Domingo à tarde, em São Paulo

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares (Caminho), por António Guerreiro
Um Arco Singular. Livro de Horas II, de Maria Gabriela Llansol (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
O Fim do Império Romano, de Adrian Goldsworthy (A Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
O Essencial Sobre Política de Língua, de Paulo Feytor Pinto (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por António Loja Neves
Transmontanices – Causas de Comer, de Virgílio Nogueira Gomes (Edições do Gosto), por António Valdemar

Fotos de Porto Alegre

A falar sobre a literatura portuguesa contemporânea, numa palestra com o professor Luís Augusto Fischer.

Oficina de crítica literária coordenada por Luís Augusto Fischer, durante a qual os alunos fizeram recensões de 25 linhas sobre o meu livro Efeito Borboleta e outras histórias (ARdoTempo).

FLPA

A Feira do Livro de Porto Alegre é a maior a céu aberto das Américas. Quando deambulei pelas suas densas avenidas de casinhas cheias de livros (alguns deles pendurados por fios), senti-me em casa. Tudo me fazia lembrar a Feira do Livro de Lisboa. Não só a temperatura (30º), mas também os muitos jacarandás floridos, à compita com a exuberância dourada dos ipês. Estranho, isto: sentir o Junho lisboeta no Novembro de Porto Alegre.

Odisseia

Voos cancelados, voos perdidos, horas e horas de espera em aeroportos. Não levei mais tempo a chegar ao Brasil do que o Cabral, mas quase.

Ah, as bibliotecas

Logo à noite, no canal Q, estarei à conversa uns minutos com o Pedro Vieira e a Catarina Homem Marques, sobre as Bibliotecas Cheias de Fantasmas do Jacques Bonnet (Quetzal) e outras coisas. O programa, já terão adivinhado, é o Ah, a Literatura. Ironia: quando a breve entrevista (gravada ontem de manhã) for para o ar, eu estarei literalmente no ar, a caminho do Rio de Janeiro, escala numa viagem que só terminará em Porto Alegre, lá muito ao sul do Brasil.

‘Mensageiros das Estrelas’

É um colóquio sobre Ficção Científica e Fantasia. Começa hoje, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Todas as informações aqui.

Destino: Porto Alegre (e depois São Paulo)

Durante os próximos dias, estarei do outro lado do Atlântico, a acompanhar o lançamento da edição brasileira de Efeito Borboleta e outras histórias (ARdoTEmpo). Além de participar na Feira do Livro de Porto Alegre, estarei à conversa com Luís Augusto Fischer no Santander Cultural, dia 4. Depois, em São Paulo, o livro será apresentado por Mariana Ianelli, juntamente com o romance Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee (também editado pela ARdoTEmpo), na Livraria da Vila (Fradique Coutinho).
Como é evidente, os leitores deste blogue que vivam no Rio Grande do Sul e em São Paulo estão convidados. Gostava muito de vos conhecer.

Deste sonho imaginado

Sôbolos Rios que Vão
Autor: António Lobo Antunes
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 199
ISBN: 978-972-20-4144-7
Ano de publicação: 2010

Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um «ouriço de castanheiro» a dilatar-se dentro das tripas e não há galho onde o «pássaro do seu medo» consiga poisar. Durante duas semanas, ele atravessará cirurgias, recobros e monitorizações clínicas como se já não estivesse no «abismo da enfermaria» mas num outro espaço, uma espécie de limbo no «centro do que não sabemos», talvez o «sonho imaginado» de que fala Camões, povoado de memórias e das tais «cousas ausentes» que se tornam presentes «como se nunca passaram».
Quando olha pela janela, este homem, a quem por vezes chamam Sr. Antunes e outras Antoninho (alimentando a tensão autobiográfica do livro, escrito por alguém que esteve internado nas mesmas datas, 21 de Março a 4 de Abril de 2007, pelas mesmas razões), este corpo em suspenso só consegue ver o seu passado: a infância na vila perdida por entre as serras, com os comboios a passar, a casa da família, o poço dos suicidas, o pilar de granito em volta do qual fazia oitos com a bicicleta, o hotel dos ingleses do volfrâmio, e uma série de defuntos que talvez prossigam «numa existência paralela a esta», como o avô eternamente a ler o seu jornal, a dona Irene que tocava harpa, o pai que lhe mostrou a nascente do Mondego, etc.
Tudo isto lhe chega em «revoadas de imagens», com histórias atropelando-se umas às outras, vindas de épocas muito afastadas para o turbilhão de um «tempo contínuo» em que se fundem «o passado remoto, o presente alheio, o futuro inexistente». Unindo esta amálgama por vezes confusa, uma metáfora: a do rio Mondego, «fiozito entre penedos» quando nasce mas que depois engrossa e se alimenta de outros rios a caminho do mar, tal como o protagonista acaba sendo o leito onde confluem as desordenadas águas das vidas alheias, dando sentido à sua.
Tecnicamente, a escrita de Lobo Antunes é irrepreensível. A cada dia corresponde um capítulo. A cada capítulo, uma única frase. E ninguém domina como Lobo Antunes o ritmo, a fluidez e a respiração da frase, ninguém faz dela uma unidade narrativa tão bem articulada e tão eficaz. O problema é que o trabalho com a linguagem deixa por vezes contaminar-se pela natureza do que descreve. E quando o protagonista se afunda no seu delírio, entre «formas que iam, vinham e tornavam a ir, se sobrepunham e afastavam, rodavam lentamente ou elevavam-se e caíam depressa, pareciam definir-se e em lugar de se definirem dissolviam-se», é a própria escrita que se dissolve e deixa o leitor às escuras, avançando às apalpadelas, tão maravilhado quanto perdido.
À semelhança do que acontece ao corpo preso às máquinas, Sôbolos Rios que Vão desmorona-se enquanto o lemos. É uma experiência dura, difícil, mas magnífica. E estranhamente recompensadora, talvez porque entre as ruínas desta aproximação à morte, contra todas as expectativas, pulsa a vida.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges