O pássaro do seu medo

«Da janela do hospital em Lisboa não eram as pessoas que entravam nem os automóveis entre as árvores nem uma ambulância que via, era o comboio a seguir aos pinheiros, casas, mais pinheiros e a serra ao fundo com o nevoeiro afastando-a dele, era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre e um cortejo alongou-se na direcção do cemitério com a urna aberta e uma criança dentro, outras crianças vestidas de serafim de guarda ao caixão, gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente, solas e solas, quando a avó no muro com ele desistiu de persignar-se sentiu o cheiro das compotas na despensa, vasos em cada degrau da escada e como os vasos intactos não aconteceu fosse o que fosse, por um triz, estendido na maca à saída do exame, não perguntou ao médico
– Não aconteceu fosse o que fosse pois não?
e não aconteceu fosse o que fosse dado que os vasos intactos, a avó que morreu há tantos anos ali viva com ele, o avô defunto há mais tempo a ler o jornal com o seu aparelho de surdo, o silêncio do avô alarmou-o fazendo com que o ouriço se lhe dilatasse nas tripas arranhando, doendo, coloco-o numa placa de granito, bato com o martelo e a doença esmagada, alguém que não distinguia empurrava-lhe a maca corredor adiante, notava a chuva, caras, letreiros, a governanta do senhor vigário no alpendre enquanto pensava
– É o meu esquife que empurram
a oferecer-lhe uvas
– Apetecem-te uvas menino?
e desapareceu logo, não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se, o avô dobrou o jornal no sofá e não o olhou sequer, quis pedir
– Não consegue fazer nada por mim?
e o mais que podia esperar era a concha da mão na orelha
– O quê?
e sobrancelhas juntas no sentido de ninguém
– Que disse ele?
de forma que o pássaro do seu medo continuava aos círculos, olha as raízes dos pés e os dedos que apertam o lençol, os pobres, aqueles que esperavam o elevador deixaram a maca entrar primeiro, fitaram-no um momento e esqueceram-se, achou impossível que não se recordassem dele, a avó punha-lhe um chapéu de palha com o elástico roto durante as vindimas, qual a razão de todos os chapéus de palha com o elástico roto e quase todas as chávenas sem um pedaço da pega, tinha seis, sete anos, descobria calhaus de mica e girava-os para a direita e para a esquerda a reflectirem a luz, não acreditava que o não notassem na varanda para a serra procurando apanhar os insectos da trepadeira com uma caixa de fósforos vazia e nunca apanhou nenhum, não estava no hospital em março, à chuva, estava em agosto na vila, se o mandavam fazer recados trocava de passeio antes de alcançar a moradia com a dona Lucrécia na cadeira de inválida ao alto dos degraus a acenar-lhe a bengala.»

[Início de Sôbolos Rios que Vão, de António Lobo Antunes, D. Quixote, 2010]

Revista ‘Ler’, n.º 96

Nas bancas segunda-feira (e já hoje no almoço em que espero conhecer cara a cara alguns dos leitores da revista).

O novo site da Guerra & Paz

Está mais funcional, bem arrumado, navegável, etc. Para comemorar a mudança, durante o mês de Novembro a versão para e-book de Singularidades de Uma Rapariga Loira, de Eça de Queirós, pode ser descarregada à borla.

Esta tarde, a partir das 16h00, encontramo-nos debaixo da pala do Pavilhão de Portugal

Exactamente ao mesmo tempo que decorre o Rally to Restore Sanity em Washington, vamos expressar a nossa solidariedade com o Jon Stewart e mostrar que Portugal também precisa, à sua maneira, de recuperar a sanidade (se é que alguma vez este rectângulo foi são).
Mais informações aqui e num vídeo em que faço, sem grande jeito (admito), de porta-voz da causa.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Tempestade, de William Boyd (Casa das Letras), por Luís M. Faria
A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño (Quetzal), por José Mário Silva
Adelino Amaro da Costa, de Maria do Rosário Carneiro e Célia Pedroso (Casa das Letras), por Filipe Santos Costa
Poesia, de Cristovam Pavia (Dom Quixote), por Hugo Pinto dos Santos
O Império dos Espiões, de Rui Araújo (Oficina do Livro), por José Vegar
– Revista La Balsa de la Medusa, Maio/Agosto 2010, por António Loja Neves
Não Há Palavras, de Zhang Jie (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo

A Trama reabre as portas, finalmente

ESTANTES

RUA

E eu só não vou estar presente no regresso dos livros à Rua São Filipe Nery porque a intempérie desta manhã me entrou pela casa dentro (pingos de chuva a cair do tecto, ameaçando as cordilheiras de papel, vulgo estantes).

Lost Pages Club

Eis um novo jogo social online para quem gosta de livros. Começa já na segunda-feira, a partir das 10h00. Regras e informações aqui.

‘Cartas de Praga’

Logo à tarde, a partir das 18h30, vou apresentar o livro de poemas Cartas de Praga, de Tiago Patrício, na sede do Clube Português de Artes e Ideias
(Largo Raphael Bordallo Pinheiro N.º29, 2.º, Lisboa). Mais informações sobre a obra aqui.

Lançamento de ‘Sôbolos Rios que Vão’

sobolos

J. G. Ballard em Serralves

Um tributo ao escritor britânico, no Porto, entre 29 de Outubro e 6 de Novembro.

‘Portugal na América’

Esta tarde, às 18h00, a FLAD acolhe no seu auditório uma conversa sobre “Portugal na América”, com os escritores Frank X. Gaspar e Katherine Vaz, a que se junta o historiador Donald Warrin. Antes, a partir das 17h00, haverá uma Mostra do Livro Luso-Americano.

Maravilhas da paternidade

pedro_na_livraria

Sábado, na livraria do Changuito, o Pedro usou-me como trampolim. Eis um miúdo de quatro anos que rodopia no ar e grita: «Pai, pai, faz outra vez.» Nas estantes, os livros – seres tão frágeis – tremiam assustados.

[Agradeço ao Changuito a foto magnífica e a paciência com os petizes.]

Num aquário de tubarões metafísicos

«Amado Couto
Juiz de Fora, Brasil, 1948-Paris, 1989

Couto escreveu um livro de contos que nenhuma editora aceitou. O livro perdeu-se. Depois foi trabalhar para os Esquadrões da Morte, sequestrou, ajudou a torturar e viu como alguns era mortos, mas ele continuava a pensar na literatura e mais precisamente naquilo de que a literatura brasileira precisava. Precisava de vanguarda, de letras experimentais, dinamite, mas não como os irmãos Campos, que achava aborrecidos, dois professorezecos sem graça, nem como Osman Lins, que ele achava francamente ilegível (então porque é que publicavam Osman Lins e os seus contos não?), mas sim algo moderno, mais a atirar para o seu género, algo policial (mas brasileiro, norte-americano, não), um continuador de Rubem Fonseca, para nos entendermos. Esse escrevia bem e, embora dissessem que era um filho da puta, a ele não lhe constava isso. Um dia pensou, enquanto esperava com o carro num descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer qualquer coisa a Fonseca. Disse isto aos seus chefes e estes ouviram-no. Mas não levou a cabo a ideia. Meter Fonseca no coração de um verdadeiro romance enevoou e iluminou os sonhos de Couto. Os chefes tinham chefes e a dada altura da cadeia o nome de Fonseca evaporava-se, deixava de existir, mas na sua cadeia privada o nome de Fonseca cada vez era maior, mais prestigiado, mais aberto e receptivo à sua entrada, como se a palavra “Fonseca” fosse uma ferida e a palavra “Couto” uma arma. Assim que leu Fonseca, leu a ferida até esta começar a supurar, e depois adoeceu e os seus colegas levaram-no a um hospital e dizem que delirou: viu o grande romance policial-brasileiro num pavilhão de hepatologia, viu-o com pormenores, com trama, nó e desenlace e pareceu-lhe que estava no deserto do Egipto e que se aproximava como uma onda (ele era uma onda) das pirâmides em construção. Escreveu, pois, o romance e publicou-o. O romance chamava-se Nada a Dizer e era um romance policial. O herói chamava-se Paulinho e às vezes era o motorista de uns senhores, outras vezes era um detective e ainda outras um esqueleto que fumava num corredor a ouvir gritos distantes, um esqueleto que entrava em todas as casas (em todas não, só nas casas da classe média ou dos pobres abaixo do limiar de pobreza) mas que nunca se aproximava muito das pessoas. Publicou o romance na colecção “Pistola Negra”, que editava policiais norte-americanos, franceses e brasileiros, mais brasileiros ultimamente porque faltava o dinheiro para pagar royalties. E os seus colegas leram o romance e quase nenhum o percebeu. Nessa altura já não saíam juntos de carro nem sequestravam nem torturavam, embora um ou outro ainda matasse. Tenho de separar-me desta gente e ser escritor, escreveu Couto nalgum lado. Mas dava muito trabalho. Uma vez tentou ver Fonseca. Segundo Couto, olharam um para o outro. Está mesmo velho, pensou, já não é Mandrake nem nada, mas teria trocado com ele nem que fosse só uma semana. Também pensou que o olhar de Fonseca era mais duro que o seu. Eu vivo entre piranhas, escreveu, mas o Sr. Rubem Fonseca vive num aquário de tubarões metafísicos. Escreveu-lhe uma carta. Não recebeu resposta. Então, escreveu outro romance, A Última Palavra, que a Pistola Negra lhe publicou e que trazia Paulinho novamente à cena e que no fundo era como se Couto se despisse diante de Fonseca sem qualquer pudor, como se lhe dissesse aqui estou eu, sozinho, a carregar com as minhas piranhas enquanto os meus colegas percorrem as ruas centrais, de madrugada, como os homens do saco que levam os meninos, o mistério da escrita. E embora provavelmente soubesse que Fonseca nunca leria os seus romances, continuou a escrever. Em A Última Palavra apareciam mais esqueletos. Paulinho já era quase um esqueleto o dia todo. Os seus clientes eram esqueletos. As pessoas com quem Paulinho conversava, fornicava, comia (ainda que regra geral comesse sozinho), também eram esqueletos. E no terceiro romance, A Mudazinha, as principais cidades do Brasil eram como esqueletos enormes, e as povoações eram também como esqueletos pequenos, esqueletos infantis, e às vezes até as palavras se tinham metamorfoseado em ossos. E já não escreveu mais. Alguém lhe disse que os seus colegas da recolha estavam a desaparecer, ficou com medo, isto é, ficou com mais medo no corpo. Tentou desfazer os seus passos, encontrar caras conhecidas, mas tudo tinha mudado enquanto ele escrevia. Alguns desconhecidos começavam a falar dos seus romances. Um deles poderá ter sido Fonseca, mas não foi. Tive-o nas minhas mãos, anotou no seu diário antes de desaparecer como um sonho. Depois foi para Paris e lá enforcou-se num quarto do Hotel La Grèce.»

[in A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2010]

Quase, mas mesmo quase, de volta

«a Trama
vai ter uma loja mais pequenina
vai ter menos secções
vai tentar ser melhor nas secções que decidiu ter
vai ter livros novos e usados
vai ter livros importados
e livros que importam
também vai ter filmes
vai ter estantes altas
e por isso vai ter um escadote
vai ter uma sala que vai servir de escritório para mim e onde vou poder finalmente ser a secretária que nasci para ser
vai ter candeeiros pequeninos
vai ter um quadrado de chão um bocadinho mais alto que o resto
vai ter um balcão novo
vai ter um horário diferente»

Quem o diz é a Catarina, que já anda com cócegas adolescentes na barriga (bom sinal) e também sabe o que são as maravilhas da maternidade.

Festival de BD da Amadora

bdamadora

Até 7 de Novembro. Todas as informações aqui.

Uma semana na vida dela

Carolyn Kellogg, jornalista do Los Angeles Times, é uma das minhas bloggers preferidas. Costumo ler os seus posts sobre livros, escritores e o mundo editorial no Jacket Copy. Recentemente, escreveu um diário da febril actividade durante uma semana (a do Nobel e do Booker), para o blogue da Paris Review. Pode ler-se aqui e aqui.

O ódio dos burgueses

Excerto de uma carta enviada por Gustave Flaubert a George Sand, a 12 de Junho de 1867:

«(…) Je me suis pâmé, il y a huit jours, devant un campement de Bohémiens qui s’étaient établis à Rouen. Voilà la troisième fois que j’en vois et toujours avec un nouveau plaisir. L’admirable, c’est qu’ils excitaient la haine des bourgeois, bien qu’inoffensifs comme des moutons. Je me suis fait très mal voir de la foule en leur donnant quelques sols, et j’ai entendu de jolis mots à la prud’homme. Cette haine-là tient à quelque chose de très profond et de complexe. On na retrouve chez tous les gens d’ordre.
C’est la haine que l’on porte au bédouin, à l’hérétique, au philosophe, au solitaire, au poète, et il y a de la peur dans cette haine. Moi qui suis toujours pour les minorités, elle m’exaspère. Il est vrai que beaucoup de choses m’exaspèrent. Du jour où je ne serais plus indigné, je tomberai à plat, comme une poupée à qui ont retire son bâton (…).»

Alguém a devia mostrar ao presidente Sarkozy, se é que ele, por estes dias de paralisação geral do país, tem tempo para ler seja o que for.

[via La République des Livres]

Um feixe de sopros

Que se diga que vi como a faca corta
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Mariposa Azual
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-972-8481-10-9
Ano de publicação: 2010

Neste ano que tem sido pródigo em estreias poéticas fulgurantes – veja-se o caso de Margarida Vale de Gato, entre outros –, Miguel Cardoso (n. 1976) emerge como um dos novos autores que valerá a pena acompanhar mais de perto. O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono. E ainda bem, porque os epígonos de Herberto costumam ser meras caricaturas de Herberto.
O que mais impressiona neste livro é o seu tremendo fôlego lírico e o modo ávido como a escrita parece querer devorar a realidade palpável do mundo (através de um «feixe de sopros / e sons e olhos soltos»). Miguel Cardoso delimita desde logo um espaço poético: precário, ameaçado, sujeito a contínuos recomeços e «ténues colapsos». Um espaço que se desmancha e refaz no fim de cada estrofe, de cada poema, deixando de lado quaisquer ilusões de demiurgo: «Nem êxtase nem furor / nem devastação, nem nada. / Compõe ainda assim / como se houvesse».
Mais do que encontrar um sentido para as coisas, o que importa é a exploração do poder incalculável da linguagem, com as suas descontinuidades e abismos, parêntesis e cesuras, frinchas e nesgas, dobras e vincos. O programa é claríssimo: «trabalhar a espessura, a tracção subtil». Como? Trazendo «as palavras de volta ao esforço», fazendo da «imprecisão» a «mais exacta ciência» e não tendo medo de assumir, em diálogo cifrado com outros artistas (Sophia acima de todos, mas também Cézanne e as suas paisagens), uma espécie de vertigem: «A nós coube-nos a desmesura». Mesmo se a desmesura acaba por não conduzir a lado nenhum: «É preciso arrumar os despojos, correr as persianas. / Tenho agora o rosto em ruínas, a voz mais branda, // As mãos desfocadas. Esqueci-me dos caminhos / Onde procurámos o distraído ruído dos outros.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 94 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Sôbolos Rios que Vão, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por José Mário Silva
Attachment – Em Anexo, de Isabel Fonseca (Teorema), por Rogério Casanova
Novo Dicionário do Islão, de Margarida Santos Lopes (Casa das Letras), por José Cardoso
Divórcio em Buda, de Sándor Márai (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
A Minha Viagem por África, de Winston Churchill (Casa das Letras), por Luís M. Faria
Santuário, de William Faulkner (Bertrand), por José Guardado Moreira

Prazeres tipográficos

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(clique para aumentar)

Uma coisa que tenho em comum com Roberto Bolaño

Epígrafe de Efeito Borboleta e outras histórias (2008):

«O certo é que o escritor de brevidades o que mais deseja é escrever interminavelmente textos longos, textos longos em que a imaginação não tenha de trabalhar, em que factos, coisas, animais e homens se cruzem, se procurem ou fujam uns dos outros, vivam, convivam, se amem ou façam derramar livremente o seu sangue sem estarem sujeitos ao ponto e vírgula, ao ponto.»
Augusto Monterroso

Epígrafe de Literatura Nazi nas Américas (1996, edição portuguesa em 2010):

«Quando o rio é lento e se conta com uma boa bicicleta ou cavalo, sim, é possível banharmo-nos duas (e até três, consoante as necessidades higiénicas de cada um) vezes no mesmo rio.»
Augusto Monterroso

A angústia da folha em branco

As palavras iniciais de um texto são o seu big bang, o momento em que a matéria começa a existir e a povoar o vazio. «No princípio era o Verbo», diz a Bíblia, falando da criação do mundo. Os escritores, assumam-se ou não como demiurgos, também sabem o que isso é. Tanto o primeiro verso de um poema, aquele que alguns crêem ser oferecido pelos deuses, como a primeira frase de um romance são a porta que dá para a escrita. É preciso, porém, inventar essa porta. Antes dela, há o nada, há o famoso abismo da página em branco. Um abismo que tanto fascina como paralisa. Ou não? Será o dilema da página em branco apenas um mito romântico, arcaico e ultrapassado? Fará esta ideia algum sentido para os autores que escrevem hoje, já não em folhas virgens, já não em luta com a sua caligrafia, por entre borrões de tinta, mas nos processadores de texto dos computadores portáteis?
Para Hélia Correia, a estas dúvidas só se pode responder com outras dúvidas: «Uma página em branco é um papel ou é o mundo inteiro ainda não escrito? Para que há-de ir alguém sentar-se e arrepelar-se, se nenhum texto o convidou para ali? Se não há fome – e agora não há fome –, parece-me esse um desespero fino, como quem sofre de um aperto de sapatos.» Mais do que lutar contra a folha em branco, interessa-lhe «a luta com a página cheia». Isto é, «o labor contra um material grosseiro que se quer afinar». A escrita de valter hugo mãe, romancista e poeta, nasce «invariavelmente da urgência» e por isso não sofre impasses nem hesitações na hora de arrancar: «quando começo tenho já a primeira frase e talvez até o primeiro parágrafo na cabeça». Afonso Cruz, ficcionista que também é músico e ilustrador, reflete muito sobre o que vai escrever, por isso nem chega a sentir ansiedade: «Como dizia Kazantzakis, quando saltamos não há abismo. Quando não saltamos, há abismo.» José Luís Peixoto, que anda pelo país a promover o seu último romance (Livro), não se preocupa demasiado com esta questão: «O branco é só uma cor. E quem determina as várias tonalidades desse branco são os olhos do autor.»
João Tordo, Prémio José Saramago em 2009 (como valter foi em 2007; e Peixoto em 2001), tem o problema resolvido à partida: a folha em branco não o assusta porque as suas páginas nunca chegam propriamente a estar vazias. Logo à partida, estão «cheias de notas soltas, arranques, frases que me vão surgindo, informação, pesquisa, etc.». E a quem se sinta amedrontado diante da tarefa em mãos, deixa um conselho: «o melhor é seguir em frente e depois voltar atrás e reescrever tudo.» Autora de dois romances em que o processo de escrita faz parte da narrativa (Transa Atlântica e Para Interromper o Amor), Mónica Marques também defende que a única forma de vencer o «terror» da página em branco é «ir em frente». Mas ressalva: «O problema são os dias em que não chego a ver o ecrã do Word.»

Se ainda há escritores que preferem escrever à mão, a maioria rendeu-se aos processadores de texto, a que José Cardoso Pires chamava «máquinas de apagar». Peixoto considera-os sobretudo cómodos: «Permitem um movimento ágil dentro do texto e acabam por ser instrumentos bastante românticos. Não só aproximam a escrita da música (o som das teclas, o seu ritmo, a semelhança com o piano), como também têm esse contexto poético de se estar a escrever na luz, num ecrã de luz.» Hélia recorda José Saramago, que dizia ser o cursor, «com o seu pisca-pisca», a chamá-lo para a escrita. «É certo que uma página se torna numa entidade muito mais complexa, quase animada, em cujas profundezas se move um hipertexto tentacular.» Mas a autora de Lillias Fraser não tem a certeza se «os encontros a dois – escritor e texto – são mais profícuos no meio dessa multidão». O suporte da escrita é o que menos preocupa valter hugo mãe: «Sou capaz de escrever páginas inteiras dos meus romances em cadernos pequenos, em rebordos de revistas ou no que seja. Quando a ideia para um texto se intensifica, não a quero perder por nada e uso o que houver.» Ultimamente, até já aconteceu recorrer ao seu novo telemóvel (um Blackberry): «É prático. Ficam as pessoas a pensar que troco mensagens com alguém, o que me disfarça e me permite um certo sossego num momento que, para todos os efeitos, tende para alguma intimidade.»
E depois? Vencida a primeira barreira, como é que se prossegue por ali fora, página a página, até ao último ponto final? A estratégia de Margarida Vale de Gato, tradutora que se estreou este ano como poeta (com o livro Mulher ao Mar), é só uma: «Escrever continuadamente. Gosto de começar pelo princípio e acabar no fim, embora antes e depois haja trabalho. Não escrevo tudo de jacto, nesse momento o texto é um barro fresco que eu estou sempre a transformar. Mais tarde, também burilo, altero, posso até acrescentar versos antes e depois. Mas naquele tempo concentrado da escrita preciso de saber que há um princípio e um fim e um corpo.» Afonso Cruz também precisa de um corpo: «Parto sempre de uma espécie de esqueleto que vai ganhando músculo capítulo a capítulo. Para mim é essencial ter um conceito e depois uma forma, um enredo. Primeiro penso naquilo que quero contar. Depois, havendo a necessidade de apresentar essa mensagem num embrulho que possa entreter, adapto a Odisseia. Mudo o nome de Polifemo e de Penélope, teço a tapeçaria e desteço a tapeçaria até ter uma viagem de ilha para ilha, de ilha dentro de ilha. Até Ítaca.»
Hélia garante que o seu caso é bem simples de contar: «Sou completamente inimputável quanto àquilo que escrevo. Vem a primeira frase quando vem, vem a seguinte quando lhe apetece. Nem sequer as registo. Mas aprendo-as. No fim de um tempo fazem um parágrafo. Dizem-me: “Escreve-nos” como o bolo disse: “Come-me”. Fico então com um grande tamanho, como Alice, e igualmente assustada. Que sei eu? Que vagueio entre seres desconcertantes e que aquilo que se passa me perturba. A Alice fez planos? Não fez. Tirou notas? Tão-pouco. Aprendeu qualquer coisa quando chegou ao fim. Porém, nem ela soube bem o quê.» No caso de Tordo, as histórias começam sempre por existir na cabeça: «Quando começa a aparecer na página, o texto está já dependente de toda uma estrutura desenhada em traços largos na minha imaginação.» A escrita progride de encontro às centenas de notas prévias feitas directamente no processador de texto; as notas em baixo, o texto do romance ao alto da página, as primeiras alimentando o segundo. «Evidentemente, as estruturas mudam imenso no decorrer da escrita, e aquilo que achávamos que era o nosso livro vai-se alterando organicamente ao longo do tempo. Prefiro sempre fazer uma primeira versão em “bruto”, a argamassa do livro, e depois, quando acabo, refazer tudo, capítulo a capítulo. É neste segundo encontro com as palavras que surgem os desafios mais interessantes.» Pelo contrário, valter avança no livro limpando o que fica para trás. «Leio em voz alta tudo o que escrevo, corrijo vírgulas, acrescento frases. Quando chego à última palavra, o livro está pronto a ser entregue ao editor.»
Os hábitos associados à escrita também variam. Mónica Marques, por exemplo, gosta de escrever de manhã. «Sei que estou a acabar um livro quando começo a levar o computador para o quarto e escrevo sentada na cama com ele à frente em cima de duas almofadas e com folhas de texto já impresso em volta.» Hélia diz sofrer de um pecado que já foi mortal, a preguiça. «Como qualquer doença depressiva, não pode combater-se pela vontade ou pelas atitudes optimistas. É preciso uma droga para a curar. A minha droga é a chuva.» Exemplo: o último romance, Adoecer, foi sendo escrito «aos bocadinhos» ao longo de quatro anos e em Outubro de 2009 tinha apenas um terço do que veio a ser o tamanho final. Depois, «nos três meses do Inverno passado, bem chuvosos, fiz os outros dois terços, de rajada».
Afonso Cruz gosta de escrever com um copo de cerveja ao lado, mas resolve os imbróglios narrativos andando a pé, à maneira de Rousseau. «Preciso de caminhar para desatar alguns nós. Passeio para pensar, para resolver todos os problemas que as personagens criam. As ficções criam muitos nós. E o autor é um desatador. Por algum motivo, caminhar ajuda-me a desfazer os coágulos que o enredo acumula nas suas veias.» Já Tordo considera que o maior inimigo da literatura é a vida quotidiana, «uma vez que nos pode convencer, à sua maneira insidiosa, de que há melhores coisas a fazer e melhores lugares para se estar do que sozinho, à secretária, a inventar coisas de que o mundo não necessita nem pediu».
Finalmente, há a questão dos bloqueios criativos. Quem nunca teve um que lance a primeira pedra. E ninguém lança. Mas como resolvê-los? A experiência de valter mostrou-lhe que às vezes basta um telefonema: «No romance o apocalipse dos trabalhadores, eu tinha imaginado a Maria da Graça incrivelmente só, mas a personagem parecia pedir companhia, e quando liguei à minha mãe ela disse-me que tinha conhecido uma Quitéria muito engraçada e que se metia com os homens ou lá o que era. Foram dez segundos de conversa e fiquei logo convencido. Não precisei de mais nada para criar a minha Quitéria.» Afonso Cruz, quando bloqueia, volta atrás: «Se não sei o que escrever, penso sobre o que já escrevi. Julgo que a inspiração é um movimento que se faz para dentro, como nos mostra a respiração. As paragens servem para envelhecer aquilo que escrevemos, tornar as coisas maduras.»
Os chamados bloqueios, Hélia não os conhece. Passa «períodos longuíssimos sem escrita, deixando cair frases por negligência», mas esses intervalos são o seu «tempo infantil», em que os mundos imaginários se bastam a si mesmos. No fundo, tem noção de que não controla aquilo que lhe desperta o ímpeto de escrever: «Não posso mandar na frequência da chuva. Aliás, quando vou para a Irlanda ou para o norte de Inglaterra, faz um sol que parece uma praga a perseguir-me. Como se os elementos me mostrassem que, mesmo deslocando-me, não afecto as condições que a Natureza destinou. Logo, não escrevo. Vocifero contra o céu. E fico a ver como os Britânicos se deitam sobre a relva dos parques, tão felizes.»

[Texto publicado na revista Única, do semanário Expresso]

Gonçalo M. Tavares na selecção final do Prix Fémina

O romance Aprender a Rezar na Era da Técnica (Apprendre à prier à l’ère de la technique, na tradução francesa de Dominique Nédellec, publicada pela Viviane Hamy) é um dos cinco livros que passaram o último crivo do Prix Fémina Étranger. Os outros são La maladie, de Alberto Barrera Tyszka (Gallimard); Rosa candida, de Audur Ava Olafsdottir (Zulma); Purge, de Sofi Oksanen (Stock); e Un autre amour, de Kate O’Riordan (Joëlle Losfeld). O vencedor será anunciado a 2 de Novembro.

Duas histórias do ‘Doutor Avalanche’

A LONGA BARBICHA RUIVA

Quando Zurbin Raimondi entrou no café, uma trovoada de gargalhadas retumbou nos ares. Era sempre esse o efeito que produzia. Onde quer que chegasse, toda a gente desatava em convulsões de riso e a apontar-lhe o dedo. Por isso, não estranhou. Atravessou a sala e deixou-se cair na última cadeira, esperando pacientemente que a onda de hilaridade serenasse. Como era seu hábito, não trocou palavra com ninguém. Apenas bebeu uma cerveja, pagou e saiu, no meio da risota geral. Zurbin Raimondi não conseguia perceber o que havia nele que atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso tão descontrolado. Até porque detestava dar nas vistas: falava muito pouco e quando se dirigia a outras pessoas, o som da sua voz até a si mesmo causava espanto. À noite, fechado no seu quarto, entregava-se às lágrimas e ao mais terrível desespero. «Não, não, não!», repetia de si para consigo, de olhos revirados e arrancando os cabelos.
Eis senão quando, à força de puxar pela cabeça, julgou ter encontrado o meio de acabar com tudo aquilo. Empunhou uma lâmina, ergueu-a acima do pescoço e cortou de uma só vez a longa barbicha ruiva que o acompanhava há largos anos. Pois bem, de queixo rapado, saiu para a rua. E meu dito, meu feito: não surpreendeu uma única gargalhada nem nada que sugerisse chacota. Em vez disso, viu caras graves, preocupadas e até coléricas, no escritório, no autocarro, no café, em todo o lado.
Nas semanas seguintes, deixou de ser motivo de riso e assunto de conversa. Já ninguém reparava nele. Zurbin Raimondi era agora tratado como qualquer pessoa mergulhada nas mesquinhas ocupações da vida. E por mais que tossisse fortemente ou batesse com a palma da mão na mesa do café, ninguém lhe prestava a mais leve atenção.
Apressou-se, pois, a deixar crescer a necromântica barbicha ruiva, a fim de que a sorte o brindasse de novo com qualquer desgraça. Mas nada aconteceu. A indiferença agarrara-o para não mais o largar.

A ÁRVORE

Não me lembro quando começou. Não sou bom a memorizar datas. Mas tenho ainda presente o espanto, o assombro, o medo, o assombro e o espanto que senti quando, uma manhã, ao acordar, dei de caras com a árvore. Uma árvore imensa plantada no meio do apartamento. Um gigante de longas raízes negras, que irrompera do fundo do soalho, durante a noite. Os ramos, tão numerosos como uma floresta, cobriam todas as divisões. As folhas farfalhavam no ar e batiam-me nos olhos.
Nesse mesmo dia, cortei-a pela base e livrei-me daquilo tudo. À noite, estendi-me na cama e adormeci muito satisfeito. Na manhã seguinte, porém, a árvore achava-se no mesmo local da véspera. E parecia ainda maior e mais frondejante. Cortei-a de novo e tudo se repetiu: de manhã lá estava o monstro verde, conspirando pacífica e vegetalmente, no meio do apartamento. No meu desespero, cheguei a queimar toda a madeira num instante. Mas bastavam alguns segundos para ela irromper do chão, ainda mais convincente e definitiva, e lançar os ramos contra os vidros.
Pouco a pouco, desisti de lutar contra os desígnios da natureza, se assim me posso exprimir. Tentava concentrar-me nas velhas tarefas domésticas, mas a minha atenção perdia-se por entre os ramos, nas folhas verdes e amarelas que ondulavam pelo tecto como borboletas caprichosas. Entretanto, um pássaro começou a cantar, depois outro e outro ainda, e pequenos animais despontaram de todos os lados, correndo e escondendo-se na erva.
Daí por diante, a casa transformou-se num bosque interminável, cheio de ruídos misteriosos, locais sombrios, segredos profundos. Por esta altura, creio que já não consigo encontrar a porta da rua. A vida nos bosques não é a melhor coisa do mundo, mas são tempos difíceis estes em que vivemos. E de um modo geral, tenho de o dizer sem falsa modéstia, estou a sair-me bem.

[in Doutor Avalanche, de Rui Manuel Amaral, Angelus Novus, 2010]

Afonso Cruz: dois livros, dois lançamentos

E é tudo hoje.
Primeiro, para as crianças (mas não só):

convite-Contradição Humana

Depois para os adultos:

convite_kokoschka

Como neste convite a letra é muito miudinha, acrescento que a apresentação será feita por Maria João Freitas, a partir das 22h00, no restaurante Vinyl (Travessa da Galé, 36, junto à antiga FIL).

Geração 0 (de zero, niente, neribi)

O escritor Douglas Coupland gosta muito de dar palpites sobre o zeitgeist, essa bela palavra alemã que devíamos utilizar pelo menos uma vez por ano. Já o fez antes e voltará a fazê-lo sempre que mudarmos de década, altura igualmente propícia, diga-se, para o uso da tal palavra alemã tão catita. Vai daí, por estarmos no redondo 2010, o autor de Geração X decidiu escrever um artigo intitulado A radical pessimist’s guide to the next 10 years. Se quiserem ficar deprimidos logo pela manhã, o texto não deixará de vos dar um empurrãozinho. Eis algumas das ideias fortes de Coupland para a próxima década:

– «As coisas vão piorar ainda mais»
– «A classe média acabou e não voltará»
– «Comam salada enquanto podem»
– «Garantam que haverá sempre alguém para vos mudar a fralda»
– «A noção do tempo vai continuar a encolher. Os anos parecerão horas»
– «Sentiremos mais saudades dos anos 90 do que alguma vez supusemos»
– «O mundo será governado por pessoas estúpidas, apenas substituídas por pessoas ainda mais estúpidas»
– «A nossa vida de sonho ficará cada vez mais parecida com o Google Street View»
– «Teremos de aceitar o facto óbvio de que a culpa de tudo isto foi nossa»

E agora, para desanuviar, falemos do Orçamento de Estado português para 2011. Não é assim tão mau, pois não?

O universo em ondas de beleza

Anthero Areia & Água
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1493-7
Ano de publicação: 2010

Na génese desta extraordinária aproximação à figura e à voz poética de Antero de Quental (1842-1891) está um texto publicado por Armando Silva Carvalho (ASC), já este ano, na revista Colóquio – Letras (n.º 173, Janeiro/Abril). Ao evocar o suicídio «sem qualquer espécie de retórica» de Antero — os célebres dois tiros disparados na boca, em Ponta Delgada, num banco de jardim —, ASC explica a natureza do fascínio que sente pelo autor das Odes Modernas: «Por mim, pois sou eu que estou aqui / Por trás da escrita, Queria perceber — entre a leitura dos textos / E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos / Que ainda estremecem — / A estranha sedução que me provoca / O que ficou do corpo, que dizem que foi teu». Mais adiante, concretiza: «Hoje entrego-me total e mentalmente a Anthero // Direi depois se puder / E em livro / As causas desta minha decadência / Já surda à voz das grandes multidões, / Cansadas também elas / Das palavras que lhes deitam por cima como bombas / Em árias suicidas / No palco da mentira universal, / Como ele também dizia». O livro prometido, e que ASC felizmente conseguiu escrever, é este Anthero Areia & Água, que daquele poema fundador toma o título e também os versos, em jeito de prefácio.
Uma entrega tão radical a Antero, num processo que coincidiu com a leitura das suas cartas (publicadas por Ana Maria Almeida Martins na Imprensa Nacional – Casa da Moeda), implicava um risco enorme. Porque estes não são meros poemas sobre Antero, escritos por alguém que veio depois; são poemas em que Antero é o sujeito poético, é a voz que fala, naquele tom solene dos seus sonetos «em que hoje ninguém toca». No fundo, é um Antero em potência, olhando do alto — talvez do Infinito por ele tantas vezes invocado — para o que foi a sua vida, um Antero que abrange o futuro que não teve (o vibrante início do século XX, com o seu fulgor de máquinas, imagens em movimento, «tudo em labareda») e esse outro futuro, ainda mais distante, que é o nosso presente, um tempo em que os poetas «já não deixam escorrer das suas bocas / o espesso mel da tragédia» e em que se insinua o «pulsar cansado das multidões / frente ao lugar comum e democrata / do vosso dia-a-dia».
Se para o vate das «barbas nimbadas de melancolia» a memória era «o túmulo dos meus versos», o mínimo que se pode dizer é que ASC procede à exumação com total desvelo. O retrato do «ilhéu descentrado em maresias», de corpo «incandescente, eléctrico, lucífero», vergado ao «peso terrível da insónia» e com olhos «magoados pelo sol da solidão», emerge de uma espécie de bruma, surge-nos ao mesmo tempo difuso e muito nítido. À semelhança da biografia — recordações de Coimbra, Paris, Vila do Conde, Açores, dos amigos (Bulhão Pato, Eça) e das leituras (Cesário Verde, Whitman, os vituperados russos) —, em que se convocam os factos da existência, mas como que atrás de uma cortina. A matéria essencial dos poemas são as «ideias», as «afamadas damas» que acenam com «abstracto lenço». E o lugar de onde não saímos é a cabeça de Antero, «palco ético» para uma busca da transcendência e da justiça, essa «concreta forma da justiça, / onde o universo explode em ondas de beleza».
Mencionámos o risco que ASC correu ao assumir a voz de Antero como sua. E o risco podia manifestar-se de duas formas: ou transformando ASC num epígono caricatural; ou fazendo de Antero o boneco nas mãos do ventríloquo. Nenhuma das hipóteses se verifica. Pelo contrário, o que acontece é uma espécie de fusão entre universos poéticos distintos, que se acrescentam um ao outro num «êxtase virtual». O poema que aborda esta convergência intitula-se Quântica, talvez porque é a um nível quase subatómico que ela se processa. Eis o início da segunda estrofe: «Doem-me os nervos batidos num teclado / Por dedos intraduzíveis.» Os «dedos» de um (ASC) a tocarem os «nervos» do outro (Antero) através da experiência da escrita. Ou seja, da linguagem, erguida aqui a alturas poucas vezes alcançadas pela poesia portuguesa contemporânea:

«(…) Mas o meu destino foi belo como um cisne.
Não disse, mas escrevo agora,
Que canto prolongado, esse meu canto,
Asas levíssimas, um peito branco em chamas,
Uma permanente brancura no negro noite da vida,
Sobre uma água sem fúria, lisa, dominada.

E se o cisne me foge
Tenho todas as frentes da alma em medievo,
Sei como armar a ciência em cordas desavindas
Que não dão para salvar, talvez para curar,
O corpo atrofiado, os nervos meio convulsos,
A boca esfíngica do mal na minha boca.

Tentamos sempre disfarçar nos textos
Uma pequena história metafísica que nos livre da dor,
Da pequenina, íssima dor de sermos animais. (…)»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Pré-publicação: ‘A Literatura Nazi nas Américas’ (Roberto Bolaño)

«Edelmira Thompson de Mendiluce
Buenos Aires, 1894-Buenos Aires, 1993

Aos quinze anos publicou o seu primeiro livro de poemas, Ao Papá, que conseguiu introduzi-la numa discreta posição na imensa galeria das poetisas da alta sociedade buenairense. A partir de então, foi assídua nos salões de Ximena San Diego e de Susana Lezcano Lafinur, que ditavam a lírica e o bom gosto nas duas margens do rio da Prata nos alvores do século XX. Os seus primeiros poemas, como é lógico supor, falam de sentimentos filiais, de pensamentos religiosos e de jardins. Namoriscou a ideia de se tornar freira. Aprendeu a montar a cavalo.
Em 1917, conhece o ganadeiro e industrial Sebastián Mendiluce, vinte anos mais velho do que ela. Toda a gente ficou surpreendida quando ao fim de poucos meses se casaram. Segundo os testemunhos da época, Mendiluce não apreciava a literatura em geral e a poesia em particular, faltava-lhe sensibilidade artística (embora de vez em quando fosse à ópera) e a sua conversa situava-se ao mesmo nível que a dos seus peões e operários. Era alto e enérgico, mas estava muito longe de ser bonito. A sua única qualidade reconhecida era a sua fortuna inesgotável.
As amigas de Edelmira Thompson disseram que tinha sido um casamento de conveniência, mas a verdade é que ela se casou por amor. Um amor que nem ela nem Mendiluce jamais souberam explicar e que se manteve inabalável até à morte.
O casamento que acaba com a carreira de tantas escritoras auspiciosas deu novos brios à pena de Edelmira Thompson. Abriu o seu próprio salão em Buenos Aires, que rivalizou com o da San Diego e o da Lezcano Lafinur. Protegeu jovens pintores argentinos aos quais não só comprava obras (em 1950, a sua pinacoteca de artes plásticas argentina não era a melhor, mas sim uma das maiores e extravagantes da República), como também costumava levá-los à sua fazenda de Azul para que pintassem longe da agitação mundana e com todas as necessidades cobertas. Fundou a editora Candeia Sulista onde publicou mais de cinquenta livros de poesia, muitos dos quais lhe são dedicados, a «fada boa das letras crioulas».
Em 1921, publica o seu primeiro livro em prosa, Toda a Minha Vida, autobiografia idílica, se não mesmo chã, isenta de mexericos e cheia de descrições paisagísticas e de considerações poéticas que, contrariamente ao que a autora esperava, passa totalmente despercebida pelas montras das livrarias de Buenos Aires. Decepcionada e na companhia dos seus dois filhos pequenos, de duas criadas e de mais de vinte malas, Edelmira parte para a Europa.
Visita Lourdes e as grandes catedrais. É recebida pelo Papa. Percorre em veleiro as ilhas do Egeu e chega a Creta num meio-dia de Primavera. Em 1922, publica em Paris um livrinho de poemas infantis em francês e outro em espanhol. Depois volta para a Argentina.
Mas as coisas mudaram e Edelmira já não se sente bem no seu país. Num jornal acolhem o aparecimento do seu novo livro de poesia (Horas da Europa, 1923) tachando-a de pirosa. O crítico literário mais influente da imprensa nacional, o Dr. Luis Enrique Belmar, considera-a uma «dama infantil e desocupada que faria melhor se dedicasse o seu esforço à beneficência e à educação de tantos catraios esfarrapados que correm pelos espaços sem limites da pátria». Edelmira responde com elegância convidando o Dr. Belmar e os outros críticos para o seu salão. Só aparecem quatro jornalistas mortos de fome que trabalham para páginas de acontecimentos sociais. Edelmira, desdenhada, refugia-se na fazenda de Azul para onde a seguem uns quantos incondicionais. Na paz dos campos, ouvindo as conversas da gente trabalhadora e humilde, prepara um novo livro de poesia que atirará à cara dos seus detractores. Horas Argentinas (1925), a esperada colectânea de poemas, provoca o escândalo e a controvérsia desde o próprio dia da sua publicação. Nele, Edelmira abandona a visão contemplativa e passa ao ataque. Arremete contra os críticos, contra as literatas, contra a decadência que envolve a vida cultural. Propõe um regresso às origens: os trabalhos do campo, a fronteira sul sempre aberta. Ficam para trás os requebros e os desfalecimentos amorosos. Edelmira quer uma literatura épica, epopeica, na qual não lhe trema o pulso na hora de cantar a pátria. À sua maneira, o livro é um grande êxito e num acto de humildade, com pouco tempo para saborear o mel do trabalho reconhecido, Edelmira parte outra vez para a Europa. Acompanham-na os seus filhos, as suas criadas e o filósofo de Buenos Aires Aldo Carozzone que faz as vezes de secretário particular.»

Este romance de 1996, agora traduzido para a Quetzal pela dupla Cristina Rodriguez e Artur Guerra, chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 22.

F de Fiama

fiama

Lançamento do n.º 2 da revista ‘Ítaca’

Vai ser no próximo dia 23, a partir das 19h00, na nova Livraria Fábrica Braço de Prata. Apresentação de José Pedro Serra.

‘Ah, a Literatura’, agora em blogue

O melhor programa sobre livros do canal Q (o melhor e o único) já tem um espacinho na blogosfera, com vídeos e tudo. Vale a pena ir passando por para ficar a saber, por exemplo, que o programa de logo à noite vai ter como pièce de résistance a análise ao último romance de Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais.

Três poemas de Cristovam Pavia

PRELÚDIO

Levanta-se da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.

Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.

Minhas mãos são chagas,
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…
Levanta-se da rocha a flor esmagada.

***

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

***

ÚLTIMAS DISPOSIÇÕES DO H.M.E.

Para começar tirem-me este trapo da cara, que faz cócegas
e amortalhem nele o meu gato e enterrem-no
ali onde era o meu jardim cromático.

Levem a coroa de latão de cima do meu peito
e atirem-na às estátuas erguidas no entulho,
e ofereçam os laços às putas, para que com eles se enfeitem.

Rezem as orações a um telefone antiquado e sem fio
ou embrulhem-nas num lenço de assoar cheio de farelos
para os estúpidos peixes do charco.

O Bispo que fique em casa e se emborrache,
dêem-lhe uma garrafa de rum
(o sermão vai fazer-lhe sede).
E deixem-me em paz com lápides e chapéus altos!
Com o belo basalto pavimentem uma viela
onde ninguém more,
uma Ruazinha para pássaros.

Na minha mala há muito papel amarelo para o meu primo miúdo
fazer com ele avionettes que hão-de voar, bonitas, da ponte
e ir mergulhar no rio.

O mais que fica (umas cuecas, um isqueiro, uma linda opala
e um despertador) isso é para oferecer a Calístenes, o trapeiro,
com a devida gorjeta.

Quanto à ressureição da carne, entretanto, e à vida eterna,
dessas coisas trato eu, se estão de acordo:
É cá comigo, não acham? Então, adeus!

Na banca de cabeceira há ainda alguns cigarros.

[in Poesia, edição de Joana Morais Varela, prefácio de Fernando J. B. Martinho, Dom Quixote, 2010]

O que aí vem (Civilização)

No seu Mundo, de Jodi Picoult; Uma Semana em Dezembro, de Sebastian Faulks; Centelhas, de Hyatt Bass.

IC-19

Há muitas coisas no mundo que não compreendo. Mas o que me atormenta mesmo, palavra de honra, é não entender por que carga de água existem engarrafamentos. É um mistério inexplicável, um enigma. As filas de automóveis formam-se, crescem, esticam-se por quilómetros e quilómetros, mas quando uma pessoa chega ao sítio onde era suposto haver um estrangulamento, um desastre, qualquer coisa de grave, verifica com espanto que não há nada de anormal e que o trânsito até flui com facilidade.
Confesso que este fenómeno não só me deixa perplexo como profundamente irritado. Já que um homem esperou não sei quanto tempo fechado num carro, com os nervos em franja e a paciência a ferver, ao menos que fosse por uma razão forte, um acidente com vários automóveis amachucados, com pessoas feridas na berma e muitas ambulâncias e bombeiros e macas, uma coisa em grande, digna de ser mostrada no telejornal das oito. Mas quase nunca há razão forte nenhuma. Na melhor das hipóteses, estão dois homens de gravata a discutir por causa de um farolim partido. Ou então é uma senhora que deixou o carro ir abaixo e não consegue pô-lo a funcionar por causa dos nervos e das buzinadelas. São sempre coisas destas, coisas menores. Nunca nada que justifique tantas horas com o pé na embraiagem, tantas horas num pára-arranca que nos mói o juízo.
No outro dia, lá no emprego, o Antunes tentou explicar-me o mistério. O Antunes é um tipo assim para o esquisito. Tem perto de dois metros de altura, quase outro tanto de lado e raramente toma banho. Há quem lhe chame o urso, mais pelo cheiro do que pela envergadura. Além disso, é gago, passa a vida nos corredores a meter conversa e tem a mania de que é muito inteligente. A meio da manhã, quando saí para beber café, estava ele a falar com o Fernandes sobre o El Niño e a dinâmica imprevisível dos furacões. Quando voltei, a vítima era a Micaela, encostada à parede a ouvir histórias sobre um tal Mandelbrot, matemático ou coisa parecida, um tipo de certeza ainda mais esquisito do que o Antunes. Ele a dar-lhe com o Mandelbrot e a Micaela, coitada, a perguntar: «Mandelquê?» «Man-Man-Mandelbrot», exclamou o Antunes. Com a minha aproximação, a Micaela pôs-se a milhas, enquanto o urso me pregava uma violenta palmada nas costas e dizia «nem de pro-pro-propósito». Era mesmo comigo que queria falar, garantiu-me, porque já descobrira a solução para a minha dúvida existencial. Referia-se, é claro, à história dos engarrafamentos, que eu mencionara uns dias antes, nem sei bem porquê. Segundo ele, o tal Mandelbrot tinha a ver com uma coisa chamada fractais e com uma outra coisa chamada teoria do caos. «Num sistema, pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar grandes alterações nas condições finais», disse o Antunes, orgulhoso da sua sabedoria. E eu a esbugalhar os olhos, a dizer «troca lá isso por miúdos». E ele a especificar que «basta um carro abrandar o ritmo, uma coisa de nada, para que esse abrandamento se propague e amplie na sucessão de carros que vêm atrás, provocando um abrandamento generalizado que vai ao ponto de criar uma paragem do fluxo automóvel; ou seja, o engarrafamento».
O Antunes é um sabichão mas não me consola. Porque a verdade é que estou parado no IC-19, com milhares de automóveis à minha frente e meia-hora para chegar ao emprego. Saber se a culpa foi de um acidente ou de um abrandamento generalizado é igual ao litro. O que interessa são os factos e os factos dizem-me que estou preso dentro do meu próprio carro, com o motor em ponto morto e a pequena árvore desodorizante a baloiçar, a baloiçar, a baloiçar, pendurada no espelho retrovisor. Estou preso eu e estão presos milhares de outros como eu, que também picam o ponto às nove, que também ganham uma miséria, que também vivem em apartamentos no Cacém e em Queluz, apartamentos T1 com manchas de humidade nas paredes e vista para outros prédios, outros como eu que também pegam no carro todos os dias a pensar «isto não é vida», outros como eu que também desconheciam a origem misteriosa dos engarrafamentos e talvez ainda desconheçam, porque apesar de tudo gajos como o Antunes contam-se pelos dedos.
Olho para o relógio digital do meu Opel Corsa e percebo que vou chegar atrasado, mais uma vez. O relógio pisca 08:40, 08:40, 08:40, como antes o despertador piscou 07:30, 07:30, 07:30. É uma violência, acordar com o som estridente do buzzer e aqueles algarismos vermelhos a dizerem-me que não posso fechar outra vez os olhos, que tenho de saltar da cama, atravessar a cozinha descalço, acender o esquentador, enfrentar um rosto em ruínas no espelho da casa de banho, espalhar o creme da barba, fazer um slalom gigante com a lâmina de barbear, ter cuidado para não deixar pêlos no lavatório (caso contrário a Irene aproveitará logo para vir com os seus remoques), entrar para o duche rápido, sair do duche, vestir roupa lavada, acordar a Irene, engolir à pressa um prato de corn flakes, pentear o cabelo com um nadinha de gel, ajeitar o nó da gravata no espelho do hall de entrada, descer no elevador com a vizinha do sexto direito que trabalha num escritório das Amoreiras, beber um café na pastelaria da esquina e chegar ao carro convicto de que hoje vai ser diferente, de que hoje não haverá trânsito nenhum, embora saiba que no IC-19 já está a ser montado o inferno do costume.
O inferno, sim senhor, o inferno. Sem labaredas e sem demónios, mas inferno. Aliás, o castigo que nos reserva o outro mundo, a nós pecadores, deve ser isto: um engarrafamento infinito, eterno. O relógio agora pisca 08:50, 08:50, 08:50 e ainda estamos a uns quilómetros de Lisboa. O inferno, sim senhor. E por falar nisso espreito os outros condenados, os meus companheiros de infortúnio. No automóvel em frente, um homem de meia-idade, careca, estendeu o jornal desportivo sobre o volante e lê as últimas sobre o seu clube. No carro ao lado, um casal de trombas. Estiveram de certeza a discutir quem teve mais culpa no atraso, agora estão calados, ele a sintonizar o rádio e a esfregar os olhos, ela a fazer crochet, talvez uma camisolinha para o neto que há-de nascer daqui a uns meses. Atrás de mim, um yuppie de óculos espelhados a gritar, furioso, para um telemóvel.
Passam dez minutos. Na fila ao lado, o casal de trombas avança. O carro que vem logo atrás apita. É o Antunes. Apita, gesticula, baixa o vidro. Eu também baixo o vidro e olho para o relógio: 09:04, 09:04, 09:05. Ele grita: «Nunca mais lá chega-ga-gamos». Pois não, digo eu. «É uma cha-cha-chatice», torna ele. Pois é, respondo. E lá vamos nós, lado a lado, sorrindo um para o outro de vez em quando, encolhendo os ombros e abanando a cabeça, resignados aos abrandamentos generalizados que nos paralisam a vida, enquanto o tal Mandelbrot deve estar neste momento a fazer contas num quadro de ardósia, algures num instituto que fica, aposto, a cinco minutos a pé de sua casa.

[in Efeito Borboleta e outras histórias, Oficina do Livro, 2008]

Benoît Mandelbrot (1924-2010)

Morreu Benoît Mandelbrot, o matemático franco-americano que «inventou o termo fractal, para descrever objectos matemáticos fragmentados e irregulares, cuja estrutura se repete a diferentes escalas». A representação gráfica da geometria fractal dá origem a imagens de uma beleza estranha. Como esta:

Para além das projecções teóricas, não faltam objectos fractais na natureza, como as linhas costeiras ou a couve-flor, um exemplo clássico a que o próprio Mandelbrot recorreu na sua conferência TED:

Como homenagem ao grande cientista, publicarei de seguida um conto meu, incluído no livro Efeito Borboleta e outras histórias, em que Mandelbrot é evocado explicitamente.

Primeiros parágrafos

«Rachando o alcatrão, massas esverdeadas de ferro, de mira apontada para a madrugada, sulcavam as ruas irregulares de Lisboa, escoltadas por cáfilas desordenadas e esfuziantes de braços endemoninhados, gargantas ululantes festejando a Revolução, viva a revolução, viva a revolução, viva a revolução, clamava-se, os tanques cobriam-se de mãos ofertando cravos vermelhos aos soldados, que, desarvorados, as mãos libertas, prevenindo possíveis ataques, os depunham na ponta das espingardas inactivas, empregados de escritório recatados faltavam ao trabalho, soltando impropérios velhacos contra antigos patrões, caixeiros de armazém, despidos das batas azuis de ganga, juravam vingança sobre humilhações recalcadas, um oficial das finanças, atarracado e corcovado, vociferava de punho alçado e pernas tensas contra o malvado capitalismo, filho da injustiça e neto da opressão, pai da desigualdade, bancários pernaltas e janotas, de calças à-boca-de-sino, ameaçavam entregar o dinheiro da “caixa” ao povo explorado, professores, de boca salivada, óculos pretos quadrados e longa cabeleira suja, praguejavam contra os reitores dos liceus, hospedeiras da TAP denunciavam os comandantes, relembrando abusos na pernoita de hotel, operários siderúrgicos, as mãos apretalhadas de fuligem, sequestravam os administradores em salas alcatifadas, apaineladas a folha de nogueira, furtando-lhes o whisky e o gin do minibar, jornalistas descobriam inesperadamente a verdade, exponda-a em títulos matinais para educação do povo, cobradores de impostos recusavam receber o dinheiro dos contribuintes, reclamando justiça do Estado, soldados despromoviam capitães e capitães generais, alunos ocupavam a sala de aula, operários as fábricas e famílias casas vagas, sindicalistas apoderavam-se do aparelho produtivo e comissões de trabalhadores de indústrias e máquinas, ceifeiras invadiam propriedades agrícolas e os passageiros autocarros, comboios e cacilheiros, reinvindicando-os para o povo, doentes controlavam os hospitais, professores as escolas, trabalhadores as empresas, soldados os quartéis, marinheiros os navios, mercantes e de guerra, e o povo todo o País, Portugal era do povo como o ar do céu, a água do mar e as árvores da terra.»

[in As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, de Miguel Real, D. Quixote, 2010]

Um fado de Camané

Em geral, não gosto de fado. Nem do velho nem do novo (só da voz da Amália e das canções que lhe compôs o Alain Oulman). Mas gosto do Camané, das composições do Zé Mário Branco, das letras da Manuela de Freitas. Guerra das Rosas é excelente exemplo do que os três conseguem fazer, quando estão inspirados. E atentem nestes versos deliciosos, entre os 2’12” e os 2’25”: «Foste-me lendo o teu romance de amor / Sabendo que eu não gostava da história / No dia de o mandares para o editor / Fui ao teu computador / Apaguei-o da memória.»

DGLB vai ser extinta

«A Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) será extinta e as suas atribuições integradas na Biblioteca Nacional, revela a proposta do Orçamento de Estado para 2011.»

Post muito, muito críptico

Em 24 horas, uma derrota e uma vitória. A vitória foi à Mourinho, mas a brincar. A derrota (em itálico, apesar de tudo) foi à Sporting – e a sério.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Cobertura do Man Booker Prize, por José Mário Silva
Anthero Areia & Água, de Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
O Livro da Selva, de Rudyard Kipling (Tinta da China), por Sara Figueiredo Costa
A Família Golovliov, de Saltykov-Shchedrin (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Hedda, de José Maria Vieira Mendes (Livrinhos de Teatro), por Cristina Margato
O Primeiro Gomo da Tangerina, de Sérgio Godinho e Madalena Matoso (Planeta Tangerina), por António Loja Neves
Corsários e Piratas Portugueses – Aventureiros nos Mares da Ásia, de Alexandre Pelúcia (A Esfera dos Livros), por Rui Cardoso

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges