, eis um breve road book para chegar ao miradouro do Monte Agudo. Quem vier de carro, pode estacionar no parque em espinha diante da escola Luísa de Gusmão (R. da Penha de França) ou na Praça António Sardinha. Quem vier de metro, deve sair na estação Anjos, sair em direcção à Rua de Angola/R. Febo Moniz, subir a R. de Angola, virar à direita para a R. Forno do Tijolo, virar à esquerda na R. Heliodoro Salgado e seguir até ao topo (aviso que é uma caminhada razoável).
No cimo da Heliodoro Salgado

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verá, do lado esquerdo, este cartaz:

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Só tem de entrar pelo portão de ferro que se vê na primeira foto,

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seguir o caminho de paralelipípedos,

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e já está:

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Eis a vista:

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E eis o simpático quiosque:

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Eu estarei com a livralhada junto da pérgula,

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à vossa espera.
Até amanhã.

O Mondego, gota a gota

«(…) Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
– Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
– Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim. (…)»

[in De livros e editores, crónica de António Lobo Antunes, no último número da revista Visão]

Desejo

Gostava mesmo que a Grande Oferta de Livros do BdB fosse um êxito. Era óptimo que amanhã de manhã estivessem 20 ou 30 pessoas no miradouro, a escolher livros e a falar umas com as outras (trocando ideias, talvez até iniciando improváveis amizades).
Depois das populares e mediáticas flash mobs, eis a oportunidade de criar um novo conceito: as literary mobs.

Actualização – Hoje em dia, é difícil inventar uma coisa que já não esteja inventada. Estava eu para aqui a pensar que a ideia de uma literary mob era muito original quando o Google, filtrando a informação do mundo inteiro, me indica que uns italianos se anteciparam quatro meses. A 23 de Abril deste ano, em Salerno, celebrando o Dia Mundial do Livro, uma associação cultural (iter.artis) organizou aquilo a que chama «a primeira Literary Mob», durante a qual um conjunto de leitores se passeou pela rua, lendo passagens do livro preferido. As fotos podem ser vistas no Flickr.

E agora para algo completamente diferente

Esqueçam Lady Gaga, esqueçam Christina Aguilera, esqueçam Madonna. Abram alas para Rachel Bloom e para a canção mais sexy de 2010. Um pequeno tratado sobre o poder erótico da literatura e o appeal de um mestre da FC:

Entretanto, como se depreende destes comentários, o escritor não ficou nada ofendido (nem morreu de ataque cardíaco). Antes pelo contrário. Terá mesmo «enjoyed» o vídeo de Bloom, que à sua maneira não deixa de ser uma prenda de anos antecipada. É que o autor de Fahreneit 451 cumpre 90 anos depois de amanhã.

[Descobri o vídeo no blogue BiblioFimes]

4 de Julho de 1836

«Da minha posição privilegiada, não conseguia ver grande parte do desfile. Por isso, permitam-me que vos conduza a pé até uma igreja metodista com o aspecto de quartel num país católico. Aí, um magistrado, que na América desempenha funções análogas ao procureur du Roi, leu a Declaração da Independência.
Deparei-me então com um espectáculo verdadeiramente admirável. Reinava um profundo silêncio. Assim, a voz do magistrado tornou-se a voz do Congresso ao passar em revista as injustiças e a tirania de Inglaterra com grande ardor e dignidade. Era possível ouvir e sentir o murmúrio de indignação e de cólera a circular no auditório. Quando o magistrado proclamou a justiça da causa e manifestou a resolução dos Pais Fundadores de sucumbirem ou libertarem a América, foi como se uma corrente eléctrica fizesse vibrar todos os nossos corações.
Ali sentimos, até ao mais fundo de nós, o regresso de todo um povo ao momento do seu nascimento. Nessa união da geração presente com a que já não existia, e partilhando naquele instante toda a generosidade da sua paixão, havia algo de profundo e de verdadeiramente grandioso.
Oh, se as coisas tivessem ficado por aí!
Infelizmente, a seguir um advogado avançou para arengar e, deste modo, o grande dia converteu-se numa farsa quando o Grande Chato de Albany se sentiu obrigado a mencionar todos os países da história do mundo. Assim, invocou tudo o que havia de jactancioso, de incerto, de inculto e de canhestro na ascensão da maioria. Se tinha uma ideia – e julgo poder admitir que a tinha –, era a de que todos os países vão recuar ou regressar à liberdade. Como podia eu deixar de comparar este tolo como Guizot? Como era possível, contra a minha própria resistência emocional, não recordar o espírito e o saber de Paris? E quando o orador – a fim de impressionar a multidão com a grandeza da América – se referiu a mim, o comissário francês, como prova do prestígio da sua nação, senti-me tão envergonhado de mim mesmo quanto revoltado com a sua presunção.
Chegara a Albany como um convertido a um altar da liberdade, a ansiar pela minha perfeita união com a grande alma histórica. Acreditara ser possível viver a minha vida sem qualquer preocupação com o modo como a democracia me poderia prejudicar. Aspirava tornar-me um dos regatos – ou antes, ribeiros – que fazem rugir o rio do povo, contribuir com os meus dons e privilégios para a mais elevada ideia de civilização que jamais existiu. Quando, ao lado de Godefroy, ouvira ler a Declaração, o meu coração acelerara e os pêlos do pescoço tinham-se eriçado.
Mas depois apareceu o pavoroso advogado. Eu tinha entrado na igreja como convertido. Saí como o filho da comtesse de Garmont.»

[in Parrot e Olivier na América, de Peter Carey, tradução de Ana Falcão Bastos, Gradiva, 2010]

Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel (é já no sábado)

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Eles vão ficando empilhados na marquise, à espera dos seus futuros donos. Por favor, caros leitores do BdB, não os desiludam. Tragam cestas de verga, alguidares de plástico, carrinhos de mão, sacos do Pingo Doce, o que vos der mais jeito. Mas venham.
O modus operandi da coisa está explicado neste post.

Maravilhas da paternidade

O vídeo do miúdo de três anos a dizer um poema – e a dizê-lo muito bem, sem aquele ar de papagaio ensinado (ou atracção circense) tão típico da maior parte das proezas infantis documentadas no YouTube – lembrou-me um episódio que ando há muito tempo para contar nesta rubrica em que dou largas à minha faceta de pai babadíssimo.
Quando a Alice tinha três anos (quase a fazer quatro), viu-me certo dia a rabiscar furiosamente um moleskine e perguntou logo: «O que é que estás a fazer, papá?» Expliquei-lhe que era um poema e ela ficou ao meu lado, silenciosa, a ver os traços deixados pela tinta negra da Bic. Na manhã seguinte, apanhei-a deitada no chão do quarto, a rabiscar furiosamente um caderno. A página estava cheia de gatafunhos ilegíveis, mas muito bem ordenados, linha a linha. Pormenor importante: as linhas não chegavam ao fim da página. Foi a minha vez de perguntar: «O que é que estás a fazer, Alice?» E ela, como já terão adivinhado, respondeu: «poemas».
Só isto já merecia ser contado, mas a história não acaba assim. Quando peguei no caderno, apercebi-me de que o primeiro poema tinha apenas duas linhas. E fiz a pergunta óbvia: «Podes dizer-me, Alice, o que está escrito aqui?» Então ela aproximou-se e leu, muito desembaraçada, apontando o seu pequeno dedo aos gatafunhos: «O mar anda / e a água canta».
Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido. Pedi-lhe que repetisse. O dedinho lá seguiu o primeiro verso, «O mar anda», e depois o segundo, «e a água canta». O espanto, o espanto, o espanto. Fiquei a repetir os dois versos, a apreciar a sua música, a sua ressonância helénica (um vislumbre de Ulisses e as sereias), perplexo com isto de uma criança de três anos ser capaz de criar assim, out of the blue, um dístico que, perdoem-me o exagero, pede meças a muita coisa que se vê para aí publicada.
Agora, se um dia a Alice se tornar poeta e lhe perguntarem quando é que começou a escrever poemas, ela pode responder com a data exacta: 3 de Janeiro de 2009. E acrescentar os dois versos:

O mar anda
e a água canta

O entusiasmo foi tal que a Alice, à noite, teve dificuldade em adormecer. «Estou a pensar nos meus poemas», dizia ela, com os olhos a piscarem de sono. Disse-lhe que dormisse, que sonhasse com palavras e que na manhã seguinte escrevesse mais versos no caderno. E assim aconteceu.
Os dois poemas seguintes, escritos a 4 de Janeiro de 2009, já correspondem mais ao imaginário que se espera de uma criança de três anos. Eis o primeiro:

O vento sopra
as nuvens flutoam [sic]
o sol não brilha
a praia fica lisa.
– Está a chover,
dizem as pessoas.
– É o Outono,
diz o pai.

E agora o terceiro (e último):

A chuva cai.
– Ai, ai,
dizem as girafas.
Pingas, pingas
caem em cima
das girafas.

Depois, como quem deixa um brinquedo de lado, a Alice não escreveu mais poemas. Virou-se para outras coisas, outras actividades. E eu não a incentivei, nem lhe pedi mais versos. O primeiro contacto directo com a poesia foi tão belo e espontâneo que não merecia prolongamentos forçados. O reencontro acontecerá quando tiver de acontecer. E nessa altura ela saberá que o pai não se esqueceu dos seus primeiros poemas, escritos quando ela ainda nem sequer sabia escrever.

O mapa turístico da literatura

Insira o nome do seu escritor preferido e veja o que acontece.

Ainda outro poema de Billy Collins

Litany, dito por um rapazito de três anos que «gosta de poesia e de a memorizar».

LITANY

You are the bread and the knife,
the crystal goblet and the wine.
You are the dew on the morning grass
and the burning wheel of the sun.
You are the white apron of the baker,
and the marsh birds suddenly in flight.

However, you are not the wind in the orchard,
the plums on the counter,
or the house of cards.
And you are certainly not the pine-scented air.
There is just no way that you are the pine-scented air.

It is possible that you are the fish under the bridge,
maybe even the pigeon on the general’s head,
but you are not even close
to being the field of cornflowers at dusk.

And a quick look in the mirror will show
that you are neither the boots in the corner
nor the boat asleep in its boathouse.

It might interest you to know,
speaking of the plentiful imagery of the world,
that I am the sound of rain on the roof.

I also happen to be the shooting star,
the evening paper blowing down an alley
and the basket of chestnuts on the kitchen table.

I am also the moon in the trees
and the blind woman’s tea cup.
But don’t worry, I’m not the bread and the knife.
You are still the bread and the knife.
You will always be the bread and the knife,
not to mention the crystal goblet and – somehow – the wine.

Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel

Por razões que não são difíceis de compreender, vou ter de abdicar (não sem um aperto no peito) de umas boas centenas de livros da minha biblioteca. O espaço da casa é finito, as paredes a que é possível encostar estantes são cada vez menos, etc. Ou seja, para que novos livros entrem (e eles não páram de chegar), outros terão de receber guia de marcha. Na maioria livros bons, que eu já li ou gostava de ler um dia, mas que na verdade sei que nunca serão lidos ou relidos. Já para não falar nas duplicações, efeito secundário da conjugalidade.
Pois bem, antes de remeter esta livralhada toda para os lugares óbvios (bibliotecas e associações culturais), lembrei-me de recompensar os meus queridos leitores pela paciência e persistência com que visitam este blogue (ultrapassar as 1000 visitas por dia, a meio de Agosto, é algo com que me regozijo, mas sobretudo é algo com que me espanto). Cabe-vos então fazer a primeira escolha, se para aí estiverem virados.
A coisa funcionará nestes moldes:

Lugar: Miradouro do Monte Agudo, no bairro da Penha de França, entrada pela R. Heliodoro Salgado (Lisboa). Ver no Google Maps, aqui.
Dia: Sábado, dia 21 de Agosto
Horário: 10h00-12h30

Ou seja, a partir das dez da manhã montarei uma banquinha junto ao novíssimo e simpatiquíssimo quiosque do miradouro (servem acepipes indianos, sumo de morango feito na hora, entre outras coisas), diante de uma magnífica vista de Lisboa, Tejo e tudo. Quem vier pode escolher à vontade e levar o que lhe apetecer, sem pagar um cêntimo. Entre os livros oferecidos não haverá novidades editoriais, como é evidente, mas também nada de refugo (pelo contrário).
Se quiserem, os leitores do Bibliotecário de Babel podem ainda aproveitar para conhecer pessoalmente o Bibliotecário de Babel, mas não esperem grande coisa do dito senhor (é só um tipo normal que gosta de livros).
Vá lá, não sejam tímidos. E aproveitem. Eu, no vosso lugar e com mais espaço livre em casa do que tenho, aproveitava.
Até sábado.

O desconforto de Franzen

Num momento em que é falado em todos os cantos da blogosfera literária mundial, por ter aparecido na capa da edição desta semana da revista Time, Jonathan Franzen não esconde o desconforto perante tamanha exposição mediática (um desconforto assinalado logo no perfil de Lev Grossman na Time). Mas pior do que falar para um jornalista deve ser falar para uma câmara, como se depreende deste curtíssimo vídeo em que explica os aspectos essenciais de Freedom, o romance que vai lançar no fim do mês:

O início do seu depoimento é quase um manifesto:

«This might be a good place to voice my profound discomfort at having to make videos like this since, to me, the point of the novel is to take you to a still place. You can multitask with a lot of things, but you can’t really multitask reading a book.»

Dois poemas de Ruy Belo

ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

***

DECLARAÇÃO DE AMOR A UMA ROMANA DO SÉCULO SEGUNDO

Um dia passarão pelos meus versos
como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza mais viva mais aqui
que no segundo século em roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto expressamente para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar

[in O Tempo das Suaves Raparigas E Outros Poemas de Amor, Assírio & Alvim, 2010]

Vender e-books de outra maneira

Uma editora francesa especialista em ficção científica (Le Bélial Éditions) vai lançar em Setembro uma plataforma para venda de e-books com um conceito inovador. Os livros custarão entre nove e 11 euros (ou seja, cerca de metade das versões impressas) mas os leitores poderão pagar mais, se quiserem ajudar o autor ou a editora. O preço não se restringe ao primeiro download, o que elimina o pânico de perder o ficheiro descarregado. Outro aspecto importante tem a ver com os direitos de autor, que ascenderão a 30% do preço de capa, contra os habituais oito a 10% (valor ridículo se tivermos em conta que desaparecem os custos de transporte e armazenagem). Numa fase inicial, a plataforma venderá apenas livros franceses.
Mais informação sobre a plataforma e-Bélial, aqui.

Da vantagem de ir escrever para a biblioteca

«The date mutterer and the throat clearer and the woman who wears black cardigans (she must have twenty!) and the young man with a spectacularly loud space bar, they are doing me a service. I am grateful to them. God knows what they’re working on, but I see them, and I know they see me. Being seen keeps me sane.
And maybe others feel the same. I’ve just watched a woman come in and sit down in the seat next to the older gentleman who so often works in my current library, the man with the portable word processor, an unusually upright bearing, and wide eyes. He is away from his seat and she has taken one of his books and is browsing through it. Could she know him? I’m hungry and would like to leave for lunch, but I feel I must wait to see this played out. If he doesn’t know her, what will he say? Will he ask for his book back?
He returns and they smile at each other. He says, “Why, where have you been?”
To me, that is worth not having a special pencil cup on my own desk at home.»

O artigo completo de Jessica Francis Kane pode ser lido aqui.

O que aí vem (Teorema)

Quartos Imperiais

São livros para Setembro: Quartos Imperiais, de Bret Easton Ellis (regresso, 25 anos depois, às personagens de Menos que Zero); Attachment – Em Anexo, de Isabel Fonseca (estreia na ficção da mulher de Martin Amis, autora do ensaio Enterrem-me de Pé); Desespero, de Vladimir Nabokov (romance escrito em russo nos anos 30 e reescrito na década de 50); Onde Três Estradas se Encontram, de Salley Vickers (uma revisitação do mito de Édipo, com o foco em Freud).

Silly season

No e-Bay, já se sabe, encontra-se de tudo. Livros raros, candeeiros malucos, tostas com a éfigie de Elvis na parte queimada, whatever. Mas isto ultrapassa todos os limites. Alguém no seu perfeito juízo quererá comprar a sanita «usada» durante décadas por J. D. Salinger na sua casa de New Hampshire? Aparentemente, o vendedor está convencido de que terá muitos candidatos à aquisição deste «trono», já que pede um milhão de dólares (sim, leram bem, um milhão de dólares) pela distinta peça de memorabilia.

[via Jacket Copy]

O jardim suspenso de Leninegrado

Fome

Fome
Autora: Elise Blackwell
Tradução: Safaa Dib
Editora: Livros de Areia
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-8118-10-3
Ano de publicação: 2010

Filha de botânicos, a escritora norte-americana Elise Blackwell (n. 1964) recupera neste seu primeiro livro — uma belíssima novela, de construção narrativa quase perfeita — um episódio real de heroísmo científico durante o cerco nazi a Leninegrado (Setembro de 1941/Janeiro de 1944), asfixia militar que vitimou mais de um milhão de pessoas. Apesar das condições extremas vividas no «inverno da fome» (1942), os funcionários do Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas decidiram proteger, da desesperada voracidade alheia, as colecções com milhares de sementes recolhidas em todo o mundo, ainda no tempo do director Nikolai Vavilov — entretanto afastado por uma campanha infame movida por Trofim Lysenko, o célebre biólogo anti-mendeliano que convenceu Estaline a reformar (e quase destruir) a agricultura soviética.
A narrativa de Blackwell centra-se no núcleo de botânicos que colocaram os seus princípios à frente do instinto de sobrevivência, vigiando-se uns aos outros para cumprir a promessa de salvar as sementes, além de se empenharem na defesa da cidade e na tentativa de expandir «a própria noção daquilo que era comestível». Contudo, o narrador deste relato de coragem e «martírio» é precisamente o elo mais fraco da cadeia, o cobarde que não esteve à altura das circunstâncias, o traidor que abdicou do compromisso colectivo, o canalha que se justificará mais tarde com a ideia de que «a privação rebaixa mais frequentemente do que enobrece». No outro extremo de uma escala da dignidade, os idealistas morrem mesmo, só pele e osso. Eram melhores mas acabam debaixo da terra gelada, a honra como mortalha. Enquanto ele, o fraco, o pragmático, o cínico, fica para contar a história.
Um dia, antes da guerra, este narrador de que nunca saberemos o nome ouviu um poema com qualquer coisa de profético: «Aqueles que se afogam nunca mudam os factos, mas aqueles que sobrevivem ao mar nos pulmões devem enviar as suas histórias em palavras, palavras como pequenos barcos de casco furado (…)». É o que ele faz, enviar palavras falíveis «através dos espaços povoados de tempo, geografia e linguagem», a partir do confortável apartamento nova-iorquino onde envelhece, rodeado de víveres não perecíveis, alguns remorsos, uma ilusória hipótese de redenção — foi por ter sobrevivido que mais tarde descobriu um fungo rico em proteínas, capaz de evitar futuras fomes — e muitas memórias soltas.
A mestria de Blackwell reside na forma como estas memórias se organizam numa sequência eficaz de capítulos curtos (em prosa despojada, cirúrgica, intensa, lírica, límpida, lapidar), funcionando essencialmente como recapitulação — o narrador lembra «todas as coisas de que tenho que me envergonhar» — mas não só. A justaposição de episódios muito breves permite ainda efeitos de contraste e paralelismos históricos interessantes. Contraste, por exemplo, entre o relato da fome mais extrema (com os habitantes de Leninegrado a comerem o inimaginável: ratazanas, casca de árvore cozida, urtigas, vaselina, cola, carne humana) e a evocação das campanhas de recolha de espécimes por todo o mundo (um melão «divinal» devorado no lago Nicarágua; o «perfeito sabor doce» de uma manga comprada em Colima, no México). E paralelismos entre Leninegrado, com o «maravilhoso potencial» do Instituto à mercê dos nazis, e a Babilónia dos jardins suspensos, império onde a cevada valia mais do que a prata, mas que foi destruído às mãos de hititas, assírios e persas. No fundo, um testemunho da recorrente tragédia das civilizações, que acabam todas devoradas pelo «abismo da História», como sugere a epígrafe de Paul Valéry.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Bibliómanos que roubam livros

Uma abordagem a esta singular patologia criminal, por Theodore Dalrymple.

Assim uma espécie de Murakamis

Eles lêem, eles escrevem, eles correm. Que não lhes doam (muito) as perninhas, é o que desejo. Isso e que um dia se mostrem capazes de chegar ao fim de uma maratona, ou até mesmo de uma ultramaratona, como o romancista japonês que escreveu o Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo.

Arte da espera

Já não falta muito para Setembro.

Uma nova editora

Segundo o blogue da Ler, João Gonçalves, antigo responsável pelo marketing da Oficina do Livro e, mais recentemente, do grupo Bertrand (do qual se desvinculou em Junho), vai criar um novo projecto editorial generalista: o Clube do Autor. A acompanhá-lo nesta aventura, que deverá arrancar em Outubro, estará Cristina Ovídeo, ex-editora da Oficina do Livro e da Planeta.

Outro poema de Billy Collins

Uma tradução oferecida pelo editor da Ahab

Ontem de manhã, publiquei um vídeo com uma animação feita a partir do poema Forgetfulness, de Billy Collins. A meio da tarde, recebi um e-mail do Tiago Szabo, a metade masculina da dupla responsável pela Ahab, para mim o mais estimulante projecto editorial surgido em Portugal nos últimos tempos. Contava o Tiago que descobrira a poesia de Collins há uns anos, ao comprar um exemplar de Taking off Emily Dickinson’s Clothes numa livraria de Londres (Waterstones). Ao regressar da «melhor cidade do mundo», abalançou-se a uma «tentativa algo imperfeita» de traduzir para português o «belíssimo Forgetfulness». E é essa tentativa que ele, simpaticamente, autorizou que eu partilhasse com os leitores deste blogue.
Ei-la:

ESQUECIMENTO

O nome do autor é o primeiro a ir embora.
Seguem-se, obedientes, o título, o enredo,
o final de partir o coração, o romance inteiro
que de repente se converte num livro que nunca leste,
nem nunca dele ouviste falar.

É como se, uma por uma, as memórias que costumavas acolher
decidissem retirar-se para o hemisfério sul do cérebro,
para uma pequena vila piscatória onde não há telefones.

Há muito que deixaste para trás os nomes das nove musas
E que viste a equação quadrática fazer as malas,
e mesmo agora, enquanto memorizas a ordem dos planetas,

outra coisa está a escapar-se furtivamente, o nome de uma flor quem sabe,
a morada de um tio, a capital do Paraguai.

Seja o que for que te esforças por recordar
não está aprumadinho na ponta da tua língua,
nem sequer a espreitar de algum canto obscuro da tua melancolia.

Flutuou para longe, por um rio escuro e mitológico
cujo nome começa por L tanto quanto te consegues lembrar,
no caminho certo para o esquecimento onde te irás juntar àqueles
que até se esqueceram de como nadar e andar de bicicleta.

Não é de estranhar que te levantes a meio da noite
para confirmar a data de uma célebre batalha num livro sobre guerra.
Não é de estranhar que a lua emoldurada na janela pareça ter-se arredado
de um poema de amor que costumavas saber de cor.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges