O irlandês incorrigível

O Sonho do Celta
Autor: Mario Vargas Llosa
Título original: El Sueño del Celta
Tradução: Cristina Rodriguez
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 438
ISBN: 978-972-564-919-0
Ano de publicação: 2010

Quando anuncia o Prémio Nobel de Literatura, nem sempre a Academia Sueca prima pela objectividade. O texto curtíssimo lido pelo secretário da Academia costuma ser tão abrangente e vago que se torna quase irrelevante. Isto é, vale tanto para o escritor distinguido como para a maioria dos que o antecederam. Este ano, porém, a justificação dada para a escolha de Mario Vargas Llosa não podia ser mais exacta: o Nobel foi para o escritor peruano «pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota dos indivíduos». Efectivamente, todas as obras essenciais de Llosa encaixam de alguma maneira nesta súmula. E não só as essenciais, também as menores – como este O Sonho do Celta, o mais recente dos seus romances, lançado em Espanha no início de Novembro (cerca de um mês após a euforia do Nobel) e ao qual a frase pronunciada em Estocolmo assenta na perfeição.
Desta vez, a «estrutura de poder» cartografada é o colonialismo do século XIX e as «imagens incisivas» revelam-nos a vida (feita de muitos actos de «resistência»), a «revolta» e a «derrota» de um indivíduo em particular: Sir Roger Casement (1864-1916), homem complexo e contraditório, uma daquelas personagens poliédricas – como o Paul Gauguin de O Paraíso na Outra Esquina; ou o ditador Trujillo de A Festa do Chibo – por quem Llosa se fascina, fazendo depois questão de nos mergulhar também nesse fascínio.
Seguindo de perto a biografia do cônsul britânico que foi enforcado por traição à pátria, deitando a perder o prestígio conquistado nas acções de defesa dos direitos humanos em África e na Amazónia, Llosa não deixa de lado nenhum dos momentos cruciais no percurso de Casement: a morte da mãe quando tinha nove anos (orfandade edipiana que o marcará para sempre); as viagens em África, de início acreditando nas virtudes civilizadoras do colonialismo, depois desiludindo-se, ao constatar a exploração abjecta dos trabalhadores negros nas explorações de borracha e os abusos contra eles cometidos; a descoberta e denúncia de um horror paralelo na América do Sul, à custa dos indígenas da região de Putumayo; e por fim o empenhamento na causa nacionalista irlandesa, que culmina com a participação falhada no levantamento da Páscoa de 1916.
O fio narrativo central acompanha os últimos dias de Casement na prisão de Pentonville, enquanto aguarda que o Conselho de Ministros inglês, órgão do governo para o qual trabalhou anos a fio, se pronuncie sobre um pedido de clemência que ainda o pode salvar da condenação à morte. Nesta espécie de limbo, vai recebendo algumas visitas (advogados, amigos, uma prima, um padre) e recapitulando, em longas e detalhadíssimas analepses, os tais momentos-chave: as deambulações pelo Congo, onde viu o rosto da barbárie (e o descreveu a Joseph Conrad, com os resultados que se conhecem); a luta titânica contra o poder da Peruvian Amazon Company, de Julio C. Arana, que marcava os índios como gado e lhes arrancava orelhas ou a própria vida só por capricho; a angustiada vivência da homossexualidade (que contribuirá para a sua queda, ao ser revelada da forma mais crua nos célebres Black Diaries, ainda hoje objecto de polémica, por haver quem acredite que foram forjados pelos serviços secretos britânicos); o difícil sonho de uma Irlanda independente (o anti-colonialismo levou-o a descobrir o “irlandês incorrigível”, a tender para o radical, que havia dentro de si); e a aproximação à fé católica, acelerada à beira do cadafalso.
O problema é que o livro, apesar das suas mais de 400 páginas, parece sempre apertado, a rebentar pelas costuras, sem espaço para o leitor respirar. Há talvez informação a mais e literatura a menos. Abundam os factos, mas não as frases memoráveis. Mais do que um romance biográfico, O Sonho do Celta é uma biografia romanceada. Bem feita e interessante, sim, mas incapaz de nos arrebatar. E de Llosa, com ou sem Nobel, é sempre isso que se espera.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Vargas Llosa no Chiado

No dia em que o escritor peruano vai receber o Nobel de Literatura em Estocolmo (10 de Dezembro), Anabela Mota Ribeiro moderará um debate sobre a obra de Llosa, com os críticos literários Clara Ferreira Alves e Eduardo Pitta, mais a tradutora do seu último livro (O Sonho do Celta), Cristina Rodriguez. A conversa está marcada para a livraria Bertrand do Chiado, a partir das 18h30.

Revista ‘Ler’, n.º 97

Quinta-feira nas bancas.

Logo à tarde

A partir das 19h00, estarei à conversa com Paulo Nogueira, na Biblioteca Municipal de Algés.

Prémio LeYa 2010 não vai ser atribuído

Eis o comunicado do júri do Prémio LeYa:

«O Júri do Prémio LeYa reuniu esta tarde na sede da editora, em Alfragide, para deliberar sobre a atribuição do Prémio relativo a 2010.
Perante originais que, apesar de algumas potencialidades, se apresentam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas, o Júri entendeu que as obras a concurso não correspondem à importância e ao prestígio do Prémio LeYa no âmbito das literaturas de língua portuguesa. Em consequência, e de acordo com a alínea f) do art.º 9 do respectivo Regulamento, decidiu por unanimidade não atribuir o Prémio LeYa referente ao ano de 2010.

Alfragide, 29 de Novembro de 2010

Assinado, por esta ordem:

Manuel Alegre
Carlos Heitor Cony
Rita Chaves
João Amaral (Secretário do Júri)
Nuno Júdice
Artur Pestana (Pepetela)
José Carlos Seabra Pereira»

Doutor Avalanche desce à capital

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Na net, o Doutor Avalanche mora aqui.

Livros do ano no The Guardian

Uma escolha extensiva, para a qual contribuíram escritores desafiados a fazer a sua lista pelo jornal inglês. O nível dos convidados, diga-se, é elevadíssimo: John Banville, A.S. Byatt, Julian Barnes, Eric Hobsbawm, Dave Eggers, Roddy Doyle, Hilary Mantel, David Lodge, Tom Stoppard, Paul Theroux, Colm Tóibín, Jeannete Winterson, William Boyd, Richard Ford, Jonathan Coe, Antonia Fraser, Geoff Dyer, Stephen Frears, Hanif Kureishi, entre outros.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa (Quetzal), por José Mário Silva
- 52 Histórias, de vários autores (Associação de Cooperação Entre os Povos), por António Loja Neves
- Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa (D. Quixote), por Luísa Mellid-Franco
- O Espectador Emancipado, de Jacques Rancière (Orfeu Negro), por Francisco Frazão
- Um Traidor dos Nossos, de John Le Carré (D. Quixote), por José Vegar
- Vencer o Cancro, de Lúcia Gonçalves (Plátano), por Luís M. Faria

Logo à tarde

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Apareçam.

O grafitador do bairro

«Numa das paredes exteriores do auditório a frase grafitada:

“O doutor Rojas (cuja história da literatura argentina é mais extensa do que a literatura argentina).”

Todos olharam para o senhor Borges, o grafitador do bairro. O senhor Borges sorriu. Abanou a cabeça e murmurou um pouco convincente: não fui eu.»

[in O Senhor Eliot, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2010]

Hoje não há posts

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Herberto: 80 anos

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na fase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

[in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2008]

O não dito por dito

alguma parte

Em Alguma Parte Alguma
Autor: Ferreira Gullar
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 123
ISBN: 978-972-568-667-6
Ano de publicação: 2010

Mais de seis décadas após a sua estreia literária, Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos do Brasil – se não o maior – venceu este ano o Prémio Camões. Mesmo se justíssima, a consagração oficial torna-se quase irrisória ao pé do que verdadeiramente importa aos seus leitores: o regresso à poesia. Onze anos passados sobre o lançamento do anterior livro de inéditos (Muitas Vozes, 1999), surge agora Em Alguma Parte Alguma. A expectativa criada pela longa espera – fruto da lentidão do seu processo criativo – era enorme, talvez excessiva, mas o resultado não defrauda os admiradores de Gullar. Pelo contrário: aos 80 anos, o poeta escreveu uma obra de extraordinária vitalidade, a rebentar de energia, com fôlego imenso, mais próprio de um rapaz na flor da idade do que de um ancião (sendo que a sabedoria e a imensa experiência de vida do ancião se pressentem em cada verso).
Na primeira parte do livro, Gullar entrega-se, de forma sistemática e reiterativa, a uma reflexão sobre os fundamentos essenciais da actividade poética e os limites da linguagem verbal para descrever, ou explicar, a realidade tangível das coisas: «mas / dizer o quê? / dizer / olor de fruta / cheiro de jasmim? // mas / como dizê-lo / se a fala não tem cheiro?» A verdade é que uma palavra nunca corresponde totalmente à coisa que nomeia, porque «a coisa / (o ser) / repousa / fora de toda / fala / ou ordem sintática // e o dito (a / não coisa) é só / gramática». Daí que ao poeta, diante da página em branco, caiba apenas o «aflito silêncio» de quem se esforça, em voz baixa, não por revelar o oculto mas por inventá-lo: «O poema / antes de escrito / antes de ser / é a possibilidade / do que não foi dito / do que está por dizer». Para que a poesia aconteça, o poeta tem então de pôr ordem na desordem e dar «o não dito por dito», única forma de resgatar «o que se nega / à fala / o que escapa / ao acurado apuro / do dizer». Ou seja: «a borra / a sobra / a escória / a incúria / o não caber».
Não se julgue, porém, que esta abordagem do trabalho poético se fica por abstracções. Mesmo nos poemas mais reflexivos, a escrita de Gullar é sempre física, material, seja na descrição do próprio corpo envelhecido (feito de ossos: a cabeça do fémur em atrito com a bacia, mais o perónio que é «a mais dura parte de mim / dura mais do que tudo o que ouço / e penso / mais do que tudo o que invento / e minto»), seja nas várias aproximações à brutalidade impalpável de um aroma de jasmim «no limite do veneno»; na recorrência do «perfume das bananas apodrecendo» na loja fechada do pai, há tantos anos; ou ainda no cheiro a alfazema que «dorme manso nas gavetas de roupas / em São Luís / e reacende o perdido». Do passado chegam emoções difusas e imagens fortes, como a da corola de um «vermelho-queimado» que já não murcha nem atrai abelhas, porque «apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida», à espera de ser captada pelo exercício da memória, «essa / antimatéria que pode / num átimo/ reacender o que na matéria / se apagara para sempre».
Quem tenha lido o genial Poema Sujo, de 1975 (editado há poucos meses pela Ulisseia), reconhecerá algumas ideias: por exemplo, a pêra vista como um sistema de açúcar e álcool que se desfaz, ou as diferentes velocidades a que se move uma cidade. Mas se nessa obra torrencial e magnética se tentava reconstituir um lugar e um tempo (os dias da infância em São Luís do Maranhão), evocados no desespero do exílio, aqui o movimento é ao mesmo tempo mais contido e mais amplo. Há talvez menos visceralidade, menos denúncia dos males do mundo (ou do Brasil), mas uma maior consciência de si mesmo na escala cósmica. Entre o fascínio com o gigantismo das galáxias distantes, onde brilham estrelas talvez já mortas, e a contemplação do gato enrodilhado na cadeira, da planta no vaso da sala, de um louva-deus, de uma aranha que vive nas «encardidas páginas» de um dicionário de Filosofia, nascem toda a sorte de maravilhamentos e epifanias.
Depois, a par com esta espécie de panteísmo sem necessidade de Deus, há uma sombra que alastra pelo livro: a da finitude de todas as coisas. «A morte / presença e ocultação / circula luminosa», lembra-nos o poeta. A morte dos outros, esses defuntos que se acomodam «a meu lado/ como numa fotografia». Mas também o seu próprio fim, antecipado sem morbidez: «vinda a morte/ (…) serei o que alguém acaso/ salve/ do olvido». Uma esperança que Gullar, no último poema, projecta na figura de Rainer Maria Rilke: «desfeita a garganta e a mão e a mente/ findo aquele que/ de modo próprio/ dizia a vida/ resta-nos buscá-lo nos poemas/ onde nossa leitura/ de algum modo/ acenderá outra vez sua voz».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um mail de Miguel Gonçalves Mendes

Chegou-me hoje ao inbox, reenviado:

«Caros amigos e amigas,
Como sabem, o filme José e Pilar estreou na passada quinta-feira. A afluência em sala tem sido reduzida, fenómeno já habitual no cinema que não seja made in hollywood, pelo que, se gostaram do filme, pedimo-vos que passem palavra e que o divulguem; pois a primeira semana é crucial para que os exibidores o mantenham em sala.
O filme está em exibição em Lisboa, Porto, Cascais, Almada, Aveiro, Braga e Coimbra (nestas 3 últimas cidades é onde tem tido piores resultados, apesar de todas a críticas favoráveis).
No Brasil já foi visto por várias dezenas de milhar de pessoas e no próximo Sábado, dia 27 de Novembro, José e Pilar será filme de abertura do festival de Ronda (Espanha), onde será apresentado pelo Juiz Baltazar Garzón.
Um grande abraço a todos e obrigado por tudo,
Miguel»

Se puderem, passem mesmo a palavra. E, sobretudo, vejam o filme.

Gonçalo M. Tavares recebe Prémio do Melhor Livro Estrangeiro (em França)

O romance Aprender a Rezar na Era da Técnica (publicado pela Viviane Hamy, com tradução de Dominique Nédellec) ganhou o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro de 2010, em França. Uma distinção importantíssima, não só pela qualidade e abrangência do júri (composto por responsáveis das principais editoras francesas), mas também pelo seu historial. Em mais de seis décadas, o prémio foi atribuído a escritores como Robert Musil, Gabriel García Márquez, John Updike, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Salman Rushdie, Orhan Pamuk, Philip Roth ou António Lobo Antunes.

Copos & Literatura

O blogue da revista Publishers Weekly fez uma lista dos bares nova-iorquinos com inclinações literárias: ou porque neles se escreveram livros, ou porque inspiraram poemas, ou porque assistiram a encontros regulares entre escritores e respectivas bebedeiras.
Alguém se atreve a fazer sugestões análogas para Lisboa? Assim de repente ocorre-me o British Bar no Cais do Sodré, um dos poisos nocturnos de José Cardoso Pires, mas há muitos mais.

O que aí vem (para o ano, lá fora)

Eis alguns dos livros promissores que já se anunciam para 2011, nos países de língua inglesa. Pela minha parte, vou ter debaixo de olho os contos de Colm Tóibín, os ensaios de Geoff Dyer e David Lodge, os diários de E.M. Foster, além do muito esperado romance póstumo de David Foster Wallace (The Pale King).

[via Blogtailors]

Maravilhas da paternidade

sapatos

Explicação da Alice (com o Pedro, co-autor, ao lado): «Se as mesas e as cadeiras têm pernas, então também têm pés. Se têm pés, então precisam de sapatos.»

Roald Dahl na Civilização

A Civilização anunciou ter garantido os direitos exclusivos para Portugal da obra de Roald Dahl, um dos mais populares autores de literatura juvenil (para cima de 100 milhões de livros vendidos, em 45 línguas). O seu clássico Charlie e a Fábrica de Chocolate, adaptado ao cinema por Tim Burton em 2005, será lançado pela editora do Porto em Março de 2011.

Sete aforismos de Vasco Gato

Ouvir a minha própria voz. Usar para esse efeito carruagens de comboio. Arrecadações. O interior de uma lanterna.

***

A destruição é uma prerrogativa do desejo.

***

Esta fúria de puxar um corpo e resumi-lo à sua posição. Isto é, abrandá-lo aos repelões. Segurar o bisturi da minha própria sombra e não falhar.

***

Como um veneno, a minha vida começa a actuar. Não é de repente. É ir perdendo os dedos, os braços, cada vértebra – a ortodoxia do corpo.

***

O que eu habito é a minha vulnerabilidade.

***

Em poesia, o sentido é o corpo intacto dentro do veículo sinistrado. Ferro contorcido e carne verbal, guardada em segredo. O poema é desencarcerar-se.

***

Tudo a funcionar. Como surda derrocada. Semáforos, bibliotecas, quiosques, capitéis, colchas, tesouras, máquinas de café: metástases, metástases.

[in Rusga, Trama, 2010]

‘José e Pilar’ no pires do café

pacotinhos_acucar

Citações para guardar no bolso: uma boa forma de promover o documentário de Miguel Gonçalves Mendes.

Mudança de paradigma

E pronto, aconteceu.
Primeiro, o vetusto Nokia foi substituído por isto.
Depois, o igualmente vetusto Acer deu lugar a isto.
Ou seja, mais de 20 anos após a queda do Muro de Berlim, abandonei de vez o PC. Agora, cá por casa é mais maçãs.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Deixa o Grande Mundo Girar, de Colum McCann (Civilização), por Paulo Nogueira
- Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (Ulisseia), por José Mário Silva
- Agora a Sério, de Tom Stoppard (Tinta da China), por Hugo Pinto Santos
- Tentações – Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, de Pedro Eiras (Deriva), por Álvaro Manuel Machado
- A Ponte, de David Remnick (D. Quixote), por Luís M. Faria
- Memento Mori, de Muriel Sparks (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Revista ‘You Are Here’, Outono de 2010, por Vítor Quelhas
- Sobre o Conceito de História, de Walter Benjamin (Assírio & Alvim), e Estado de Excepção, de Giorgio Agamben (Edições 70), por António Guerreiro
- O Género Intranquilo – Anatomia do Ensaio e do Fragmento, de João Barrento (Assírio & Alvim), por Manuel de Freitas

A nova Trama

trama

Fica na mesma rua, um pouco mais acima. É mais pequena, mais estreita, sem escadas para o andar de cima, sem café, sem concertos de música às quintas à noite. Mas forrada de cima abaixo com aquilo que verdadeiramente interessa numa livraria: os livros. Livros excelentes, a revelarem cuidado na escolha, exigência estética, o gosto assumido de quem continua a arriscar ser independente em tempos de crise: a Catarina e o Ricardo.
A estratégia mudou, mas a atitude é a mesma. Pôr ao nosso alcance e com o devido destaque expositivo os livros que as livrarias mainstream ignoram ou escondem. Também lhe poderia chamar serviço público em prol da literatura. Mas a Catarina e o Ricardo dispensam as pancadinhas nas costas. O que interessa é que voltaram a abrir as portas, com as ganas de sempre mas mais focados nos livros do que nunca. Que elas (as portas) não se voltem a fechar tão cedo é o que lhes desejo.

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Prémio Teixeira de Pascoaes para Armando Silva Carvalho

Anthero Areia & Água, o belíssimo livro de poemas que Armando Silva Carvalho publicou recentemente na Assírio & Alvim, acaba de vencer a sétima edição do Prémio Teixeira de Pascoaes, promovido pela Câmara Municipal de Amarante. Do júri fizeram parte António Cândido Franco (Associação Marânus), António José Queirós, Luís Adriano Carlos, Paula Morão e Virgílio Alberto Vieira.

Na Ericeira, com o iate Amélia IV no horizonte

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Quem Diremos Nós que Viva?
Autor: Vítor Nogueira
Editora: Averno
N.º de páginas: 56
Depósito Legal: 317370/10
Ano de publicação: 2010

Os livros mais recentes de Vítor Nogueira organizam-se a partir de uma geografia urbana bem definida. Em Comércio Tradicional (Averno, 2008), há uma deambulação por lojas antigas: drogarias, cafés e barbearias melancolicamente à beira da extinção numa cidade do interior nunca nomeada, mas na qual facilmente se reconhece a transmontana Vila Real – cujo teatro é dirigido por Nogueira há vários anos.
Em Mar Largo (&Etc, 2009), a abordagem tornou-se quase toponímica: os poemas têm como cenário a praça do Rossio, em Lisboa, da sua pavimentação no séc. XIX à natureza multicultural («coração de Babel») que revela nos nossos dias.
Saindo novamente da capital, Quem Diremos Nós que Viva? assenta arraiais na Ericeira – «vasta hospedaria a sete léguas de Lisboa» – mantendo a dicotomia entre dois tempos: desta vez o presente e 1910, em particular a fuga de barco para o exílio inglês da família real, logo que a República foi implantada.
Assumindo os seus «recursos ficcionais», Nogueira convoca várias personagens históricas: D. Amélia, D. Sebastião, o profeta Bandarra (e a sua «perigosa profissão clandestina, acanhada / como o túnel que lhe foi dado escavar»), o regicida Buíça, o fotógrafo que captou o embarque, etc. Os poemas são predominantemente inquisitivos, avançando pergunta a pergunta através de um território de fantasmas, com chão «pouco firme, quase sempre a resvalar». Para prevenir mal-entendidos, o sujeito poético esclarece que é republicano: «só não encontra é razões para festejá-lo» quando o país está «caído no tapete», pronto para a «contagem final».
Não sendo fulgurantes, estes versos revelam o habitual rigor estilístico de Nogueira – um poeta nada ingénuo, para quem a poesia «não é coisa / que salve o mundo nem coisa que o comprometa».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Parabéns, Schlee

Na recente viagem ao Brasil, conheci um homem extraordinário, para além de notável escritor e caloroso companheiro de lides literárias: Aldyr Garcia Schlee. Durante quatro dias, contou-me dezenas de histórias fascinantes sobre o Rio Grande do Sul, o Uruguai, a fronteira, os seus antepassados alemães, o Brasil do séc. XIX e o futebol do séc. XX.
Agora, fiquei a saber que ganhou o Prémio Facto Literário 2010, atribuído durante a Feira do Livro de Porto Alegre, ultrapassando uma outra candidata de peso: Lya Luft.
Vai daqui um abraço transatlântico de felicitações, caro Schlee.

Contra a elefantíase literária

«Whatever happened to brevity? Once upon a time, it was not just the soul of wit, there was a strong literary preference for the shorter book, from Utopia to Heart of Darkness. More recently, The Great Gatsby, for my money the greatest novel in English in the 20th century, comes in at under 60,000 words, a miracle of compression. The novels of that great triumvirate – Waugh, Greene and Orwell – average 60-70,000 words apiece; even 1984 is not much over 100,000 words.
That neglected genius, Robert Louis Stevenson, used to say: “The only art is to omit.” In a letter to a friend, he declared – in words that should be nailed over every writer’s desk – “If there is anywhere a thing said in two sentences that could have been as clearly and engagingly said in one, then it’s amateur work.”
If it’s a choice between the tight-lipped or the windbag, give me the aphorist every time. Most novels do very well at about 250 pages or fewer. Seriously, what history or biography needs to exceed 500 pages?»

O artigo completo de Robert McCrum, publicado no The Observer, pode ser lido aqui.

Quatro poemas de Ferreira Gullar

REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura

de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

***

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

***

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida

***

GALÁXIA

Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria

aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003

aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado

estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto

e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía

lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções

uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz

e a galáxia urbana
tem como as outras
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apagara para sempre

assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e
macaquinhos
lépidos a se moverem, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
—o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.

[in Em Alguma Parte Alguma, Ulisseia, 2010]

Nota – Esta formatação dos versos não corresponde à verdadeira mancha gráfica dos poemas.

OPNI (Objecto Publicitário Não Identificado)

opni

Um exemplo de polivalência profissional, encontrado numa rua de São Paulo.

E eu concordo

«La literatura es la más difícil de todas las artes», diz César Aira, escritor argentino.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Jan Karski, de Yannick Haenel (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
- Luka e o Fogo da Vida, de Salman Rushdie (D. Quixote), por Luís M. Faria
- Small Song, de Renata Correia Botelho (Averno), por António Guerreiro
- S. Paio do Monte, de Teresa Saavedra e Pedro Sousa Pereira (Fábrica Social), por António Loja Neves
- O Navio dos Homens, de Takiji Kobayashi (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
- Depois da Chuva, de William Trevor (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
- Quem Diremos Nós que Viva?, de Vítor Nogueira (Averno), por José Mário Silva

Contra a extinção da DGLB

Um grupo de 15 escritores portugueses enviou à ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, um documento em que contestam a anunciada extinção da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.
Eis o documento:

«Assunto: Extinção da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas

Ex.ma Senhora Ministra da Cultura
Dr.ª Gabriela Canavilhas

O livro representa, hoje em dia, um espaço de transformação acelerada a que nenhum de nós pode ficar indiferente. Sobre o livro repousa uma herança segura e ergue-se um futuro de novos contornos ainda indefinidos. Certo, porém, é que todos queremos que, através dele, sejam resguardados os valores fundamentais do Humanismo e da Cultura. Por isso os estados desenvolvidos, designadamente os europeus, não abdicam de preservar as instituições que os salvaguardam.
Entre nós, conhecidos por estarmos no fundo das estatísticas no que a estes campos diz respeito, vimos, para felicidade de todos, ao longo das últimas décadas, a situação alterar-se. A implicação activa do Estado Democrático foi determinante nessa mudança da qualificação dos cidadãos. No que diz respeito à leitura, o Instituto Português do Livro foi a cabeça promotora dessa alteração. Além disso, desde que foi criado, em 1980, e através duma história rica em acontecimentos, é inegável que a promoção da Literatura portuguesa e lusófona, tanto em Portugal como no estrangeiro, se deveu muito ao esforço de encontrar e estimular parceiros para a edição e difusão dos nossos autores. A sua eficácia tem sido amplamente reconhecida. Apesar dos magros recursos, o IPL foi até há pouco considerado uma instituição modelar perante as suas congéneres. No entanto, nos últimos tempos, ficou bem claro o desinvestimento a que foi sujeito, designadamente com a passagem de Instituto a Direcção Geral.
Mesmo assim, isso não impediu que essa imagem institucional, para as entidades e personalidades estrangeiras que procuram apoio e conselho para iniciativas ligadas ao livro se mantivesse. Nem a redução drástica de meios foi obstáculo a que a experiência e o empenhamento dos funcionários do Instituto e, depois, da Direcção Geral, sempre tivessem respondido às várias solicitações, a que se deve acrescentar o excelente trabalho da rede de Bibliotecas Públicas nascida da iniciativa do IPL.
É por isso com estupefacção que os abaixo-assinados tomaram conhecimento daquilo que, na prática, é a extinção do único organismo que representava o empenhamento do Estado Português, através do Ministério da Cultura, numa das áreas que melhor tem representado o nosso país na sua transformação democrática: a difusão da sua literatura. Se isto não significa, como é óbvio, o fim da criação literária, nem o fim dos hábitos de leitura, nem o fim do livro, esta fusão vem dar no entanto uma imagem cada vez mais pobre de um mundo político que confunde gestão de meios com o extermínio cego das instituições que funcionam.
A reintegração da gestão dos assuntos do livro e da leitura na Biblioteca Nacional de onde em devido tempo foi autonomizada, significa a desvalorização, secundarização e desprezo por todo um sector que está em mudança, que carece de elos de coordenação, confrontação com as práticas globais, protecção das obras literárias portuguesas e lusófonas, articulação com os agentes nacionais e estrangeiros que as difundem. A dispersão das pessoas que conhecem o assunto, a desintegração dos saberes acumulados, a redução drástica de meios, significarão um retrocesso real e efectivo e nós não nos conformamos com esta perda.
Creia, Senhora Ministra, que o protesto que fazemos é um sinal de indignação, mas também de desalento perante o rumo que está a ser dado a este sector da Cultura no nosso País, e que nenhuma crise económica, que aceitamos ser grave e obrigar a sacrifícios, justifica.
Pedimos-lhe que reconsidere.
Lisboa, 10 de Novembro, 2010

Ana Luísa Amaral
Almeida Faria
António Lobo Antunes
Gastão Cruz
Gonçalo M. Tavares
Hélder Macedo
Hélia Correia
Inês Pedrosa
Lídia Jorge
Maria Velho da Costa
Mário de Carvalho
Mário Cláudio
Nuno Júdice
Pedro Tamen
Vasco Graça Moura»

‘José e Pilar’ (trailer)

O documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreia na próxima quinta-feira, dia 18.

Mês de Saramago

No mês em que José Saramago faria 88 anos (dia 16), sucedem-se as homenagens ao Nobel da Literatura português:

15 de Novembro (18h00)
Biblioteca Municipal Palácio Galveias
Lançamento do livro José Saramago nas Suas Palavras, com intervenções de Fernando Gómez Aguilera, autor desta antologia de entrevistas, e de Clara Ferreira Alves. Pedro Lamares lerá excertos do livro.

16 de Novembro (12h30)
Inauguração da Sala José Saramago na Biblioteca Municipal Palácio Galveias

16 de Novembro (22h00)
Cinema São Jorge, Sala 1
Ante-estreia do filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes

18 de Novembro (18h00)
Palácio Galveias
“León Tolstoi e José Saramago – Dois Aniversários”
Leitura do romance Anna Karenina, na tradução de José Saramago

18 de Novembro (24h00)
Lux – Frágil
Concerto de apresentação da banda sonora do filme José e Pilar

Mais informações no site da Fundação José Saramago.

Brasil (entre parêntesis)

Da minha passagem por Porto Alegre e São Paulo trouxe muitos posts esboçados num caderninho moleskine vermelho. Infelizmente, os muitos afazeres que tinha à espera em Lisboa obrigam-me a mantê-los no papel, de onde sairão aos poucos (espero eu que nos próximos dias). São os ossos do ofício. Ou, se quiserem, há uma parte na vida dos freelancers que é tudo menos free.

Vidas apócrifas

A Literatura Nazi nas Américas
Autor: Roberto Bolaño
Título original: La literatura nazi en América
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-564-909-1
Ano de publicação: 2010

Publicado originalmente em 1996, A Literatura Nazi nas Américas é o mais borgesiano dos romances de Roberto Bolaño. Na verdade, chamar-lhe romance talvez peque por inexactidão. Estamos, isso sim, diante de uma pequena e engenhosa enciclopédia que reúne verbetes biográficos de três dezenas de escritores obscuros, com a respectiva bibliografia (mais de 200 títulos) em anexo. Tudo apócrifo. Tudo saído da imaginação livresca de Bolaño, que criou esta galeria de personagens sinistras a partir de duas das suas grandes obsessões: o mistério da literatura (nas suas histórias há sempre escritores, por vezes tentando compreender, ou encontrar, outros escritores) e o fascínio do mal, simbolizado quase sempre por avatares da mitologia nazi.
Embora o título do livro o sugira, nem todos os autores referidos são devotos do Terceiro Reich. É certo que Luz Mendiluce Thompson exibe no seu salão, «emoldurada num rico trabalho de prata lavrada», a fotografia em que surge, bebé de poucos meses, nos braços de Adolf Hitler. E Willy Schürholz, nascido numa colónia alemã fundada no Chile, logo após o fim da II Guerra Mundial, constrói os seus poemas gráficos a partir das plantas de vários campos de concentração (Auschwitz, Buchenwald, Dachau, etc.). A maior parte das outras figuras, porém, são extremistas à sua maneira. Há defensores da pureza rácica e da supremacia ariana que não exibem necessariamente a suástica, há uns quantos fascistas saudosos do tempo em que combatiam ao lado de Franco, há quem odeie judeus e homossexuais, ou quem se limite a cultivar a brutalidade física e mental à maneira dos skinheads.
Deste caldo turvo vai emergindo toda a sorte de visionários, profetas, plagiadores, aldrabões, loucos, criminosos, viúvas ricas e líderes de claques de futebol – uma fauna heteróclita, ridícula nos seus delírios de grandeza (veja-se o caso do autor brasileiro que escreve sucessivas e volumosas refutações dos filósofos franceses do Iluminismo), gente menos ameaçadora do que risível. Na maior parte dos casos, as aspirações são enormes até embaterem com estrondo no muro da realidade. E os livros que estes poetas e romancistas editam conhecem uma de duas sortes: ou passam completamente despercebidos; ou são trucidados pela crítica oficial. Resistindo à tentação da caricatura e sem abusar do sarcasmo, Bolaño mostra de forma crua a mecânica do falhanço nesta espécie de submundo, todo ele cheio de trevas e mediocridade.
Artífice cuidadoso, o escritor chileno fez deste A Literatura Nazi nas Américas um labiríntico edifício ficcional, com muitos corredores paralelos e muitas portas, algumas das quais permitem que os vários percursos de vida narrados se cruzem e sobreponham. Mas fez mais. Se olharmos com atenção, este livro é também uma espécie de mapa para o resto da sua obra. Por exemplo, na página e meia dedicada a Daniela de Montecristo, refere-se que ela «se apaixonou por um general do exército romeno, Eugenio Entrescu, que foi crucificado pelos seus próprios soldados em 1944». Esta cena, mencionada aqui de passagem, virá a ser descrita em pormenor na última parte de 2666, publicado já postumamente, oito anos mais tarde.
O carácter intratextual e expansivo desta escrita é mais nítido ainda no caso do derradeiro capítulo, sobre «o infame» Ramírez Hoffman, poeta-aviador que escrevia versos no céu. As suas ignominiosas façanhas, compactadas em vinte páginas, formaram depois o cerne do magnífico Estrela Distante (também de 1996). Cotejar a primeira versão da história com o romance – verificando a persistência, tal e qual, de muitas frases; mas também as muitas alterações, tanto nos nomes das personagens como nas circunstâncias de certas cenas – é uma verdadeira aula prática de literatura aplicada. Principal diferença: em Estrela Distante, Bolaño deixa de se assumir como narrador e atribui a composição do livro ao seu alter-ego Arturo Belano, um dos protagonistas de Os Detectives Selvagens, enquanto convoca «o fantasma cada vez mais vivo de Pierre Menard». Outra vez Borges, fechando círculos dentro de círculos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Regresso

Chego à pátria e ela acolhe-me, sem surpresa, com o fumo negro do pessimismo. Era inevitável: ao fim de cinco minutos, a memória calorosa de São Paulo eclipsou-se atrás da torrente de más notícias, más notícias, más notícias (incluindo, ó céus, esta).

Telegrama

Quase de partida STOP Viagem magnífica STOP Pessoa tinha razão STOP Pátria = Língua Portuguesa STOP O resto é conversa STOP

No MASP

Depois de ter lido Olivier Rolin, eu sabia que era preciso estar cara a cara com Monsieur Pertuiset.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges