Poetry Slam logo à noite, no MusicBox

A partir das 22h00, o MusicBox (Cais do Sodré, Lisboa) acolhe mais uma sessão de Poetry Slam. Isto é, um concurso em que os poetas saltam para o palco e são duplamente avaliados, pela qualidade dos versos e pela forma como estes são ditos. Esta noite, há oito candidatos: Leandro Morgado, Mick Mengucci, Ana Reis, Ana Jerónimo, Bruno Pestana, Ingrid Chaves, Tiago Martins e André Silva. Do júri fazem parte duas das maiores revelações da poesia portuguesa recente (Margarida Vale de Gato e Margarida Ferra), a ficcionista Mónica Marques e dois elementos do público.
O mestre de cerimónias será Filipe Homem Fonseca e no fim da sessão, por volta da meia-noite, haverá um concerto dos Bling Project. A entrada é livre.

A guerra dos tablets

Primeiro, apareceu o iPad. Agora, surge a resposta dos rivais da Apple: a BlackBerry acaba de lançar o PlayBook e a Samsung vai apostar no Galaxy Tab. Uma luta que promete.

Começa hoje

Pré-publicação: ‘Bibliotecas cheias de fantasmas’ (Jacques Bonnet)

«”Já os leu todos?” Não, claro que não. Ou talvez sim. Na verdade, não sei. É complicado. Há livros que li e esqueci (muitos), e alguns que me limitei a espreitar e de que me lembro. Ou seja, nem todos foram lidos, mas todos foram folheados, cheirados, sopesados. Depois disso, a obra pode tomar três direcções possíveis (refiro-me aos livros escolhidos, comprados por mim e por isso já “seleccionados”, e não aos livros simplesmente recebidos): leitura imediata ou a breve prazo, leitura para mais tarde (o que pode levar semanas, meses ou anos, se as circunstâncias forem particularmente desfavoráveis e o afluxo demasiado intenso, formando-se “pilhas de livros a ler”), ou leituras para arrumar nas prateleiras. Mas mesmo estes últimos livros foram, de certa maneira, “lidos”, e ficaram arrumados tanto numa parte qualquer do meu espírito como na minha biblioteca. Eles servirão um dia, embora não saiba quando nem porquê. Há decerto uma razão para estarem aqui. Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguiremos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem, desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos, dos que temos vontade de reler por puro prazer, dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar, dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir, etc. (“Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho, não precisa de ter sido lida de uma ponta à outra para ser útil; cada leitor beneficia de um equilíbrio exacto entre saber e ignorância, memória e esquecimento”, Alberto Manguel). Séneca chegava ao ponto de considerar que os numerosos rolos da Biblioteca de Alexandria eram “decorações de sala de jantar”.
“Mas tem um método de leitura rápida?”, perguntam-me. Sim, claro que tenho. É o seguinte: faz cinquenta anos que passo uma grande parte do meu tempo a ler todo o tipo de obras, em todo o tipo de circunstâncias, para todo o tipo de fins. Como em qualquer actividade que se torna familiar (seja ela manual, artística ou desportiva), cria-se uma relação especial com o objecto em questão, no caso a coisa impressa (“São necessários muitos anos de trabalho para que as engrenagens cerebrais da leitura, já bem oleadas, deixem de ser conscientes”, Stanislas Dehaene). O importante não é ler depressa mas ler cada livro à velocidade que ele merece. É tão pernicioso demorar tempo demais com alguns do que ler outros demasiado rápido. Há livros que ficamos a conhecer folheando-os, outros que só compreendemos à segunda ou terceira leitura, outros ainda que poderemos reler com proveito toda a vida. Um policial lê-se em poucas horas, mas preparar uma aula sobre algumas páginas de The Waste Land, de T. S. Eliot, exige vários dias. Mas o cúmulo do desequilíbrio entre o tempo passado com um texto e a sua extensão estaria sem dúvida num trabalho de análise ao célebre monóstico de Apollinaire: “Et l’unique cordeau des trompettes marines”! Escrever um artigo para a imprensa sobre uma obra que acaba de ser publicada exige – pelo menos no que me diz respeito – duas leituras: a primeira para descobrir o livro enquanto leitor inocente, a segunda para dar uma ordem às impressões e ideias que o livro me suscitou. E depois, é um facto que esquecemos a maior parte do que lemos. Pierre Bayard, em Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? (Minuit, 2007; Como falar dos livros que não lemos?, tradução de Maria Amaral e Sílvia Sacadura, Verso da Kapa, 2008), dissertou brilhantemente sobre o facto de sermos todos levados a falar de livros que não lemos, livros dos quais apenas ouvimos falar. Aliás, Bayard disserta até de forma demasiado brilhante, uma vez que a soma das leituras que pressentimos por trás do seu ensaio está em flagrante contradição com a sua tese. Ele evoca igualmente o esquecimento em que tombam a maior parte das nossas leituras: “Torna-se difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, uma vez que a leitura é o lugar da evanescência.” Porque mesmo quando o livro foi efectivamente lido, e tão bem que ganha um lugar específico no nosso espírito, muitas vezes não sobra mais do que a memória da emoção vivida durante a sua leitura e nada de muito preciso quanto ao seu conteúdo (acontece oferecermos durante anos a fio um determinado livro, certos de que gostámos de o ler, e contudo sermos incapazes de falar sobre ele porque entretanto os detalhes já se apagaram completamente).
Stanislas Dehaene mostra, em Les Neurones de la lecture (Odile Jacob, 2007), o que o surgimento da leitura teve de singular na evolução humana. Trata-se de uma actividade do nosso cérebro que é relativamente recente: a invenção da escrita pelos babilónios aconteceu apenas há 5400 anos e o alfabeto tem 3800 anos, ou seja, tempo insuficiente para que o nosso genoma tivesse oportunidade de se modificar com vista a desenvolver circuitos cerebrais específicos para a leitura (“Como é que a arquitectura cerebral de um bizarro primata bípede que se tornou caçador-recolector se foi ajustando com tanta precisão, em poucos milhares de anos, às dificuldades que derivam do reconhecimento da escrita?”, Stanislas Dehaene). Esta faculdade, apercebida individualmente como mágica, constitui também um acontecimento improvável no plano da evolução humana, e é um dos aspectos mais surpreendentes do nosso funcionamento cerebral. A leitura, ao começar por recolher informações (sobre contabilidade comercial, câmbios e impostos), permitiu que se passasse depois à notação de reflexões mais gratuitas, transmitindo-as à distância e, ao serem legadas às gerações seguintes, favorecendo a sua acumulação e o seu enriquecimento constantes. Com a escrita, e por arrasto com a leitura,o homem não efectuou apenas um salto cultural quantitativo, ele passou também para outra escala em termos mentais. Tornou-se, em suma, um ser pensante complexo. (“O Homo sapiens é o único primata capaz de pedagogia, na medida em que apenas ele sabe prestar atenção aos conhecimentos e aos estados mentais de outrém, tendo como objectivo o ensino. Não só conseguimos transmitir de forma activa os objectos culturais que consideramos úteis, mas também – e isto é particularmente evidente no caso da escrita – conseguimos aperfeiçoá-los intencionalmente. Há cerca de cinco mil anos, os primeiros escribas descobriram um poder escondido do cérebro humano: o de aprender a transmitir a linguagem através da visão”, Stanislas Dehaene).
Não espanta por isso que a leitura continue a ser percepcionada como uma actividade única. E, no meu caso, há sempre euforia no acto de formar uma realidade por trás do simples nome de um autor ou do título de uma obra (“Leio sem escolher, simplesmente para entrar em contacto”, Walter Benjamin). Quando não foi lido, um livro é na pior das hipóteses um conjunto de letras. Na melhor das hipóteses, é uma vaga – e muitas vezes falsa – imagem nascida do que sobre ele ouvimos dizer. Pegar num livro e descobrir o que realmente contém equivale a dar-lhe um corpo; quer dizer, uma espessura e uma densidade que ele nunca mais perderá.»

O ensaio de Jacques Bonnet, traduzido por mim e editado pela Quetzal, vai para as livrarias dia 8 de Outubro.

Pedro Mexia no ‘Café com Letras’

Crítico literário, cronista, poeta e ex-dirigente da Cinemateca, Pedro Mexia vai estar à conversa com o jornalista Carlos Vaz Marques na Biblioteca Municipal de Carnaxide, esta noite (a partir das 21h30), em mais uma sessão do ‘Café com Letras’.

A Biblioteca Britânica vai disponibilizar manuscritos gregos online


Imagem: Sang Tan (AP)

«One of the world’s most important caches of Greek manuscripts is going online, part of a growing number of ancient documents to hit the Web in recent years.
The British Library said Monday that it was making more than a quarter of its 1,000 volume-strong collection of handwritten Greek texts available online free of charge, something curators there hope will be a boon to historians, biblical scholars and students of classical Greece alike.»

Quatro poemas de Teresa M.G. Jardim

NA MINHA IDADE

Vivo ilegalmente
na minha idade: falhei alguns aniversários.
Caminhei até onde o medo permitiu,
à beira das levadas de rega.

O meu primeiro amor foi um gafanhoto
verde, depois outros bichos pequenos.

Nunca me apaixonei no cinema
como as outras raparigas: apaixonei-me
pelo cinema.

***

TELEVISÃO

A televisão é uma fotografia de guerra
que mexe. É um beijo mais largo que a minha cabeça.
É uma caixa de sabão que não se cansa de lavar mais branco.
E faz muita companhia, a mim, aos livros, ao cão.

O arroz está mais caro. A água e a luz também.
Eu estou mais gorda e não passou na televisão:
a minha televisão é sensível, preocupa-se comigo,
é como se fosse uma pessoa; melhor
que as pessoas amigas que me contam as rugas
e os cabelos brancos, resmungam
por tudo e por nada, e calçariam luvas
para apanhar do chão um livro
ou mesmo o meu coração se caísse.

***

PÃO PARA A BOCA

Livros
e doce de amoras – o teu pão
para a boca,
não é o meu:
o meu pão é seco,
soco,
na cara
as palavras
escritas, um pouco antes.

***

POEMA KITSCH

O meu gato é branco e bonito como louça.
Nos dias solarengos rebola-se até adormecer
pesado de terra e pequenas sombras. De resto
é quase sempre branco, o meu gato deitado
glamorosamente sobre o tapete.

Escrevo a propósito do meu gato branco como
louça kitsch: afago entre as mãos um poema de louça.

[in Jogos Radicais, Assírio & Alvim, 2010]

Cuidado com o Doutor Avalanche

doutor-avalanche_teaser-2

Cuidado, muito cuidado, que ele está quase a chegar.
Eis a capa:

E eis o booktrailer:

Lançamentos

Hoje há pelo menos três:

18h00: Era uma vez a República, de José Fanha e Alex Gozblau (Gailivro), nos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa. Apresentação por Maria Barroso e José Jorge Letria. Canções da época cantadas por Carlos Guilherme, com João Balula Cid ao piano.

18h30: Para Interromper o Amor, de Mónica Marques (Quetzal), na livraria Bertrand do Chiado. Apresentação por Pedro Mexia, a quem a narradora do livro lança, a páginas tantas, um piropo intelectual. No fim, serão servidas caipirinhas e sushi, presume-se que em homenagem ao blogue da romancista.

18h30: A Implantação da República na Imprensa Portuguesa, de Nair Alexandra (Círculo de Leitores/Temas e Debates). Apresentação de Luís Farinha.

Clube do Autor no Facebook

Com chegada às livrarias prevista para Outubro, o Clube do Autor já está activo no Facebook.

Prémio Fernando Namora para Luísa Costa Gomes

O romance Ilusão (ou o que quiserem), de Luísa Costa Gomes (D. Quixote), venceu o Prémio Literário Fernando Namora/ Estoril Sol, no valor de 25 mil euros. O júri, composto por Vasco Graça Moura, Guilherme d’Oliveira Martins, José Manuel Mendes, Maria Carlos Loureiro, Manuel Frias Martins, Maria Alzira Seixo, Liberto Cruz, Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, decidiu por unanimidade, considerando que a obra é «manifestamente inovadora, quer pela sua excelente construção, quer pelo seu ágil registo estilístico de constante ironia, quer pela análise penetrante de alguns comportamentos tipo da actual sociedade portuguesa».

Um livro de amor aos livros

planoK_bibliotecas_fantasmas2

Eis a obra de um bibliófilo profissional, escrito a pensar nos bibliófilos amadores. Há uns meses, escrevi uma crónica sobre o livrinho na revista Ler. Depois, traduzi-o para a Quetzal. Agora, é com muito prazer que o vejo quase a chegar às livrarias (não falta muito, acontecerá a 8 de Outubro).

Frase do dia

«O Bernardo Soares é uma tripe.»

João Botelho, autor de Filme do Desassossego, em entrevista ao jornal i.

O que aí vem (Clube do Autor)

Este novo projecto editorial, liderado por João Gonçalves, começa com dois títulos: Dama de Espadas – Crónica dos Loucos Amantes, de Mário Zambujal; e Kanikosen – O Navio dos Homens, de Takiji Kobayashi. Nas livrarias a 7 de Outubro.

Caminho José Saramago, na entrada do CCB

caminho1

caminho2

caminho3

Inaugurado ontem, ao início da tarde, por António Mega Ferreira, director do Centro Cultural de Belém, e Violante Saramago Matos, filha do escritor.

Ler J. S.

Ontem à tarde, na Sala Almada Negreiros do CCB, diante de umas 150 pessoas, lemos excertos de alguns livros de José Saramago. O anfitrião, António Mega Ferreira, começou por lembrar o Saramago poeta, recuperando três dos Poemas Possíveis (de 1966). Depois, Violante Saramago Matos leu uma passagem brutal do Ensaio Sobre a Cegueira (1995) e João Céu e Silva partilhou algumas cenas soltas do Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Seguiu-se uma conversa de Mega Ferreira com Zeferino Coelho, sobre as relações entre escritor e editor, após a qual foi a minha vez de ajeitar o microfone e aclarar a voz.
Comecei pelo poema que abre o livro Provavelmente Alegria (1970):

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta.
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas a grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

Depois li um excerto de seis páginas de Memorial do Convento (1982), aquela sequência em que se descreve magistralmente o estranho poder de Blimunda (o de ver por dentro dos corpos e da terra). Começa na página 75 (tenho a 15.ª edição, de 1985), com este parágrafo:

«Dorme Baltasar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e do outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho, ou já acordadíssimos iam quando se deitaram, que este casal, ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado na igreja, cuida pouco de regras e respeitos, e se a ele apeteceu, a ela apetecerá, e se ela quis, quererá ele. Talvez ande por aqui obra de outro mais secreto sacramento, a cruz e o sinal feitos e traçados com o sangue da virgindade rasgada, quando, à luz amarela do candil, estando ambos deitados de costas, repousando, e, por primeira infracção aos usos, nus como suas mães os tinham parido, Blimunda recolheu da enxerga, entre as pernas, o vivíssimo sangue, e nessa espécie comungaram, se não é heresia dizê-lo ou, mais ainda, tê-lo feito. Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro, ouve-se cair a chuva no telhado, há grandes ventos sobre o rio e a barra, e, apesar de tão próxima a madrugada, parece escura noite. Outro se enganaria, mas não Baltasar, que sempre acorda à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de soldado, e fica alerta a ver retirar-se devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas, a sentir aquele grande alívio que levanta o peito e é o suspiro do dia, o primeiro e impreciso traço grisalho das frinchas, até que um leve rumor acorda Blimunda e outro som começa e se prolonga, infalível, é Blimunda a comer o seu pão, e depois que o comeu abre os olhos, vira-se para Baltasar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode, emendando a morte. Mas hoje não será assim. Um dia e outro dia perguntou Baltasar a Blimunda por que comia todas as manhãs antes de abrir os olhos, perguntou ao padre Bartolomeu Lourenço que segredo era este, ela respondeu-lhe uma vez que se acostumara a isso em criança, ele disse que se tratava de um grande mistério, tão grande que voar faria figura de pequena coisa, comparando. Hoje se saberá.»

E termina na página 81, com estas palavras:

«(…) pela salvação da tua alma te peço, Baltasar, leva-me para casa, dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada, olhos cansados, boca que é tão triste, mesmo quando estás ao meu lado deitado e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos baixos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada seja eu se alguma vez o fizer.»

Li ainda a versão curta desta crónica.
O momento mais alto da sessão, porém, foi a leitura que Pedro Lamares apresentou de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Seleccionando apenas algumas situações e personagens, cosendo-as muito bem e cerzindo tudo com a voz, como disse Mega Ferreira, Lamares conseguiu resumir o essencial do melhor romance de Saramago em 45 minutos. E disse-o com a arte, o ritmo e a precisão vocal de um excelente actor. Só para ouvir isto, valeu a pena organizar esta homenagem ao nosso Nobel da Literatura.

Dia José Saramago no CCB

É hoje.

ISBN

Cá: 978-989-555-374-7. Lá: 978-85-62984-04-4.

Antes de Frankfurt

Na Feira do Livro de Frankfurt, que decorre de 6 a 10 de Outubro, a Argentina vai ser o país-convidado. Jogando em antecipação, o suplemento Babelia do El País oferece esta semana aos seus leitores um dossier sobre a literatura argentina contemporânea. Entre outros textos, vale a pena ler a análise do editor Jorge Lafforgue, este mosaico de 16 autores que merecem especial atenção, uma entrevista com o poeta Juan Gelman e mais um divertimento de Andres Neuman, que põe o seu romancista ficcional Edgar Franz Milton à conversa com Jorge Luis Borges.

Três poemas de Tiago Nené

PERFÍDIA

Incrível como se ama
qualquer animal
recém-nascido.
por isso, ainda
que em vão, amamos
o amor quando nasce, esse
animal que em criança
alimentamos,
e que um dia
nos comerá o coração.

***

UM POEMA COM FORMA ESTRANHA

alargar [anota aí]
a imobilidade depois de ver a rapidez das sombras,
uma [filma, filma isto]
existência não expressa
é mais
verdadeira. só ele [tira a máquina da chuva]
saberia como
fazer passar o seu corpo por cima de si mesmo,
por fora da música, do [que música é esta?]
karma, sobre as nuvens [um, dois e três] fixas
de cor profunda [ele é
o poeta dos íssimos, mas shiuuu]
tudo o que lhe odeiam [ele tem
trinta
e nove de febre e toda a genialética]
é tudo
o que eles gostariam de ter,
ele que sabe como resumir todo o silêncio a só um começo.
[corta. repete]

***

PROTOCOLO

kyoto, pulmões de ferro,
picar o ponto a:
delírios minúsculos,
seguir a linha dos pássaros,
feridas dissemelhantes,
ruas emparedadas no interior
dos teus canais,
aproximações da inocência,
distância entre sangues marítimos,
respiração húmida do beijo frondoso,
óculos de um gandhi-flipper
ficcionado num olhar
que ainda caminha,
cintila numa cor oca
de clarividência irresponsável,
evidencia a árvore íntegra
por cima do teu lábio
fazendo o mar ciciar
nos pulmões de ferro,
na tua cabeça livre,
no teu suave azul solúvel
gotejando isenção,
libertando substância subtil e dúctil
das coisas meramente ténues,
essas coisas, esse hábito volúvel,
esse protocolo
fragilmente feroz, fictício, nu,
flora no interior
do teu corpo ausente e frio.

[in Polishop, edição bilingue com tradução para espanhol de Santiago Aguaded, colecção Palavra Ibérica, Ayuntamento de Punta Umbria, 2010]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Parrot e Olivier na América, de Peter Carey (Gradiva), por José Mário Silva
As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Quetzal), por Rogério Casanova
Para Onde Voam as Tartarugas, de Joaquim Arena (Caminho), por José Vegar
O Efeito Checklist – Como Aumentar a Eficácia, de Atul Gawande (Lua de Papel), por Luís M. Faria
1910 – Uma Antologia Literária, de Luísa Costa Gomes, Mário Cláudio, Mário de Carvalho, Miguel Real, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues (Dom Quixote), por António Loja Neves
O Livro Inacabado de Dickens, de Matthew Pearl (Planeta), por José Guardado Moreira

Falar com Ela

Ao início da tarde estive à conversa com a Inês Meneses, num estúdio da Rádio Radar. A entrevista é emitida amanhã, a partir das 12h00 (com repetição domingo, às 19h00; e quinta-feira, às 23h00). Falámos de muita coisa. Da vida e de afectos. De poesia e livros, também. Pelo meio, quatro momentos musicais: Oxford Comma, dos Vampire Weekend; Our Mutual Friend, dos The Divine Comedy; Que Amor não me Engana, do Zeca; e Der Wegweiser, de Franz Schubert.

Babelio.com

Quase 800 mil livros. Quase 50 mil críticas literárias. Quase oito mil vídeos. Dá vontade de ser bibliotecário de Babelio. Sobretudo agora que este site francês disponibilizou um verdadeiro tesouro: 440 emissões do programa Apostrophes, de Bernard Pivot.

Transferência

ca

Berta Silva Lopes trocou a editora Planeta pela novíssima Clube do Autor, onde coordenará a Comunicação e Marketing.

Lembrete

Logo à noite, a partir das 21h30, conversa, poemas, sobremesa e música no Vinyl.

Blogtailors muda de casa

Daqui para aqui. Está mais bonito, mais organizado, mais navegável. Uma excelente forma de comemorar três anos de actividade febril na divulgação do que se passa no meio editorial português (e não só). O novo Blogtailors foi desenhado por Pedro Neves, responsável da plataforma Blogs da Sapo, com a inconfundível ilustração do cabeçalho a sair da mãozinha santa do Pedro Vieira.

Lançamento de ‘Livro’

jlp_casadoalentejo

O novo romance de José Luís Peixoto, Livro (Quetzal), será apresentado por Jorge Costa esta sexta-feira, a partir das 18h30, na Casa do Alentejo (Lisboa). Os actores Margarida Cardeal e Tiago Rodrigues lerão algumas passagens. Haverá ainda música, com os violoncelos da banda Opus Diabolicum.
Depois, Peixoto apresentará o seu Livro a 27 de Setembro, a partir das 21h00, nas Galveias (concelho de Ponte de Sor), sua terra natal; a 28 de Setembro no Porto (Livraria Bertrand Granplaza, na Rua de Santa Catarina), pelas 18h30; e a partir daí um pouco por todo o país, estando agendados cerca de quarenta encontros com leitores.

Literatura sem Fronteiras

Rui Zink vai participar, de 26 a 28 de Setembro, no Cairo, num workshop (“Uma Idade Difícil”) destinado a adolescentes árabes. Jovens do Egipto, Líbano e Palestina participarão num projecto online orientado por Zink, pela escritora líbia Fatima Sherafeddine e pela ilustradora alemã Barbara Yelin. O encontro está integrado na iniciativa ‘Literatura sem Fronteiras’.

O que aí vem (Edições Nelson de Matos)

Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, publicado pela primeira vez em Portugal. Começa a ser distribuído no final do mês.

Um aforismo de Nicolás Gómez Dávila

Encontrei-o numa entrada do diário de João Bigotte Chorão (ver última página do JL n.º 1043, hoje nas bancas): «O jornalismo foi o berço da crítica literária. A universidade é o seu túmulo.»

‘Embargo’ (trailer)

O novo filme de António Ferreira, inspirado num conto de José Saramago, estreia no próximo dia 30.

Quatro poemas de Renata Correia Botelho

A ÁRVORE DAS RAÍZES

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na ‘Deslocação do Labirinto’,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

***

A MAGNÓLIA

para a Ana Teresa Pereira

ágil, estalava a tarde, lá fora,
nos passos seguros de quem não tem
temor aos versos. acabara ali

‘O Verão Selvagem dos Teus Olhos’,
aquele lugar fundo de água
e de flores onde um cão zeloso

guarda ainda uma biblioteca
e o segredo maior da tempestade.
sem dizer uma palavra,

fui fechando atrás de mim
as alamedas de Manderley,
e saí para comprar uma magnólia.

***

A VIAGEM DE LARBAUD

para o Marc-Ange Graff

não era esta, escuta, a viagem
de Larbaud; uma vírgula,
um ponto, qualquer coisa limpa
que salvasse aquele verso
– dizias-me, com um cigarro
e um rosto por acender,
como quem se prepara
para um golpe de estado.

***

DE CARA A LA PARED

foi talvez a nossa última canção.

oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.

muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes

voltei a ela: ficara-me sempre, afinal,
um terrível verso solitário
e a culpa de a ter levado

a um coração onde as canções
morreriam de frio.

[in small song, Averno, 2010]

Poesia em Vinyl convida o Bibliotecário de Babel

Quinta-feira à noite, a partir das 21h30, a poesia regressa ao restaurante Vinyl, em Alcântara (edifício da Orquestra Metropolitana). E sim, leram bem: o convidado que conversará com Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão é nem mais nem menos do que este vosso humilde escriba. Os poemas dos meus dois livros (e talvez um inédito) serão lidos pelo João Paulo Baltazar, um dos melhores jornalistas de rádio portugueses, a quem desde já agradeço o empréstimo da sua belíssima voz. Haverá ainda música, com o piano solo de Filipe Raposo. E uma sobremesa de origem francesa, assim uma espécie de pudim com frutas.
Apareçam, se puderem. A entrada é livre.

A terrível simetria

Seminarista

O seminarista
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Sextante
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-676-023-6
Ano de publicação: 2010

O protagonista e narrador deste romance de Rubem Fonseca é um assassino a soldo, «conhecido como o Especialista» por ser o melhor no seu ofício. De tempos a tempos, recebe encomendas de um misterioso Despachante para fazer «serviços específicos», executados com eficácia, inteligência e sem quaisquer sentimentos de culpa («para um matador profissional a pior coisa do mundo é ter uma consciência»).
Nos primeiros capítulos, o Especialista começa por explicar como realizou alguns dos trabalhos. Se os «fregueses» (nome dado às vítimas) merecem de facto morrer é questão que não o preocupa, mas claro que prefere eliminar «gente ruim» – um pedófilo, um violador de cadáveres roubados no cemitério, um outro assassino profissional –, embora não fique sem dormir por abater à queima-roupa alguém que se mascarou de Pai Natal ou um «freguês» que se desloca em cadeira de rodas, mais a sua enfermeira. O modus operandi, esse, não varia: «Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»
Um dia, decide retirar-se. Com o rendimento dos trabalhos, pagos a peso de ouro, juntou um bom pé-de-meia. Agora quer gozar a vida. Ex-seminarista ateu (do seminário, guardou apenas o hábito de fazer citações em latim), as coisas de que mais gosta são: o cinema (em DVD); a literatura (sobretudo poesia); e ir para a cama com mulheres – não necessariamente por esta ordem. Gosta ainda de vinho, de árvores, de futebol (é torcedor do Vasco da Gama) e de ouvir rock muito alto no mp3. Todo um programa para uma reforma dourada.
Acontece que a condição de assassino não se abandona assim com tanta facilidade, especialmente quando lá para trás ficaram problemas mal resolvidos. Por muito que o Especialista mude de nome (passa a chamar-se José Joaquim Kibir, em homenagem a um antepassado que escapou da «carnificina de Alcácer-Quibir», essa batalha em que «Portugal se fodeu») e se apaixone por uma alemã que adora Clarice Lispector, a «terrível simetria» da pistola Glock volta a arrastá-lo para o mundo negro dos crimes de sangue.
O que se segue é uma intriga complicada em que toda a gente quer matar toda a gente, um novelo tarantinesco de traições e ajustes de contas sucessivos (um pouco à maneira do que Dinis Machado fez em Blackpot), trama algo caótica e completamente inverosímil, culminando num crescendo de violência – profusão de dedos partidos, balas nas têmporas, línguas cortadas, choques eléctricos nos testículos, olhos furados – que funciona como uma paródia do thriller e seus lugares-comuns, sublinhados pelo recurso à ironia e ao exagero. O que importa aqui verdadeiramente, porém, é a escrita, a linguagem flexível, precisa e inventiva de Rubem Fonseca, a sua prosa cantabile, os seus magníficos diálogos.
Aos 85 anos, Fonseca continua a ser um dos maiores mestres no uso da língua portuguesa. E O Seminarista, mesmo ficando aquém de outros romances seus, como A grande arte ou Bufo & Spallanzani (a editar pela Sextante em Fevereiro de 2011), é uma prova eloquente dessa mestria.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Olhando para a frente

«Não há volta a dar: o futuro é digital. Editores e bibliotecários estão a viver num limbo, entre o passado analógico e o futuro electrónico. E como ainda ninguém resolveu o problema da preservação dos textos em formato digital, há riscos. Como será daqui a 20 anos?» Em Paraty, Isabel Coutinho ouviu algumas respostas para esta pergunta.

O que aí vem (ASA)

auster

Sunset Park, o último romance de Paul Auster, retrato da América durante o colapso económico de 2008; Smilla e os Mistérios da Neve, de Peter Hoeg (reedição); Os Pecados de Lord Easterbrook, de Madeline Hunter; Laços Eternos, de Kate Jacobs.

Uma nova livraria

Três das melhores editoras portuguesas – a Assirio & Alvim, a Cotovia e a Relógio D’Água – juntaram-se para construir uma livraria especializada em ciências humanas, na Fábrica do Braço de Prata (zona oriental de Lisboa). Além de duas salas preparadas para acolher seminários e projecções de cinema, haverá outras duas só dedicadas a saldos e livros em segunda-mão, garantia de que aquele será um «lugar para surpresas, nostalgias e invenções».
A festa de inauguração está marcada para 30 de Setembro, às 22h00.

Lembrar Matilde Rosa Araújo

Até 30 de Setembro, na Sala de Referência da Biblioteca Nacional.

Prémio Máxima de Literatura 2010 para Leonor Xavier

O livro Casas Contadas, de Leonor Xavier (ASA), venceu a edição deste ano do Prémio Máxima de Literatura, por decisão unânime de um júri constituído por António Carvalho, Maria Helena Mira Mateus, valter hugo mãe e Laura Luzes Torres (directora da revista Máxima).

Da ficção à realidade

O Museu da Inocência, descrito por Orhan Pamuk no seu último romance (editado em Portugal pela Presença), vai ter em breve uma versão física e visitável, num prédio de quatro andares no bairro de Çukurcuma, no centro de Istambul.

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges