‘Paris Review’ online

A mítica Paris Review lançou ontem o seu novo site. Um belíssimo site, diga-se, a merecer desde já um lugar prioritário nas minhas deambulações diárias pela net.

Poemas na corda

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Em Cacela Velha

Houve poemas espalhados pelas paredes, poemas pendurados com molas em cordas da roupa, poemas ditos em voz alta (alguns em árabe), debates à sombra das palmeiras da praça central, leituras à sombra das palmeiras da praça central, a luz quase rasa do crepúsculo sobre a ria (vista das muralhas), um arroz de lingueirão, mais de uma centena de pessoas sentadas, já de noite, para ouvir poetas populares e poetas impopulares a revezeram-se ao microfone, cada um a dizer o seu poema, e depois do último verso a banda filarmónica de Vila Real de Santo António a fazer tchirapá-tchimpum, e depois o estampido de um foguete rasteiro, largado no chão da praça, e depois outro poeta e outro poema, uma festa singular que imitou a preceito um ritual antigo da aldeia de Igrejinha (perto de Arraiolos), e houve ainda sevilhanas e jazz e doces marroquinos com chá de menta, uma bela jornada para a divulgação da modalidade, como diriam os comentadores desportivos.

Imagens de sábado

À tarde:

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À noite:

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Pátio de Letras

É uma livraria independente, de Faro, e montou uma bem abastecida banca de livros de poesia em Cacela Velha, durante os dois dias da iniciativa ‘Poesia na Rua’. A visitar, pelos leitores algarvios e não só.

Sobre o estatuto que os livros vêm perdendo

Um artigo de Jack Schafer, na Slate.

A cada um sua moléstia

O Porco de Erimanto e outras fábulas
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-795-299-1
Ano de publicação: 2010

Há livros, como o mais recente volume de contos de A.M. Pires Cabral, que merecem ter duas vidas. Nada do outro mundo, se considerarmos que a primeira não chegou propriamente a existir. Publicado em 1985 por uma «editora efémera» (Nova Nórdica), O homem que vendeu a cabeça nem sequer entrou nos circuitos comerciais: «a tiragem de 2500 exemplares deve ter apodrecido nalgum armazém, sido guilhotinada ou vendida a peso», explica o autor. Passado um quarto de século, eis que o livro renasce, substancialmente revisto e aumentado (mais três contos), com novo título e chancela de uma editora nada efémera (Cotovia).
Feliz ressurreição, diga-se, porque o autor de O Cónego (e de uma extensa obra poética) está entre os melhores prosadores portugueses em actividade. Como Agustina Bessa-Luís ou Mário de Carvalho, Pires Cabral explora até ao limite a riqueza da língua, a sua plasticidade sintáctica, o seu vocabulário. E faz de cada conto, para lá da narração em si mesma, um primor de linguagem. As histórias, essas, são ora divertidas, ora cruéis, ora divertidas e cruéis. Pires Cabral gosta de multiplicar narradores e pontos de vista, de construir os textos como caixas chinesas e de manobrar ostensivamente os cordéis das suas personagens, sujeitas ao mau génio de um deus ex machina que só as quer ver em estado de angústia e sofrimento.
Por causa de um buraco na parede, o hóspede de uma pensão barata alucina com o que se passa no quarto ao lado. Há quem ofereça cedo demais a cabeça à ciência, quem se transforme no seu objecto de estudo (o javali mítico dos trabalhos de Hércules), quem lute com a própria sombra ou com um cancro tão íntimo que até tem nome de gente (Desidério) e por isso se torna difícil de eliminar. A atmosfera geral é de insânia, mas uma insânia mais vezes cómica do que trágica. Se virmos bem, todos os protagonistas enlouquecem ou são vítimas da loucura alheia (que às vezes é só uma forma de maldade). E quando não ficam doidos, adoecem. «A cada um sua moléstia», preconiza uma das personagens, defensora do «carácter saudável da doença», esse tributo «a pagar à mecânica da carne». Noutra história, sugere-se que «um coração doente é o melhor tesouro que um homem pode ambicionar», porque nos oferece o consolo de um fim rápido. A morte está sempre a rondar este livro, sem descanso, nos seus mil disfarces. Por isso, mesmo quando o tom de Pires Cabral é assumidamente jocoso, quase zombeteiro, apetece-nos tudo menos rir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 93 da revista Ler]

‘LeYa de Portas Abertas’ (um resumo)

Sara Figueiredo Costa esteve lá e conta o que se passou.

Romance colectivo

Juntem-se 36 escritores. Quanto tempo é que eles podem levar a escrever um romance? Resposta: seis dias. O projecto pode ser acompanhado em tempo real (das dez da manhã às dez da noite, hora de Seattle), palavra a palavra, à medida que cada escritor for cumprindo o seu turno de duas horas, aqui.

Quatro poemas de Amy Lowell (traduzidos por Miguel Martins)

MÚSICA

O vizinho está sentado à janela tocando flauta.
Da minha cama consigo ouvi-lo,
E as notas suaves agitam-se e tamborilam pelo quarto,
E entrechocam-se,
Esbatendo-se em acordes inesperados.
É muito belo,
Com as pequenas notas de flauta à minha volta,
No escuro.

Durante o dia,
O vizinho come pão e cebola com uma mão
E copia música com a outra.
É gordo e tem a cabeça careca,
Pelo que não olho para ele,
E passo a correr frente à sua janela.
Há sempre o céu para olhar,
Ou a água no poço!

Mas quando chega a noite e ele toca a sua flauta,
Penso nele como um jovem,
Com medalhas de ouro pendendo do relógio,
E um casaco azul com botões de prata.
Deitada na minha cama,
As notas de flauta encostam-se-me aos ouvidos e aos lábios,
E adormeço, sonhando.

***

PROPORÇÃO

No céu há uma lua e estrelas,
E no meu jardim há mariposas amarelas
Agitando-se em torno do arbusto de azáleas brancas.

***

O RETIRO DE HSIEH KUNG POR LI T’AI-PO

O sol está a pôr-se – pôs-se – na Montanha Verde-Primavera.
O retiro de Hsieh Kung está solitário e quedo.
Nenhum som humano no campo de bambu.
A branca lua brilha no centro do lago do jardim abandonado.
À volta da Casa de Verão desabitada há relva apodrecida,
Musgo cinzento abafa o poço em ruínas.
Há, apenas, o vento livre, claro
Uma vez e outra passando sobre as pedras da fonte.

***

UMA OFERENDA QUEIMADA

Porque não havia vento,
O fumo das tuas cartas pairou no ar
Por muito tempo;
E a sua forma
Era a forma do teu rosto,
Minha Amada.

[in revista Telhados de Vidro, n.º 14, Setembro de 2010]

Eu bem me parecia

«Parents have been warned to choose their words carefully after research indicated that children as young as four can understand irony.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O seminarista, de Rubem Fonseca (Sextante), por José Mário Silva
Desespero, de Vladimir Nabokov (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Jack Kerouac – Biografia, de Yves Buin (Bertrand), por José Guardado Moreira
Desforra – A Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza, de Margaret Atwood (Bertrand), por Paulo Nogueira
Hans, o Cavalo Inteligente, de Miguel Rocha (Polvo), por Sara Figueiredo Costa
Dos Rumores, de Cass Sunstein (Dom Quixote), por Luís M. Faria
O Taberneiro, de Miguel Martins (Poesia Incompleta), por Hugo Pinto Santos

Para os meus leitores brasileiros (em geral) e para os gaúchos (em particular)

De 3 a 7 de Novembro, estarei em Porto Alegre, no Estado de Rio Grande do Sul, para participar na 56.ª Feira do Livro de Porto Alegre. Entre outros desafios, fui convidado para falar sobre a «actual produção literária portuguesa em prosa e verso» com Mariana Ianelli e Luís Augusto Fischer, no Auditório Barbosa Lessa (CCCEV), dia 4, às 19h00. Uma hora e meia depois, darei autógrafos da edição brasileira do livro Efeito Borboleta e Outras Histórias (publicado pela ArdoTempo).

O que aí vem (colecção BIS, LeYa)

Histórias FalsasA República dos Corvos

Segunda-feira, dia 20, é posta à venda a mais recente fornada de livros de bolso da editora LeYa (colecção BIS): Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares; Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo; Primeiro as Senhoras, de Mário Zambujal; A Fúria das Vinhas, de Francisco Moita Flores; A República dos Corvos, de José Cardoso Pires; Da Liberdade de Pensamento e de Expressão, de John Stuart Mill; e O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy.

Winking Books

E eis que surge, esta semana, mais uma comunidade de leitores na Internet: a Winking Books (Livros que Piscam o Olho), tendo como lema «your books from shelf to life». Segundo Miguel Osório, um dos co-autores do projecto, «o site permite que cada um ponha em circulação os livros de que já não faz uso, inventariando-os no seu espaço pessoal no site, ganhando desse modo pontos para trocar por livros que pretenda ler.» As trocas serão feitas através de envios pelo correio.

Gonçalo M. Tavares candidato aos prémios Femina Étranger (com Maria Velho da Costa) e Médicis


Foto de Matej Povse

O júri do Prix Femina anunciou ontem à noite a sua première sélection (que é como quem diz longlist em francês). Entre os autores candidatos ao Femina Étranger estão Gonçalo M. Tavares (por Apprendre à prier à l’ère de la technique, Viviane Hamy) e Maria Velho da Costa (por Myra, La Différence). Já o Femina para romances franceses será disputado entre 13 escritores, entre os quais Michel Houellebecq (La Carte et le territoire, Flammarion), Virginie Despentes (Apocalypse Bébé, Grasset) e Antoine Volodine (Ecrivains, Seuil).
Gonçalo M. Tavares está ainda na lista de finalistas do Prix Médicis para romances estrangeiros, onde terá pela frente alguns pesos-pesados, como Thomas Pynchon, William Boyd ou Per Petterson.
Apprendre à prier à l’ère de la technique chegou ontem às livrarias francesas, juntamente com mais um volume da série ‘O Bairro': Monsieur Brecht (ambos traduzidos por Dominique Nédellec). A propósito do lançamento do último volume da tetralogia do Reino, vale a pena ler a entrevista que GMT deu ao site Chroniques de la Rentrée Littèraire.com.

Ciclo de debates sobre a República

A primeira sessão do ciclo de debates ‘Da Monarquia à República’, organizado pela livraria Almedina do Atrium Saldanha (Lisboa), realiza-se na terça-feira, dia 21, a partir das 19h00. Para falar sobre ‘Os últimos anos da Monarquia’ estará presente José Miguel Sardica, professor associado da Universidade Católica Portuguesa. A moderação caberá a Alice Samara, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (UNL).
O programa completo do ciclo pode ser consultado aqui.

Lembrete

A ‘Poesia na Rua‘, em Cacela Velha, começa hoje.

O que aí vem (Planeta Tangerina)


O Livro dos Quintais, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho


Trocoscópio, de Bernardo Carvalho

Segundo e terceiro volume da trilogia “Histórias Paralelas”, estes livros serão apresentados durante as Palavras Andarilhas, em Beja (este sábado), e estarão nas livrarias no dia 20.

Hipertexto

O APODRECIMENTO SUAVE

Já escrevi num poema o fascínio
dos limos que transluzem
numa água de aparência imóvel.

Má literatura apenas, pois nenhum
apodrecimento é suave. Todo ele
é decadência e mau cheiro e o pôr
do sol é kitsch obrigatório de namorados pífios,
antigos calendários de parede e caducos
postais de veraneio.

[in Coisas que Nunca, de Inês Lourenço, &Etc, 2010]

Passagem

LIMOS

Religo-me em Novembro às algas,
medula húmida unindo
a vaga seda erma
das estranhas conchas habitáveis,
inquietos limos
prenunciam a passagem.

[in Retinografias, de Inês Lourenço, Editora das Mulheres, 1986]

Origami

Ou como fazer um livro em menos de cinco minutos.

Lembrete

O Bom Inverno, primeiro romance de João Tordo na sua nova editora (a Dom Quixote), vai ser apresentado esta tarde por Pilar del Río, na livraria Ler Devagar (LX Factory, Alcântara, Lisboa), a partir das 19h00.

Três perguntas

O João Morales, director da revista Os Meus Livros, colocou-as. E eu respondi.

Paul Auster à conversa com John Ashbery

Aconteceu domingo, no Brooklyn Book Festival. Reportagem aqui.

Nova assessora de imprensa no Círculo de Leitores/Temas e Debates

Sai Rosa Clemente, há muitos anos no lugar, e entra Ana Teresa Ferreira.
A nova assessora de imprensa do Círculo de Leitores/Temas e Debates é formada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e começou por trabalhar na imprensa (Jornal de Letras e Notícias Magazine). Nos últimos tempos, era editora de conteúdos do site oficial do Círculo de Leitores e responsável pelas entrevistas a autores portugueses e estrangeiros na revista Círculo.

Dois lírios

Thomas Higginson escreve à sua mulher sobre a visita que fez a Emily Dickinson, em Amherst, a 16 de Agosto de 1870:

«Passos como se fossem de criança e eis que veio deslizando uma mulher pequena com dois bandós de cabelo avermelhado, (…) num vestido de piquê estranhamente branco. Chegou-me com dois lírios que me pôs na mão de uma forma infantil, dizendo “São a minha apresentação”, numa voz suave, assustada e ofegante – e acrescentou “Perdoai-me se estou assustada; nunca vejo estranhos e mal sei o que dizer”».

[in tábua cronológica do livro Cem Poemas, de Emily Dickinson, organizado e traduzido por Ana Luísa Amaral, Relógio d’Água, 2010]

Chegaram

pacote

Abri a caixa e lá estavam os finalistas do Man Booker Prize:

five

Depois juntei-lhes o romance de Peter Carey (já traduzido para português) e fiquei com a minha pilha de leitura (com outras pelo meio, claro) a consumir até 12 de Outubro:

six

Para já, acho que vou começar pelos quartos. Mais propriamente pelo In a Strange Room, do sul-africano Damon Galgut.

‘LeYa de Porta Aberta’

Hoje, entre as 17h30 e as 21h00, a LeYa vai reunir na sua sede, em Alfragide, cerca de cem autores das suas várias chancelas, assim como elementos do universo livreiro e a comunicação social. Além da apresentação das principais apostas das editoras do grupo para o último quadrimestre de 2010, será feita uma visita ao edifício e apresentadas algumas das muitas pessoas que nele trabalham.

Festival Internacional de Literatura de Montreal

Entre 17 e 26 de Setembro, o 16.º Festival Internacional de Literatura de Montreal vai abranger encontros literários, mesas-redondas com escritores, tertúlias e espectáculos. Portugal estará representado por Francisco José Viegas, que participará num debate sobre o romance policial europeu. No dia 19, haverá um Percurso Literário por Montreal em que cinco escritores policiais farão da cidade o cenário de um crime.

Olhos de menina obscura

As Mãos Pequenas
Autor: Andrés Barba
Título original: Las Manos Pequeñas
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Minotauro
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-972-44-1594-9
Ano de publicação: 2010

Nesta narrativa de um lirismo sombrio e despojado, Andrés Barba (n. 1975) aproxima-se de um território difícil de explorar literariamente: o mundo da infância, oscilando entre inocência e brutalidade, com uma lógica por vezes cruel, em que amor e ódio podem ser duas faces da mesma moeda. Marina tem sete anos e a vida destroçada por um acidente de automóvel. A perda reduziu-se a uma única frase, repetida como um estribilho: «O meu pai morreu de morte imediata, a minha mãe no hospital.» Palavras que são uma espécie de escudo, talvez a única forma de «fixar o que não podia ser fixado».
Quando chega ao orfanato, com uma boneca igual a ela (até no nome) e uma cicatriz no ombro, as meninas que já lá estão, quase indistintas e fundidas numa espécie de narrador coral, recebem-na com um misto de fascínio e desconfiança. A recém-chegada olha «com olhos de menina obscura», é «diferente», há nela uma estranheza que contamina tudo e a coloca no centro de sucessivos círculos de atracção e repulsa, culminando num jogo de despersonalização (as meninas transformadas em bonecas) que vai longe demais.
Barba transmite com mestria a dinâmica da perversidade infantil, mas o livro vale sobretudo pelo altíssimo conseguimento da sua linguagem. Atente-se, por exemplo, nesta exemplar descrição do orfanato: «Erguia-se com uma impaciência estranha, como se por cima do jardim houvesse outro jardim, e sobre a planta do edifício alguém tivesse traçado um desenho no ar, uma linha negra e finíssima sobre o perfil de cada uma das janelas e das portas que fizesse com que a casa aparecesse sublinhada na paisagem.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘La Folie et l’Amour’

Um belíssimo conto inédito do escritor brasileiro Aldyr Garcia Schlee.

O que aí vem (Dom Quixote)

Sôbolos Rios Que Vão

As propostas da Dom Quixote para o mês de Outubro são de cortar a respiração: Sôbolos Rios Que Vão, o mais recente romance de António Lobo Antunes; Luka e o Fogo da Vida, de Salman Rushdie; O Feitiço de Xangai, de Juan Marsé; Divórcio em Buda, de Sándor Márai; novas edições de Doutor Fausto, de Thomas Mann, e de A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa; História do Século XX, de Martin Gilbert; A Ponte – A Vida e a Ascensão de Barack Obama, de David Remnick (um dos livros mais badalados do ano, nos EUA); e a reedição de Correcções, de Jonathan Franzen, antecipando o desde já aguardadíssimo lançamento da tradução de Freedom, na Primavera de 2011.

Divórcio em BudaO_Doutor_Fausto

Um tiro no Pai Natal

«Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.
O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata preta e óculos escuros. Ele me pagava bem.
“O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.”
Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, Ira furor brevis est, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.
Para sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel. “Entra, entra”, ele disse, “Feliz Natal!”
“Faz Ô! Ô! Ô! pra mim”, pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.
“Ô! Ô! Ô!”, ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.»

[Primeira página do romance O seminarista, de Rubem Fonseca, edição portuguesa da Sextante, nas livrarias a partir de amanhã]

Natália e Rui, por Pedro Vieira

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Desenhos retirados daqui.

Rayuela F. C.

Começa hoje, ao fim da tarde, a Liga dos Campeões da UEFA, temporada 2010-2011. Desta vez, embora o Sporting não participe na prova (hélas, hélas), estarei especialmente atento aos resultados porque montei uma equipa virtual para competir na UEFA Champions League Fantasy Football e na Liga Booktailors – Futebol Fantástico.
O nome da equipa é Rayuela F. C. e espero que a sua numerosa claque de cronópios se faça ouvir, cantando, nas bancadas por essa Europa fora. Equipamento: calções brancos e camisola verde escura com mangas de um verde claro.
Na primeira jornada, a equipa vai jogar em 4-4-2.
Baliza: Felipe (Sporting de Braga)
Defesa: Maicon (Inter de Milão); Rio Ferdinand (Manchester United); Ricardo Carvalho (Real Madrid); Krstajic (Partizan de Belgrado)
Meio-campo: Xavi Hernández (Barcelona); Wesley (Werder Bremen); Nani (Manchester United); Valbuena (Marselha)
Avançados: Cristiano Ronaldo (Real Madrid); Huntelaar (Shalke 04)
Suplentes: Lloris (guarda-redes, Olympique de Lyon); Pjanic (O. Lyon); Hugo Almeida (Werder Bremen) e Cicinho (Roma)

Afinal os prémios literários sempre servem para alguma coisa

Após ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, Rui Cardoso Martins «diz-se outra vez pronto para a escrita».

Biblioteca do Vaticano reabre na próxima semana

«Depois de mais de dez anos de obras e de três anos encerrada ao público, a Biblioteca Apostólica do Vaticano reabre segunda-feira. Com mais espaço, melhor arrumação e com todas as condições de segurança», explica o DN.

Marcar na agenda

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26 de Setembro é Dia José Saramago no Centro Cultural de Belém.

Civilização tem novo assessor de imprensa

A Civilização acaba de anunciar que tem um novo assessor de imprensa. Para substituir Carolina Sousa foi contratado Pedro Salazar, que trabalhará, a partir de hoje, nos escritórios de Lisboa da editora nortenha.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges