Atraiçoado pela tecnologia

Ontem à noite, a internet passou-me a perna. Talvez devido à espessura catacumbar (de catacumbas) das paredes do MusicBox, o meu acesso à rede foi tão intermitente que só consegui enviar um tweet, falhando a minha promessa de acompanhar a par e passo mais uma noite de poetry slam. Paciência. Registe-se que venceu o Leandro Morgado, numa final disputada com Tiago Gomes, que aproveitou para apelar ao voto em Humberto Delgado nas próximas eleições para a Presidência da República. No final de Janeiro há mais.

Noite de Poetry Slam

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É hoje, no MusicBox, a partir das 23h00. E eu vou fazer parte do júri. Quem quiser acompanhar o torneio em tempo real, pode ir espreitando o meu feed no Twitter, com resultados das eliminatórias, incidências, bocas do apresentador (Filipe Homem Fonseca), versos soltos e talvez até fotografias.

O que aí vem (ASA)

A ASA já anunciou as suas principais apostas para 2011. Em Janeiro, 3096 Dias, de Natascha Kampusch. Em Fevereiro: Às Minhas Filhas, com Amor, de Fawzia Koofi. Em Abril: So Many Ways to Begin, de Jon MacGregor, e El Asedio, de Arturo Pérez-Reverte. Em Maio: The Infinities, de John Banville, e Madeleine, de Kate & Gerry McCann. Em Junho: reedição de O Palácio da Lua, de Paul Auster. Em Setembro: The Slap, de Christos Tsiolkas. Em Outubro: A Man of Parts, de David Lodge, e The Terrible Privacy of Maxwell Simm, de Jonathan Coe. Em Novembro: Autobiografia, de Agatha Christie.

Revista ‘Ler’, n.º 98

Sexta-feira nas bancas.

Um jantar em 2011

Todos os anos, em Dezembro, a revista Time Out Lisboa escolhe uma dúzia de figuras com as quais gostaria de jantar no ano seguinte. É uma forma de destacar nomes que ainda não são muito conhecidos do grande público mas que podem vir a dar cartas nas respectivas áreas de actividade. Este ano, dos 11 escolhidos, um é escritor: Afonso Cruz, autor de Enciclopédia de Estória Universal e de A Boneca de Kokoshka (ambos editados pela Quetzal).

Livros do ano para o ‘The Guardian’

Capas e recomendações, aqui. Sem grande surpresa, o mais recomendado é Freedom, de Jonathan Franzen.

O regicida em segunda mão

Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado
Autor: Fialho de Almeida
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 84
ISBN: 978-972-37-1441-8
Ano de publicação: 2010

Publicados entre 1889 e 1894, os folhetos da série ‘Os Gatos’ foram o instrumento através do qual Fialho de Almeida (1857-1911) quis fazer o exaustivo «inquérito da vida portuguesa», recorrendo à crítica mais impiedosa, assente numa inclinação para a sátira, na verve explosiva, na coragem de chamar os bois pelos nomes e na atitude felina transformada em divisa pessoal: «miando pouco, arranhando sempre, não temendo nunca».
Os dois textos incluídos na presente edição viram a luz em 1889 e são bons exemplos da sua prosa destemida, enérgica, inventiva, desbocada e muitas vezes cruel. Na diatribe que dá título ao volume, assistimos a um exercício de puro sarcasmo, no qual Fialho começa por abordar o tiro que não matou D. Pedro II, no Brasil, para depois sugerir a D. Luís I que abandone o estatuto de único monarca do mundo imune a tentativas de assassinato e «a ignomínia de nunca haver despertado ódio a ninguém». A argumentação é um prodígio de ironia, uma delícia de maldade e veneno, que culmina com o polemista a oferecer-se para ser «regicida em segunda mão», sicário perfeito para um crime apenas simulado, porque «apesar do meu ódio, eu não quero que V.M. morra, porque enfim pode vir outro pior».
Num tom mais contido e descritivo, O Seu Enterro narra, poucos meses mais tarde, a morte por terrível doença do rei e o lento cortejo fúnebre, de Cascais até ao Mosteiro dos Jerónimos, numa noite escuríssima, apenas iluminada pelo «vermelhão» dos archotes — páginas arrebatadoras que estão entre as melhores que se escreveram na literatura portuguesa de finais do século XIX. Quando por fim Lisboa surge ao longe, sob um «difuso rubor» que parece uma «aurora efémera e movediça», Fialho precisa: «É o revérbero do gás d’encontro às nuvens.»
Cronista exímio, anota depois a hipocrisia das cerimónias, os falsos lutos e o abandono por parte dos súbditos («Príncipes e áulicos, grandes e humildes, tudo lhe ultrajou a memória, em vez de venerar-lha»). Sobe então ao trono D. Carlos I, esse sim vítima futura de um regicídio a sério, quando Fialho já definhava no seu retiro alentejano.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, uma edição especial do ‘DN’

Para comemorar o seu 146.º aniversário, o Diário de Notícias regressa amanhã ao velho formato berliner e convida Gonçalo M. Tavares a ser director por um dia.
Confesso que estou curioso.

Três poemas cinéfilos de Pedro Mexia

VIDA DE CRISTO

No improvisado salão paroquial
velhas cadeiras desalinhadas anunciavam
um filme sobre «a vida de Cristo».
Éramos crianças, veraneantes,
figueirenses, crianças comungantes
mais ainda sem tormenta e com os adultos
curiosos ou tomados de fastio
fomos, oito da noite, para a vida de Cristo.
Mas alguém trocou os filmes
ou espalhou carnavalesco engano,
e logo na primeira bobine entendemos
que não era a Palestina
que o facho de luz poeirento projectava
no écran tão amador
que só podíamos chamar pantalha.
E aos poucos entrámos na narrativa.
Vera Cruz, western heráldico, napoleónico,
quase operático. Morria gente
(que ressuscitava fora de campo)
e houve quem achasse que não sendo sobre
Cristo era uma fábula imprópria
antes de dormirmos.
Mas o acampamento estival das crianças
tomava partido, vitoriava,
abraçava com braços pequenos
o efeito de alienação, as sombras humanas.
Julgo que brilhavam no fim
os nossos olhos infiéis,
belicosos, inimigos de Maximiliano.
Esvaída para sempre a surpresa, a pureza,
o motim de fascínios, a noite clara.
Nunca mais foi a mesma, a vida de Cristo.

***

CINEMA FECHADO

Cinema fechado, melancólico
o arrumador, portões
a cadeado, ruído abafado de matinés,
fria a rua, de lado a lado, a cena
em cinemascope restaurado
mas a memória no negrume horizontal,
premeditado, das barras.

***

REBEL WITHOUT A CAUSE

Duas infâncias passaram
por mim: uma, no planetário,
com o espanto dos astros.

Outra, com Sal Mineo,
que no seu mundo ansioso
vislumbrou a eternidade.

[in Poemas com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, 2010]

Quando a poesia vai ao cinema

Esta é uma belíssima antologia. E não o digo por causa do poema da página 34, embora o poema da página 34 se sinta manifestamente orgulhoso por estar ali.

Uma boa citação

«The greatest part of a writer’s time is spent reading. In order to write, a man will turn over half a library to make one book.»
Samuel Johnson

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

Nos primeiros meses de 2011: Pássaros na boca, de Samanta Schweblin; Victoria, de Knut Hamsun; A maldição da casa da colina, de Shirley Jackson; O último livro, de Zoran Zivkovic; O turno, de Luigi Pirandello; Um rio de tinta irlandesa, de Flann O’Brien; Museu da rendição incondicional, de Drubavka Ugrešić; Correr, de Jean Echenoz; O que resta da esquerda – Mitos e realidades das Esquerdas no Governo, de Franco Cazzola.

Instagram

O meu novo vício chama-se Instagram:

escadas

folha_amarela

ceu

mosaico

carris

PS – Infelizmente, esta nova rede social fotográfica só está acessível, por enquanto, a quem descarrega a respectiva aplicação num iPhone.

Portuguesismos.com

É «a maior enciclopédia não-oficial da Língua Portuguesa», dizem eles. Um fartote de coloquialismos, prontos a usar.

[via Webmania]

DFW e a Filosofia

To understand the fiction of David Foster Wallace, it helps to have a little Wittgenstein.

Grandes americanos

De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas
Autor: Barack Obama
Ilustrações: Loren Long
Título original: Of Thee I Sing : A Letter to my Daughters
Tradução: Maria Marques
Editora: Alêtheia
N.º de páginas: 35
ISBN: 978-989-622-262-8
Ano de publicação: 2010

Lançado em Novembro nos EUA, numa edição de meio milhão de exemplares que rapidamente entrou nas listas de best-sellers, De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas é o primeiro livro que Barack Obama publica desde que foi eleito presidente, em 2008. Poucas semanas após uma significativa derrota eleitoral, que lhe vai dificultar a governação nos próximos tempos, este volume destinado a crianças com idades entre os quatro e os oito anos funciona como um regresso às origens do projecto político de Obama, fundado num incondicional optimismo, num desejo de mudança e na fé inabalável de que a América pode mostrar de novo a sua melhor face ao mundo, depois dos anos negros da Administração Bush.
Como é evidente, o livro não pretende doutrinar as criancinhas. Mas também não é uma historieta anódina para ler à hora de dormir. Escrito para as filhas Sasha (hoje com nove anos) e Malia (doze), De Ti eu Canto pode ser visto como um tributo a 13 homens e mulheres que simbolizam, para Obama, o espírito americano e os princípios que foram moldando o país desde a sua fundação. Nas suas escolhas, há uma certa ideia da América que emerge: tolerante, multicultural, capaz de integrar as diferenças. Se algumas são óbvias (Albert Einstein, Martin Luther King, Neil Armstrong, Abraham Lincoln ou George Washington) e outras menos óbvias (Georgia O’Keeffe, Helen Keller, Billie Holiday ou Jackie Robinson, o primeiro negro a jogar numa equipa da primeira liga de basebol), outras há que são no mínimo surpreendentes, casos de Cesar Chavez, um sindicalista que defendia os direitos dos camponeses pobres (e que usou o slogan «Sí se puede», inspiração directa para o famoso «Yes, we can»), ou de Touro Sentado, o chefe sioux que fez frente ao governo dos EUA e derrotou Custer na batalha de Little Big Horn. Obama realça o facto de ele ter sido um curandeiro «que sarava corações partidos e promessas desfeitas», mas é previsível que os opinion makers republicanos não lhe perdoem a inclusão de uma tal figura no cânone dos heróis da nação.
A estrutura do livro é muito simples. Obama começa por dirigir-se directamente a Sasha e Malia, por baixo de uma ilustração em que as meninas marcham à frente de Bo, o cão presidencial de origem portuguesa: «Já vos disse como são maravilhosas? Como o som dos vossos passos a correr lá ao longe traz música ao meu dia?» As perguntas tornam-se depois mais específicas e são o pretexto para falar das tais figuras exemplares que encarnam as qualidades que o pai vê nas filhas: «Já vos disse que são inteligentes?» (Einstein), «Já vos disse que são bondosas?» (Jane Addams), etc. As perguntas aparecem sempre na página da esquerda, ao alto, enquanto na página da direita meia dúzia de linhas resumem o essencial da personalidade ou feitos do herói evocado. À esquerda, podemos ainda ver o dito herói ou heroína em criança, olhando para si próprio na idade adulta, diante de um grupo formado por Malia, Sasha e as crianças que foram surgindo nas páginas anteriores. O grupo vai crescendo até que no fim acaba por fundir-se com uma multidão de crianças anónimas. A moral da história é clara como a água: Obama não só reconhece as qualidades dos grandes americanos nas suas filhas, como as reconhece em todas as crianças do país, dando a entender que serão eles os grandes homens e mulheres do futuro.
Apesar da brevidade dos textos, encontramos neles a habitual eloquência de Obama, aqui e ali empolada por uma retórica delicodoce ou empobrecida pelo recurso a lugares-comuns (Jackie Robinson «balançava o taco com a graça e a força de um leão»; Luther King «deixou-nos o sonho de que todas as raças e credos caminhem de mãos dadas»; a voz de Billie Holiday, «plena de tristeza e de alegria, tocava fundo nos corações»; etc.). Mas Obama quando acerta no tom, acerta em cheio. Veja-se a descrição que faz de Georgia O’Keeffe: «Uma mulher chamada Georgia O’Keeffe foi viver para o deserto, onde pintou pétalas, ossos, cascas de árvores. Ajudou-nos a ver beleza nas pequenas coisas: na dureza da pedra e na suavidade das penas.» O efeito destas evocações singelas é aumentado pela subtileza das magníficas ilustrações de Loren Long. Por exemplo: o rosto de Touro Sentado é formado com elementos da paisagem em que vivia (cavalos, bisontes, árvores, a terra, o crepúsculo), enquanto o de Maya Lin, que aos 21 anos desenhou o memorial aos veteranos do Vietname, em Washington, aparece reflectido na parede de basalto do monumento.
Obama escreveu o livro antes de entrar para a Casa Branca, em Janeiro de 2009, e junta-se a outros dois presidentes que também publicaram livros para crianças: Theodore Roosevelt (Hero Tales from American History) e Jimmy Carter (The Little Baby Snoogle-Fleejer), embora estes apenas o tenham feito depois de abandonarem o cargo. Segundo a Associated Press, Obama enriqueceu à conta dos seus primeiros livros (A Minha Herança e A Audácia da Esperança, ambos publicados em Portugal pela Casa das Letras), com os quais terá feito, desde 2007, mais de 12,5 milhões de dólares em direitos de autor. Neste caso, porém, não receberá um único cêntimo, uma vez que já destinou a parte que lhe cabe nas vendas a um fundo de bolsas escolares para filhos de soldados mortos ao serviço dos EUA.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Resultado final

Roupa – 4; Livros – 0.
Ninguém oferece açúcar a um pasteleiro.

Feliz Natal, Joyeux Nöel, Merry Christmas e mais não sei quê

Eis o que vos desejo no sapatinho: muitos livros (ou e-books e um aparelho que os leia).

Em escuta

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Magnetic Poetry, o primeiro CD/DVD dos Social Smokers.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Just Kids, de Patti Smith (Bloomsbury), por Alexandra Carita
Baba Yaga Pôs Um Ovo, de Dubravka Ugrešić (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira
Carta a D. Luís sobre as Vantagens de Ser Assassinado, de Fialho de Almeida (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
O Homem Quase Novo, de Paulo da Costa Domingos (Frenesi), por Manuel de Freitas
Aos Ombros de Gigantes, de Stephen Hawking et al. (Texto), por Luís M. Faria

Fernando Alves e os alfarrabistas

Ao longo desta semana, a TSF tem emitido, todas as manhãs (e ainda vai emitir, sempre depois das 10h00, com repetição depois das 20h00), reportagens de Fernando Alves sobre alfarrabistas. Se não as ouviu, oiça-as aqui. São imperdíveis.

Horror e guloseimas

O Autor
Autor: Tim Crouch
Título original: The Author
Tradução: Francisco Frazão
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos/Culturgest)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-972-8972-39-4
Ano de publicação: 2010

Nesta peça de Tim Crouch, apresentada em Lisboa, na Culturgest, a 23, 24
e 25 de Novembro, não há palco. Ou melhor, o palco são as duas bancadas do público, dispostas frente a frente. O palco é o próprio público, de onde emergem, aos poucos, as quatro personagens: Chris, um espectador obsessivo; Vic e Esther, dois actores; e um dramaturgo chamado Tim Crouch. Pouco a pouco, vão contando a história de um outro espectáculo, uma peça brutal sobre um pai que abusa da filha, em cenário de guerra, história terrível de que ainda não se libertaram.
Estamos então nas entranhas do teatro, das suas estratégias e mecanismos. «A arte funciona no limite”, diz Tim. E é esse limite que vai sendo explorado, à medida que os actores descrevem o modo como se prepararam para a outra peça, entrevistando uma vítima ou expondo-se voluntariamente a imagens de absurda violência (estupros, decapitações). Os espectadores reais são interpelados, desafiados a participar no processo teatral em curso, enquanto lhes vai sendo oferecido, alternadamente, horror e guloseimas (Maltesers).
A Crouch interessa reflectir «sobre o que acontece quando vives com (…) violência à volta o tempo todo» e o modo como ainda somos capazes, ou não, de reagir ao espectáculo da ignomínia (hoje à distância de um clique no computador). O jogo é negro, ambíguo, sem a luz forte das certezas morais. E o «autor» leva-o às últimas consequências, num monólogo final em que se expõe totalmente, aviltando-se numa derradeira provocação ao público: «Vocês, de qualquer modo, não me vão perdoar. Eu conheço-vos. Olhem para vocês. Não vão. Não me vão perdoar.» Depois desaparece, mas o peso fica todo no lado de cá.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Palavra do Ano 2010

A Porto Editora está a organizar, online, a escolha da palavra do ano. As opções são muitas, umas mais óbvias (desemprego, défice, orçamento, PEC, FMI) outras menos (tablet, vuvuzela). Por mim, voto na palavra ‘mineiro’, até porque é preciso acreditar que um dia conseguiremos sair do buraco.

Cartas ao Pai Natal (versão shakespeariana)

E se as personagens inventadas pelo bardo de Stratford-upon-Avon escrevessem ao Pai Natal, como é que seriam as suas cartas? No site da revista McSweeney’s, Caroline Bicks e Michelle Ephraim dedicaram-se a esse exercício de pastiche natalício e o resultado é hilariante.
Gosto especialmente do que escreveram Hamlet, Macbeth e Falstaff:

«Dear Santa,
The trifles you brought me last year meant absolutely nothing. What’s the point of gifts when everything is falling to shit all around you? Why didn’t you steal the family account information I left out for you last year? That would have meant something.
Do you ever feel like everything is just a big conspiracy? Do you ever want to hurl yourself out of your sled and fall down, down, down onto the cold hard street below?
Look out for the slings and arrows.
— Hamlet

***

Hail, Santa, King of the Elves!
Many thanks for the male-enhancement products you brought me last year. But as my wife has since forsworn me, I will not be needing them again. Hence, I devote this year’s list to her Christmas wishes. She demands the following items:

— A gift certificate for LATTICE eyelash treatment
— A Wonderbra (size: 36D; color: Midnight Animal)
— Arctic-raised Reindeer Pâté
— “Buns of Steel” DVD
— Dolce & Gabbana Bling Sunglasses
— One ticket to Barack Obama’s 2010 New Year’s Day Brunch [or another exclusive political event]

Santa, may I be frank? My Lady says that if she does not receive all of these anon, she will fly into a murderous rage. Just thought you should know.
— Macbeth

***

Santa!
I had this crazy dream that I ate your reindeer. But then this morning your face appeared in a puddle of maple syrup. So I licked you up.
— Falstaff»

Choque de titãs

Para perceber como funciona o Google Books Ngram Viewer (neste caso tomando como ponto de partida o corpus de livros mais vasto do Google Books, o de língua inglesa), lembrei-me dos seguintes duelos literários: José Saramago vs. António Lobo Antunes; Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa; Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez.
Eis os resultados:

José Saramago vs. António Lobo Antunes

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(clique para aumentar esta imagem e as seguintes)

No início dos anos 80, Saramago e Lobo Antunes andavam mano a mano. Depois, em 1988, uma década antes do Nobel, Saramago descola. Não deixa de ser curioso que o auge das referências a Saramago, em livros escritos na língua inglesa, tenha acontecido em 2003.

Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa

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Na década de 40, Camões estava em grande. Depois, veio por ali abaixo, com picos ocasionais. Já Pessoa começa a subir na década de 80 (coincidindo com o centenário e com a internacionalização da sua obra). A tendência é para que a curva do Camões propriamente dito e a curva do putativo «super-Camões» fiquem cada vez mais próximas.

Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez

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Quanto a uma das maiores rivalidades literárias do século passado, a que opôs Vargas Llosa a García Márquez, é nítido que a ligeira vantagem do segundo se acentuou a partir de 1982, quando o colombiano ganhou o Nobel. Infelizmente, os dados disponíveis terminam em 2008. Seria interessante verificar se Llosa, ao ganhar o Nobel este ano, já recuperou da desvantagem e passou de novo para a frente, como no final da década de 60.

Um filão inesgotável

Com os mais de cinco milhões de livros digitalizados pela Google (a que correspondem cerca de meio bilião de palavras) e sofisticados motores de busca, os investigadores da cultura humana têm um filão inesgotável para explorar. E não só os especialistas em ciências sociais. Os internautas também podem fazer as suas experiências. Com esta aplicação, por exemplo, qualquer pessoa pode escolher uma sequência de palavras (até cinco) e ver um gráfico que regista a evolução do uso dessas palavras durante décadas ou séculos. O The New York Times avisa que esta é uma «diversion that can quickly become as addictive as the habit-forming game Angry Birds». Um alerta pertinente, sobretudo para quem, como eu, já chegou ao nível 110 do dito Angry Birds. Mas um alerta que vou, sorry NYT, ignorar olimpicamente.

Os livros da minha infância

Da Sophia e José Gomes Ferreira à Enid Blyton e heróis de BD. Uma escolha feita a convite da Casa da Leitura.

Um espelho de obsidiana

Viva México
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 369
ISBN: 978-989-671-053-8
Ano de publicação: 2010

No verão passado, a jornalista Alexandra Lucas Coelho (ALC), do Público, desembarcou na Cidade do México como quem enfrenta uma página em branco. Três semanas depois estava de regresso à Europa, ao Velho Mundo, com material suficiente para desenvolver os textos publicados no jornal e reuni-los em mais um espantoso livro-reportagem, tão bom como os anteriores Oriente Próximo (2007) e Caderno Afegão (2009). Mas se nesses livros ALC abordava realidades que conhecia bem (Israel, Palestina, Afeganistão), neste assumiu logo na primeira frase a sua virgindade: “Não sei nada do México e tenho uma mochila.” O “não sei nada” é relativo. Na mochila levava alguns livros orientadores (Octavio Paz, J.M.G. Le Clézio, o catálogo de uma exposição no Museu Britânico, uma antologia de poesia azteca organizada por José Agostinho Baptista), além de muitos contactos preciosos conseguidos em Lisboa. Pouca coisa, ainda assim, para quem chega pela primeira vez a um país vinte vezes maior do que Portugal.
Em ano de bicentenário da Independência e centenário da Revolução, com o Campeonato do Mundo de futebol por todo o lado (nas conversas e nos ecrãs gigantes), ALC estava ali para saber que país é aquele, gigantesco e contraditório, agressivo e acolhedor, formoso e horrível, complexo e comovente: «O México dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se somos nós que choramos, se não seremos nós já eles. Nunca, em lugar algum, me pareceu que tudo coexiste, tempos e espaços, cimento e natureza, homens e animais, até aceitarmos que o nosso próprio corpo faz parte daquela amálgama acre, ligeiramente ácida, de pele suada com muito chile
A viagem começa na Cidade do México, o monstro urbano, a cidade que não acaba. Numa escavação arqueológica, evoca-se o momento fundador em que Cortés subjugou Moctezuma, precipitando o declínio azteca: «Este Novo Mundo começa no extermínio, e isso há-de significar qualquer coisa. No tempo indígena significa que o extermínio histórico faz parte do presente.» A violência sente-se no ar, é uma espécie de vibração que tolda a paisagem. Mas a beleza também irrompe quando menos se espera. Um jardim, dois vulcões, um céu de cinema, cactos na berma da estrada, a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán (onde ALC se demora em páginas magníficas). E vejam como a Cidade do México mostra o seu lado escuro, as suas cicatrizes, no «bairro bravo» de Tepito, berço de pugilistas famosos, esconderijo de traficantes, contrabandistas e outros marginais. A repórter visita museus, perde-se em livrarias, conversa com escritores, mas o que lhe interessa é a a pulsação frenética das ruas. E as ruas agradecem, oferecendo-lhe histórias daquelas que não vêm ter connosco (é preciso ir ter com elas).
Depois da capital, entramos de chofre no epicentro da violência associada ao narcotráfico (Ciudad Juárez), onde se escancaram as portas do inferno, a morte anda à solta e o capitalismo exibe a sua face mais odiosa (travellings de lixo e pobreza extrema, entre as maquiladoras que alimentam a globalização do baixo custo). Descemos então até paragens mais acolhedoras (Oaxaca), cruzamo-nos com os muxes de Juchitán («A mulher está aqui, o homem está ali, e o muxe está no meio»), ouvimos o medo dos imigrantes clandestinos de vários países da América Central em trânsito para os EUA (à espera em Ixtepec), trepamos as serras para chegar a San Cristobal de las Casas (no coração de Chiapas, encruzilhada do zapatismo) e fechamos o périplo no Yucatán, a península que é mais do que a pontinha do México em que se amontoam, em resorts todos iguais, os turistas da praia e do bilhete-postal.
Os lugares são importantes, claro, mas o que fica na memória são as pessoas que se cruzam no caminho de ALC e com as quais ela se demora, em longas sessões de platica (a conversa à mexicana, sem pressas). As pessoas que procura e as pessoas que vai encontrando por acaso. Os artistas, os padres, os antropólogos, os conhecidos que indicam outros conhecidos que também conhecem não sei quem, o casal que inventou uma «utopia a dois» no meio da natureza deslumbrante e agreste, um taxista chamado Adolfo ou as raparigas da banda Batallones Femininos, que dizem coisas como esta: «Quando te sentes mal, vomitas e sentes-te melhor. O rap é esse vómito.»
Alexandra Lucas Coelho sabe contar histórias, encadeá-las, fazer os saltos de uma para outra no momento certo. A escrita é rápida, muito nítida, às vezes lírica, sempre de uma extraordinária atenção aos detalhes e capaz de maravilhosos achados verbais. Por exemplo, certa mulher de 76 anos «parece uma rapariga que simplesmente envelheceu». E vejam este parágrafo: «Como se os deuses quisessem provar que um museu só volta à vida quando eles decidem, a estação das chuvas está a cair no pátio toda de uma vez. A água desaba em lençóis e acendem-se relâmpagos que depois ribombam. Começa a subir um cheiro intenso a terra. As árvores brilham. As copas agitam-se. O céu ruge. Os turistas correm.» Mais à frente, um mineral – a obsidiana – transforma-se em arte poética: «Afiada, corta. Polida, faz de espelho. Nela se miraram imperadores, perscrutando o futuro. Pode servir para tudo e para nada, só a acumular energia séculos fora.»
Se tivesse que resumir numa frase a experiência de ler Viva México, diria que esta é uma prosa que não descreve, ilumina. E assim a viagem de quem narra torna-se, quase sem darmos por isso, a viagem de quem lê. Sorte a nossa.

Avaliação: 9/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Fundação José Saramago de regresso ao Facebook

Depois de ter visto a sua página no Facebook apagada sem aviso prévio (o que também aconteceu à editora Assírio & Alvim), a Fundação José Saramago, para não perder a ligação com os seus quase 15.000 «seguidores», criou uma nova página na mais badalada de todas as redes sociais da internet. Fica aqui.

Prémio Fundação Inês de Castro para Hélia Correia

Na sua 4.ª edição, o Prémio Literário Fundação Inês de Castro foi atribuído a Hélia Correia, pelo romance Adoecer (Relógio d’Água). Mais do que justo.

Três fragmentos de António Ferra

«Tremia-lhe a garganta com a vibração do comboio.
Chegou a casa alarmado com a explosão do próprio corpo que enfrentara no dia em que foi às sortes.
E no domingo, com as gargalhadas à volta, bebeu o vinho que lhe tingia as despedidas.
Sentiu na pele a farda de caqui, o peso da mauser, o despropósito das botas.

***

Tornou-se igual à cidade que viera habitar. Tinha dentro de si espaços novos e rectilíneos, bairros com casas todas iguais, habitações fechadas em pátios, zonas de utilização pública.
E pedaços degradados, ruínas de lojas cadentes, à espera de trespasse ou liquidação total.

***

Às seis horas, arrumava os papéis da secretária, cobria a máquina de escrever com uma capa de pergamóide e saía entre até-amanhãs, sem contabilizar as beatas num cinzeiro esmaltado.
Quando chegava à rua, olhava uns plátanos, sobranceiramente, e distraía-se no recorte das folhas – memória de uma infância arborizada.»

[in Bio grafia, Europress, 2010]

Uma teoria geral das ligações

Matteo Perdeu o Emprego
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 210
ISBN: 978-972-0-04290-3
Ano de publicação: 2010
Avaliação: 9/10

O Senhor Eliot
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Caminho
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-972-21-2081-4
Ano de publicação: 2010
Avaliação: 7,5/10

Após um ano de rara acalmia, Gonçalo M. Tavares voltou ao seu vertiginoso ritmo de publicação. Com poucas semanas de intervalo, chegaram às livrarias três novas obras (no total são já 29, desde 2001). Primeiro surgiu Uma Viagem à Índia (Caminho), portentosa anti-epopeia decalcada da estrutura de Os Lusíadas, livro ambicioso (mais de 400 páginas de fragmentos, divididos por dez cantos) e muito arriscado (medir-se com Camões, o vate da pátria, não é para todos), de escrita fulgurante e belíssima, um verdadeiro triunfo literário que o confirma, se dúvidas houvesse, como o grande escritor português do século XXI. Depois, como se aquele monumento não bastasse, eis que surgem, de rajada, mais dois opus: Matteo Perdeu o Emprego e O Senhor Eliot e as conferências.
Matteo Perdeu o Emprego compõe-se de duas partes. A primeira é um conjunto de 25 contos muito curtos, em que personagens com nomes judaicos – retirados de um trabalho do fotógrafo Daniel Blaufuks – vivem situações caricatas ou absurdas. Temos Cohen, académico cheio de tiques que sofre de copropraxia (repetição de gestos obscenos) e de um compreensível ostracismo social; temos Goldstein, um cego fascinado pelas substâncias raras (como o Escândio) e pela tabela periódica, ao ponto de pedir ao seu amante para a tatuar, em Braille, nas costas; temos Helsel, cujo «hobby estúpido» consiste na recolha e armazenamento de baratas vivas num armazém rigorosamente monitorizado; ou Kashine, um rapaz de 16 anos que escreve «não» em tudo o que pode, lançando o caos à sua volta – porque basta acrescentar o não onde estava o sim «para dar início ao inferno, ao desassossego». Há também rotundas reais e imaginárias, um labirinto perigoso e uma «barca da razão» que é só um navio dos loucos adiado.
Cada história encadeia-se na seguinte por via de um pormenor comum, um qualquer ponto de contacto, criando uma espécie de estafeta narrativa em que cada personagem passa o testemunho à personagem seguinte (cujo nome é assinalado a negrito, para vincar a transmissão). Aparentemente, o livro obedece a uma lógica circular e a uma ordem alfabética. Quando chegamos a Matteo, a «personagem central» (única com direito a uma história mais desenvolvida, em 12 capítulos) e suposto fim da linha, ele acaba por encontrar um tal Nedermeyer que assistiu, uma hora antes, ao atropelamento da primeira personagem, Aaronson.
Este aparente círculo pode, contudo, não passar de uma elipse. É pelo menos o que sugere o autor na segunda parte do livro, um brilhante posfácio que funciona como exegese do que acabámos de ler. Olhando para os seus próprios contos como se fossem de outro, Gonçalo M. Tavares estabelece nexos, esmiúça ideias, relaciona conceitos, generaliza. À nossa percepção inicial das histórias contrapõe a sua leitura, que desmonta os próprios fundamentos em que assenta a obra («o alfabeto como hierarquia», por exemplo, um «elemento aleatório que dá uma ordem que nos parece sensata» e que pode, afinal, ser apenas gratuita). Numa destas notas finais, GMT assume: «Há, de facto, aqui, como em qualquer romance ou obra de ficção, um sistema de ligações.» Ligações que se estabelecem não só dentro de cada livro mas também entre livros. Justamente o que acontece entre Matteo Perdeu o Emprego e O Senhor Eliot e as conferências.
Protagonista do décimo volume da série ‘O Bairro’, o senhor Eliot profere numa sala quase às moscas, a convite do senhor Manganelli, uma série de seis conferências (mais uma fantasma) em que pretende explicar um só verso de vários poetas: começa com Cecília Meireles e continua com René Char, Sylvia Plath, Marin Sorescu, W. H. Auden, Joseph Brodsky e Paul Celan. Mas chamar-lhe «explicação de um verso» induz em erro. Porque o senhor Eliot não explica nada. O que ele faz é: 1) desmontar grosseiramente os versos até ao ponto em que deixam de fazer sentido, um exercício sofístico com qualquer coisa de cruel; 2) dar-se ao luxo, ó heresia suprema, de os corrigir. As conferências não são análises, são autópsias. E o bisturi utilizado é o da racionalidade mais estrita, o instrumento cortante que expurga o que há de ambíguo, e por isso de radicalmente poético, na poesia.
O pensamento do senhor Eliot, no fundo, é anti-poético. Basta ver o que acontece na segunda conferência, em que o trabalho sobre o verso de René Char se limita ao acrescento de um «não». Um «não» que sabota e dissolve o sentido, como o «não» de Kashine em Matteo Perdeu o Emprego. E um exemplo concreto do tal «sistema de ligações» que atravessa a proliferante obra de Gonçalo M. Tavares.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Aeroporto José Saramago

O blogue BiblioFilmes propõe que o novo aeroporto internacional de Lisboa se chame José Saramago e eu apoio a ideia, não só porque faz sentido dar o nome do nosso Nobel da Literatura ao que virá a ser o principal lugar de chegada ao país, mas porque ninguém descreveu melhor do que ele, em Memorial do Convento, os sonhos aeronáuticos do Padre Bartolomeu de Gusmão.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Egas Moniz, Uma Biografia, de João Lobo Antunes (Gradiva), por Clara Ferreira Alves
De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas, de Barack Obama (Alêtheia), por José Mário Silva
Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro (A Esfera dos Livros), por Filipe Santos Costa
Onde Três Estradas Se Encontram, de Salley Vickers (Teorema), por José Guardado Moreira
O Autor, de Tim Crouch (Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos/Cotovia), por José Mário Silva
Doutor Avalanche, de Rui Manuel Amaral (Angelus Novus), por António Guerreiro
Jó – Romance de um Homem Simples, de Joseph Roth (Ulisseia), por Luís M. Faria
Águas da Primavera, de Ivan Turguénev (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo

PS – Por lapso, no jornal aparecem quatro estrelas na recensão ao livro Onde Três Estradas Se Encontram, quando José Guardado Moreira lhe atribuiu cinco.

Quatro poemas de Paula Tavares

Havia tantos pássaros
na boca das árvores
que se podia começar o dia
dizendo apenas pássaro
folha manhã.

***

Compraste o meu amor
Com o vinho dos antigos
Sedas da Índia
anéis de vidro

Sou tua, meu senhor
À segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira
E também preparo funje aos sábados
Não não me peças o domingo
Todos os deuses descansam
E sei também das concubinas
O horário de serviço

***

É sempre à noite que mais dói
Dizia-me o amigo
Chega a febre
O cheiro ácido do pântano
O silêncio gelado dos nossos mortos
A presença inquieta dos outros
O lento movimento das dunas

***

Para onde eu vou
Ferve a luz
Debaixo dos tectos
Há ontem e amanhã
Amores com pele de líquen
Sonhos azuis pelas esquinas
Ali não é preciso nada
Guardamos o lugar
Com palavras
Olhamos uns para os outros
E vamos, cada vez mais pobres
Tapar o sol com a peneira

[in Como Veias Finas na Terra, Caminho, 2010]

Carlos Pinto Coelho (1944-2010)

Era um jornalista à antiga, de voz colocada e entusiasmo contagiante. A cultura, para ele, era uma festa e por isso festejava-a, soletrando muito bem as palavras, como que para sublinhar a matéria (os sons) de que elas são feitas. A música da língua. Cumpriu-se como jornalista à frente da equipa do Acontece, um programa que foi durante anos um importantíssimo bastião das artes na televisão pública (mesmo se imperfeito e com uma linguagem demasiado convencional). Para a rádio, meio em que se sentia particularmente bem, o Carlos entrevistou-me duas vezes. A primeira ainda nos tempos do DNJovem, quando recebeu em estúdio, gentil sem ser paternalista, alguns dos colaboradores do suplemento. A segunda há cerca de ano e meio, num estúdio quase secreto em Miraflores. Num caso como no outro, relembro a alegria e generosidade de quem encarava a divulgação cultural como um desígnio.
Há cada vez menos jornalistas assim. Há cada vez menos homens assim. E a falta que eles fazem.

Isto de ser distraído

Só hoje é que me apercebi de um esquecimento: o BdB fez três anos de vida no passado dia 10. Paciência. Tentarei lembrar-me do quarto aniversário.

Cartão de Natal

cartão

Bela ideia, esta de oferecer uma biblioteca inteira (e logo de quem).

Confirmação

Num post de ontem à noite, sobre um prémio ganho por Enrique Vila-Matas, escrevi que o romance distinguido seria publicado, «espera-se que brevemente», pela Teorema. Acabei de ter a confirmação disso mesmo: Dublinesca chegará às livrarias portuguesas no próximo mês de Fevereiro.

Lançamento da ‘Obra Poética’ de Sophia

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges